terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Tempo






Teus véus de poeira seca,
assobiam pelas savanas,
Fazendo cantar as árvores centenárias,
de vestimenta branca,
Emudecendo caatingas e desertos,
Onde só tua voz ecoa,
orações de fé.
gemidos de cítara,
corações de cimitarra,
Pousa em silêncio nas varandas
Recobrindo os móveis das casas
O silêncio é o teu mundo
Inundando as escadas,
Asfixiando tudo
O que move,
O que cresce
o que sente...
E o que o tempo não cura
Ressente...

Eis que sempre cumpre a sina
mas é que as vezes esquece...

O tempo recria modas,
Dando novos nós em seu vestido
De palha,
trançando fios de entendimento
em suas agulhas afiadas
num plano obsessivo,
o desenho que não se esgota,
um anjo, um velho, um menino,
um soldado, um ocaso, uma bota,
uma estrela que enaltece,
uma menina que arrisca,
uma louca que sonha...

Aguarda por uma faísca
para consumir-se em vida
Tornando-a cinza, e pó, e nada...
Passa correndo pelas estradas,
Esse senhor de destinos
Rouba as cobertas do bebê
para tecer sua mortalha.

Mas quando dança é tão lindo...
Quando parece lento, a se arrastar,
E de repente empina e levanta as saias!
Ele ama rir e beber,
com música alta e galhofeira
Nos Festivais de Colheita,
Onde se contam aos montes,
Os homens que lutam e morrem,
e as mulheres grávidas...

E vai rolando as estações,
Em torno do sol, rumo ao abismo,
E o tempo que passa é o tempo que finda
As esperanças de quem vai à frente
E também a quem dançando,
Atrás da procissão silente
Sem nada saber do passado,
Tropeçando no presente!

Olha lá o tempo passando!
Veja logo, quem vem vindo...
É Ele que surge, iluminando o dia,
Em lágrimas, sempre sorrindo...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Os vendilhões do templo...






Em tapetes estendidos pelo chão 
Vimos por meio desta entrada
comerciando com nossas certezas...
Por algumas moedas,
o pão,
o café,
um desdém travestido de apreço
mas a maior parte escambo,
por angústia, essa areia negra,
sempre troco pela mais fina
que entra pelas narinas
congestiona os pulmões
e entope as artérias...
Mercadoria abundante
E cada dia mais cara,
Pois é ela que paga
pelo sexo,
pelo que é certo
e pela sexta...
paga os boletos,
assegura as férias,
o mau atendimento,
e garante a descendência
enquanto você ascende ao túmulo
vendido, trocado, partido
por nada!

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Dia da Justiça

DIA DA JUSTIÇA - 8 DE DEZEMBRO
Ontem aconteceu uma coisa muito triste. Eu ri da Justiça. Explico. Saio do trabalho, caminho no sol uns 15 minutos para esperar um ônibus de horário errante que me levará ao centro da cidade. Então um rapaz de vinte e poucos anos, coque samurai, barba grande e crespa e olhos muito grandes estica seus dedos fininhos para mim e pergunta:
"-A senhora sabe se hoje os ônibus funcionam em horário de feriado?"
E eu, tentando entender...
"-Hoje é feriado...
"-Sim, hoje é o Dia da Justiça". Ele responde, com levíssima pitada de orgulho.
Eu começo a rir.Foi espontâneo.Quase natural.
Em menos de um segundo lembrei de Renans e Eduardos, da votação do impeachment de Dilma, dos pronunciamentos de Temer, dos meninos apanhando na ponte por nada e por tudo, das risadas sobre a menina estuprada, sobre o avião que caiu, sobre a morte do menino da ocupação do Paraná...
Justiça?
Risadas
O rapaz me olhou espantado. Seus olhos grandes pareciam até um pouco magoados.
Parei.
Caí em mim.
Eu me refleti em seu espanto.
Porque me lembrei da minha formação infantil e escolar, sempre tão pautada nos princípios da honestidade. Me lembrei da adolescente que fui, brigando sempre e tanto por justiça social. Me lembrei de meus (ambos) empregos, pautados em ética e legalidade. Da frase de Rui Barbosa - "De tanto ver triunfar a iniquidade...". De alguns homens e mulheres que conheci em toda a trajetória que se batem na defesa dos mais vulneráveis.
Flash instantâneo
de uma vida em um segundo.
O ônibus chegou, para meu alívio.
Naquele momento, eu queria que ele me levasse para um lugar em que a justiça não fosse algo como uma piada.
Percebi que 2016 deixou uma pequena cicatriz, que será para sempre como um sorriso de dor...

sábado, 3 de dezembro de 2016

Taquicardia.

Gota a gota
teu amplexo
me sufoca
E o que assusta
É que eu não temo...

Pouco a pouco,
Vem brotando
Vem crescendo
Como mato,
sem propósito
meu desejo...

Eu risco a luz
no fundo negro
para trazer novos contornos
para mim mesmo
E a cada amanhecer
sigo tecendo,
 a linha vermelha com que
vou reforçando as amarras
dos meus cadeados...
Esse portão precisa ser mais bem fechado...
"-Quem dera fosse a força,
trazer à forceps
um canto, uma esperança, um alento qualquer
...quem dera!"

Mas não!
Cartografias de ilusão,
Mapeando meu tesouro,
rotas alternativas em dunas de sal
Não sei se quero mais viver, então...

Anoiteço!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Briga besta!

Que coisa bem tola essa briga
De lobisomem com bruxa
De duende com saci
Se todo mundo que um dia
De abrigo necessitava
(e até quem nem precisava)
Encontrou carinho e comida
E fez daqui sua morada
Me diga, brigar para quê
A quem você quer convencer
Que valorizar o que é daqui
Se resume em recontar o antigo
e rejeitar o Halloween?

Outra coisa, até onde eu saiba,
bruxa, feiticeira,mandingueira,
é coisa que por aqui não falta!
(talvez o que não existam...sejam fadas)
Mas nem isso vou discutir...
Terra de desterrado e "corrido";
de cristão-novo e de escravo;
De pajelança nativa;
E de tolos desavisados;
De que O que mais tinha por aqui
era gente com medo da fogueira,
e que por isso, nunca voltou!
E ficou por aqui, mesmo estrangeira,
Contam até que um dia
A Inquisição nos visitou
E desistiu - disse ela -
Pela obscuridade...
Eu ainda acho que ficou tímida
Com a grande quantidade
De "quizombeiros" que encontrou!
Então, larga mão de besteira
E celebre como quiser
Mas não duvide que se ainda há
um país...em  muito isso se deve
Á força e a magia da mulher!

Quer contar quantas bruxas há?
Então eu vou começar,
Pelas mais comuns de se encontrar
Depois você diz para mim
Se eu não tenho razão...
Tem a clássica velha e feia,
Que assusta a criançada!
Ri histérica e fura bolas,
Sempre tem fama de malvada!
Dizem que rouba a embarcação...
Que enreda crina de cavalo
Que vira mariposa a noite
E nos bebês põe maldição,
E tem a louca da aldeia
E tem a louca dos gatos
E tem a louca da rua
E tem a louca do mato
Tem louca para todo mundo!
Louca para todos os gostos!
É tanta louca nesse lugar
Que dá até um desgosto...
Tem a versão boazinha,que reza,
-essa é a  benzedeira-
Tem a versão "tia solteira",
que sempre sabe simpatia,
Tem a mais moderna,das cartas,
cristais e da astrologia,
que fala em "fitoterapia."
Não muito diferente da herbateira
que vende suas folhas na calçada,
E se bobear muito
A procedência até é a mesma...
E olha que eu ainda nem falei,
De uma outra ainda mais recente
que fala lingua estranha
E dizem que faz profecia
E que não gosta da irmã
Que fala outra língua,
E na roda da dança gira.
Mas não tem muito problema, não...
Que quando a necessidade aperta
Todo mundo se dá as mãos...
E ainda faltou falar da que
de todas,é ainda a mais original,
É a que conhece tudo na floresta
E tudo o que faz...lhe é natural!


Você conseguiu contar
Quantas bruxas já dá para somar
Entre as que eu contei aí
E você acha mesmo que o problema
E festa de "Ralouí"?
Ou será que não é porque "a bruxa
jamais deixarás viver"?
Seja na sua fantasia, no calendário
ou em paz!
Então, fala para mim a verdade
Quantas você conheceu
Quantas já lhe ajudaram
Quantas vezes era você
Outras tantas até...eu!





quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Um tipo estranho de luto...




Para cada dor, uma lágrima,
uma brecha por onde escapa,
um raio de sol,
uma flor,
para onde o olhar escapa
Quando já não se quer ver mais nada...

Para cada perda uma história,
e as histórias se sucedem,
em cada história uma canção
se cruzam e entretecem,
o véu que nos encobre e esquece...
uma rede invisível de proteção...

Mas há dores em que não há palavras,
a memória desfalecida,
fundo abismo do nada,
onde a escuridão cria vida
E para esta Dor, não há recompensa,
nem lição, nem salmo, nem crença
como a confirmação da sentença:
"Agora e para sempre pária!"

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Desajustados




Criança parada no pátio,olhando para a dança das sombras
das pitangueira,
tentando adivinhar o dia de amadurecer,
Tantas histórias tristes nos vãos das escadas,
onde habitam os melhores amigos imaginários
e onde escapar das brincadeiras "non sense"
no pátio.
Não gostava de coisa de menina.
Não gostava de coisas de meninos.
Mas via mapas nas mãos envelhecidas,
Bússolas claras que se abriam para
as paisagens pelas cores laminadas e foscas,
que atravessam a janela molhada pela chuva...
Adivinhava outras memórias pelas manchas nas paredes,
Pelas cores - sempre tão outras - de cada pôr do sol,
E rompia crisálidas com o canivete...
Rompantes de choro!
Rompantes de sol!
Protegendo castelos de areia e
Casas de barro, com pequenos animais
de plástico, tampas de garrafa, de caneta, estojos
de batom
E queria reter em si todas as lembranças,
mesmo as que não compreendia...

Criança ruidosa, inquieta, barulhenta,
Do tipo que bate, que derrama, que incendeia,
"Respondona", em busca da verdade,
Segue em frente, pergunta, não acha! Tateia...
Tremulam as vozes, as cortinas, as bandeiras.
Desespera quando se esconde, e quando se encontra!
Gosta de bandos, toca as campainhas,
Deixa cair os potes de bolachas,
Com a bola, despedaça vidros e estátuas
E no "cantinho do pensamento"
Canta desaforos...
Se esconde para beber leite condensado,
Bate o pé, recusa, ameaça...
Faz mais perguntas que não se sabe de onde...
E se vem resposta, já não presta atenção,
de volta para outra coisa, se cala,
Criança sem fé, sem mal, "fogo de palha"
Que estranha!!!
Por vezes, do nada, beija e abraça,
Em outras quer brincar de trabalhar...e trabalha!

Crianças caindo pelos desvãos do tempo,
nas paredes cinzas de cada sistema
Escondidas nas frestas, aguardam o momento
De romper
Ou de quebrar,
Trazendo consigo ainda mais problema...