
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Levados.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009
Peregrinações.

Pessoas mesmo são aqueles que são loucos, os que estão loucos para viver,para falar, loucos para serem salvos,que querem tudo agora ao mesmo tempo, que nunca bocejam nem falam coisas comuns mas queimam, queimam como fogos de artifício explodindo como constelações (...)Eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão (Jack Kerouac - "On the Road")
Desperto flutuando numa bolha d’água acridoce como lágrima. Estou caindo. A bolha parece manter a estabilidade e a velocidade na queda enquanto flutuo livre da gravidade, mas prisioneira de uma película fina, muito fina, mas resistente. Parece algo como plástico, mas mais orgânico, como uma membrana. Sinto para breve o fim da queda e em agustiante asfixia tento submergir. Tarde demais sinto o impacto. A membrana se rompe e eu aperto os olhos para resistir a jato de água que invade minha pequena prisão. Percebo que continuo em meio aquoso, que é água ainda e mais... Tenho agora certeza que é o mar. Já abri os olhos para tentar localizar um local, um sentido mais acima apesar da salinidade fria, mas tudo é brancura de espuma – será este o gosto da morte? Pensamento-ação. Para cima, para cima, para cima. Correntes me jogam para lá e para cá como um pedaço de isopor, mas eu bato os pés e os braços com força. Mais uma curva. Sinto o meu corpo desistir, no limite da resistência, quando finalmente consigo submergir. Respiro de uma golfada só, com a boca e o nariz. E o que inalo não é apenas ar, mas ainda água salgada e areia junto com a sensação de levar uma facada na altura dos pulmões. Agora ouço o barulho. Raios, trovões e o literal rugir do vento. Um longínquo “crack”. “Crack?!!!” Tento desviar a cabeça no sentido do “crack”e mais uma vez falta tempo. Um pedaço de madeira - eu acho que é madeira, mas pode ser um pedaço de coisa pontiaguda qualquer que veio voando e explodiu contra minha nuca. Escuridão, escuridão vermelha e estrelas. Por pouco tempo, sinto um filete de calor viscoso escorrer por trás da minha orelha em direção ao pescoço. Esse breve calor será lavado por um jato ainda mais frio que empurra minhas costas, estou sendo projetada para frente em velocidade alarmante, quase impossível e acho que vou vomitar. É a última sensação antes de o frio e a escuridão me invadirem completamente.
Estou de costas e contemplo a cena de mãos dadas com David. Porque neste sonho, me chamo Ariana e ele David, e eu contemplo um quadro em que, num primeiro plano, há o naufrágio de um navio, partido ao meio em alguma noite de tempestade. E, ao fundo vê-se o rosto de uma moça cujos cabelos se confundem com as nuvens negro- acinzentadas. No rosto pálido da moça – que desconheço – uma lágrima escorre. Esta lágrima transbordará o mar e por fim, submergirá o navio. Me dou conta que sei disso porque estava lá. Encerrada na gota e submergindo na onda que cravará o golpe fatal no navio. Saio com David do que parece ser um museu. Aperto sua mão para que detenha o passo e vejo com nitidez. São vários expositores e pedestais de gesso, com discos do “Menudo”, coleções de cartões de “Chocolates Surpresa”, pilhas e pilhas de videocassetes com alguns filmes que de relance reconheço – bem encima “Lady Hawck”. Meninas-flor e cavalinhos pequenos pôneis em vários cantos. Fitas cassetes que de tão usadas já não consigo reconhecer, dentro de uma caixa de plástico com a propaganda do filme “De volta para o futuro” estampada (como era mesmo o nome daquele ator?), um pedestal rosa com um par de melissinhas nas quais, por sua vez, está apoiadas um reloginho de plástico, um estojinho de maquilagem com um batom que reconheço (Boka Loka) e, ao fundo, vários modelos de cera vestem roupas estranhas com grandes ombreiras. Os manequins masculinos vestem preto e usam cabelo arrepiado. Os femininos são mais variados, calças leggings, saias balonês ou de coro sintético e grandes cabelões com permanente ou frajinha. Ao fundo, uma TV quatorze polegadas muda projeta em sua tela um desenho animado saudoso e querido: “Caverna do Dragão”. Ao fundo, um “Tears for Fears” martela: “Shout...shout...” David me puxa e pergunta: “Vamos”? Eu gostaria de ficar um pouco mais. Ele diz que não podemos. Parece que já passeamos por tempo demais pelo Museu Anos 80. David me avisa que temos pouco tempo para chegarmos á “Temporada de Colheita”.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Crônica das Enchentes.(ou o dia em que a maré crescer dentro de mim)

Faz três semanas que só chove na ilha. Chove, chove,chove... Nos primeiros dias era aquela sensação de apreensão tensa. “Será que não para mais?” Pergunta o marido. “Não sei.” Silêncio. Silêncio. Silêncio. Em cada olhar e em muitos gestos, a mesma pergunta. O Sr.D’Oeste (meu apelido secreto para ele) na padaria homônima. O vizinho, que pensa em comprar uma antiga sete léguas. Na sala dos professores alguém comenta: “Meu Deus, não para mais!” Olho para o professor de Biologia e seu olhar parece me devolver a mesma pergunta: “quando”? E alguém que falou com outro alguém da Epagri que por sua vez, disse alguma coisa parecida com “não sei ainda”. Mas era apenas a primeira semana de chuva incessante dentre os muitos meses em que choveu todos os dias. Alguém lembra que isso já vinha de bem antes. Agosto. Já estamos no final de outubro e só agora parece ser calamidade.
No fundo eu sei que não interessa o que dizem nossos satélites, o bom senso e nem a Igreja, sempre foi uma função primordial das mulheres responderem pelos fenômenos da natureza. Mas, como mulher eu só me apoio no meu corpo (que é também minha alma) e no Morro do Cambirela.
O que diz meu corpo?
Que há muito tempo ele também não confia mais na natureza para viver. A lua é minguante. A maré, vazante. E dançando/orando num sábado de sol, sem motivo, me veio a palavra: funesto. Mas o sol fornecia seu espetáculo em graças e sorrisos. “Só um pressentimento” – pensei. E domingo já eram o vento e as lágrimas. Chovia dentro e fora de mim. As lágrimas secaram. A chuva não parou mais.
E o morro, o que diz?
Que vai chover de novo.
Ele me confidencia isso todos os dias isso, por volta de sete da manhã. Quando vai fazer sol, sorri. Quando o céu chora, ele se cobre para preservar a dignidade do céu. E assim, eu, o morro e minhas metáforas, entramos na segunda semana.
O céu tão cinza faz com que aos poucos todos entrem num estado melancólico e de profunda desistência. Desistimos de secar os pisos porque é como enxugar gelo. Porque lavar se não há como estender? Para que brigar, se não há como entender? Desistimos agora dos nossos inimigos – sempre tão fiéis. E também desistimos de marcar encontros com os amigos, porque a chuva desaconselha sair. Na verdade não são apenas as goteiras, mas até as relações que começam a fazer água. Nesse caso, a família começa a ser insuficiente. Não foi sempre? Em algum momento, desistimos da cive e da pólis. Desistimos de procurar por noticias, fossem do clima ou quaisquer outras, e passamos a alugar filmes. Queríamos congelar na memória a alegria pela vitória de Barack Obama (para que ver de mais perto, se era tão boa à perspectiva assim, distante?). Sim, nós podemos mesmo que enregelados e encharcados pela sensação de uma inevitável fatalidade. A Semana de Consciência Negra assistiu meus últimos esforços de civilidade. Aos poucos, o frio de molhar os pés na ida para o trabalho, me fez escorregar para um torpor semi-consciente e sem querer. Meus alunos compareciam de modo esparso, num estranho jogo de equilíbrio de faltas e trabalhos entregues por terceiros. E os deslizamentos inevitáveis tornavam as faltas mais que justificadas. É vã toda a filosofia de três tempos no segundo grau, assim como a educação neste país faz água há muito tempo, e todos sabem disso. Mas ali,estranhamente a escola parecia mais com uma tábua de salvação boiando sob o naufrágio, com todos reunidos para não afundar juntos. Salas ocupadas, o telefone da escola sempre solicitado, os professores amigos se solidarizando e mobilizando por esta ou aquela família. Propiciamos alegria, amparo e ensino ainda que em condições precárias e de modo esporádico.Até que, sem condições submergimos todos. A tábua não agüentou, a escola fechou após um mês de lenta agonia.
E ao voltar para casa não era assim tão diferente. De repente me vi acompanhada de meu clã reunido em torno, não de um totem ou uma fogueira, mas de uma nostalgia. Os anos 80. Discos, filmes, músicas e vivências compartilhadas pelo exílio involuntário. Seremos poucos a sobreviver, então que resistam nossas memórias. Ninguém disse isso, é claro. Mas foi um movimento social de profunda aquiescência – se é que isso pode existir – percebido em toda a parte. Alguém lembra de uma cena de infância. Outro começa um romance. E mais aquele retoma um Diário. Sobrevivam as palavras! Parecia ser a ordem.. As músicas e os vídeos, mais alguns completavam. Parafraseando o presidente, diria que nunca antes, na história desta cidade, fizemos tantos downloads. No apelo óbvio da sobrevivência, escolhemos resgatar da enchente o melhor de nós mesmos. Mas isso, como sempre, acontece primeiro aqui dentro. Essa ilha já foi chamada Desterro e este é o nome do nosso sentimento agora. Foi pouco antes de caírem as barreiras na estrada. Sabíamos agora que estávamos isolados, mas não sozinhos. Nosso irmão em águas: o estado do Paraná.
Tornamos á cive e a pólis talvez no auge da calamidade. Primeiro de modo tímido, mas num país em que dizer que não gosta de política é como dar um atestado de honestidade e retidão moral, não surpreende. Vi o primeiro lampejo no meu local de trabalho, em primeiro lugar. Numa escola fechada para as aulas, reencontramo-nos todos para confeccionar os enfeites de Natal e a amizade do quotidiano fazer.
Eis que ressurge enfim, o humor, a face mais bela e louca da resistência. Um e-mail que faz do salto alto um pé de pato que promete ser a nova moda. Um perfil de orkut que nos louva como Novos Atlantes. Outra diz: a ilha vira mar, as mulheres sapas, as trans sereias. Alguém se auto-intitula nova espécie. Outra não quer mais ser chamada de piranha: é agora uma donzelística perereca. Mais simpático, convenhamos.
Aos poucos, já não mais tão estranhos a nós mesmos, submergimos. Amigos e familiares ligam uns para os outros. Ecos: esta tudo bem aí? Esta tudo bem com você? Sim. Sim. Sim, mas... Um grito de socorro ao longe. Era o Vale. Meu Deus! O Vale! Tristeza. Luto. Calamidade (pública desta vez). Muitos amigos meus viajaram para lá. Afundaram até os joelhos na lama e no caos para missão-resgate. Eu (um eu que somos nós) fiquei. Ou ficamos. Para partejar nem que fosse da pedra. Desencavar á vida nova dos armários e gavetas. Despertar consciências adormecidas para o absurdo da alienação quotidiana. Humano, demasiado humano. Comprar cestas básicas. Substituir valores e economizar água. Para selecionar e embalar, evitando desperdícios. Bater tambores, lotar igrejas, enviar cartões. Receber parentes desabrigados. Movimentar contas bancárias. Colher donativos. Cada vez mais gente se empenhando sempre e... mais. Ninguém queria parar com isso. Não recebíamos nós monções de apoio de todos os estados da federação? Pela primeira vez, vi gente se mobilizar pelos animais. Alguém lembrou que era crueldade deixar para que se afogasse o cachorrinho da família.Outros tantos mobilizaram-se para ajudar cães,gatos e cavalos, amigos de todas as horas deixados para trás. Muitos órfãos. Achei que algo de uma nobreza e dignidade esquecidas submergiram também. E onde beleza e justiça eram enaltecidas em toda a parte, resgate era uma palavra de ordem. Não mais memórias. Objetos e gentes. E quantos mortos, Deusa querida! Desaguavam notícias no apelo de uma contra-enchente de solidariedade “vitoriosa e transbordante como uma hemorragia”, nas palavras de Chico. De repente, foi como se não houvessem mais, entre nós, tantas represas e desvios.
Perdi quase tudo, mas graças...
Todos acordam para o fato de que a vida é o mais importante (bem, quase todos).
É claro que nos subterrâneos do poder, a lei de Murphy é imperativa. Tudo de pior que pode acontecer, sempre acontece. Mas a luz encontrava também aí, uma brecha. Só um exemplo: agora todos sabiam porquê era infame o novo Código Ambiental de SC.
Foi nesse momento, tão caloroso e fraterno, que encontrei um amigo. Iria também para o Vale ajudar. Disse ele
-Eu vi um estudo, a ilha... Metade da ilha é aterro, entende? Até agora a maré era vazante, mas agora vai encher e a ilha corre risco de ir para o fundo do mar... O mar toma de volta tudo o que empresta.
Só aí que me dei conta: era verdade.
A maré também crescia dentro de mim.
Foi só então que o sol ressurgiu no horizonte.
sábado, 26 de setembro de 2009
Rumo á Casa de Irkala - os sete véus.

Ainda ás portas, perguntou-me o que queria
E eu disse: "um lugar para onde retornar"
O porteiro riu, mas respondeu em seguida
-"Há bem mais que tens de deixar para trás"
A iluminação enfraquece e a música começa. Pequenos acordes que se irão entrelaçando
á minha entrada de passagem...
Meu primeiro véu, é um véu negro
Que me cobre por inteiro, veludo molhado,pesado,imenso
Cobre todo o rosto,o corpo, meus cabelos, e até meus pés
Estão resguardados em segredo.
Movendo-me quase imperceptível na escuridão
Toco sem tocar
Canto, sem que som algum seja soprado de meus lábios
Cerrados.
Crio, teço,amparo sem nada dizer,num silêncio imperativo.
Eu giro em anti-movimento.
Completo o sacramento.
O véu se rasga em duas metades iguais.
Caindo como o corpo cai no sonho,
Ainda em silêncio.
Seguir-se há o desenvolvimento:
O véu vermelho descobre o rosto,escorre pelos cabelos
É sangue quente que cobre meu corpo,apertado em meus seios
É o que me move, o que pulsa,brilho fátuo,o meu anseio.
Meus gestos são tensos,estremecem os toques no instrumento - estremeço!
Ardente,em chamas,correndo pelo palco, vocalizo ululante em devaneio
Arremetendo-me contra a rocha,contra o céu,contra o tempo
Corro junto aos meus irmãos, que se esvanescem e sempre mais forte sopra o vento
Impressiona, desafia e vence, traz o medo pela corrente
E num giro rápido - para não perder o impulso- eu o lanço fora, e o que se ouve
é metal incólume na gravidade do chão.
O ritmo segue firme mas já sem tormento. Jogo fora brincos,pulseiras e um anel de ouro puro -por último,um porta-venenos. Jogam para mim da platéia - moedas e lírios - que não me rebaixarei em apanhar.
É sempre tão pouco o que pedem, como posso negar?
Jogo fora também a fivela dourada que prende em parte
a fartura cacheada dos meus cabelos. Pequenas alegrias,mimos,
Zelos e flores á mancheia. Tudo tão reluzente. O que brilhava em mim e tinha em si algo de inocente e desconcertante agora se foi
E pela primeira vez ouço um suspiro da platéia.
Sinto-me mais leve, estranhamente mais leve...
O que me esconde ainda agora é verde e esta enrolado junto aos seios
É o mais perfumado e querido de todos eles
Cor das matas e das coisas que se corrompem lentamente
Abrigo caro,jóia rara,um lar em ruínas de calma plácida
Eu o enovelo em meus braços, como serpentes cálidas
Eu deixo que beije meus olhos fechados e quentes de sol
Que acaricie minha cintura,num aperto de despedida
Antes de deixá-lo ir assim, num gesto displicente
E ele flutua e se desfaz num ramalhete de hortelãs.
Um intervalo,a música cessa para mudar bruscamente...
Preso ao cinturão, um véu azul de mar e sonhos
Aposta traída para sempre, um mundo em paz,uma infância de ilusão
Se desdobram e demonstram,numa carícia de desvelo vem e vão e vem e vão...
Até que um dia ergue-se imenso e impressiona
Paciente, reconquista tudo o que lhe pedem
E deu apenas aquilo de que não tinha mesmo nenhuma precisão.
São esses véus assim como o meu olhar. E meus quadris, ondas que
Embalam suaves para lá e para cá. Eu sou a fuga e o refúgio
Me divirto em criar miragens e canções que flutuam como bolhas de sabão
Mas ninguém sabe, o refugo da minha arte tem nome: é saudade.
Serena, nem percebo quando este véu tão calmo
se desfaz em guizos de espuma branca por sobre a areia.
Mais um, agora violeta que eu trago ainda firme, preso á testa.
E finalmente o Medo.Sei que agora são as Palavras
que se vão.E com elas a memória, os Diários, os relicários da música.
São como a água escorrendo, evaporando, cristalizando suas gotas, contas a rolar pelo tablado.
Um véu de mel e prazeres que se devem fruir cálidos e lentos. Um véu sóbrio e zeloso,
tecido ponto á ponto á mão e sem ornamentos. Um véu rescendido á pactos e constrangimentos
Eu deixo que vele,e cante esmorecendo enquanto se despede da minha pele
pelo corpo inteiro. O alaúde nesse momento é só lamento e gravidade
Chegamos á um ponto de não-retorno,agora é tarde, é findo o tempo.
Quando cair aos meus pés uma platéia ansiosa poderá colher minhas lágrimas.
Meu corpo transparece por fim sob o véu branco.Não há indecência nisto.
Sem meus véus,jóias e armaduras sou algo assim bem menor,pequena mesmo.
Só uma criança, marcando o ritmo com o bater dos pés desnudos. A música já
parou e tilintam apenas os risos. Estou pronta á mergulhar na escuridão,talvez para sempre.
O ultimo véu que cai se desfaz como uma estrela,em um surto de luz e som
vidro quebrando no chão displicente...
E mais Nada...
A Lista da Bota.
Mas esta não é uma resenha- ou pelo menos eu penso assim. Pensando melhor, deixo esta categorização para outros. Mas este filme rendeu o tema de minha crônica? O que é a morte? Um súbito apagar de luzes e uma retirada estratégica do palco, para que entrem as palmas ou o silêncio da platéia constrangida?Um renascer para outra existência? Alguém, não me recordo, disse que o homem é o único animal que sabe que vai morrer. Parece interessante, mas simplesmente não é verdade. Há os elefantes e existem pesquisas a este respeito também com gatos (até onde eu sei). Talvez a única diferença é que nós temos mais opções quando estamos de posse da notícia com antecedência, e muito diferentes dos animais, que no geral se isolam para morrer á sós, nós optamos de modo geral a morrer exatamente como vivemos, dentre os valores que nos orientaram por toda a nossa vida e deixamos aos nossos descendentes ou ascendentes a difícil tarefa de cumprir nossos últimos pedidos além da morte. Porque salvo imenso engano, a morte causa mais angústia á nossa espécie do que á qualquer outra. Há quem afirme que o nosso pavor da morte é a nascente de nosso anseio de liberdade e paixão pela vida. Porém a mesma morte - algo que parece tão individual e íntimo - tem um forte conteúdo social. Porque seremos enterrados,cremados ou submersos, teremos orações, prantos ou risos de acordo com a cultura vigente na sociedade em que estamos inseridos e desejaremos que nossa passagem seja feita de acordo com aquilo que nós e nosso meio social acredita. Se suas vísceras serão espalhadas aos urubus ou se você será enterrado de pé com uma florzinha em cima é uma questão que você, a família e o Estado têm de entrar em um acordo antes. E para aqueles que não têm pacto com o Estado nem com a Família, o Estado já encontrou solução: a vala comum, onde descansam os deserdados,esquecidos e "desaparecidos" de toda á sorte.Os sem-cemitério, marginalizados.
Mas voltando ao assunto...todas essas são escolhas da vida. A morte é uma desconhecida que não possibilita escolhas. E chegamos por fim ao "xis" da questão. A Lista da Bota. O que escreveríamos, cada um de nós, se submetidos á este exercício? Um detalhe interessante é que o personaem de Freeman, por tido uma vida pobre mas rica em significado e compreensão espiritual, fez dos seus últimos pedidos uma lista de prazeres simples. O personagem de Nicholsos, mais rico mas que navega numa solidão sem fim, sem família e amigos por exemplo, tem desejos finais excêntricos, divertidos e...superficiais. Quando Freeman vaja pelo mundo com Nicholson percebe seus limites,barreiras morais e sensíveis que o impedem de "se divertir até o fim", mas o contrário também é verdadeiro. "Mr.Cole" logo percebe as dificuldades em realizar itens da lista elaboradas por "Mr Carter" e a mudança que ele tem de fazer para realizá-las é ainda mais radical. Nossos últimos desejos de vida, na verdade, refletem como vemos a vida em si.Outra reflexão interessante se dá quando ambos os personagens se encontram no Egito - o Antigo Egito foi,disparado, a sociedade que mais investiu na idéia de vida além da morte - e um deles comenta que este povo acreditava que, após a morte, cada alma seria julgada por suas ações e encaminhada para lugares melhores ou piores segundo estas. Se pensarmos bem, nada de tão diferente do que a maioria das pessoas acredita hoje. O diferencial são as perguntas chaves para o acesso ao "melhor dos mundos": "-Quantas alegrias você viveu?" E na seqüência "-Quantas alegrias proporcionou?"
Quanto á crenças do Antigo Egito, também sabemos que não era assim tão simples. Mas esse é um bom resumo do que são chamadas de 52 confissões negativas, coisas como: "Não roubei", "Não matei", "Não propaguei mentiras" e por aí seguem...
Pensei em muitas respostas para estas perguntas, e até esbocei a minha própria lista da bota, com apenas sete itens:
1- Na minha aposentadoria vou me dedicar á uma Associação de Defesa dos Direitos dos Animais.Pois dedicarei os melhores anos da minha vida á Juventude e á luta por uma Educação mais Inclusiva e de qualidade, assim, contruindo minha quota de contribuição com a humanidade. Logo, chegará a vez de ajudar animais desinteressadamente, eles que me ajudaram tanto. Só espero que dê tempo.
2- Não tenho fantasias com para-quedismo, e até que gostaria de voar de asa-delta mas no fundo, tenho mais desejo em fazer mergulho subaquático (nunca entendi esta expressão, existe outro tipo de mergulho?).Ver as paisagens submarinas pessoalmente, este outro mundo tão próximo e tão estranho seria algo assim... sem palavras para descrever.E tenho até um itinerário certo: Fernando de Noronha. Junto aos golfinhos. Mas para isso,antes é preciso vencer o medo e parar de fumar.E eu nunca sei se quero parar de fumar...hehehe.
3- Conhecer dois países ao menos na Europa: Londres e Espanha, dois na África:Nigéria e Egito e Sri-Nagar na Índia. O Líbano, é claro. Se possível, todo o Oriente Médio. E o meu primeiro romance será um Diário de Viagens. Tem o título provisório de "Os melhores dançarinos do mundo".
4- Ver publicado o meu penúltimo romance, que têm o título provisório "A Vida É Uma Festa"! É um título bastante polêmico, eu sei. Mas nele quero trabalhar a vivência com minha mãe, que me ensinou muito sobre alegria de viver. Em tempos tão cinzas, penso que seria um livro de Memórias que acabaria servindo como Auto-ajuda.
5-Quero chorar de emoção na formatura dos meus filhos. Nota: eu não tenho filhos. Mas terei. Nascidos do meu corpo ou do meu coração, como se diz.
6-Quero ter dado minha contribuição para um país mais justo e uma educação mais inclusiva, humanizante, e conscientizadora. Quero ter encontrado minha família espiritual e que, com ela, tenhamos realizado uma coisa inteiramente nova. E que esta contribuição vire livro também, mas não escrito por mim nem com meu nome citado, mas no nome de alguma organização coletiva e pioneira em métodos educativos que eu creio, está para surgir.
7 - Deixar para minha família e amigos a certeza de que fiz o melhor possível...e que valeu á pena! Só ainda não pensei como será isto, mas vai se dar de alguma forma, tenho certeza!
Naturalmente penso que ainda é cedo para dizer quantos momentos de alegria vivi e quantos proporcionei. Mas sem falsa modéstia acho que se a prova fosse amanhã eu conseguiria passar assim,assim, na média.
E quem quiser que conte outra...
Curtinhas Setembrinas

Veleidades.
Tenho pena de quem teme o que pensa
E clama pela liberdade dos quadris
Perigoso mesmo é o que não se pode dizer
E não se diz...
Escrita na água:
Prometo honrar,amar e obedecer.
Vingança & Vitória e o que mais vier
Para todo o sempre,mas só se Deus quiser!
Prisão.
"Há mais de um poder
que nos encerra ou cala
uns no escuro, postos á ferros
outros vestem gaiolas douradas..."
Ao menino que hoje passa...
Sim, é puro, cálido e luzídio
E tem ainda a beleza, o encanto,o sorriso
Quanto mais eu o vejo,mais admiro. Mas...
Só celebramos a inocência em seu funeral - e com alívio!
Terrorismo Poético
O velho professor passou matéria no quadro
E deu aula e tarefa, prometeu nota e deu prazo
Anseio: uma surpresa,um alento,ou talvez um gesto de carinho
Surpresa: um beija-flor morto em seu escaninho...
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
(In)solitudes!

Aliviar dor de cabeça dando cabeçadas na parede
Colocar sal na limonada só para ficar com mais sede
Transar no capô do carro, á beira da estrada
Tomar sorvete quente depois da sopa gelada
Amarrar o cadarço do tênis escondendo o nó
Esperar com ansiedade o momento de ficar só
Para dançar axé na sala - isso beirando aos sessenta-
"Adoro ônibus" até vai,o preço é que ninguém agüenta!
Tocar violão no escuro
Querer saber o que é que tem do outro lado do muro
Pedir para comer a rapa do arroz e do angu
Ou misturar com açúcar.Limão com peixe cru...
Ladrão que deixa bilhete de aviso e presta assessoria
Maçã com salsicha e azeite, acompanha feijoada fria
"Rapaz jovem e bem sucedido procura...para relacionamento sério"
Termina a noite bebendo sozinho, por sobre a lápide no cemitério.
Coçar a barriga do gato só para ser arranhado
Ver numa foto por satélite algum rosto desenhado
Ler de um só fôlego Urupês, de Monteiro Lobato.
Criar o plano perfeito de ser flagrado no ato.
Dobrar todo o dinheiro na carteira
Ficar feliz só porque é segunda feira
Sonhar com uma passagem só de ida para Kandy
Dizer que amou a Alanis interpretada por Sandy
Passar lua-de-mel em Puta-Que-O-Pariu ou Burkina Fasso
Obras de arte esquecida no vidro dos carros empoeirados.
Ouvir o álbum "Animals" com filme mudo e preto e branco
Usar shampoo hidratante de Castanha de Tamanu Taitiano.
Implicar com o presidente só porque ele é corinthiano
Ser devorado pelo crocodilo que estava preso no encanamento
Chamar estudante preso em manifestação de "elemento"!
Amarrar-se na árvore em protesto, usando uma mochila
Dar o nome de "Cashemira" á uma chinchila
Usar hidratante labial sabor "mojitos"
Amar sobretudo a precisão, e á seguir os expletivos.
Tomar café com mel, e uma "estrela" de anis
Largar "status",familia, mendigar -fazer o que sempre quiz!
Um dia deixar de fumar assim de bobeira, sem querer
Dizer, como o poeta: "amor só é bom se doer".
Para a imaginação humana não há limites, nem imperativos!
Nesta lista cabem mais itens do que nos manuais explicativos
Nem Freud explica para que servem -sejam "de bolso" ou de academia
E se todo mundo decidisse que Deus só esta vivo onde houver alegria?
Se sabe que a flor mais querida mora sempre no precipício
É por isso que eu digo: "cada louco com seu hospício."
