terça-feira, 16 de agosto de 2016

E você precisa de ajuda...



"A Roda da Vida" - Imagem constante em monastérios do Budismo Tibetano, mas de autor desconhecido.



Ontem, voltou para casa
O gato e a madrugada em silêncio
Esperava. Era uma salva de palmas
pelo bom proceder,
mil trovoadas que faziam tremer a casa...
Quem conseguiria dormir com consciência tão
cansada?
E você precisa de ajuda.

Um laço que ata o nó no sapato,
aperta a gravata, desfaz a lã,
Mais um botão que prego e o
supermercado. A gente segue
assim, emendando...
Correndo, lavando, polindo,
trançando correntes e cadeados.
O abandono também é um muro, só que
impenetrável.
E do lado de dentro do peito
ninguém esta seguro,
E você precisa de...

O dia amanheceu tão lindo!
Céu radiante, sol, e é claro
Que logo a vida passeia vaidosa,
exibindo-se para as vidraças.
Sem graça, assista pela janela
As crianças que correm pela praça,
mais um corpo estendido na estrada,
mais uma menina grávida,
É tão sério como tudo passa...
E você, precisa...

O gerente do banco liga,
"- Os juros baixaram" - é uma piada?
Queria pedir música no Fantástico
Em 3 anos, 3 aluguéis em atraso...
Da insônia ao trabalho
E do trabalho ao insônia
É daqui a pouco,mais um fim de semana...
Em que o amor sobe pelo telhado, e canta!
E você,...

Com suas próprias mãos ergueu um castelo
Mesmo sabendo que elas viriam - e como vieram!
É tempo de recomeçar tudo de novo,
A terra esta nua, os cavalos no pasto,
Coloque para dançar uma nova música...
para animar nossa Semeadura - o enterro dos gafanhotos...
E...









segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pescadoras



-Queria saber de quem é a foto, quem souber favor informar a referência.Extraí deste site aqui:http://www.leiaecocentral.com.br/pontal-do-parana-ira-reunir-pescadoras-para-debater-sobre-direitos-previdenciarios/


Pescadora...
Estendida em uma solidão dormente
Ofereço minha pele ardente
Ao céu e ao mar
Infinitos...

Sem escolha...
Sei que vou voltar,
quando sentir o pesar repuxar
E na língua o gosto do sal
Eu que sei da monção
Que esta vindo!

Estender  a rede,
E trazer à tona a manhã
Com sua irmã,
Mistérios do mar e
contos de assombração
Para teu irmão
Trazer as mãos cheias
De calos ao cais,
Como nossos pais,
Fazer uma canção de orar
por nós
Como nossos avós...

Meu silêncio
cerrado em concha,
Nos costões afiados
Do teu sorriso!

-Sonhos de prata,
 alegres pelas águas,
 dançando deslizam...


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Blues do Demônio Perdido



Para uns eu sou o Caminho
Para outros, um Abrigo
Mas não passo de um triste
Demônio
Perdido

Por favor, escuta o que eu digo...

Quando minha mãe ia às compras, na Avenida Redenção
Ela sempre olhava para os lados
Me carregando pela mão
E mesmo assim, tudo se foi,
Eu caí, e nem sei como,
Deslizando pela mente
Dessa moça demente
Num looping de ilusão,
E agora...
Esta muito iluminado aqui dentro
E chove muito lá fora...

Por favor, escuta...

Eu não reconheço suas ruas
Eu não entendo o seu padrão
Seus valores me são estranhos
E por que o que vale tanto...aqui é tão pouco?
Por que o que é tão pouco vale tanto?

E se eu falo só a verdade
Aí mesmo que não ouvem o que digo
Dizem de mim que sou feio, sou louco, sou pouco,
Sou lindo...
Querem que eu pague as contas, trace as apostas, sorria e
sofra junto, como fazem os bons
Amigos

Porque para uns eu sou todo mau,
Para outros, só vacilo...
Mas não passo de um seu criado,
Pequeno demônio
Perdido...

Em um dia ensolarado nas avenidas largas
Quando minha mãe foi ao mercado, eu quis espiar
as prateleiras
Eu quis que por um momento ela não mais me visse
Esse momento é agora a minha vida inteira...

Não consigo encontrar o caminho de casa,
Ninguém pode me ajudar, nem escuta o que eu digo
Não sei em que momento, arrancaram minhas asas,
Onde esta meu tridente?
Onde as chaves caíram?

Um atraso de vida
Um porto distante
Uma letra morta,
Um tipo escuro de diamante
Uma via de descaminho...

Porque para uns, eu sou um tipo de engodo
Um tipo de oásis na zona de conforto,
mas não há quem, de verdade, se importe comigo
Um menino ferido
Esse demônio
Perdido...







sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quasar






Descobri na rocha,
teu peito,
um céu de azul impossível...

Mas eles dizem que o produziram
em laboratório
e, portanto, já o tinham visto...

Do perfume da minha pele disseste,.
Alcaçuz, pétalas de jaspe, açucena,
pau-de canela, caixa de costura e zimbro...

Enquanto comentam ser assim...algo imaginativo
Silencio na certeza de que a paixão sempre atiça
em todos nós um faro lupino...

Constaste-me que à noite
as estrelas choravam,
enquanto tu nu, só e aos gritos...

Significava a dor de existir num berço de  silêncio
Enquanto eles dizem "são apenas meteoritos"
sentimos nossa canção,quasar pulsando no infinito...

E é por isso, que à verdades tão doutas
Eu ainda me desprendo, vez em quando, leve e solta,
e corro para o abraço ausente de um mistério divino...





domingo, 12 de junho de 2016

Brevemente!





O amor bateu á porta
mas não quis ficar muito tempo,
Nunca fica mesmo,
Mal chega e já anuncia,
Quando vai embora...

O amor é o hiato de espera,
É o menino soprando bolhas de sabão
para depois, correr atrás delas,
E elas mesmas, amor, se vão
flutuando sobre o abismo,
perecendo em si mesmas
como um elétron-metafísico,
faz se presente em sua ausência
fagulha de toda a luz e existência,
navegando em ondas incertas,
de intrincado padrão
guardando um outro significado
que em si mesmo se encerra
uma piscadela,
um aperto de mão,
papilhos de dente de leão
um raio de sol que invade a cela...

O amor esta
no "não" da menina ao sorriso
no "sim" de Bovary ao opóbrio
e no "talvez", ah, esse "talvez" que pode durar
uma vida inteira...

Ele esteve por aqui
até ainda há pouco
E ainda esta, onde já não se enxerga,
Pois ontem como agora
O amor nunca "esta" nem "é"
Mas aflora...
E como pássaro, recolhe-se
E troca as penas,
E só na noite mais escura
ouvimos sua canção serena!





terça-feira, 10 de maio de 2016

Uma noite sombria...



Ela, da raça ancestral dos primeiros dias desta terra,
Canta seu suicídio mudo às estrelas no fundo da floresta...
Sua alma foge da escravidão, e lança-se aos céus
Ainda a tempo de ver...

Ele, fruto imberbe da raiz dos reis humilhados
Afoga-se em sangue à luz do dia quando cerram seus olhos
Que ontem ardiam de rancor, na mágoa profunda da violência
Ele...sacrificado e estatístico auto-de resistência,
Torna-se em ato e parece que antevê...

Elas, as crianças de todas as cores,
Que transitam pelas ruínas surdas de lugares intactos
Fugindo do frio, do aço, do cansaço
Torporificadas pelo crack, pela cola, pelo álcool
Deslizam suavemente pela mortalha sonho...

Por todos eles se erguerá a voz pela canção última,
No compasso dos Lanceiros Negros, a Dança que invoca
As chamas da luta encarniçada que agora recomeça,

Para que amanhã não seja mais um dia
neste país de tantas terras...
para que não se esqueça
e nunca mais aconteça...






quarta-feira, 27 de abril de 2016

O Livro de Destino


                                                           (Destino, de Neil Gaiman).




Acaricio a lombada
Faço correr as paginas
Forço a unha do indicador
Em qualquer uma delas
E as imagens se descortinam

Idílicas
Catastróficas
Pétreas
Incertas...

Abro o livro na primeira pagina
Tão apagada...
Ilegível saga
Pouco a pouco
Letras e imagens
Mais nítidas
A música fica mais alta...

Melancólica
Vibrante
Apressa o ritmo,
Trágica.

Fecho o livro
Recomeço
De trás para frente
Faço correr as paginas
Uma a uma primeiro
Depois desespero
E tornam a ser aleatórias
Mais do mesmo
Paginas em branco
Rasgadas...

Arranco a pagina,
Nem leio,
Sei que um dia
Alguém encontrará
A letra de uma música rabiscada
A letra de uma mulher que não assina
Uma sina que se perdeu no mar, em uma garrafa...