segunda-feira, 10 de julho de 2017

Samba do homem com a lua no bolso



Um homem menino
De todos os outros distinto

A arrogância de branco, muito fino,
O orgulho de negro mina, retinto...

O olhar febril dos possessos,
Mil e um pecados inconfessos.

O sorriso de um ébrio errante,
Os cabelos de um perfeito dândi

O físico de curvas inconstantes
De um atleta errático e diletante...

As vestes todas surradas,
trazia sempre encharcadas...

Sua vida financeira era tão "rendada",
Que até pelas aranhas era invejada...

Mas em seu bolso, a lua escondida,
A sua pele acendia, arrepiada em luz fria...

Trazia à sua face, uma  singular expressão,
De tamanha gravidade, ausente de emoção...

Que trazia para si, e aos pares,
O sentimentos mais díspares...

As inquietações mais sombrias
e as culpas mais fantásticas,

As fantasias mais utópicas,
nas carestias mais drásticas

Trazia medalhas emprestadas
Que a lua, caprichosa, refulgia,

De batalhas e lutas vencidas
E guerras vendidas por nada...

E erguia andaimes e pipas,
Com sangue, suor e lágrimas,

Mas seguia sempre em frente -
apressado - pela força da sua vontade!

Com a mesma graça e naturalidade,
saltava poças e contornava maldades,

Pupílas já dilatadas, de tanto gás lacrimogêneo
Ria-se das violências, com as quais lapidava o gênio,

Por isso temiam-lhe igualmente, os silentes cães de caça
e os pastores, os lobos, as cobras... e a covardia fardada,

Pois sabia lá no íntimo, que um dia seria trançada
Com os cabelos de sua amada, o tecido de sua mortalha...

As marés eram seu domínio, e a noite era seu país,
E ninguém sabe onde vai e por quê, nem o que um dia quis

Porque tinha a lua no bolso, e nos lábios uma canção,
Ninguém saberá de si ...nem quem leva em seu coração...






















quinta-feira, 29 de junho de 2017

Rosa



Você floresceu Rosa
No meu jardim de amores imperfeitos
Eu esperava, encarnada
Desabrochou
Príncipe negro...

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Meu coração é uma cidade fantasma.





Uma cidade fantasma, onde a bússola é cega
com seus dias sépia e suas horas vagas
e a lua louca e assassina, derrama sua prata
por fábricas abandonadas, lares em ruínas.

A neblina evolando-se preguiçosa
Oculta e revela paisagens volantes,
-sede e memória- se perdem para sempre,
desabrocham etéreas, desaparecem misteriosas...

Uma cidade esquecida para uma vida desperdiçada
Onde chama minha voz, ecoa o nada!
Onde morre meu grito, se desdobram as esquinas!

Não existe mais sentido, não sei a resposta,
não sobrou ninguém, não encontro a saída,
quero voltar para casa, mas sei, estou perdida...



sexta-feira, 3 de março de 2017

A escrita indecifrável



(Foto de Bruno Alencastro)



Eu leio teu nome
Na escrita da terra,
líquen que rasga a pedra
formigas que se agitam incansáveis
em seus hinos de flor e fome...

Eu leio teu nome
Na escrita da água
conchas que se derramam
algas que se entrançando
sufocam a presa indefesa...

Eu leio o teu nome
Na chama
Ele consome as florestas
E clama poder sobre o que resta...
A juba dourada balança, rugindo sua gana...

Eu leio teu nome
no espinho
E o carinho que sangra
Traça o desejo na pele
E nele mesmo se perde...
Perfume doce que emana...

Eu leio teu nome
no espaço
E tudo que é labuta
e cansaço
Se agita e se afoga,
Se incendeia e cicatriza
Para renascer...em teu abraço...


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

A mulher do meio dia!




(Fotografia de Lara Zankoul, encontrada no banco de imagens aqui:http://www.inspi.com.br/2014/01/fotografias-surreais-de-lara-zankoul/)


Abro os olhos
E a Luz rasga seu ventre com as unhas
Arranca de seu avesso, o Azul
Seu feminino encharcado em
delírio amniótico,
Faz resplandecer um novo dia,
Machuca o Mar com seus beijos,
Ele agora também é Luz e é Azul...
Eu agora sem fala ou letra ou gesto,
Só tênue...estremeço!

Não projeto sombra,
Derramo-a intensa e negra sobre a
minha alma,
E já não se escutam minhas passadas,
Resplandeço em luz fria,
Tudo me aquece,
O calor me arde
Nada me acalma,
Vivo um eterno meio-dia...

Meus sonhos são cartas,
cartas longas, suplicantes, sentidas
A um passado cada dia mais distante...
Eu acordo em rompantes
Ainda a tempo de segurar na altura do
queixo. E o açoite que me rasga a mão
Permite que eu traga meu algoz ao peito,
Frente a frente, a tensão
couro que trançado vibra
Mais alto que qualquer sentimento,
mas não estala,
Calado que está
no sangue
da palma
na face,
Um beijo
Boa noite,
meu bem...boa noite...

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Tempo






Teus véus de poeira seca,
assobiam pelas savanas,
Fazendo cantar as árvores centenárias,
de vestimenta branca,
Emudecendo caatingas e desertos,
Onde só tua voz ecoa,
orações de fé.
gemidos de cítara,
corações de cimitarra,
Pousa em silêncio nas varandas
Recobrindo os móveis das casas
O silêncio é o teu mundo
Inundando as escadas,
Asfixiando tudo
O que move,
O que cresce
o que sente...
E o que o tempo não cura
Ressente...

Eis que sempre cumpre a sina
mas é que as vezes esquece...

O tempo recria modas,
Dando novos nós em seu vestido
De palha,
trançando fios de entendimento
em suas agulhas afiadas
num plano obsessivo,
o desenho que não se esgota,
um anjo, um velho, um menino,
um soldado, um ocaso, uma bota,
uma estrela que enaltece,
uma menina que arrisca,
uma louca que sonha...

Aguarda por uma faísca
para consumir-se em vida
Tornando-a cinza, e pó, e nada...
Passa correndo pelas estradas,
Esse senhor de destinos
Rouba as cobertas do bebê
para tecer sua mortalha.

Mas quando dança é tão lindo...
Quando parece lento, a se arrastar,
E de repente empina e levanta as saias!
Ele ama rir e beber,
com música alta e galhofeira
Nos Festivais de Colheita,
Onde se contam aos montes,
Os homens que lutam e morrem,
e as mulheres grávidas...

E vai rolando as estações,
Em torno do sol, rumo ao abismo,
E o tempo que passa é o tempo que finda
As esperanças de quem vai à frente
E também a quem dançando,
Atrás da procissão silente
Sem nada saber do passado,
Tropeçando no presente!

Olha lá o tempo passando!
Veja logo, quem vem vindo...
É Ele que surge, iluminando o dia,
Em lágrimas, sempre sorrindo...

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Os vendilhões do templo...






Em tapetes estendidos pelo chão 
Vimos por meio desta entrada
comerciando com nossas certezas...
Por algumas moedas,
o pão,
o café,
um desdém travestido de apreço
mas a maior parte escambo,
por angústia, essa areia negra,
sempre troco pela mais fina
que entra pelas narinas
congestiona os pulmões
e entope as artérias...
Mercadoria abundante
E cada dia mais cara,
Pois é ela que paga
pelo sexo,
pelo que é certo
e pela sexta...
paga os boletos,
assegura as férias,
o mau atendimento,
e garante a descendência
enquanto você ascende ao túmulo
vendido, trocado, partido
por nada!