segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Ítaca.

"Todo homem precisa de uma Ítaca e um navio".

As linhas da minha vida
Desenhadas em tuas pálpebras
Se nada mais me resta,
também nada mais me falta...

Leio o mapa do meu destino,
Desenhado em tuas pegadas
Enquanto, nus e de mãos dadas
Perseguimos as estrelas...

Batedores das tribos insurgentes
Caçadores dos sonhos em colapso
E o que distrai nossa mente
Mantém o coração no compasso...

E se o acaso nos fez distantes
E o bramir das ondas nos cala
E a tempestade, iminente,
Estrondosa em seus ritos de guerra...

Teu olhar será minha bússola,
Meu braço firme, teu leme
velas enfunadas, seguimos
Seguiremos para o lugar que partimos,
Cavalgamos sós pelas ondas,
O peito pleno da canção que encoraja
A nova música de um mito antigo...
Que toda a sede do mar seja nossa,
"- Para que no estio do  teu peito eu possa,
conquistar por fim o porto e o abrigo..."


quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O circo mais caro do mundo!

DESRESPEITADO PÚBLICO!
CUBRO-ME EM DESONRA EM APRESENTAR A TODOS
O CIRCO MAAAAAAIIIIIIISSSS CAAAROOOOO DO MUNDOOOOO!





No circo mais caro do mundo o domador de palhaços grita,bate na mesa, estala o chicote, cobra
a fatura e inverte os papéis: de acusado passa a acusador.
Os palhaços em ciranda querem cantar, mas são tão horríveis os guinchos que soltam que assustam as moças e fazem chorar os bebês.
E quem traz bebês para tal lugar?
Aliás aqui é proibido amamentar...que idéia trazer...!!!
Tudo se faz para atrasar o início da atração principal...e tanto se protela, que a maioria já não conseguirá lembrar o que o fez pagar pela entrada.
E tudo o que fez por ela.
No palco, uns relembram os outros o que foram fazer ali.
E quais devem ser suas falas.
No circo mais caro do mundo, o tempo passa tão devagar que os garçons esquecem de levar o açúcar.
O café é amargo, mas sempre se pode conseguir mais.
Disfarça o gosto.
Desfaz o sono.
Distrai o cheiro.
O cheiro é de baratas esmagadas pelas engrenagens ocultas,
E a roda dentada girando incessante, triturando exoesqueletos, ruge por graxa...
Mas, disfarçado em baunilha, chocolate e algodão-doce, essa cacofonia olfativa até engana...
Enjoativa.
De volta aos atores...lá vem os malabaristas.
Tropeçando nos cordões dos sapatos, não conseguem se decidir entre garrafas brilhantes
e bolas coloridas. O mais divertido de todos, faz girar pelos ares pupilas azuis.
Alguns batem o pé, fazem biquinho e dizem que não querem mais estar na ribalta.
Mas alguém os trás de volta, pelo cabresto mesmo, que a madrugada já se aproxima.
Outros jogam confetes,riem e estradulam suas frustrações.
São os animadores de platéia.
Se todos gargalham, outros tantos imitam...
Mas nunca se sabe do que estão sorrindo.
Todos gritam, vociferam, rosnam e ninguém se entende.
Outros, choram, choram copiosamente.
Dão vergonha as fêmeas crocodilo, que já se retiraram para suas lagoas.
Seus discípulos há muito que as superaram, e elas não querem virar bolsa na mão das obscuras esposas superfaturadas.
Não há água para os elefantes...cada ego para quem se vira os holofotes é uma verdadeira esponja.
Absorvendo a luz que gira estroboscópica, em fuga.
De costas para a platéia, de frente para um cenário de espelhos.
 A iluminação favorece a maquilagem,
e anula as expressões.
O fogo amigo cria novos contornos e reflexos no gelo seco.
Infelizmente a sonoplastia não ajuda:
lâminas cegas de colheitadeiras em solo arenoso
baterias desafinadas na marcação do surdo,
...e uma sirene estridente, de quando em quando,
anunciando as novas atrações e silenciando as crianças.
Há poucos tigres e leões...mas sobram hienas e focas.
Os engolidores de espadas cospem fogo.
As trapezistas são interrompidas em pleno voo, e estatelam no chão para divertimento geral!
Temos um mágico, é o que fala com clareza e tira algemas da cartola.
Temos também um atirador de facas, que já assassinou todas as assistentes de palco, e hoje
expõe a si mesmo como o homem-cicatriz.
O menor homem do mundo tem uma estatura mediana, é calvo os poucos fios que lhe restam já grisalhos não lhe trouxeram
sabedoria. Por isso, consegue encolher-se até chegar ao tamanho de uma noz.
Seu truque é claro: não tem espinha dorsal...
O globo da morte é a tão propalada voz da consciência, que delata sem pena e sem prêmio.
Apela-se ao regimento para descumprir a lei.
Desapertam-se gravatas.
Arregaçam as mangas...
Inflam os pulmões e...tudo isso para fugir do trabalho!
Aliás  quem mais trabalha é o intérprete, que não encontra mais gesto para fazer entender tanta iniquidade.
Só lhe resta soletrar (e ainda bem que não desenha).
Dá pena de ver sua solidão.
Os piores atores de todos os tempos seguem recitando suas falas.
Vidrados os olhos, entopem as artérias, e com o rosto vermelho gritam impropérios...
O corpo fala, geme, range as juntas, cobra seu preço...
E o show tem que continuar.
Um rolo compressor ladeira abaixo esmagando tudo o que não vê
e que está logo a frente.
Cerram-se os painéis, as cortinas, abre-se pernas,cofres, contas...
E nada acontece!
Tudo permanece como sempre foi e esta!
No circo mais caro do mundo a alegria e o desespero se confundem.
E a platéia, ao fim do espetáculo,
se encaminha sem entender, entorpecida
para  saída, muda e extática,
siga à direita direto até a porta dos fundos,
a uma pequena abertura que as conduz para a escuridão
de toda a sua existência....

terça-feira, 16 de agosto de 2016

E você precisa de ajuda...



"A Roda da Vida" - Imagem constante em monastérios do Budismo Tibetano, mas de autor desconhecido.



Ontem, voltou para casa
O gato e a madrugada em silêncio
Esperava. Era uma salva de palmas
pelo bom proceder,
mil trovoadas que faziam tremer a casa...
Quem conseguiria dormir com consciência tão
cansada?
E você precisa de ajuda.

Um laço que ata o nó no sapato,
aperta a gravata, desfaz a lã,
Mais um botão que prego e o
supermercado. A gente segue
assim, emendando...
Correndo, lavando, polindo,
trançando correntes e cadeados.
O abandono também é um muro, só que
impenetrável.
E do lado de dentro do peito
ninguém esta seguro,
E você precisa de...

O dia amanheceu tão lindo!
Céu radiante, sol, e é claro
Que logo a vida passeia vaidosa,
exibindo-se para as vidraças.
Sem graça, assista pela janela
As crianças que correm pela praça,
mais um corpo estendido na estrada,
mais uma menina grávida,
É tão sério como tudo passa...
E você, precisa...

O gerente do banco liga,
"- Os juros baixaram" - é uma piada?
Queria pedir música no Fantástico
Em 3 anos, 3 aluguéis em atraso...
Da insônia ao trabalho
E do trabalho ao insônia
É daqui a pouco,mais um fim de semana...
Em que o amor sobe pelo telhado, e canta!
E você,...

Com suas próprias mãos ergueu um castelo
Mesmo sabendo que elas viriam - e como vieram!
É tempo de recomeçar tudo de novo,
A terra esta nua, os cavalos no pasto,
Coloque para dançar uma nova música...
para animar nossa Semeadura - o enterro dos gafanhotos...
E...









segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pescadoras



-Queria saber de quem é a foto, quem souber favor informar a referência.Extraí deste site aqui:http://www.leiaecocentral.com.br/pontal-do-parana-ira-reunir-pescadoras-para-debater-sobre-direitos-previdenciarios/


Pescadora...
Estendida em uma solidão dormente
Ofereço minha pele ardente
Ao céu e ao mar
Infinitos...

Sem escolha...
Sei que vou voltar,
quando sentir o pesar repuxar
E na língua o gosto do sal
Eu que sei da monção
Que esta vindo!

Estender  a rede,
E trazer à tona a manhã
Com sua irmã,
Mistérios do mar e
contos de assombração
Para teu irmão
Trazer as mãos cheias
De calos ao cais,
Como nossos pais,
Fazer uma canção de orar
por nós
Como nossos avós...

Meu silêncio
cerrado em concha,
Nos costões afiados
Do teu sorriso!

-Sonhos de prata,
 alegres pelas águas,
 dançando deslizam...


quarta-feira, 6 de julho de 2016

Blues do Demônio Perdido



Para uns eu sou o Caminho
Para outros, um Abrigo
Mas não passo de um triste
Demônio
Perdido

Por favor, escuta o que eu digo...

Quando minha mãe ia às compras, na Avenida Redenção
Ela sempre olhava para os lados
Me carregando pela mão
E mesmo assim, tudo se foi,
Eu caí, e nem sei como,
Deslizando pela mente
Dessa moça demente
Num looping de ilusão,
E agora...
Esta muito iluminado aqui dentro
E chove muito lá fora...

Por favor, escuta...

Eu não reconheço suas ruas
Eu não entendo o seu padrão
Seus valores me são estranhos
E por que o que vale tanto...aqui é tão pouco?
Por que o que é tão pouco vale tanto?

E se eu falo só a verdade
Aí mesmo que não ouvem o que digo
Dizem de mim que sou feio, sou louco, sou pouco,
Sou lindo...
Querem que eu pague as contas, trace as apostas, sorria e
sofra junto, como fazem os bons
Amigos

Porque para uns eu sou todo mau,
Para outros, só vacilo...
Mas não passo de um seu criado,
Pequeno demônio
Perdido...

Em um dia ensolarado nas avenidas largas
Quando minha mãe foi ao mercado, eu quis espiar
as prateleiras
Eu quis que por um momento ela não mais me visse
Esse momento é agora a minha vida inteira...

Não consigo encontrar o caminho de casa,
Ninguém pode me ajudar, nem escuta o que eu digo
Não sei em que momento, arrancaram minhas asas,
Onde esta meu tridente?
Onde as chaves caíram?

Um atraso de vida
Um porto distante
Uma letra morta,
Um tipo escuro de diamante
Uma via de descaminho...

Porque para uns, eu sou um tipo de engodo
Um tipo de oásis na zona de conforto,
mas não há quem, de verdade, se importe comigo
Um menino ferido
Esse demônio
Perdido...







sexta-feira, 1 de julho de 2016

Quasar






Descobri na rocha,
teu peito,
um céu de azul impossível...

Mas eles dizem que o produziram
em laboratório
e, portanto, já o tinham visto...

Do perfume da minha pele disseste,.
Alcaçuz, pétalas de jaspe, açucena,
pau-de canela, caixa de costura e zimbro...

Enquanto comentam ser assim...algo imaginativo
Silencio na certeza de que a paixão sempre atiça
em todos nós um faro lupino...

Constaste-me que à noite
as estrelas choravam,
enquanto tu nu, só e aos gritos...

Significava a dor de existir num berço de  silêncio
Enquanto eles dizem "são apenas meteoritos"
sentimos nossa canção,quasar pulsando no infinito...

E é por isso, que à verdades tão doutas
Eu ainda me desprendo, vez em quando, leve e solta,
e corro para o abraço ausente de um mistério divino...





domingo, 12 de junho de 2016

Brevemente!





O amor bateu á porta
mas não quis ficar muito tempo,
Nunca fica mesmo,
Mal chega e já anuncia,
Quando vai embora...

O amor é o hiato de espera,
É o menino soprando bolhas de sabão
para depois, correr atrás delas,
E elas mesmas, amor, se vão
flutuando sobre o abismo,
perecendo em si mesmas
como um elétron-metafísico,
faz se presente em sua ausência
fagulha de toda a luz e existência,
navegando em ondas incertas,
de intrincado padrão
guardando um outro significado
que em si mesmo se encerra
uma piscadela,
um aperto de mão,
papilhos de dente de leão
um raio de sol que invade a cela...

O amor esta
no "não" da menina ao sorriso
no "sim" de Bovary ao opóbrio
e no "talvez", ah, esse "talvez" que pode durar
uma vida inteira...

Ele esteve por aqui
até ainda há pouco
E ainda esta, onde já não se enxerga,
Pois ontem como agora
O amor nunca "esta" nem "é"
Mas aflora...
E como pássaro, recolhe-se
E troca as penas,
E só na noite mais escura
ouvimos sua canção serena!