domingo, 2 de dezembro de 2007

Porque quem cala consente


“O que me assusta não é o grito dos violentos, mas o silêncio dos bons.”
Martin Luther King.

Realmente, é assustador! Durante essa semana, ouvi muitas perguntas não necessariamente sobre a lei 11.340, que recebeu o nome de Lei Maria da Penha, mas sobre a situação das mulheres no Brasil e no mundo. Será que é verdade? “Será que é verdade – hoje uma senhora que participava da 1ª Jornada Catarinense Maria da Penha, me perguntou – que quatro mulheres por minuto são espancadas ”? Ou ainda, na escola em que trabalho: “Que 70% das mulheres assassinadas no mundo são mortas por seus maridos ?” E outro dia, em casa mesmo, discutindo com as mães (a minha e a dele) sobre a luta feminista hoje. “Será que é verdade que a mulher chega a ganhar até trinta por cento a menos que o homem, e que a distorção aumenta quanto maior o nível de escolaridade ?” “E que um em cada cinco dias de falta ao trabalho é causado pela violência contra as mulheres dentro de suas casas? ” Respondo de imediato: “não sei bem...”

Formei-me recentemente em Ciências Sociais, e não era uma aluna muito boa em Estatística, mas sei que a maior parte desses cálculos são projeções. Isso quer dizer, em bom português, o seguinte: a maioria dos pesquisadores sabe que a grande maioria não denuncia e nesses casos, trabalha com estimativas, ou seja, se uma para quatro não denuncia, então multiplicaremos por quatro o resultado das denúncias efetivadas. Sabemos que absolutamente todas trabalharão com uma margem de erro entre um e três pontos percentuais (quanto maior o grupo, menor a margem de erro) para menos ou para mais. Depois cruzam os dedos. Torcem para estarem certos, mas desejam no fundo estarem errados. Especialmente com estimativas como essa. Mas muito dificilmente estarão muito longe da verdade.

Mas, se ainda assim você não acredita, tente uma “pesquisa impressionista?” Você mesma? Alguém que você conhece? Já ouviu falar? Faça essa pergunta em um grupo de no mínimo seis pessoas. Se todos, ou a maioria responderem sim, pode ter certeza, é por que existe. E já passou da conta!

O porquê disso já é mais complicado. O patriarcalismo e o machismo são mais antigos que o capitalismo e o patrimonialismo, por exemplo. Os papéis sociais relegados às mulheres sempre permitiram e incentivaram a sua submissão, anulação e aniquilação. E nunca houve muito essa divisão entre “os mais e os menos esclarecidos”. Basta lembrar que a filosofia clássica, base da História do Pensamento Ocidental, é recheada de “frases lapidares” que diminuem o papel da mulher. Para Platão, felicidade era “não ter nascido mulher, não ter nascido bárbaro e ter vivido no tempo de Sócrates.” Nessa ordem. Para Aristóteles, “elas” eram cidadãs de segunda classe e deveriam se manter assim. Bastou surgir uma filósofa, a primeira “mestra”, educada exclusivamente por homens e dando aulas exclusivamente para “eles”, para que esta também morresse vitima de violência sexista. Esquartejada em uma Igreja em Alexandria, 415 d.C. por cristãos fundamentalistas, para ser mais exata. Por quê? Acusada de heresia. Era pagã e acreditava que o Universo possuía uma linguagem matemática, cognoscível pela Razão. Procure saber mais sobre quem foi Hipácia. O exemplo pode parecer triste, mas também mostra que sempre existiram aquelas que não se conformaram aos papéis sociais estabelecidos. E é claro que isso tem um preço (às vezes alto demais). E se você acha que hoje as coisas mudaram muito, uma informação: em uma Escola Politécnica do Canadá, havia 42 homens e 15 mulheres. Chegou um outro aluno, armado e pediu para todos os homens se retirarem e aos brados de “suas feministas!” e “vocês não deviam estar aqui!” metralhou todas elas. O massacre comoveu o mundo e a partir disto, todo o dia 25 de novembro “comemora-se” o “Dia Contra a Violência da Mulher”. Estava lançada a Campanha do Laço Branco, por um mundo sem violência. Ah, isso aconteceu em 1998. Doença mental? Talvez. Mas cada sociedade produz os doentes que merece e lhes dá as “informações subjetivas” que precisa.

Se maior ou menor escolaridade não ajuda, renda também não. Este problema rasga, de um lado a outro, todas as classes sociais. Atravessa fronteiras étnicas. Só não mata seu berço: continua sendo uma questão de gênero. E falo isso porque outra das perguntas que mais ouvi foi: “Mas e o homem, não sofre violência também? Por que falar só de violência contra a mulher?” Confesso que essa pergunta me irrita um pouco. Mas devolvo com outro “número mágico”. Quinze mil. Quinze mil mulheres estupradas por ano . Isso não é estimativa. Este é um dado bruto. E brutal. Só que não espelha a violência sexual doméstica. Então responda você, companheiro, quantos amigos seus já foram estuprados por uma mulher, assim, sem mais? E quantos se sentem obrigados a ter relações sexuais com a própria esposa? Quantos dos seus colegas vivem aterrorizados, “pisando em ovos”, com medo dos ataques de raiva dela? Ah, essa é muito fácil!Então me deixe completar... Quantos destes mesmos “coagidos” têm medo de deixar a parceira porque ela pode matá-lo ou tirar-lhe completamente a possibilidade de rever seus filhos ou, pior, pode passar a agredir os próprios filhos? Quantos dos seus amigos são completamente dependentes dos ganhos da companheira e perderam completamente a autonomia para “cuidar do lar, ser um bom marido e bom pai”? Para ser sincera eu conheci um caso aproximado... Entre cem do outro lado. Só que eu exijo direito de resposta a uma máxima popular: certos casos a gente deve rever por que têm homem que “curte”... Mas se seus números forem muito maiores, e você é “maior de vinte e um anos”, favor entrar em contato com a Fundação de Pesquisa mais próxima. Acho que seu cérebro (ou o de seus conhecidos) merecem ser conhecidos pela Ciência.

Por outro lado... Alguém, acho que foi um rapaz segurança que veio falar comigo durante o cafezinho da “Jornada”, perguntou se a Lei não acabaria sendo “violentada” por mulheres assim... mais “abusadas”, mesmo. Pensei em explicar mil coisas, como a diferença entre “violência contra a mulher” e “relação conflituada”. A primeira exige como critério uma desigualdade de poder evidente. A segunda são só duas pessoas tendencialmente violentas, que não sabem conversar de forma respeitosa e civilizada e que podem resolver as coisas “entre tapas e beijos”. A fronteira é tênue, mas os marcadores são claros. Mas antes de responder do modo mais difícil, olhei bem para ele e percebi que o cidadão era negro – como eu! E respondi mais rápido: “Lembra quando saiu a Lei Contra o Racismo”? Ele sorriu amarelo... e entendeu. Não ficou muito pior para os brancos, não. Na verdade, a única coisa que foi contida foi certo tipo de escracho público, mas a sociedade continua racista tal e qual. A maior parte dos casos nem chega a juízo, muitos negros ainda não denunciam... o de sempre, enfim.

Isso é triste. Na verdade, acho importante essa mudança, mas ao mesmo tempo, não acredito muito em “leis”. É preciso ter atitude, mudar corações e mentes, “uma lavagem cerebral”, porquê esse buraco é muito mais encima. De volta ao começo deste “artigo-desabafo”, eu também às vezes me pergunto: “será que é mesmo verdade que em pleno século XXI ainda temos que ter esse tipo de conversa?” Mas daí eu acordo e vejo que sim. Infelizmente.

¹Segundo á Fundação Perseu Abramo, são 2,1 milhões por ano no Brasil isso dá 175 mil por mês, 5,8 mil por dia, 2,43 por hora, 4 por minuto, uma a cada 15 segundos.
²Dados da Organização Mundial de Saúde.
³Fundação Perseu Abramo.
4Fundação Perseu Abramo.
5Fundação Perseu Abramo

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Menina Que Roubava Livros – Pássaros subtraídos no grande mistério de existir.


Recentemente, como faço todos os meses, estive em uma livraria para atualizar-me dos lançamentos. Um mês depois, ganhava de presente o livro por ocasião da minha formatura e devo dizer que foi um dos melhores livros que já ganhei. Este livro – na minha modesta opinião de não-especialista - está fadado a se tornar um Clássico de nosso tempo.
Mas vamos por partes - como diria Jack, o Estripador.
Falando um pouco mais sobre o livro em si. Para resumir, conta a história de uma menina que, após ver seu irmão morrer nos braços da mãe, é deixada aos cuidados de um casal alemão residente na Rua Himmel, área pobre da cidade de Molching, próxima á Munique.
Só que a Alemanha está em guerra neste momento. A violência é espetacularizada.Uma sociedade inteira adoece moralmente. A Morte-narradora não para de trabalhar. E a menina em questão re-encontra um sentido para a existência nos livros que “rouba”.
Só nesse pequeno resumo, podemos perceber que residem neste enredo várias metáforas que falam a nós todos individualmente. Sabemos, por exemplo, que em todas as guerras são as crianças, especialmente as meninas, as maiores vítimas. Mas esta menina em específico “enganou a morte três vezes”. Recusou a condição de vítima, e se o meio social em que estava inserida lhe roubava paulatinamente o sentido de dignidade da condição humana (o amor materno, a possibilidade de empatia e compaixão e o sonho), ela os “roubou” de volta através dos livros.Nos termos sartrianos – lembrando que Sartre escreve na mesma época da narrativa do livro, ou seja, 1933/1947 e depois -, vivendo uma situação - limite, viu-se obrigada muitas vezes a fazer escolhas e á afirmar sua liberdade radical. Ela se arrisca para roubar um livro proibido das chamas. Ela sabe esconder um judeu no porão e assume junto com família este risco. Ela assume seu afeto por este mesmo ser - humano judeu. Em vários sentidos ela é uma contraventora, porquê recusa a desumanizar-se.
Na verdade, todos os personagens do livro parecem atuar na mesma direção. Na recusa em desumanizar-se. Rudy Steiner, o melhor amigo, por exemplo, admira o jogador de futebol negro Jessé Owens e se recusa quotidianamente a conformar-se ao “emparedamento pedagógico” da Juventude Hitlerista. Hans e Rosa Hubermann, um casal que abriga, adota, protege e esconde ao longo do livro inteiro pessoas destinadas a serem párias:a própria Liesel (filha de comunistas “desaparecidos” na Alemanha), e o judeu-do porão, Max Vandemburg. Na verdade, todos eles recusam um destino pior que a Morte, que é a Morte da alma, o agnosticismo moral aliado á um gosto perverso pela violência gratuita. Mas Liesel têm um “quê” á mais. E eu penso ter visto uma pista do por quê. Lembrando: se para o mesmo Sartre, a liberdade no plano puramente pessoal é uma realidade ilusória, pois que ela se afirma apenas “no engajamento em projetos voltados para interesses humanos comunitários” então podemos afirmar que é no momento em que Liesel passa a ler nos abrigos antimísseis e reafirma seu compromisso com a história que ela passa a levar a “marca distintiva” de uma sobrevivente. As palavras não são mais apropriadas individualmente, “roubadas” para puro deleite pessoal, mas compartilhadas para trazer alívio em momentos de angústia. Logo, para mim, não é quando ela “rouba” mas quandoo passa a escrever, que ela acaba reencontrando um sentido para sua existência. E as palavras de Liesel (assim como as de Max Vandemburg, o judeu do porão), se tornam mais que um apelo para a paz. São suas sementes.
Eis o primeiro motivo pelo qual considero este livro um clássico de nosso tempo. Porquê fala ao nosso íntimo, aborda com sensibilidade e simplicidade grandes questões: O que é a Morte? O que é a vida?Como trazer sentido à nossa existência?
A última questão, á primeira vista, parece até simples demais. “Um projeto de vida orientado pelo compromisso com a história” (pelo menos dentro da leitura sartriana). Mas esse compromisso com a história passa pela compreensão de nosso momento histórico. E como poderíamos caracterizar o momento histórico em que vivemos?
Comentei das minhas visitas á livraria porquê (e talvez seja só impressão) me parece que “virou moda" ou, melhor dizendo, "filão editorial", livros romanceados ou relatos mesmo de Guerra. Um exemplo: vi num mês ser lançado um livro sobre a convivência de um jovem casal e um cachorro. No outro mês, vi o mesmo livro com outro ao lado. Não era do mesmo autor. Era o relato de um soldado na Guerra do Iraque... e seu cachorro. Claro que o fato em si não é bom nem ruim. Isso só me parece sintomático.
Sintomático no sentido de significativo de algo.
Mas eu diria que mais gente concorda comigo de que a marca de nosso tempo histórico é o Medo.Claro que não apenas pelo que se vê nas prateleiras das livrarias, mas em qualquer lugar que se vá, escolas, bancos, praças, filas de ônibus, portas de fábricas e empresas, a violência está sempre na pauta do dia. Se andamos hoje “Com A Morte na Alma ” – ainda parafraseando Sartre – realmente o autor têm razão. É bom ouvir quando “Ela” sai de seu mutismo habitual. Esta, na verdade, é uma das “sacadas” mais inteligentes do livro e que entrega toda sua intenção. Não é um livro sobre o quotidiano na Alemanha nazista, durante a IIª Guerra Mundial.
A violência (e a morte, por conseqüência ocasional) se apresenta como grande questão do início do Terceiro Milênio. E não é difícil saber porquê. Segundo Eric Hobsbawn (2002) o século XX foi marcado pelo maior número de mortos ou abandonados á morte por decisão humana (cerca de 187 milhões). Este é o momento histórico das três grandes guerras (incluindo-se a Guerra Fria), mas também do ascenso de grandes utopias. Porém, quando este século começa a chegar ao seu final, o balanço não é lá muito favorável. A humanidade não padeceu apenas em guerras, mas como resultado de uma desigualdade social e econômica que agravou os quadros de miséria e pobreza. O desenvolvimento científico e tecnológico nunca foi tão acelerado, mas, ao mesmo tempo, o controle para a manipulação de informação, o impacto das agressões ao meio ambiente e a intensificação violenta dos mecanismos de controle social, levou-nos, num primeiro momento, a certo “agnosticismo moral” característico de populações que vivem em “Estado de Exceção”... ad eternum.Como resultado,ao longo das últimas décadas, estetizou-se a violência e banalizou-se o conflito. Os grandes conflitos mundiais ganharam novos contornos: se tornaram mais regionalizados e "videogamezados", e se antes os genocídios tinham justificativas racistas e espúrias...Hoje, já em pleno século XXI também é assim. Só que sem o esteio de Grandes Utopias. Só Grandes Ambições Imperialistas, mesmo. E se antes ninguém tinha vergonha de se autoproclamar mais civilizado, mais digno e "superior" aos outros, hoje o racismo se reflete, por exemplo, no descaso ao se discutir o número de baixas civis "aceitáveis" numa guerra seja ela fria ou quente. Um exemplo extraído no livro A nova Face do Império :
“Em 1996, Madeleine Albright, na época embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, ao ser questionada se valia a pena pagar com a morte de 500 mil crianças iraquianas em função do impacto das sanções sobre o Iraque, respondeu: “Achamos que o preço é justo”.
E se a Literatura reflete as condições subjetivas de uma época, um processo histórico e seus matizes ideológicos e culturais, então a nossa época parece se caracterizar (pelo menos do ponto de vista literário) como eivada por um "Imaginário de Guerra".
Então aqui está o segundo motivo pelo qual eu afirmo que este livro está fadado a ser um clássico: porque, mesmo tendo sua narrativa situada no período que atravessa a Segunda Guerra Mundial, ele fala de uma questão relevante ao nosso tempo.
O terceiro motivo já aparece no segundo. Têm a ver com a clássica pergunta “O que fazer?”. É claro que frente á tudo isso, o que resta a todos os outros, que não estão em guerra e não decidem nada (ou pensam que não), é no mínimo um grande mal-estar. Eu disse no mínimo. Porquê mesmo a sensibilidade estando embotada frente á violência quotidiana, o ser humano insiste em ser...humano.
Este é um livro que não fala exatamente de ações coletivas para o enfrentamento de problemas coletivos. Fala de pessoas que individualmente se rebelam e subvertem o sistema... dentro de suas possibilidades.Aqui transcrevo literalmente uma passagem do livro da amiga Flora Bojunga Mattos :
“Efetivamente, o que importa ao coletivo é a atitude e ela é sempre individual. Cada uma das pessoas que segue em procissão coletiva optou consciente ou inconscientemente por estar ali. Algumas tiveram a oportunidade de escolher, outras talvez poucas chances, mas uma grande maioria seguiu como parte do rebanho por medo ou por não acionar a tempo sua capacidade de decisão. Não há modelos a seguir.”
(Mattos, 2007, p.73)
E se é assim mesmo, então temos que recriar saídas coletivas,penso que preferencialmente com ações coletivas, mas também e inicialmente em nossas ações individuais. Elas devem rimar com nossos princípios morais e com os projetos sociais que almejamos. A essa coerência chamamos de ética e talvez certas atitudes quotidianas sejam mais convincentes do que a eterna acusação aos nossos políticos medíocres, incompetentes e corruptos.
Mas esta é apenas uma parte do que estou chamando aqui de terceiro motivo. Pense que o contrário da Morte não é a Vida. O contrário da Morte é o Amor como a própria palavra denuncia (do latim A Mors: “não morte”). Liesel sobrevive porque comove e impressiona a própria. O motivo? Bem para deixar mais claro, conto uma outra história que ouvi certa vez e graças ao Grande Oráculo (GOOGLE), consegui descobrir que pertence á Marcelo Viñar e está no livro Exílio e Tortura. Mais ou menos assim. Sofia ia todos os dias visitar o pai na prisão. Seu pai era preso político. Seus desenhos eram analisados e, por fim, era dada a permissão de entregá-los. Um dia, a senhora que revistava e analisava os desenhos passou uma caneta esferográfica preta em cima. O desenho tinha andorinhas, que prenunciavam a chegada da primavera. Ela disse, para justificar a atitude: “é proibido entregar aos presos desenhos que tenham pássaros”. Pois bem, Sofia nunca mais desenhou pássaros. Um dia, seu pai notou que seus desenhos tinham árvores, e no meio dos galhos, vários círculos em branco. Ele perguntou o que era: “pssiiiiiiiuuuu, são os olhos dos passarinhos que a moça não gosta...”
Liesel e Sofia são na verdade a mesma menina e, são também, as humanidades. E se alguém já definiu a violência como o fracasso da palavra, elas sorriem e ocultam seu segredo óbvio, querendo provar que sim, mais que possível é absurdamente necessário insistir e fazer reviver pássaros e liberdades apaixonando-se por elas (as palavras) e se isso não for mais possível...re-desenhando pássaros roubados.

MENINA QUE ROUBAVA LIVROS, A
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrinseca
ISBN : 8598078174
ISBN-13: 9788598078175
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2007 - 500 pág.
( release da editora)
Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história, em 'A menina que roubava livros'. Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar formas de se convencer do sentido de sua existência. Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona-de-casa rabugenta.Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um livro, 'O manual do coveiro'. Num momento de distração, o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram esses livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde aplicadas ao contexto da sua própria vida, sempre com a assistência de Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é a nossa narradora. Um dia, todos irão conhecê-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos.
Tem que valer a pena.

Trechos
É muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é necessariamente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo.Bem, estou aqui para lhes dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.
UM ANÚNCIO TRANQÜILIZADOR
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta...
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado.


Enquanto trabalhava, ele ouvia as palavras sussurradas de uma menina. “O cabelo dele”, dissera Liesel, “parece ser de penas.”
Ao terminar, Max usou uma faca para furar as páginas e amarrá-las com barbante. O resultado foi um livreto que dizia assim:
Toda a minha vida tive medo
De homens velando sobre mim.

UMA VERDADEZINHA
Eu não carrego gadanha nem foice
Só uso um manto preto com capuz quando faz frio
E não tenho aquelas feições de caveira que voc~es
Parecem gostar de me atribuir à distância
Quer saber minha verdadeira aparência?
Eu ajudo.Procure um espelho enquanto continuo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

My Fairy Lady


- Professora, por que você tatuou “isso”?
-Hmmm?
-Por que...
- Ahn... tatuei em 1996, há mais de dez anos portanto. Acho que na época tinha haver com uma fase que eu estava passando.
- Ahn...parece um coelho.


Bem, ás vezes a gente não precisa mentir. Só dizer uma meia verdade. Mas fiquei com remorso mesmo assim. Afinal, mesmo meus melhores amigos nunca me perguntaram isso. Acho que é porque os amigos não precisam “te conhecer bem”. Eles te aceitam como você é e só. Minha família foi rápida no julgamento: “coisa horrível, parece um anjo cagando!”, “herrr...por que estragar aquilo que fiz com tanto carinho”, ou ainda “qual a necessidade de se marcar como o gado?” Parece incrível a você que em pleno século XXI ainda tenha gente que se exprima dessa maneira diante de uma simples tatto? Pois é...para mim isso prova de que em certo sentido a gente consegue regredir na história (pelo menos no que concerne á mentalidade).Fora o silêncio. Você vai lá, passa por um momento de dor excruciante apenas para criar uma pequena arte no seu corpo – no meu caso pequena mesmo – e a pessoa se dá ao direito de ignorar seu sacrifício e não tecer comentário algum, só franzir o cenho. É como ser tatuada de novo. Sabe, ás vezes não entendo porque as pessoas têm tanta dificuldade em transmitir uma opinião positiva....
Agora pense no acidentado transcurso da História Humana.As tattos sempre estiveram presentes. Não quero me estender em detalhes históricos porquê sei que isso qualquer um acha nos modernos oráculos: “Google” ou “Cadê”. Mas é o óbvio.Os motivos que norteiam nossa escolha em fazer tatuagens hoje são praticamente os mesmos de sempre.Explicando... Na maior parte das sociedades humanas, as tatuagens serviram como signo identitário indicando pertencimento a certo estamento ou condição social. Você pode pensar nas tatuagens feitas pelos Japoneses em seu período feudal ou ainda nos marinheiros de todo o mundo. Enquadram-se nestas categorias respectivamente. E/ou ainda, como símbolos de um ritual de passagem, um momento que precisa ser marcado na pele e que é a marca social do fim - e de um novo começo – na sua existência. Você pode pensar nos índios brasileiros Rikbaktsa no Mato Grosso ou ainda, nas complexas e delicadas tatuagens de henna tecidas nas mãos das noivas de certas partes da Índia. Ampliando seus horizontes de conhecimento, você perceberá que existem tatuagens específicas nas antigas religiões celtas tanto quanto nas religiões africanas tradicionais. Se você não gosta do aspecto “antiautonomista” das tatuagens, não fique tão preocupado. Há muito tempo que nas sociedades ditas “modernas ocidentais”, a equação tatuagem = pertencimento não se realiza muito bem. Claro que sempre vai existir aquele rapaz ou moça que tatua o nome da namorada e depois se arrepende.Mas e daí? Se ele, em tese, só pertence a ele mesmo, então têm o direito de “se doar” a outra pessoa, ou não?
Enfim disso isso tudo apenas para afirmar que a minha tatuagem pertence mais ao segundo tipo do que ao primeiro.

Sendo assim...

Mas por que não responder a esta minha aluna, que afinal só quer saber um pouco melhor quem eu sou já que já foi esclarecida de para que eu sirvo( e parece ter mais clareza disso do que eu mesma as vezes)? Talvez por timidez. Talvez por aquiescer (mesmo que inconscientemente) com certos preconceitos sociais, e temer influenciar em uma decisão tão importante. Talvez porque ela não fosse acreditar mesmo. Mas só para você, vou tentar começar...

Era uma vez...
Num tempo não muito distante, em que os dias e as noites se confundiriam com uma freqüência cada vez mais alta, floriam possibilidades que eram colhidas um pouco a esmo e murchavam em menos de uma semana, e em que se podia ouvir um disco “inteirinho” apenas por prazer,e não apenas usá-lo como música de fundo...
Num lugar em que as pessoas não se sentiam bem parte de algo, ou alguma coisa como clã ou tribo nem mesmo pólis. Pessoas com um raso sentido de pátria procuram frátrias. E ocasionalmente encontram.
Era o caso da mocinha desta história. Não era uma princesa, nem uma “modesta camponesa” e tampouco uma “pobre órfã”. Seu horizonte ainda possuía certo verde, mas nada assim...como morar numa floresta. Tinha dezoito anos mas bem no fundo era só uma menina. Que se sentia sozinha. E tímida. Mas ela sabia que não podia ser assim, tímida. Nem emotiva.Arredia também não.O máximo a que se permitia era ser um pouco sensível. Isso podia ser útil.E de certa maneira era maravilhoso viver assim, fingindo ser outra pessoa, porquê se a vida era uma festa, todos os dias saudava-a num brinde.

Á família.
Á causa.
Aos amigos.

Desculpas com as quais ela blindava toda a possibilidade de ser. Na verdade neste lugar em que as pessoas eram facilmente rotuladas. Ela fugia de um em especial. Frágil. Porquê é horrível ser frágil. Assim como pode ser angustiante ser livre.
Num estranho exercício, ela saía todos os dias e conversava com muitas pessoas. Sorria sem vontade. Apertava com força mãos inimigas. Traía, sem muita convicção nem prazer, aliados que se sabiam ocasionais.Quando baixava os olhos, pedia sossego ao bichinho que, dentro de si, queria fugir e sonhar. E quando abria a boca, conclamava a luta... e ao sonho.
Um dia, aquele bichinho estranho que ela alimentava em sua jaula confortável á pão e vinho começou a dar mais do que pequenas demonstrações de vida. A jaula era seu peito. O bichinho, ela mesma (em sua forma menos sociável). Ela pensava que se conhecia. Pensava naquele ser como apenas uma parte de si mesma. Alguém que não gostava de muito de festas e que justamente por isso, não valia a pena convidar para ir a lugar algum.Desagradável, não apreciava todo o tipo de música. Não gostava de muita coisa que TODO MUNDO adorava. Como videogames. Ou certas pessoas. Ou certas maneiras de se vestir. Amava o silêncio. Não suportava se sentir tocada por ninguém e segurava com esforço as reviravoltas que lhe davam no estômago os beijos melados que certas pessoas insistiam em estalar nas suas bochechas.Justamente por isso, nem valia a pena apresentar para alguém. Essa espécie de ser só era livre em dois lugares. Numa rodinha de violão. Ou quando dançava no escuro.. Essa...criatura por assim dizer, gostava fundamentalmente de quatro coisas.



A Trilha que atravessava
A Floresta que levava á
Praia onde ficava o
Acampamento e o Mar.

Ops! Cinco! Só que você pode substituir a palavra Acampamento por Música.Mas era isso mesmo. Fundamentalmente cinco.

Um belo dia...

Essa criatura quis sair. Conhecer um pouco mais além, trilhar novos caminhos, sair daquela jaula e ir para outro lugar. Se imaginou como sendo muitas coisas mais.Ao mesmo tempo, queria saber quem era. E quis conhecer um espelho, para ver como se parecia.Esse desejo não era insensível ao peito que o abrigava
A menina começou a sentir algo coçar pouco acima do seio esquerdo. Pensou que fosse qualquer outra coisa. Que passaria em uma semana.
Não passou.
Foi ao médico, que lhe passou muitos exames. Depois transferiu para outro médico.Mais exames. E mais outro e mais outro até que cansou e disse que não tinha mais tempo.
Não adiantou.
Agora estava insuportável. Fugia todos os dias para dançar sob a tempestade no terraço de seu prédio, bem ao lado dos para raios, com os pés cobertos pela chuva torrencial. Se isolava cada vez mais em torres de Romances históricos e de cavalaria. Sumia de compromissos importantes para tomar sorvete, conversar com cachorros e gatos ou rondar parquinhos infantis como um animal faminto.Na verdade, ninguém notou. Para todos era como se tudo estivesse normal. Eu disse que agora era insuportável? Pois é...
Não suportou.
No dia mais crítico, viu uma bolha vermelha inchar exatamente ali, em seu peito. Parecia mais uma alergia. Subia até o pescoço. Coçava, ardia, incomodava. Agora já não podia ir a lugar algum. Como se mostrar assim? Tentou arnica.Melhorou só um pouco. Mas ali no peito, onde tudo começava, ficou um formato em relevo.Parecia uma larva vermelha. Assim já era demais. Não dava para continuar. Então, fechou os olhos.
E tentou.
....

-Oi?
-...
-Oi?
-...
-Você quer sair, é isso?
-Não.
-Não?
-Não.
-Então...
-Eu tentei, mas não posso...
-Como assim?
-Não existo á parte de você, eu sou você.Também.Assim como tudo o que você vê.O sol, a lua, as montanhas, as estrelas, a violência, a miséria, a ausência, as pessoas...tudo isso subsiste aqui, em seu peito.
-Mas...
-Como?
-Sempre têm um mas...
-...É...verdade. Eu queria me conhecer melhor também. Busquei sair daqui para ver um espelho.
-Hmmm.
-Eu sou você também. Mas você têm companhia o tempo todo. Eu sou ignorada a maior parte do tempo. Por você. O que é equivalente á dizer, por mim mesma.
-Sei...olha, não é bem assim que funciona.
-Não?
-Não.Eu nunca lhe abandonei, talvez tenha ignorado por tempo demais suas necessidades. Só isso. Não, algo além....
-O que?
-Acho que o que você precisa não é de um espelho...
Abri a porta da jaula.
-Pronto! Use suas asas para alcançar o sol, a lua, as estrelas, os vales e as montanhas, e os sorrisos em meu peito. Mantenha-se ao máximo longe dos abismos, e vulcões e garras que aqui também subsistem. Essa é a primeira parte.
-Primeira parte?
-É. Falta a segunda parte. Deixarei você livre, mas você precisa de um pouco mais na verdade. Mas só farei isso mediante acordo.
-Você e seus acordos...
Contou o acordo. Ela aceitou. E assim ambas foram ao tatuador mais próximo. Disse:
- Aqui esta o estigma de que lhe falei. Nem quero saber a opinião do dermatologista. Trouxe um desenho. Cubra esta marca feia.
Ele acreditou. Pensou estar encobrindo. Na verdade, estava revelando...
Uma pequena fada, com seu corpo nu encimado por lindas asas de borboleta e seu rosto eternamente encoberto pelos cabelos. Oculta a promessa.
Era a segunda parte do trato.
E ambas viveram assim, unidas e felizes para sempre. Hoje a pequena crisálida que existia aprisionada na jaula, já completou seu processo e se tornou a fada que estava projetada para ser. Pelo desenhista-tatuador. Hoje a menina já se tornou mulher, e ainda mais, compreendendo-se em unidade com a natureza e as pessoas. Porque se tudo o que existe esta também em mim, tudo me afeta. Parou de se ver como uma mosca presa a uma teia de acontecimentos sucessivos e passou a se perceber mais como uma parte de um Universo pulsante. Dançando em seu ritmo- só que de olhos abertos
.



É. Minha aluna não ia acreditar mesmo!
Mas talvez eu devesse ter dito outra coisa.E se eu dissesse “Tente ver esse desenho como uma insígnia. Uma mensagem que se aplica não só a mim, mas a Natureza e a Humanidade?”

- “Cuidado! Frágil!”-

Será que ficaria mais claro?



domingo, 23 de setembro de 2007

Ciranda Maldita



Contemplo o mar do alto dos rochedos
As cinzas que o vento traz
São cinzas dos ancestrais
Que fazem arder os olhos
Que grudam nos meus cabelos.

Onde ela vai?
Onde ela está?
Onde ela cair
Não vai levantar...


Trouxe ao vale calcinado – lágrimas quentes
Faço escorrer destes cabelos, venenos olentes
Faço o incêndio correr pela campina amarga
Para ver brotar os guerreiros
E crescerem os reinos... como chagas.

É a moça mais bela
Da pequena aldeia
Dança sobre as brasas
Quando a lua é cheia.


Ninguém quis ouvir quando eu disse – eles já vão chegar!
Eu segui gritando contra o tempo... mas insensíveis
Acorrentaram-me nos ermos findos de algum outro lugar
E só por isso sobrevivi...aos nossos sonhos impossíveis!

Ela foi embora
Não vai mais voltar
Morta ainda sonha
Na beira do mar!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Marketing Popular...

A poesia abaixo faz parte de um projeto que casa poesia com política das ruas, combinando as expressões expontâneas de arte e resistência populares.
Quem quiser saber mais entrar em contato com pablo@sarcastico.com.br
Abs

E nos muros o Marketing Popular!


Foto de Ginga Vasconcelos/
Pablo Mizraji para o projeto "Marketing Popular"





Há quem fale em mudar o mundo
Há quem queira domar as ruas
Há os que clamam: "Vote Nulo"!
E os que refletem: "A culpa tua"

O pensar ingênuo da mulher nua:
"Por que não posso pisar na grama?"
têm a rúbrica cáustica, a marca oculta
de quem não paga o preço - mas têm a fama!

Comunicam "Greve!", "Fora!", "Cristo te Ama"!
Resistem em negro: "Não pagaremos"...
Atestam ser possível caminharem às ruas
Quando de um lado a outro nos movemos!

Nessa algaravia das vozes mudas
uma das que mais marcou - ou a que mais me agrada -
é a que fala em Sistemas vários (e vacas)
e manda enfim louvar as prostitutas!

Lua Nova.


Foto de Mathew Handelmann


Lua Nova
Selo de Clausura
Encerra os mares
Rompe as represas do desejo.

Lua Nova
Impura segue.
Acoberta teus amantes
Cicatriza teus segredos!

Lua Nova
Banhada em sangue.
Em teu silêncio assassino
Tilintam risos de criança

Lua Nova
Tua escuridão macia
Confunde no mesmo desatino
Promessas de paixão e de vingança.

Contra a Parada da Diversidade... os carros?


Foto de Rodrigo Miro.
Têm coisa que realmente não dá para entender. Quando eu, cidadã brasileira, 29 anos, negra bem-resolvida, saio da minha casa, com mais um casal de amigos e minha afilhada de nove anos para ir a uma Parada de Apoio a Diversidade e Orgulho GLSBT (Gays, Lésbicas, Simpatizantes, Bissexuais e Transgêneros), encontrar com minha mãe que já está lá com seus amigos – num lindo chapéu de arco-íris - realmente não espero que todo mundo concorde com isso.
Penso imediatamente em Igreja. Penso que um Padre ou um Pastor poderia ir a TV se manifestar contrariamente. E que logo ia aparecer um outro alguém e lhe lembrar que a Igreja esta sempre condenando alguém ou cometendo atrocidades: os cientistas que foram perseguidos, presos e silenciados porquê suas descobertas contrariavam o que era dito pela Bíblia – Galileu Galilei que o diga - as mulheres porque detinham um conhecimento que deveria ser privilégio dos homens, ou talvez por uma questão de redistribuir as terras e combater o protestantismo, qualquer coisa assim que nada têm a ver com DEUS, os índios que precisavam ser "educados no evangelho" ou ainda, traduzindo: expoliados, roubados, "amestrados á cristandade", os negros e negras porque mereciam ser escravizados, já que não possuíam alma mesmo...enfim, os homens e mulheres por amarem outros homens e mulheres porquê afinal, segundo eles, isso é perversão e desobedece a vontade divina: “crescei e multiplicai-vos”. Como diria Robin: “Santa Paciência!” Fariam melhor se combatessem a pedofilia (ás vezes homoerótica) entre suas próprias fileiras.
Certa vez me perguntaram assim: “Ah, é? E porque Deus não criou Adão e Ivo?” Bem, se você estudou um pouquinho, sabe que DEUS, se criou um “plano de base”, então ele só criou ...Eva! Adão veio depois porque a Natureza – Deus por conseqüência – ama a DIVERSIDADE. Adão não é fundamental a reprodução dos pluricelulares, só Eva. Mas se só tivéssemos Evas seriam tod@s iguais a ela, e isso de ser estereotipado não é coisa de gente que evolui no tempo e sobrevive, sabe? Não sabe do que estou falando?Estude um pouco mais, isso é genética básica.
Só que enfim, não foi o caso! Aliás, parece que DEUS e São Pedro – de modo geral tão conservador politicamente - fez aparecer um dia magnífico, com brisa suficiente apenas para fazer tremular as bandeiras, mas não para “esfriar” o entusiasmo de drags, trans, “gogo – boys” e homens e mulheres “abusad@s” de todas as orientações.Opinião pessoal: vida longa ao “gogo-boys”! Que Deus continue lhes emprestando saúde para que sejam sempre a alegre manifestação do Divino!
Penso depois que poderia haver uma manifestação contrária orquestrada pelos “aparelhos ideológicos” - ou ainda os repressivos – do Estado. Que nada! Não houveram provocações arbitrárias originadas por “agentes contratados” (como no caso da Manifestação pela Redução de Tarifas e outras), os Templos de Conhecimento não se pronunciaram publicamente – no máximo nos recintos sacros de sala de aula - e se a polícia estava lá foi realmente para garantir o normal transcurso dos acontecimentos. Não vi roubo, não vi violência, me contaram de uma briga, mas me disseram também que foi habilmente contornada pelos que estavam no carro de som.Uma briga? Cara, tinha seguramente 40.000 pessoas lá! Não acredita? Faça as contas! Quem estava lá viu que a passeata, vista de frente para o trapiche, alcançava além da primeira curva da Beira Mar e chegava mais ou menos na altura da segunda pracinha. Isso dá mais ou menos 6 KM. Se a polícia calcula 6 por m², então, com honestidade deveria ter dito: 36.000 pessoas, para mais ou para menos. Trinta e seis? Então para mais! Fácil assim! Aliás, haviam representantes do legislativo, políticos profissionais ou não para todos os gostos, um verdadeiro Arco-Íris ideológico. Parece que, em tese pelo menos, esquerda e direita concordam com o Direito á União Civil. Talvez na prática a teoria seja outra, mas tudo bem, confio no povo! Sei que sempre sabemos quem está ao nosso lado e quem, de fato, só quer mesmo aparecer na foto. Parece que a classe política despertou para a realidade que se TODOS votam, então Homossexuais votam. E agora, orgulhosos de si, formam opinião também! Ponto para a democracia!
Agora, tenho que comentar certos discursos: Florianópolis não têm homofobia? É como dizer que Florianópolis não têm racismo! Cegueira mental! Quem é “gay” ou “lésbica” assumid@ e procurou emprego, ou ainda, simplesmente parou em frente á Concorde depois das 02:00 da manhã sabe do que estou falando.Quem enfrentou com coragem, ou quem calou por respeito á família também.
Então, quem se posicionou contra a Parada?
Talvez a “sociedade civil desorganizada”?Tipo assim... alguém que aparece, joga uma pedra ou tenta intimidar as pessoas para não comparecerem? Também não! Parece que quem não gosta de GLSBT tomou a sábia decisão de ficar em casa ou ir para praia! A sociedade amadurece, prevalece o bom senso, que já é melhor que o senso-comum! Tenho que comentar que vi muitas famílias, mãe, pai, titio, filhos e netos...a camada “S” está crescendo. Alguém aqui também poderia dizer: “sim, todo mundo gosta de circo...vão lá para rir dos freaks”. Talvez, sim... talvez, não! Pessoalmente, me senti comovida com a minha afilhada, querendo tirar foto com uma “drag” vestida de cogumelo cor-de-rosa. As crianças têm outra compreensão da coisa toda, e a moça terminou agradecendo. Humildade bela e rara! Se eu peço para tirar foto com você, eu agradeço, você silencia ou ainda diz “de nada”! Mas, não! Ali, ambas saíram agradecidas! Uma, pela beleza outra pelo reconhecimento! Isso é mais que significativo na formação de uma criança ...de um povo?
Então, quem? Ora, a mídia! Dando voz ao povo, á sociedade, á setores reacionários da Igreja, á setores reacionários do Estado? Bem, em princípio, parece que não. Parece, para quem ouve, que o problema é que o “sagrado direito dos carros” , de ir e vir, foi atingido de modo quase fatal! Estranho, isso! Porque na mesma matéria do RBS TV noturno que fazia a crítica dos “absurdos engarrafamentos”, noticiava-se mais um gigantesco engarrafamento na BR 101. Só que na segunda-feira! Engraçado, não tinha Parada nesse dia! Então como diz o amigo carioca “qual foi merrrmão....”
A crer em RBSTV, SBT e outros, o problema agora é só o trânsito! Mas fica a pergunta que não quer calar: quando têm jogo Havaí e Figueirense, que empaca a vida de todo mundo que mora no sul e no leste da ilha, alguém reclama e vai para TV se dizer indignado...com o jogo? E os campeonatos de pesca, na mesma Beira-Mar? E o Iron Men? Ah...é que de Homem de Ferro ninguém pode dizer nada! Tá bom! Sei!
Quer dizer que agora, carro fala, pensa, têm sentimentos e até direitos? Não? Pois é, porque aquelas 40.000 pessoal que foram a Beira –Mar celebrar e/ou marcar um advento político, têm! E os donos dos carros? Ah, gente, para com isso! Então fecha a ilha, e põe para balanço! Existe mais de um evento que acontece na Beira –Mar que tranca o trânsito! Porque este foi alvo de tantas críticas? E agora querem fazer as próximas Paradas acontecerem na “Nego Quirido”, como? Com que espaço? Aliás com que objetivo, senão jogar “de volta para o gueto” o que não se aceita?
Só uma resposta, aliás palavra de ordem repetida em 9 de dez discursos proferidos nas 5 horas de evento:
Homofobia é crime!



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terça-feira, 4 de setembro de 2007

E você ainda pergunta porquê tenho insônia...


(Foto:

Fernando Bizerra Jr./EPA)In Público de 15/5/05





E você ainda me pergunta porquê tenho insônia. É fácil falar.

Tanta terra, tanta riqueza, tanta gente boa...só pode ser má vontade. Reclamando sempre e agorasem querer mais dormir, nem acordar. Lembra do samba "não existe coisa mais feia, que gente que vive chorando de barriga cheia?"

-Pois é, meu amigo! Com a língua é muito fácil e pimenta no dos outros é refresco.
Olha para mim direito!Você conseguiria mesmo?Então tá! Deite aqui ao meu lado, então! Sentiu?Essa ferroada, esse aguilhão que quando mal me viro, tranpassa? Esse ainda doi na carne "de cor",por força de orgulhos e preconceitos de raça...ainda hoje é um massacre! E já que insiste, talvez não tenha notado...não é só de suor que o colchão está encharcado! Sentiu o cheiro? É claro que é sangue!Pois aí estão também seus queridos imigrantes.Já são milhares de sem-terra, sem-tetos, sem-perdão. E ainda em correntes, meu amigo! Quer saber, mesmo? Então saia da calçada e entre na contra-mão...

- O que é isso?Ouviu?
(sobressaltado)
-

-Isso? Você não conhece? São ratos! De tão gordos, mal conseguem consigo mesmos. Mais parecem cobras de tanto andar "de rastos". Boa parte deles cegos, nem tocas têm, dormem á esmo.É muita comida, papel para eles é pasto! Por isso esta cheio deles aqui. Mas anda,se acalma que isso logo acostuma.Vai dormir!Esses documentos nunca irão chegar mesmo ao Arquivo Nacional! Ou a Corregedoria...Comissão Parlamentar...o Escambau! ( ri galhofeiro, acaba tossindo). Você é tão orgulhoso que mesmo tremendo ainda que me olha com desdém! Eles fazem o que é de sua natureza, só isso. E já nemagüentam tanto. Por isso, ás vezes, devoram as pessoas também...

- Os ratos?
- É claro que não! Deixe em paz o pobre Rato.Só faz o que lhe mandam. Aquele ali também faz, e o nome dele é Sapo! Quando acontece qualquer coisa que não pode chegar aos teus nobres ouvidos então ele coaxa, coaxa, cria grande alarido! Faz uma balbúrdia dos infernos. Depois vai acalmando, silencia,e a gente fica se perguntando; "Do que coaxava mesmo?" E lá vêm ele agora. Daqui a pouco, chama
os amigos e esse brejo aqui vai virar uma festa!Enquanto isso, aqueles outros de que falei só se afundam, mais e mais. Você, é claro, chama isso de Imprensa. Eu, por outro lado, de empulhação!Vamos, eles estão até quietos essa noite, vá dormir!

-Estou procurando o travesseiro!
(um pouco irritado)


HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
(gargalhada meio forçada, ligeiramente insana)

-Travesseiro? Que é isso meu amigo? (debochado) Já foi, "latinha","Não te pertence mais!Bábáu...privatizaram!Na maior cara-de pau!Tudo que existia para amansar a carne fatigada do povo brasileiro esta indo, ou já foi correndo, pagar a dívida, engordar a pança ou os barris de pólvora de algum país qualquer lá no estrangeiro. Vejo cada um, mesmo!

-Será que dá para comprar de novo?-

- O que me roubaram? Talvez sim, talvez não...

-Meu Deus, e esses gritos horríveis, é assombração?-

-Isso eu não sei nem nunca soube. Eu que não me aventuro a levantar...não é que acredite muito nessas coisas...mas...sei lá! Pode ser a Candelária, a Bahia, o Morro do Alemão, Carajás...eu não ouso dizer que tanto faz! Mas...

-Mas...e agora?
(a voz do outro já esta sufocada, parece que as sombras vão se adensando, criando formas incríveis, grandes presas, longas unhas...)
-

- E agora? Eu é que sei? Na verdade faz tempo que não vejo lá muita opção.Você pode querer alguma coisa comigo (sim, eu sou até bem facinho),você pode ficar aí gritando ou ainda tentar levantar.Para mim, veja bem, tanto faz. Eu é que não vou enfrentar aquilo que está bramindo lá fora! Se for você, vá de uma vez. Diga a sua mãe que lhe estimo as melhoras. Quero ver o amanhecer mais lindo...talvez de um novo tempo (diz isso meio delirante, meio sorrindo).

-Você esta com febre!

-Sim! Há muito tempo que me sinto assim, meio doente.Tenho sede...muita sede.
(suspira bem baixinho)

...Justiça...

(silêncio)

Tiritando de frio, terminam por adormecer abraçados, ainda que com um olho aberto e outro fechado, enquanto ao redor cresce um grande pesadelo. Cobertos até a cabeça , encolhidos sob a bandeira nacional, permanecem ainda trêmulos e em paz!

domingo, 2 de setembro de 2007

Minhas mãos



Imagem de Nicolas Larguilliére

Minhas mãos já não dançam, cantam
ou pretendem sorrir
jazem ao meu lado alquebradas
mas não acenam ao partir!

Mãos que não aquecem nem fremem
sem jeito frente ao desgosto
e, exato como meu rosto
também não sabem mentir!

Ásperas para o toque
Grandes para a aparência
Pequenas demais para a força
Frágeis para a violência!

Estas mãos, tão insensíveis
são assim, mãos ideais
para partejar os sonhos
para soprar as brasas
da cinza dos ancestrais!

Estas mãos tão desumanas
Não prestam para cozinhar
mas ainda assim, trazem alento
desenhando a rosa dos ventos
dos sonhos, do caos...no ar!


O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS


Esta não é minha, mas eu adoro...





O Poema das Crianças Traídas



Eu vim da geração das crianças traídas.

Eu vim de um montão de coisas destroçadas.

Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu.

Eu fui à tarefa num tempo de drama.

Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.


Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos.

Eu caminhei no caos com uma mensagem.

Eu fui lírico de granas presas à respiração.

Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba.

Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores.

Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra.

Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções.

Eu amei uma menina virgem.


Eu arranquei das pocilgas um brado.

Eu amei os amigos de pés no chão.

Eu fui a criança sem ciranda.

Eu acreditei numa igualdade total.

Eu não fui canção, mas grito de dor.

Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas.

Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste.

Eu fui a metamorfose de Deus.

Eu vasculhei nos lixos para descobrir a pureza.

Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo.

Eu descobri que são incontáveis os grãos no fundo do mar,

Mas são raros os que sabem o caminho da pérola.

Eu tentei persistir para além e aquém do ser humano, o que foi errado.

Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa.

Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado.

Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão.

Eu deixei um balde no poço para salvar o resto do mundo.

Eu nasci conflito para ser amalgama.


Eu sou da geração das crianças traídas.

Eu tenho várias psicoses que não me invalidam.

Eu sou o automóvel a duzentos quilômetros por hora



Com o vento a bater-me na cara

Na disputa da ultima loucura que adoeceu.

Eu sou o antimundo na medida em que se procura o não existir.

Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não limitação.

Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende.

Mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me.

Meu coração é um prisma.

Eu sou o que constrói porque e mais difícil.

Eu sou o que não é contra, mas o que se impõe.

Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura.


E quando arranca, arranca até a raiz.

E põe a semente no lugar.

Meu coração é um prisma.

Eu sou o grande delta dos antros.

Os amigos mais atentos são as águas que me acorrem.

Eu sou o que está com você, solitário.

Quando evito a entrega, restrinjo-me.

Quando laboro a superfície é para exaurir-me.

Quando exploro o profundo é para encontrar-me.

Quando estribo os braços e pernas na praça o não é alterável.

É para andar a galope sobre a não liberdade.

Sem bandeiras que indiquem norte qualquer

Avanço das caliças.

Sem ponte fixo a espera, nem lar de maternas mãos,

Ou rua de reencontro

Instalo os meus adeuses.

Sem credo a não ser a humanidade dos que nos amam e desamam,

Anuncio a catarse numa sintaxe de construção.



Eu escreverei para um universo sem concessões.

Eu saberei que a morte não é esterco

Mas a infinita capacidade de colher no chão menos adubado,

Que poderei sorvê-la como laranja que esqueceu de madurar,

Que serei o alimento para o verme primeiro da madrugada,

Que a vida é a face que se incorpora em forma de espasmo,

Que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente...

Eu quero um plano de vida para conviver.

Ostentarei minha loucura erudita.

Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos,

Eu manterei meu ódio a toda a arrogante mediocridade dos covardes.

Eu manterei meu ódio contra a hecatombe do pseudo-amor entre os homens.

Eu manterei meu ódio contra os fabricantes das neuroses de paz.

Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova

Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência.

Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores.

Eu me abastardarei da espécie humana.

Mas eu farei exceções a todos aqueles que souberam amar.

Lindolf Bell

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A Vendedora de Rosas.



Me aconteceu numa manhã de inverno muito clara, de uma alegria aguda como o frio que enregelava os ossos, o encontro com uma mulher que tinha nos lábios o sol do meio dia.

-Rosas para a moça sorridente, que fala sozinha!

Algo no seu sotaque de “erre” puxado ou no seu olhar de mil caravanas, me fez parar pelo gosto de cumprimentá-la.
-Bom dia!
Como descrevê-la em sua alegria por me ver ficar só por uns instantes? Momentos como esse mereciam ser congelados e armazenados em algum lugar, para serem doados gratuitamente aos suicidas. Nesta”caixinha” poderia estar inscrito: “por que sou feliz humano (a)”.
Mas talvez isso também não fosse bom. Talvez, se isso fosse possível, alguém quisesse possuir só para si, comercializar, ostentar-se com sua posse. E, como tudo que faz parte desse círculo, talvez perdesse algo do seu valor. Como as rosas que aquela senhora carregava, vermelho-sangue, amarelo – ouro, rosa-chá, tão belas e tão sem dignidade.
A avozinha era um caleidoscópio de luzes coloridas e ofuscantes. Sua imagem esquivava à definições, fluindo para as mãos macias que se abriam como asas ligeiras, estendendo diante de mim suas rosas.Para meu espírito em redemoinho, virou uma obsessão poder dizê-la. Pouco consegui, eu confesso! Eis alguns cacos...
À fragilidade de toda a sua ossatura (tinha ossos de pássaro) se somava a paralisia de uma das pernas, apoiada em também frágeis muletas. Seu sorriso dizia – “nove anos de idade recém feitos!” – mas as rugas ao redor dos olhos gritavam – “claro que não, tola! Uns cinqüenta!” – sendo que as marcas horizontais na amplidão da testa pareciam confirmar num murmúrio grave ambas as coisas. Imediatamente contestadas pelo brilho da tez morena cor-de-canela, gritavam os cabelos já brancos e reluzentes – “talvez, sessenta!” Dessa discussão não participaram: o nariz aquilino, as orelhas pequeninas como mimosas, os dentes tão pequenos e rosados que mais pareciam inexistentes na boca miúda de lábios finos rachados pelo frio e o próprio olhar, oblíquo, loqüaz e reluzente.... Eu me perdia em conjecturas. E num momento mesquinho, juro! Tentei sentir pena!

“ - Que faz essa vovó, aleijadinha da perna até, aqui neste frio a vender rosas? Cadê a família, cadê o Estado, cadê o Brasil que não vêm e a abraça?” A moldura da cena parecia das mais cruéis. No semáforo, sua beleza frágil, alquebrada e estranha competia com a uniformidade reluzente do aço e do concreto. Não pude evitar sentir raiva daqueles carros, daquele asfalto, daqueles olhares indiferentes por eles serem simplesmente isso, e não a casa, os netos e o chocolate quente com bolo que, no meu ponto de vista, toda vovó deveria ter!
Mas ela inverteu a situação, refletindo- do modo errado – sobre o brilho nos meus olhos que queriam já derreter num sereno de lágrimas contidas:

- A menina está apaixonada, pelos olhos dá para ver!

Parecia exultante ao afirmar isso. Não quis desmentir, no meu desconcerto recobrei a razão. A compaixão também é humilhante. Confirmei rápida para arrumar a desculpa que faltava:

- Sim! Quero rosas para enfeitar meu quarto esta noite!
Forcei uma gargalhada alegre. Funcionou!

-Pode tê-las por dez noites, se quiser – E sorriu maliciosa. Ah, segredos de mulheres - Corte-as pelo viés, assim...- e fez um gesto com os dedinhos magros e ligeiros em forma de tesoura – e mantenha-as na água gelada. Pode até colocar gelo. Tenho uma afilhada que deixa um jarro d’água na geladeira só para rosas. Os outros vendedores sempre me dizem: tola, por que conta? Não sabe que se não contar o mesmo comprador volta em três dias? Eu não quero nem saber. Conto mesmo!

A risada que brotou de mim soou mais espontânea frente a esse pequeno gesto de desobediência civil. Me senti identificada com ela. Pensei comigo – Sim, nós somos assim mesmo! Ferozes e desobedientes! Para que guardar para si um conhecimento que, no mais, sempre volta a nossas mãos multiplicado? Por espalhar meus segredos ao vento, mais de uma vez senti-me incompreendida também. Mas acho que entendi o motivo pelo qual ela faz isso, que é o meu motivo de ser professora também. Ela diz nunca ter perdido nenhum cliente desta maneira, pelo contrário, ganhou alguns que só compram com ela. Foi quando me surgiu um pensamento dissonante na harmonia dos sentidos:
“Estranhas flores estas que amam o gelo, como certos homens e mulheres, que ao carinho preferem o desprezo.”
Nossos olhos pareciam dançar juntos, mas eu senti vertigem com aquilo e quebrei o silêncio:

- Não têm brancas?
-Não, estão em falta. Em São Paulo é festa da Candelária. Mas veja esta, que bonita! Em doze anos vendendo rosas, é a primeira rosa verde que já vi em toda minha vida...
-Verdade! Quanto quer pela verde?

Antes que o leitor pense que se ela dissesse que as rosas eram azuis, eu imediatamente concordaria por força de simpatia, quero esclarecer que realmente era verde. Bem, não verde como a bandeira do Brasil, mas algo assim...mais sutil. Ela deveria ser branca, ou amarela, mas acabou ganhando o tom do chá de erva doce! E mais estranha ainda por não ter espinhos. Você vai dizer: “ah, está bom! Tinha cheirinho de morango também”?
Não, não tinha! Cheirava a rosa... verde!

-Quanto custa!
-Bem, essa e mais duas cor-de-rosas, por exemplo, eu vendo por cinco reais!
-Tá aqui!
-Muito obrigada, moça! Que Deus lhe dê muito mais! Paz, amor, alegria e dinheiro!
-Obrigada! O mesmo para senhora!

Segui para casa com a rosa verde esmaecida, ainda pensando nestas flores que brotam com toda força, como que de tinhosas mesmo, com raiva da terra crestada e do tempo ímpio. As rosas – alguém já disse – também são flores com deficiência física. E o segredo da rosa, também, é algo que todo mundo sabe. Não gostam da terra fofinha e adubada. Nascem melhores na terra crua e verdadeira. Preferem o gelo, mas sabem sorrir como o meio dia. E eu, que também nunca tinha visto rosa verde (e sem espinhos ainda!), comprei aquela especialmente por que seu perfume trouxe-me a lembrança de um tempo em que parecia mais fácil ter esperança...


P.S: Mais tarde encontrei uma moça que parecia ser ela, só que muito mais jovem e sem a paralisia. Ela me contou que não, não era sua filha, mas a conhecia e que “o governo, esses desgraçados, queriam tirá-la das ruas por ser idosa e deficiente física, por isso ela não aparecia mais junto aos outros, preferia trabalhar sozinha em lugares menos visados”. Saí com a sensação estranha de estar sendo enganada de alguma maneira...

Sympathy For The Devil.




Você descobriu meu nome
Desenhou meu símbolo e
Mais importante do que isso
Discou meu número
Porém nesse momento talvez não queira atender...
Ou talvez não possa
Mas deixe seu recado e verei o que posso fazer por você.”


- Secretária Eletrônica 20 de novembro de 2006 / Carmina Burana ao fundo –

BEEEEEEEEEEEPPPPP:

“ Há, há, há,há há.Esta foi ótima, boa mesmo!
Quando der me liga, viu? Amanhã é a festa...”

-D. Pan, melhor amiga maluca de D. –

“Que absurdo é esse agora, minha filha?
Tira já essa coisa horrível, tétrica, de mau gosto... e sem palavras para definir!
Olha, sua malcriada, só liguei para dizer que amanhã vou passar na tua casa para pegar a chave e entregar para o encanador e ver se você não esta precisando de nada!”

- Sim, D. têm mãe. O lema da sua poderia ser: “Seja criativo e invente uma utilidade para si mesmo, afinal, se não somos imprescindíveis a alguém, o que somos?” –

BEEEEEEEEEEEPPPPPPPPP.

“Herrr...bem, como vai minha filha? Escuta só essa música

8877887733377766688877722299999999911111111/000
8877887733377766688877722299999999911111111/000
8877887733377766688877722299999999911111111/000

3377766688877
3377766688877

Diz-me depois o que acha, ta? Estou atrasado para o Show...”.

BEEEPPPPPPPPPPPPPP!

- Todos conhecem naturalmente o Pai de D.Ou pensam que conhecem. A maioria sequer sentiu sua presença, mas trata como amigo íntimo. E essa é sua brincadeirinha sem graça e diária: sabe que onde ELE ouve música, D. só ouve números.E onde D. ouve música, ELE só ouve barulho. Ainda assim Neil Gaiman esta certo, a melhor música está no inferno –

BEEEEEPPPPPPPP... TÚ,TÚ,TÚ,TÚ,TÚ...

“Ô, que negócio horrível é esse! Tira essa coisa medonha e terrorista da tua secretária. Como pretende passar uma imagem de respeitabilidade assim?!?”

- Bem, tudo começou quando D. resolveu provar para si mesma que não era tão má assim e resolveu fazer um trabalho voluntário com crianças na Casa de Passagem. Ou seja, crianças carentes que não têm para onde ir, mas estão em situação de risco e com sua vida á disposição da justiça dos homens e da piedade de D. Esse que acabou de gravar sua mensagem é o Coordenador –em –chefe do projeto que ás vezes faz o papel de irmão-adotivo-com tendências incestuosas, paranóicas e paranormais. Confuso? Nem tanto.

BEEEEEEEEEPPPPPPPP.....

“Ah, amanhã têm reunião... dá para levar aquele projeto que você ficou de fazer no final de semana para que nós tenhamos algo para apresentar?”

BEEEEEEEEEEPPPPPP...

- E D. pensa: “as vezes a bondade e abnegação cultivada pelos seres humanos me assusta. É porque todas as suas flores são híbridas que seus frutos têm um sabor tão estranho?”

BEEEEEEEEEEPPPPPP

“Hmmmm...é...vou passar aí amanhã para pegar o resto das minhas coisas tá?
Errr...até mais então”.

D. pausa a secretária. Suspira fundo e diz para si mesma, em voz alta:

- “É, não adianta lutar contra a própria natureza. Para que casar se tudo um dia acaba? Deve ser o convívio com os mortais, só pode...”.

BEEEEEEEEEEPPPPP

- “HAHAHAHAHA...ESSA FOI PARA “ELES” É?
Não adianta, esses nunca vão se mancar até a hora que você disser para ir catar coquinho no asfalto..”..

- E D. pensa: “se fosse assim tão fácil...”.Prossegue o gravador;

- “Olha só a gente já tinha combinado, mas só para lembrar. Amanhã devo estar na sua casa á partir das- HAHAHAHA, PARA C... DESCULPE É O LEO AQUI GRITANDO NO OUVIDO SE QUERO IR A SINUCA – já disse que NÃO, PÔW, dá licença (mais baixo)...continuando... depois do ensaio, então devo chegar por volta das 23:00 hs. BELEZA?”

Amigo que vai passar um tempo na casa de D. porquê fica mais fácil para ele do que utilizar nosso já famoso transporte público após uma jornada de trabalho, estudo e ainda ensaiar na Escola de Samba.

Num apê qualquer, aquela cena de filme anos 80. Mesa revirada, cheia de papéis disputando espaço com a caixinha de Yakissôba, frutas, um guarda chuva fechado e molhado além de um indefectível cinzeiro cheio ao lado do mais que necessário copo de vinho tinto suave misturado a uma dose de sangue humano Tipo O¯ roubado do HEMOSC há algum tempo atrás. Certas manchas no tapete são a regra do cenário clichê e lá estão elas, estrategicamente posicionadas. D. adora clichês, como adora tudo o que é simples e irresistível. Porém, como um anticlímax de cenário mal feito, as plantas vicejam, o azulejo brilha, os quadros estão ligeiramente tortos e ao invés de um charmoso sofá, como se poderia esperar, o que vemos é uma rede, colocada num canto próximo à janela que dá para a varanda , onde D. se espreguiça com calma.
Olhos semicerrados, olhar ao longe, sabe que não pode dormir. Acende mais um cigarro. Traga, e ao expelir a fumaça preta de seus pulmões, observa que ela forma no ar desenhos e formas incompreensíveis como seus amigos, inimigos, amantes e horizontes que evanescem sempre no mesmo sopro que os cria, inevitavelmente.
Deseja agora não compreender nem dormir, apenas conseguir pensar em nada e dar lugar aos sonhos, mesmo que acordada.

III - O Gato e a Cobra - Por que a amizade terminou e o Gato mata a Cobra sempre que a vê.


Imagem gentilmente cedida por Fernando Luiz.

O Gato e a Cobra tinham a mais linda relação de amizade de todo o mundo animal, despertando ciúmes e inveja onde quer que a demonstrassem, mas no entanto, ninguém nunca conseguira interferir nessa relação. Ambos haviam de tal modo unido suas almas, que seus apetites eram quase idênticos, para melhor caçarem juntos.Dizia-se até que viam o mundo com os olhos do outro.E isso, por fantasioso que pudesse parecer à primeira vista, era tão real que o Gato, de animal diurno, passou a ser noturno e as Cobra, por sua vez, acabou sofrendo mutação em suas pupilas - que se dilatam e se retraem conforme a intensidade da luz. Como se sabe, as Cobras são quase cegas, portanto tal artifício era quase desnecessário, na verdade.Para que alterar pupilas de acordo com a luz, se você vive quase as escuras sempre? Mas um dia a Cobra pensou "isso é tão bonito..." e acabou copiando a idéia. A união de almas proporcionada pela amizade alterara suas próprias naturezas, de maneira definitiva.
E isso foi assim até a chegada dos humanos á proximidade de seu habitat natural.

O Gato, mais curioso que a Cobra, logo se deu a conhecer aos humanos.
A Cobra, mais arisca que o Gato, não quis conhecer a novidade e o conforto trazido pelos humanos, por medo de perder sua liberdade.
O Gato logo ficou domesticado, pois se afeiçoou a filha do casal que morava ali. Bem - tratado, com comida e seguras horas de sono, engordou e não saia mais para caçar tanto quanto antes. Acabou deixando de lado a antiga amizade com a Cobra, que se encheu de despeito, mas retraiu-se.
Um dia, a menina se afastou de casa para um passeio e começou a andar por uma grama muito alta. A Cobra a seguiu silenciosa, mordeu -a no calcanhar, e a menina morreu.
O Gato, quando viu a menina morta - foi o primeiro a encontrá-la - ficou muito sentido, e foi pedir explicações á Cobra:
-Por que fez isso? Sabia que eu amava a menina, e seguiu-a para morder e matar na primeira oportunidade que teve.Diga-me então, o que foi que ela lhe fez?
A Cobra, prevendo a cena, já tinha inventado uma boa desculpa.
-Venha comigo e veja você mesmo!
Levou-o a toca de uma vizinha, que tinha posto ovos em um buraco de árvore recentemente e pedira para que ela cuidasse, enquanto saia para caçar:
-Sua "linda menina" veio com um pedaço de pau e queria quebrar os ovos da minha amiga...
Porém, o Gato desconfiou.
-Por que então ela foi ferida no calcanhar - e não pela frente, caso você estivesse aqui para defender os ovos? Caso não estivesse, porque os ovos estão inteiros ainda? E enfim, para ambos os casos por que foi encontrada tão longe deste lugar?

A Cobra, ao invés de inventar mais uma história fantástica que justificasse a todas essas coisas, explodiu simplesmente:

-Como é? Então me acusas de estar mentindo por causa de uma menina boba e, ainda por cima, assassina de Cobras? O que aconteceu com nossa amizade? A lembrança do que passamos juntos? Responda!

A mágoa era sincera, mas a desculpa para matar a menina não, e o Gato - sendo também bicho muito inteligente - logo percebeu isso. E falou, com a tristeza incomparável de quem vê uma grande amizade perdida para sempre:

-Cobra, não posso provar que está mentindo, mas sei que estás. Na verdade, cometestes três erros.Primeiro: um crime contra quem não lhe fez nada.Segundo: desconsiderou meus sentimentos em relação à menina (que me tratou com um carinho e amor de tipo que você não conhece).E terceiro, como que para agravar tudo isso, trai a confiança que entre nós existia com uma mentira. Por isso, não posso mais perdoá-la e não quero vê-la mais perto de nossa casa. Sim! Eu de agora em diante morarei sempre com os humanos.Não voltarei à floresta.E nós dois seremos inimigos e sempre que eu a vir, lhe atacarei e lhe matarei para proteger aos que aprendi a amar. Porém, em consideração a nossa antiga amizade, e também para o caso de estares falando a verdade em alguma coisa - embora eu sinta que não estás -sempre que estiveres longe de minha casa, a tratarei com respeito. E aos humanos que atacares longe de casa, não buscarei vingança, pois não se pode julgar ninguém sem ter visto de fato o que realmente aconteceu.Assim será entre nós e toda a nossa descendência. Na verdade, só não te mato agora para que você tenha a chance de comunicar isso a todas as suas irmãs e parentes.Mas nunca mais ouse chegar perto daquela casa, entendeu bem?

Virou-se de costas então e afastou-se devagar, sem querer ouvir mais nada, selando o destino de todas as gerações de Cobras e Gatos.

Assim, o Gato sempre que encontra a Cobra perto de casa, mata-a. Longe de casa, simplesmente a evita ou ignora.Mas nunca a procura voluntariamente para fazer-lhe qualquer mal.E isso é assim até hoje.Mesmo inimigos, ambos (as) se tratam com respeito o suficiente para não querer encontrarem-se.

Algumas Cobras, porém, fizeram amizade com alguns humanos, naturalmente aqueles com quem tinham mais afinidade. Outras, mantiveram-se na tradição de um rancor antigo e agora inexplicável. Mas ás que romperam com a tradição são muito queridas e descobriram de que espécie de amor o Gato falava. Por isso, tanto Gatos quanto Cobras foram adorados na Antigüidade e ainda o são, em alguns lugares.

E ainda, Gatos e Cobras, mesmo domésticos, jamais dividem a mesma casa. No fundo, ambos são mais parecidos do que o Gato pôde supor. Afinal, quem é ressentido mesmo?

Moral da História (se é que é o caso):

1) Nem sempre o que parece fantasioso é irreal. Realmente, um dos "milagres do amor" é alterar definitivamente a natureza dos envolvidos de forma tão fantástica que certas mudanças tornam-se mais que comportamentais, e também de forma definitiva, muitas vezes permanecendo a mudança até depois que o amor foi embora.Todos temos exemplos disso, mas não conseguimos explicar.

2) Nada distancia mais dois amigos do que o desejo de liberdade de um e o desejo de conforto do outro. E o pior de tudo é quando ambos querem as duas coisas de formas diferentes. O Gato quis o conforto - e essa era sua liberdade. A Cobra quis a liberdade – mas ela era vazia sem a companhia do Gato, e por isso tentou ferir sua fonte de conforto.

3) Cuidado com amigos-Cobras: eles mentem bem, são ressentidos e vingativos (mesmo sem muito motivo). E cuidado com amigos-Gatos: eles se identificam com a Justiça, mas ainda mais com a Família. Se sentirem - se obrigados a escolher entre sua amizade ou uma das duas anteriores, você dança.


4)O ressentimento e a mágoa são maus conselheiros e levam a decisões que, além de péssimas, têm efeitos definitivos. Se a Cobra matou a menina sem motivo - e para sempre - o Gato, por sua vez, matou uma amizade e transmitiu sua decisão á toda a descendência, o que não é lá muito justo também.A Cobra, mais flexível, deixou à sua descendência o poder de decidir seu destino - e parece que todas elas (tradicionais e inovadoras) são mais felizes assim.

5) Quando cometer um erro muito, mas muito feio mesmo, simplesmente assuma e peça desculpas. Não crie histórias encima. Além de não enganar a ninguém com isso, põe a perder sua confiabilidade. E nisso o Gato estava certo.

6)Vingança não é justiça. Não se julga sem se ter visto e não se julga apenas pelo que se vê, tampouco. Isso é muito difícil.Mas traz suas vantagens. A margem de dúvida que você tiver a cada versão não só livra "réus inocentes" de serem penalizados, como também traz a "réus culpados" mais brandura na punição. E o mundo ia ser um lugar horrível se todos tivessem certeza de tudo e resolvessem penalizar na base do "olho por olho, dente por dente". Afinal até a Cobra, se for atacada, têm o direito de defender-se - e, ás vezes os humanos fazem realmente isso, e aí? Seria justo o Gato buscar vingança? Por tudo isso, tudo quando ficar em dúvida se deve "crer em seus próprios olhos", consulte a mente e o coração também, em partes iguais. É o que leva à decisão mais sábia. Nesse ponto, o Gato também estava certo.

7) Todos só têm a ganhar com a amizade e o amor, que deve sempre se multiplicar, nunca dividir. Gatos e Cobras poderiam ser amigos até hoje, e ainda, serem amigos dos humanos, compartilhando as mesmas casas. Todos sairiam ganhando se soubessem como proceder com Justiça e Amor ao mesmo tempo.

domingo, 26 de agosto de 2007

II - O Gato e a Cobra - Ainda sobre o que se pode e se deve ensinar




Em outra ocasião, o Gato e a Cobra caçavam juntos, quando veio um imenso búfalo correndo com toda a pressa, fugindo de um leão. Na fuga, ia esmagando tudo o que se encontrasse no caminho. O Gato ligeiro pulou numa árvore muito alta, mas a Cobra não conseguiu fazer isso, e com grande esforço conseguiu um buraco para se esconder, quando já estava preste a ser esmagada pelas patas do búfalo. Então perguntou ao Gato:

-Como conseguiu fazer isso?
-É simples, copie meus movimentos.

E assim, a Cobra imitou todos os movimentos do Gato e aprendeu a subir. Porém, na hora de descer, o Gato simplesmente se atirou árvore abaixo, caindo de pé, sem se machucar. A Cobra tentou fazer o mesmo, mas caiu com todo corpo no chão, quase quebrando as vértebras - e a Cobra, como se sabe só tem vértebras!

- Por que não me ensinou a descer?
-Ia fazer isso lá debaixo, para garantir que você não caísse, mas que, se caísse, eu te seguraria. Só que quando me virei para você, você já tinha se atirado...

Depois o Gato ensinou que a descida não poderia ser da maneira como ele fazia, e tentou lhe dizer para adaptar a descida á sua própria natureza, o que a Cobra - por ser bicho muito inteligente - logo conseguiu, espremendo-se contra a arvore e deslizando, junto ao tronco, para o chão.
Mas dizem que ainda se atira, às vezes, como exercício de auto-superação quando a altura da árvore é mais baixa.
E por isso, além de subir e descer em árvores, a Cobra aprendeu a pular pequenas distâncias entre uma árvore e outra e no chão também.Já o Gato, de tanto acompanhar a Cobra para ensiná-la a subir,descer e pular (e de tanto pular atrás da Cobra para impedir que se machucasse), aprendeu que, se caísse de costas, conseguiria torcer o corpo no ar e cair de pé.

Moral da História:

1)Para o professor: o que é fácil para você pode não ser para outra pessoa. Pense num método passo - a - passo para explicar o que pretende enquanto ensina, para não gerar tombos desnecessários. Saiba que nem todo o seu amor poderá proteger um aluno mais afoito se você não fizer isso.
2)Para o aluno: Não se apresse em copiar o Professor se não tem clareza da intenção dele ao ensinar alguma coisa. Vá devagar, porque às vezes é necessário adaptar certos detalhes entre aquilo que você realmente é capaz de realizar e o que o querem que você aprenda. É preciso ser capaz de inventar novos caminhos, não só percorrer a estrada já trilhada.

3)Para ambos: é em situações de risco que nos mostramos exatamente como somos e o que realmente sabemos. Professores e alunos deveriam arriscar-se mais na imensa floresta do conhecimento.

O Gato e a Cobra - Do que podemos ensinar aos amigos (ou não).


Imagem gentilmente cedida por Fernando Luiz

O Gato e a Cobra eram grandes amigos, na infância da humanidade. Caçavam, brincavam, conversavam riam e se divertiam juntos. Como todos os bons amigos pensavam ter muito em comum.
Um dia belo dia, o Gato estava caçando quando um imenso lobo veio em sua direção.O Gato não viu, já que estava distraído espreitando o rato escondido num monte de lenha, próximo a morada dos humanos.
A Cobra, que observava tudo, se aproximou do lobo, tensionou sua musculatura, emitiu um chiado baixo e mostrou as presas.
E o lobo foi embora, com o rabo entre as pernas.
O Gato, ao ouvir o barulho da Cobra, só observou a cena tremendo de medo. Quando o lobo foi embora, disse:

-Fiquei tão preocupado com você, mas ao mesmo tempo tive tanto medo! Mas você...você foi mais que ótimo! Me ensina a fazer isto?
E a Cobra: - É claro, na verdade é muito fácil.Trata-se de impor respeito...
Porém, em uma outra ocasião, o Gato estava espreitando uma outra toca, só que desta vez numa fenda de árvore. Chega um leão para comer o Gato e este repete o que a Cobra lhe ensinou, mas sem resultado.
A Cobra, que vinha novamente atrás do Gato, percebeu rápida a situação, passou por trás do Leão e mordeu-o no pescoço, matando-o.
O Gato, que observava tudo com atenção, percebeu que uma espécie de água (só que de cheiro amargo) pingava da boca do amigo, cujas presas já estavam limpas do sangue. Ia esticando a língua para lamber, quando a Cobra advertiu:
-Não beba! Isso é veneno, foi o que matou o leão e não a mordida!
-Mas por quê você não me ensinou isto também?
Ao que a Cobra redargüiu:
-Nem poderia. O veneno não me foi ensinado, mas é uma dádiva da minha natureza.Quanto ao que lhe ensinei, poderá usar com quase todos os animais, exceto os que forem seus parentes.
Moral da história:
1)Muitas situações difíceis são apenas uma questão de saber se impor.Não leve desaforo para casa! Mas saiba exatamente quais são as suas limitações, para não levar hematomas para casa também, além dos desaforos! Ou talvez, nem voltar para casa...E lembre-se que é em casa que te conhecem melhor, portanto certos "truques" e demonstrações de força simplesmente não funcionam com os parentes.

2)A segunda moral já é um adágio popular. "A curiosidade matou o Gato". Antes de sair experimentando qualquer viagem para ver qual é, informe-se o máximo possível sobre as conseqüências de sua ação.
3)Nem tudo se pode ou se deve ensinar. Mas ao fazê-lo, concentre-se bem na explicação, para não ter que repeti-la com mais detalhes. Quem faz mal feito faz duas vezes, e alguns erros de compreensão são fatais!
4) Em todos os casos é muito bom ter amigos!

Receita de Esquecimento




Vi mais beleza em andar só...
E aos poucos achei o gosto
Que não perdi nunca mais
Fui aprendendo de tudo
Sempre querendo demais
Aos poucos, esqueci teu rosto
Já nem sei quem és mais.

Acho que perdi no milagre
De outra transmutação
Aprendi há pouco tempo
Espera! Vou te contar!
Têm que ser antes do dia romper
E depois da madrugada chegar...
Quem sabe consigas fazer...
O bem que isto vai te trazer
Eu mesma não sei mensurar

Meus olhos – e os teus também
são cheios de um néctar macio
que um dia fez o mundo brilhar
Você sente quando vêm
Mas deve saber provocar
Esta na palavra certa
E na certeza do olhar
E no cio delirante
Dos que se apaixonam,
Sem nunca jamais tocar
Daí é só apertar
Com força e precisão
Não deve ter medo, não!
Com certeza que machuca
E é claro que vai sangrar...

Mas siga espremendo, sem dó
Até que sinta jorrar.
E aquilo que sobrar
Ora, aí que esta!Você molda!
Cantando e acariciando
até sentir esquentar...
Serão as notas de alento
Que vão fazer funcionar
Vá mexendo em fogo lento
E nunca deixe esfriar!


Derrame sobre as pedras
E todas as outras correntes
Que façam alguém calar
Na esperança que se partam
Para que o outro possa voltar!
Seja luz e seja guia
à todo aquele que um dia
Ousou se aprisionar!



E se não valer a pena
Espere o dia raiar.
Faça uma trouxa pequena
Com tudo que é certo
Que se pode guardar...
O perfume da açucena
E o poder de admirar
A delicadeza do toque
Da morte e do despertar
O saber de si mesmo
E histórias para contar

E se não mais conseguir
Com o peso do seu pesar
Largue na primeira encruza
Que duvida à estrada trouxer
A lembrança desta mulher
Que só te quis enganar!

Carta da Mãe Natureza ao Seu Filho Distante...


Planeta Terra,4,6 bilhões de giros em torno do sol e ainda dançando....


Queridos filhos;

Há muito venho tentando lhes escrever, mas não sou muito boa com essas modernidades e a linguagem... bem, sabem também o que penso sobre isso...
Mas finalmente consegui arrumar alguém me entendeu para dizer a vocês o que eu já não consigo.
Vocês já são Homens e Mulheres no sentido pleno do termo.
Vocês são agora A Humanidade.
E por este motivo já não vejo sentido em ocultar certos fatos da vida a vocês.
Queridos, eu estou morrendo.
Percebam o que venho querendo dizer - talvez um pouco duramente nos últimos séculos.
Eu estou gravemente doente e talvez seja incurável.
Acho que não cabem acusações agora. Não quero e não vou repetir a ladainha sobre quem tem culpa de que...isso já nem faz mais sentido e deixou de fazer há muito tempo.
Assumo é claro minha responsabilidade, mas quero dizer que eu mesma não percebi a gravidade dos fatos em princípios.
Toda a vez que sentia uma dor, uma febre,uma tontura...quero dizer...
toda a vez que queimavam matas,envenenavam os rios,conspurcavam os ventos...bem, eu sorria e pensava: "só para a morte não há remédio".
E seguia em frente, lentamente como sempre é certo, mas com alegria.
Fé na vida e otimismo, lembram? Quando vocês eram crianças assustadas a correr nuas sobre minha pele, eu ensinei isso a vocês.
Então pensei comigo: é hora de seguir meu próprio exemplo.
Claro, eu sei que a adolescência é uma fase difícil. É como um céu carregado e tenso pelas paixões em choque.
Vocês estavam querendo se afirmar, queriam independência, ficaram com raiva de mim...mas eu compreendo como funcionam essas coisas e já esperava por este dia. Achava até engraçadinho em princípio (risos) quer dizer, num dia eu era uma coisa estupenda, me amavam e idolatravam...no outro dia eu já não valia nada, tinha que estar a disposição de vocês o tempo todo.
Um dia queriam uma coisa, no outro já não era mais...quer dizer,nem fiz muito caso das modas que vocês criavam e descriavam. Muito rapidamente, as vezes aos saltos, irrefletidamente...é a natureza de vocês.
Eu os amo por isso também. Por vocês serem meus filhos e por esta característica que é única.
O tempo passsou...e o céu cada vez mais carregado. Mas eu achava graça, pensava: "Crianças..."
Não esperava sinceramente que a tempestade fosse vir tão violenta.
Houve um momento que ficou irreconciliável, quero dizer... bombas atômicas? Francamente, não esperava isso de vocês, trabalhei tanto, apostei tanto na Humanidade e ...vocês deixam claro que querem destruir tudo pelo que lutei? Sim, eu disse que não iria fazer acusações mas isto não pude omitir porque me parece que estão tentando repetir a mesma bobagem.
Queridos, entendam! Eu não posso mais...suportar isso.

Eu sei que a partir deste momento restaram muitos ressentimentos de parte a parte.
Houve quem dissesse: "tanto tempo para a terra se recuperar, mas isso é absurdo!"
Ora, o que eu podia fazer? Não sou assim tão rápida quanto vocês que constroem e desconstroem suas coisas e certezas em segundos.
E talvez por isso vocês se afastaram tanto de mim.
Foram brigas demais, muitas mágoas. Vocês insistiram que estavam “expostos as minhas intempéries, aos meus humores, que era hora de impor limites a nossa relação...”
Mas eu tinha que pensar nos irmãos de vocês também. Especialmente por que ao contrário de vocês eles vivem por si mesmos. Pedras, rios,lagos,montanhas,arvores,cachoeiras,o próprio mar e sem esquecer todos os outros animais. Estes também têm suas próprias necessidades e precisam que as coisas sejam equilibradas. Vocês podem se sentir privilegiados, mas saibam que nunca fiz distinção entre vocês e seus irmãos...
E porquê insistentemente vocês gritaram que meus conselhos não eram mais úteis, minhas lamúrias eram mesquinhas e irritantes, que tudo o que eu fazia era errado...bem, eu me calei.
Talvez tenha errado em esconder a gravidade do problema de vocês por tanto tempo.
Mas é que eu sei como vocês vêm estando ocupados agora, com tantos conflitos na familia não poderiam mesmo voltar a mim então eu me virei até agora como pude.
Sim, eu sei que os irmãos de vocês vêm se mostrando especialmente úteis.
Vocês gostaram especialmente dos gatos e cachorros, né? Vejam, eu criei tantas espécies, mas parece que gostaram mesmo de tão poucas... Aliás, isso eu preciso dizer também, acho que vocês precisam...cuidar melhor de seus irmãos. Eu já estou velha,sempre os alimentei e nutri, podem me acusar do que quiserem mas não de ter sido zelosa na criação dos meus filhos. Alguns dizem que talvez os tenha mimado demais (risos) e por isso vocês são assim. Mas preciso que de agora em diante vocês precisam começar a cuidar mais uns dos outros. Cansei de dizer: "não os desprezem por que eles não entendem as coisas ao seu modo, somos uma familia e lembrem que eles sabem de muitas coisas que vocês nem desconfiam".Acho que vocês não lembram mais disso pelo modo como os vem tratando...
Como eu disse, tentei mandar recados antes (alterações no clima, tsunamis, terremotos) mas pelo que pude perceber vocês não entenderam.Aliás acho que este foi o problema desde o início, nós nunca conseguimos nos compreender muito bem...(nem me venham falar daqueles...como é que vocês chamam..."filósofos?" “biólogos”? “políticos?” que vocês inventaram para criar uma língua comum entre nós, nunca funcionou e vocês sabem bem do que estou falando...)
Mas não era disso que eu queria falar. Toda essa conversa requer tempo e muita coisa deve ser mesmo tratada pessoalmente.
Digo que não são frescuras de velha, confirmem com os médicos da sua confiança (vocês chamam de cientistas, né?) eu estou muito doente e sinto que em breve vou morrer.
Sabem que eu quando me for não deixo herança, porquê vocês mesmos fizeram questão de consumir com ela no decorrer da existência e também porque somos todos mutuamente dependentes nesta familia (vocês não queriam assim mas quanto a isso também não posso fazer nada).
E eu estou muito, mas muito preocupada mesmo com vocês, especialmente se eu me for.
Por exemplo, onde vocês pretendem morar afinal?
Marte? Pelamordedeus...parem de sonhar e pensem um pouco...
Esquece isso que eu disse, são coisas de uma mãe preocupada, não quero que vocês deixem de investir no que acreditam.
Eu os criei para o Universo...
Mas preciso conversar com vocês, pelo menos uma ultima vez antes de morrer.
Carinho e atenção, amor e respeito são coisas que não se cobram,vocês cansaram de me dizer isso e eu entendi.
Mas quero ter certeza de que ficarão bem.
Sabem aonde me encontrar. Qualquer praia, floresta, montanha enfim, todas as paisagens de que tanto gostavam antes, não precisam estar intocadas, basta que estejam limpas.
Já disse e vou repetir: "não quero que me defendam - eu sempre soube me defender - quero que me respeitem".
Um enorme beijo da mamãe que ama muito todos vocês

P.S: *Carta da Mãe Natureza ao seu filho distante, a humanidade.

O Padre, A Virgem e a Flor.


Quando O Padre chegou, com sua túnica de um branco quase sempre puríssimo, seus chinelos trançados de couro, e um cabelo grisalho que caía quase calvo no alto da cabeça, mas farto e cheio na altura dos ombros, todos sentiram uma espécie de temor irreverente.
Alguns viam como mais uma carga a somar em suas inadiáveis responsabilidades diárias: ensinar as crianças a não falar com ele, levar café, comida ou roupas limpas de vez em quando, varrer a sujeira que por ventura trouxesse.
Algumas preocupações bastante compreensíveis também. Ele se instalou em um ponto que dava para ver a maior parte das casas da rua, em breve conheceria todos os hábitos de cada morador. E se quisesse roubar as casas, ou vender informações para quem tivesse essa intenção?Algumas vizinhas agiam como se sua presença imunda intoxicasse o ar e tornasse tudo a sua volta irrespirável, insustentável e insuportável. Mas essas vizinhas sempre tão preocupadas com a saúde pública - mas que nunca fizeram nada por ninguém mesmo - não moveriam uma palha sequer para tentar tirá-lo dali.
Um “delator desconhecido” ligou para a polícia, que lhe informou que não podia fazer nada enquanto ele nada fizesse.
Questões relativas a segurança ou á caridade.E a expectativa que o Medo traz. Nada fora do normal
Foram os adolescentes estudantes do Colégio Anabatista, que terminaram batizando-o de Padre, por causa de seu camisolão, um bordão todo trabalhado de madeira com estranhos animais transfigurados incrustados com algumas pedras – brasileiras de baixo valor, as velhas sandálias de couro, então resolveram dizer que aquele homem era o Padre Chinelo que vinha abençoar os hábitos boêmios e etílicos daqueles jovens.
Ficou sendo O Padre.

Três meses se passaram.

E se no início ele suscitou o Medo algumas coisas fizeram com que isso aos poucos se modificasse.

Para começar, ele jamais pediu coisa alguma, ao contrário das expectativas locais. Praticamente se ignorava do que vivia. Havia uma pequena construção de madeira, projetada como se fosse mesmo uma casa, mas que só abrigou mesmo “A Sereia do Mar”, saudosa embarcação de seu Pedro que, junto a ele, se acabou nos costões. Ali ele estabeleceu sua morada. E começou a cultivar com carinho uma horta e um jardim, após poucos dias de sua chegada. Intrigadas com isso, as pessoas começaram a se aproximar dele para ofertar pequenas contribuições em dinheiro, comida, roupas... E a deixar claro que faziam isso para que ele “cuidasse dos lares”. Ele não disse nada, sorriu apenas, mas com um sorriso que começou a inspirar uma certa confiança.

- “Muito agradecido” –
E aos poucos descobriam pequenas coisas a seu respeito. Nunca bebia álcool e quase nunca fumava (nem sequer um baseadinho). Aliás, embora ficasse ás vezes na fila do Sopão dos Pobres, distribuído em frente à Rodoviária Rita Maria, porém, os outros moradores de rua contavam que nunca o viram bebendo a sopa. Ia, antes, ao final da fila e deixava com este o prato, ou ainda com aquele (ou aquela) que parecia ter mais necessidade. Dizia que tinha que se manter puro, mas não dizia para quê. Também não prestava atenção em nada, ficava ali escrevendo coisas incompreensíveis e tocando em sua flauta músicas que ninguém conhecia, mas muito bonitas e que deixava em todos os passantes daquela rua a sensação de reconhecimento. Distribuía flores mais ou menos nos mesmos dias do mês, mas ninguém nunca o viu na fila do INSS. Ele era, por sinal, muito educado, e igualmente com homens e mulheres -é certo que os homens estranhavam um pouco quando o estranho se aproximava e entregava rosas vermelhas, por exemplo.Mas isso nunca rendeu confusão, até porque a maioria dos homens que as recebia parecia ter o semblante de quem realmente tinha feito algo para merecer tal agrado. Nas raras vezes em que se ouviu ele falar alguma coisa, percebia – se que nunca dizia, por favor, e nem muito obrigado. Justificava: não faço nada, por favor, só por gentileza. Também não me sinto obrigado a nada. Só muito agradecido. Tentava convencer os outros a fazerem o mesmo.
Mas o Padre chamava a atenção por outros motivos. Detalhes que incomodavam um pouco, mas que ninguém sabia dizer por quê. Um ar de estranha satisfação consigo mesmo, um sorriso permanente que parecia tão perfeito para aquele rosto marcado pelo tempo. Talvez fossem seus olhos azuis desbotados, tristes e estranhamente brilhantes. Ou a longa barba branca, que ia até a metade do seu peito, que terminava em uma trança. Nunca se viu o Padre comer, mas ele parecia mais saudável que nunca. Nunca se viu onde tomava banho, mas era de um asseio impecável. Algumas pessoas, ao fixarem nele seu olhar, tinham a impressão que ele como se desfocava em meio a uma luz muito intensa. As ciganas fugiam dele, mas os animais o amavam tanto, que não raro era visto cercado deles. O barracão onde morava, por exemplo, era infestado de cachorro, uns diziam que eram dez, outros doze. E gatos, também. Como conviviam? E com que dinheiro os alimentava?

Começaram então as muitas especulações. Quatro teorias pareciam predominar:
I) Ele era um mendigo bêbado, vagabundo e consumidor de drogas até que um dia matou alguém e esqueceu de sua humanidade, enlouqueceu para ser um mendigo, bêbado vagabundo, etc...
II) Ele era muito rico, foi traído pela mulher e acordou para a hipocrisia que permeava todas as relações sociais, daí resolveu desistir de tudo. Isso explicava por que uma vez por mês ele tinha dinheiro e porque não dormia no chão – da – rua
III) Ele era uma versão moderna do homem – do – saco. Naquela sua sacola provavelmente estavam os restos mortais de alguma criança desavisada e linguaruda, do tipo que arranja assunto com mendigos e pergunta o porquê de tudo. Por isso ele só cozinhava á noite, e parava para contemplar com um sorriso faminto as crianças que passavam. A maior parte delas o detestava, e muitas tinham pesadelos com ele.
IV) Ele era um Anjo disfarçado de Padre, teria vindo para redimir os pecados do Orgulho e da Indiferença dos Velhos e dos Adultos, fazendo com que os pais percebessem que poderia haver coisa pior do que ter filhos como eles. Poderiam ter um filho mendigo, por exemplo.
V) Ele era o Mago Branco, um peregrino mágico na busca do Saber e da Verdade. Encontrou as duas coisas em determinado estágio da peregrinação e enlouqueceu. Servia para animar os jogos de RPG.


Na verdade, ele não tinha passado e não tinha futuro. Ele nem ao menos era, apenas estava.Vibrava, imenso, deixando fagulhas de artifício no ar enquanto explodia no céu amarelado, mesquinho, dos que nunca poderiam compreender, mesmo que ousassem fazer a pergunta crucial. E de tão enigmático começou a se tornar por todos admirados, de uma maneira também muito estranha. Virou moda. Já não perguntavam. De onde vinha? Por que se instalou justamente ali? De onde brotava seu dinheiro? Mas buscavam com ele conselhos, reflexões, histórias dos lugares por onde tinha estado nesta terra e além... O que ele escrevia, o que dizia, e ás vezes o que insinuava com seus olhinhos doces e tristes simplesmente não tinha o menor sentido. Mas, de certa forma, fazia profundo sentido para aquele que o ouvia. Muitas vidas foram inteiramente modificadas em duas o mais horas de conversa, e agora ninguém mais se interessava por quem ele era. Buscavam nele a si mesmas. Mas muito raramente ele desviava os olhos do que escrevia, mais dificilmente ainda da música que tocava. Parecia obstinado e com muito pouco tempo, exatamente com qualquer pessoa que tivesse algum trabalho especial.

Até que um belo dia...

Um grupo de adolescentes, bêbados e unidos pelo compromisso de uma aposta, tentaram dissuadi-lo a responder suas perguntas. Arrancaram a flauta de suas mãos e ameaçaram quebrá-la. Cercaram-no, e começaram a puxar-lhe os cabelos. Gritavam perguntas e ameaçavam queimá-lo vivo se não respondesse. Quem os visse naquele momento, não poderia deixar de pensar num grupo de cações, nadando em círculos, acuando uma presa fácil. Ele só se ajoelhou no centro do círculo, cobriu a cabeça e ficou repetindo: “Eu os amo também!” As pessoas que passavam começaram a chegar mais perto, querendo saber o que afinal estava acontecendo. Chegou uma moça e gritou alto: “Mas o que esta acontecendo, afinal?” Foi como o fim de um transe. Todos foram saindo devagar e em silêncio, incluindo aquele primeiro grupo de adolescentes - subitamente horrorizado com a possibilidade de ser mal interpretado por importunar um pobre velhinho mendigo - tratou de escapar de fininho dali.
Alguém contou o sucedido na delegacia. Um jornalista ouviu e foi averiguar. Logo, vários repórteres vieram. Encontraram o Padre no mesmo lugar, ainda de joelhos com a cabeça encoberta, e fizeram uma matéria. Vasculharam todos os arquivos da cidade, procuraram seus parentes e nada. Diante de tamanho alvoroço Padre Chinelo resolveu se esconder por uma semana, deixando tudo exatamente como estava, em um claro sinal de que voltaria. E voltou.
Mais sorridente e compreensivo do que nunca, começou a conversar com todos. Parecia falar coisas inteligíveis apenas ás crianças, das quais nunca escondeu a predileção. Quanto aos outros, oferecia agora seus textos, ou os rasgava, ou ainda soltava-os ao vento. Continuavam a não saber nada da vida de Padre Chinelo, ou de sua missão, mas agora ele lhes dava uma coisa que realmente precisavam.
Quando as pessoas achavam que um problema se instalara na vida delas de maneira insolúvel, procuravam o Padre, pediam um escrito, uma música ou qualquer coisa, e por incompreensível que parecesse, recebiam uma resposta. Respostas íntimas. Do tipo que só o destinatário conseguiria interpretar.
E do primeiro sacrilégio nasceu o apreço.
Vamos deixar o Padre Chinelo por enquanto, sozinho em sua barraca escrevendo coisas incisivamente complexas.


Vamos falar da Menina

Sheila se olhava com certo desapreço, mas não desapaixonadamente. O espelho não mentia e suas olheiras estavam cada vez mais fundas. Nada contra ao tom acinzentado que sua pele ganhara nos últimos meses de loucura, de certa maneira até gostava daquele tom, branco azulado. Gelo. Sempre quis aparentar frieza e esse tom reforçava a impressão. Os cabelos longos e grossos como uma crina, caindo abaixo da cintura, lisos e pintados de um negro tão negro que seu reflexo era azul, ressaltados pelos olhos também negros e muito redondos atuavam como elementos de contraste. Virou-se de costas para o espelho, não gostava se de olhar por muito tempo. Sentou na cama e revisou as unhas. As da mão já haviam atingido um comprimento médio, era chegada à hora de pintá-las. Rebú. Saia preta, jaqueta de couro preta, meia preta, blusa preta, chapéu preto, manta preta, botas pretas e bolsa-mochila preta...pronto!Estava pronta para sair!Depois de tanto tempo fechada em casa, sem ver os amigos, seria quase como uma aventura. Uma ultima olhada no espelho para rever suas tatuagens. Tinha uma tatuagem na nuca – um pentagrama – e mais ou menos um palmo acima do púbis, mais para a direita, um pégasus estendia suas asas em direção ao observador.Pensava em fazer mais uma a revelia de sua mãe, para “fechar um número ímpar”, o que todo mundo sabe, traz mais sorte.Daqui a três meses completaria dezesseis anos, e pensava em pedir um curso de desenho no SENAC de presente.Tinha apenas o segundo grau incompleto e depois de seis meses trancada no quarto finalmente se permitira pensar em encarar de frente a vida e voltar á escola, embora soubesse que esse ano estava irremediavelmente perdido.Daí a idéia do curso, para ir se ocupando em aprender alguma coisa até recomeçarem as aulas...
Tinha sido uma estudante razoável, um tanto tímida e reclusiva, pouco dada á festinhas. Não bebia, não fumava, não tinha namorado, de poucos amigos mesmo. Todos adivinhavam nela muito potencial, mas ninguém conseguia adivinhar que potencial era esse. Ela tinha Alma, diziam, e seus olhos brilhavam. Nessa época tinha ainda 13 anos e tudo ia bem.
Mas não tão bem quanto gostaria, e a velha trinca Curiosidade, Orgulho e Medo fez sua atuação prodigiosa no velho palco dos sonhos adolescentes. Após o período que mais tarde chamaria de “A queda”, passou a beber, a fumar 20 cigarros por dia, a mentir para família para ficar até mais tarde nos bares, até que um canudo prateado selou o pacto entre seu corpo e a Morte. Por testemunha, sua já desaparecida amiga Camila.Nessa época teria uns quatorze anos.
A casa veio abaixo quando descobriram suas relações com o mal-afamado “mundo das drogas”.Daí sua decisão de “largar o vício” e de ficar reclusa em seu quarto por três meses, sem atender ligações e vendo apenas os amigos que a visitavam. Por alguns meses, Sheila havia decidido ser uma menina “legal”, “comportada”, e se tornar um “motivo de orgulho” para reconquistar a confiança de todos. O estranho é que o plano quase deu certo, e a família respirou tranqüilamente por algum tempo. Enquanto isso ela tinha paz para pensar...
Porém naquele dia, em que resolveu finalmente sair do quarto, uma briga tomou proporções muito grandes. Sheila brigou com o padrasto, que por sua vez brigou com a mãe. Ela ligou para o pai, que “entrou de sola” na conversa, deixando sua mãe histérica. Então viu que não tinha mais jeito e partiu, aproveitando-se da ausência dos que estavam muito ocupados consigo mesmos naquele momento. Antes de sair tomou meia caixa de Valium (de sua mãe) e meia garrafa de White Horse do padrasto, levando o resto dos comprimidos e a garrafa . Ainda não tinha um plano. Tudo isso aconteceu do outro lado da cidade.
Foi até a Rodoviária, perguntou o preço de algumas passagens – para descobrir que não tinha dinheiro para ir a lugar nenhum que quisesse – e decidiu se deixar ficar por ali, até decidir o que fazer.Mas logo se deu conta que no caminho que resolvera seguir não havia tempo para vacilações. Logo viria á noite e sua mãe daria por sua falta.Decidiu ir andando a esmo, e pedir dinheiro nas ruas para assegurar minimamente sua subsistência por um tempo. Como estava relativamente bem arrumada, resolveu usar a velha desculpa do “esqueci o dinheiro do ônibus”. Logo levantou uns trinta reais – isso no tempo em que com um real você conseguia comprar um refrigerante, uma coxinha, um chocolate e ainda sobravam algumas moedas. Foi isso o que fez.E comprou mais um maço de cigarros também.
Quando escureceu, decidiu ir até um bar que freqüentara nos bons tempos em busca de “amigos” que talvez pudessem ajudá-la.Em princípio todo mundo pareceu estranhar o fato de ver uma menina tão nova entrar naquele lugar e sentar-se sozinha a mesa. Mas talvez fosse apenas mais uma excêntrica. E excêntricos não faltavam ali.Para começar, era um lugar até legal, á meia luz, bandinha de Rythim & Blues, e pessoas de classe média alta e/ou baixa tentando imprimir o máximo de sofisticação e elegância em quase tudo o que faziam. Não chegava a ser o Teatro dos Vampiros. Era mais parecido com seu Baile de Máscaras. Sim, pois por mais que as roupas daquelas pessoas parecessem “casualmente” compradas em algum brechó, e estarem arranjadas como se tivessem vindo da Inglaterra de 1950 e desembarcado diretamente ali em 1998, apesar dos nomes sofisticados e das estranhas misturas de seus drinques, dos nomes e sobrenomes indicando interessantes histórias familiares e do assunto parecer girar em torno dos mais elevados debates intelectuais, você perceberia, em dez minutos, que o lugar mais movimentado da casa ainda era o banheiro. As pessoas ali estavam preocupadas apenas com uma coisa: consumo de cocaína.Como conseguir, como comprar, para quem vender, etc... Aquelas pessoas não se vestiam, na verdade adotavam figurinos que se adequavam perfeitamente á fantasia que adotavam de si mesmos. Mal sentiam o gosto de seus drinques, o paladar anestesiado pela ansiedade e o desejo por uma outra iguaria que seria consumida noite adentro devagar, muito devagar, para que durasse. E na verdade o único assunto ali debatido era a profundidade do “Eu” na busca de si mesmo.Resumindo: ninguém falava sobre nada, realmente.

Era o lugar perfeito para se sentir espetacularmente sozinho.

Teria sido uma longa noite aquela, se não tivesse tido a sorte de encontrar um amigo relativamente confiável, que estranhou encontrá-la ali. Anderson, que antigamente havia lhe colocado o piercing na sombrancelha e nutrira por Sheila algum tesão. Muitos anos se passaram e hoje tinha por ela apenas um carinho de irmã. Conseguiu com ele um lugar para dormir naquela primeira noite e pensar um pouco. Ele lhe disse: “você não devia se expor tanto, deve tomar mais cuidado, e se eu não aparecesse”? Ela concorda um tanto aborrecida pelo sermão, e logo muda de assunto, destilando veneno á respeito de tudo e de todos para divertir um pouco o amigo. Era o mínimo que poderia fazer.

No outro dia foi embora, antes que ele acordasse, e deixou um bilhete.

“Brigada pelo apoio e pela grana. Não conta para ninguém que estive por aqui. Fui!”

Continuou andando, tomou mais comprimidos, mais bebida para distrair por um tempo a fome que com certeza viria, o medo, e até a famosa vontade de compreender o mundo e “abrir as portas da percepção”. A velha pergunta agora martelava: por que ás coisas nunca “davam certo” na sua casa? Na sua maneira de compreender as coisas, dessa vez ela se esforçara: deixou de lado a postura rebelde, vestiu-se da maneira correta e suportou aparências, agüentou com paciência a tia carola, fez planos de voltar a estudar e tirar boas notas. E quando todo mundo parecia estar absolutamente despreocupado com ela, então enlouqueciam e voltavam a brigar pelos velhos motivos de sempre.
Ela sabia que já não havia mais lugar para ela naquela casa, e já não ligava a mínima para quem quer que morasse nela. Sua mãe era o modelo da mulher que não queria se tornar (sempre fazendo drama por nada) seu padrasto um grosso estúpido, seu irmão o “filhinho de papai” autêntico e seu pai...um advogado. Isso já dizia muita coisa. A única pessoa de quem realmente sentiria saudades era de sua outra tia, Simone, irmã de seu pai. Ela sempre fora muito boa, muito compreensiva, sem dúvida a única que “valia á pena”. Vai ver por isso a família a desprezava tanto. Porque era a única autêntica, independente e decidida. Engravidara pela primeira vez aos quatorze anos e agora, ao vinte, já tinha três filhos – todos do Homem Errado. Trabalhava como manicure e sempre dizia: “não faça como a titia, curta todas, saia e namore bastante, mas sempre com camisinha”. Ela ria daquele conselho dado assim, de modo tão natural. Sabia que sentiria falta dela, do seu carinho, dos seus bolinhos de final de tarde, quando faziam as unhas e contavam uma para a outra histórias de música, de livros e filmes...
Chorava muito agora, sentada no banco da praça: detestava todos eles, queria que eles morressem, imaginava-se satisfeita e feliz, dançando enquanto sua casa pegava fogo.Então poderia inventar, por exemplo, que era adotada.Pegaria todo o dinheiro investido em anos com a única finalidade de se acumular indefinidamente e investiria num Bar, que logo se transformaria no maior da região. Seria o “Pardieiro Bar”, onde sem dúvida Diógenes e Rubão dariam uma palha todos os dias. E seria feliz, feliz, feliz...chorando e chorando e chorando muito agora naquele banco de praça.
Enxugou as lágrimas e fez um esforço para voltar a pensar racionalmente. Ela precisava descansar e planejar para onde afinal de contas iria, o que faria, o que deveria fazer. Já tinha mais ou menos um rumo, a estrada. Mas precisaria recorrer á algumas pessoas para comer, dormir, tomar banho...
Não tinha muitos amigos á quem recorrer. Todos eles enfiados até o pescoço em suas próprias histórias, diriam que ela não passava de uma “mimada”, que estava em crise novamente e tinha que fazer um esforço para “sair da lama”, que precisava voltar para casa porque ali pelo menos as pessoas eram dispostas á lhe sustentar. E o pior de todos os argumentos, o que mais detestava: tinha que arrumar um namorado para aliviar a tensão e parar de fazer besteira.

Parece que todo mundo via grande mal no fato de querer viver sozinha.

Por outro lado, também viam grande mal no fato dela se recusar terminantemente á ir a Igreja. Gente chata. Mulheres feias, invejosas, recalcadas e mal amadas. Homens sebosos cheirando a vela, que lhe passavam a mão na primeira oportunidade que encontravam. Nojentos! E o Padre, então? No primeiro dia em que foi se confessar, veio com uma conversa estranha, do tipo: “você se masturba?” E de homem, gosta? Um de cada vez ou todos ao mesmo tempo?” Ele ignorou todas as negativas anteriores, parecia estar muito mais concentrado em perguntar do que em ouvir as respostas... E muita gente lucrando muito, vendendo a carne das pobres ovelhinhas, sempre a espera do abate pensando estarem protegidas pelo Lobo. Hipocrisia pura.Detestava tudo aquilo, e se Deus tinha alguma relação com isso, então não o queria para amigo. Sempre que pensava na Igreja ideal, pensava na praia secreta que Johnny um dia lhe levou. Aquilo sim era um lugar mágico, eterno e sagrado, digno de um Deus que ela consideraria, que tivesse por Mandamentos o Amor ao Próximo, a Sinceridade, o Respeito á Natureza e a Si Mesmo.
Johnny!
Johnny era vizinho de sua melhor amiga, a Bia, que andava meio sumida ultimamente (com certeza com muitas apresentações para fazer). Ela fora secretamente apaixonada por ele muito tempo.Ele nunca se tocou ou nunca quis se tocar disso. Ele a levou uma vez nessa praia, mostrou-lhe seu “lugar secreto” e as poucas cicatrizes que carregava. Mas foram outras cicatrizes que a comoveram Em outras tardes, no quarto de Bia, ela e.Johnny conversaram sobre muitas outras coisas, e ele a fez rir como nunca mais riria. Acariciou seu cabelo, falou do quanto sentiria sua falta. Ela esperou um beijo, mas desse dia só ficou a lembrança dos dois em silêncio, no quarto, esperando surgir alguma coisa para dizer enquanto bebiam. Só não saíram mais porque seu arsenal de mentiras precisava de tempo para reposição. Pois assim são alguns pais: protegem suas filhas de monstros irreais enquanto atendem a porta para os piores demônios. Mas o problema não estava exatamente aí. Talvez ele tivesse certo medo dela, “da intensidade de seu espírito” como disse uma vez. E como ninguém se declarava para ninguém, ficaram trocando livros, contos, poesias e discos.Assim, com ele aprendeu a curtir rock anos 70: Led Zeppelin, Black Sabbath, The Doors, Janis Joplin, uma coleção inteira de Pink Floyd. Não só a ouvir, mas traduzir as letras, a tecer considerações, relações entre a poesia, a biografia e o questionamento social que algumas músicas traziam. Com ele aprendeu a gostar de Rimbaud, Baudelaire, Artaud e Byron. Até que um dia ele foi fazer um intercâmbio no Canadá para só voltar um ano depois. E nesse tempo ela afundou.
Por isso ela não queria saber de namorado nenhum, porque o único que ela quis, o único que a compreendia de verdade resolveu por bem ignorar seus sentimentos. Ela pensava que ele deveria achá-la muito feia ou coisa parecida. Mais tarde Sheila descobriria que não era isso o que tinha acontecido. Bolou uma teoria em que o Amor na verdade não existia, era uma invenção daqueles que morriam de medo de viver sozinhos e então se agarravam a qualquer pessoa que de alguma forma supria suas carências – inclusive financeiras -e chamavam isso de Amor. O Amor de verdade só existiu mesmo como aqueles “caras” da Idade Média achavam que existia, irrealizado e idealizado. Personificado em alguma alma gêmea, que em tanto se assemelhava a você que tornava inexistente a necessidade da Palavra. O Amor, esse platônico, prescindia de sua linguagem.
Porém, quando se materializava em namoro, casamento ou qualquer coisa já não era Amor, se transformava no seu oposto, o Amor Morto, ou seja, Medo mesmo. Por isso ela sabia que amava Johnny. Mas não iria compactuar com o que chamava de “imbecilidade generalizada” e arranjar um babaca para preencher seu vazio existencial. O ideal mesmo era perseguir seus objetivos – assim que os tivesse, é claro - enquanto sentisse a ultima pá de terra soterrar esse tipo de ilusão. Sentir até um certo prazer em ver sumir essa parte tão infantil de si e se tornar por fim fria, implacável e insensível, completa e dolorosamente auto-suficiente. Quando conseguisse isso, daí tudo seria muito diferente. Não se sentiria mais tão machucada e conseguiria “dar o troco” em cada um que um dia lhe fizera mal. Especialmente sua família. Não acreditaria mais em nenhuma forma de Amor, nem este platônico e dedicaria o resto da sua vida a esmagar aqueles que lhe magoaram. Uma lágrima escapa de seus olhos. Merda!
Para resumir a Família era um “hospício institucionalizado”, a Igreja uma droga (viciava, alienava e era mentirosa) sem o menor barato, a Escola só falava das coisas que não queria saber, não pensava em ter uma profissão e ganhar dinheiro, pois achava que esse tipo de ambição escravizava todo mundo aos interesses dos f.d.p. egoístas que viviam para tornar o mundo um lugar cada vez pior.
Então...talvez Arte?Política?Ou quem sabe algum dom para os esportes?
Tá certo, ela gostava de desenhar, de pintar, seus quadros eram realmente muito bons, foi uma pena nunca ter investido nisso á sério. Gostava de jogar basquete, era legal também. Conheceu certa vez uma menina que era do “grêmio”, ela era uma gata muito cabeça. Mas aquelas tretas em que ela se envolvia, sei lá, roubavam muito tempo e davam muito pouco resultado entende? Não conseguia se imaginar fazendo coisas assim, como ela. Ah, mas também, e daí? Tinha vontade de gritar ao ouvir falar nisso como opções á vida que andava levando: “Acordem, otários, isso NÂO é o caminho da salvação”!

E o que era? O que ela tinha conseguido até então, a palmatória do mundo? Não tinha grandes amigos, alguns “amigos” somente. Viveu sim uma paixão mesmo que platônica, mas o que mais havia de interessante na vida desde que Johnny foi embora?
E ela? Como ela se via? Já sabia de antemão que não se amava, pois uma vez a Orientadora da Escola lhe disse que se ela usava drogas, então não conseguiria dizer que se amava com sinceridade olhando para um espelho. Ela devia ser então uma espécie de Vampira , não via seu próprio reflexo, não gostava da luz do sol, era pálida e fria. Divertiu-se um pouco com esse pensamento, depois voltou á carga. Como era ela?
Pensava ás vezes em se matar, outras que era uma espécie diferente de ser humano ou ainda que não era humana, e algumas vezes que embora incompreendida tinha uma missão muito especial para realizar, uma missão “kármica”. Estava divida entre as três possibilidades.
Para os amigos e conhecidos gostava de inventar histórias incríveis de si mesma. Mas nunca mentiu de verdade, só brincando.
Pensou muito e sem muitas respostas partiu de outro ponto. Como será que as pessoas a viam?
Morena, alta, cabelos compridos, olheiras, muito magra etc... Meias compridas de lã preta rasgadas, saia a um palmo do joelho preta e justa, regata preta, rosário de pedras pretas no pescoço e jaqueta de couro adivinha de- que- cor?Inteligente, talentosa, promissora, temperamental, só que um tanto confusa? A resposta veio incisiva e dura, sunsurrada em sua mente pela voz sibilante, rouca e estranhamente irônica que já conhecia. “Você quer mesmo saber, Sheila? Tímida, Insegura, Complexada, Inútil e Ridícula, sempre se achando cheia de razão em jogar sua vida fora em cada maldito minuto que passa dos melhores anos de sua vida...”
Essa voz, que alguns chamavam de consciência, ela chamava de Diabo, pois só aparecia para dizer coisas desse tipo e não propunha nada de novo também!
Valeu cara! ’Brigadão mesmo!
Sheila estava começando á sair dos seus devaneios e ficando assustada. Já era noite e ela não conseguira pensar em lugar nenhum para ir. Mas naquele dia pelo menos estava próxima de algum lugar.
Foi quando chegaram Rubão, Diógenes, Esther, Bezerrinha, Leo e toda a turma da praça. Revezando no violão, atraíam a estudantada que vinha saindo dos cursinhos. Logo se montaram duas rodas, uma para bater palma e cantar junto, outro para jogar “Verdade ou Consequência” e tomar vinho. Ela preferiu ficar no pirmeiro grupo, quando ouviu uma voz gaguejar na resposta da pergunta mais manjada de todas: “Qual foi a melhor noite da sua vida?” Ela esperou um pouco, talvez fosse ela:
- É...acho que foi naquele acampamento em Naufragados com o Digo, mesmo...

-Bia!

Era ela mesmo. Voltava da aula agora, e era verdade que vinha tendo muitas apresentações, por isso não a procurou antes. Logo a Andréia assumiu o violão. Negra linda, voz de veludo, chapéu de feltro negro e olhar lacrimoso e triste. Sua voz rasgou a noite:

Venha me beijar, meu doce vampiro
Uôuôuuuuuuuuuuuuuuuuuu...

Logo foram para o apê da Bia, que morava sozinha. Conseguiu com isso uma cama, um café da manhã, um banho e até tempo para lavar suas roupas e ficar o segundo dia inteiro sem fazer nada, vestida com a camisola de Bia. Só se preocupou em varrer o apê e fazer a janta para quando ela chegasse do trabalho e da aula. Adiantou mais ou menos. Ela disse que queria levar um novo namorado para o apê e perguntou se ela voltaria para casa no outro dia. Ela disse, com falsidade:
-Claro!
E pensou “sua vaca, que é que te interessa?”. Mas... ganhou dinheiro emprestado para consumir mais drogas no terceiro dia fora de casa. Claro que com a ajuda de alguns “amigos” tudo se facilita. Uma verdadeira roda viva de cocaína, maconha, Lexotan e benzina. Um relógio, uma jaqueta, um disc – man e uns óculos de sol a menos, ajudar esse e aquele em alguns assaltos, fazer um e outro avião, pedir dinheiro nas ruas com alguma história para lá de esfarrapada enfim essas coisas... Enquanto isso continuava tentando pensar no que faria de sua vida e em outro amigo que pudesse lhe ajudar. Custou á se dar conta de que suas opções haviam acabado. Todas as outras pessoas em que conseguia pensar iriam fatalmente entregá-la de volta á sua família.
Além do que percebeu que o traficante olhou para ela de modo estranho desta vez. Será que vai me oferecer um emprego ou só esta com pena de mim? Que se f...!Não volto mais aqui e está acabado!Iria para longe, para um lugar desconhecido, com amigos desconhecidos e “patrões” desconhecidos, do tipo que não notassem que “a menina estava fora de casa á 2 dias”.E andou, andou, andou muito pensando que quanto mais andasse mais próxima estaria desse lugar.
As ruas de repente se tornaram desertas e se a estrada fora se definindo na sua fuga de lugares movimentados, Sheila passa agora a perceber que não conhece esse lado da cidade.
Sente frio, esta escurecendo. Para melhorar começa a chover. Agora que já não estava próxima de lugar nenhum, nem sequer de um posto policial que a ajudasse a voltar para o lugar de onde viera. Sua casa. A Bia. O Inferno. Qualquer opção agora parecia melhor. Bem, não voltaria para lá de jeito nenhum mesmo, será interessante dormir na rua pela primeira vez na vida. Ou ainda... poderia dormir na Rodoviária até ser presa se não conseguisse onde passar a noite.Mas daí o Conselho Tutelar a devolveria a sua mãe, é claro. E ainda teria que suportar um insuportável psicólogo e talvez tivesse que prestar alguns “serviços à comunidade”. Insuportável! Psicólogos, argh! Cospe para o lado. São ainda piores que os padres.
Agora que iria passar a ser uma habitante das ruas, poderia começar a pensar a sério na possibilidade de se prostituir. Por quanto será que conseguiria vender sua Virgindade?Sentiu um súbito arrepio ao pensar nisso.
Sheila estava na fronteira.
Olhou para trás...
- Talvez seja melhor mesmo voltar para casa...além do que, não vejo nenhum prostíbulo por perto.
Aliás não via nada com aquela chuva. Como que concordando, o vento uivou mais forte e a chuva “apertou” mais em seus nervos e sua mente.
Seguiu andando, com o coração dolorosamente oprimido.


Eram quase onze da noite quando chegou ao barracão onde Padre Chinelo morava. Vazio. Ela percebia que alguém morava ali, porque haviaum cheiro e um calor de casa habitada. Viu que havia um fogareiro próximo, acendeu e deixou as roupas para secar. Nua, estirou se um pouco. Sentou –se, e começou a preparar o material para cheirar mais um pouco. Esperta, tinha deixado a cocaína embalada num saco plástico, para não molhar.. E começou a quebrar a pedra com uma faca. Era da boa...
Foi quando se virou para um canto e percebeu o Padre ali, quieto, sentando numa cadeira arrumando flores num vaso. “Mas como...ele estava aqui o tempo todo e eu não o vi?”Sentiu um misto de medo e vergonha.
-Desculpe

Ele respondeu:

-Por quê?Não há culpa...

-Bem, estou na sua casa, nua e...(falou baixinho) não fui convidada e...(engasgou de vergonha, tinha vontade de chorar)
A vontade de chorar transformou-se em raiva: - “Por que ele tinha que estar aqui?” Aproveitou para fuzilá-lo com o olhar, com certa arrogância até, cuspiu:

-Posso ficar aqui?
O Padre não responde.Começou a rir.
Ela respirou fundo. Por um momento, até esqueceu que estava nua. Resolveu oferecer:
-Quer um pouco?
Ele faz uma expressão estranha, de espanto. Não diz nada. Antes, foi até um outro canto do barracão e trouxe para ela uma bata branca igual à dele, só que com uma rosa no centro. Disse:
-Vista, por gentileza...
Ia dizer “muito obrigada”, mas, sem saber por que, exitou no ultimo momento. Lembrou-se de Tia Simone e de como sempre respondia:
-Muito agradecida.
Ele sorriu um sorriso lindo, de criança que abre a janela e vê o dia perfeito para ir á praia, no fim de semana!
E aquele sorriso deixou Sheila contente. Sem pensar estende uma carreira em sua direção. Ele vira o rosto e faz uma careta de nojo.
-É, acho que não quer.
E de uma estranha maneira, perde a vontade também. Guarda de volta na mochila. Esta tudo tão quieto. A noite inteira parece silenciar, de repente até parou de chover, tão rapidamente que ela nem notou. O Velho Padre olha para cima. Parece perceber o silêncio de uma outra maneira. Olha pela janela. Ao longe, uma velha amendoeira. E acima o planeta Vênus. Sheila se pergunta:

-“Será que só chovia dentro de sua cabeça?”

Fechou os olhos e ouviu o barulho da chuva forte, os trovões e viu até a súbita luminosidade de um raio. Abriu-os e lá estava: a lua crescente, Vênus, e as constelações cujo nome desconhecia.
“ Acho que estou ficando louca!” – pensa. Vê que o Padre tenta fixar seu olhar nela, e pergunta:

-Se importa se eu passar a noite aqui?

O Padre novamente não responde. Sentiu certo receio. Mas para onde iria agora? Estava cansada, tão cansada que nem o pó faria com que se levantasse e começasse a andar novamente sem rumo. Mas ele a manteria acordada. Qualquer movimento suspeito do Velho e ela sairia dali. Mas também não quis usar nada, no fundo achava até aquela sua desconfiança desnecessária. Ás vezes melhor mal acompanhada que sozinha. “Estranho” – pensou – “ tenho impressão de que quando cheguei essa árvore não estava aqui. Ela é tão impressionante, parece mesmo irreal...E as flores então? Brancas, grandes, pareciam inchadas á luz da lua, como grandes seios a gotejar perfume. As folhas eram poucas e de um verde muito escuro, de superfície brilhante como que enceradas. Nunca tinha visto arvore igual a essa, nem sentido perfume parecido com esse. Era algo pesado, muito doce,enjoativo e tinha algo que lembrava um pouco formol. Um tanto alcóolico, talvez? Aquele tipo de perfume que parece asfixiar e inebriar ao mesmo tempo. Não necessariamente agradável, só estranho”. Só tinha uma certeza: aquela árvore não era mais uma amendoeira como tinha pensado inicialmente.
E depois a arvore sumiu. Só o perfume permaneceu.
Olhou para as paredes a procura de alguma coisa.
“Só podia estar ficando louca”.

Começou a ler em volta os escritos do Padre, que decoravam as paredes.
( ESTE E O PROFETA / GENTILEZA QUE GERA / GENTILEZA AMORRR / BELEZA E RIQUEZA A / NATUREZA E DEUS NOSSO / PAI CRIADORR O DESTRUI- / DORR E O CAPETA )
E outro:
GUERRA SO DO / GENTILEZA GERA GEN- / TILEZA AMORRR BELEZA / PERFEICÃO BONDADE E RI- / QUEZA VAMOS LIBERRTARR A / NATUREZA E DEUS NOSSO PAI / CRIADORR DA TUDO DE GRACA O / CAPITALISMO DOS FILHOS EO DESTR- / UIDORR POR JESSUSS DISSE PRO- / FETA GENTILEZA AMORRR PAZ
E outro ainda;
( GENTILEZA GERA GENTILEZA AMORRR / MEUS FILHOS NOSSA CABECA NOSSO MESTRE O / MUMDO E UMA ESCOLA ENSINA O LADO POSITIVO E O / NEGATIVO NOSSO BOM PENCAMENTO NOSSO PARAISO / BOA PALAVRA A PORTA DO PARAISO DE DEUS PENSAME / NTO NEGATIVO DE MALDADE.
Abriu os olhos e se sentiu como a muitos dias não se sentia. Lúcida. Como alguém que subitamente recupera a noção em meio á embriaguez. Como um despertar, só que mais rápido, gozando o alerta de todos os sentidos. Como alguém que subitamente ouve um tiro.
Padre Chinelo olhava para ela fixamente, como quem vê uma chama se afastando em meio á trevas. Á muito tempo não falava, seria melhor escrever, mas sabia que não conseguiria agora que a havia encontrado. Há muito não ouvia sua própria voz, mas chegara o momento de usá-la.
Na verdade, não temos muito tempo – pensou o Padre.
Para quebrar o silêncio, Sheila pergunta:
-São seus?
-Não exatamente. Eu já vim aqui outras vezes, mas agora estou só de passagem para entregar um recado...
Ela fingiu entender, para não ser mal-educada. Mudou de assunto:
-Eu acho que já lhe conheço. Não era o senhor que dia desses estava na Praça XV, quando vieram uns rapazes e começaram a abusar...e...
Gaguejou. Lembrou exatamente do ocorrido. Ela veio e gritou com eles. Ficou o dia inteiro pensando naquilo: “Como as pessoas consentiam que tratassem um velhinho com tanta desumanidade, só por ele ser pobre?”
Ele não respondeu. Só olhou para ela com os olhinhos doces e tristes de sempre, de uma maneira tão compreensiva e meiga, que ela até sentiu pena.
“Como sobrevive alguém assim num mundo de tanta maldade?”
Ele pareceu adivinhar seu pensamento. E mudou de assunto de novo.
-Olha, eu escrevo porque as pessoas continuam gostando do que escrevo. Mas na verdade, não vim desta vez para escrever. Vim para mostrar isso...para você.
Foi quando pegou a flauta e tocou. E o que aconteceu depois ela nunca mais conseguiria definir:
A luz que cresceu em torno dele foi de um brilho tão súbito e imenso que ela não teve escolha senão voltar os olhos para a janela. Então percebeu que as paisagens que aquela janela emoldurava eram cambiantes. Se desdobravam em milhares de cenas como um filme. Um circo pegando fogo, a Guerra no Golfo Pérsico, campos de concentração e escravidão no campo e na cidade. As pessoas pareciam alheias, autômatos prestes a serem devorados por uma gigantesca máquina, que jorrava sangue por todas as dobradiças.Gritos, muitos gritos! E depois silêncio! Cinzas. Sopradas ao vento. Um cata-vento girando com o mundo. O Padre em várias paisagens diferentes, em várias praças, distribuindo flores. Distribuindo vinho. Distribuindo amor e levando pedradas, sendo preso, insultado. Mas também fazendo amigos. Uma criança lhe dá um beijo e ele ri. Colhe folhas de palmeira. Pega a tinta e escreve no nas colunas da Avenida Brasil. Ela vê uma espada ensangüentada ser cravada no chão, no meio de um jardim. E logo em seguida, lá esta ela. Sozinha e nua. Pega uma taça de vinho. Derrama na terra. E dali nasce uma arvore...
E então, o que dizer? Ela sentiu novamente a sensação de queda, de mergulho no abismo, de redemoinho... e acordou.
Morrendo de frio, sentia a gélida umidade do ar e da terra sob si nos ossos, seus músculos enrijecidos, seu pescoço dolorido por dormir no chão e sem travesseiro. Percebeu que sentia mais frio nas costas, talvez sua bata tenha se molhado com a umidade da terra. Move-se um pouco, para se desvirar e levantar logo. Algo risca sua pele. Ela sente arder, coloca instintivamente a mão sobre o corte e vê... Sangue ainda quente. Vira-se por sobre si mesma para o outro lado, rápido para entender o que aconteceu e vê que dormiu ali, dentro do barracão, ao lado de Padre Chinelo que já não estava mais lá. Entre eles uma espada, com os fios voltados para cada um que mesmo em sonho tentasse ultrapassar a linha imaginária. Para cada um deles aquela noite não existiu a possibilidade de um toque sequer, que não fosse precedido pela lâmina fria, a dor do corte e o calor do sangue.Achava que já tinha lido uma coisa parecida antes:
Tristão e Isolda.
O Amor Verdadeiro.Sem tocar. Deixando marcas profundas.
Percebeu que não havia apenas sangue em suas mãos. Havia também purpurina. E estrelinhas coloridas, como daquelas colas de criança. E também flores. Dormiu numa cama de flores.
Assustada, saiu correndo sem olhar para trás. Quando desandou a correr, na direção da estrada, não viu um bom Padre a abrir os olhos zombeteiros e esboçar um leve sorriso de aprovação, ao lado do fogão, no outro canto do quarto.
Sheila não perceberia também, em sua alegria ao avistar a estrada, o carro de polícia que vinha em sua direção na ultima encruzilhada á direita. Eles conseguiram reavê-la, impedindo-a de prosseguir daquela vez, devolvendo Sheila á sua família e ao seu verdadeiro destino. Não foi sem luta que a capturaram. Mas o mais importante é que este não foi o seu ultimo ato de coragem.
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Epílogo.
Desta vez Padre Chinelo foi embora para não mais voltar. As lendas prosseguiram seu curso natural.
I) Ele finalmente foi desmascarado, a polícia estava em seu encalço por ele ser bêbado, vagabundo, consumidor de drogas, ladrão, baderneiro...
II) Ele foi desmascarado, todos ouviram a polícia falar que ele fora visto abusando de uma menina que entrara, provavelmente em busca de drogas, naquele casebre imundo em que vivia. Viu, não falei para você não ir puxar assunto com ele?
III) Sua mulher morrera, ele voltou para recuperar parte de sua fortuna, cuidar dos seus filhos e escrever um livro sobre a experiência de viver nas ruas. Era só esperar.
IV) O sanatório o havia levado embora. Ele sorriu, no hospício, pensando que sua missão finalmente havia terminado,pois ele já ajudara as pessoas que ali viera encontrar. Deixou esse planeta com suas asas de anjo (essa era uma das versões mais aceitas no íntimo de todos, até dos mais maledicentes).
V) Ele seguiu para cumprir mais uma etapa de sua missão, encontrar a Arvore Cósmica, tentar fazer com que frutificasse, e com seus frutos resgatar uma velha dívida que havia contraído com Estrela – da – Manhã (todos achavam que o Mestre andava abusando do ecstasy nas Rave’s, mas não deixou de ser criativo, como dá para notar...).

Enquanto isso...

Johnny recebe com absurda frieza a notícia da morte de seu pai. A sua mãe á muito já havia falecido e todos esperavam dele uma crise de desespero agora que se encontrava praticamente sozinho. Mas não foi isso o que aconteceu e para não decepcionar inteiramente a platéia, ele disse simplesmente que desde que se tornara Espírita sentia a Morte como uma ilusão que não mais o enganava. Na verdade, a única coisa que conseguiu pensar foi: “E a Bolsa de Valores faz mais uma vítima...” Só que dessa vez não fora um país inteiro, um continente, mas apenas seu pai, um acionista comum que subitamente enriquecera e agora suicidava-se deixando como herança um mar de dividas.
Estava dividido entre entrar para o Seminário ou para o Exército. Acabou fazendo Filosofia e já estava no mestrado. Trabalhando como Analista de Sistemas, reencontrou todo seu dinheiro e até sua tristeza pela morte dos pais..E tentava de todas as maneiras reencontrar Sheila. Tentaria fazer com que dessa vez ela não temesse. E não fugisse. Há muito tempo deixara a família, e parece que tinha entrado numa história de conhecer a América Latina inteira num fusquinha cor-de-rosa.Uma revista a contratou para descrever a viagem e bancou as despesas. Mesmo com o itinerário em mãos, parecia que toda a vez que ele estava prestes a encontrá-la, acontecia um imprevisto e ela seguia em frente. Resolveu a Florianópolis.. Sabia que em menos de três meses ela deveria estar de volta ao destino.Seu maior medo era que ela encontrasse um outro alguém, ou se encantasse demais com alguma cidadezinha escondida em algum recanto desconhecido da cartografia, ou ainda que lhe acontecesse algum acidente e ela nunca mais pudesse retornar... mas ele esperava, com algo desconhecido dele até então. Fé.
Falou com a dona da revista pela enésima vez e ela lhe garantiu que já devia estar chegando, no máximo amanhã. Foi quando viu um velhinho. Barbas muito brancas, sentado num banco de praça, cercado por uma quantidade incrível de pombos, que ele alimentava no bico até. Não pôde deixar de sorrir.
Só aí teve certeza de que sim, eles iriam finalmente se reencontrar.