segunda-feira, 27 de agosto de 2007

A Vendedora de Rosas.



Me aconteceu numa manhã de inverno muito clara, de uma alegria aguda como o frio que enregelava os ossos, o encontro com uma mulher que tinha nos lábios o sol do meio dia.

-Rosas para a moça sorridente, que fala sozinha!

Algo no seu sotaque de “erre” puxado ou no seu olhar de mil caravanas, me fez parar pelo gosto de cumprimentá-la.
-Bom dia!
Como descrevê-la em sua alegria por me ver ficar só por uns instantes? Momentos como esse mereciam ser congelados e armazenados em algum lugar, para serem doados gratuitamente aos suicidas. Nesta”caixinha” poderia estar inscrito: “por que sou feliz humano (a)”.
Mas talvez isso também não fosse bom. Talvez, se isso fosse possível, alguém quisesse possuir só para si, comercializar, ostentar-se com sua posse. E, como tudo que faz parte desse círculo, talvez perdesse algo do seu valor. Como as rosas que aquela senhora carregava, vermelho-sangue, amarelo – ouro, rosa-chá, tão belas e tão sem dignidade.
A avozinha era um caleidoscópio de luzes coloridas e ofuscantes. Sua imagem esquivava à definições, fluindo para as mãos macias que se abriam como asas ligeiras, estendendo diante de mim suas rosas.Para meu espírito em redemoinho, virou uma obsessão poder dizê-la. Pouco consegui, eu confesso! Eis alguns cacos...
À fragilidade de toda a sua ossatura (tinha ossos de pássaro) se somava a paralisia de uma das pernas, apoiada em também frágeis muletas. Seu sorriso dizia – “nove anos de idade recém feitos!” – mas as rugas ao redor dos olhos gritavam – “claro que não, tola! Uns cinqüenta!” – sendo que as marcas horizontais na amplidão da testa pareciam confirmar num murmúrio grave ambas as coisas. Imediatamente contestadas pelo brilho da tez morena cor-de-canela, gritavam os cabelos já brancos e reluzentes – “talvez, sessenta!” Dessa discussão não participaram: o nariz aquilino, as orelhas pequeninas como mimosas, os dentes tão pequenos e rosados que mais pareciam inexistentes na boca miúda de lábios finos rachados pelo frio e o próprio olhar, oblíquo, loqüaz e reluzente.... Eu me perdia em conjecturas. E num momento mesquinho, juro! Tentei sentir pena!

“ - Que faz essa vovó, aleijadinha da perna até, aqui neste frio a vender rosas? Cadê a família, cadê o Estado, cadê o Brasil que não vêm e a abraça?” A moldura da cena parecia das mais cruéis. No semáforo, sua beleza frágil, alquebrada e estranha competia com a uniformidade reluzente do aço e do concreto. Não pude evitar sentir raiva daqueles carros, daquele asfalto, daqueles olhares indiferentes por eles serem simplesmente isso, e não a casa, os netos e o chocolate quente com bolo que, no meu ponto de vista, toda vovó deveria ter!
Mas ela inverteu a situação, refletindo- do modo errado – sobre o brilho nos meus olhos que queriam já derreter num sereno de lágrimas contidas:

- A menina está apaixonada, pelos olhos dá para ver!

Parecia exultante ao afirmar isso. Não quis desmentir, no meu desconcerto recobrei a razão. A compaixão também é humilhante. Confirmei rápida para arrumar a desculpa que faltava:

- Sim! Quero rosas para enfeitar meu quarto esta noite!
Forcei uma gargalhada alegre. Funcionou!

-Pode tê-las por dez noites, se quiser – E sorriu maliciosa. Ah, segredos de mulheres - Corte-as pelo viés, assim...- e fez um gesto com os dedinhos magros e ligeiros em forma de tesoura – e mantenha-as na água gelada. Pode até colocar gelo. Tenho uma afilhada que deixa um jarro d’água na geladeira só para rosas. Os outros vendedores sempre me dizem: tola, por que conta? Não sabe que se não contar o mesmo comprador volta em três dias? Eu não quero nem saber. Conto mesmo!

A risada que brotou de mim soou mais espontânea frente a esse pequeno gesto de desobediência civil. Me senti identificada com ela. Pensei comigo – Sim, nós somos assim mesmo! Ferozes e desobedientes! Para que guardar para si um conhecimento que, no mais, sempre volta a nossas mãos multiplicado? Por espalhar meus segredos ao vento, mais de uma vez senti-me incompreendida também. Mas acho que entendi o motivo pelo qual ela faz isso, que é o meu motivo de ser professora também. Ela diz nunca ter perdido nenhum cliente desta maneira, pelo contrário, ganhou alguns que só compram com ela. Foi quando me surgiu um pensamento dissonante na harmonia dos sentidos:
“Estranhas flores estas que amam o gelo, como certos homens e mulheres, que ao carinho preferem o desprezo.”
Nossos olhos pareciam dançar juntos, mas eu senti vertigem com aquilo e quebrei o silêncio:

- Não têm brancas?
-Não, estão em falta. Em São Paulo é festa da Candelária. Mas veja esta, que bonita! Em doze anos vendendo rosas, é a primeira rosa verde que já vi em toda minha vida...
-Verdade! Quanto quer pela verde?

Antes que o leitor pense que se ela dissesse que as rosas eram azuis, eu imediatamente concordaria por força de simpatia, quero esclarecer que realmente era verde. Bem, não verde como a bandeira do Brasil, mas algo assim...mais sutil. Ela deveria ser branca, ou amarela, mas acabou ganhando o tom do chá de erva doce! E mais estranha ainda por não ter espinhos. Você vai dizer: “ah, está bom! Tinha cheirinho de morango também”?
Não, não tinha! Cheirava a rosa... verde!

-Quanto custa!
-Bem, essa e mais duas cor-de-rosas, por exemplo, eu vendo por cinco reais!
-Tá aqui!
-Muito obrigada, moça! Que Deus lhe dê muito mais! Paz, amor, alegria e dinheiro!
-Obrigada! O mesmo para senhora!

Segui para casa com a rosa verde esmaecida, ainda pensando nestas flores que brotam com toda força, como que de tinhosas mesmo, com raiva da terra crestada e do tempo ímpio. As rosas – alguém já disse – também são flores com deficiência física. E o segredo da rosa, também, é algo que todo mundo sabe. Não gostam da terra fofinha e adubada. Nascem melhores na terra crua e verdadeira. Preferem o gelo, mas sabem sorrir como o meio dia. E eu, que também nunca tinha visto rosa verde (e sem espinhos ainda!), comprei aquela especialmente por que seu perfume trouxe-me a lembrança de um tempo em que parecia mais fácil ter esperança...


P.S: Mais tarde encontrei uma moça que parecia ser ela, só que muito mais jovem e sem a paralisia. Ela me contou que não, não era sua filha, mas a conhecia e que “o governo, esses desgraçados, queriam tirá-la das ruas por ser idosa e deficiente física, por isso ela não aparecia mais junto aos outros, preferia trabalhar sozinha em lugares menos visados”. Saí com a sensação estranha de estar sendo enganada de alguma maneira...

Sympathy For The Devil.




Você descobriu meu nome
Desenhou meu símbolo e
Mais importante do que isso
Discou meu número
Porém nesse momento talvez não queira atender...
Ou talvez não possa
Mas deixe seu recado e verei o que posso fazer por você.”


- Secretária Eletrônica 20 de novembro de 2006 / Carmina Burana ao fundo –

BEEEEEEEEEEEPPPPP:

“ Há, há, há,há há.Esta foi ótima, boa mesmo!
Quando der me liga, viu? Amanhã é a festa...”

-D. Pan, melhor amiga maluca de D. –

“Que absurdo é esse agora, minha filha?
Tira já essa coisa horrível, tétrica, de mau gosto... e sem palavras para definir!
Olha, sua malcriada, só liguei para dizer que amanhã vou passar na tua casa para pegar a chave e entregar para o encanador e ver se você não esta precisando de nada!”

- Sim, D. têm mãe. O lema da sua poderia ser: “Seja criativo e invente uma utilidade para si mesmo, afinal, se não somos imprescindíveis a alguém, o que somos?” –

BEEEEEEEEEEEPPPPPPPPP.

“Herrr...bem, como vai minha filha? Escuta só essa música

8877887733377766688877722299999999911111111/000
8877887733377766688877722299999999911111111/000
8877887733377766688877722299999999911111111/000

3377766688877
3377766688877

Diz-me depois o que acha, ta? Estou atrasado para o Show...”.

BEEEPPPPPPPPPPPPPP!

- Todos conhecem naturalmente o Pai de D.Ou pensam que conhecem. A maioria sequer sentiu sua presença, mas trata como amigo íntimo. E essa é sua brincadeirinha sem graça e diária: sabe que onde ELE ouve música, D. só ouve números.E onde D. ouve música, ELE só ouve barulho. Ainda assim Neil Gaiman esta certo, a melhor música está no inferno –

BEEEEEPPPPPPPP... TÚ,TÚ,TÚ,TÚ,TÚ...

“Ô, que negócio horrível é esse! Tira essa coisa medonha e terrorista da tua secretária. Como pretende passar uma imagem de respeitabilidade assim?!?”

- Bem, tudo começou quando D. resolveu provar para si mesma que não era tão má assim e resolveu fazer um trabalho voluntário com crianças na Casa de Passagem. Ou seja, crianças carentes que não têm para onde ir, mas estão em situação de risco e com sua vida á disposição da justiça dos homens e da piedade de D. Esse que acabou de gravar sua mensagem é o Coordenador –em –chefe do projeto que ás vezes faz o papel de irmão-adotivo-com tendências incestuosas, paranóicas e paranormais. Confuso? Nem tanto.

BEEEEEEEEEPPPPPPPP.....

“Ah, amanhã têm reunião... dá para levar aquele projeto que você ficou de fazer no final de semana para que nós tenhamos algo para apresentar?”

BEEEEEEEEEEPPPPPP...

- E D. pensa: “as vezes a bondade e abnegação cultivada pelos seres humanos me assusta. É porque todas as suas flores são híbridas que seus frutos têm um sabor tão estranho?”

BEEEEEEEEEEPPPPPP

“Hmmmm...é...vou passar aí amanhã para pegar o resto das minhas coisas tá?
Errr...até mais então”.

D. pausa a secretária. Suspira fundo e diz para si mesma, em voz alta:

- “É, não adianta lutar contra a própria natureza. Para que casar se tudo um dia acaba? Deve ser o convívio com os mortais, só pode...”.

BEEEEEEEEEEPPPPP

- “HAHAHAHAHA...ESSA FOI PARA “ELES” É?
Não adianta, esses nunca vão se mancar até a hora que você disser para ir catar coquinho no asfalto..”..

- E D. pensa: “se fosse assim tão fácil...”.Prossegue o gravador;

- “Olha só a gente já tinha combinado, mas só para lembrar. Amanhã devo estar na sua casa á partir das- HAHAHAHA, PARA C... DESCULPE É O LEO AQUI GRITANDO NO OUVIDO SE QUERO IR A SINUCA – já disse que NÃO, PÔW, dá licença (mais baixo)...continuando... depois do ensaio, então devo chegar por volta das 23:00 hs. BELEZA?”

Amigo que vai passar um tempo na casa de D. porquê fica mais fácil para ele do que utilizar nosso já famoso transporte público após uma jornada de trabalho, estudo e ainda ensaiar na Escola de Samba.

Num apê qualquer, aquela cena de filme anos 80. Mesa revirada, cheia de papéis disputando espaço com a caixinha de Yakissôba, frutas, um guarda chuva fechado e molhado além de um indefectível cinzeiro cheio ao lado do mais que necessário copo de vinho tinto suave misturado a uma dose de sangue humano Tipo O¯ roubado do HEMOSC há algum tempo atrás. Certas manchas no tapete são a regra do cenário clichê e lá estão elas, estrategicamente posicionadas. D. adora clichês, como adora tudo o que é simples e irresistível. Porém, como um anticlímax de cenário mal feito, as plantas vicejam, o azulejo brilha, os quadros estão ligeiramente tortos e ao invés de um charmoso sofá, como se poderia esperar, o que vemos é uma rede, colocada num canto próximo à janela que dá para a varanda , onde D. se espreguiça com calma.
Olhos semicerrados, olhar ao longe, sabe que não pode dormir. Acende mais um cigarro. Traga, e ao expelir a fumaça preta de seus pulmões, observa que ela forma no ar desenhos e formas incompreensíveis como seus amigos, inimigos, amantes e horizontes que evanescem sempre no mesmo sopro que os cria, inevitavelmente.
Deseja agora não compreender nem dormir, apenas conseguir pensar em nada e dar lugar aos sonhos, mesmo que acordada.

III - O Gato e a Cobra - Por que a amizade terminou e o Gato mata a Cobra sempre que a vê.


Imagem gentilmente cedida por Fernando Luiz.

O Gato e a Cobra tinham a mais linda relação de amizade de todo o mundo animal, despertando ciúmes e inveja onde quer que a demonstrassem, mas no entanto, ninguém nunca conseguira interferir nessa relação. Ambos haviam de tal modo unido suas almas, que seus apetites eram quase idênticos, para melhor caçarem juntos.Dizia-se até que viam o mundo com os olhos do outro.E isso, por fantasioso que pudesse parecer à primeira vista, era tão real que o Gato, de animal diurno, passou a ser noturno e as Cobra, por sua vez, acabou sofrendo mutação em suas pupilas - que se dilatam e se retraem conforme a intensidade da luz. Como se sabe, as Cobras são quase cegas, portanto tal artifício era quase desnecessário, na verdade.Para que alterar pupilas de acordo com a luz, se você vive quase as escuras sempre? Mas um dia a Cobra pensou "isso é tão bonito..." e acabou copiando a idéia. A união de almas proporcionada pela amizade alterara suas próprias naturezas, de maneira definitiva.
E isso foi assim até a chegada dos humanos á proximidade de seu habitat natural.

O Gato, mais curioso que a Cobra, logo se deu a conhecer aos humanos.
A Cobra, mais arisca que o Gato, não quis conhecer a novidade e o conforto trazido pelos humanos, por medo de perder sua liberdade.
O Gato logo ficou domesticado, pois se afeiçoou a filha do casal que morava ali. Bem - tratado, com comida e seguras horas de sono, engordou e não saia mais para caçar tanto quanto antes. Acabou deixando de lado a antiga amizade com a Cobra, que se encheu de despeito, mas retraiu-se.
Um dia, a menina se afastou de casa para um passeio e começou a andar por uma grama muito alta. A Cobra a seguiu silenciosa, mordeu -a no calcanhar, e a menina morreu.
O Gato, quando viu a menina morta - foi o primeiro a encontrá-la - ficou muito sentido, e foi pedir explicações á Cobra:
-Por que fez isso? Sabia que eu amava a menina, e seguiu-a para morder e matar na primeira oportunidade que teve.Diga-me então, o que foi que ela lhe fez?
A Cobra, prevendo a cena, já tinha inventado uma boa desculpa.
-Venha comigo e veja você mesmo!
Levou-o a toca de uma vizinha, que tinha posto ovos em um buraco de árvore recentemente e pedira para que ela cuidasse, enquanto saia para caçar:
-Sua "linda menina" veio com um pedaço de pau e queria quebrar os ovos da minha amiga...
Porém, o Gato desconfiou.
-Por que então ela foi ferida no calcanhar - e não pela frente, caso você estivesse aqui para defender os ovos? Caso não estivesse, porque os ovos estão inteiros ainda? E enfim, para ambos os casos por que foi encontrada tão longe deste lugar?

A Cobra, ao invés de inventar mais uma história fantástica que justificasse a todas essas coisas, explodiu simplesmente:

-Como é? Então me acusas de estar mentindo por causa de uma menina boba e, ainda por cima, assassina de Cobras? O que aconteceu com nossa amizade? A lembrança do que passamos juntos? Responda!

A mágoa era sincera, mas a desculpa para matar a menina não, e o Gato - sendo também bicho muito inteligente - logo percebeu isso. E falou, com a tristeza incomparável de quem vê uma grande amizade perdida para sempre:

-Cobra, não posso provar que está mentindo, mas sei que estás. Na verdade, cometestes três erros.Primeiro: um crime contra quem não lhe fez nada.Segundo: desconsiderou meus sentimentos em relação à menina (que me tratou com um carinho e amor de tipo que você não conhece).E terceiro, como que para agravar tudo isso, trai a confiança que entre nós existia com uma mentira. Por isso, não posso mais perdoá-la e não quero vê-la mais perto de nossa casa. Sim! Eu de agora em diante morarei sempre com os humanos.Não voltarei à floresta.E nós dois seremos inimigos e sempre que eu a vir, lhe atacarei e lhe matarei para proteger aos que aprendi a amar. Porém, em consideração a nossa antiga amizade, e também para o caso de estares falando a verdade em alguma coisa - embora eu sinta que não estás -sempre que estiveres longe de minha casa, a tratarei com respeito. E aos humanos que atacares longe de casa, não buscarei vingança, pois não se pode julgar ninguém sem ter visto de fato o que realmente aconteceu.Assim será entre nós e toda a nossa descendência. Na verdade, só não te mato agora para que você tenha a chance de comunicar isso a todas as suas irmãs e parentes.Mas nunca mais ouse chegar perto daquela casa, entendeu bem?

Virou-se de costas então e afastou-se devagar, sem querer ouvir mais nada, selando o destino de todas as gerações de Cobras e Gatos.

Assim, o Gato sempre que encontra a Cobra perto de casa, mata-a. Longe de casa, simplesmente a evita ou ignora.Mas nunca a procura voluntariamente para fazer-lhe qualquer mal.E isso é assim até hoje.Mesmo inimigos, ambos (as) se tratam com respeito o suficiente para não querer encontrarem-se.

Algumas Cobras, porém, fizeram amizade com alguns humanos, naturalmente aqueles com quem tinham mais afinidade. Outras, mantiveram-se na tradição de um rancor antigo e agora inexplicável. Mas ás que romperam com a tradição são muito queridas e descobriram de que espécie de amor o Gato falava. Por isso, tanto Gatos quanto Cobras foram adorados na Antigüidade e ainda o são, em alguns lugares.

E ainda, Gatos e Cobras, mesmo domésticos, jamais dividem a mesma casa. No fundo, ambos são mais parecidos do que o Gato pôde supor. Afinal, quem é ressentido mesmo?

Moral da História (se é que é o caso):

1) Nem sempre o que parece fantasioso é irreal. Realmente, um dos "milagres do amor" é alterar definitivamente a natureza dos envolvidos de forma tão fantástica que certas mudanças tornam-se mais que comportamentais, e também de forma definitiva, muitas vezes permanecendo a mudança até depois que o amor foi embora.Todos temos exemplos disso, mas não conseguimos explicar.

2) Nada distancia mais dois amigos do que o desejo de liberdade de um e o desejo de conforto do outro. E o pior de tudo é quando ambos querem as duas coisas de formas diferentes. O Gato quis o conforto - e essa era sua liberdade. A Cobra quis a liberdade – mas ela era vazia sem a companhia do Gato, e por isso tentou ferir sua fonte de conforto.

3) Cuidado com amigos-Cobras: eles mentem bem, são ressentidos e vingativos (mesmo sem muito motivo). E cuidado com amigos-Gatos: eles se identificam com a Justiça, mas ainda mais com a Família. Se sentirem - se obrigados a escolher entre sua amizade ou uma das duas anteriores, você dança.


4)O ressentimento e a mágoa são maus conselheiros e levam a decisões que, além de péssimas, têm efeitos definitivos. Se a Cobra matou a menina sem motivo - e para sempre - o Gato, por sua vez, matou uma amizade e transmitiu sua decisão á toda a descendência, o que não é lá muito justo também.A Cobra, mais flexível, deixou à sua descendência o poder de decidir seu destino - e parece que todas elas (tradicionais e inovadoras) são mais felizes assim.

5) Quando cometer um erro muito, mas muito feio mesmo, simplesmente assuma e peça desculpas. Não crie histórias encima. Além de não enganar a ninguém com isso, põe a perder sua confiabilidade. E nisso o Gato estava certo.

6)Vingança não é justiça. Não se julga sem se ter visto e não se julga apenas pelo que se vê, tampouco. Isso é muito difícil.Mas traz suas vantagens. A margem de dúvida que você tiver a cada versão não só livra "réus inocentes" de serem penalizados, como também traz a "réus culpados" mais brandura na punição. E o mundo ia ser um lugar horrível se todos tivessem certeza de tudo e resolvessem penalizar na base do "olho por olho, dente por dente". Afinal até a Cobra, se for atacada, têm o direito de defender-se - e, ás vezes os humanos fazem realmente isso, e aí? Seria justo o Gato buscar vingança? Por tudo isso, tudo quando ficar em dúvida se deve "crer em seus próprios olhos", consulte a mente e o coração também, em partes iguais. É o que leva à decisão mais sábia. Nesse ponto, o Gato também estava certo.

7) Todos só têm a ganhar com a amizade e o amor, que deve sempre se multiplicar, nunca dividir. Gatos e Cobras poderiam ser amigos até hoje, e ainda, serem amigos dos humanos, compartilhando as mesmas casas. Todos sairiam ganhando se soubessem como proceder com Justiça e Amor ao mesmo tempo.

domingo, 26 de agosto de 2007

II - O Gato e a Cobra - Ainda sobre o que se pode e se deve ensinar




Em outra ocasião, o Gato e a Cobra caçavam juntos, quando veio um imenso búfalo correndo com toda a pressa, fugindo de um leão. Na fuga, ia esmagando tudo o que se encontrasse no caminho. O Gato ligeiro pulou numa árvore muito alta, mas a Cobra não conseguiu fazer isso, e com grande esforço conseguiu um buraco para se esconder, quando já estava preste a ser esmagada pelas patas do búfalo. Então perguntou ao Gato:

-Como conseguiu fazer isso?
-É simples, copie meus movimentos.

E assim, a Cobra imitou todos os movimentos do Gato e aprendeu a subir. Porém, na hora de descer, o Gato simplesmente se atirou árvore abaixo, caindo de pé, sem se machucar. A Cobra tentou fazer o mesmo, mas caiu com todo corpo no chão, quase quebrando as vértebras - e a Cobra, como se sabe só tem vértebras!

- Por que não me ensinou a descer?
-Ia fazer isso lá debaixo, para garantir que você não caísse, mas que, se caísse, eu te seguraria. Só que quando me virei para você, você já tinha se atirado...

Depois o Gato ensinou que a descida não poderia ser da maneira como ele fazia, e tentou lhe dizer para adaptar a descida á sua própria natureza, o que a Cobra - por ser bicho muito inteligente - logo conseguiu, espremendo-se contra a arvore e deslizando, junto ao tronco, para o chão.
Mas dizem que ainda se atira, às vezes, como exercício de auto-superação quando a altura da árvore é mais baixa.
E por isso, além de subir e descer em árvores, a Cobra aprendeu a pular pequenas distâncias entre uma árvore e outra e no chão também.Já o Gato, de tanto acompanhar a Cobra para ensiná-la a subir,descer e pular (e de tanto pular atrás da Cobra para impedir que se machucasse), aprendeu que, se caísse de costas, conseguiria torcer o corpo no ar e cair de pé.

Moral da História:

1)Para o professor: o que é fácil para você pode não ser para outra pessoa. Pense num método passo - a - passo para explicar o que pretende enquanto ensina, para não gerar tombos desnecessários. Saiba que nem todo o seu amor poderá proteger um aluno mais afoito se você não fizer isso.
2)Para o aluno: Não se apresse em copiar o Professor se não tem clareza da intenção dele ao ensinar alguma coisa. Vá devagar, porque às vezes é necessário adaptar certos detalhes entre aquilo que você realmente é capaz de realizar e o que o querem que você aprenda. É preciso ser capaz de inventar novos caminhos, não só percorrer a estrada já trilhada.

3)Para ambos: é em situações de risco que nos mostramos exatamente como somos e o que realmente sabemos. Professores e alunos deveriam arriscar-se mais na imensa floresta do conhecimento.

O Gato e a Cobra - Do que podemos ensinar aos amigos (ou não).


Imagem gentilmente cedida por Fernando Luiz

O Gato e a Cobra eram grandes amigos, na infância da humanidade. Caçavam, brincavam, conversavam riam e se divertiam juntos. Como todos os bons amigos pensavam ter muito em comum.
Um dia belo dia, o Gato estava caçando quando um imenso lobo veio em sua direção.O Gato não viu, já que estava distraído espreitando o rato escondido num monte de lenha, próximo a morada dos humanos.
A Cobra, que observava tudo, se aproximou do lobo, tensionou sua musculatura, emitiu um chiado baixo e mostrou as presas.
E o lobo foi embora, com o rabo entre as pernas.
O Gato, ao ouvir o barulho da Cobra, só observou a cena tremendo de medo. Quando o lobo foi embora, disse:

-Fiquei tão preocupado com você, mas ao mesmo tempo tive tanto medo! Mas você...você foi mais que ótimo! Me ensina a fazer isto?
E a Cobra: - É claro, na verdade é muito fácil.Trata-se de impor respeito...
Porém, em uma outra ocasião, o Gato estava espreitando uma outra toca, só que desta vez numa fenda de árvore. Chega um leão para comer o Gato e este repete o que a Cobra lhe ensinou, mas sem resultado.
A Cobra, que vinha novamente atrás do Gato, percebeu rápida a situação, passou por trás do Leão e mordeu-o no pescoço, matando-o.
O Gato, que observava tudo com atenção, percebeu que uma espécie de água (só que de cheiro amargo) pingava da boca do amigo, cujas presas já estavam limpas do sangue. Ia esticando a língua para lamber, quando a Cobra advertiu:
-Não beba! Isso é veneno, foi o que matou o leão e não a mordida!
-Mas por quê você não me ensinou isto também?
Ao que a Cobra redargüiu:
-Nem poderia. O veneno não me foi ensinado, mas é uma dádiva da minha natureza.Quanto ao que lhe ensinei, poderá usar com quase todos os animais, exceto os que forem seus parentes.
Moral da história:
1)Muitas situações difíceis são apenas uma questão de saber se impor.Não leve desaforo para casa! Mas saiba exatamente quais são as suas limitações, para não levar hematomas para casa também, além dos desaforos! Ou talvez, nem voltar para casa...E lembre-se que é em casa que te conhecem melhor, portanto certos "truques" e demonstrações de força simplesmente não funcionam com os parentes.

2)A segunda moral já é um adágio popular. "A curiosidade matou o Gato". Antes de sair experimentando qualquer viagem para ver qual é, informe-se o máximo possível sobre as conseqüências de sua ação.
3)Nem tudo se pode ou se deve ensinar. Mas ao fazê-lo, concentre-se bem na explicação, para não ter que repeti-la com mais detalhes. Quem faz mal feito faz duas vezes, e alguns erros de compreensão são fatais!
4) Em todos os casos é muito bom ter amigos!

Receita de Esquecimento




Vi mais beleza em andar só...
E aos poucos achei o gosto
Que não perdi nunca mais
Fui aprendendo de tudo
Sempre querendo demais
Aos poucos, esqueci teu rosto
Já nem sei quem és mais.

Acho que perdi no milagre
De outra transmutação
Aprendi há pouco tempo
Espera! Vou te contar!
Têm que ser antes do dia romper
E depois da madrugada chegar...
Quem sabe consigas fazer...
O bem que isto vai te trazer
Eu mesma não sei mensurar

Meus olhos – e os teus também
são cheios de um néctar macio
que um dia fez o mundo brilhar
Você sente quando vêm
Mas deve saber provocar
Esta na palavra certa
E na certeza do olhar
E no cio delirante
Dos que se apaixonam,
Sem nunca jamais tocar
Daí é só apertar
Com força e precisão
Não deve ter medo, não!
Com certeza que machuca
E é claro que vai sangrar...

Mas siga espremendo, sem dó
Até que sinta jorrar.
E aquilo que sobrar
Ora, aí que esta!Você molda!
Cantando e acariciando
até sentir esquentar...
Serão as notas de alento
Que vão fazer funcionar
Vá mexendo em fogo lento
E nunca deixe esfriar!


Derrame sobre as pedras
E todas as outras correntes
Que façam alguém calar
Na esperança que se partam
Para que o outro possa voltar!
Seja luz e seja guia
à todo aquele que um dia
Ousou se aprisionar!



E se não valer a pena
Espere o dia raiar.
Faça uma trouxa pequena
Com tudo que é certo
Que se pode guardar...
O perfume da açucena
E o poder de admirar
A delicadeza do toque
Da morte e do despertar
O saber de si mesmo
E histórias para contar

E se não mais conseguir
Com o peso do seu pesar
Largue na primeira encruza
Que duvida à estrada trouxer
A lembrança desta mulher
Que só te quis enganar!

Carta da Mãe Natureza ao Seu Filho Distante...


Planeta Terra,4,6 bilhões de giros em torno do sol e ainda dançando....


Queridos filhos;

Há muito venho tentando lhes escrever, mas não sou muito boa com essas modernidades e a linguagem... bem, sabem também o que penso sobre isso...
Mas finalmente consegui arrumar alguém me entendeu para dizer a vocês o que eu já não consigo.
Vocês já são Homens e Mulheres no sentido pleno do termo.
Vocês são agora A Humanidade.
E por este motivo já não vejo sentido em ocultar certos fatos da vida a vocês.
Queridos, eu estou morrendo.
Percebam o que venho querendo dizer - talvez um pouco duramente nos últimos séculos.
Eu estou gravemente doente e talvez seja incurável.
Acho que não cabem acusações agora. Não quero e não vou repetir a ladainha sobre quem tem culpa de que...isso já nem faz mais sentido e deixou de fazer há muito tempo.
Assumo é claro minha responsabilidade, mas quero dizer que eu mesma não percebi a gravidade dos fatos em princípios.
Toda a vez que sentia uma dor, uma febre,uma tontura...quero dizer...
toda a vez que queimavam matas,envenenavam os rios,conspurcavam os ventos...bem, eu sorria e pensava: "só para a morte não há remédio".
E seguia em frente, lentamente como sempre é certo, mas com alegria.
Fé na vida e otimismo, lembram? Quando vocês eram crianças assustadas a correr nuas sobre minha pele, eu ensinei isso a vocês.
Então pensei comigo: é hora de seguir meu próprio exemplo.
Claro, eu sei que a adolescência é uma fase difícil. É como um céu carregado e tenso pelas paixões em choque.
Vocês estavam querendo se afirmar, queriam independência, ficaram com raiva de mim...mas eu compreendo como funcionam essas coisas e já esperava por este dia. Achava até engraçadinho em princípio (risos) quer dizer, num dia eu era uma coisa estupenda, me amavam e idolatravam...no outro dia eu já não valia nada, tinha que estar a disposição de vocês o tempo todo.
Um dia queriam uma coisa, no outro já não era mais...quer dizer,nem fiz muito caso das modas que vocês criavam e descriavam. Muito rapidamente, as vezes aos saltos, irrefletidamente...é a natureza de vocês.
Eu os amo por isso também. Por vocês serem meus filhos e por esta característica que é única.
O tempo passsou...e o céu cada vez mais carregado. Mas eu achava graça, pensava: "Crianças..."
Não esperava sinceramente que a tempestade fosse vir tão violenta.
Houve um momento que ficou irreconciliável, quero dizer... bombas atômicas? Francamente, não esperava isso de vocês, trabalhei tanto, apostei tanto na Humanidade e ...vocês deixam claro que querem destruir tudo pelo que lutei? Sim, eu disse que não iria fazer acusações mas isto não pude omitir porque me parece que estão tentando repetir a mesma bobagem.
Queridos, entendam! Eu não posso mais...suportar isso.

Eu sei que a partir deste momento restaram muitos ressentimentos de parte a parte.
Houve quem dissesse: "tanto tempo para a terra se recuperar, mas isso é absurdo!"
Ora, o que eu podia fazer? Não sou assim tão rápida quanto vocês que constroem e desconstroem suas coisas e certezas em segundos.
E talvez por isso vocês se afastaram tanto de mim.
Foram brigas demais, muitas mágoas. Vocês insistiram que estavam “expostos as minhas intempéries, aos meus humores, que era hora de impor limites a nossa relação...”
Mas eu tinha que pensar nos irmãos de vocês também. Especialmente por que ao contrário de vocês eles vivem por si mesmos. Pedras, rios,lagos,montanhas,arvores,cachoeiras,o próprio mar e sem esquecer todos os outros animais. Estes também têm suas próprias necessidades e precisam que as coisas sejam equilibradas. Vocês podem se sentir privilegiados, mas saibam que nunca fiz distinção entre vocês e seus irmãos...
E porquê insistentemente vocês gritaram que meus conselhos não eram mais úteis, minhas lamúrias eram mesquinhas e irritantes, que tudo o que eu fazia era errado...bem, eu me calei.
Talvez tenha errado em esconder a gravidade do problema de vocês por tanto tempo.
Mas é que eu sei como vocês vêm estando ocupados agora, com tantos conflitos na familia não poderiam mesmo voltar a mim então eu me virei até agora como pude.
Sim, eu sei que os irmãos de vocês vêm se mostrando especialmente úteis.
Vocês gostaram especialmente dos gatos e cachorros, né? Vejam, eu criei tantas espécies, mas parece que gostaram mesmo de tão poucas... Aliás, isso eu preciso dizer também, acho que vocês precisam...cuidar melhor de seus irmãos. Eu já estou velha,sempre os alimentei e nutri, podem me acusar do que quiserem mas não de ter sido zelosa na criação dos meus filhos. Alguns dizem que talvez os tenha mimado demais (risos) e por isso vocês são assim. Mas preciso que de agora em diante vocês precisam começar a cuidar mais uns dos outros. Cansei de dizer: "não os desprezem por que eles não entendem as coisas ao seu modo, somos uma familia e lembrem que eles sabem de muitas coisas que vocês nem desconfiam".Acho que vocês não lembram mais disso pelo modo como os vem tratando...
Como eu disse, tentei mandar recados antes (alterações no clima, tsunamis, terremotos) mas pelo que pude perceber vocês não entenderam.Aliás acho que este foi o problema desde o início, nós nunca conseguimos nos compreender muito bem...(nem me venham falar daqueles...como é que vocês chamam..."filósofos?" “biólogos”? “políticos?” que vocês inventaram para criar uma língua comum entre nós, nunca funcionou e vocês sabem bem do que estou falando...)
Mas não era disso que eu queria falar. Toda essa conversa requer tempo e muita coisa deve ser mesmo tratada pessoalmente.
Digo que não são frescuras de velha, confirmem com os médicos da sua confiança (vocês chamam de cientistas, né?) eu estou muito doente e sinto que em breve vou morrer.
Sabem que eu quando me for não deixo herança, porquê vocês mesmos fizeram questão de consumir com ela no decorrer da existência e também porque somos todos mutuamente dependentes nesta familia (vocês não queriam assim mas quanto a isso também não posso fazer nada).
E eu estou muito, mas muito preocupada mesmo com vocês, especialmente se eu me for.
Por exemplo, onde vocês pretendem morar afinal?
Marte? Pelamordedeus...parem de sonhar e pensem um pouco...
Esquece isso que eu disse, são coisas de uma mãe preocupada, não quero que vocês deixem de investir no que acreditam.
Eu os criei para o Universo...
Mas preciso conversar com vocês, pelo menos uma ultima vez antes de morrer.
Carinho e atenção, amor e respeito são coisas que não se cobram,vocês cansaram de me dizer isso e eu entendi.
Mas quero ter certeza de que ficarão bem.
Sabem aonde me encontrar. Qualquer praia, floresta, montanha enfim, todas as paisagens de que tanto gostavam antes, não precisam estar intocadas, basta que estejam limpas.
Já disse e vou repetir: "não quero que me defendam - eu sempre soube me defender - quero que me respeitem".
Um enorme beijo da mamãe que ama muito todos vocês

P.S: *Carta da Mãe Natureza ao seu filho distante, a humanidade.

O Padre, A Virgem e a Flor.


Quando O Padre chegou, com sua túnica de um branco quase sempre puríssimo, seus chinelos trançados de couro, e um cabelo grisalho que caía quase calvo no alto da cabeça, mas farto e cheio na altura dos ombros, todos sentiram uma espécie de temor irreverente.
Alguns viam como mais uma carga a somar em suas inadiáveis responsabilidades diárias: ensinar as crianças a não falar com ele, levar café, comida ou roupas limpas de vez em quando, varrer a sujeira que por ventura trouxesse.
Algumas preocupações bastante compreensíveis também. Ele se instalou em um ponto que dava para ver a maior parte das casas da rua, em breve conheceria todos os hábitos de cada morador. E se quisesse roubar as casas, ou vender informações para quem tivesse essa intenção?Algumas vizinhas agiam como se sua presença imunda intoxicasse o ar e tornasse tudo a sua volta irrespirável, insustentável e insuportável. Mas essas vizinhas sempre tão preocupadas com a saúde pública - mas que nunca fizeram nada por ninguém mesmo - não moveriam uma palha sequer para tentar tirá-lo dali.
Um “delator desconhecido” ligou para a polícia, que lhe informou que não podia fazer nada enquanto ele nada fizesse.
Questões relativas a segurança ou á caridade.E a expectativa que o Medo traz. Nada fora do normal
Foram os adolescentes estudantes do Colégio Anabatista, que terminaram batizando-o de Padre, por causa de seu camisolão, um bordão todo trabalhado de madeira com estranhos animais transfigurados incrustados com algumas pedras – brasileiras de baixo valor, as velhas sandálias de couro, então resolveram dizer que aquele homem era o Padre Chinelo que vinha abençoar os hábitos boêmios e etílicos daqueles jovens.
Ficou sendo O Padre.

Três meses se passaram.

E se no início ele suscitou o Medo algumas coisas fizeram com que isso aos poucos se modificasse.

Para começar, ele jamais pediu coisa alguma, ao contrário das expectativas locais. Praticamente se ignorava do que vivia. Havia uma pequena construção de madeira, projetada como se fosse mesmo uma casa, mas que só abrigou mesmo “A Sereia do Mar”, saudosa embarcação de seu Pedro que, junto a ele, se acabou nos costões. Ali ele estabeleceu sua morada. E começou a cultivar com carinho uma horta e um jardim, após poucos dias de sua chegada. Intrigadas com isso, as pessoas começaram a se aproximar dele para ofertar pequenas contribuições em dinheiro, comida, roupas... E a deixar claro que faziam isso para que ele “cuidasse dos lares”. Ele não disse nada, sorriu apenas, mas com um sorriso que começou a inspirar uma certa confiança.

- “Muito agradecido” –
E aos poucos descobriam pequenas coisas a seu respeito. Nunca bebia álcool e quase nunca fumava (nem sequer um baseadinho). Aliás, embora ficasse ás vezes na fila do Sopão dos Pobres, distribuído em frente à Rodoviária Rita Maria, porém, os outros moradores de rua contavam que nunca o viram bebendo a sopa. Ia, antes, ao final da fila e deixava com este o prato, ou ainda com aquele (ou aquela) que parecia ter mais necessidade. Dizia que tinha que se manter puro, mas não dizia para quê. Também não prestava atenção em nada, ficava ali escrevendo coisas incompreensíveis e tocando em sua flauta músicas que ninguém conhecia, mas muito bonitas e que deixava em todos os passantes daquela rua a sensação de reconhecimento. Distribuía flores mais ou menos nos mesmos dias do mês, mas ninguém nunca o viu na fila do INSS. Ele era, por sinal, muito educado, e igualmente com homens e mulheres -é certo que os homens estranhavam um pouco quando o estranho se aproximava e entregava rosas vermelhas, por exemplo.Mas isso nunca rendeu confusão, até porque a maioria dos homens que as recebia parecia ter o semblante de quem realmente tinha feito algo para merecer tal agrado. Nas raras vezes em que se ouviu ele falar alguma coisa, percebia – se que nunca dizia, por favor, e nem muito obrigado. Justificava: não faço nada, por favor, só por gentileza. Também não me sinto obrigado a nada. Só muito agradecido. Tentava convencer os outros a fazerem o mesmo.
Mas o Padre chamava a atenção por outros motivos. Detalhes que incomodavam um pouco, mas que ninguém sabia dizer por quê. Um ar de estranha satisfação consigo mesmo, um sorriso permanente que parecia tão perfeito para aquele rosto marcado pelo tempo. Talvez fossem seus olhos azuis desbotados, tristes e estranhamente brilhantes. Ou a longa barba branca, que ia até a metade do seu peito, que terminava em uma trança. Nunca se viu o Padre comer, mas ele parecia mais saudável que nunca. Nunca se viu onde tomava banho, mas era de um asseio impecável. Algumas pessoas, ao fixarem nele seu olhar, tinham a impressão que ele como se desfocava em meio a uma luz muito intensa. As ciganas fugiam dele, mas os animais o amavam tanto, que não raro era visto cercado deles. O barracão onde morava, por exemplo, era infestado de cachorro, uns diziam que eram dez, outros doze. E gatos, também. Como conviviam? E com que dinheiro os alimentava?

Começaram então as muitas especulações. Quatro teorias pareciam predominar:
I) Ele era um mendigo bêbado, vagabundo e consumidor de drogas até que um dia matou alguém e esqueceu de sua humanidade, enlouqueceu para ser um mendigo, bêbado vagabundo, etc...
II) Ele era muito rico, foi traído pela mulher e acordou para a hipocrisia que permeava todas as relações sociais, daí resolveu desistir de tudo. Isso explicava por que uma vez por mês ele tinha dinheiro e porque não dormia no chão – da – rua
III) Ele era uma versão moderna do homem – do – saco. Naquela sua sacola provavelmente estavam os restos mortais de alguma criança desavisada e linguaruda, do tipo que arranja assunto com mendigos e pergunta o porquê de tudo. Por isso ele só cozinhava á noite, e parava para contemplar com um sorriso faminto as crianças que passavam. A maior parte delas o detestava, e muitas tinham pesadelos com ele.
IV) Ele era um Anjo disfarçado de Padre, teria vindo para redimir os pecados do Orgulho e da Indiferença dos Velhos e dos Adultos, fazendo com que os pais percebessem que poderia haver coisa pior do que ter filhos como eles. Poderiam ter um filho mendigo, por exemplo.
V) Ele era o Mago Branco, um peregrino mágico na busca do Saber e da Verdade. Encontrou as duas coisas em determinado estágio da peregrinação e enlouqueceu. Servia para animar os jogos de RPG.


Na verdade, ele não tinha passado e não tinha futuro. Ele nem ao menos era, apenas estava.Vibrava, imenso, deixando fagulhas de artifício no ar enquanto explodia no céu amarelado, mesquinho, dos que nunca poderiam compreender, mesmo que ousassem fazer a pergunta crucial. E de tão enigmático começou a se tornar por todos admirados, de uma maneira também muito estranha. Virou moda. Já não perguntavam. De onde vinha? Por que se instalou justamente ali? De onde brotava seu dinheiro? Mas buscavam com ele conselhos, reflexões, histórias dos lugares por onde tinha estado nesta terra e além... O que ele escrevia, o que dizia, e ás vezes o que insinuava com seus olhinhos doces e tristes simplesmente não tinha o menor sentido. Mas, de certa forma, fazia profundo sentido para aquele que o ouvia. Muitas vidas foram inteiramente modificadas em duas o mais horas de conversa, e agora ninguém mais se interessava por quem ele era. Buscavam nele a si mesmas. Mas muito raramente ele desviava os olhos do que escrevia, mais dificilmente ainda da música que tocava. Parecia obstinado e com muito pouco tempo, exatamente com qualquer pessoa que tivesse algum trabalho especial.

Até que um belo dia...

Um grupo de adolescentes, bêbados e unidos pelo compromisso de uma aposta, tentaram dissuadi-lo a responder suas perguntas. Arrancaram a flauta de suas mãos e ameaçaram quebrá-la. Cercaram-no, e começaram a puxar-lhe os cabelos. Gritavam perguntas e ameaçavam queimá-lo vivo se não respondesse. Quem os visse naquele momento, não poderia deixar de pensar num grupo de cações, nadando em círculos, acuando uma presa fácil. Ele só se ajoelhou no centro do círculo, cobriu a cabeça e ficou repetindo: “Eu os amo também!” As pessoas que passavam começaram a chegar mais perto, querendo saber o que afinal estava acontecendo. Chegou uma moça e gritou alto: “Mas o que esta acontecendo, afinal?” Foi como o fim de um transe. Todos foram saindo devagar e em silêncio, incluindo aquele primeiro grupo de adolescentes - subitamente horrorizado com a possibilidade de ser mal interpretado por importunar um pobre velhinho mendigo - tratou de escapar de fininho dali.
Alguém contou o sucedido na delegacia. Um jornalista ouviu e foi averiguar. Logo, vários repórteres vieram. Encontraram o Padre no mesmo lugar, ainda de joelhos com a cabeça encoberta, e fizeram uma matéria. Vasculharam todos os arquivos da cidade, procuraram seus parentes e nada. Diante de tamanho alvoroço Padre Chinelo resolveu se esconder por uma semana, deixando tudo exatamente como estava, em um claro sinal de que voltaria. E voltou.
Mais sorridente e compreensivo do que nunca, começou a conversar com todos. Parecia falar coisas inteligíveis apenas ás crianças, das quais nunca escondeu a predileção. Quanto aos outros, oferecia agora seus textos, ou os rasgava, ou ainda soltava-os ao vento. Continuavam a não saber nada da vida de Padre Chinelo, ou de sua missão, mas agora ele lhes dava uma coisa que realmente precisavam.
Quando as pessoas achavam que um problema se instalara na vida delas de maneira insolúvel, procuravam o Padre, pediam um escrito, uma música ou qualquer coisa, e por incompreensível que parecesse, recebiam uma resposta. Respostas íntimas. Do tipo que só o destinatário conseguiria interpretar.
E do primeiro sacrilégio nasceu o apreço.
Vamos deixar o Padre Chinelo por enquanto, sozinho em sua barraca escrevendo coisas incisivamente complexas.


Vamos falar da Menina

Sheila se olhava com certo desapreço, mas não desapaixonadamente. O espelho não mentia e suas olheiras estavam cada vez mais fundas. Nada contra ao tom acinzentado que sua pele ganhara nos últimos meses de loucura, de certa maneira até gostava daquele tom, branco azulado. Gelo. Sempre quis aparentar frieza e esse tom reforçava a impressão. Os cabelos longos e grossos como uma crina, caindo abaixo da cintura, lisos e pintados de um negro tão negro que seu reflexo era azul, ressaltados pelos olhos também negros e muito redondos atuavam como elementos de contraste. Virou-se de costas para o espelho, não gostava se de olhar por muito tempo. Sentou na cama e revisou as unhas. As da mão já haviam atingido um comprimento médio, era chegada à hora de pintá-las. Rebú. Saia preta, jaqueta de couro preta, meia preta, blusa preta, chapéu preto, manta preta, botas pretas e bolsa-mochila preta...pronto!Estava pronta para sair!Depois de tanto tempo fechada em casa, sem ver os amigos, seria quase como uma aventura. Uma ultima olhada no espelho para rever suas tatuagens. Tinha uma tatuagem na nuca – um pentagrama – e mais ou menos um palmo acima do púbis, mais para a direita, um pégasus estendia suas asas em direção ao observador.Pensava em fazer mais uma a revelia de sua mãe, para “fechar um número ímpar”, o que todo mundo sabe, traz mais sorte.Daqui a três meses completaria dezesseis anos, e pensava em pedir um curso de desenho no SENAC de presente.Tinha apenas o segundo grau incompleto e depois de seis meses trancada no quarto finalmente se permitira pensar em encarar de frente a vida e voltar á escola, embora soubesse que esse ano estava irremediavelmente perdido.Daí a idéia do curso, para ir se ocupando em aprender alguma coisa até recomeçarem as aulas...
Tinha sido uma estudante razoável, um tanto tímida e reclusiva, pouco dada á festinhas. Não bebia, não fumava, não tinha namorado, de poucos amigos mesmo. Todos adivinhavam nela muito potencial, mas ninguém conseguia adivinhar que potencial era esse. Ela tinha Alma, diziam, e seus olhos brilhavam. Nessa época tinha ainda 13 anos e tudo ia bem.
Mas não tão bem quanto gostaria, e a velha trinca Curiosidade, Orgulho e Medo fez sua atuação prodigiosa no velho palco dos sonhos adolescentes. Após o período que mais tarde chamaria de “A queda”, passou a beber, a fumar 20 cigarros por dia, a mentir para família para ficar até mais tarde nos bares, até que um canudo prateado selou o pacto entre seu corpo e a Morte. Por testemunha, sua já desaparecida amiga Camila.Nessa época teria uns quatorze anos.
A casa veio abaixo quando descobriram suas relações com o mal-afamado “mundo das drogas”.Daí sua decisão de “largar o vício” e de ficar reclusa em seu quarto por três meses, sem atender ligações e vendo apenas os amigos que a visitavam. Por alguns meses, Sheila havia decidido ser uma menina “legal”, “comportada”, e se tornar um “motivo de orgulho” para reconquistar a confiança de todos. O estranho é que o plano quase deu certo, e a família respirou tranqüilamente por algum tempo. Enquanto isso ela tinha paz para pensar...
Porém naquele dia, em que resolveu finalmente sair do quarto, uma briga tomou proporções muito grandes. Sheila brigou com o padrasto, que por sua vez brigou com a mãe. Ela ligou para o pai, que “entrou de sola” na conversa, deixando sua mãe histérica. Então viu que não tinha mais jeito e partiu, aproveitando-se da ausência dos que estavam muito ocupados consigo mesmos naquele momento. Antes de sair tomou meia caixa de Valium (de sua mãe) e meia garrafa de White Horse do padrasto, levando o resto dos comprimidos e a garrafa . Ainda não tinha um plano. Tudo isso aconteceu do outro lado da cidade.
Foi até a Rodoviária, perguntou o preço de algumas passagens – para descobrir que não tinha dinheiro para ir a lugar nenhum que quisesse – e decidiu se deixar ficar por ali, até decidir o que fazer.Mas logo se deu conta que no caminho que resolvera seguir não havia tempo para vacilações. Logo viria á noite e sua mãe daria por sua falta.Decidiu ir andando a esmo, e pedir dinheiro nas ruas para assegurar minimamente sua subsistência por um tempo. Como estava relativamente bem arrumada, resolveu usar a velha desculpa do “esqueci o dinheiro do ônibus”. Logo levantou uns trinta reais – isso no tempo em que com um real você conseguia comprar um refrigerante, uma coxinha, um chocolate e ainda sobravam algumas moedas. Foi isso o que fez.E comprou mais um maço de cigarros também.
Quando escureceu, decidiu ir até um bar que freqüentara nos bons tempos em busca de “amigos” que talvez pudessem ajudá-la.Em princípio todo mundo pareceu estranhar o fato de ver uma menina tão nova entrar naquele lugar e sentar-se sozinha a mesa. Mas talvez fosse apenas mais uma excêntrica. E excêntricos não faltavam ali.Para começar, era um lugar até legal, á meia luz, bandinha de Rythim & Blues, e pessoas de classe média alta e/ou baixa tentando imprimir o máximo de sofisticação e elegância em quase tudo o que faziam. Não chegava a ser o Teatro dos Vampiros. Era mais parecido com seu Baile de Máscaras. Sim, pois por mais que as roupas daquelas pessoas parecessem “casualmente” compradas em algum brechó, e estarem arranjadas como se tivessem vindo da Inglaterra de 1950 e desembarcado diretamente ali em 1998, apesar dos nomes sofisticados e das estranhas misturas de seus drinques, dos nomes e sobrenomes indicando interessantes histórias familiares e do assunto parecer girar em torno dos mais elevados debates intelectuais, você perceberia, em dez minutos, que o lugar mais movimentado da casa ainda era o banheiro. As pessoas ali estavam preocupadas apenas com uma coisa: consumo de cocaína.Como conseguir, como comprar, para quem vender, etc... Aquelas pessoas não se vestiam, na verdade adotavam figurinos que se adequavam perfeitamente á fantasia que adotavam de si mesmos. Mal sentiam o gosto de seus drinques, o paladar anestesiado pela ansiedade e o desejo por uma outra iguaria que seria consumida noite adentro devagar, muito devagar, para que durasse. E na verdade o único assunto ali debatido era a profundidade do “Eu” na busca de si mesmo.Resumindo: ninguém falava sobre nada, realmente.

Era o lugar perfeito para se sentir espetacularmente sozinho.

Teria sido uma longa noite aquela, se não tivesse tido a sorte de encontrar um amigo relativamente confiável, que estranhou encontrá-la ali. Anderson, que antigamente havia lhe colocado o piercing na sombrancelha e nutrira por Sheila algum tesão. Muitos anos se passaram e hoje tinha por ela apenas um carinho de irmã. Conseguiu com ele um lugar para dormir naquela primeira noite e pensar um pouco. Ele lhe disse: “você não devia se expor tanto, deve tomar mais cuidado, e se eu não aparecesse”? Ela concorda um tanto aborrecida pelo sermão, e logo muda de assunto, destilando veneno á respeito de tudo e de todos para divertir um pouco o amigo. Era o mínimo que poderia fazer.

No outro dia foi embora, antes que ele acordasse, e deixou um bilhete.

“Brigada pelo apoio e pela grana. Não conta para ninguém que estive por aqui. Fui!”

Continuou andando, tomou mais comprimidos, mais bebida para distrair por um tempo a fome que com certeza viria, o medo, e até a famosa vontade de compreender o mundo e “abrir as portas da percepção”. A velha pergunta agora martelava: por que ás coisas nunca “davam certo” na sua casa? Na sua maneira de compreender as coisas, dessa vez ela se esforçara: deixou de lado a postura rebelde, vestiu-se da maneira correta e suportou aparências, agüentou com paciência a tia carola, fez planos de voltar a estudar e tirar boas notas. E quando todo mundo parecia estar absolutamente despreocupado com ela, então enlouqueciam e voltavam a brigar pelos velhos motivos de sempre.
Ela sabia que já não havia mais lugar para ela naquela casa, e já não ligava a mínima para quem quer que morasse nela. Sua mãe era o modelo da mulher que não queria se tornar (sempre fazendo drama por nada) seu padrasto um grosso estúpido, seu irmão o “filhinho de papai” autêntico e seu pai...um advogado. Isso já dizia muita coisa. A única pessoa de quem realmente sentiria saudades era de sua outra tia, Simone, irmã de seu pai. Ela sempre fora muito boa, muito compreensiva, sem dúvida a única que “valia á pena”. Vai ver por isso a família a desprezava tanto. Porque era a única autêntica, independente e decidida. Engravidara pela primeira vez aos quatorze anos e agora, ao vinte, já tinha três filhos – todos do Homem Errado. Trabalhava como manicure e sempre dizia: “não faça como a titia, curta todas, saia e namore bastante, mas sempre com camisinha”. Ela ria daquele conselho dado assim, de modo tão natural. Sabia que sentiria falta dela, do seu carinho, dos seus bolinhos de final de tarde, quando faziam as unhas e contavam uma para a outra histórias de música, de livros e filmes...
Chorava muito agora, sentada no banco da praça: detestava todos eles, queria que eles morressem, imaginava-se satisfeita e feliz, dançando enquanto sua casa pegava fogo.Então poderia inventar, por exemplo, que era adotada.Pegaria todo o dinheiro investido em anos com a única finalidade de se acumular indefinidamente e investiria num Bar, que logo se transformaria no maior da região. Seria o “Pardieiro Bar”, onde sem dúvida Diógenes e Rubão dariam uma palha todos os dias. E seria feliz, feliz, feliz...chorando e chorando e chorando muito agora naquele banco de praça.
Enxugou as lágrimas e fez um esforço para voltar a pensar racionalmente. Ela precisava descansar e planejar para onde afinal de contas iria, o que faria, o que deveria fazer. Já tinha mais ou menos um rumo, a estrada. Mas precisaria recorrer á algumas pessoas para comer, dormir, tomar banho...
Não tinha muitos amigos á quem recorrer. Todos eles enfiados até o pescoço em suas próprias histórias, diriam que ela não passava de uma “mimada”, que estava em crise novamente e tinha que fazer um esforço para “sair da lama”, que precisava voltar para casa porque ali pelo menos as pessoas eram dispostas á lhe sustentar. E o pior de todos os argumentos, o que mais detestava: tinha que arrumar um namorado para aliviar a tensão e parar de fazer besteira.

Parece que todo mundo via grande mal no fato de querer viver sozinha.

Por outro lado, também viam grande mal no fato dela se recusar terminantemente á ir a Igreja. Gente chata. Mulheres feias, invejosas, recalcadas e mal amadas. Homens sebosos cheirando a vela, que lhe passavam a mão na primeira oportunidade que encontravam. Nojentos! E o Padre, então? No primeiro dia em que foi se confessar, veio com uma conversa estranha, do tipo: “você se masturba?” E de homem, gosta? Um de cada vez ou todos ao mesmo tempo?” Ele ignorou todas as negativas anteriores, parecia estar muito mais concentrado em perguntar do que em ouvir as respostas... E muita gente lucrando muito, vendendo a carne das pobres ovelhinhas, sempre a espera do abate pensando estarem protegidas pelo Lobo. Hipocrisia pura.Detestava tudo aquilo, e se Deus tinha alguma relação com isso, então não o queria para amigo. Sempre que pensava na Igreja ideal, pensava na praia secreta que Johnny um dia lhe levou. Aquilo sim era um lugar mágico, eterno e sagrado, digno de um Deus que ela consideraria, que tivesse por Mandamentos o Amor ao Próximo, a Sinceridade, o Respeito á Natureza e a Si Mesmo.
Johnny!
Johnny era vizinho de sua melhor amiga, a Bia, que andava meio sumida ultimamente (com certeza com muitas apresentações para fazer). Ela fora secretamente apaixonada por ele muito tempo.Ele nunca se tocou ou nunca quis se tocar disso. Ele a levou uma vez nessa praia, mostrou-lhe seu “lugar secreto” e as poucas cicatrizes que carregava. Mas foram outras cicatrizes que a comoveram Em outras tardes, no quarto de Bia, ela e.Johnny conversaram sobre muitas outras coisas, e ele a fez rir como nunca mais riria. Acariciou seu cabelo, falou do quanto sentiria sua falta. Ela esperou um beijo, mas desse dia só ficou a lembrança dos dois em silêncio, no quarto, esperando surgir alguma coisa para dizer enquanto bebiam. Só não saíram mais porque seu arsenal de mentiras precisava de tempo para reposição. Pois assim são alguns pais: protegem suas filhas de monstros irreais enquanto atendem a porta para os piores demônios. Mas o problema não estava exatamente aí. Talvez ele tivesse certo medo dela, “da intensidade de seu espírito” como disse uma vez. E como ninguém se declarava para ninguém, ficaram trocando livros, contos, poesias e discos.Assim, com ele aprendeu a curtir rock anos 70: Led Zeppelin, Black Sabbath, The Doors, Janis Joplin, uma coleção inteira de Pink Floyd. Não só a ouvir, mas traduzir as letras, a tecer considerações, relações entre a poesia, a biografia e o questionamento social que algumas músicas traziam. Com ele aprendeu a gostar de Rimbaud, Baudelaire, Artaud e Byron. Até que um dia ele foi fazer um intercâmbio no Canadá para só voltar um ano depois. E nesse tempo ela afundou.
Por isso ela não queria saber de namorado nenhum, porque o único que ela quis, o único que a compreendia de verdade resolveu por bem ignorar seus sentimentos. Ela pensava que ele deveria achá-la muito feia ou coisa parecida. Mais tarde Sheila descobriria que não era isso o que tinha acontecido. Bolou uma teoria em que o Amor na verdade não existia, era uma invenção daqueles que morriam de medo de viver sozinhos e então se agarravam a qualquer pessoa que de alguma forma supria suas carências – inclusive financeiras -e chamavam isso de Amor. O Amor de verdade só existiu mesmo como aqueles “caras” da Idade Média achavam que existia, irrealizado e idealizado. Personificado em alguma alma gêmea, que em tanto se assemelhava a você que tornava inexistente a necessidade da Palavra. O Amor, esse platônico, prescindia de sua linguagem.
Porém, quando se materializava em namoro, casamento ou qualquer coisa já não era Amor, se transformava no seu oposto, o Amor Morto, ou seja, Medo mesmo. Por isso ela sabia que amava Johnny. Mas não iria compactuar com o que chamava de “imbecilidade generalizada” e arranjar um babaca para preencher seu vazio existencial. O ideal mesmo era perseguir seus objetivos – assim que os tivesse, é claro - enquanto sentisse a ultima pá de terra soterrar esse tipo de ilusão. Sentir até um certo prazer em ver sumir essa parte tão infantil de si e se tornar por fim fria, implacável e insensível, completa e dolorosamente auto-suficiente. Quando conseguisse isso, daí tudo seria muito diferente. Não se sentiria mais tão machucada e conseguiria “dar o troco” em cada um que um dia lhe fizera mal. Especialmente sua família. Não acreditaria mais em nenhuma forma de Amor, nem este platônico e dedicaria o resto da sua vida a esmagar aqueles que lhe magoaram. Uma lágrima escapa de seus olhos. Merda!
Para resumir a Família era um “hospício institucionalizado”, a Igreja uma droga (viciava, alienava e era mentirosa) sem o menor barato, a Escola só falava das coisas que não queria saber, não pensava em ter uma profissão e ganhar dinheiro, pois achava que esse tipo de ambição escravizava todo mundo aos interesses dos f.d.p. egoístas que viviam para tornar o mundo um lugar cada vez pior.
Então...talvez Arte?Política?Ou quem sabe algum dom para os esportes?
Tá certo, ela gostava de desenhar, de pintar, seus quadros eram realmente muito bons, foi uma pena nunca ter investido nisso á sério. Gostava de jogar basquete, era legal também. Conheceu certa vez uma menina que era do “grêmio”, ela era uma gata muito cabeça. Mas aquelas tretas em que ela se envolvia, sei lá, roubavam muito tempo e davam muito pouco resultado entende? Não conseguia se imaginar fazendo coisas assim, como ela. Ah, mas também, e daí? Tinha vontade de gritar ao ouvir falar nisso como opções á vida que andava levando: “Acordem, otários, isso NÂO é o caminho da salvação”!

E o que era? O que ela tinha conseguido até então, a palmatória do mundo? Não tinha grandes amigos, alguns “amigos” somente. Viveu sim uma paixão mesmo que platônica, mas o que mais havia de interessante na vida desde que Johnny foi embora?
E ela? Como ela se via? Já sabia de antemão que não se amava, pois uma vez a Orientadora da Escola lhe disse que se ela usava drogas, então não conseguiria dizer que se amava com sinceridade olhando para um espelho. Ela devia ser então uma espécie de Vampira , não via seu próprio reflexo, não gostava da luz do sol, era pálida e fria. Divertiu-se um pouco com esse pensamento, depois voltou á carga. Como era ela?
Pensava ás vezes em se matar, outras que era uma espécie diferente de ser humano ou ainda que não era humana, e algumas vezes que embora incompreendida tinha uma missão muito especial para realizar, uma missão “kármica”. Estava divida entre as três possibilidades.
Para os amigos e conhecidos gostava de inventar histórias incríveis de si mesma. Mas nunca mentiu de verdade, só brincando.
Pensou muito e sem muitas respostas partiu de outro ponto. Como será que as pessoas a viam?
Morena, alta, cabelos compridos, olheiras, muito magra etc... Meias compridas de lã preta rasgadas, saia a um palmo do joelho preta e justa, regata preta, rosário de pedras pretas no pescoço e jaqueta de couro adivinha de- que- cor?Inteligente, talentosa, promissora, temperamental, só que um tanto confusa? A resposta veio incisiva e dura, sunsurrada em sua mente pela voz sibilante, rouca e estranhamente irônica que já conhecia. “Você quer mesmo saber, Sheila? Tímida, Insegura, Complexada, Inútil e Ridícula, sempre se achando cheia de razão em jogar sua vida fora em cada maldito minuto que passa dos melhores anos de sua vida...”
Essa voz, que alguns chamavam de consciência, ela chamava de Diabo, pois só aparecia para dizer coisas desse tipo e não propunha nada de novo também!
Valeu cara! ’Brigadão mesmo!
Sheila estava começando á sair dos seus devaneios e ficando assustada. Já era noite e ela não conseguira pensar em lugar nenhum para ir. Mas naquele dia pelo menos estava próxima de algum lugar.
Foi quando chegaram Rubão, Diógenes, Esther, Bezerrinha, Leo e toda a turma da praça. Revezando no violão, atraíam a estudantada que vinha saindo dos cursinhos. Logo se montaram duas rodas, uma para bater palma e cantar junto, outro para jogar “Verdade ou Consequência” e tomar vinho. Ela preferiu ficar no pirmeiro grupo, quando ouviu uma voz gaguejar na resposta da pergunta mais manjada de todas: “Qual foi a melhor noite da sua vida?” Ela esperou um pouco, talvez fosse ela:
- É...acho que foi naquele acampamento em Naufragados com o Digo, mesmo...

-Bia!

Era ela mesmo. Voltava da aula agora, e era verdade que vinha tendo muitas apresentações, por isso não a procurou antes. Logo a Andréia assumiu o violão. Negra linda, voz de veludo, chapéu de feltro negro e olhar lacrimoso e triste. Sua voz rasgou a noite:

Venha me beijar, meu doce vampiro
Uôuôuuuuuuuuuuuuuuuuuu...

Logo foram para o apê da Bia, que morava sozinha. Conseguiu com isso uma cama, um café da manhã, um banho e até tempo para lavar suas roupas e ficar o segundo dia inteiro sem fazer nada, vestida com a camisola de Bia. Só se preocupou em varrer o apê e fazer a janta para quando ela chegasse do trabalho e da aula. Adiantou mais ou menos. Ela disse que queria levar um novo namorado para o apê e perguntou se ela voltaria para casa no outro dia. Ela disse, com falsidade:
-Claro!
E pensou “sua vaca, que é que te interessa?”. Mas... ganhou dinheiro emprestado para consumir mais drogas no terceiro dia fora de casa. Claro que com a ajuda de alguns “amigos” tudo se facilita. Uma verdadeira roda viva de cocaína, maconha, Lexotan e benzina. Um relógio, uma jaqueta, um disc – man e uns óculos de sol a menos, ajudar esse e aquele em alguns assaltos, fazer um e outro avião, pedir dinheiro nas ruas com alguma história para lá de esfarrapada enfim essas coisas... Enquanto isso continuava tentando pensar no que faria de sua vida e em outro amigo que pudesse lhe ajudar. Custou á se dar conta de que suas opções haviam acabado. Todas as outras pessoas em que conseguia pensar iriam fatalmente entregá-la de volta á sua família.
Além do que percebeu que o traficante olhou para ela de modo estranho desta vez. Será que vai me oferecer um emprego ou só esta com pena de mim? Que se f...!Não volto mais aqui e está acabado!Iria para longe, para um lugar desconhecido, com amigos desconhecidos e “patrões” desconhecidos, do tipo que não notassem que “a menina estava fora de casa á 2 dias”.E andou, andou, andou muito pensando que quanto mais andasse mais próxima estaria desse lugar.
As ruas de repente se tornaram desertas e se a estrada fora se definindo na sua fuga de lugares movimentados, Sheila passa agora a perceber que não conhece esse lado da cidade.
Sente frio, esta escurecendo. Para melhorar começa a chover. Agora que já não estava próxima de lugar nenhum, nem sequer de um posto policial que a ajudasse a voltar para o lugar de onde viera. Sua casa. A Bia. O Inferno. Qualquer opção agora parecia melhor. Bem, não voltaria para lá de jeito nenhum mesmo, será interessante dormir na rua pela primeira vez na vida. Ou ainda... poderia dormir na Rodoviária até ser presa se não conseguisse onde passar a noite.Mas daí o Conselho Tutelar a devolveria a sua mãe, é claro. E ainda teria que suportar um insuportável psicólogo e talvez tivesse que prestar alguns “serviços à comunidade”. Insuportável! Psicólogos, argh! Cospe para o lado. São ainda piores que os padres.
Agora que iria passar a ser uma habitante das ruas, poderia começar a pensar a sério na possibilidade de se prostituir. Por quanto será que conseguiria vender sua Virgindade?Sentiu um súbito arrepio ao pensar nisso.
Sheila estava na fronteira.
Olhou para trás...
- Talvez seja melhor mesmo voltar para casa...além do que, não vejo nenhum prostíbulo por perto.
Aliás não via nada com aquela chuva. Como que concordando, o vento uivou mais forte e a chuva “apertou” mais em seus nervos e sua mente.
Seguiu andando, com o coração dolorosamente oprimido.


Eram quase onze da noite quando chegou ao barracão onde Padre Chinelo morava. Vazio. Ela percebia que alguém morava ali, porque haviaum cheiro e um calor de casa habitada. Viu que havia um fogareiro próximo, acendeu e deixou as roupas para secar. Nua, estirou se um pouco. Sentou –se, e começou a preparar o material para cheirar mais um pouco. Esperta, tinha deixado a cocaína embalada num saco plástico, para não molhar.. E começou a quebrar a pedra com uma faca. Era da boa...
Foi quando se virou para um canto e percebeu o Padre ali, quieto, sentando numa cadeira arrumando flores num vaso. “Mas como...ele estava aqui o tempo todo e eu não o vi?”Sentiu um misto de medo e vergonha.
-Desculpe

Ele respondeu:

-Por quê?Não há culpa...

-Bem, estou na sua casa, nua e...(falou baixinho) não fui convidada e...(engasgou de vergonha, tinha vontade de chorar)
A vontade de chorar transformou-se em raiva: - “Por que ele tinha que estar aqui?” Aproveitou para fuzilá-lo com o olhar, com certa arrogância até, cuspiu:

-Posso ficar aqui?
O Padre não responde.Começou a rir.
Ela respirou fundo. Por um momento, até esqueceu que estava nua. Resolveu oferecer:
-Quer um pouco?
Ele faz uma expressão estranha, de espanto. Não diz nada. Antes, foi até um outro canto do barracão e trouxe para ela uma bata branca igual à dele, só que com uma rosa no centro. Disse:
-Vista, por gentileza...
Ia dizer “muito obrigada”, mas, sem saber por que, exitou no ultimo momento. Lembrou-se de Tia Simone e de como sempre respondia:
-Muito agradecida.
Ele sorriu um sorriso lindo, de criança que abre a janela e vê o dia perfeito para ir á praia, no fim de semana!
E aquele sorriso deixou Sheila contente. Sem pensar estende uma carreira em sua direção. Ele vira o rosto e faz uma careta de nojo.
-É, acho que não quer.
E de uma estranha maneira, perde a vontade também. Guarda de volta na mochila. Esta tudo tão quieto. A noite inteira parece silenciar, de repente até parou de chover, tão rapidamente que ela nem notou. O Velho Padre olha para cima. Parece perceber o silêncio de uma outra maneira. Olha pela janela. Ao longe, uma velha amendoeira. E acima o planeta Vênus. Sheila se pergunta:

-“Será que só chovia dentro de sua cabeça?”

Fechou os olhos e ouviu o barulho da chuva forte, os trovões e viu até a súbita luminosidade de um raio. Abriu-os e lá estava: a lua crescente, Vênus, e as constelações cujo nome desconhecia.
“ Acho que estou ficando louca!” – pensa. Vê que o Padre tenta fixar seu olhar nela, e pergunta:

-Se importa se eu passar a noite aqui?

O Padre novamente não responde. Sentiu certo receio. Mas para onde iria agora? Estava cansada, tão cansada que nem o pó faria com que se levantasse e começasse a andar novamente sem rumo. Mas ele a manteria acordada. Qualquer movimento suspeito do Velho e ela sairia dali. Mas também não quis usar nada, no fundo achava até aquela sua desconfiança desnecessária. Ás vezes melhor mal acompanhada que sozinha. “Estranho” – pensou – “ tenho impressão de que quando cheguei essa árvore não estava aqui. Ela é tão impressionante, parece mesmo irreal...E as flores então? Brancas, grandes, pareciam inchadas á luz da lua, como grandes seios a gotejar perfume. As folhas eram poucas e de um verde muito escuro, de superfície brilhante como que enceradas. Nunca tinha visto arvore igual a essa, nem sentido perfume parecido com esse. Era algo pesado, muito doce,enjoativo e tinha algo que lembrava um pouco formol. Um tanto alcóolico, talvez? Aquele tipo de perfume que parece asfixiar e inebriar ao mesmo tempo. Não necessariamente agradável, só estranho”. Só tinha uma certeza: aquela árvore não era mais uma amendoeira como tinha pensado inicialmente.
E depois a arvore sumiu. Só o perfume permaneceu.
Olhou para as paredes a procura de alguma coisa.
“Só podia estar ficando louca”.

Começou a ler em volta os escritos do Padre, que decoravam as paredes.
( ESTE E O PROFETA / GENTILEZA QUE GERA / GENTILEZA AMORRR / BELEZA E RIQUEZA A / NATUREZA E DEUS NOSSO / PAI CRIADORR O DESTRUI- / DORR E O CAPETA )
E outro:
GUERRA SO DO / GENTILEZA GERA GEN- / TILEZA AMORRR BELEZA / PERFEICÃO BONDADE E RI- / QUEZA VAMOS LIBERRTARR A / NATUREZA E DEUS NOSSO PAI / CRIADORR DA TUDO DE GRACA O / CAPITALISMO DOS FILHOS EO DESTR- / UIDORR POR JESSUSS DISSE PRO- / FETA GENTILEZA AMORRR PAZ
E outro ainda;
( GENTILEZA GERA GENTILEZA AMORRR / MEUS FILHOS NOSSA CABECA NOSSO MESTRE O / MUMDO E UMA ESCOLA ENSINA O LADO POSITIVO E O / NEGATIVO NOSSO BOM PENCAMENTO NOSSO PARAISO / BOA PALAVRA A PORTA DO PARAISO DE DEUS PENSAME / NTO NEGATIVO DE MALDADE.
Abriu os olhos e se sentiu como a muitos dias não se sentia. Lúcida. Como alguém que subitamente recupera a noção em meio á embriaguez. Como um despertar, só que mais rápido, gozando o alerta de todos os sentidos. Como alguém que subitamente ouve um tiro.
Padre Chinelo olhava para ela fixamente, como quem vê uma chama se afastando em meio á trevas. Á muito tempo não falava, seria melhor escrever, mas sabia que não conseguiria agora que a havia encontrado. Há muito não ouvia sua própria voz, mas chegara o momento de usá-la.
Na verdade, não temos muito tempo – pensou o Padre.
Para quebrar o silêncio, Sheila pergunta:
-São seus?
-Não exatamente. Eu já vim aqui outras vezes, mas agora estou só de passagem para entregar um recado...
Ela fingiu entender, para não ser mal-educada. Mudou de assunto:
-Eu acho que já lhe conheço. Não era o senhor que dia desses estava na Praça XV, quando vieram uns rapazes e começaram a abusar...e...
Gaguejou. Lembrou exatamente do ocorrido. Ela veio e gritou com eles. Ficou o dia inteiro pensando naquilo: “Como as pessoas consentiam que tratassem um velhinho com tanta desumanidade, só por ele ser pobre?”
Ele não respondeu. Só olhou para ela com os olhinhos doces e tristes de sempre, de uma maneira tão compreensiva e meiga, que ela até sentiu pena.
“Como sobrevive alguém assim num mundo de tanta maldade?”
Ele pareceu adivinhar seu pensamento. E mudou de assunto de novo.
-Olha, eu escrevo porque as pessoas continuam gostando do que escrevo. Mas na verdade, não vim desta vez para escrever. Vim para mostrar isso...para você.
Foi quando pegou a flauta e tocou. E o que aconteceu depois ela nunca mais conseguiria definir:
A luz que cresceu em torno dele foi de um brilho tão súbito e imenso que ela não teve escolha senão voltar os olhos para a janela. Então percebeu que as paisagens que aquela janela emoldurava eram cambiantes. Se desdobravam em milhares de cenas como um filme. Um circo pegando fogo, a Guerra no Golfo Pérsico, campos de concentração e escravidão no campo e na cidade. As pessoas pareciam alheias, autômatos prestes a serem devorados por uma gigantesca máquina, que jorrava sangue por todas as dobradiças.Gritos, muitos gritos! E depois silêncio! Cinzas. Sopradas ao vento. Um cata-vento girando com o mundo. O Padre em várias paisagens diferentes, em várias praças, distribuindo flores. Distribuindo vinho. Distribuindo amor e levando pedradas, sendo preso, insultado. Mas também fazendo amigos. Uma criança lhe dá um beijo e ele ri. Colhe folhas de palmeira. Pega a tinta e escreve no nas colunas da Avenida Brasil. Ela vê uma espada ensangüentada ser cravada no chão, no meio de um jardim. E logo em seguida, lá esta ela. Sozinha e nua. Pega uma taça de vinho. Derrama na terra. E dali nasce uma arvore...
E então, o que dizer? Ela sentiu novamente a sensação de queda, de mergulho no abismo, de redemoinho... e acordou.
Morrendo de frio, sentia a gélida umidade do ar e da terra sob si nos ossos, seus músculos enrijecidos, seu pescoço dolorido por dormir no chão e sem travesseiro. Percebeu que sentia mais frio nas costas, talvez sua bata tenha se molhado com a umidade da terra. Move-se um pouco, para se desvirar e levantar logo. Algo risca sua pele. Ela sente arder, coloca instintivamente a mão sobre o corte e vê... Sangue ainda quente. Vira-se por sobre si mesma para o outro lado, rápido para entender o que aconteceu e vê que dormiu ali, dentro do barracão, ao lado de Padre Chinelo que já não estava mais lá. Entre eles uma espada, com os fios voltados para cada um que mesmo em sonho tentasse ultrapassar a linha imaginária. Para cada um deles aquela noite não existiu a possibilidade de um toque sequer, que não fosse precedido pela lâmina fria, a dor do corte e o calor do sangue.Achava que já tinha lido uma coisa parecida antes:
Tristão e Isolda.
O Amor Verdadeiro.Sem tocar. Deixando marcas profundas.
Percebeu que não havia apenas sangue em suas mãos. Havia também purpurina. E estrelinhas coloridas, como daquelas colas de criança. E também flores. Dormiu numa cama de flores.
Assustada, saiu correndo sem olhar para trás. Quando desandou a correr, na direção da estrada, não viu um bom Padre a abrir os olhos zombeteiros e esboçar um leve sorriso de aprovação, ao lado do fogão, no outro canto do quarto.
Sheila não perceberia também, em sua alegria ao avistar a estrada, o carro de polícia que vinha em sua direção na ultima encruzilhada á direita. Eles conseguiram reavê-la, impedindo-a de prosseguir daquela vez, devolvendo Sheila á sua família e ao seu verdadeiro destino. Não foi sem luta que a capturaram. Mas o mais importante é que este não foi o seu ultimo ato de coragem.
***************************************************************************************
Epílogo.
Desta vez Padre Chinelo foi embora para não mais voltar. As lendas prosseguiram seu curso natural.
I) Ele finalmente foi desmascarado, a polícia estava em seu encalço por ele ser bêbado, vagabundo, consumidor de drogas, ladrão, baderneiro...
II) Ele foi desmascarado, todos ouviram a polícia falar que ele fora visto abusando de uma menina que entrara, provavelmente em busca de drogas, naquele casebre imundo em que vivia. Viu, não falei para você não ir puxar assunto com ele?
III) Sua mulher morrera, ele voltou para recuperar parte de sua fortuna, cuidar dos seus filhos e escrever um livro sobre a experiência de viver nas ruas. Era só esperar.
IV) O sanatório o havia levado embora. Ele sorriu, no hospício, pensando que sua missão finalmente havia terminado,pois ele já ajudara as pessoas que ali viera encontrar. Deixou esse planeta com suas asas de anjo (essa era uma das versões mais aceitas no íntimo de todos, até dos mais maledicentes).
V) Ele seguiu para cumprir mais uma etapa de sua missão, encontrar a Arvore Cósmica, tentar fazer com que frutificasse, e com seus frutos resgatar uma velha dívida que havia contraído com Estrela – da – Manhã (todos achavam que o Mestre andava abusando do ecstasy nas Rave’s, mas não deixou de ser criativo, como dá para notar...).

Enquanto isso...

Johnny recebe com absurda frieza a notícia da morte de seu pai. A sua mãe á muito já havia falecido e todos esperavam dele uma crise de desespero agora que se encontrava praticamente sozinho. Mas não foi isso o que aconteceu e para não decepcionar inteiramente a platéia, ele disse simplesmente que desde que se tornara Espírita sentia a Morte como uma ilusão que não mais o enganava. Na verdade, a única coisa que conseguiu pensar foi: “E a Bolsa de Valores faz mais uma vítima...” Só que dessa vez não fora um país inteiro, um continente, mas apenas seu pai, um acionista comum que subitamente enriquecera e agora suicidava-se deixando como herança um mar de dividas.
Estava dividido entre entrar para o Seminário ou para o Exército. Acabou fazendo Filosofia e já estava no mestrado. Trabalhando como Analista de Sistemas, reencontrou todo seu dinheiro e até sua tristeza pela morte dos pais..E tentava de todas as maneiras reencontrar Sheila. Tentaria fazer com que dessa vez ela não temesse. E não fugisse. Há muito tempo deixara a família, e parece que tinha entrado numa história de conhecer a América Latina inteira num fusquinha cor-de-rosa.Uma revista a contratou para descrever a viagem e bancou as despesas. Mesmo com o itinerário em mãos, parecia que toda a vez que ele estava prestes a encontrá-la, acontecia um imprevisto e ela seguia em frente. Resolveu a Florianópolis.. Sabia que em menos de três meses ela deveria estar de volta ao destino.Seu maior medo era que ela encontrasse um outro alguém, ou se encantasse demais com alguma cidadezinha escondida em algum recanto desconhecido da cartografia, ou ainda que lhe acontecesse algum acidente e ela nunca mais pudesse retornar... mas ele esperava, com algo desconhecido dele até então. Fé.
Falou com a dona da revista pela enésima vez e ela lhe garantiu que já devia estar chegando, no máximo amanhã. Foi quando viu um velhinho. Barbas muito brancas, sentado num banco de praça, cercado por uma quantidade incrível de pombos, que ele alimentava no bico até. Não pôde deixar de sorrir.
Só aí teve certeza de que sim, eles iriam finalmente se reencontrar.

A Canção das Borboletas


Como todas as borboletas, Karmillla teve que enfrentar grandes desafios para conseguir vir ao mundo. O primeiro
era vencer a falta de ar e o medo do desconhecido para ser abraçada pela luz matutina...apenas.
Este era um teste de força e perseverança, pois no exato segundo em que não mais consegue respirar - e ela
pensa em desistir e aceitar o abraço da escuridão - abre-se a crisálida,
Mas seguir em frente também é uma decisão.O segundo desafio, ainda mais terrífico que o primeiro, era encarar
essa luz de frente e ganhar o atributo da visão, ao mesmo tempo que estende as asas contra o sol, para que
sequem da gosma úmida e nojenta que ainda a encobre.
Sem dúvida, mais do que fé, aqui o que conta é a coragem e a força de caráter. Muitas sentem falta de alguma
coisa, alguém, algo que não sabem definir bem o que é neste momento - talvez nós definíssemos como Mamãe, ou
Deus, ou ainda um Toque - mas não temos como inferir exatamente do que elas sentem falta. É só um sentimento
que logo esquecem, mas todas sentem. É só uma grande confiança no que lhes reserva o futuro que as move ao
passo seguinte.
Desde tempos imemorias têm sido exatamente assim para as borboletas.Sem um beijo maternal ou mão que as
auxiliem no momento mais crucial elas devem resistir e viver. A este conjunto de Leis que regem as suas vidas
perenes e silenciosas,elas chamam de Destino.
Ah, o terceiro desafio? Esse viria depois de mais ou menos 48 horas.
Bem, eu disse silenciosa, por certo. Mas não para essa Borboleta Karmilla.
Esta nasceu com um dom diferente. Esta sabia cantar.
Isto, longe de ser um desafio ou um destino, era mais parecido com um impulso. Irresistível.Abrasador.
Quando o sol lambeu suas pequenas asas,fazendo seu pequenino corpo - enfim tocado - como que ascender-se
num delírio o prazer que cresceu dentro de si foi algo assim tão imenso, que se libertou de sua garganta num grito
que para nós, humanos, se assemelharia ao de certas cantoras líricas no ápice de uma tragédia.Se tivessemos
ouvido.A morte de Carmen e Aída, ou a vitória de Tamino (por Pamina) apenas no ultimo Ato, são o mais
aproximado que temos desse grito transmutado em canção.
Aos poucos - e ainda só - foi treinando.Quando estendeu as asas e se deixou levar pela brisa.Ao sugar o néctar da
primeira flor.Ao se ver pela primeira vez relfletida na fonte e constatar a imensa diferença e o bicho feio e verde que
era antes de passar pela crisálida. Era negra, sim! Negra como a noite, o que tornava ainda mais encantador seu
reflexo na agua.O reflexo de sua negritude tinha algo de estelar. No centro de suas asas, havia um azul profundo,
translúcido, que parecia ter reflexos de cores mais lindas e misteriosas, de acordo com a posição do sol. E ao
longo das asas, um bordado negro, como que para arrematar com capricho uma obra em si, perfeita.
Tudo o que lhe trazia alegria, se traduzia numa canção.
E sua canção lhe fez voar ainda mais longe que outras borboletas talvez jamais tivessem conseguido.
Karmilla vivia como num filme musical até que...
Encontrou outras como ela.
Deixando a floresta escura em que nascera encontrara um campo livre de arvores, de um verde acetinado com
muitas flores miudinhas, porém de um perfume delicioso. Existiam várias como ela naquele lugar.
"Que felicidade, então existem mesmo criaturas semelhantes a mim" - pensou!
Algumas completamente brancas Outras, de um alaranjado vivo e pintadinhas de preto e vermelho, lembrando uma
chama multicor.E outras ainda, róseas,liláses,amarelas. O cenário em conjunto era o mais bonito.Uma explosão de
cores e elas alí, conferindo movimento, como faíscas de uma fogueira de cores infinitas.Sentiu que o impacto
daquela beleza não poderia ser contido em seu corpo tão frágil.
E cantou, Cantou como nunca havia cantado a alegria de estar junto.
Mas essa alegria durou muito,muito pouco.
As outras borboletas olharam para ela com desconfiança.
Eram completamente mudas! Não sabiam cantar! não conseguiriam nem que tentasse na verdade.
Uma até que tentou. Antes que conseguisse emitir o mais breve múrmúrio, sufocou e morreu!
Todas as outras a evitaram a partir dali.
E ela foi deixada só, com o corpo da borboleta morta.
Em vão Karmilla chorou.
Suas tentativas de retornar ao bando de borboletas também foi infrutífero. Todas iam embora, mal a avistavam. Uma
até segurou uma pequena pedrinha entre as patas e tentou lhe atingir, enquanto ela cantava para que voltassem e
voassem com ela. Até prometeu ficar muda também, se lhe desse ao menos um sinal de que era aceita.
Então ela finalmente entendeu.
Foi embora e voltou para a Floresta Escura, voar sozinha,beber sozinha, cantar sozinha.
Quando em frente à uma flor que lhe trouxesse especial prazer - por seu perfume, sabor e colorido - sentia imensa
vontade de cantar ...calava-se.
Calou-se também diante da brisa fresca e perfumada de alecrim que a despertou no meio da segunda noite.
Calou-se diante da beleza da lua, virou o rosto e mordeu os lábios quando viu ressurgir o sol.
Quando findou o segundo dia,chorou amargamente sem saber o que fazer. As borboletas só sabem como morrer
quando são instruídas pelas outras - que a propósito, se comunicam por gestos - mas Karmilla não conseguiu falar
com ninguém e sentia-se insegura quanto ao que estava por vir. Sabia-se mais fraca, e que havia um terceiro
desafio a enfrentar.
Cantou com todas as forças, na esperança de que alguém estivesse ouvindo. A fonte, comovida, aumentou a força
de suas aguas para acompanhar a melodia daquela canção.
As flores - que cantam também, mas são mais sábias que Karmilla e por isso só revelam esse dom em momentos
especiais como aquele - acabaram fazendo com ela um coro.
Grilos, sapos e cigarras despertaram e também se tomaram suas posições à beira da fonte.
E por fim, despertaram alguns passáros, os cantores por excelência, e somaram-se a canção.
A medida que mais bichos chegavam, maior e melhor ia ficando a Canção, que no fim tornou-se a Grande Música
da Noite.
Outras borboletas despertaram também. Mas quando viram Karmilla ali, no centro de todos os outros animais tão
calorosos e reunidos, recolheram -se novamente. Algumas, de tanto despeito,lançaram-se ao riachinho para morrer
mais cedo!
Sua voz crescia e crescia, cada vez mais, derramando-se em êxtase por se sentir finalmente compreendida.
E quando o dia ressurgiu, Karmilla, exausta mas feliz como nunca, entendeu o que tinha ainda a ser feito.
Estendeu as asas.
E voou na direção do sol!
******************************************************************************************************************
Moral da História: Bem, esta história têm dois finais. Um é este. O outro é o que conta que as borboletas, mesmo mudas, recordam a canção da falecida Karmilla. E no seu íntimo, aprenderam a movimentar o corpo de acordo com ela. Se tornaram por isso, as grandes bailarinas do ar.
Em todos os casos, seja você mesmo e pague o preço de ser autêntico. Pode ser duro, difícil mesmo. Mas pior preço pagam aqueles que não o são - e nem conseguiriam se tentassem!

Gadjikane.




- Bom dia, Luciana!
-Bom dia Dona Hannah. É assim que se pronuncia o seu nome, não?
-Sim, é desse jeito mesmo. Mas não me importo quando o pronunciam como Ana. Ninguém pronuncia direito mesmo...
-Veio para agendar nova reunião com o Deputado?
-Sim. Preciso que ele assine um documento para levar á Deputada. Ela me adiantou que precisa disso ainda hoje.
-A senhora não se importa de esperar um pouco, então? Talvez tenha alguma voltinha á dar pelo centro...
-Esta muito quente, prefiro esperar aqui mesmo.
-Esta certo. Aceita um café?
-Sim, obrigada.
E assim começa o meu dia de trabalho. Tomando um belo chá – de – cadeira do Deputado da Situação (e que portanto é nossa Oposição) da maneira mais pacífica e civilizada possível.Logo me canso das velhas revistas de escritório com seus velhos assuntos de sempre e começo a entabular conversação com a Luciana. Logo descobrimos algumas coisas em comum. Interesses, gostos, restaurantes preferidos, músicas. E dança.
-... então minha professora de dança do ventre é também professora de dança cigana!
- É mesmo! Pena eu estar tão sem tempo... Sabe, quando eu era pequena, devia ter uns oito anos de idade, morava em uma casa onde fica hoje o Supermercado Angeloni, ali em Capoeiras.Conheces?
-Sim, a mãe de meu namorado mora ali perto.
-Pois bem. Antigamente aquilo era um grande descampado, como um terreno baldio, bem verde... Uma vez por ano uma caravana cigana se instalava ali... Eu adorava ir até lá, ver aqueles homens muito morenos, muito bonitos, alguns usando brincos ou anéis chamativos, de ouro. Aquelas mulheres, também muito robustas, morenas, com aquelas saias de estampado tão colorido e vistoso, cobertas de ouro dos pés á cabeça. Sempre tão carinhosas. Tinha uma que usava pulseiras quase até o antebraço e tinha mais de dez correntes no pescoço. Dizia-se que era por serviços prestados às gadjin que é como eles chamam as mulheres não ciganas. Esses serviços prestados na verdade eram como simpatias de amor e sorte nos negócios . Naturalmente mais amor que negócios (risadas). E tudo isso enchia meus olhos de criança. Eu achava tudo muito diferente... também pelo contraste, eu acho...
- Como assim?
- Suas carroças, mais pareciam barracos sobre rodas, sabes? No entanto, se você convivesse um mínimo possível, parecia que eram todos muito ricos. Não só pela altivez, pelo orgulho de si mesmos, nem meso pelo modo de vestir, tão chamativo e reluzente, digamos assim, mas também, e principalmente pelo prazer e pela alegria que parecia ...como que entranhada em todo o seu modo de viver... e acho que a isso a gente aprendeu a associar com uma vida de riqueza...não sei se me entende...
-Imagino...
-Até o fato de eles serem assim tão morenos me causava certa estranheza. Além do que eles têm os traços, as feições tão diferentes de nós...
-Acho que é porque se casam mais entre eles...
-Pois é. Talvez seja isso mesmo. Sempre cantando, dançando, contando as histórias de lugares exóticos ou lindos que já haviam visitado. Histórias de coragem, de paixão, de tragédias sempre tão ensangüentadas, tão intensas...
-Credo! Gostavas disso também?
-Para mim, quanto mais triste a história melhor. Contanto que tivesse final feliz, pra mim, tudo bem (gargalhadas de ambas). O engraçado é que quanto mais eu os conhecia – e eles á mim – mais histórias com final feliz eram contadas. Agora pensando bem, acho que era para me agradar.
-Me diz uma coisa... Minha mãe, quando via uma cigana, logo me puxava pelo braço e dizia para eu nunca falar com ela, nem aceitar nada que ela me oferecesse. Tinha medo que eu fosse roubada. Cresci com a idéia de que isso era coisa de gente antiga... imagine. Mas tua mãe não tinha medo?
-Bem... na verdade não. Eles ostentavam muita riqueza e minha família parecia só ter medo de gente que aparentasse pobreza. Além do que eles vinham com certa regularidade, uma vez por ano, na primavera... Minha mãe até comprou um tacho de cobre delas, pediu para uma ler o destino, coisas assim. O que acontece é que minha mãe sabia, eu adorava ficar por lá, então por que não? Depois do almoço ela ia arrumar a casa, até preferia que eu saísse para não incomodar. Hoje, lembrando bem, acho que era por quê meu pai trabalhava à noite, daí dormia de manhã e só acordava à tarde e...bem...esse é o horário das crianças irem brincar em qualquer lugar, né? (mais risadas)
Eu me lembro que ela pronunciava uma senha:
- “Menina vai brincar, que eu preciso trabalhar”
E eu respondia sempre:
- “Nem precisa mandar, que eu já vou e me demoro.”
Ela sempre ria com essa minha resposta. Era muito boa minha mãezinha. Sinto muita falta dela.
- Ela já se foi?
- Não, só mora muito longe, em uma chácara em Rancho Queimado. Faz muito tempo que não vou até lá... Eu passava à tarde lá com eles, que me fascinavam cada dia mais. Tinha também uma senhora bem pequena, bem enrugadinha,que eu queria chamar de “tia”, mas ela corrigia: “Bibi ”, então eu achava que era o nome dela, e chamava de “Tia Bibi” , o que fazia ela rir muito. Ela também tirava a sorte e batia cartas (eles falavam em buenadicha, e depois me explicaram que era por que as mulheres que faziam disso profissão, como era o caso dela, evitavam falar qualquer coisa de ruim).Ela dizia que um dia ia me ensinar a ler a sorte também... Mas o que eu gostava mesmo era do canto, da dança...E adorava as comidas que ela fazia, especialmente de um pudim de milho. Nunca comi outro igual...
-E você aprendeu a dançar?
-Não muito. Eu era muito nova. Mas algumas coisas sempre ficam. Ás vezes, quando tocam algumas músicas, eu fecho os olhos e me imagino de novo no acampamento. Consigo sentir até o calor da fogueira, a brisa gelada no meio da noite. Nesses momentos eu danço como se não fosse eu mesma, entende? As duas vezes em que isso aconteceu, abri os olhos e estavam todos em círculo ao redor de mim, batendo palmas, e eu sozinha no centro. Sempre começo a dançar em grupo, acho mais... divertido mesmo...mas sempre que isso acontece, termino a dança sozinha.
-Espera. Tua mãe te deixava saíres no meio da noite?
- Não deixava. Eu fugia pela janela aberta, ás vezes voltava só no meio da madrugada, quando um amiguinho meu, Rasim me levava até em casa.
-Credo, não tinhas medo?
-Não, eu tinha verdadeira adoração por Rasim, que era apenas dois anos mais velho que eu. Ele também tentava me ensinar coisas. Especialmente da língua e do povo dele. Com ele aprendi, por exemplo, que não existem “ciganos”. Nós os chamamos assim. Existem famílias, existem clãs. Existem os rom, os calons, os sintos e muitas diferenças entre esses grupos. Soube que eles se organizam de modo diferente. Há os chefes, chamados rom barô e há uma espécie de conselho de ancião que é convocado para decidir toda a questão que considerem importante. Aprendi o nome das coisas que ele mais gostava... muita coisa eu já esqueci, é claro. Mas sei que ele não me chamava gadjin, mas romi que é como se chamam as mulheres ciganas. E na maior parte das vezes me chamava babanin que significa formosa, bela, eu acho... ele dizia que significava instigante, mas acho que simplesmente achou a palavra bonita e repetiu como significando outra. Uma vez tivemos uma conversa...
- Com licença, preciso atender o telefone...
Hannah, com a palavra em suspenso, desenhou no ar aquela memória. Ela se apresentava muito nítida, como há muito tempo não vinha. Via a imagem de um menino muito magro, mas bastante alto para a idade, com uma mecha de cabelo que insistia em encobrir seu olho esquerdo, e que de tão negra rebrilhava em azul. Ele tocava viola com maestria, emendando pequenas quadrinhas que eram na verdade elogios a sua beleza, algumas conhecidas, outras feitas na hora. Ela tentava divisar seu rosto na intensa luz do sol, seus olhos lacrimejavam e ela tentava disfarçar seu embaraço infantil arrmando uma rosa vermelha no cabelo, dada por ele.
- Você estava falando da sua relação com um menino cigano.
A voz de Luciana pareceu ecoar de um lugar muito distante. Ela prosseguiu a narrativa, com a voz entorpecida, praticamente sem emoção. Como se contasse para si mesma.
- Ah, sim. Eu falava de uma conversa. Na verdade não falávamos de palavras, mas de algo além disso. Ele me explicava que seu povo sempre fora nômade, e que essa era a origem de toda a nossa incompreensão. Mas que quanto a isso eles nada podiam fazer, viajar era uma necessidade, algo que os fazia ser quem eram. Por isso, eles sempre diziam ser filhos do vento e das estradas. Daí ele comentou que um gadjé jamais saberia o que era ser assim, viver sem patrão, sem querer terras nem dinheiro para acumular, viver o presente e fazer somente o que se quer. Daí eu disse para ele: sabemos sim! Temos até uma palavra para isso. Liberdade! – Hannah sorriu frente a lembrança de sua insolência infantil –e ele repetiu “liberdade...slobuzenja...” E continuou quieto, perdido em seus próprios pensamentos. Depois cantou uma canção triste, triste... que falava do preconceito que seu povo sofria. Nunca vou esquecer este momento. Eu me lembro que foi a primeira vez que chorei sem saber por quê.
Hannah fica em silêncio por um tempo. Luciana insiste.
- E o que aconteceu com ele?
-Ele dizia que quando crescesse seria domador de cavalos sfirnari ele dizia. E replicava que seria veterinária, e que nos daríamos bem e seríamos para sempre amigos, ele domando, eu cuidado...
- Mas e então... o que aconteceu? Quer dizer... vocês ainda se falam?
-Não.
Esse “não” soou seco e instalou um silêncio desconfortável. Um silêncio de morte, de protesto na prisão, de infância traída. Parecia que as duas pensavam ao mesmo tempo. Meu Deus... por que não? Era tão bom, não era?
Mas logo veio o Deputado, chamou-a em sua sala, e quando Hannah saiu, já era outra pessoa. Mais séria, mais triste, com o olhar fugidio de quem contara demais. Luciana jamais saberia por ela que final teve a história. Tudo bem, pensou. Afinal, existem outros meios. Sorriu para si mesma.
-Bem, tchau tenho que ir.
Luciana percebeu pelo seu olhar que não era momento de insistir. Deixou passar aquele momento. Hannah por sua vez, saiu da sala com pressa, deixou o documento para a Deputada em questão (situação conflitiva... oposição?) e disse que teria que sair mais cedo. Entrou no seu carro – um Sedan quatro portas – e pôs-se a dirigir a esmo. O resto da história se desenrolaria no seu íntimo.
Gule Romni perguntou:
- Amanhã levantamos acampamento. Vamos partir.
-...
- Queres vir junto? Temos lugar para ti.
- Eu fiquei tão contente que respondi que era o que meu coração mais desejava. Achei naquele instante, com aquela gente que falava tanto em coração, em força do querer e em força do destino... achei que era o que devia responder e que era também o que eles queriam que eu respondesse. Será que deu para entender?
-Mais ou menos. Não pensasse em tua mãe? - Ainda era a voz de Luciana ecoando em sua mente, lhe dando tal susto que quase emendou com o carro em frente, no sinal vermelho. Teve ímpetos de xingar o outro motorista. Em fração de segundos percebeu que não podia. Estava errada.
Mentira. Até para si mesma mentia .
-Nem na minha mãe, nem nos meus tios, nem no meu avô, que tanto me queria e que era uma espécie de pai para mim. Não pensei em ninguém. E quando eles levantaram acampamento fui embora com eles, bem contente... Eu acho que era porque eu era muito pequena para entender que talvez nunca mais fosse vê-los e que minha família sofreria. Contaram-me depois que minha mãe chorava que nem criança. Ela ficou tão desesperada que meu avô deixou ela não com um, mas com dois tios que se licenciaram do serviço naquele dia.Depois ele entrou em contato com a polícia e saíram a minha procura.Foram me encontrar já na fronteira da Argentina, onde eu fiquei retida até meu avô vir me buscar.
-E os ciganos?
-Bem não sei se hoje ainda é assim, mas o policial me informou que eles não poderiam ser presos pois não tinham pátria. Então foram liberados, apesar de...
Como pode? Contara essa história tantas vezes, que parecia ser verdadeira, mas ela mesma sabia que não tinha sido bem assim.
Com Luciana, pela primeira vez teve medo de que pudesse ser descoberta. Ela parecia um pouco diferente das demais. Seu nome bem poderia ser “Luciferiana”, por seu “Quê” maldoso e satírico. Parecia estar gostando da minha história. Estranho eu me lembrar disso hoje. Fazia tanto tempo que eu não lembrava... Luciana têm também olhos em brasa, sinto como se ela quisesse me diluir, arregalando os olhos e me desfocando em sua visão para melhor sorver o que eu digo. Quem mais tinha olhos assim?
Sem dúvida essa história é uma das melhores...
-E então? Ela me pergunta impaciente.
-Você vê este risquinho bem fininho aqui no meu antebraço?
-Sim. Responde ela. Parece hipnotizada.
-Momentos antes de a polícia entrar na thserha , e de lá me tirar à força, Rasim veio até minha direção com um pequeno canivete de bolso e sem me perguntar nada fez esse corte.Antes que eu pudesse entender ele se cortou também e juntou nossos braços, falando algo entre os dentes. Algo que eu não compreendi, mas que firmava entre nós um compromisso de casamento.
-Nossa! E você não chorou?
-Eu estava muito assustada As pessoas á minha volta mais ainda. Todos gritavam e apontavam para mim, alguns homens até se armavam, prometiam luta,diziam coisas que eu não entendia, em romanês. Então eu conseguia sentir que se estavam com medo deveria ser por minha causa. Eu não queria piorar nada para eles. Além do que ele também não chorou, então achei que o mais certo era segurar as lágrimas e parecer tão tranqüila quanto possível. Vi que agindo assim, a “Tia Bibi” parou de gritar e sorriu um sorriso tão lindo e quente que jamais me esquecerei.Só quando a polícia entrou é que eu como que...caí em mim e comecei a chorar.Eles entraram chamando pelo meu nome, empurrando quem estivesse na frente.Eu era muito fácil de encontrar, pela descrição.Muito loirinha,meus cabelos eram quase brancos, meus olhos muito azuis, meus traços denunciavam que eu não pertencia àquela gente.Quando o policial me viu, a tia se abraçou em mim, mas ele me arrancou de seus braços e ela começou a gritar e chorar como se eu fosse sua filha.Daí eu comecei a chorar ao mesmo tempo pelo susto, pelo corte, pela perda e por não conseguir compreender porquê aquilo tudo acontecia.E chorando meu avô me encontrou.
-E então?
-Então a história acaba quase aí. Meu avô me contou depois que ainda encontrou o rapaz que me fez o corte. A polícia queria detê-lo por “escoriações leves”, mas ele também era menor e meu avô não quis prejudicá-lo levando o caso adiante.
Lembrando bem, acho que meu avô também sabia o que eu tinha feito.
Mas o que ele diz que levou para sempre com ele foi a terrível sensação de ouvir na boca de um menino palavras de homem. Um menino com a expressão muito séria. Um homem com o tom do desafio na voz.
-Hoje o senhor conseguiu.Mas um dia voltarei para buscá-la- foi só o que ele disse. Depois, aproveitando-se do estupor de todos pela insolência, olhou-me nos olhos e cantou uma modinha que eu gostava muito:
Kay o kám, avriável,
Kiya mánge lele beshel
Kay o kám tel’ável,
Kiya lelákri me beshav .

E logo saiu correndo, disparando janela afora, com seus pais no encalço.
E como pássaros em revoada, foram indo embora aos poucos, levando consigo um resto de infância.

Na verdade, o que aconteceu foi quase isso mesmo. Por que me sinto tão culpada?
Seguiu falando para não pensar...
- Essa experiência marcou minha infância. Nas festas de carnaval eu só queria ir vestida de cigana. Quando me vestiram de Colombina, um dia, fiquei tão carrancuda que até nas fotos saiu. Quando mais mocinha,fazia o maior sucesso fingindo ler mãos nas festinhas e era também a que mais chamava a atenção dançando á volta da fogueira, nos luaus, solos de viola.Ou cantando modinhas gitanas para impressionar o escolhido da vez, que invariavelmente eu conquistava para uma semana depois enjoar dele e começar novo namoro.
- E ele... nunca voltou?
-Não.
Mentira.
Encostou o carro ali no estacionamento do Angeloni, onde sua vida, seu coração, sua infância estancou, e as sombras de todas as mentiras que contara foram se achegando de mansinho em seu peito, tomando pouco á pouco seu lugar, dando-lhe eterna sensação e frio. Não é mais hora de fugir. Deixou que um pequeno raio de sol atravessasse a malha escura onde, desde então, vivera encerrada. A verdade reapareceu, aos borbotões.
Sim, fora seqüestrada, mas não involuntariamente. Ela mentira descaradamente para os ciganos, que sempre se gabaram de conhecer a alma humana com profundidade. Mas a verdade é que nem um demônio conseguiria adivinhar maldades na boca de uma criança de seis anos, por mais experimentado que fosse. Com seu rostinho angelical, ela enganaria o Pai das Mentiras, esse era um de seus maiores dons. Aos ciganos, dissera que era órfã. Que vivia de favor naquela casa em que eles sabiam que ela morava. Que aquela mulher que se apresentava como sua mãe não era em realidade nada sua. E, com tenebrosa convicção, afirmou que queria fugir, que não agüentava mais, que era maltratada... quem resistiria?
A “tia” PHURI DAJ , ficou de averiguar. Mas nunca deu sua palavra final. Silenciou no momento crucial, frente aos Homens do Conselho , o que todos acharam estranho. Mas o kaku acabou decretando “isso só significa que tudo será como deve ser”.


Mas não foi!
Sentia que não devia ter acontecido daquela maneira E agora aquele era seu pior castigo. Sentir que o destino batia a porta, com insistência, mas como se um vento forte lhe impedisse de andar até ela e atender. Como aquela vez em que se reencontraram...
Olhou para seu braço. A marca já era quase invisível, um estreito veio branco que cortava todo antebraço, do pulso ao cotovelo. Na pele ainda muito clara só era possível de se ver contra o sol. Talvez fosse tarde. Seus cabelos de ouro branco se tornaram dourados como o ouro antigo, finas linhas de expressão começam a despontar , em especial ao redor dos olhos.Hannah têm agora uma tatuagem nas costas, perto do ombro –um punhal que parecia enterrado em uma rosa, que sangrava– enfim, carregava outras marcas, já havia quase esquecido desta.
Tentou consolar a si mesma:
- De qualquer modo, também viajei muito e no caminho encontrei muitas caravanas. Não o encontrei, mas também não sei se o procurava, ou se sou como tantos outros procurando por algo que na infância mesmo se perdeu. Não sou infeliz, tenho um bom emprego, sou assessora de uma deputada com grandes chances de se reeleger ano que vêm. Meus dias são ocupados pelos chatíssimos compromissos burocráticos, mas também por deliciosas tertúlias intelectuais, os vulgares jogos do poder, enfim... Exatos vinte anos se passaram, carrego comigo as doenças de minha geração, de minha profissão, de minha opção...E o que mais poderia querer? Existem vantagens em meu estilo de vida que eu não trocaria por nenhum outro. Toda uma gama de prazeres jamais sonhados por uma mulher cigana.Meus bons livros, meus bons filmes, meus amigos, minha casa á beira mar e a deliciosa sensação de chegar a um canto só seu...
Na verdade, faz tanto tempo que não os vejo... Eles os ciganos, andam sumidos ultimamente. Parecem ter sucumbido, eles, tão coloridos, ao cinza de nosso sedentarismo citadino.
Sim...os ciganos voltarão a ser uma agradável memória e nada mais. Eles precisam. Eles devem.
Até que seria interessante se um dia, na Assembléia, um pano vermelho caísse e entrassem dançando aqueles meus velhos amigos, com seus violinos, bandolins e rabecões, atirando facas naqueles calendários tão padronizados, dançando alegres em meio aquele ambiente tão formal.
Sorrio um pouco pensando nisso. Não adianta mentir, continuo desejando novas paisagens, nem que elas sejam rasgadas a força, na pele de seu tecido original... nem que façam sangrar antigos matizes, preferirá ainda os novos, mesmo que manchados...
Estava quase conseguindo parar de chorar – já era uma e meia da tarde, não poderia ficar em horário de almoço para sempre – quando lembrou do breve reencontro. Ele já era um homem, belo sem dúvida, e parecia querer vender um cavalo a outro homem quando lhe viu. Imediatamente aqueles olhos de profecia soturna e desafio, poços gêmeos onde sempre se afogava naquela água tão negra mas entre estrelas tão ardentes...aqueles olhos pareceram por um momento lhe reconhecer. E aquilo ela não pôde suportar. Terminou por lhe virar a cara, para seguir um outro caminho, se esconder...e assim passou a vida. Se escondendo.
Soluçava alto agora, inconsolável.
Uma bonita história realmente, mas e daí? Lembrou um ditado, dito por seu amigo certa vez, enquanto tentava lhe ensinar sua própria língua:
Kan dás e iag e momeli tribul aracadí, thiená mudardhiel

E era verdade. Finalmente se dera conta de que já era grandinha demais para que outros inventassem para ela o final de sua própria história. Essa, que era tão bonita, ela só soube envenenar com sua própria covardia.
- E a decisão que tomo agora, eu sei, não me trará alívio.
Com um cravo branco e uma oração para Sarah Khali, preparo-me para partir.
E termino meu relato