domingo, 23 de setembro de 2007

Ciranda Maldita



Contemplo o mar do alto dos rochedos
As cinzas que o vento traz
São cinzas dos ancestrais
Que fazem arder os olhos
Que grudam nos meus cabelos.

Onde ela vai?
Onde ela está?
Onde ela cair
Não vai levantar...


Trouxe ao vale calcinado – lágrimas quentes
Faço escorrer destes cabelos, venenos olentes
Faço o incêndio correr pela campina amarga
Para ver brotar os guerreiros
E crescerem os reinos... como chagas.

É a moça mais bela
Da pequena aldeia
Dança sobre as brasas
Quando a lua é cheia.


Ninguém quis ouvir quando eu disse – eles já vão chegar!
Eu segui gritando contra o tempo... mas insensíveis
Acorrentaram-me nos ermos findos de algum outro lugar
E só por isso sobrevivi...aos nossos sonhos impossíveis!

Ela foi embora
Não vai mais voltar
Morta ainda sonha
Na beira do mar!

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Marketing Popular...

A poesia abaixo faz parte de um projeto que casa poesia com política das ruas, combinando as expressões expontâneas de arte e resistência populares.
Quem quiser saber mais entrar em contato com pablo@sarcastico.com.br
Abs

E nos muros o Marketing Popular!


Foto de Ginga Vasconcelos/
Pablo Mizraji para o projeto "Marketing Popular"





Há quem fale em mudar o mundo
Há quem queira domar as ruas
Há os que clamam: "Vote Nulo"!
E os que refletem: "A culpa tua"

O pensar ingênuo da mulher nua:
"Por que não posso pisar na grama?"
têm a rúbrica cáustica, a marca oculta
de quem não paga o preço - mas têm a fama!

Comunicam "Greve!", "Fora!", "Cristo te Ama"!
Resistem em negro: "Não pagaremos"...
Atestam ser possível caminharem às ruas
Quando de um lado a outro nos movemos!

Nessa algaravia das vozes mudas
uma das que mais marcou - ou a que mais me agrada -
é a que fala em Sistemas vários (e vacas)
e manda enfim louvar as prostitutas!

Lua Nova.


Foto de Mathew Handelmann


Lua Nova
Selo de Clausura
Encerra os mares
Rompe as represas do desejo.

Lua Nova
Impura segue.
Acoberta teus amantes
Cicatriza teus segredos!

Lua Nova
Banhada em sangue.
Em teu silêncio assassino
Tilintam risos de criança

Lua Nova
Tua escuridão macia
Confunde no mesmo desatino
Promessas de paixão e de vingança.

Contra a Parada da Diversidade... os carros?


Foto de Rodrigo Miro.
Têm coisa que realmente não dá para entender. Quando eu, cidadã brasileira, 29 anos, negra bem-resolvida, saio da minha casa, com mais um casal de amigos e minha afilhada de nove anos para ir a uma Parada de Apoio a Diversidade e Orgulho GLSBT (Gays, Lésbicas, Simpatizantes, Bissexuais e Transgêneros), encontrar com minha mãe que já está lá com seus amigos – num lindo chapéu de arco-íris - realmente não espero que todo mundo concorde com isso.
Penso imediatamente em Igreja. Penso que um Padre ou um Pastor poderia ir a TV se manifestar contrariamente. E que logo ia aparecer um outro alguém e lhe lembrar que a Igreja esta sempre condenando alguém ou cometendo atrocidades: os cientistas que foram perseguidos, presos e silenciados porquê suas descobertas contrariavam o que era dito pela Bíblia – Galileu Galilei que o diga - as mulheres porque detinham um conhecimento que deveria ser privilégio dos homens, ou talvez por uma questão de redistribuir as terras e combater o protestantismo, qualquer coisa assim que nada têm a ver com DEUS, os índios que precisavam ser "educados no evangelho" ou ainda, traduzindo: expoliados, roubados, "amestrados á cristandade", os negros e negras porque mereciam ser escravizados, já que não possuíam alma mesmo...enfim, os homens e mulheres por amarem outros homens e mulheres porquê afinal, segundo eles, isso é perversão e desobedece a vontade divina: “crescei e multiplicai-vos”. Como diria Robin: “Santa Paciência!” Fariam melhor se combatessem a pedofilia (ás vezes homoerótica) entre suas próprias fileiras.
Certa vez me perguntaram assim: “Ah, é? E porque Deus não criou Adão e Ivo?” Bem, se você estudou um pouquinho, sabe que DEUS, se criou um “plano de base”, então ele só criou ...Eva! Adão veio depois porque a Natureza – Deus por conseqüência – ama a DIVERSIDADE. Adão não é fundamental a reprodução dos pluricelulares, só Eva. Mas se só tivéssemos Evas seriam tod@s iguais a ela, e isso de ser estereotipado não é coisa de gente que evolui no tempo e sobrevive, sabe? Não sabe do que estou falando?Estude um pouco mais, isso é genética básica.
Só que enfim, não foi o caso! Aliás, parece que DEUS e São Pedro – de modo geral tão conservador politicamente - fez aparecer um dia magnífico, com brisa suficiente apenas para fazer tremular as bandeiras, mas não para “esfriar” o entusiasmo de drags, trans, “gogo – boys” e homens e mulheres “abusad@s” de todas as orientações.Opinião pessoal: vida longa ao “gogo-boys”! Que Deus continue lhes emprestando saúde para que sejam sempre a alegre manifestação do Divino!
Penso depois que poderia haver uma manifestação contrária orquestrada pelos “aparelhos ideológicos” - ou ainda os repressivos – do Estado. Que nada! Não houveram provocações arbitrárias originadas por “agentes contratados” (como no caso da Manifestação pela Redução de Tarifas e outras), os Templos de Conhecimento não se pronunciaram publicamente – no máximo nos recintos sacros de sala de aula - e se a polícia estava lá foi realmente para garantir o normal transcurso dos acontecimentos. Não vi roubo, não vi violência, me contaram de uma briga, mas me disseram também que foi habilmente contornada pelos que estavam no carro de som.Uma briga? Cara, tinha seguramente 40.000 pessoas lá! Não acredita? Faça as contas! Quem estava lá viu que a passeata, vista de frente para o trapiche, alcançava além da primeira curva da Beira Mar e chegava mais ou menos na altura da segunda pracinha. Isso dá mais ou menos 6 KM. Se a polícia calcula 6 por m², então, com honestidade deveria ter dito: 36.000 pessoas, para mais ou para menos. Trinta e seis? Então para mais! Fácil assim! Aliás, haviam representantes do legislativo, políticos profissionais ou não para todos os gostos, um verdadeiro Arco-Íris ideológico. Parece que, em tese pelo menos, esquerda e direita concordam com o Direito á União Civil. Talvez na prática a teoria seja outra, mas tudo bem, confio no povo! Sei que sempre sabemos quem está ao nosso lado e quem, de fato, só quer mesmo aparecer na foto. Parece que a classe política despertou para a realidade que se TODOS votam, então Homossexuais votam. E agora, orgulhosos de si, formam opinião também! Ponto para a democracia!
Agora, tenho que comentar certos discursos: Florianópolis não têm homofobia? É como dizer que Florianópolis não têm racismo! Cegueira mental! Quem é “gay” ou “lésbica” assumid@ e procurou emprego, ou ainda, simplesmente parou em frente á Concorde depois das 02:00 da manhã sabe do que estou falando.Quem enfrentou com coragem, ou quem calou por respeito á família também.
Então, quem se posicionou contra a Parada?
Talvez a “sociedade civil desorganizada”?Tipo assim... alguém que aparece, joga uma pedra ou tenta intimidar as pessoas para não comparecerem? Também não! Parece que quem não gosta de GLSBT tomou a sábia decisão de ficar em casa ou ir para praia! A sociedade amadurece, prevalece o bom senso, que já é melhor que o senso-comum! Tenho que comentar que vi muitas famílias, mãe, pai, titio, filhos e netos...a camada “S” está crescendo. Alguém aqui também poderia dizer: “sim, todo mundo gosta de circo...vão lá para rir dos freaks”. Talvez, sim... talvez, não! Pessoalmente, me senti comovida com a minha afilhada, querendo tirar foto com uma “drag” vestida de cogumelo cor-de-rosa. As crianças têm outra compreensão da coisa toda, e a moça terminou agradecendo. Humildade bela e rara! Se eu peço para tirar foto com você, eu agradeço, você silencia ou ainda diz “de nada”! Mas, não! Ali, ambas saíram agradecidas! Uma, pela beleza outra pelo reconhecimento! Isso é mais que significativo na formação de uma criança ...de um povo?
Então, quem? Ora, a mídia! Dando voz ao povo, á sociedade, á setores reacionários da Igreja, á setores reacionários do Estado? Bem, em princípio, parece que não. Parece, para quem ouve, que o problema é que o “sagrado direito dos carros” , de ir e vir, foi atingido de modo quase fatal! Estranho, isso! Porque na mesma matéria do RBS TV noturno que fazia a crítica dos “absurdos engarrafamentos”, noticiava-se mais um gigantesco engarrafamento na BR 101. Só que na segunda-feira! Engraçado, não tinha Parada nesse dia! Então como diz o amigo carioca “qual foi merrrmão....”
A crer em RBSTV, SBT e outros, o problema agora é só o trânsito! Mas fica a pergunta que não quer calar: quando têm jogo Havaí e Figueirense, que empaca a vida de todo mundo que mora no sul e no leste da ilha, alguém reclama e vai para TV se dizer indignado...com o jogo? E os campeonatos de pesca, na mesma Beira-Mar? E o Iron Men? Ah...é que de Homem de Ferro ninguém pode dizer nada! Tá bom! Sei!
Quer dizer que agora, carro fala, pensa, têm sentimentos e até direitos? Não? Pois é, porque aquelas 40.000 pessoal que foram a Beira –Mar celebrar e/ou marcar um advento político, têm! E os donos dos carros? Ah, gente, para com isso! Então fecha a ilha, e põe para balanço! Existe mais de um evento que acontece na Beira –Mar que tranca o trânsito! Porque este foi alvo de tantas críticas? E agora querem fazer as próximas Paradas acontecerem na “Nego Quirido”, como? Com que espaço? Aliás com que objetivo, senão jogar “de volta para o gueto” o que não se aceita?
Só uma resposta, aliás palavra de ordem repetida em 9 de dez discursos proferidos nas 5 horas de evento:
Homofobia é crime!



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terça-feira, 4 de setembro de 2007

E você ainda pergunta porquê tenho insônia...


(Foto:

Fernando Bizerra Jr./EPA)In Público de 15/5/05





E você ainda me pergunta porquê tenho insônia. É fácil falar.

Tanta terra, tanta riqueza, tanta gente boa...só pode ser má vontade. Reclamando sempre e agorasem querer mais dormir, nem acordar. Lembra do samba "não existe coisa mais feia, que gente que vive chorando de barriga cheia?"

-Pois é, meu amigo! Com a língua é muito fácil e pimenta no dos outros é refresco.
Olha para mim direito!Você conseguiria mesmo?Então tá! Deite aqui ao meu lado, então! Sentiu?Essa ferroada, esse aguilhão que quando mal me viro, tranpassa? Esse ainda doi na carne "de cor",por força de orgulhos e preconceitos de raça...ainda hoje é um massacre! E já que insiste, talvez não tenha notado...não é só de suor que o colchão está encharcado! Sentiu o cheiro? É claro que é sangue!Pois aí estão também seus queridos imigrantes.Já são milhares de sem-terra, sem-tetos, sem-perdão. E ainda em correntes, meu amigo! Quer saber, mesmo? Então saia da calçada e entre na contra-mão...

- O que é isso?Ouviu?
(sobressaltado)
-

-Isso? Você não conhece? São ratos! De tão gordos, mal conseguem consigo mesmos. Mais parecem cobras de tanto andar "de rastos". Boa parte deles cegos, nem tocas têm, dormem á esmo.É muita comida, papel para eles é pasto! Por isso esta cheio deles aqui. Mas anda,se acalma que isso logo acostuma.Vai dormir!Esses documentos nunca irão chegar mesmo ao Arquivo Nacional! Ou a Corregedoria...Comissão Parlamentar...o Escambau! ( ri galhofeiro, acaba tossindo). Você é tão orgulhoso que mesmo tremendo ainda que me olha com desdém! Eles fazem o que é de sua natureza, só isso. E já nemagüentam tanto. Por isso, ás vezes, devoram as pessoas também...

- Os ratos?
- É claro que não! Deixe em paz o pobre Rato.Só faz o que lhe mandam. Aquele ali também faz, e o nome dele é Sapo! Quando acontece qualquer coisa que não pode chegar aos teus nobres ouvidos então ele coaxa, coaxa, cria grande alarido! Faz uma balbúrdia dos infernos. Depois vai acalmando, silencia,e a gente fica se perguntando; "Do que coaxava mesmo?" E lá vêm ele agora. Daqui a pouco, chama
os amigos e esse brejo aqui vai virar uma festa!Enquanto isso, aqueles outros de que falei só se afundam, mais e mais. Você, é claro, chama isso de Imprensa. Eu, por outro lado, de empulhação!Vamos, eles estão até quietos essa noite, vá dormir!

-Estou procurando o travesseiro!
(um pouco irritado)


HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAH
(gargalhada meio forçada, ligeiramente insana)

-Travesseiro? Que é isso meu amigo? (debochado) Já foi, "latinha","Não te pertence mais!Bábáu...privatizaram!Na maior cara-de pau!Tudo que existia para amansar a carne fatigada do povo brasileiro esta indo, ou já foi correndo, pagar a dívida, engordar a pança ou os barris de pólvora de algum país qualquer lá no estrangeiro. Vejo cada um, mesmo!

-Será que dá para comprar de novo?-

- O que me roubaram? Talvez sim, talvez não...

-Meu Deus, e esses gritos horríveis, é assombração?-

-Isso eu não sei nem nunca soube. Eu que não me aventuro a levantar...não é que acredite muito nessas coisas...mas...sei lá! Pode ser a Candelária, a Bahia, o Morro do Alemão, Carajás...eu não ouso dizer que tanto faz! Mas...

-Mas...e agora?
(a voz do outro já esta sufocada, parece que as sombras vão se adensando, criando formas incríveis, grandes presas, longas unhas...)
-

- E agora? Eu é que sei? Na verdade faz tempo que não vejo lá muita opção.Você pode querer alguma coisa comigo (sim, eu sou até bem facinho),você pode ficar aí gritando ou ainda tentar levantar.Para mim, veja bem, tanto faz. Eu é que não vou enfrentar aquilo que está bramindo lá fora! Se for você, vá de uma vez. Diga a sua mãe que lhe estimo as melhoras. Quero ver o amanhecer mais lindo...talvez de um novo tempo (diz isso meio delirante, meio sorrindo).

-Você esta com febre!

-Sim! Há muito tempo que me sinto assim, meio doente.Tenho sede...muita sede.
(suspira bem baixinho)

...Justiça...

(silêncio)

Tiritando de frio, terminam por adormecer abraçados, ainda que com um olho aberto e outro fechado, enquanto ao redor cresce um grande pesadelo. Cobertos até a cabeça , encolhidos sob a bandeira nacional, permanecem ainda trêmulos e em paz!

domingo, 2 de setembro de 2007

Minhas mãos



Imagem de Nicolas Larguilliére

Minhas mãos já não dançam, cantam
ou pretendem sorrir
jazem ao meu lado alquebradas
mas não acenam ao partir!

Mãos que não aquecem nem fremem
sem jeito frente ao desgosto
e, exato como meu rosto
também não sabem mentir!

Ásperas para o toque
Grandes para a aparência
Pequenas demais para a força
Frágeis para a violência!

Estas mãos, tão insensíveis
são assim, mãos ideais
para partejar os sonhos
para soprar as brasas
da cinza dos ancestrais!

Estas mãos tão desumanas
Não prestam para cozinhar
mas ainda assim, trazem alento
desenhando a rosa dos ventos
dos sonhos, do caos...no ar!


O POEMA DAS CRIANÇAS TRAÍDAS


Esta não é minha, mas eu adoro...





O Poema das Crianças Traídas



Eu vim da geração das crianças traídas.

Eu vim de um montão de coisas destroçadas.

Eu tentei unir células e nervos, mas o rebanho morreu.

Eu fui à tarefa num tempo de drama.

Eu cerzi o tambor da ternura, quebrado.


Eu fui às cidades destruídas para viver os soldados mortos.

Eu caminhei no caos com uma mensagem.

Eu fui lírico de granas presas à respiração.

Eu visualizei as perspectivas de cada catacumba.

Eu não levei serragem ao corpo dos ditadores.

Eu recolhi as lágrimas de todas as mães numa bacia de sombra.

Eu tive a função de porta estandarte nas revoluções.

Eu amei uma menina virgem.


Eu arranquei das pocilgas um brado.

Eu amei os amigos de pés no chão.

Eu fui a criança sem ciranda.

Eu acreditei numa igualdade total.

Eu não fui canção, mas grito de dor.

Eu tive por linguagem materna, roçar de bombas, baionetas.

Eu fechei-me numa redoma para abrir meu coração triste.

Eu fui a metamorfose de Deus.

Eu vasculhei nos lixos para descobrir a pureza.

Eu desci ao centro da terra para colher o girassol que morava no eixo.

Eu descobri que são incontáveis os grãos no fundo do mar,

Mas são raros os que sabem o caminho da pérola.

Eu tentei persistir para além e aquém do ser humano, o que foi errado.

Eu procurei um avião liquidado para fazer a casa.

Eu inventei um brinquedo das molas de um tanque enferrujado.

Eu construí uma flor de arame farpado para levar na solidão.

Eu deixei um balde no poço para salvar o resto do mundo.

Eu nasci conflito para ser amalgama.


Eu sou da geração das crianças traídas.

Eu tenho várias psicoses que não me invalidam.

Eu sou o automóvel a duzentos quilômetros por hora



Com o vento a bater-me na cara

Na disputa da ultima loucura que adoeceu.

Eu sou o antimundo na medida em que se procura o não existir.

Eu faço de tudo a fonte para alimentar a não limitação.

Eu sei que não posso afastar o corpo que não transcende.

Mas sei que posso fazer dele a catapulta para sublimar-me.

Meu coração é um prisma.

Eu sou o que constrói porque e mais difícil.

Eu sou o que não é contra, mas o que se impõe.

Eu sou o que quando destrói, destrói com ternura.


E quando arranca, arranca até a raiz.

E põe a semente no lugar.

Meu coração é um prisma.

Eu sou o grande delta dos antros.

Os amigos mais atentos são as águas que me acorrem.

Eu sou o que está com você, solitário.

Quando evito a entrega, restrinjo-me.

Quando laboro a superfície é para exaurir-me.

Quando exploro o profundo é para encontrar-me.

Quando estribo os braços e pernas na praça o não é alterável.

É para andar a galope sobre a não liberdade.

Sem bandeiras que indiquem norte qualquer

Avanço das caliças.

Sem ponte fixo a espera, nem lar de maternas mãos,

Ou rua de reencontro

Instalo os meus adeuses.

Sem credo a não ser a humanidade dos que nos amam e desamam,

Anuncio a catarse numa sintaxe de construção.



Eu escreverei para um universo sem concessões.

Eu saberei que a morte não é esterco

Mas a infinita capacidade de colher no chão menos adubado,

Que poderei sorvê-la como laranja que esqueceu de madurar,

Que serei o alimento para o verme primeiro da madrugada,

Que a vida é a face que se incorpora em forma de espasmo,

Que tudo será diferente, que tudo será diferente, tão diferente...

Eu quero um plano de vida para conviver.

Ostentarei minha loucura erudita.

Eu manterei meu ódio a todos os cetros, cifras, tiranos e exércitos,

Eu manterei meu ódio a toda a arrogante mediocridade dos covardes.

Eu manterei meu ódio contra a hecatombe do pseudo-amor entre os homens.

Eu manterei meu ódio contra os fabricantes das neuroses de paz.

Eu direi coisas sem nexo em cada crepúsculo de lua nova

Eu denunciarei todas as fraudes da nossa sobrevivência.

Eu estarei na vanguarda para conferir esplendores.

Eu me abastardarei da espécie humana.

Mas eu farei exceções a todos aqueles que souberam amar.

Lindolf Bell