segunda-feira, 22 de outubro de 2007

My Fairy Lady


- Professora, por que você tatuou “isso”?
-Hmmm?
-Por que...
- Ahn... tatuei em 1996, há mais de dez anos portanto. Acho que na época tinha haver com uma fase que eu estava passando.
- Ahn...parece um coelho.


Bem, ás vezes a gente não precisa mentir. Só dizer uma meia verdade. Mas fiquei com remorso mesmo assim. Afinal, mesmo meus melhores amigos nunca me perguntaram isso. Acho que é porque os amigos não precisam “te conhecer bem”. Eles te aceitam como você é e só. Minha família foi rápida no julgamento: “coisa horrível, parece um anjo cagando!”, “herrr...por que estragar aquilo que fiz com tanto carinho”, ou ainda “qual a necessidade de se marcar como o gado?” Parece incrível a você que em pleno século XXI ainda tenha gente que se exprima dessa maneira diante de uma simples tatto? Pois é...para mim isso prova de que em certo sentido a gente consegue regredir na história (pelo menos no que concerne á mentalidade).Fora o silêncio. Você vai lá, passa por um momento de dor excruciante apenas para criar uma pequena arte no seu corpo – no meu caso pequena mesmo – e a pessoa se dá ao direito de ignorar seu sacrifício e não tecer comentário algum, só franzir o cenho. É como ser tatuada de novo. Sabe, ás vezes não entendo porque as pessoas têm tanta dificuldade em transmitir uma opinião positiva....
Agora pense no acidentado transcurso da História Humana.As tattos sempre estiveram presentes. Não quero me estender em detalhes históricos porquê sei que isso qualquer um acha nos modernos oráculos: “Google” ou “Cadê”. Mas é o óbvio.Os motivos que norteiam nossa escolha em fazer tatuagens hoje são praticamente os mesmos de sempre.Explicando... Na maior parte das sociedades humanas, as tatuagens serviram como signo identitário indicando pertencimento a certo estamento ou condição social. Você pode pensar nas tatuagens feitas pelos Japoneses em seu período feudal ou ainda nos marinheiros de todo o mundo. Enquadram-se nestas categorias respectivamente. E/ou ainda, como símbolos de um ritual de passagem, um momento que precisa ser marcado na pele e que é a marca social do fim - e de um novo começo – na sua existência. Você pode pensar nos índios brasileiros Rikbaktsa no Mato Grosso ou ainda, nas complexas e delicadas tatuagens de henna tecidas nas mãos das noivas de certas partes da Índia. Ampliando seus horizontes de conhecimento, você perceberá que existem tatuagens específicas nas antigas religiões celtas tanto quanto nas religiões africanas tradicionais. Se você não gosta do aspecto “antiautonomista” das tatuagens, não fique tão preocupado. Há muito tempo que nas sociedades ditas “modernas ocidentais”, a equação tatuagem = pertencimento não se realiza muito bem. Claro que sempre vai existir aquele rapaz ou moça que tatua o nome da namorada e depois se arrepende.Mas e daí? Se ele, em tese, só pertence a ele mesmo, então têm o direito de “se doar” a outra pessoa, ou não?
Enfim disso isso tudo apenas para afirmar que a minha tatuagem pertence mais ao segundo tipo do que ao primeiro.

Sendo assim...

Mas por que não responder a esta minha aluna, que afinal só quer saber um pouco melhor quem eu sou já que já foi esclarecida de para que eu sirvo( e parece ter mais clareza disso do que eu mesma as vezes)? Talvez por timidez. Talvez por aquiescer (mesmo que inconscientemente) com certos preconceitos sociais, e temer influenciar em uma decisão tão importante. Talvez porque ela não fosse acreditar mesmo. Mas só para você, vou tentar começar...

Era uma vez...
Num tempo não muito distante, em que os dias e as noites se confundiriam com uma freqüência cada vez mais alta, floriam possibilidades que eram colhidas um pouco a esmo e murchavam em menos de uma semana, e em que se podia ouvir um disco “inteirinho” apenas por prazer,e não apenas usá-lo como música de fundo...
Num lugar em que as pessoas não se sentiam bem parte de algo, ou alguma coisa como clã ou tribo nem mesmo pólis. Pessoas com um raso sentido de pátria procuram frátrias. E ocasionalmente encontram.
Era o caso da mocinha desta história. Não era uma princesa, nem uma “modesta camponesa” e tampouco uma “pobre órfã”. Seu horizonte ainda possuía certo verde, mas nada assim...como morar numa floresta. Tinha dezoito anos mas bem no fundo era só uma menina. Que se sentia sozinha. E tímida. Mas ela sabia que não podia ser assim, tímida. Nem emotiva.Arredia também não.O máximo a que se permitia era ser um pouco sensível. Isso podia ser útil.E de certa maneira era maravilhoso viver assim, fingindo ser outra pessoa, porquê se a vida era uma festa, todos os dias saudava-a num brinde.

Á família.
Á causa.
Aos amigos.

Desculpas com as quais ela blindava toda a possibilidade de ser. Na verdade neste lugar em que as pessoas eram facilmente rotuladas. Ela fugia de um em especial. Frágil. Porquê é horrível ser frágil. Assim como pode ser angustiante ser livre.
Num estranho exercício, ela saía todos os dias e conversava com muitas pessoas. Sorria sem vontade. Apertava com força mãos inimigas. Traía, sem muita convicção nem prazer, aliados que se sabiam ocasionais.Quando baixava os olhos, pedia sossego ao bichinho que, dentro de si, queria fugir e sonhar. E quando abria a boca, conclamava a luta... e ao sonho.
Um dia, aquele bichinho estranho que ela alimentava em sua jaula confortável á pão e vinho começou a dar mais do que pequenas demonstrações de vida. A jaula era seu peito. O bichinho, ela mesma (em sua forma menos sociável). Ela pensava que se conhecia. Pensava naquele ser como apenas uma parte de si mesma. Alguém que não gostava de muito de festas e que justamente por isso, não valia a pena convidar para ir a lugar algum.Desagradável, não apreciava todo o tipo de música. Não gostava de muita coisa que TODO MUNDO adorava. Como videogames. Ou certas pessoas. Ou certas maneiras de se vestir. Amava o silêncio. Não suportava se sentir tocada por ninguém e segurava com esforço as reviravoltas que lhe davam no estômago os beijos melados que certas pessoas insistiam em estalar nas suas bochechas.Justamente por isso, nem valia a pena apresentar para alguém. Essa espécie de ser só era livre em dois lugares. Numa rodinha de violão. Ou quando dançava no escuro.. Essa...criatura por assim dizer, gostava fundamentalmente de quatro coisas.



A Trilha que atravessava
A Floresta que levava á
Praia onde ficava o
Acampamento e o Mar.

Ops! Cinco! Só que você pode substituir a palavra Acampamento por Música.Mas era isso mesmo. Fundamentalmente cinco.

Um belo dia...

Essa criatura quis sair. Conhecer um pouco mais além, trilhar novos caminhos, sair daquela jaula e ir para outro lugar. Se imaginou como sendo muitas coisas mais.Ao mesmo tempo, queria saber quem era. E quis conhecer um espelho, para ver como se parecia.Esse desejo não era insensível ao peito que o abrigava
A menina começou a sentir algo coçar pouco acima do seio esquerdo. Pensou que fosse qualquer outra coisa. Que passaria em uma semana.
Não passou.
Foi ao médico, que lhe passou muitos exames. Depois transferiu para outro médico.Mais exames. E mais outro e mais outro até que cansou e disse que não tinha mais tempo.
Não adiantou.
Agora estava insuportável. Fugia todos os dias para dançar sob a tempestade no terraço de seu prédio, bem ao lado dos para raios, com os pés cobertos pela chuva torrencial. Se isolava cada vez mais em torres de Romances históricos e de cavalaria. Sumia de compromissos importantes para tomar sorvete, conversar com cachorros e gatos ou rondar parquinhos infantis como um animal faminto.Na verdade, ninguém notou. Para todos era como se tudo estivesse normal. Eu disse que agora era insuportável? Pois é...
Não suportou.
No dia mais crítico, viu uma bolha vermelha inchar exatamente ali, em seu peito. Parecia mais uma alergia. Subia até o pescoço. Coçava, ardia, incomodava. Agora já não podia ir a lugar algum. Como se mostrar assim? Tentou arnica.Melhorou só um pouco. Mas ali no peito, onde tudo começava, ficou um formato em relevo.Parecia uma larva vermelha. Assim já era demais. Não dava para continuar. Então, fechou os olhos.
E tentou.
....

-Oi?
-...
-Oi?
-...
-Você quer sair, é isso?
-Não.
-Não?
-Não.
-Então...
-Eu tentei, mas não posso...
-Como assim?
-Não existo á parte de você, eu sou você.Também.Assim como tudo o que você vê.O sol, a lua, as montanhas, as estrelas, a violência, a miséria, a ausência, as pessoas...tudo isso subsiste aqui, em seu peito.
-Mas...
-Como?
-Sempre têm um mas...
-...É...verdade. Eu queria me conhecer melhor também. Busquei sair daqui para ver um espelho.
-Hmmm.
-Eu sou você também. Mas você têm companhia o tempo todo. Eu sou ignorada a maior parte do tempo. Por você. O que é equivalente á dizer, por mim mesma.
-Sei...olha, não é bem assim que funciona.
-Não?
-Não.Eu nunca lhe abandonei, talvez tenha ignorado por tempo demais suas necessidades. Só isso. Não, algo além....
-O que?
-Acho que o que você precisa não é de um espelho...
Abri a porta da jaula.
-Pronto! Use suas asas para alcançar o sol, a lua, as estrelas, os vales e as montanhas, e os sorrisos em meu peito. Mantenha-se ao máximo longe dos abismos, e vulcões e garras que aqui também subsistem. Essa é a primeira parte.
-Primeira parte?
-É. Falta a segunda parte. Deixarei você livre, mas você precisa de um pouco mais na verdade. Mas só farei isso mediante acordo.
-Você e seus acordos...
Contou o acordo. Ela aceitou. E assim ambas foram ao tatuador mais próximo. Disse:
- Aqui esta o estigma de que lhe falei. Nem quero saber a opinião do dermatologista. Trouxe um desenho. Cubra esta marca feia.
Ele acreditou. Pensou estar encobrindo. Na verdade, estava revelando...
Uma pequena fada, com seu corpo nu encimado por lindas asas de borboleta e seu rosto eternamente encoberto pelos cabelos. Oculta a promessa.
Era a segunda parte do trato.
E ambas viveram assim, unidas e felizes para sempre. Hoje a pequena crisálida que existia aprisionada na jaula, já completou seu processo e se tornou a fada que estava projetada para ser. Pelo desenhista-tatuador. Hoje a menina já se tornou mulher, e ainda mais, compreendendo-se em unidade com a natureza e as pessoas. Porque se tudo o que existe esta também em mim, tudo me afeta. Parou de se ver como uma mosca presa a uma teia de acontecimentos sucessivos e passou a se perceber mais como uma parte de um Universo pulsante. Dançando em seu ritmo- só que de olhos abertos
.



É. Minha aluna não ia acreditar mesmo!
Mas talvez eu devesse ter dito outra coisa.E se eu dissesse “Tente ver esse desenho como uma insígnia. Uma mensagem que se aplica não só a mim, mas a Natureza e a Humanidade?”

- “Cuidado! Frágil!”-

Será que ficaria mais claro?