quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Menina Que Roubava Livros – Pássaros subtraídos no grande mistério de existir.


Recentemente, como faço todos os meses, estive em uma livraria para atualizar-me dos lançamentos. Um mês depois, ganhava de presente o livro por ocasião da minha formatura e devo dizer que foi um dos melhores livros que já ganhei. Este livro – na minha modesta opinião de não-especialista - está fadado a se tornar um Clássico de nosso tempo.
Mas vamos por partes - como diria Jack, o Estripador.
Falando um pouco mais sobre o livro em si. Para resumir, conta a história de uma menina que, após ver seu irmão morrer nos braços da mãe, é deixada aos cuidados de um casal alemão residente na Rua Himmel, área pobre da cidade de Molching, próxima á Munique.
Só que a Alemanha está em guerra neste momento. A violência é espetacularizada.Uma sociedade inteira adoece moralmente. A Morte-narradora não para de trabalhar. E a menina em questão re-encontra um sentido para a existência nos livros que “rouba”.
Só nesse pequeno resumo, podemos perceber que residem neste enredo várias metáforas que falam a nós todos individualmente. Sabemos, por exemplo, que em todas as guerras são as crianças, especialmente as meninas, as maiores vítimas. Mas esta menina em específico “enganou a morte três vezes”. Recusou a condição de vítima, e se o meio social em que estava inserida lhe roubava paulatinamente o sentido de dignidade da condição humana (o amor materno, a possibilidade de empatia e compaixão e o sonho), ela os “roubou” de volta através dos livros.Nos termos sartrianos – lembrando que Sartre escreve na mesma época da narrativa do livro, ou seja, 1933/1947 e depois -, vivendo uma situação - limite, viu-se obrigada muitas vezes a fazer escolhas e á afirmar sua liberdade radical. Ela se arrisca para roubar um livro proibido das chamas. Ela sabe esconder um judeu no porão e assume junto com família este risco. Ela assume seu afeto por este mesmo ser - humano judeu. Em vários sentidos ela é uma contraventora, porquê recusa a desumanizar-se.
Na verdade, todos os personagens do livro parecem atuar na mesma direção. Na recusa em desumanizar-se. Rudy Steiner, o melhor amigo, por exemplo, admira o jogador de futebol negro Jessé Owens e se recusa quotidianamente a conformar-se ao “emparedamento pedagógico” da Juventude Hitlerista. Hans e Rosa Hubermann, um casal que abriga, adota, protege e esconde ao longo do livro inteiro pessoas destinadas a serem párias:a própria Liesel (filha de comunistas “desaparecidos” na Alemanha), e o judeu-do porão, Max Vandemburg. Na verdade, todos eles recusam um destino pior que a Morte, que é a Morte da alma, o agnosticismo moral aliado á um gosto perverso pela violência gratuita. Mas Liesel têm um “quê” á mais. E eu penso ter visto uma pista do por quê. Lembrando: se para o mesmo Sartre, a liberdade no plano puramente pessoal é uma realidade ilusória, pois que ela se afirma apenas “no engajamento em projetos voltados para interesses humanos comunitários” então podemos afirmar que é no momento em que Liesel passa a ler nos abrigos antimísseis e reafirma seu compromisso com a história que ela passa a levar a “marca distintiva” de uma sobrevivente. As palavras não são mais apropriadas individualmente, “roubadas” para puro deleite pessoal, mas compartilhadas para trazer alívio em momentos de angústia. Logo, para mim, não é quando ela “rouba” mas quandoo passa a escrever, que ela acaba reencontrando um sentido para sua existência. E as palavras de Liesel (assim como as de Max Vandemburg, o judeu do porão), se tornam mais que um apelo para a paz. São suas sementes.
Eis o primeiro motivo pelo qual considero este livro um clássico de nosso tempo. Porquê fala ao nosso íntimo, aborda com sensibilidade e simplicidade grandes questões: O que é a Morte? O que é a vida?Como trazer sentido à nossa existência?
A última questão, á primeira vista, parece até simples demais. “Um projeto de vida orientado pelo compromisso com a história” (pelo menos dentro da leitura sartriana). Mas esse compromisso com a história passa pela compreensão de nosso momento histórico. E como poderíamos caracterizar o momento histórico em que vivemos?
Comentei das minhas visitas á livraria porquê (e talvez seja só impressão) me parece que “virou moda" ou, melhor dizendo, "filão editorial", livros romanceados ou relatos mesmo de Guerra. Um exemplo: vi num mês ser lançado um livro sobre a convivência de um jovem casal e um cachorro. No outro mês, vi o mesmo livro com outro ao lado. Não era do mesmo autor. Era o relato de um soldado na Guerra do Iraque... e seu cachorro. Claro que o fato em si não é bom nem ruim. Isso só me parece sintomático.
Sintomático no sentido de significativo de algo.
Mas eu diria que mais gente concorda comigo de que a marca de nosso tempo histórico é o Medo.Claro que não apenas pelo que se vê nas prateleiras das livrarias, mas em qualquer lugar que se vá, escolas, bancos, praças, filas de ônibus, portas de fábricas e empresas, a violência está sempre na pauta do dia. Se andamos hoje “Com A Morte na Alma ” – ainda parafraseando Sartre – realmente o autor têm razão. É bom ouvir quando “Ela” sai de seu mutismo habitual. Esta, na verdade, é uma das “sacadas” mais inteligentes do livro e que entrega toda sua intenção. Não é um livro sobre o quotidiano na Alemanha nazista, durante a IIª Guerra Mundial.
A violência (e a morte, por conseqüência ocasional) se apresenta como grande questão do início do Terceiro Milênio. E não é difícil saber porquê. Segundo Eric Hobsbawn (2002) o século XX foi marcado pelo maior número de mortos ou abandonados á morte por decisão humana (cerca de 187 milhões). Este é o momento histórico das três grandes guerras (incluindo-se a Guerra Fria), mas também do ascenso de grandes utopias. Porém, quando este século começa a chegar ao seu final, o balanço não é lá muito favorável. A humanidade não padeceu apenas em guerras, mas como resultado de uma desigualdade social e econômica que agravou os quadros de miséria e pobreza. O desenvolvimento científico e tecnológico nunca foi tão acelerado, mas, ao mesmo tempo, o controle para a manipulação de informação, o impacto das agressões ao meio ambiente e a intensificação violenta dos mecanismos de controle social, levou-nos, num primeiro momento, a certo “agnosticismo moral” característico de populações que vivem em “Estado de Exceção”... ad eternum.Como resultado,ao longo das últimas décadas, estetizou-se a violência e banalizou-se o conflito. Os grandes conflitos mundiais ganharam novos contornos: se tornaram mais regionalizados e "videogamezados", e se antes os genocídios tinham justificativas racistas e espúrias...Hoje, já em pleno século XXI também é assim. Só que sem o esteio de Grandes Utopias. Só Grandes Ambições Imperialistas, mesmo. E se antes ninguém tinha vergonha de se autoproclamar mais civilizado, mais digno e "superior" aos outros, hoje o racismo se reflete, por exemplo, no descaso ao se discutir o número de baixas civis "aceitáveis" numa guerra seja ela fria ou quente. Um exemplo extraído no livro A nova Face do Império :
“Em 1996, Madeleine Albright, na época embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, ao ser questionada se valia a pena pagar com a morte de 500 mil crianças iraquianas em função do impacto das sanções sobre o Iraque, respondeu: “Achamos que o preço é justo”.
E se a Literatura reflete as condições subjetivas de uma época, um processo histórico e seus matizes ideológicos e culturais, então a nossa época parece se caracterizar (pelo menos do ponto de vista literário) como eivada por um "Imaginário de Guerra".
Então aqui está o segundo motivo pelo qual eu afirmo que este livro está fadado a ser um clássico: porque, mesmo tendo sua narrativa situada no período que atravessa a Segunda Guerra Mundial, ele fala de uma questão relevante ao nosso tempo.
O terceiro motivo já aparece no segundo. Têm a ver com a clássica pergunta “O que fazer?”. É claro que frente á tudo isso, o que resta a todos os outros, que não estão em guerra e não decidem nada (ou pensam que não), é no mínimo um grande mal-estar. Eu disse no mínimo. Porquê mesmo a sensibilidade estando embotada frente á violência quotidiana, o ser humano insiste em ser...humano.
Este é um livro que não fala exatamente de ações coletivas para o enfrentamento de problemas coletivos. Fala de pessoas que individualmente se rebelam e subvertem o sistema... dentro de suas possibilidades.Aqui transcrevo literalmente uma passagem do livro da amiga Flora Bojunga Mattos :
“Efetivamente, o que importa ao coletivo é a atitude e ela é sempre individual. Cada uma das pessoas que segue em procissão coletiva optou consciente ou inconscientemente por estar ali. Algumas tiveram a oportunidade de escolher, outras talvez poucas chances, mas uma grande maioria seguiu como parte do rebanho por medo ou por não acionar a tempo sua capacidade de decisão. Não há modelos a seguir.”
(Mattos, 2007, p.73)
E se é assim mesmo, então temos que recriar saídas coletivas,penso que preferencialmente com ações coletivas, mas também e inicialmente em nossas ações individuais. Elas devem rimar com nossos princípios morais e com os projetos sociais que almejamos. A essa coerência chamamos de ética e talvez certas atitudes quotidianas sejam mais convincentes do que a eterna acusação aos nossos políticos medíocres, incompetentes e corruptos.
Mas esta é apenas uma parte do que estou chamando aqui de terceiro motivo. Pense que o contrário da Morte não é a Vida. O contrário da Morte é o Amor como a própria palavra denuncia (do latim A Mors: “não morte”). Liesel sobrevive porque comove e impressiona a própria. O motivo? Bem para deixar mais claro, conto uma outra história que ouvi certa vez e graças ao Grande Oráculo (GOOGLE), consegui descobrir que pertence á Marcelo Viñar e está no livro Exílio e Tortura. Mais ou menos assim. Sofia ia todos os dias visitar o pai na prisão. Seu pai era preso político. Seus desenhos eram analisados e, por fim, era dada a permissão de entregá-los. Um dia, a senhora que revistava e analisava os desenhos passou uma caneta esferográfica preta em cima. O desenho tinha andorinhas, que prenunciavam a chegada da primavera. Ela disse, para justificar a atitude: “é proibido entregar aos presos desenhos que tenham pássaros”. Pois bem, Sofia nunca mais desenhou pássaros. Um dia, seu pai notou que seus desenhos tinham árvores, e no meio dos galhos, vários círculos em branco. Ele perguntou o que era: “pssiiiiiiiuuuu, são os olhos dos passarinhos que a moça não gosta...”
Liesel e Sofia são na verdade a mesma menina e, são também, as humanidades. E se alguém já definiu a violência como o fracasso da palavra, elas sorriem e ocultam seu segredo óbvio, querendo provar que sim, mais que possível é absurdamente necessário insistir e fazer reviver pássaros e liberdades apaixonando-se por elas (as palavras) e se isso não for mais possível...re-desenhando pássaros roubados.

MENINA QUE ROUBAVA LIVROS, A
Autor: Markus Zusak
Editora: Intrinseca
ISBN : 8598078174
ISBN-13: 9788598078175
Livro em português
Brochura
1ª Edição - 2007 - 500 pág.
( release da editora)
Entre 1939 e 1943, Liesel Meminger encontrou a Morte três vezes. E saiu suficientemente viva das três ocasiões para que a própria, de tão impressionada, decidisse nos contar sua história, em 'A menina que roubava livros'. Desde o início da vida de Liesel na rua Himmel, numa área pobre de Molching, cidade desenxabida próxima a Munique, ela precisou achar formas de se convencer do sentido de sua existência. Horas depois de ver seu irmão morrer no colo da mãe, a menina foi largada para sempre aos cuidados de Hans e Rosa Hubermann, um pintor desempregado e uma dona-de-casa rabugenta.Ao entrar na nova casa, trazia escondido na mala um livro, 'O manual do coveiro'. Num momento de distração, o rapaz que enterrara seu irmão o deixara cair na neve. Foi o primeiro dos vários livros que Liesel roubaria ao longo dos quatro anos seguintes. E foram esses livros que nortearam a vida de Liesel naquele tempo, quando a Alemanha era transformada diariamente pela guerra, dando trabalho dobrado à Morte. O gosto de roubá-los deu à menina uma alcunha e uma ocupação; a sede de conhecimento deu-lhe um propósito. E as palavras que Liesel encontrou em suas páginas e destacou delas seriam mais tarde aplicadas ao contexto da sua própria vida, sempre com a assistência de Hans, acordeonista amador e amável, e Max Vanderburg, o judeu do porão, o amigo quase invisível de quem ela prometera jamais falar. Há outros personagens fundamentais na história de Liesel, como Rudy Steiner, seu melhor amigo e o namorado que ela nunca teve, ou a mulher do prefeito, sua melhor amiga que ela demorou a perceber como tal. Mas só quem está ao seu lado sempre e testemunha a dor e a poesia da época em que Liesel Meminger teve sua vida salva diariamente pelas palavras, é a nossa narradora. Um dia, todos irão conhecê-la. Mas ter a sua história contada por ela é para poucos.
Tem que valer a pena.

Trechos
É muito provável que alguns de vocês achem que o branco não é necessariamente uma cor, e todo esse tipo batido de absurdo.Bem, estou aqui para lhes dizer que é. O branco é sem dúvida uma cor e, pessoalmente, acho que você não vai querer discutir comigo.
UM ANÚNCIO TRANQÜILIZADOR
Por favor, mantenha a calma, apesar da ameaça anterior.
Sou só garganta...
Não sou violenta.
Não sou maldosa.
Sou um resultado.


Enquanto trabalhava, ele ouvia as palavras sussurradas de uma menina. “O cabelo dele”, dissera Liesel, “parece ser de penas.”
Ao terminar, Max usou uma faca para furar as páginas e amarrá-las com barbante. O resultado foi um livreto que dizia assim:
Toda a minha vida tive medo
De homens velando sobre mim.

UMA VERDADEZINHA
Eu não carrego gadanha nem foice
Só uso um manto preto com capuz quando faz frio
E não tenho aquelas feições de caveira que voc~es
Parecem gostar de me atribuir à distância
Quer saber minha verdadeira aparência?
Eu ajudo.Procure um espelho enquanto continuo.