domingo, 2 de dezembro de 2007

Porque quem cala consente


“O que me assusta não é o grito dos violentos, mas o silêncio dos bons.”
Martin Luther King.

Realmente, é assustador! Durante essa semana, ouvi muitas perguntas não necessariamente sobre a lei 11.340, que recebeu o nome de Lei Maria da Penha, mas sobre a situação das mulheres no Brasil e no mundo. Será que é verdade? “Será que é verdade – hoje uma senhora que participava da 1ª Jornada Catarinense Maria da Penha, me perguntou – que quatro mulheres por minuto são espancadas ”? Ou ainda, na escola em que trabalho: “Que 70% das mulheres assassinadas no mundo são mortas por seus maridos ?” E outro dia, em casa mesmo, discutindo com as mães (a minha e a dele) sobre a luta feminista hoje. “Será que é verdade que a mulher chega a ganhar até trinta por cento a menos que o homem, e que a distorção aumenta quanto maior o nível de escolaridade ?” “E que um em cada cinco dias de falta ao trabalho é causado pela violência contra as mulheres dentro de suas casas? ” Respondo de imediato: “não sei bem...”

Formei-me recentemente em Ciências Sociais, e não era uma aluna muito boa em Estatística, mas sei que a maior parte desses cálculos são projeções. Isso quer dizer, em bom português, o seguinte: a maioria dos pesquisadores sabe que a grande maioria não denuncia e nesses casos, trabalha com estimativas, ou seja, se uma para quatro não denuncia, então multiplicaremos por quatro o resultado das denúncias efetivadas. Sabemos que absolutamente todas trabalharão com uma margem de erro entre um e três pontos percentuais (quanto maior o grupo, menor a margem de erro) para menos ou para mais. Depois cruzam os dedos. Torcem para estarem certos, mas desejam no fundo estarem errados. Especialmente com estimativas como essa. Mas muito dificilmente estarão muito longe da verdade.

Mas, se ainda assim você não acredita, tente uma “pesquisa impressionista?” Você mesma? Alguém que você conhece? Já ouviu falar? Faça essa pergunta em um grupo de no mínimo seis pessoas. Se todos, ou a maioria responderem sim, pode ter certeza, é por que existe. E já passou da conta!

O porquê disso já é mais complicado. O patriarcalismo e o machismo são mais antigos que o capitalismo e o patrimonialismo, por exemplo. Os papéis sociais relegados às mulheres sempre permitiram e incentivaram a sua submissão, anulação e aniquilação. E nunca houve muito essa divisão entre “os mais e os menos esclarecidos”. Basta lembrar que a filosofia clássica, base da História do Pensamento Ocidental, é recheada de “frases lapidares” que diminuem o papel da mulher. Para Platão, felicidade era “não ter nascido mulher, não ter nascido bárbaro e ter vivido no tempo de Sócrates.” Nessa ordem. Para Aristóteles, “elas” eram cidadãs de segunda classe e deveriam se manter assim. Bastou surgir uma filósofa, a primeira “mestra”, educada exclusivamente por homens e dando aulas exclusivamente para “eles”, para que esta também morresse vitima de violência sexista. Esquartejada em uma Igreja em Alexandria, 415 d.C. por cristãos fundamentalistas, para ser mais exata. Por quê? Acusada de heresia. Era pagã e acreditava que o Universo possuía uma linguagem matemática, cognoscível pela Razão. Procure saber mais sobre quem foi Hipácia. O exemplo pode parecer triste, mas também mostra que sempre existiram aquelas que não se conformaram aos papéis sociais estabelecidos. E é claro que isso tem um preço (às vezes alto demais). E se você acha que hoje as coisas mudaram muito, uma informação: em uma Escola Politécnica do Canadá, havia 42 homens e 15 mulheres. Chegou um outro aluno, armado e pediu para todos os homens se retirarem e aos brados de “suas feministas!” e “vocês não deviam estar aqui!” metralhou todas elas. O massacre comoveu o mundo e a partir disto, todo o dia 25 de novembro “comemora-se” o “Dia Contra a Violência da Mulher”. Estava lançada a Campanha do Laço Branco, por um mundo sem violência. Ah, isso aconteceu em 1998. Doença mental? Talvez. Mas cada sociedade produz os doentes que merece e lhes dá as “informações subjetivas” que precisa.

Se maior ou menor escolaridade não ajuda, renda também não. Este problema rasga, de um lado a outro, todas as classes sociais. Atravessa fronteiras étnicas. Só não mata seu berço: continua sendo uma questão de gênero. E falo isso porque outra das perguntas que mais ouvi foi: “Mas e o homem, não sofre violência também? Por que falar só de violência contra a mulher?” Confesso que essa pergunta me irrita um pouco. Mas devolvo com outro “número mágico”. Quinze mil. Quinze mil mulheres estupradas por ano . Isso não é estimativa. Este é um dado bruto. E brutal. Só que não espelha a violência sexual doméstica. Então responda você, companheiro, quantos amigos seus já foram estuprados por uma mulher, assim, sem mais? E quantos se sentem obrigados a ter relações sexuais com a própria esposa? Quantos dos seus colegas vivem aterrorizados, “pisando em ovos”, com medo dos ataques de raiva dela? Ah, essa é muito fácil!Então me deixe completar... Quantos destes mesmos “coagidos” têm medo de deixar a parceira porque ela pode matá-lo ou tirar-lhe completamente a possibilidade de rever seus filhos ou, pior, pode passar a agredir os próprios filhos? Quantos dos seus amigos são completamente dependentes dos ganhos da companheira e perderam completamente a autonomia para “cuidar do lar, ser um bom marido e bom pai”? Para ser sincera eu conheci um caso aproximado... Entre cem do outro lado. Só que eu exijo direito de resposta a uma máxima popular: certos casos a gente deve rever por que têm homem que “curte”... Mas se seus números forem muito maiores, e você é “maior de vinte e um anos”, favor entrar em contato com a Fundação de Pesquisa mais próxima. Acho que seu cérebro (ou o de seus conhecidos) merecem ser conhecidos pela Ciência.

Por outro lado... Alguém, acho que foi um rapaz segurança que veio falar comigo durante o cafezinho da “Jornada”, perguntou se a Lei não acabaria sendo “violentada” por mulheres assim... mais “abusadas”, mesmo. Pensei em explicar mil coisas, como a diferença entre “violência contra a mulher” e “relação conflituada”. A primeira exige como critério uma desigualdade de poder evidente. A segunda são só duas pessoas tendencialmente violentas, que não sabem conversar de forma respeitosa e civilizada e que podem resolver as coisas “entre tapas e beijos”. A fronteira é tênue, mas os marcadores são claros. Mas antes de responder do modo mais difícil, olhei bem para ele e percebi que o cidadão era negro – como eu! E respondi mais rápido: “Lembra quando saiu a Lei Contra o Racismo”? Ele sorriu amarelo... e entendeu. Não ficou muito pior para os brancos, não. Na verdade, a única coisa que foi contida foi certo tipo de escracho público, mas a sociedade continua racista tal e qual. A maior parte dos casos nem chega a juízo, muitos negros ainda não denunciam... o de sempre, enfim.

Isso é triste. Na verdade, acho importante essa mudança, mas ao mesmo tempo, não acredito muito em “leis”. É preciso ter atitude, mudar corações e mentes, “uma lavagem cerebral”, porquê esse buraco é muito mais encima. De volta ao começo deste “artigo-desabafo”, eu também às vezes me pergunto: “será que é mesmo verdade que em pleno século XXI ainda temos que ter esse tipo de conversa?” Mas daí eu acordo e vejo que sim. Infelizmente.

¹Segundo á Fundação Perseu Abramo, são 2,1 milhões por ano no Brasil isso dá 175 mil por mês, 5,8 mil por dia, 2,43 por hora, 4 por minuto, uma a cada 15 segundos.
²Dados da Organização Mundial de Saúde.
³Fundação Perseu Abramo.
4Fundação Perseu Abramo.
5Fundação Perseu Abramo