sábado, 13 de dezembro de 2008

Um Conto de Halloween


Sexta - feira, 13 de agosto de 2004.
Meu querido Diário:

Dizem que se você olhar pelo olho mágico em uma sexta feira treze, exatamente á meia noite, você verá o Diabo dançando pelo olho mágico. Ouvi isso durante todo o meu primeiro grau, e geralmente quando alguém afirmava com absoluta certeza, conhecia alguém que por sua vez tinha um parente próximo que tinha desafiado esta sentença e acabou vendo o que não queria. Mais ou menos como a Procissão dos Mortos ou a Maria Sangrenta (esta ultima eu juro que nunca vi). Já O Adversário – há quem diga que não se deve pronunciar o nome dele por certa quantidade de vezes – bem, esse eu não tenho certeza. Mas essa é uma história que vivi pessoalmente. Eu esperei uma sexta feira treze até a meia noite, dei uma festa no apartamento de minha mãe e, ao final, assisti á uma das mais belas apresentações de dança da História. Ou pelo menos, eu penso que era ele. – Ora, ora minha senhora -como diria o meu tio José- como foi isso? Acho que completaria: - o Diabo, segundo dizem, tem marcas características: rabo e chifres, por exemplo. Mas eu lhe afirmo: se realmente vi o quem penso ter visto, então não tem mesmo. E digo mais: digo que o Diabo até que, ao contrário do que dizem, é bem apessoado. Um cara de presença, como diria esse mesmo tio. E que pode mudar de forma de acordo com aquilo que a gente quer que ele seja. Talvez por isso haja sobre sua aparência tanta controvérsia.
Bem, essa foi uma idéia que me veio assim meio de repente. Por pura coincidência e desafiando toda a tradição, meus pais que não são nada supersticiosos, resolveram viajar na quinta e me deixaram aos cuidados da mana. Não foi difícil convencê-la. Foi bem fácil até. Eu acho que no fundo ela também tinha vontade de testar a "lenda urbana”, mas não tinha coragem porque não é mais criança. Ela é apenas dois anos mais velha que eu e "se acha" A Adulta, assim mesmo, com “A” maiúsculo. Mas é só adolescente mesmo, ou como diz minha mãe "aborrecente", e acho que a grande diferença entre ela e eu é que ela finge ter mais certezas do que sinto necessidade de ter ou fingir que tenho.
-"Por que não os meninos?" - Você deve se perguntar. Essa ao menos foi a primeira dúvida que ela teve. Engraçado, por que será que ela não perguntou: “E você acredita mesmo no Diabo?” Bem, a resposta que eu dei foi: a vizinha ia querer contar para o pai porque ela ficou de ajudar a "olhar" a gente. Não era só isso, é claro. Sempre me pareceu que ele gostasse mais das meninas, mas vai explicar isso para minha irmã... E sendo assim, por um motivo ou por outro,“só menina” foi a Grande Regra de nosso encontro e devo dizer que não encontrou nenhuma resistência, poderíamos inclusive convidar a vizinha, que não quis vir, mas prometeu que passaria por aqui mais tarde para ver como iam os estudos.Assim,ficou informada do motivo - pelo menos em parte - da agitação e seria nossa cúmplice para o que viesse a acontecer. Ela tinha autorizado e isso era tudo. Claro que não soube das nossas "más intenções": ver o Diabo e matar aula, não necessariamente nessa ordem.
A verdade é que ela - minha irmã - convidou todas as amigas dela, umas setenta mais ou menos, e cada uma resolveu que ia levar alguma coisa.Ela pensou na sexta porque não teria que cabular aula porque passaríamos a noite aqui em casa e seria sábado.Mas eu insisti e bati o pé que aquilo era burrice. Meia a noite do dia 13 é...sábado quatorze! Assim não daria certo! Teríamos que matar aula. Uma pena (respeitável público, risadas por favor!). Mas durante á tarde da quinta feira (dia 12), uma a uma foi desmarcando, desmarcando, desmarcando... por um motivo ou por outro...e só vieram 10.Contando comigo e com minha irmã: 12. E se Ele viesse, seriam 13. -"Ótimo sinal" - pensei - "e se eu tenho 13 anos, são três vezes treze que... quanto é que dá mesmo?” Preparamos a casa para receber as amigas a tarde inteira. Improvisamos decoração como se fosse Festa de Halloween. Tinha até uns morcegos recortados em cartolina preta pendurados na cortina, umas teias de algodão com aranhas de plásticas estrategicamente posicionadas e uma abóbora com vela dentro, apoiada no porta chapéu que envergava casaco e um lenço. Colocamos um chapéu na abóbora e ficou perfeito. Nos celulares de todo mundo, tem várias fotos dessa abóbora. Papel celofane roxo envolvendo os lustres garantiu a diferença de iluminação. Achei onde a mãe escondia os castiçais de cristal e coloquei três velas pretas na mesa de centro da sala. Coloquei também uma toalha branca de linho e espalhei um pot-pourri da mamãe pela toalha. Ficou cheiroso e lindo. Manchamos com a tinta guache vermelha o espelho do banheiro para imitar sangue e respingamos pela casa toda. Vai dar um trabalhão para tirar e com certeza meus pais vão nos matar se virem, mas ficou ótimo. Improvisamos umas brincadeiras para distrair: tabuleiro do terror, pesca da maçã (para ver quem seria a primeira a casar) e, é claro, o famoso e intransferível copo, que não podia faltar.Quando estava tudo pronto, começamos a querer inventar mais coisas para a decoração, mas de repente já não dava mais tempo. As meninas começaram a chegar por volta de seis horas. Trouxeram bolo, pudim, pizza caseira, brigadeiro e pipoca.A mãe de uma delas fez uma cesta de maçãs do amor que aproveitamos para fazer boiar no leite. Eram só dez e todas decidiram que eu deveria ficar de fora, por ser a "dimenor" da turma. Obviamente que casaria mais tarde. Fiz um escândalo e tanto, ameacei de contar para a vizinha o que estava acontecendo em casa, abri o berreiro e disse que ia chorar sem parar para os vizinhos chamarem a polícia... Até que me deram uma maçã. Conquistado o objetivo, acalmei-me imediatamente. Era só o que eu queria. Então ficaram apenas nove maçãs e minha irmã teve que sair da brincadeira também. Ficou "emburrada" que só ela – cá para nós foi uma espécie de bônus. Bem, todas trouxeram alguma coisa, só a Fabi não trouxe nada, porque tinha mentido para a família, dizendo que ia estudar. A vizinha ajudou a confirmar a mentira, até porque, pensou que era verdade. Mas para compensar o seu "não trazer nada", trouxe dinheiro e comprou mais refrigerante e laranjas. Suco de laranja e Martini para a minha irmã e suas amigas, que já começavam a beber. Eu ameacei de contar para a mãe, mas não deu certo. Ela já estava fazendo a festa, como eu pedi, não estava? Deixei para lá. Mas tenho que dizer que não gosto do jeito que minha irmã fica quando bebe.
Começamos a jogar o tabuleiro, só eu e minha irmã não podíamos porque tinha sido nós mesmas a selecionar as histórias. Não seria justo com os outros. Ganhou a Deza, todas as três rodadas. Lá pelas dez horas tivemos a primeira grande revelação: a Fabi seria a primeira a casar. Era hora de abrir a "mesa do copo" para perguntar "quantas vezes?" e "com quem?” Mas o espírito que "pegamos" era um menino chato que dizia palavrões o tempo todo e não respondia nada com nada. Resolvemos então traçar um pentagrama com fita isolante, pegar uma das velas que estava acesa na casa para colocar no centro e contar histórias umas para as outras. Histórias de fantasma para não dormir até meia noite. Foi por volta desse horário que a bebida acabou. Na vez da Jack de contar histórias, outra revelação surpreendente: ela não acreditava em Deus. Nem no Diabo. Nem em espíritos. Nem em nada. Por isto não tinha histórias para contar. Segundo ela mesma - "Só na minha vocação para a liberdade"!Todos ficaram chocados. Como seria viver sem acreditar em absolutamente nada? Eu senti que naquele momento, todo mundo ficou meio que com uma sensação de frio. Era o momento de mudar o "rumo da prosa"! Jack deu de ombros. Já devia estar acostumada a esse tipo de reação.
Deitamos a garrafa e giramos, e no jogo da verdade apareceram mais coisas que nenhuma sabia da outra.A Vivi não era mais virgem. A Maria gostava de menina... também. A Sandra preferia homens mais velhos negros, mas jurou nunca ter conhecido nenhum. E o maior segredo da Lili era ter experimentado maconha. Todas começaram a falar sobre as drogas que teriam vontade de experimentar e eu fui deixada de lado por algum tempo. Estava emburrada de novo porque todas acharam muito sem graça do meu maior segredo (você sabe qual é, não vou escrever sobre isso de novo) e para mim ficou a pergunta: por que amor e sexo são sempre os assuntos que mais interessam? Eu já fiz essa pergunta para a mãe e ela diz que é uma coisa natural como qualquer outra como trabalhar ou estudar, por exemplo. Mas esta claro que não é. Ninguém pergunta "qual a matéria que você mais gosta?" com o mesmo interesse que "você tem namorado?" Vai saber!
Jack podia não acreditar em Deus, mas pelo visto acreditava no poder da música. Trouxe um porta CD's cheio e em pouco tempo estávamos todas dançando em torno da estrelinha. Nesse momento esquecemos o que tinha nos feito reunir ali. Esquecemos o mundo e o Diabo. Foi maravilhoso! Na roda, uma a uma ia para o centro e fazia um passo, que todas imitavam a seguir. Quando chegou minha vez, foi mixada uma música flamenca, então comecei a balançar os ombros e a erguer as saias como uma dançarina que vi certa vez. Ninguém quis imitar, todas bateram palmas. Eu me senti a mais feliz nesse momento. Feliz, feliz e verdadeira, e única e...eu mesma como nunca! Certa vez, fiz uma lista de momentos em que poderia ter morrido. Eu sei que é meio tétrico, mas escolhi os momentos mais felizes da minha vida, que poderiam ter ficado congelados para sempre se minha existência tivesse findado ali. Eu queria fazer uma lista de dez, mas só consegui ir até três. Esse seria o quarto.
Mas voltando ao assunto...
Eu tinha esquecido o Diabo. Mas ele não esqueceu de nós.
Meia noite e meia bateu a campainha e minha irmã correu para atender.
Ninguém.
Bateu de novo e dessa vez foi a Jack.
Nada.
Na terceira eu consegui ser mais rápida, e me abri meus olhos para o Olho Mágico. Ele estava lá. Mas quando me perguntaram o que era eu disse:
-"Um moço"!
Na verdade, eu estava meio decepcionada. Não tinha rabo, chifres nem nada de especial. Abri a porta para ver se o rapaz precisava de alguma coisa.
Ninguém.
Soprou um vento frio e só. Todas voltaram a dançar.
E eu, por curiosidade, fui ver se ele ainda estava ali. Estava, e dançava bem o Diabo do rapaz. Ou rapaz Diabo. Dançava como alguém que estivesse apaixonado e quisesse ser notado por alguém muito especial. E também, como um artista de verdade, com técnica e precisão conquistados com muito ensaio e esforço, apenas para que parecesse espontâneo e natural. Nenhum movimento era forçado. Tudo era simples, de uma naturalidade assombrosa porque se sabia que, se você tentasse fazer o mesmo, teria a espinha ou o pescoço quebrado.
Daí aconteceu uma coisa... Eu não sei dizer bem. Não sei se foi à luz no olho mágico, mas parecia que o movimento de mãos que ele fazia criava imagens, paisagens inteiras de fogo e chama, animais de sombra, água e ouro, flores que brilhavam como infinitas jóias. As paisagens pareciam trocar um pouco o "lugar original das coisas", mas tinha sua beleza mesmo assim. A beleza das coisas fascinantes e que matam. Esse pensamento me deu um arrepio, mas eu não conseguia parar de admirar. Eram rios de fogo, mares de chama, céus que se derramavam como lava... E quando a cor laranja avermelhada parecia excessiva, então tudo crepitava em novas cores - verde, amarelo, púrpura, rosa, em vários subtons. Parecia que importante e constante mesmo era a textura, oscilante e fugidia como a natureza da chama ou ainda, das serpentes, e quanto ás cores, eu podia escolher com minha própria imaginação. Voltei a prestar atenção Nele. Sua dança parecia feita de pulsares, quando inflava o peito, contraia a barriga como se tivesse levado um soco, e quando estendia os braços parecia criar novas miragens. Eu o via com a pele muito clara, todo de preto, olhos muito verdes e cabelo pela cintura. Os cabelos também eram aproveitados para a dança assim como os ombros, os músculos dos braços, os quadris, o sexo - Sim, mesmo este, quando ele imobilizava o corpo, pulsava no ritmo o sexo como que para destaque!- e as expressões faciais. Aquele corpo parecia só saber dançar se fosse por inteiro. E eu me sentia estranha, como se meu próprio corpo tivesse se transformado em um olho aberto, fixado naquele outro Olho. Mágico. Sem poder ou conseguir piscar. De certa forma, parecia que eu estava sendo... Puxada. Para baixo. Para dentro. Para sempre.
Foi minha irmã que me despertou.
-“O que você está vendo?”
Eu respondi com muito custo: "um homem dançando!"
Foi aí que se instalou grande confusão. Todas queriam ver ao mesmo tempo, e se empurravam umas as outras na direção da porta. Algumas se esforçavam um pouco mais de tempo, algumas o viam quase que imediatamente. Só que ninguém concordava com nada.
Por ordem, todas as faces do Diabo que foram vistas na noite que passou.
Um árabe dançando com uma cimitarra.Dançava principalmente com os ombros e tinha jóias incrustadas nas unhas e lábios negros ou pintados de preto, tanto faz. O fato é que a cimitarra faiscava no chão tanto quanto no ar, quando ele girava em torno de si mesmo. Um homem negro vestido de vermelho e preto, fumando um charuto e rindo desbragadamente. Dançava balançado ombros e quadris e fazia gestos com a palma aberta. Um cigano todo vestido de vermelho e com dente de ouro ao redor de uma fogueira caprichava nas castanholas e no sapateado flamenco, mas o ponto forte de sua dança era o olhar, que marcava o ritmo mais do que as mãos. Vivi discordou totalmente. Viu um velho de mais ou menos quarenta e cinco anos e cara de mafioso, com uma capa preta e voz gutural, (esse cantava o que estava dançando) e que parecia dançar um misto de tango e teatro – coisa estranha, mas foi assim que ela descreveu - com uma imagem evanescente dela mesma. Outra insistiu que além de se vestir de vermelho, tinha bombachas pretas, botas, era careca, usava cavanhaque e falava alguma coisa com sotaque russo forte e que não era possível compreender. Dançava algo espalhafatosamente, com saltos malabarísticos. Quem viu este foi a Jack, e todo mundo olhou torto para ela. A Fabi, por outro lado, viu um menino de mais ou menos treze anos (a minha idade) com uma pistola na cinta e uma aura de maldade, caprichando no break. A Deza discordou, viu racismo nessa afirmação, e começou uma discussão que acabaria em briga logo a seguir. Mas ainda não, porque cada uma queria ouvir o que a outra tinha a dizer sobre o que conseguiu espiar. Por pouco tempo. E eu, empurrada novamente para um canto, decidi escrever tudo. Foi útil, com minhas anotações consegui refazer aquela noite, para poder contar essa história. Milene viu um homem azulado, com longos cabelos, cinco braços, grandes olhos, maquilagem e piercing no nariz e parecia dançar como numa apresentação de Yôga que vira no Shopping há alguns dias atrás. Traçava um círculo ao seu redor e tinha um tambor na mão. A Katiana viu um homem que tinha aspecto japonês, meio gordinho, com uma máscara que parecia um tigre com grandes olhos e presas afiadas que saiam do maxilar e iam quase até a altura dos olhos. Este dançava fazendo movimentos de avanço e recuo, com as garras que tinha pintada nas mãos ao som de um tambor que imitava as batidas do seu próprio coração. Sua pele tinha tantas tatuagens que já não dava para identificar o que eram, até porque se mexiam como serpentes multicolores toda a vez que ela tentava firmar a vista. Mas todas sabem que Kati é louca por videogames e mangás. Já minha irmã viu algo menos criativo, um rapaz indígena, de pele morena, longos e finos cabelos negros que refletiam como a prata, brincos de presas e a pele de uma onça parda – talvez um puma - nas costas, dançando sozinho ao lado da fogueira. Sua dança imitava um tigre caçando e ele tinha o corpo encharcado de sangue. E a música era praticamente de tambores e chocalhos. Aquilo lhe trouxe profunda tristeza e ela chegou a dizer que aquela solidão tinha algo de antinatural, e não quis mais ver nada nem falar (o que, se não tivesse vindo de quem veio, deveria ser considerado um milagre). A Deza, por sua vez, viu um rapaz loiro, de cabelos cacheados, túnica branca como a dos gregos, olhos azuis e asas em chamas, que dançava uma música que ela não conseguiu definir se era techno ou órgão de igreja desafinado – coisas estas, por sinal, bem diferentes entre si. Todos discordaram. Acharam que ela estava de implicância com a Fabi, e a discussão começou a ficar violenta, com todas se xingando de nomes horríveis que eu nem sabia que elas conheciam. Alguns eu não sabia o que era e nem quis perguntar o que eram.
Só a Sandrinha não viu nada.
Ela olhava e insistia - "Não tem ninguém aqui”!
O que já era um berreiro pra ver quem tinha razão, qual o Diabo era mais verdadeiro, virou uma algaravia de insanidades.
Foi nesse momento que, enquanto elas discutiam com uma raiva anormal, vi que o caminho estava livre para mim e voltei ao Olho Mágico. E lá estava o mesmo moreno sorrindo maliciosamente. Fez uma reverência. Deu uma piscadinha, virou as costas e desapareceu. Assim mesmo, como tinha surgido, sem “PUFFF!” nem nuvens de enxofre, nada assim como se pensa que é. Decepcionante!
Minha irmã berrava, a saliva escorria pelos cantos da boca em espuma, com veias saltando do pescoço e olhos esbugalhados. Juro!Parecia meio louca:
-"E aí? O que você está vendo? Fala para a Sandra, que duvida de nós!!! FALAFALAFALAFALA"!
-"Mana, ela tem razão. Ele se foi!" Eu achei que com esta leve mentira em favor de Sandra, que ia apanhar das outras amigas se continuasse insistindo naquela história, o “clima” ia melhorar um pouco. Grande erro!Ninguém acreditou. Empurraram-me com tal força que eu caí no chão, bati com a cabeça na parede que fez "bonc", enquanto elas se chutavam, se arranhavam e puxavam os cabelos para poder ver no olho mágico se o que eu dizia era verdade. Jack distribuiu socos. Sandra revidava aos chutes. Tudo aquilo parecia que ia acabar muito mal. E ninguém veio me ajudar a levantar ou perguntar como eu estava, então aos poucos fui me levantando sozinha mesmo, dando-me conta de que isso seria sempre assim, dali para diante.
Foi quando a vizinha chamou.
-"Meninas, o que esta acontecendo aí”?
Foi como um balde de água fria.
Minha irmã abriu a porta, e ficou difícil explicar porque todo mundo tinha resolvido brigar aos socos e pontapés. Não tinha como disfarçar os arranhões na cara de uma, o lábio inchado da outra, os chumaços de cabelo nas mãos da Vivi e assim por diante.
-"O que foi isso"?
Eu quase ia falando a verdade, mas minha irmã me deu um beliscão tão forte que pressenti que melhor mesmo era ficar quieta.
-"Nada! Nós resolvemos brincar de Luta Livre, como na TV, sabe”?

Juro que não sei como a vizinha engoliu esta. Acho que foi porque ela falou com tanta calma, tanta convicção, que até minha mãe se enganaria.Mas mesmo assim, a desculpa era muito furada. Mas depois também entendi que a verdade naquele momento seria inacreditável. Só por um momento a vizinha desconfiou. Naturalmente, todas estavam espiando para o corredor. A Jack mesmo chegou a sair, depois balançou a cabeça em sinal negativo. A vizinha perguntou o que significava aquilo. Nada. Mais mentiras. Todas unidas agora no firme e leal objetivo de engambelar a vizinha. Resolvi deixá-las conversando e peguei meu caderno, onde fui riscando números de 1 á 12, me sentindo um pouco estranha, como quem assume uma personalidade que não é sua.
Quando finalmente a vizinha foi embora e se fechou a porta, minha irmã perguntou finalmente, com cara de meio boba, o que iríamos fazer. Mas eu já tinha senhas e um relógio. Distribuir foi um rápido sorteio. Problema resolvido.
Todas viram no Olho Mágico, só que agora cada uma na sua vez. Eu fui a ultima a espiar, por vontade própria, pois troquei meu número que era o cinco com a Deza.
Ele já tinha mesmo ido embora.
Todas resolveram re-contar sua experiência, como o Diabo lhes parecia, o que tinham visto e como tinham se sentido diante dele. Quem era ele ou o que? Eu não quis ficar, muito tempo, queria guardar aquela experiência e os sentimentos que ela me trouxe como algo assim, que fosse muito íntimo e que você não quisesse mesmo expor. Até onde ouvi da conversa, alguns pontos em comum iam surgindo a medida que a conversa fluía, cada vez mais suave como o refluir de uma maré cheia. Mas era demais para mim, eu queria dormir e mesmo não teria mais nada a dizer que já não houvesse sido dito. E por outro lado...
No fundo tive certa raiva delas, porque se mantinha em mim a impressão que, com aquela briga haviam expulsado alguém muito importante e que valia à pena conhecer. Pior, alguém que se sentia depreciado e sozinho, e que queria ser percebido sob um outro prisma. Devia estar agora triste, muito triste e decepcionado também, talvez mais do que quando percebi que não havia rabo, chifre nem show pirotécnico de despedida. Afinal, aquele olhar parecia compreender tudo que ia na mente humana, de Belo e também de Mesquinho. Por que elas não se contentaram em simplesmente admirar e perceber o encanto daquele momento? Pensei comigo, mas com uma voz que não era minha – “Talvez nenhuma delas tenha visto realmente nada” – e isso me assustou um pouco. Lembrei do filme “As Bruxas de Salem”. Basta uma dizer que viu, e todas vêem e se tornam capazes de afirmar coisas impensáveis, que dizem mais a respeito de si mesmas do que Dele em si. Fui dormir em silêncio e com certo medo, como alguém que tivesse descoberto uma coisa que no fundo não queria ver. Acabei tendo sonhos estranhos com um Olho Mágico, que no final das contas era um caleidoscópio, onde uma sombra dançava ao centro. Eu mesma, vestida de preto e com uma maquilagem pesada demais para minha idade, com as unhas e os lábios pintados de preto e uma expressão que em mim não caía muito bem. Nas mãos eu trazia estrelas que explodiam em chamas.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Alma Negra


"Percebam que alma não tem cor!"
Chico Cesar

Como é difícil falar em consciência negra
onde falta até a consciência humana
mas tenho hoje que tentar.
Hoje tenho que dizer que ter raça e ter cor
são coisas muito diferentes
mas que isso não soe como justificativa
porque hoje (e talvez só hoje) nada tenho que explicar
tem coisa, meu nêgo, que é só da gente
e tem outras...
Vamos tentar poetar?

A minha raça tem cheiro
de pólvora, de ritmo, de risco de amor e diáspora
só pode ser forte esse cheiro, de querer e esperança
É pura provocação!
Pinga - fogo,lança ojerizas e modas, cria mitos,
quebra máscaras
Tem seus ritos e 'quizilas'
um brilho de véu de lua sobre a prata clara
minha raça é a daqueles que se abandonaram na luta
ou morreram de saudades.
Respeitável público deste circo de trapaças
O que hoje orgulhosamente se exalta
É minha raça, que pode ser tudo o que quiser ser,
menos escrava!

E esta minha cor que mistura á noite, coralinas e açucenas
Bem...essa veio pela sombra e desceu com a
chuva,soprou forte com o vento e antecipou tempestades!
Foi na cabeça que a nobreza ancestral trouxe meu "agô"!
E por causa dela tenho eu a certeza
Nem o "tumbeiro" conseguiu dobrar meu tataravô!
E eu é que não posso me dobrar!
Quando foi cor de suspeita , aproveitou para fugir pelo mato, pelas corredeiras de rios e cachoeiras (sempre, vejam bem, tão puros e claros!).
Meus cabelos foram bons para esconder as sementes de tantos Quilombos
E foi esta cor mesma, que deu o tom
da dança que empresta vida ao mundo.
Minha cor, eu sei, é movimento que reflete e ascende.
É "pã" e "istmo", bate forte e cala fundo!
É a herança de tudo que fascina olhar pelo caminho,
e memória do que não atreve e nem se quer esquecer.

Minha raça tem sabor,dendê ou canela, noz-de-cola ou feijoada
e dos restos destas sombras e auroras ainda molhadas,
tem tempero de desejo,coragem e malícia,
e se o gosto é picante e forte e perfuma o próprio Encanto
É que misturou com mel e gengibre á agua de coco ou da canjica.
Minha cor tão negra será sempre como um manto,
segreda o destino,
para aqueles que sabem que Vida assim, com "V" maiúsculo
tem que estalar a língua, tem que tragar fundo,
Queimar a garganta - e se assim não for - então não valeu viver.
Porque Vida que é Vida faz eco
como bolhas de sabão em boca de criança!
E se falo da Vida, é porque ela é como a raça
Coisa que só sabe se impôr como linda e por prazer.

Esta provado que nada tenho de inodora, incolor ou insípida!

Mas digo mais, minha raça correu muito!
Contra a dor, contra a miséria,a indecência do holocausto
correu à não mais poder! E poder, meu amigo, é só um gesto!
Não correu da luta e nem para se esconder, só correu para o abraço!
Mesmo quando só havia a própria Morte à espera, para abraçar
Pernas, pois então!Para que as quero?Senão para estar à frente
do opróbrio e da fome, do orgulho e do preconceito?
E quer que te conte um segredo? Para isso não se tem necessidade delas
- as pernas!
Só precisa mesmo é o sentimento.

Já minha cor foi algo assim como coisa de momento
que nunca se quiz passageira
foi uma certeza que se fez eterna...porque pintou!
Foi algo como uma confirmação de algo que já se sabe
e minha cor fica mais forte quanto mais forte eu sou!
Minha cor,pelo que sei, pode ter vindo de Aruanda
da Nigéria ou da Guiné e re-confirmada pela Espanha
moura ainda,é claro!Mas o que importa saber?
Esta cor não admite dúvidas.

E minha raça, ah!Minha raça...
Essa sempre foi e é espalhada por toda a parte!
Deixa a marca, bate o pé e desatina
Faz a sina, som e verso
Se joga, se reafirma
Raça da pedra, da faca, raça da chama
é um grito de nascer, pelo bom e pelo belo,
é uma voz e é um dom,é um protesto
que pode estar à margem da tua História
porém sempre no centro,
centrípta àquele que mente que o horror mora lá fora
e ordena - e massacra -o que viceja aqui dentro.
Para àqueles da minha raça, o conformismo não é possível!

Se minha cor é coisa que só a mim pertence
á minha raça eu pertenço!
E para você, algo 'escureceu'?
Não tem problema...a pele, ora!
É negra,sim!
Mas pode ser até bem branca ou o que quer que vocês chamam de
"morena".
Índia,chinesa,judia,palestina,coreana
Porque em qualquer pele que a alma vista,
onde quer que exista uma covardia,perversidade e injustiça
lá esta ela - a raça!Que acende e se levanta!

sábado, 11 de outubro de 2008

Incompreensível.


Eu sou dessas pessoas que você conhece
mas em quem não consegue se reconhecer
Dessas que quando chegam numa sala
Se um sorri em versos e estribilhos
E estende os braços em abas largas
Outro faz o sinal – da - cruz
E pede para se benzer...
Pois é...fazer o que?

É bem verdade que a minha face
diz em parte o que penso e outra parte
só mesmo aquilo que você quer ver.
Meu pulso traz inscrita marca de nascimento
Meus olhos tão negros ocultam meus segredos
mas revelam um brilho fátuo de temores e anseios
Sera só isso mesmo? Pois então eu confesso!
Já não me importa mesmo o que vai acontecer...

Você vê em mim a mensageira do infortúnio!
Eu guardo uma canção para o sol dentro do peito.
Não tenho lágrimas para Marte e nunca fui de Vênus!
É a Lua- e só ela! - quem me afaga e me traz
Cada vez mais outra e outra vez mais nua!

Para girar sob mim mesma, flutuar e recordar
Do pacto que um dia eu fiz, mas que hoje me faz
Metamorfose negra, borboleta noturna.
E sabe aquela história do pó que das minhas asas escapam?
E que a tradição reza trazer conseqüência funesta?
Aquilo não é pó e também não cega.
Aquilo é o pólem dos sonhos que te encantam enquanto adormeces...
E a única coisa certa é que nada é como parece!
Portadora de desgraças? Só a sua consciêcia!
Porque há mais mistério no fundo daquilo que se pensa.


E é como eu digo: que posso fazer?
E me responda então...como vai você?
Eu? Sei bem quem sou, e mesmo não optaria
Trocar essa minha febre de angústias e ternuras
Pela clareza tão certa da tua afasia
Por racionalidade tão cínica, tão frouxa apatia
Por orgias sérias, frias, quotidianas
Uma rotina amarga, em trapos de bandeira,
Mortalhas de esperança.
Sinceramente? Não sei como não te cansas!
Das tuas mesmas mentiras, esses joguinhos de criança!
E se nunca por nada, mas até por orgulho mesmo...
Não desisto: e fica aqui um conselho!
Não consegue me entender?Mantenha distância!

Um ultimo aviso antes da despedida.
Não tenho para você muito boas notícias!
Onde estou agora tu já não me alcanças!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

...

Justa homenagem a um livro de minha infância e, ao mesmo tempo, um pouco do que sinto ao ler e ver certas coisas serem passadas na TV.
Como muito já foi dito sobre a questão, talvez só nos reste cantá-la em prosa e verso. Essa foi minha primeira tentativa e neste momento, quero deixar registrados meus sinceros agradecimentos ás Revista Veja,IstoÉ e Época, ao Datena e ao Hélio Costa.Parafraseio aqui Marlyn Manson (o cantor): "We are all stars in the dop show."

Salve o grande Chico Buarque, imortal entre os imortais.

Poeminha Classe Méia


Estamos cercados
Por todos os lados
De um lado O Morro
Do outro morro -de medo-
É dos fuzis que nós demos
(mas era só emprestado)!!!
Na mira, um Vale de Lágrimas
Lá encima ou
aqui embaixo
Escoltados na tentativa
de esconder o que
já não é segredo
(medo,medo,medo).

Pelo sol que nos mata sufocados
Estamos cercados
De vida que urge e ruge
- mais e mais forte que o medo -
E essa prole tão grande? Esse desespero!
Esse contraste
Com a esterilidade
De nossos dias em degredo.

E a sirene que faz alarde
De nossos lobos de fábula
Acusam as vestais (sem mácula?)
Na TV, Um Estado de Templo
E enfim devoram -e cospem!
Você, Chapeuzinho Amarelo!

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Á um só tempo.


Ontem, andei descalça por sobre as navalhas do Tempo
Como o gato sobre o muro
Num prazer quase puro
Como o homem que acaricia a terra úmida
Nua obsidiana
Rolando-a sob seus dedos
sensível ao cheiro, ao gosto, á textura
daquilo que é de seu pertencimento
impaciente por um dia conseguir ver
algo que lhe seja tão estranho
quanto um pedaço de si mesmo.

Ontem, andei nua sob as águas
para sentir maravilhas e estranhamentos
labirintos de mágoas claras de espelhos
refletindo miragens florescentes de desejo
estrelas na areia e odres sempre cheios
belezas translúcidas e iridiscentes
conheci peixes cruéis, inchados de veneno
aprendi canções para se tragar com calma
Canções de lua e morte, e também de honra e alma
confesso - pouco de amor ouvi.
Mas revi naufrágios, e a face do espanto
refletida nos olhos vazios de quem
o mar roubou seu brilho para desperdício de encanto.

A um só tempo
recusei distintivos e ministrei as Águias.
Por amor, minhas duas mãos são destras
Para machados,lanças e espadas.
E em testas febris faço submergir
-á sombra do toque- estrelas.
Para um novo firmamento.
Se o faço ainda é pelo mesmo motivo
que só nas alturas moram os abismos.
Se tudo o que não pode ser dito é perigoso
Que seja! É só porque gosto!
Talvez por isso hoje é que me encerro em suspenso
onde posso ver meus irmãos candentes
Imergindo em seus próprios pesadelos
Ainda não foi o suficiente, mas já basta!
É hora de seguir em frente e inflar minhas asas
Sufocar por entre as nuvens de gás lacrimogêneo
-sempre e sempre ás gargalhadas -
não sabemos se depois daquele dia
Por efeito amoral das cortinas de fumaça
todos nós nos perdemos.



Na verdade
Hoje me pergunto pelo que fomos
e por quais entretantos assim escolhemos
ser o fogo que brilha,sublima e aquece
maldição e sonho consumindo a nós mesmos?

Vícios Decentes.


Gato Félix
Quinta com Jazz
Blues Velvet
"-Not to shore
Talvez seja só mais um gigolô-"
E segue a lista...

Acendo meu ultimo cigarro-vaticínio
Em fósforo xipófago e deixo cair nas
luvas de pelica uma ponta-cinza de ironia fina
Que exatamente como a da guitarra
Rumo ao sol sustenido
Não foi feita mesmo para ser compreendida

Oculto o pensamento no gole
Desnecessário para ritualizar o
Inverossímel árbitrário.
E o presente assiste a Dança
Dos Sete Véus do passado!
01/08/2008

Sorria antes que desconfiem


É melhor ser temido que ser amado
Maquiavel


Talvez desconfiem que você
Vêm sendo roubado demais
Ou amado demais
Ou feliz demais sem por que
(no fundo mesmo ninguém quer saber!)
Tanto faz.

E num outro momento, você que é tão sério
Rasgou um dia útil no torpe calendário
Você que vergou sob o açoite do tripallium
Correu nu,calcando os pés nas tumbas do eremitério
Pulou o muro para sorver em goles de sol um dia claro.

Sorria de uma vez!

Mostre as presas antes
De ser capturado
E talvez

Te respeitem um pouco
Procurem até te entender
Procurar te aceitar
Como não és
Ou nunca quisestes ser

Respire fundo e prossiga
Você mentiu até aqui
É verdade!Você fugiu!Mas covarde?
Sem mais... quem diz isso não sabe
COR-AGEM, tem a ver é
com o que a gente sente.
Não lamente.



Porque se nada der certo
Enfim foi bom conhecer você...
E “no mas”
Saberão que estás morto e sem pranto
E sem lamentar assim tanto
Te deixarão (finalmente)
Em paz!

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Observação.

O conto abaixo nada tem a ver com o filme.Nem sequer inspiração, porque eu não vi o filme. Mas vou ver(prometo). A fotografia abaixo sim, é do filme, como forma de mea culpa por não querer modificar o título.
Abs

O Veneno da Madrugada


O Veneno da Madrugada.

Praça dos Bombeiros/ 03:33: Solitário soldado de guarda no quartel assobia conhecido funk que abre o filme “Tropa de Elite”, que têm os sugestivos quatro primeiros versos:

Morro do Dendê “é ruim” de invadir
“Nóis” com os Alemão vamo se divertir
Porque no Dendê você vê como é que é
Aqui não tem mole nem”pá” DRE
.

Pois é...

Camelódromo/ 00:37 – A ex-Dama-da-Gaiola-Dourada já está muito distante do tempo em que ficou célebre por ser a mais disputada entre as senhoritas do “baixo – meretrício” sendo responsável indireta por mais de uma dezena de divórcios e até crime passional seguido de morte. Sente um gosto de “dropes de alcaçuz” na boca, e pensa que a Morte deve ter este gosto. Daquele tempo, resta apenas o hábito de usar saias rodadas e vermelhas, na altura do joelho e sem calcinha. Esta “apurada” e pensa ser ainda jovem, a caminho da casa de seu “homem” , fugitiva e sozinha. Acocora-se, ergue as saias e gargalha sem dentes quando vê jorrar o xixi numa perfeita elipse de 180º, bem no meio da rua, que é o caminho asfaltado que leva onde outros já foram.

Bar Talyesin/ 01:59 – Você têm quatro amigos e recebe quatro cartões com desenhos e perguntas do tipo: “Quem inventou os grandes sistemas, porque inventou-os?” e alguns desenhos de cogumelos e arco- íris. Outro respondeu com a frase “O importante não é mudar o mundo, mas saber quem vai pagar a conta”. “Starway to Heaven” do Led Zeppellin, mera coincidência ou reafirmação da “Teoria dos Cem Macacos”? Alguém diz na mesa ao lado: - “Você deve ser agradecido por não saber”. O assunto segue – agora é Cinema. Já não são mais cem, reduziram para doze. Macacos, ora bolas! E você pensa numa formiga que corre mais que as outras em seu caminho traçado para o formigueiro, porque diferente das restantes, não optou por folhas - secas ou não – mas por carregar entre as antenas um pedacinho de pétala de madressilva. Ela (a formiga) se sente especial. E você, um trouxa, pois caiu na armadilha do Barman e passou uma hora discutindo quantos e quais ingredientes existem no drink da casa. Quando saiu, três drinks depois, pagou o que lhe disseram que custava sem conferir e não saberia dizer o nome de solteira de sua mãe.

TICEN – Terminal Integrado do Centro/ 02:42 -
-...E aí, o que aconteceu?
-Daí, papo vai, papo vêm, fomos para o Dark Room e começamos de malho. Malho. Malho. Malho.E ele parece ter cem mãos. Loucura. Loucura. Loucura, amiga!
-E aí?
- (pausa) Uma delas, mais rápida que o pensamento, desliza para dentro da minha calça, nem abre o “fechicler” e enche a mão na “djuninha”.
-Noooosssa, amiga! E aí?
-Aí ele grita. “Você é mulheeeeeeerrrrr!”
- Ai (expressão boquiaberta)!
- Daí eu respondi: - “Claro que sim, o que achou que eu era?” E ele respondeu:
-“O travesti mais bonito dessa noite!”
-...

Serv. Antonio Silveira/ 01:53: Pela segunda vez neste ano, é meu tempo de amar. A febre veio mais forte esta noite. Na verdade, não sei há quanto tempo estou assim. Deve ser por causa da febre. Sinto falta de algo que não sei bem o que é. Mas sei onde encontrar. A dor é um prazer quase insuportável. Eu saúdo ás estrelas frias com um urro insatisfeito. Meu chamado é provocação. Lanço para a escuridão o desafio: - “Onde esta você? Quem ousará lutar comigo?” Silêncio. Silêncio. Silêncio. Estou decepcionada. Não pode ser. Grito e agora é só raiva e frustração mesmo. Nada. Abro as narinas e sinto o cheiro forte, gélido e extasiante. Gosto de sangue na boca. Ele tem que estar aqui. Mas, por efeito do olor e da dor se anestesia me sinto um pouco tonta. Sou forte, faço literalmente das tripas ao coração um novo grito: - “E então?” Foi quando o vi! Encima do muro parado, inclinado sobre as patas dianteiras com o pescoço levemente esticado em minha direção, farejando o ar e ainda com sangue na orelha direita e algumas cicatrizes da ultima batalha. Mas ele veio, olhos já acesos pelo desejo, dentes afiados e garras em riste! Vejo que ainda há pedaços de pele embaixo das unhas curvas. Um rosnado baixo á guisa de cumprimento. Que conversa mais batida, Minha Mãe! Hunf, ainda por cima, convencido! Quem ele pensa que é para chegar assim. Eu já rejeitei outros até maiores que ele, mas esse... Isto é, talvez pelo detalhe (a ferida sangrenta) que torna o que já era bom, perfeito! Talvez outro motivo que... Será que importa? Quanto mais ele se aproxima, mais me embrulha o estômago. Esta agonia não pode persistir, sinto que posso morrer. Quero lutar! Ele urra exato o que penso e em resposta e meu corpo vibra, tenso como corda de violino. Aguardo a aproximação com uma esquiva solícita, um rosnado baixo que indica que não terá do que se arrepender! E ele se aproxima, finalmente! Têm sido assim desde tempos imemoriais para nossa raça felina, mas confesso que estava um pouco insegura. Eu mostro minhas presas com um chiado mais alto. Ele demonstra ser mais rápido e mais forte. Eu grito com cada vez mais fervor enquanto, furiosos e delirantes, celebramos nossa fome mútua. Os ecos de nosso encontro ficarão inscritos pela eternidade no manto da noite. Mas eu já sei.Ninguém precisa me contar.Não há saciedade possível (nem paz)!

Afoxés, Maracatús e outros cantos...



Todo o artista tem que ir aonde o povo esta
Milton Nacimento


Começo esse artigo com uma afirmação polêmica, porque ando achando tudo muito "politicamente correto" e pouco efetivo, ultimamente. Em nosso calendário cristão, o Carnaval, ultimo refúgio da alegria e de festejos profanos antes do período triste da Quaresma, é também um ato de resistência onde reside o sagrado. Antes de contra-argumentar, pense nisto.
Não quero dizer com isso que não reconheça o valor da crítica, que pode ser vociferada mais ou menos assim: - "Carnaval: Dias de alienação coletiva e esbórnia, em que fingimos ter conquistado uma democracia racial inexistente,invertemos valores clássicos de sociedade patriarcal e machista com a intenção clara de reforçar esses valores e, por fim, encobrirmos mazelas sociais com um faustoso luxo de latejoulas, que nunca serãos os brilhantes ostentados pela nossa burguesia nos 360 dias restantes, um pão e circo despropositado fadado a tornar-se showbusiness."É isso aí! Fui!*
Para ver as coisas sobre um outro prisma, é preciso voltar á nascente e para isso tracei um itinerário que passou longe das avenidas só para constatar o que já se sabe. O Carnaval é uma fênix que renasce nas ruas ano-após-ano, para desaguar e morrer na avenida - sem desmerecer a avenida é claro.Mas aquele carnaval que merece o epíteto de "manifestação popular", esse mora mais embaixo. Este Carnaval para mim foi uma reafirmação do valor dos clássicos e, também, de bem vindas novidades.
No quesito clássicos, vale falar sobre a sexta-feira. Todos sabem que quinta-feira (em Florianópolis) foi adiado o "Enterro da Tristeza" devido ás chuvas e na verdade nem sabíamos se teríamos ou não desfile de blocos.Mas como diria Raul Seixas "Deus não é tã mau assim" e fechou a torneira para o bloco passar. E eu fui junto, é claro!Este ano tive a grande oportunidade de sair pela primeira vez como porta- bandeira de um dos poucos blocos de rua com nítido engajamento e responsabilidade social, que tem a proposta singela de informar, divertir e distribuir camisinhas para que as pessoas se conscientizem da necessidade de se proteger no carnaval.E só no carnaval? Claro que não! o Bloco foi criado em 1998 pelo Instituto Arco-Íris,que durante todo o ano desenvolve esse mesmo trabalho em todos os segmentos da sociedade, mas especialmente entre os mais marginalizados, sem falso moralismo nem preconceito.
Vai dizer que não é melhor do que "convencer as paredes do quarto e dormir tranquilo?" Com o enredo "Mulher, Sexo Forte" escrito pela minha grande parceira Janaína Canova, este ano fez uma homenagem a garra e determinação das mulheres que fazem do nosso Carnaval - e porque não dizer de nossas vidas? - uma festa de beleza e harmonia.Sente o peso da letra:

Simones,Pagus e Anitas
Levantes contra a opressão
Joanas, Marias Bonitas
Valentes de fé e razão
Sempre, na história do mundo
vai ecoar sua voz
- Janaína Canova -


Só não escrevo mais porque meu outro amigo. T. skárnio, fez entrevista com o Coordenador do Instituto Arco- Íris,Alexandre Martins, dando maiores detalhes.
Ainda na sexta-feira fui ver o Samambaia e o Aerocirco no Drakkar. Até o rock alternativo coube nesse meu carnaval. Os meninos ficam engraçadinhos vestidos de mulher, e esta é a hora de aproveitar alguns elogios, como"- Porra, parabéns, como é que vocês conseguem vestir essas coisas desconfortáveis para c...-"ou seja, como tudo no bicho - homem, tosco, mas sincero!Tá, mas o que isso tem a ver? Elementar, meu caro Watson! "Ir para festa de rock se libertar"também é um clássico, e em Carnaval que se preza cabem todos os ritmos.Nem me venhas com essa conversa de "som elitista".Elitista é abrir o capô do carro e ouvir "funk" e "axé" na praia. Para quem não sabe o rock nasceu negro, pobre e muito do bem humorado e eu sei que tem mais gente que lembra disso. Pague para ver as novidades no cenário musical ilhéu, porque tem muita gente boa vindo por aí...
Eu disse que não ia falar de avenida, mas tenho que dizer alguma coisa do que vi no sábado pela TV, porque Escola de Samba também é um classico. As escolas vem a cada ano se superando em criatividade, ousadia e beleza e eu achei nosso desfile muito melhor do que o de grandes capitais como São Paulo. Mas o poder público tem que se ligar que aquela passarela precisa de reformas e nosso Carnaval deve ser visto com mais carinho e apreço, tanto pelo setor público quanto pelo privado, porque esforço e competência para mostrar nosso melhor esta sobrando. "Apesar de você" que nem quer saber onde ficam as comunidades que abrigam essas grandes escolas o ano inteiro, o povo vem fazendo não bonito, lindo!Mas as coisas podem melhorar (e como podem)!
Outro clássico é o Pop Gay em seu (debut), que aconteceu na segunda-feira, na avenida Hercílio Luz.Para quem, como eu, acompanha a alguns anos pode dizer com certeza que o público dobrou.Cinquenta mil pessoas com certeza. Alguns vão dizer que é resultado da insegurança que pauta os "Carnavais Não-Gays", outros vão dizer que, na verdade, o povo adora um circo repleto de animais exóticos - mais especificamente as "travas" e os "trans".Alguns, com lentes mais róseas, vão dizer que o signo do arco-íris de aliaça e diversidade, atrai por sua beleza e amor a tolerância. Eu não quero dizer que sei a resposta, mas nunca me arrependi de ir.As fantasias deram um banho de criatividade, estão mais lindas do que nunca. As "beauty's" se superando á cada ano que passa em perfeição.E os "Gogo's" parece que também não querem ficar para trás.E a galera delira: -Rebola Gogo! Os rapazes vestidos de mulher são um clássico, mas a novidade é o número de "lesbians" assumidas na platéia.É claro que não tem essa de mais ou de menos, simplesmente uma limpeza no armário geral. Proposta-provocação: que tal reservar um espaço para as meninas no palco também? Só uma crítica, em letras miudinhas, (á lá contrato com o diabo), senti falta de menos falação e mais "shows drags". Parecia um show de piadas. Eu adoro a Ivete Montilla, mas...
Mas agora queria falar das novidades.A principal foi o desfile do Afoxe Omo Olorum, primeiro bloco de afoxé do Estado de Santa Catarina.É dificil traduzir o significado desse acontecimento, mas para uma tentativa mais ou menos justa, acho melhor começar falando sobre o que é um afoxe. Mas como definir o que é um afoxe? Em princípio podemos afirmar que é uma manifestação cultural de matriz africana que aparece como um bloco de carnaval, geralmente prescendendo os demais vindo antes das escolas de samba, “purificando” a avenida contra toda negatividade, para um carnaval próspero com paz e harmonia para todos" (nas palavras de Claudio Damian, fundador do Bloco).Profundamente identificado com as religiões de matriz africana,é também, pelo canto e pela dança, um momento de louvor aos orixás e portanto, bem mais que um bloco de carnaval.A palavra afoxe pode ser traduzida da língua iorubá como algo aproximado "a fala que faz", ou seja, ao poder transformador da palavra que leva o axé.E não me peça para lhe dizer o que é isso.
Como expressão de luta por afirmação identitária, um momento único sem dúvida. Quem estava lá viu gente chorando nas arquibancadas e na avenida. Eu que não estava lá como passiva observadora, mas como participante ativa,entorpecida portanto pelo ritmo e emoção do momento, tenho muito pouco a dizer sobre como foi participar desse desfile. Mas posso dizer que o mais bonito foi ver a união de nações diversas (Kêtu, Nagô, Jeje, Almas de Angola, Batuque e outros) e de capoeiristas angoleiros e regionais em torno da afirmação do valor da cultura negra.Nesse encontro do sagrado com o profano, soou espontâneo, pouco antes da saída do bloco, "O Canto das Três Raças" de Clara Nunes.Mais que emblemático.
Voltando aos clássicos, na Terça-feira Gorda de Carnaval, fui ver o Grupo Arrasta Ilha no Centrinho da Lagoa da Conceição. Ao ritmo contagiante do maracatu foram entoadas cantigas e desfilaram os personagens do Boi-de -mamão.Maracatu também é coisa difícil de explicar, têm que ouvir mesmo. Mas como sou brasileira e não desisto nunca - já deu para ver pela minha disposição para o Carnaval, né? - fica uma definição "siteana" para os que tem preguiça de pesquisar:"O maracatu é um ritmo traditional do nordeste do Brasil. Em Recife e Olinda, no coração de Pernambuco, desenvolveu-se a mais de 400 anos da música e da tradição dos escravos proveniente na maioria do Congo da tribo de Nação Nagô (...) Desde o século 17 o maracatu é tocado mais ou menos como hoje: O gongue faz o ritmo, as caixas , tambores de guerra, formão o tapete de ritmo com os ganzas e as alfaias , os tambores de madeira, que tocão os toques differentes, des variantes do ritmo. "(http://www.maracatu-nacao-colonia.de/Seite%203,%20historia%20maracatu,%20portugues.htm). Mas o Arrasta Ilha vêm desenvolvendo trabalhos nas comunidades tendo por base este ritmo a pelo menos quatro anos aqui em Florianópolis."Quem não viu, vá ver!"
Carnaval é mosaico de um povo alegre e guerreiro, que tudo abraça e a todo o mundo encanta. Ele começa na sexta pintado nas cores do arco-íris - violeta, anil, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho -e aos poucos com a fusão, unindo tudo,chega ao mais profundo e puro negro, transformador e fecundo.
Marca no nosso calendário o tempo de recomeçar.




*Sou assumidamente de "esquerda festiva" e portanto não falo com reacionário, seja ele de esquerda ou direita, porque já me disseram que isso pega.

domingo, 20 de janeiro de 2008

O Silêncio



O Silêncio

O silêncio é água
descendo a montanha.
O silêncio canta:
vozinha de nada
murmurante e triste
melodia breve;
sininhos de prata,
presa a seus pés
e quando se quer
petulante e infame
o silêncio dança
pelas madrugadas
sempiterno e nu
não quer nem saber
de nada.

O silêncio mata
por asfixia
pode dar tesão
as vezes vicia
o silêncio quando
espreita assassino
é silêncio disfarçado
de rapaz-menino
quer o que não quer
puro desatino.

O silêncio invoca
nas marés o cio
no céu tempestade
ele é desafio
é como se gritasse:
"-Já voltou, meu filho?!"
"-Bem vindo, Desastre!"

E a terra? Cansada
da tortura lenta
logo não agüenta
se rompe, se rasga
e levanta, reage.

O silêncio se quis mago
hoje não controla mais
os gênios innvocados
exigem os lumes astrais!
Escondido,mudo, calado,
atrás da cortina tímido
Gente, é só um menino!
Chorando pelos umbrais.

Um eco na madrugada
"Nunca mais...nunca mais...nunca mais"!

* Referência ao Conto de Edgar Allan Poe: "O Corvo"!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Hierograma



-“Recolhe essas lágrimas, menina!”
Cedo aprendi a secá-las contra o vento.
Como luto na varanda deserta;
Como bala de licor embaixo da língua.
Sob o soluço claro prossegue o ensaio
De uma sina.

Hoje equilibram-se na ponta dos pés
Estas minhas lágrimas bailarinas
Desprezam os cílios, os sonhos, a morte...
Desaparecem a sós por trás da cortina.
Sempre muito antes dos aplausos.


-“Já passou, viu? Nem doeu!
Retorcido hierograma de carne, osso, pele
- curtido no que nunca se esqueceu-
E se derrama hoje num traçado de improviso.
Só arranco das pálpebras aquilo que necessito
E estendo meu chapéu por aquilo que é meu.

-“Menina, aonde vai? É tarde...”
Vou à espera do crepúsculo da manhã
Ouviste! Não me prenda! Eles me chamam!
Vou partejar um ocaso em Aldebaran!


Luminares que brotam
Entre meus dedos.
Um ou outro signo antigo
Mapas de êxtase e agonia.
Fórmulas de loucura e degredo...

Sigo desenhando em teu corpo
Uma tatuagem em segredo