domingo, 20 de janeiro de 2008

O Silêncio



O Silêncio

O silêncio é água
descendo a montanha.
O silêncio canta:
vozinha de nada
murmurante e triste
melodia breve;
sininhos de prata,
presa a seus pés
e quando se quer
petulante e infame
o silêncio dança
pelas madrugadas
sempiterno e nu
não quer nem saber
de nada.

O silêncio mata
por asfixia
pode dar tesão
as vezes vicia
o silêncio quando
espreita assassino
é silêncio disfarçado
de rapaz-menino
quer o que não quer
puro desatino.

O silêncio invoca
nas marés o cio
no céu tempestade
ele é desafio
é como se gritasse:
"-Já voltou, meu filho?!"
"-Bem vindo, Desastre!"

E a terra? Cansada
da tortura lenta
logo não agüenta
se rompe, se rasga
e levanta, reage.

O silêncio se quis mago
hoje não controla mais
os gênios innvocados
exigem os lumes astrais!
Escondido,mudo, calado,
atrás da cortina tímido
Gente, é só um menino!
Chorando pelos umbrais.

Um eco na madrugada
"Nunca mais...nunca mais...nunca mais"!

* Referência ao Conto de Edgar Allan Poe: "O Corvo"!

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

Hierograma



-“Recolhe essas lágrimas, menina!”
Cedo aprendi a secá-las contra o vento.
Como luto na varanda deserta;
Como bala de licor embaixo da língua.
Sob o soluço claro prossegue o ensaio
De uma sina.

Hoje equilibram-se na ponta dos pés
Estas minhas lágrimas bailarinas
Desprezam os cílios, os sonhos, a morte...
Desaparecem a sós por trás da cortina.
Sempre muito antes dos aplausos.


-“Já passou, viu? Nem doeu!
Retorcido hierograma de carne, osso, pele
- curtido no que nunca se esqueceu-
E se derrama hoje num traçado de improviso.
Só arranco das pálpebras aquilo que necessito
E estendo meu chapéu por aquilo que é meu.

-“Menina, aonde vai? É tarde...”
Vou à espera do crepúsculo da manhã
Ouviste! Não me prenda! Eles me chamam!
Vou partejar um ocaso em Aldebaran!


Luminares que brotam
Entre meus dedos.
Um ou outro signo antigo
Mapas de êxtase e agonia.
Fórmulas de loucura e degredo...

Sigo desenhando em teu corpo
Uma tatuagem em segredo