domingo, 10 de fevereiro de 2008

Observação.

O conto abaixo nada tem a ver com o filme.Nem sequer inspiração, porque eu não vi o filme. Mas vou ver(prometo). A fotografia abaixo sim, é do filme, como forma de mea culpa por não querer modificar o título.
Abs

O Veneno da Madrugada


O Veneno da Madrugada.

Praça dos Bombeiros/ 03:33: Solitário soldado de guarda no quartel assobia conhecido funk que abre o filme “Tropa de Elite”, que têm os sugestivos quatro primeiros versos:

Morro do Dendê “é ruim” de invadir
“Nóis” com os Alemão vamo se divertir
Porque no Dendê você vê como é que é
Aqui não tem mole nem”pá” DRE
.

Pois é...

Camelódromo/ 00:37 – A ex-Dama-da-Gaiola-Dourada já está muito distante do tempo em que ficou célebre por ser a mais disputada entre as senhoritas do “baixo – meretrício” sendo responsável indireta por mais de uma dezena de divórcios e até crime passional seguido de morte. Sente um gosto de “dropes de alcaçuz” na boca, e pensa que a Morte deve ter este gosto. Daquele tempo, resta apenas o hábito de usar saias rodadas e vermelhas, na altura do joelho e sem calcinha. Esta “apurada” e pensa ser ainda jovem, a caminho da casa de seu “homem” , fugitiva e sozinha. Acocora-se, ergue as saias e gargalha sem dentes quando vê jorrar o xixi numa perfeita elipse de 180º, bem no meio da rua, que é o caminho asfaltado que leva onde outros já foram.

Bar Talyesin/ 01:59 – Você têm quatro amigos e recebe quatro cartões com desenhos e perguntas do tipo: “Quem inventou os grandes sistemas, porque inventou-os?” e alguns desenhos de cogumelos e arco- íris. Outro respondeu com a frase “O importante não é mudar o mundo, mas saber quem vai pagar a conta”. “Starway to Heaven” do Led Zeppellin, mera coincidência ou reafirmação da “Teoria dos Cem Macacos”? Alguém diz na mesa ao lado: - “Você deve ser agradecido por não saber”. O assunto segue – agora é Cinema. Já não são mais cem, reduziram para doze. Macacos, ora bolas! E você pensa numa formiga que corre mais que as outras em seu caminho traçado para o formigueiro, porque diferente das restantes, não optou por folhas - secas ou não – mas por carregar entre as antenas um pedacinho de pétala de madressilva. Ela (a formiga) se sente especial. E você, um trouxa, pois caiu na armadilha do Barman e passou uma hora discutindo quantos e quais ingredientes existem no drink da casa. Quando saiu, três drinks depois, pagou o que lhe disseram que custava sem conferir e não saberia dizer o nome de solteira de sua mãe.

TICEN – Terminal Integrado do Centro/ 02:42 -
-...E aí, o que aconteceu?
-Daí, papo vai, papo vêm, fomos para o Dark Room e começamos de malho. Malho. Malho. Malho.E ele parece ter cem mãos. Loucura. Loucura. Loucura, amiga!
-E aí?
- (pausa) Uma delas, mais rápida que o pensamento, desliza para dentro da minha calça, nem abre o “fechicler” e enche a mão na “djuninha”.
-Noooosssa, amiga! E aí?
-Aí ele grita. “Você é mulheeeeeeerrrrr!”
- Ai (expressão boquiaberta)!
- Daí eu respondi: - “Claro que sim, o que achou que eu era?” E ele respondeu:
-“O travesti mais bonito dessa noite!”
-...

Serv. Antonio Silveira/ 01:53: Pela segunda vez neste ano, é meu tempo de amar. A febre veio mais forte esta noite. Na verdade, não sei há quanto tempo estou assim. Deve ser por causa da febre. Sinto falta de algo que não sei bem o que é. Mas sei onde encontrar. A dor é um prazer quase insuportável. Eu saúdo ás estrelas frias com um urro insatisfeito. Meu chamado é provocação. Lanço para a escuridão o desafio: - “Onde esta você? Quem ousará lutar comigo?” Silêncio. Silêncio. Silêncio. Estou decepcionada. Não pode ser. Grito e agora é só raiva e frustração mesmo. Nada. Abro as narinas e sinto o cheiro forte, gélido e extasiante. Gosto de sangue na boca. Ele tem que estar aqui. Mas, por efeito do olor e da dor se anestesia me sinto um pouco tonta. Sou forte, faço literalmente das tripas ao coração um novo grito: - “E então?” Foi quando o vi! Encima do muro parado, inclinado sobre as patas dianteiras com o pescoço levemente esticado em minha direção, farejando o ar e ainda com sangue na orelha direita e algumas cicatrizes da ultima batalha. Mas ele veio, olhos já acesos pelo desejo, dentes afiados e garras em riste! Vejo que ainda há pedaços de pele embaixo das unhas curvas. Um rosnado baixo á guisa de cumprimento. Que conversa mais batida, Minha Mãe! Hunf, ainda por cima, convencido! Quem ele pensa que é para chegar assim. Eu já rejeitei outros até maiores que ele, mas esse... Isto é, talvez pelo detalhe (a ferida sangrenta) que torna o que já era bom, perfeito! Talvez outro motivo que... Será que importa? Quanto mais ele se aproxima, mais me embrulha o estômago. Esta agonia não pode persistir, sinto que posso morrer. Quero lutar! Ele urra exato o que penso e em resposta e meu corpo vibra, tenso como corda de violino. Aguardo a aproximação com uma esquiva solícita, um rosnado baixo que indica que não terá do que se arrepender! E ele se aproxima, finalmente! Têm sido assim desde tempos imemoriais para nossa raça felina, mas confesso que estava um pouco insegura. Eu mostro minhas presas com um chiado mais alto. Ele demonstra ser mais rápido e mais forte. Eu grito com cada vez mais fervor enquanto, furiosos e delirantes, celebramos nossa fome mútua. Os ecos de nosso encontro ficarão inscritos pela eternidade no manto da noite. Mas eu já sei.Ninguém precisa me contar.Não há saciedade possível (nem paz)!

Afoxés, Maracatús e outros cantos...



Todo o artista tem que ir aonde o povo esta
Milton Nacimento


Começo esse artigo com uma afirmação polêmica, porque ando achando tudo muito "politicamente correto" e pouco efetivo, ultimamente. Em nosso calendário cristão, o Carnaval, ultimo refúgio da alegria e de festejos profanos antes do período triste da Quaresma, é também um ato de resistência onde reside o sagrado. Antes de contra-argumentar, pense nisto.
Não quero dizer com isso que não reconheça o valor da crítica, que pode ser vociferada mais ou menos assim: - "Carnaval: Dias de alienação coletiva e esbórnia, em que fingimos ter conquistado uma democracia racial inexistente,invertemos valores clássicos de sociedade patriarcal e machista com a intenção clara de reforçar esses valores e, por fim, encobrirmos mazelas sociais com um faustoso luxo de latejoulas, que nunca serãos os brilhantes ostentados pela nossa burguesia nos 360 dias restantes, um pão e circo despropositado fadado a tornar-se showbusiness."É isso aí! Fui!*
Para ver as coisas sobre um outro prisma, é preciso voltar á nascente e para isso tracei um itinerário que passou longe das avenidas só para constatar o que já se sabe. O Carnaval é uma fênix que renasce nas ruas ano-após-ano, para desaguar e morrer na avenida - sem desmerecer a avenida é claro.Mas aquele carnaval que merece o epíteto de "manifestação popular", esse mora mais embaixo. Este Carnaval para mim foi uma reafirmação do valor dos clássicos e, também, de bem vindas novidades.
No quesito clássicos, vale falar sobre a sexta-feira. Todos sabem que quinta-feira (em Florianópolis) foi adiado o "Enterro da Tristeza" devido ás chuvas e na verdade nem sabíamos se teríamos ou não desfile de blocos.Mas como diria Raul Seixas "Deus não é tã mau assim" e fechou a torneira para o bloco passar. E eu fui junto, é claro!Este ano tive a grande oportunidade de sair pela primeira vez como porta- bandeira de um dos poucos blocos de rua com nítido engajamento e responsabilidade social, que tem a proposta singela de informar, divertir e distribuir camisinhas para que as pessoas se conscientizem da necessidade de se proteger no carnaval.E só no carnaval? Claro que não! o Bloco foi criado em 1998 pelo Instituto Arco-Íris,que durante todo o ano desenvolve esse mesmo trabalho em todos os segmentos da sociedade, mas especialmente entre os mais marginalizados, sem falso moralismo nem preconceito.
Vai dizer que não é melhor do que "convencer as paredes do quarto e dormir tranquilo?" Com o enredo "Mulher, Sexo Forte" escrito pela minha grande parceira Janaína Canova, este ano fez uma homenagem a garra e determinação das mulheres que fazem do nosso Carnaval - e porque não dizer de nossas vidas? - uma festa de beleza e harmonia.Sente o peso da letra:

Simones,Pagus e Anitas
Levantes contra a opressão
Joanas, Marias Bonitas
Valentes de fé e razão
Sempre, na história do mundo
vai ecoar sua voz
- Janaína Canova -


Só não escrevo mais porque meu outro amigo. T. skárnio, fez entrevista com o Coordenador do Instituto Arco- Íris,Alexandre Martins, dando maiores detalhes.
Ainda na sexta-feira fui ver o Samambaia e o Aerocirco no Drakkar. Até o rock alternativo coube nesse meu carnaval. Os meninos ficam engraçadinhos vestidos de mulher, e esta é a hora de aproveitar alguns elogios, como"- Porra, parabéns, como é que vocês conseguem vestir essas coisas desconfortáveis para c...-"ou seja, como tudo no bicho - homem, tosco, mas sincero!Tá, mas o que isso tem a ver? Elementar, meu caro Watson! "Ir para festa de rock se libertar"também é um clássico, e em Carnaval que se preza cabem todos os ritmos.Nem me venhas com essa conversa de "som elitista".Elitista é abrir o capô do carro e ouvir "funk" e "axé" na praia. Para quem não sabe o rock nasceu negro, pobre e muito do bem humorado e eu sei que tem mais gente que lembra disso. Pague para ver as novidades no cenário musical ilhéu, porque tem muita gente boa vindo por aí...
Eu disse que não ia falar de avenida, mas tenho que dizer alguma coisa do que vi no sábado pela TV, porque Escola de Samba também é um classico. As escolas vem a cada ano se superando em criatividade, ousadia e beleza e eu achei nosso desfile muito melhor do que o de grandes capitais como São Paulo. Mas o poder público tem que se ligar que aquela passarela precisa de reformas e nosso Carnaval deve ser visto com mais carinho e apreço, tanto pelo setor público quanto pelo privado, porque esforço e competência para mostrar nosso melhor esta sobrando. "Apesar de você" que nem quer saber onde ficam as comunidades que abrigam essas grandes escolas o ano inteiro, o povo vem fazendo não bonito, lindo!Mas as coisas podem melhorar (e como podem)!
Outro clássico é o Pop Gay em seu (debut), que aconteceu na segunda-feira, na avenida Hercílio Luz.Para quem, como eu, acompanha a alguns anos pode dizer com certeza que o público dobrou.Cinquenta mil pessoas com certeza. Alguns vão dizer que é resultado da insegurança que pauta os "Carnavais Não-Gays", outros vão dizer que, na verdade, o povo adora um circo repleto de animais exóticos - mais especificamente as "travas" e os "trans".Alguns, com lentes mais róseas, vão dizer que o signo do arco-íris de aliaça e diversidade, atrai por sua beleza e amor a tolerância. Eu não quero dizer que sei a resposta, mas nunca me arrependi de ir.As fantasias deram um banho de criatividade, estão mais lindas do que nunca. As "beauty's" se superando á cada ano que passa em perfeição.E os "Gogo's" parece que também não querem ficar para trás.E a galera delira: -Rebola Gogo! Os rapazes vestidos de mulher são um clássico, mas a novidade é o número de "lesbians" assumidas na platéia.É claro que não tem essa de mais ou de menos, simplesmente uma limpeza no armário geral. Proposta-provocação: que tal reservar um espaço para as meninas no palco também? Só uma crítica, em letras miudinhas, (á lá contrato com o diabo), senti falta de menos falação e mais "shows drags". Parecia um show de piadas. Eu adoro a Ivete Montilla, mas...
Mas agora queria falar das novidades.A principal foi o desfile do Afoxe Omo Olorum, primeiro bloco de afoxé do Estado de Santa Catarina.É dificil traduzir o significado desse acontecimento, mas para uma tentativa mais ou menos justa, acho melhor começar falando sobre o que é um afoxe. Mas como definir o que é um afoxe? Em princípio podemos afirmar que é uma manifestação cultural de matriz africana que aparece como um bloco de carnaval, geralmente prescendendo os demais vindo antes das escolas de samba, “purificando” a avenida contra toda negatividade, para um carnaval próspero com paz e harmonia para todos" (nas palavras de Claudio Damian, fundador do Bloco).Profundamente identificado com as religiões de matriz africana,é também, pelo canto e pela dança, um momento de louvor aos orixás e portanto, bem mais que um bloco de carnaval.A palavra afoxe pode ser traduzida da língua iorubá como algo aproximado "a fala que faz", ou seja, ao poder transformador da palavra que leva o axé.E não me peça para lhe dizer o que é isso.
Como expressão de luta por afirmação identitária, um momento único sem dúvida. Quem estava lá viu gente chorando nas arquibancadas e na avenida. Eu que não estava lá como passiva observadora, mas como participante ativa,entorpecida portanto pelo ritmo e emoção do momento, tenho muito pouco a dizer sobre como foi participar desse desfile. Mas posso dizer que o mais bonito foi ver a união de nações diversas (Kêtu, Nagô, Jeje, Almas de Angola, Batuque e outros) e de capoeiristas angoleiros e regionais em torno da afirmação do valor da cultura negra.Nesse encontro do sagrado com o profano, soou espontâneo, pouco antes da saída do bloco, "O Canto das Três Raças" de Clara Nunes.Mais que emblemático.
Voltando aos clássicos, na Terça-feira Gorda de Carnaval, fui ver o Grupo Arrasta Ilha no Centrinho da Lagoa da Conceição. Ao ritmo contagiante do maracatu foram entoadas cantigas e desfilaram os personagens do Boi-de -mamão.Maracatu também é coisa difícil de explicar, têm que ouvir mesmo. Mas como sou brasileira e não desisto nunca - já deu para ver pela minha disposição para o Carnaval, né? - fica uma definição "siteana" para os que tem preguiça de pesquisar:"O maracatu é um ritmo traditional do nordeste do Brasil. Em Recife e Olinda, no coração de Pernambuco, desenvolveu-se a mais de 400 anos da música e da tradição dos escravos proveniente na maioria do Congo da tribo de Nação Nagô (...) Desde o século 17 o maracatu é tocado mais ou menos como hoje: O gongue faz o ritmo, as caixas , tambores de guerra, formão o tapete de ritmo com os ganzas e as alfaias , os tambores de madeira, que tocão os toques differentes, des variantes do ritmo. "(http://www.maracatu-nacao-colonia.de/Seite%203,%20historia%20maracatu,%20portugues.htm). Mas o Arrasta Ilha vêm desenvolvendo trabalhos nas comunidades tendo por base este ritmo a pelo menos quatro anos aqui em Florianópolis."Quem não viu, vá ver!"
Carnaval é mosaico de um povo alegre e guerreiro, que tudo abraça e a todo o mundo encanta. Ele começa na sexta pintado nas cores do arco-íris - violeta, anil, azul, verde, amarelo, laranja e vermelho -e aos poucos com a fusão, unindo tudo,chega ao mais profundo e puro negro, transformador e fecundo.
Marca no nosso calendário o tempo de recomeçar.




*Sou assumidamente de "esquerda festiva" e portanto não falo com reacionário, seja ele de esquerda ou direita, porque já me disseram que isso pega.