sábado, 13 de dezembro de 2008

Um Conto de Halloween


Sexta - feira, 13 de agosto de 2004.
Meu querido Diário:

Dizem que se você olhar pelo olho mágico em uma sexta feira treze, exatamente á meia noite, você verá o Diabo dançando pelo olho mágico. Ouvi isso durante todo o meu primeiro grau, e geralmente quando alguém afirmava com absoluta certeza, conhecia alguém que por sua vez tinha um parente próximo que tinha desafiado esta sentença e acabou vendo o que não queria. Mais ou menos como a Procissão dos Mortos ou a Maria Sangrenta (esta ultima eu juro que nunca vi). Já O Adversário – há quem diga que não se deve pronunciar o nome dele por certa quantidade de vezes – bem, esse eu não tenho certeza. Mas essa é uma história que vivi pessoalmente. Eu esperei uma sexta feira treze até a meia noite, dei uma festa no apartamento de minha mãe e, ao final, assisti á uma das mais belas apresentações de dança da História. Ou pelo menos, eu penso que era ele. – Ora, ora minha senhora -como diria o meu tio José- como foi isso? Acho que completaria: - o Diabo, segundo dizem, tem marcas características: rabo e chifres, por exemplo. Mas eu lhe afirmo: se realmente vi o quem penso ter visto, então não tem mesmo. E digo mais: digo que o Diabo até que, ao contrário do que dizem, é bem apessoado. Um cara de presença, como diria esse mesmo tio. E que pode mudar de forma de acordo com aquilo que a gente quer que ele seja. Talvez por isso haja sobre sua aparência tanta controvérsia.
Bem, essa foi uma idéia que me veio assim meio de repente. Por pura coincidência e desafiando toda a tradição, meus pais que não são nada supersticiosos, resolveram viajar na quinta e me deixaram aos cuidados da mana. Não foi difícil convencê-la. Foi bem fácil até. Eu acho que no fundo ela também tinha vontade de testar a "lenda urbana”, mas não tinha coragem porque não é mais criança. Ela é apenas dois anos mais velha que eu e "se acha" A Adulta, assim mesmo, com “A” maiúsculo. Mas é só adolescente mesmo, ou como diz minha mãe "aborrecente", e acho que a grande diferença entre ela e eu é que ela finge ter mais certezas do que sinto necessidade de ter ou fingir que tenho.
-"Por que não os meninos?" - Você deve se perguntar. Essa ao menos foi a primeira dúvida que ela teve. Engraçado, por que será que ela não perguntou: “E você acredita mesmo no Diabo?” Bem, a resposta que eu dei foi: a vizinha ia querer contar para o pai porque ela ficou de ajudar a "olhar" a gente. Não era só isso, é claro. Sempre me pareceu que ele gostasse mais das meninas, mas vai explicar isso para minha irmã... E sendo assim, por um motivo ou por outro,“só menina” foi a Grande Regra de nosso encontro e devo dizer que não encontrou nenhuma resistência, poderíamos inclusive convidar a vizinha, que não quis vir, mas prometeu que passaria por aqui mais tarde para ver como iam os estudos.Assim,ficou informada do motivo - pelo menos em parte - da agitação e seria nossa cúmplice para o que viesse a acontecer. Ela tinha autorizado e isso era tudo. Claro que não soube das nossas "más intenções": ver o Diabo e matar aula, não necessariamente nessa ordem.
A verdade é que ela - minha irmã - convidou todas as amigas dela, umas setenta mais ou menos, e cada uma resolveu que ia levar alguma coisa.Ela pensou na sexta porque não teria que cabular aula porque passaríamos a noite aqui em casa e seria sábado.Mas eu insisti e bati o pé que aquilo era burrice. Meia a noite do dia 13 é...sábado quatorze! Assim não daria certo! Teríamos que matar aula. Uma pena (respeitável público, risadas por favor!). Mas durante á tarde da quinta feira (dia 12), uma a uma foi desmarcando, desmarcando, desmarcando... por um motivo ou por outro...e só vieram 10.Contando comigo e com minha irmã: 12. E se Ele viesse, seriam 13. -"Ótimo sinal" - pensei - "e se eu tenho 13 anos, são três vezes treze que... quanto é que dá mesmo?” Preparamos a casa para receber as amigas a tarde inteira. Improvisamos decoração como se fosse Festa de Halloween. Tinha até uns morcegos recortados em cartolina preta pendurados na cortina, umas teias de algodão com aranhas de plásticas estrategicamente posicionadas e uma abóbora com vela dentro, apoiada no porta chapéu que envergava casaco e um lenço. Colocamos um chapéu na abóbora e ficou perfeito. Nos celulares de todo mundo, tem várias fotos dessa abóbora. Papel celofane roxo envolvendo os lustres garantiu a diferença de iluminação. Achei onde a mãe escondia os castiçais de cristal e coloquei três velas pretas na mesa de centro da sala. Coloquei também uma toalha branca de linho e espalhei um pot-pourri da mamãe pela toalha. Ficou cheiroso e lindo. Manchamos com a tinta guache vermelha o espelho do banheiro para imitar sangue e respingamos pela casa toda. Vai dar um trabalhão para tirar e com certeza meus pais vão nos matar se virem, mas ficou ótimo. Improvisamos umas brincadeiras para distrair: tabuleiro do terror, pesca da maçã (para ver quem seria a primeira a casar) e, é claro, o famoso e intransferível copo, que não podia faltar.Quando estava tudo pronto, começamos a querer inventar mais coisas para a decoração, mas de repente já não dava mais tempo. As meninas começaram a chegar por volta de seis horas. Trouxeram bolo, pudim, pizza caseira, brigadeiro e pipoca.A mãe de uma delas fez uma cesta de maçãs do amor que aproveitamos para fazer boiar no leite. Eram só dez e todas decidiram que eu deveria ficar de fora, por ser a "dimenor" da turma. Obviamente que casaria mais tarde. Fiz um escândalo e tanto, ameacei de contar para a vizinha o que estava acontecendo em casa, abri o berreiro e disse que ia chorar sem parar para os vizinhos chamarem a polícia... Até que me deram uma maçã. Conquistado o objetivo, acalmei-me imediatamente. Era só o que eu queria. Então ficaram apenas nove maçãs e minha irmã teve que sair da brincadeira também. Ficou "emburrada" que só ela – cá para nós foi uma espécie de bônus. Bem, todas trouxeram alguma coisa, só a Fabi não trouxe nada, porque tinha mentido para a família, dizendo que ia estudar. A vizinha ajudou a confirmar a mentira, até porque, pensou que era verdade. Mas para compensar o seu "não trazer nada", trouxe dinheiro e comprou mais refrigerante e laranjas. Suco de laranja e Martini para a minha irmã e suas amigas, que já começavam a beber. Eu ameacei de contar para a mãe, mas não deu certo. Ela já estava fazendo a festa, como eu pedi, não estava? Deixei para lá. Mas tenho que dizer que não gosto do jeito que minha irmã fica quando bebe.
Começamos a jogar o tabuleiro, só eu e minha irmã não podíamos porque tinha sido nós mesmas a selecionar as histórias. Não seria justo com os outros. Ganhou a Deza, todas as três rodadas. Lá pelas dez horas tivemos a primeira grande revelação: a Fabi seria a primeira a casar. Era hora de abrir a "mesa do copo" para perguntar "quantas vezes?" e "com quem?” Mas o espírito que "pegamos" era um menino chato que dizia palavrões o tempo todo e não respondia nada com nada. Resolvemos então traçar um pentagrama com fita isolante, pegar uma das velas que estava acesa na casa para colocar no centro e contar histórias umas para as outras. Histórias de fantasma para não dormir até meia noite. Foi por volta desse horário que a bebida acabou. Na vez da Jack de contar histórias, outra revelação surpreendente: ela não acreditava em Deus. Nem no Diabo. Nem em espíritos. Nem em nada. Por isto não tinha histórias para contar. Segundo ela mesma - "Só na minha vocação para a liberdade"!Todos ficaram chocados. Como seria viver sem acreditar em absolutamente nada? Eu senti que naquele momento, todo mundo ficou meio que com uma sensação de frio. Era o momento de mudar o "rumo da prosa"! Jack deu de ombros. Já devia estar acostumada a esse tipo de reação.
Deitamos a garrafa e giramos, e no jogo da verdade apareceram mais coisas que nenhuma sabia da outra.A Vivi não era mais virgem. A Maria gostava de menina... também. A Sandra preferia homens mais velhos negros, mas jurou nunca ter conhecido nenhum. E o maior segredo da Lili era ter experimentado maconha. Todas começaram a falar sobre as drogas que teriam vontade de experimentar e eu fui deixada de lado por algum tempo. Estava emburrada de novo porque todas acharam muito sem graça do meu maior segredo (você sabe qual é, não vou escrever sobre isso de novo) e para mim ficou a pergunta: por que amor e sexo são sempre os assuntos que mais interessam? Eu já fiz essa pergunta para a mãe e ela diz que é uma coisa natural como qualquer outra como trabalhar ou estudar, por exemplo. Mas esta claro que não é. Ninguém pergunta "qual a matéria que você mais gosta?" com o mesmo interesse que "você tem namorado?" Vai saber!
Jack podia não acreditar em Deus, mas pelo visto acreditava no poder da música. Trouxe um porta CD's cheio e em pouco tempo estávamos todas dançando em torno da estrelinha. Nesse momento esquecemos o que tinha nos feito reunir ali. Esquecemos o mundo e o Diabo. Foi maravilhoso! Na roda, uma a uma ia para o centro e fazia um passo, que todas imitavam a seguir. Quando chegou minha vez, foi mixada uma música flamenca, então comecei a balançar os ombros e a erguer as saias como uma dançarina que vi certa vez. Ninguém quis imitar, todas bateram palmas. Eu me senti a mais feliz nesse momento. Feliz, feliz e verdadeira, e única e...eu mesma como nunca! Certa vez, fiz uma lista de momentos em que poderia ter morrido. Eu sei que é meio tétrico, mas escolhi os momentos mais felizes da minha vida, que poderiam ter ficado congelados para sempre se minha existência tivesse findado ali. Eu queria fazer uma lista de dez, mas só consegui ir até três. Esse seria o quarto.
Mas voltando ao assunto...
Eu tinha esquecido o Diabo. Mas ele não esqueceu de nós.
Meia noite e meia bateu a campainha e minha irmã correu para atender.
Ninguém.
Bateu de novo e dessa vez foi a Jack.
Nada.
Na terceira eu consegui ser mais rápida, e me abri meus olhos para o Olho Mágico. Ele estava lá. Mas quando me perguntaram o que era eu disse:
-"Um moço"!
Na verdade, eu estava meio decepcionada. Não tinha rabo, chifres nem nada de especial. Abri a porta para ver se o rapaz precisava de alguma coisa.
Ninguém.
Soprou um vento frio e só. Todas voltaram a dançar.
E eu, por curiosidade, fui ver se ele ainda estava ali. Estava, e dançava bem o Diabo do rapaz. Ou rapaz Diabo. Dançava como alguém que estivesse apaixonado e quisesse ser notado por alguém muito especial. E também, como um artista de verdade, com técnica e precisão conquistados com muito ensaio e esforço, apenas para que parecesse espontâneo e natural. Nenhum movimento era forçado. Tudo era simples, de uma naturalidade assombrosa porque se sabia que, se você tentasse fazer o mesmo, teria a espinha ou o pescoço quebrado.
Daí aconteceu uma coisa... Eu não sei dizer bem. Não sei se foi à luz no olho mágico, mas parecia que o movimento de mãos que ele fazia criava imagens, paisagens inteiras de fogo e chama, animais de sombra, água e ouro, flores que brilhavam como infinitas jóias. As paisagens pareciam trocar um pouco o "lugar original das coisas", mas tinha sua beleza mesmo assim. A beleza das coisas fascinantes e que matam. Esse pensamento me deu um arrepio, mas eu não conseguia parar de admirar. Eram rios de fogo, mares de chama, céus que se derramavam como lava... E quando a cor laranja avermelhada parecia excessiva, então tudo crepitava em novas cores - verde, amarelo, púrpura, rosa, em vários subtons. Parecia que importante e constante mesmo era a textura, oscilante e fugidia como a natureza da chama ou ainda, das serpentes, e quanto ás cores, eu podia escolher com minha própria imaginação. Voltei a prestar atenção Nele. Sua dança parecia feita de pulsares, quando inflava o peito, contraia a barriga como se tivesse levado um soco, e quando estendia os braços parecia criar novas miragens. Eu o via com a pele muito clara, todo de preto, olhos muito verdes e cabelo pela cintura. Os cabelos também eram aproveitados para a dança assim como os ombros, os músculos dos braços, os quadris, o sexo - Sim, mesmo este, quando ele imobilizava o corpo, pulsava no ritmo o sexo como que para destaque!- e as expressões faciais. Aquele corpo parecia só saber dançar se fosse por inteiro. E eu me sentia estranha, como se meu próprio corpo tivesse se transformado em um olho aberto, fixado naquele outro Olho. Mágico. Sem poder ou conseguir piscar. De certa forma, parecia que eu estava sendo... Puxada. Para baixo. Para dentro. Para sempre.
Foi minha irmã que me despertou.
-“O que você está vendo?”
Eu respondi com muito custo: "um homem dançando!"
Foi aí que se instalou grande confusão. Todas queriam ver ao mesmo tempo, e se empurravam umas as outras na direção da porta. Algumas se esforçavam um pouco mais de tempo, algumas o viam quase que imediatamente. Só que ninguém concordava com nada.
Por ordem, todas as faces do Diabo que foram vistas na noite que passou.
Um árabe dançando com uma cimitarra.Dançava principalmente com os ombros e tinha jóias incrustadas nas unhas e lábios negros ou pintados de preto, tanto faz. O fato é que a cimitarra faiscava no chão tanto quanto no ar, quando ele girava em torno de si mesmo. Um homem negro vestido de vermelho e preto, fumando um charuto e rindo desbragadamente. Dançava balançado ombros e quadris e fazia gestos com a palma aberta. Um cigano todo vestido de vermelho e com dente de ouro ao redor de uma fogueira caprichava nas castanholas e no sapateado flamenco, mas o ponto forte de sua dança era o olhar, que marcava o ritmo mais do que as mãos. Vivi discordou totalmente. Viu um velho de mais ou menos quarenta e cinco anos e cara de mafioso, com uma capa preta e voz gutural, (esse cantava o que estava dançando) e que parecia dançar um misto de tango e teatro – coisa estranha, mas foi assim que ela descreveu - com uma imagem evanescente dela mesma. Outra insistiu que além de se vestir de vermelho, tinha bombachas pretas, botas, era careca, usava cavanhaque e falava alguma coisa com sotaque russo forte e que não era possível compreender. Dançava algo espalhafatosamente, com saltos malabarísticos. Quem viu este foi a Jack, e todo mundo olhou torto para ela. A Fabi, por outro lado, viu um menino de mais ou menos treze anos (a minha idade) com uma pistola na cinta e uma aura de maldade, caprichando no break. A Deza discordou, viu racismo nessa afirmação, e começou uma discussão que acabaria em briga logo a seguir. Mas ainda não, porque cada uma queria ouvir o que a outra tinha a dizer sobre o que conseguiu espiar. Por pouco tempo. E eu, empurrada novamente para um canto, decidi escrever tudo. Foi útil, com minhas anotações consegui refazer aquela noite, para poder contar essa história. Milene viu um homem azulado, com longos cabelos, cinco braços, grandes olhos, maquilagem e piercing no nariz e parecia dançar como numa apresentação de Yôga que vira no Shopping há alguns dias atrás. Traçava um círculo ao seu redor e tinha um tambor na mão. A Katiana viu um homem que tinha aspecto japonês, meio gordinho, com uma máscara que parecia um tigre com grandes olhos e presas afiadas que saiam do maxilar e iam quase até a altura dos olhos. Este dançava fazendo movimentos de avanço e recuo, com as garras que tinha pintada nas mãos ao som de um tambor que imitava as batidas do seu próprio coração. Sua pele tinha tantas tatuagens que já não dava para identificar o que eram, até porque se mexiam como serpentes multicolores toda a vez que ela tentava firmar a vista. Mas todas sabem que Kati é louca por videogames e mangás. Já minha irmã viu algo menos criativo, um rapaz indígena, de pele morena, longos e finos cabelos negros que refletiam como a prata, brincos de presas e a pele de uma onça parda – talvez um puma - nas costas, dançando sozinho ao lado da fogueira. Sua dança imitava um tigre caçando e ele tinha o corpo encharcado de sangue. E a música era praticamente de tambores e chocalhos. Aquilo lhe trouxe profunda tristeza e ela chegou a dizer que aquela solidão tinha algo de antinatural, e não quis mais ver nada nem falar (o que, se não tivesse vindo de quem veio, deveria ser considerado um milagre). A Deza, por sua vez, viu um rapaz loiro, de cabelos cacheados, túnica branca como a dos gregos, olhos azuis e asas em chamas, que dançava uma música que ela não conseguiu definir se era techno ou órgão de igreja desafinado – coisas estas, por sinal, bem diferentes entre si. Todos discordaram. Acharam que ela estava de implicância com a Fabi, e a discussão começou a ficar violenta, com todas se xingando de nomes horríveis que eu nem sabia que elas conheciam. Alguns eu não sabia o que era e nem quis perguntar o que eram.
Só a Sandrinha não viu nada.
Ela olhava e insistia - "Não tem ninguém aqui”!
O que já era um berreiro pra ver quem tinha razão, qual o Diabo era mais verdadeiro, virou uma algaravia de insanidades.
Foi nesse momento que, enquanto elas discutiam com uma raiva anormal, vi que o caminho estava livre para mim e voltei ao Olho Mágico. E lá estava o mesmo moreno sorrindo maliciosamente. Fez uma reverência. Deu uma piscadinha, virou as costas e desapareceu. Assim mesmo, como tinha surgido, sem “PUFFF!” nem nuvens de enxofre, nada assim como se pensa que é. Decepcionante!
Minha irmã berrava, a saliva escorria pelos cantos da boca em espuma, com veias saltando do pescoço e olhos esbugalhados. Juro!Parecia meio louca:
-"E aí? O que você está vendo? Fala para a Sandra, que duvida de nós!!! FALAFALAFALAFALA"!
-"Mana, ela tem razão. Ele se foi!" Eu achei que com esta leve mentira em favor de Sandra, que ia apanhar das outras amigas se continuasse insistindo naquela história, o “clima” ia melhorar um pouco. Grande erro!Ninguém acreditou. Empurraram-me com tal força que eu caí no chão, bati com a cabeça na parede que fez "bonc", enquanto elas se chutavam, se arranhavam e puxavam os cabelos para poder ver no olho mágico se o que eu dizia era verdade. Jack distribuiu socos. Sandra revidava aos chutes. Tudo aquilo parecia que ia acabar muito mal. E ninguém veio me ajudar a levantar ou perguntar como eu estava, então aos poucos fui me levantando sozinha mesmo, dando-me conta de que isso seria sempre assim, dali para diante.
Foi quando a vizinha chamou.
-"Meninas, o que esta acontecendo aí”?
Foi como um balde de água fria.
Minha irmã abriu a porta, e ficou difícil explicar porque todo mundo tinha resolvido brigar aos socos e pontapés. Não tinha como disfarçar os arranhões na cara de uma, o lábio inchado da outra, os chumaços de cabelo nas mãos da Vivi e assim por diante.
-"O que foi isso"?
Eu quase ia falando a verdade, mas minha irmã me deu um beliscão tão forte que pressenti que melhor mesmo era ficar quieta.
-"Nada! Nós resolvemos brincar de Luta Livre, como na TV, sabe”?

Juro que não sei como a vizinha engoliu esta. Acho que foi porque ela falou com tanta calma, tanta convicção, que até minha mãe se enganaria.Mas mesmo assim, a desculpa era muito furada. Mas depois também entendi que a verdade naquele momento seria inacreditável. Só por um momento a vizinha desconfiou. Naturalmente, todas estavam espiando para o corredor. A Jack mesmo chegou a sair, depois balançou a cabeça em sinal negativo. A vizinha perguntou o que significava aquilo. Nada. Mais mentiras. Todas unidas agora no firme e leal objetivo de engambelar a vizinha. Resolvi deixá-las conversando e peguei meu caderno, onde fui riscando números de 1 á 12, me sentindo um pouco estranha, como quem assume uma personalidade que não é sua.
Quando finalmente a vizinha foi embora e se fechou a porta, minha irmã perguntou finalmente, com cara de meio boba, o que iríamos fazer. Mas eu já tinha senhas e um relógio. Distribuir foi um rápido sorteio. Problema resolvido.
Todas viram no Olho Mágico, só que agora cada uma na sua vez. Eu fui a ultima a espiar, por vontade própria, pois troquei meu número que era o cinco com a Deza.
Ele já tinha mesmo ido embora.
Todas resolveram re-contar sua experiência, como o Diabo lhes parecia, o que tinham visto e como tinham se sentido diante dele. Quem era ele ou o que? Eu não quis ficar, muito tempo, queria guardar aquela experiência e os sentimentos que ela me trouxe como algo assim, que fosse muito íntimo e que você não quisesse mesmo expor. Até onde ouvi da conversa, alguns pontos em comum iam surgindo a medida que a conversa fluía, cada vez mais suave como o refluir de uma maré cheia. Mas era demais para mim, eu queria dormir e mesmo não teria mais nada a dizer que já não houvesse sido dito. E por outro lado...
No fundo tive certa raiva delas, porque se mantinha em mim a impressão que, com aquela briga haviam expulsado alguém muito importante e que valia à pena conhecer. Pior, alguém que se sentia depreciado e sozinho, e que queria ser percebido sob um outro prisma. Devia estar agora triste, muito triste e decepcionado também, talvez mais do que quando percebi que não havia rabo, chifre nem show pirotécnico de despedida. Afinal, aquele olhar parecia compreender tudo que ia na mente humana, de Belo e também de Mesquinho. Por que elas não se contentaram em simplesmente admirar e perceber o encanto daquele momento? Pensei comigo, mas com uma voz que não era minha – “Talvez nenhuma delas tenha visto realmente nada” – e isso me assustou um pouco. Lembrei do filme “As Bruxas de Salem”. Basta uma dizer que viu, e todas vêem e se tornam capazes de afirmar coisas impensáveis, que dizem mais a respeito de si mesmas do que Dele em si. Fui dormir em silêncio e com certo medo, como alguém que tivesse descoberto uma coisa que no fundo não queria ver. Acabei tendo sonhos estranhos com um Olho Mágico, que no final das contas era um caleidoscópio, onde uma sombra dançava ao centro. Eu mesma, vestida de preto e com uma maquilagem pesada demais para minha idade, com as unhas e os lábios pintados de preto e uma expressão que em mim não caía muito bem. Nas mãos eu trazia estrelas que explodiam em chamas.