sábado, 26 de dezembro de 2009

Decembrinas


Oração á Donzela do Sol

Desperte!

Todos te esperam com carinho e já acenderam as fogueiras.
Teus leões tem lugar certo em nossa sala de estar, e podem descansar de viagem.
Que o deslizar de teus pés faça brotas novas fagulhas e faíscas, incinerando mágoas e desperdícios.

Celebremos!

A mesa esta posta, as canções já transbordam e lançam-se aos espaços,
ás alturas, e o vinho nos traz a certeza de que só este momento existe.

Dancemos!

Veja teu novo estandarte! As ruas já suspiram saudosas pelos meus pés descalços, e os punhais sentem-se asfixiar na bainha. Quero meu par para uma dança de vida e morte!
Chegará o momento de, ao redor da fogueira, compartilhamos histórias e estórias
quase sempre verdadeiras.
Chegará o momento de lamentarmos a ausência dos que já partiram, e sentirmos mais
viva sua presença.
Nossos pedidos serão agitados pela brisa e lavados pela chuva
Nossos desgostos incinerados...
Ouço o murmúrio funesto dos que querem fazer calar
Este antigo hábito popular mas nós,
Nós não!
Pois sabemos que na festa e na alegria
reside a mais profunda reflexão!
(Que o digam os filósofos de todos os tempos!)


Dividiremos agora o pão, as frutas, e o vinho se ergue

para um brinde: "...há todo novo sonho que me aquece,

há cada amigo, teu amparo e brilho

e também ao inimigo, pois que não me esquece..."
À Palavra.
Ainda me faço muito íntima, talvez sem o devido respeito
Ao que se fez para sempre perene, com a delicadeza deixar levar
pelo vento
É a palavra, companheira antiga das nossas memórias.
De algumas fujo e estremeço - de vergonha sim, mas nunca de receio.
Reencontro outras à quem me atiro aos braços
E abraços, pois que me salvam...
De todas tive mais do que acho que mereço.


Paralelepípedos.

As pedras gritam para a menina que um dia
Saltitava pelas calçadas.
"-O que te fez assim tão pesada?"
"-Impressão minha... ou és mais obscura?"
"-O que te pesam ás pálpebras, os trabalhos ou as culpas?"
Respondo "-Nem um, nem outro. São estes saltos-agulhas."
Jogando amarelinha, entre tantas amarguras
Procuro por entre as brechas, tateio ainda ás escuras
Por onde se perderam os meus sonhos?



O Corvo da Tempestade.

Trouxe nos bolsos tempestades, enchentes e chuva de granizo
Navego a bruma em silêncio, de torpor e de alívio
Sinto-me colhida de muito leve
em um rodamoinho.
Rumo á queda livre, o ultimo grito
Pela flor que se enraiza
Contra o abismo!








sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A rosa verde.


Era uma vez um menino chamado Junior que cuidava da mãe doente no hospital. Enquanto ela se mantinha hospitalizada ele cuidava da casa e das rosas de sua mãe.
Haviam rosas de três cores: a rosa vermelha, a rosa cor-de-rosa e a rosa verde. Ele cuidou e cuidou. Há seu tempo todas brotaram em novas mudas e em pouco tempo nasciam ao seu lado botõezinhos da mesma cor. A rosa vermelha contente e viçosa com o botãzinho vermelho ao seu lado, a rosa cor-de-rosa um pouco mais pálida, mas alegre e meiga como de costume com seu botãozinho cor-de-rosinha.
Só a rosa verde não brotou, nem teve botõezinhos para exibir na primavera.Esta permanecia muda e sem botão.
Assim, no dia em que transplantou as rosas para levar para a mamãe levou todas menos a verde e ainda disse em alto em bom som:
-Você não vou levar. É feia, sem graça e ainda por cima estéril.
E assim ela levou todas as rosas, menos a verde que ficou no canteiro sozinha, chorando.
-Não tive culpa. Fiz tudo o que foi possível, mas não vieram as mudas e agora jamais reverei minha mãezinha.
Mas o que Juninho não sabia era que, de todas as rosas, a predileta de sua mãe era a verde por ser única em sua cor - é muito difícil encontrar rosas verdes - e caçula na família de rosas.
Assim, quando Juninho entregou os vazinhos logo perguntou: "- E a verde?" E ele respondeu:"-Deixei lá sozinha no canteiro por ser feia,sem graça e estéril."
"- Traga-me a rosinha em um vasinho com terra.com amor tudo renasce."
E assim, Juninho fez a vontade da mãe e trouxe a rosa verde para o hospital.Em pouco tempo vieram as mudas, e á seguir nasceu o primeiro botão.
Mas diferente das outras, a Rosa Verde não teve um botãozinho verdinho.
O botão diferente de todos os outros e dela mesma era um botão amarelo...
Ficava assim tão bonito aquele contraste da Rosa Verde e seu Botão amarelo que logo todos a consideraram a mais bela e a que chamava mais atenção no jardim.
Com esse episódio, Juninho aprendeu uma grande lição: a de que com amor tudo renasce.
As rosas vermelhas e cor-de-rosas ficaram contentes em rever a amiga, e também em saber que ela finalmente tivera um botãozinho.
E a mãe de Juninho logo se recuperou, e transplantou as rosas novamente para seu jardim.
E todos ficaram felizes.
Fim!

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Minha prima Ana Amélia, de apenas 9 anos de idade, me contou esta historinha na ocasião em que estive em Pelotas, ainda em outubro. A força das imagens e a poderosa narrativa me fizeram desejar compartilha-la com vocês.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Minha resposta


Olá, Ginga!

Parabéns! Você venceu o concurso "Eu Queria Ser" http://olivreiro.com.br/blog/2009-12-09-se-pudesse-escolher-quem-voce-gostaria-de-ser.

Obrigado por participar. Para que seja realizado o envio da obra, nós precisamos do seu endereço.

Assim que responder esta mensagem nos informando estes dados, nós lhe enviaremos o prêmio prometido.

Atenciosamente,

--
Equipe O Livreiro
www.olivreiro.com.br

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Se pudesse escolher, só por um instante então seria arrebatada por um tufão e viajaria para além do arco-íris. Descobriria algum caminho que me levasse á cidade das Esmeraldas e dançaria com a Bruxa do Leste, porque só são feias as Bruxas Más.E como já disse o poeta, Beleza é fundamental (só discordo dele no sentido de que a Beleza não é apenas um atributo que se deve buscar na mulher ou no homem, mas em tudo, mesmo naquilo que á primeira vista nos parecer feio (a)).
Mas talvez, divergindo um pouco da historia original, levasse uma lembrancinha para a Bruxa do Oeste, que como toda a Bruxa Má é na verdade quem desencadeia a ação, forçando imprevistos e apresentando ao protagonista os necessários desafios e até questionamentos importantes. Dizem que as bruxas gostam de doces…
Depois desta parada, seguiria adiante.
E numa aventura em technicolor, conquistaria junto á cada um dos meus amigos uma nova razão para viver ou qualquer coisa que cada um sinta falta sem nunca antes ter possuído. Como o Coração do Homem de Lata, o Cérebro do Espantalho, a Coragem do Leão Medroso são os nossos anseios. Aliás, acho que esse seria – e é na vida real também – o grande ápice das nossas aventuras na vida.O prazer de unir-se em torno de objetivos comuns,viver a aventura e seus perigos e, ao final, descobrir que sempre esteve dentro de nós a chave para a conquista de nossos sonhos.
E então, porque se afastar assim, para tão longe de casa e correr os riscos da jornada?
Para desfrutar a beleza do caminho é que se justifica a viagem diriam uns. Para dar valor, outros diriam. Para trazer mais uma vez á tona o fato de que a total autonomia é uma ilusão, que somos todos interdependentes e se a diferença é a beleza do ser humano, a união traz complementaridade, harmonia e paz ao mundo. Conquistar amigos porque são a família que escolhemos e a grande riqueza de nossas existências. E eu penso que todas as alternativas acima estão corretas.
O que me traz dúvida é se esse desejo realmente faz algum sentido. Eu já fui Dorothy e acho que todo mundo um dia já foi, pelo menos em parte. Quem nunca sentiu anseio por algo mais? Quem nunca teve na vida um tufão de revirar a casa, e se sentiu perdido? Quem nunca sentiu a emoção de ver um amigo se realizar em suas conquistas e, por outro lado, quem não se emocionou com a felicidade que conseguiu espraiar á partir das próprias conquistas? E á cada ano fazemos novos planos, encetamos novas aventuras, criamos e alimentamos novos anseios renovando votos para que no ano que vêm tudo se repita.
De qualquer modo, sigo correndo atrás do meu arco-íris, no meu Eterno Caminho de Volta para Casa.
Aqui, lá e mais além.
Desejo á todos Paz & Bem.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Por onde é lá?

















Não sei por que estou aqui
vim do mundo das mulheres que pintam o
rosto, os cabelos e a boca e saem para a rua
sem pedir
Eu ainda as vejo por calçadas e avenidas
Quando por fim desaparecem, por entre cruzamentos,
sombras e becos. Por isso mesmo ainda mantenho a
certeza.
De que ainda existe.
De não ser daqui.

Quando nasci Elas ainda caminhavam
entre as gentes.
E o êxtase se colhia nas fontes
com as mãos em concha e os olhos fechados.
Eu era criança ainda, mas já as acompanhava,
distribuindo pétalas em água perfumada
Em datas precisas, em cortejos vitalícios.
Mas esses dias se foram.

Nunca soube o que tinham em mente
Com seus sorrisos ferozes e intratáveis modos
Por vezes flutuavam pelos campos de trigo
E desabrochavam em rebeldias ou carícias.
Neste Mundo Antigo - que ainda ontem se perdeu -
existiam as palavras "guerra","coragem","paixão"
mas não se conseguiria traduzir "contrato"
Não há acordo possível para corações que vibram em uníssono.
Eu ainda as vejo...
Passeando com seus seios nus e corpos de serpentes.
Mas suas vozes desapareceram, tento lembrar o que diziam
Algo que me dê uma pista de volta para casa...

Cresci entre matilhas e boninas
Em cada esquina em que choviam
Lágrimas quentes e estrelas douradas.
Eu as acompanhava sem saber para onde
Nunca soubera o que tinham em mente
E não poderei falar em Seus Nomes...
Mal consigo entender o que me dizem
então por que me trouxeram aqui?

E do lado de lá
Resiste o eco das canções que esqueci
O sonho que antecipa o dia que esta por vir
E essa sensação de viver em exílio...

Como vim parar...? Não sei tampouco
Me deram um Nome e uma História
Carregaram-me com suas Penas e Esperanças
Disseram me o meu lugar e meu dever
Então permaneci...
Perdendo-me na chuva, vagando pelas esquinas
Em busca de certa poesia ou verso
Nas trincheiras da agitação,
nas rodas da incerteza e
num Lar de Refugiados.
Sempre me perguntam pelo que trago...

E minha mochila está cheia
Das canções dos mares, repletos de sereias
E do mel dos campos férteis e suas açucenas
Das vastas amplidões em que cavalgam condores
Trouxe os ecos de um passado distante
Naquele tempo em que ser Guerreiro era um privilégio
Quando Honra era mais que princípio, era a própria Lei.
Daquele tempo são as modas, as receitas e as cores
que eu mesma desenhei.

E trouxe também outras coisas
Dos amores idos uma lembrança cara
Adubo certo para uma pequena alegria.
Trouxe um Adeus, um Nome Esquecido
Um sorriso, um alívio e um Bom-Dia.
Mas a mensagem se cala em minhas mãos vazias...

E portanto, não sei ainda: por que estou aqui?

domingo, 29 de novembro de 2009

Novembrinas:


Longe Demais

Um dia foi preciso
Pular o abismo
Para seguir na jornada

Colhi todas as pistas
E plantei alguns sorrisos
Pela estrada em disparada

Mas foi engano e ilusão! Não sei onde a arribação de tudo o que deixei para trás
E o meu tesouro perdido - mais antes não houvesse partido - tão perto, longe demais...
07/10/2009



O que é, o que é?

Um mistério
Um selo secreto
Em cofre trancado
Na sala lacrada
Vivo em suspenso
Entre o Ser e o Nada...

Resposta:ehlo on ohlepse

Contradições

Se meus olhos são espelho
Do que sinto, do que vejo
Em minha alma mora o inverso

Meu corpo saciado - faminta
A mente afiada - tão cega
Coração resplandece - e seca!

E no Centro desta Chama mora um desafio
[há quem ninguém resiste]
Em que já não somos e mais nada existe!
14/09/2009.

Mnemósines¹

Resplendor de alvorada
Quando em mim anoitece
Cativa de Mnemósines
Me encanta...embriaga...e esquece!

1 - Mnemosine ou Mnemósine era uma das Titânides, filhas de Urano e Gaia e a deusa da Memória.[1] Ela teve de Zeus as Noves Musas.
Era aquela que preserva do esquecimento. Seria a divindade da enumeração vivificadora frente aos perigos da infinitude,
frente aos perigos do esquecimento que na cosmogonia grega aparece como um rio, o Lethe, um rio a cruzar
a morada dos mortos (o de "letal" esquecimento), o Tártaro, e de onde "as almas bebiam sua água quando estavam
prestes a reencarnarem-se, e por isso esqueciam sua existência anterior".


http://pt.wikipedia.org/wiki/Mnemosine





quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Levados.


Nos deixamos levar pela mão

pelas ruas e na escuridão

á escola, à igreja, ao hospital

quando crianças isso é normal.


Nos deixamos guiar pelas estradas

aéreas e autovias,marítimas
e até pelas trilhas turísticas

e atalhos que nos levarão ao topo

fecha-se os olhos e segue-se em frente


Ao longo de datas históricas, feriados nacionais,
compromissos de agenda, filas e elevadores.
Nos arrastamos pelos anos correntes,
Sem questionar prosseguimos num mantra
Muito obrigado,obrigado, obrigado...
Igualmente.



As vezes é fácil a entrega de um primeiro encontro,

ás vezes você é o inocente útil do Primeiro Ato

E se deixa influenciar pela opinião da Ciência, do Pastor

ou do vizinho. Ou do escriba que se vendeu pelo preço mais barato

E num ato de desobediência ao instinto...

Direto para o abismo! Só porque

Parece tão mais fácil.


Num Bonde Chamado Desejo

o calabouço é também um destino.

Mas não o ultimo, e será por que...



Só não há um Manual

de como-fazer, num rito

de se entregar ao imprevisto,

ceder ao apelo num ápice de êxtase & delírio

e no momento ultimo, num ato falho crítico

ceder, livrar e deixar cair - descobrir-flutuar-fluir ...
saber estar e querer para o que der e vier
e deixar acontecer.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Peregrinações.



Pessoas mesmo são aqueles que são loucos, os que estão loucos para viver,para falar, loucos para serem salvos,que querem tudo agora ao mesmo tempo, que nunca bocejam nem falam coisas comuns mas queimam, queimam como fogos de artifício explodindo como constelações (...)Eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão (Jack Kerouac - "On the Road")

Desperto flutuando numa bolha d’água acridoce como lágrima. Estou caindo. A bolha parece manter a estabilidade e a velocidade na queda enquanto flutuo livre da gravidade, mas prisioneira de uma película fina, muito fina, mas resistente. Parece algo como plástico, mas mais orgânico, como uma membrana. Sinto para breve o fim da queda e em agustiante asfixia tento submergir. Tarde demais sinto o impacto. A membrana se rompe e eu aperto os olhos para resistir a jato de água que invade minha pequena prisão. Percebo que continuo em meio aquoso, que é água ainda e mais... Tenho agora certeza que é o mar. Já abri os olhos para tentar localizar um local, um sentido mais acima apesar da salinidade fria, mas tudo é brancura de espuma – será este o gosto da morte? Pensamento-ação. Para cima, para cima, para cima. Correntes me jogam para lá e para cá como um pedaço de isopor, mas eu bato os pés e os braços com força. Mais uma curva. Sinto o meu corpo desistir, no limite da resistência, quando finalmente consigo submergir. Respiro de uma golfada só, com a boca e o nariz. E o que inalo não é apenas ar, mas ainda água salgada e areia junto com a sensação de levar uma facada na altura dos pulmões. Agora ouço o barulho. Raios, trovões e o literal rugir do vento. Um longínquo “crack”. “Crack?!!!” Tento desviar a cabeça no sentido do “crack”e mais uma vez falta tempo. Um pedaço de madeira - eu acho que é madeira, mas pode ser um pedaço de coisa pontiaguda qualquer que veio voando e explodiu contra minha nuca. Escuridão, escuridão vermelha e estrelas. Por pouco tempo, sinto um filete de calor viscoso escorrer por trás da minha orelha em direção ao pescoço. Esse breve calor será lavado por um jato ainda mais frio que empurra minhas costas, estou sendo projetada para frente em velocidade alarmante, quase impossível e acho que vou vomitar. É a última sensação antes de o frio e a escuridão me invadirem completamente.
Estou de costas e contemplo a cena de mãos dadas com David. Porque neste sonho, me chamo Ariana e ele David, e eu contemplo um quadro em que, num primeiro plano, há o naufrágio de um navio, partido ao meio em alguma noite de tempestade. E, ao fundo vê-se o rosto de uma moça cujos cabelos se confundem com as nuvens negro- acinzentadas. No rosto pálido da moça – que desconheço – uma lágrima escorre. Esta lágrima transbordará o mar e por fim, submergirá o navio. Me dou conta que sei disso porque estava lá. Encerrada na gota e submergindo na onda que cravará o golpe fatal no navio. Saio com David do que parece ser um museu. Aperto sua mão para que detenha o passo e vejo com nitidez. São vários expositores e pedestais de gesso, com discos do “Menudo”, coleções de cartões de “Chocolates Surpresa”, pilhas e pilhas de videocassetes com alguns filmes que de relance reconheço – bem encima “Lady Hawck”. Meninas-flor e cavalinhos pequenos pôneis em vários cantos. Fitas cassetes que de tão usadas já não consigo reconhecer, dentro de uma caixa de plástico com a propaganda do filme “De volta para o futuro” estampada (como era mesmo o nome daquele ator?), um pedestal rosa com um par de melissinhas nas quais, por sua vez, está apoiadas um reloginho de plástico, um estojinho de maquilagem com um batom que reconheço (Boka Loka) e, ao fundo, vários modelos de cera vestem roupas estranhas com grandes ombreiras. Os manequins masculinos vestem preto e usam cabelo arrepiado. Os femininos são mais variados, calças leggings, saias balonês ou de coro sintético e grandes cabelões com permanente ou frajinha. Ao fundo, uma TV quatorze polegadas muda projeta em sua tela um desenho animado saudoso e querido: “Caverna do Dragão”. Ao fundo, um “Tears for Fears” martela: “Shout...shout...” David me puxa e pergunta: “Vamos”? Eu gostaria de ficar um pouco mais. Ele diz que não podemos. Parece que já passeamos por tempo demais pelo Museu Anos 80. David me avisa que temos pouco tempo para chegarmos á “Temporada de Colheita”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Crônica das Enchentes.(ou o dia em que a maré crescer dentro de mim)








Faz três semanas que só chove na ilha. Chove, chove,chove... Nos primeiros dias era aquela sensação de apreensão tensa. “Será que não para mais?” Pergunta o marido. “Não sei.” Silêncio. Silêncio. Silêncio. Em cada olhar e em muitos gestos, a mesma pergunta. O Sr.D’Oeste (meu apelido secreto para ele) na padaria homônima. O vizinho, que pensa em comprar uma antiga sete léguas. Na sala dos professores alguém comenta: “Meu Deus, não para mais!” Olho para o professor de Biologia e seu olhar parece me devolver a mesma pergunta: “quando”? E alguém que falou com outro alguém da Epagri que por sua vez, disse alguma coisa parecida com “não sei ainda”. Mas era apenas a primeira semana de chuva incessante dentre os muitos meses em que choveu todos os dias. Alguém lembra que isso já vinha de bem antes. Agosto. Já estamos no final de outubro e só agora parece ser calamidade.

No fundo eu sei que não interessa o que dizem nossos satélites, o bom senso e nem a Igreja, sempre foi uma função primordial das mulheres responderem pelos fenômenos da natureza. Mas, como mulher eu só me apoio no meu corpo (que é também minha alma) e no Morro do Cambirela.

O que diz meu corpo?

Que há muito tempo ele também não confia mais na natureza para viver. A lua é minguante. A maré, vazante. E dançando/orando num sábado de sol, sem motivo, me veio a palavra: funesto. Mas o sol fornecia seu espetáculo em graças e sorrisos. “Só um pressentimento” – pensei. E domingo já eram o vento e as lágrimas. Chovia dentro e fora de mim. As lágrimas secaram. A chuva não parou mais.

E o morro, o que diz?

Que vai chover de novo.

Ele me confidencia isso todos os dias isso, por volta de sete da manhã. Quando vai fazer sol, sorri. Quando o céu chora, ele se cobre para preservar a dignidade do céu. E assim, eu, o morro e minhas metáforas, entramos na segunda semana.

O céu tão cinza faz com que aos poucos todos entrem num estado melancólico e de profunda desistência. Desistimos de secar os pisos porque é como enxugar gelo. Porque lavar se não há como estender? Para que brigar, se não há como entender? Desistimos agora dos nossos inimigos – sempre tão fiéis. E também desistimos de marcar encontros com os amigos, porque a chuva desaconselha sair. Na verdade não são apenas as goteiras, mas até as relações que começam a fazer água. Nesse caso, a família começa a ser insuficiente. Não foi sempre? Em algum momento, desistimos da cive e da pólis. Desistimos de procurar por noticias, fossem do clima ou quaisquer outras, e passamos a alugar filmes. Queríamos congelar na memória a alegria pela vitória de Barack Obama (para que ver de mais perto, se era tão boa à perspectiva assim, distante?). Sim, nós podemos mesmo que enregelados e encharcados pela sensação de uma inevitável fatalidade. A Semana de Consciência Negra assistiu meus últimos esforços de civilidade. Aos poucos, o frio de molhar os pés na ida para o trabalho, me fez escorregar para um torpor semi-consciente e sem querer. Meus alunos compareciam de modo esparso, num estranho jogo de equilíbrio de faltas e trabalhos entregues por terceiros. E os deslizamentos inevitáveis tornavam as faltas mais que justificadas. É vã toda a filosofia de três tempos no segundo grau, assim como a educação neste país faz água há muito tempo, e todos sabem disso. Mas ali,estranhamente a escola parecia mais com uma tábua de salvação boiando sob o naufrágio, com todos reunidos para não afundar juntos. Salas ocupadas, o telefone da escola sempre solicitado, os professores amigos se solidarizando e mobilizando por esta ou aquela família. Propiciamos alegria, amparo e ensino ainda que em condições precárias e de modo esporádico.Até que, sem condições submergimos todos. A tábua não agüentou, a escola fechou após um mês de lenta agonia.

E ao voltar para casa não era assim tão diferente. De repente me vi acompanhada de meu clã reunido em torno, não de um totem ou uma fogueira, mas de uma nostalgia. Os anos 80. Discos, filmes, músicas e vivências compartilhadas pelo exílio involuntário. Seremos poucos a sobreviver, então que resistam nossas memórias. Ninguém disse isso, é claro. Mas foi um movimento social de profunda aquiescência – se é que isso pode existir – percebido em toda a parte. Alguém lembra de uma cena de infância. Outro começa um romance. E mais aquele retoma um Diário. Sobrevivam as palavras! Parecia ser a ordem.. As músicas e os vídeos, mais alguns completavam. Parafraseando o presidente, diria que nunca antes, na história desta cidade, fizemos tantos downloads. No apelo óbvio da sobrevivência, escolhemos resgatar da enchente o melhor de nós mesmos. Mas isso, como sempre, acontece primeiro aqui dentro. Essa ilha já foi chamada Desterro e este é o nome do nosso sentimento agora. Foi pouco antes de caírem as barreiras na estrada. Sabíamos agora que estávamos isolados, mas não sozinhos. Nosso irmão em águas: o estado do Paraná.

Tornamos á cive e a pólis talvez no auge da calamidade. Primeiro de modo tímido, mas num país em que dizer que não gosta de política é como dar um atestado de honestidade e retidão moral, não surpreende. Vi o primeiro lampejo no meu local de trabalho, em primeiro lugar. Numa escola fechada para as aulas, reencontramo-nos todos para confeccionar os enfeites de Natal e a amizade do quotidiano fazer.

Eis que ressurge enfim, o humor, a face mais bela e louca da resistência. Um e-mail que faz do salto alto um pé de pato que promete ser a nova moda. Um perfil de orkut que nos louva como Novos Atlantes. Outra diz: a ilha vira mar, as mulheres sapas, as trans sereias. Alguém se auto-intitula nova espécie. Outra não quer mais ser chamada de piranha: é agora uma donzelística perereca. Mais simpático, convenhamos.

Aos poucos, já não mais tão estranhos a nós mesmos, submergimos. Amigos e familiares ligam uns para os outros. Ecos: esta tudo bem aí? Esta tudo bem com você? Sim. Sim. Sim, mas... Um grito de socorro ao longe. Era o Vale. Meu Deus! O Vale! Tristeza. Luto. Calamidade (pública desta vez). Muitos amigos meus viajaram para lá. Afundaram até os joelhos na lama e no caos para missão-resgate. Eu (um eu que somos nós) fiquei. Ou ficamos. Para partejar nem que fosse da pedra. Desencavar á vida nova dos armários e gavetas. Despertar consciências adormecidas para o absurdo da alienação quotidiana. Humano, demasiado humano. Comprar cestas básicas. Substituir valores e economizar água. Para selecionar e embalar, evitando desperdícios. Bater tambores, lotar igrejas, enviar cartões. Receber parentes desabrigados. Movimentar contas bancárias. Colher donativos. Cada vez mais gente se empenhando sempre e... mais. Ninguém queria parar com isso. Não recebíamos nós monções de apoio de todos os estados da federação? Pela primeira vez, vi gente se mobilizar pelos animais. Alguém lembrou que era crueldade deixar para que se afogasse o cachorrinho da família.Outros tantos mobilizaram-se para ajudar cães,gatos e cavalos, amigos de todas as horas deixados para trás. Muitos órfãos. Achei que algo de uma nobreza e dignidade esquecidas submergiram também. E onde beleza e justiça eram enaltecidas em toda a parte, resgate era uma palavra de ordem. Não mais memórias. Objetos e gentes. E quantos mortos, Deusa querida! Desaguavam notícias no apelo de uma contra-enchente de solidariedade “vitoriosa e transbordante como uma hemorragia”, nas palavras de Chico. De repente, foi como se não houvessem mais, entre nós, tantas represas e desvios.

Perdi quase tudo, mas graças...

Todos acordam para o fato de que a vida é o mais importante (bem, quase todos).

É claro que nos subterrâneos do poder, a lei de Murphy é imperativa. Tudo de pior que pode acontecer, sempre acontece. Mas a luz encontrava também aí, uma brecha. Só um exemplo: agora todos sabiam porquê era infame o novo Código Ambiental de SC.

Foi nesse momento, tão caloroso e fraterno, que encontrei um amigo. Iria também para o Vale ajudar. Disse ele

-Eu vi um estudo, a ilha... Metade da ilha é aterro, entende? Até agora a maré era vazante, mas agora vai encher e a ilha corre risco de ir para o fundo do mar... O mar toma de volta tudo o que empresta.

Só aí que me dei conta: era verdade.

A maré também crescia dentro de mim.

Foi só então que o sol ressurgiu no horizonte.

sábado, 26 de setembro de 2009

Rumo á Casa de Irkala - os sete véus.
















Ainda ás portas, perguntou-me o que queria
E eu disse: "um lugar para onde retornar"
O porteiro riu, mas respondeu em seguida
-"Há bem mais que tens de deixar para trás"

A iluminação enfraquece e a música começa. Pequenos acordes que se irão entrelaçando
á minha entrada de passagem...

Meu primeiro véu, é um véu negro
Que me cobre por inteiro, veludo molhado,pesado,imenso
Cobre todo o rosto,o corpo, meus cabelos, e até meus pés
Estão resguardados em segredo.
Movendo-me quase imperceptível na escuridão
Toco sem tocar
Canto, sem que som algum seja soprado de meus lábios
Cerrados.
Crio, teço,amparo sem nada dizer,num silêncio imperativo.
Eu giro em anti-movimento.
Completo o sacramento.
O véu se rasga em duas metades iguais.
Caindo como o corpo cai no sonho,
Ainda em silêncio.

Seguir-se há o desenvolvimento:

O véu vermelho descobre o rosto,escorre pelos cabelos
É sangue quente que cobre meu corpo,apertado em meus seios
É o que me move, o que pulsa,brilho fátuo,o meu anseio.
Meus gestos são tensos,estremecem os toques no instrumento - estremeço!
Ardente,em chamas,correndo pelo palco, vocalizo ululante em devaneio
Arremetendo-me contra a rocha,contra o céu,contra o tempo
Corro junto aos meus irmãos, que se esvanescem e sempre mais forte sopra o vento
Impressiona, desafia e vence, traz o medo pela corrente
E num giro rápido - para não perder o impulso- eu o lanço fora, e o que se ouve
é metal incólume na gravidade do chão.

O ritmo segue firme mas já sem tormento. Jogo fora brincos,pulseiras e um anel de ouro puro -por último,um porta-venenos. Jogam para mim da platéia - moedas e lírios - que não me rebaixarei em apanhar.
É sempre tão pouco o que pedem, como posso negar?
Jogo fora também a fivela dourada que prende em parte
a fartura cacheada dos meus cabelos. Pequenas alegrias,mimos,
Zelos e flores á mancheia. Tudo tão reluzente. O que brilhava em mim e tinha em si algo de inocente e desconcertante agora se foi
E pela primeira vez ouço um suspiro da platéia.
Sinto-me mais leve, estranhamente mais leve...

O que me esconde ainda agora é verde e esta enrolado junto aos seios
É o mais perfumado e querido de todos eles
Cor das matas e das coisas que se corrompem lentamente
Abrigo caro,jóia rara,um lar em ruínas de calma plácida
Eu o enovelo em meus braços, como serpentes cálidas
Eu deixo que beije meus olhos fechados e quentes de sol
Que acaricie minha cintura,num aperto de despedida
Antes de deixá-lo ir assim, num gesto displicente
E ele flutua e se desfaz num ramalhete de hortelãs.

Um intervalo,a música cessa para mudar bruscamente...

Preso ao cinturão, um véu azul de mar e sonhos
Aposta traída para sempre, um mundo em paz,uma infância de ilusão
Se desdobram e demonstram,numa carícia de desvelo vem e vão e vem e vão...
Até que um dia ergue-se imenso e impressiona
Paciente, reconquista tudo o que lhe pedem
E deu apenas aquilo de que não tinha mesmo nenhuma precisão.
São esses véus assim como o meu olhar. E meus quadris, ondas que
Embalam suaves para lá e para cá. Eu sou a fuga e o refúgio
Me divirto em criar miragens e canções que flutuam como bolhas de sabão
Mas ninguém sabe, o refugo da minha arte tem nome: é saudade.
Serena, nem percebo quando este véu tão calmo
se desfaz em guizos de espuma branca por sobre a areia.

Mais um, agora violeta que eu trago ainda firme, preso á testa.
E finalmente o Medo.Sei que agora são as Palavras
que se vão.E com elas a memória, os Diários, os relicários da música.
São como a água escorrendo, evaporando, cristalizando suas gotas, contas a rolar pelo tablado.
Um véu de mel e prazeres que se devem fruir cálidos e lentos. Um véu sóbrio e zeloso,
tecido ponto á ponto á mão e sem ornamentos. Um véu rescendido á pactos e constrangimentos
Eu deixo que vele,e cante esmorecendo enquanto se despede da minha pele
pelo corpo inteiro. O alaúde nesse momento é só lamento e gravidade
Chegamos á um ponto de não-retorno,agora é tarde, é findo o tempo.
Quando cair aos meus pés uma platéia ansiosa poderá colher minhas lágrimas.

Meu corpo transparece por fim sob o véu branco.Não há indecência nisto.
Sem meus véus,jóias e armaduras sou algo assim bem menor,pequena mesmo.
Só uma criança, marcando o ritmo com o bater dos pés desnudos. A música já
parou e tilintam apenas os risos. Estou pronta á mergulhar na escuridão,talvez para sempre.
O ultimo véu que cai se desfaz como uma estrela,em um surto de luz e som
vidro quebrando no chão displicente...

E mais Nada...

A Lista da Bota.


"Antes de partir" vale á pena ser recomendado. Um filme que você vê sorrindo, já sabe o final de antemão e mesmo assim, causa estranhamento e reflexão. Estrelado por Morgan Freeman e Jack Nicholson e dirigido por Rob Reiner (de"Questão de Honra" e "Harry & Sally", por exemplo) como poderia ser ruim? Reza a lenda que Jack Nicholson sofreu uma delicada cirurgia há poucos meses de começar as gravações o que traz um tempero todo especial ao seu personagem turrão excêntrico e carismático, Edward Cole, dono de uma rede de hospitais. O seu lema é "dois pacientes por quarto, administro hospitais e não spas" e justamente por isto não poderá requisitar um quarto só para si quando é internado por uma crise que logo será diagnosticada como sintomática do câncer terminal. Divide então o quarto com Carter Chambers - o personagem de Morgan Freeman - homem casado que trabalha há quarenta e seis anos como mecânico, internado neste hospital para submeter-se a um tratamento experimental contra o câncer. Ambos descobrirão que tem poucos meses de vida.Enquanto dividem o quarto e vencidos os primeiros estranhamentos, ambos começam a compartilhar divertimentos e experiências. E Chambers começa a escrever a "Lista da Bota", um exercício de pensamento prospectivo que seu professor de filosofia lhe pediu no primeiro ano, que consistia em elaborar uma lista do que cada aluno gostaria de realizar antes de "bater as botas". A expressão para isto em inglês é "chutar o balde" daí o título original ser, em uma tradução literal, "A Lista do Balde". Nesta lista, Chamber anota pedidos como "ajudar alguém desinteressadamente" ou "rir até chorar". À esta lista, "Mr. Cole" acresce os seus próprios como "pular de para-quedas" e "fazer uma tatuagem". Assim "Mr. Cole" convence "Mr. Chambers" a viajar pelo mundo e realizar seus últimos pedidos.O comportamento "desesperado-alucinado" do personagem de Nicholson faz um interessante contraste com a postura professoral do personagem de Freeman e a bandeira do diretor, que parece ser "Abaixo o sentimentalismo água-com-açúcar" deixa o resultado final ainda mais absurdo, tanto que ainda não consegui ler uma resenha que conseguisse resolver o enigma deste filme: é drama ou comédia? Penso que é drama, mas tratado com uma leveza eao mesmo tempo, uma profundidade, que escapam ao "dramalhão lacrimoso".
Mas esta não é uma resenha- ou pelo menos eu penso assim. Pensando melhor, deixo esta categorização para outros. Mas este filme rendeu o tema de minha crônica? O que é a morte? Um súbito apagar de luzes e uma retirada estratégica do palco, para que entrem as palmas ou o silêncio da platéia constrangida?Um renascer para outra existência? Alguém, não me recordo, disse que o homem é o único animal que sabe que vai morrer. Parece interessante, mas simplesmente não é verdade. Há os elefantes e existem pesquisas a este respeito também com gatos (até onde eu sei). Talvez a única diferença é que nós temos mais opções quando estamos de posse da notícia com antecedência, e muito diferentes dos animais, que no geral se isolam para morrer á sós, nós optamos de modo geral a morrer exatamente como vivemos, dentre os valores que nos orientaram por toda a nossa vida e deixamos aos nossos descendentes ou ascendentes a difícil tarefa de cumprir nossos últimos pedidos além da morte. Porque salvo imenso engano, a morte causa mais angústia á nossa espécie do que á qualquer outra. Há quem afirme que o nosso pavor da morte é a nascente de nosso anseio de liberdade e paixão pela vida. Porém a mesma morte - algo que parece tão individual e íntimo - tem um forte conteúdo social. Porque seremos enterrados,cremados ou submersos, teremos orações, prantos ou risos de acordo com a cultura vigente na sociedade em que estamos inseridos e desejaremos que nossa passagem seja feita de acordo com aquilo que nós e nosso meio social acredita. Se suas vísceras serão espalhadas aos urubus ou se você será enterrado de pé com uma florzinha em cima é uma questão que você, a família e o Estado têm de entrar em um acordo antes. E para aqueles que não têm pacto com o Estado nem com a Família, o Estado já encontrou solução: a vala comum, onde descansam os deserdados,esquecidos e "desaparecidos" de toda á sorte.Os sem-cemitério, marginalizados.

Mas voltando ao assunto...todas essas são escolhas da vida. A morte é uma desconhecida que não possibilita escolhas. E chegamos por fim ao "xis" da questão. A Lista da Bota. O que escreveríamos, cada um de nós, se submetidos á este exercício? Um detalhe interessante é que o personaem de Freeman, por tido uma vida pobre mas rica em significado e compreensão espiritual, fez dos seus últimos pedidos uma lista de prazeres simples. O personagem de Nicholsos, mais rico mas que navega numa solidão sem fim, sem família e amigos por exemplo, tem desejos finais excêntricos, divertidos e...superficiais. Quando Freeman vaja pelo mundo com Nicholson percebe seus limites,barreiras morais e sensíveis que o impedem de "se divertir até o fim", mas o contrário também é verdadeiro. "Mr.Cole" logo percebe as dificuldades em realizar itens da lista elaboradas por "Mr Carter" e a mudança que ele tem de fazer para realizá-las é ainda mais radical. Nossos últimos desejos de vida, na verdade, refletem como vemos a vida em si.Outra reflexão interessante se dá quando ambos os personagens se encontram no Egito - o Antigo Egito foi,disparado, a sociedade que mais investiu na idéia de vida além da morte - e um deles comenta que este povo acreditava que, após a morte, cada alma seria julgada por suas ações e encaminhada para lugares melhores ou piores segundo estas. Se pensarmos bem, nada de tão diferente do que a maioria das pessoas acredita hoje. O diferencial são as perguntas chaves para o acesso ao "melhor dos mundos": "-Quantas alegrias você viveu?" E na seqüência "-Quantas alegrias proporcionou?"
Quanto á crenças do Antigo Egito, também sabemos que não era assim tão simples. Mas esse é um bom resumo do que são chamadas de 52 confissões negativas, coisas como: "Não roubei", "Não matei", "Não propaguei mentiras" e por aí seguem...
Pensei em muitas respostas para estas perguntas, e até esbocei a minha própria lista da bota, com apenas sete itens:
1- Na minha aposentadoria vou me dedicar á uma Associação de Defesa dos Direitos dos Animais.Pois dedicarei os melhores anos da minha vida á Juventude e á luta por uma Educação mais Inclusiva e de qualidade, assim, contruindo minha quota de contribuição com a humanidade. Logo, chegará a vez de ajudar animais desinteressadamente, eles que me ajudaram tanto. Só espero que dê tempo.
2- Não tenho fantasias com para-quedismo, e até que gostaria de voar de asa-delta mas no fundo, tenho mais desejo em fazer mergulho subaquático (nunca entendi esta expressão, existe outro tipo de mergulho?).Ver as paisagens submarinas pessoalmente, este outro mundo tão próximo e tão estranho seria algo assim... sem palavras para descrever.E tenho até um itinerário certo: Fernando de Noronha. Junto aos golfinhos. Mas para isso,antes é preciso vencer o medo e parar de fumar.E eu nunca sei se quero parar de fumar...hehehe.
3- Conhecer dois países ao menos na Europa: Londres e Espanha, dois na África:Nigéria e Egito e Sri-Nagar na Índia. O Líbano, é claro. Se possível, todo o Oriente Médio. E o meu primeiro romance será um Diário de Viagens. Tem o título provisório de "Os melhores dançarinos do mundo".
4- Ver publicado o meu penúltimo romance, que têm o título provisório "A Vida É Uma Festa"! É um título bastante polêmico, eu sei. Mas nele quero trabalhar a vivência com minha mãe, que me ensinou muito sobre alegria de viver. Em tempos tão cinzas, penso que seria um livro de Memórias que acabaria servindo como Auto-ajuda.
5-Quero chorar de emoção na formatura dos meus filhos. Nota: eu não tenho filhos. Mas terei. Nascidos do meu corpo ou do meu coração, como se diz.
6-Quero ter dado minha contribuição para um país mais justo e uma educação mais inclusiva, humanizante, e conscientizadora. Quero ter encontrado minha família espiritual e que, com ela, tenhamos realizado uma coisa inteiramente nova. E que esta contribuição vire livro também, mas não escrito por mim nem com meu nome citado, mas no nome de alguma organização coletiva e pioneira em métodos educativos que eu creio, está para surgir.
7 - Deixar para minha família e amigos a certeza de que fiz o melhor possível...e que valeu á pena! Só ainda não pensei como será isto, mas vai se dar de alguma forma, tenho certeza!

Naturalmente penso que ainda é cedo para dizer quantos momentos de alegria vivi e quantos proporcionei. Mas sem falsa modéstia acho que se a prova fosse amanhã eu conseguiria passar assim,assim, na média.

E quem quiser que conte outra...

Curtinhas Setembrinas




Veleidades.
Tenho pena de quem teme o que pensa
E clama pela liberdade dos quadris
Perigoso mesmo é o que não se pode dizer
E não se diz...



Escrita na água:

Prometo honrar,amar e obedecer.
Vingança & Vitória e o que mais vier
Para todo o sempre,mas só se Deus quiser!

Prisão.
"Há mais de um poder
que nos encerra ou cala
uns no escuro, postos á ferros
outros vestem gaiolas douradas..."

Ao menino que hoje passa...
Sim, é puro, cálido e luzídio
E tem ainda a beleza, o encanto,o sorriso
Quanto mais eu o vejo,mais admiro. Mas...

Só celebramos a inocência em seu funeral - e com alívio!

Terrorismo Poético
O velho professor passou matéria no quadro
E deu aula e tarefa, prometeu nota e deu prazo
Anseio: uma surpresa,um alento,ou talvez um gesto de carinho
Surpresa: um beija-flor morto em seu escaninho...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

(In)solitudes!




Aliviar dor de cabeça dando cabeçadas na parede
Colocar sal na limonada só para ficar com mais sede
Transar no capô do carro, á beira da estrada
Tomar sorvete quente depois da sopa gelada
Amarrar o cadarço do tênis escondendo o nó
Esperar com ansiedade o momento de ficar só
Para dançar axé na sala - isso beirando aos sessenta-
"Adoro ônibus" até vai,o preço é que ninguém agüenta!

Tocar violão no escuro
Querer saber o que é que tem do outro lado do muro
Pedir para comer a rapa do arroz e do angu
Ou misturar com açúcar.Limão com peixe cru...

Ladrão que deixa bilhete de aviso e presta assessoria
Maçã com salsicha e azeite, acompanha feijoada fria
"Rapaz jovem e bem sucedido procura...para relacionamento sério"
Termina a noite bebendo sozinho, por sobre a lápide no cemitério.
Coçar a barriga do gato só para ser arranhado
Ver numa foto por satélite algum rosto desenhado
Ler de um só fôlego Urupês, de Monteiro Lobato.
Criar o plano perfeito de ser flagrado no ato.

Dobrar todo o dinheiro na carteira
Ficar feliz só porque é segunda feira
Sonhar com uma passagem só de ida para Kandy
Dizer que amou a Alanis interpretada por Sandy

Passar lua-de-mel em Puta-Que-O-Pariu ou Burkina Fasso
Obras de arte esquecida no vidro dos carros empoeirados.
Ouvir o álbum "Animals" com filme mudo e preto e branco
Usar shampoo hidratante de Castanha de Tamanu Taitiano.
Implicar com o presidente só porque ele é corinthiano
Ser devorado pelo crocodilo que estava preso no encanamento
Chamar estudante preso em manifestação de "elemento"!

Amarrar-se na árvore em protesto, usando uma mochila
Dar o nome de "Cashemira" á uma chinchila
Usar hidratante labial sabor "mojitos"
Amar sobretudo a precisão, e á seguir os expletivos.

Tomar café com mel, e uma "estrela" de anis
Largar "status",familia, mendigar -fazer o que sempre quiz!
Um dia deixar de fumar assim de bobeira, sem querer
Dizer, como o poeta: "amor só é bom se doer".

Para a imaginação humana não há limites, nem imperativos!
Nesta lista cabem mais itens do que nos manuais explicativos
Nem Freud explica para que servem -sejam "de bolso" ou de academia
E se todo mundo decidisse que Deus só esta vivo onde houver alegria?
Se sabe que a flor mais querida mora sempre no precipício
É por isso que eu digo: "cada louco com seu hospício."

A Noite


Então é simples assim...
É exatamente como dizem que acontece nos momentos que antecedem á morte. Quadro á quadro, pequenas coisas esquecidas ganham imensa relevância numa avalanche que soterra os grandes acontecimentos históricos vivenciados por qualquer personagem que se vista como pessoa, animal ou planta e, ainda, os mais traumáticos acontecimentos de uma história pessoal. Não são vistos na câmera lenta da mágoa, do rancor ou da sutil tentativa da consciência em esclarecer coisas como a dor, a morte, a doença a humilhação. Neste dia será apenas mais uma imagem que faz elo numa cadeia de imagens que se sucedem em ordem de importância relativa. Se uma pessoa, por exemplo,parece ter congelado sua vida no dia em que abortou os filhos que esperava e assumiu para si o título de "A Estéril", ou aquele outro, que perdeu tudo na bolsa de valores, resolveu vestir o estereótipo de "O Fracassado", bem, talvez nesse dia descubra que foi muito mais "A- Menininha- Abandonada- No- Corredor- Do- Supermercado-Chorando" ou ainda, "O Cara que Sorriu para O Rapaz de Cadeira de Rodas" do que qualquer outro momento. A exemplo do conto taoísta fica em nós uma suave réplica: "Talvez".É uma exigência da Morte que entremos nus em seu quarto de imensa escuridão. É isso que leio hoje nos olhos da Noite.
"Sinto dor porque estou me despindo, pensei que seria mais leve, não entendo".
Eu vejo um pouco mais, entro nos olhos dela, e com a convicção fria de um rio penetro violenta em seu mar de lembranças.
A Noite, ainda potrilha, arfando a escuridão e sendo engolida pelos gritos de sua primeira manada, confusa e sentindo refluir o sangue de seus cinco corações, caindo desacordada em algum ponto da Floresta Escura, sabendo no íntimo que sua mãe estava perdida para sempre e seria engolida pelo arfar da memória para ser revista apenas aqui. Quase uma cópia dela mesma, só que mais com mais músculos e trazendo em si o cheiro e o gosto de leite-luz que a nutriu por quase um ano. Parecia ouvir seu ultimo grito, sua ordem, e toda a sua força se transmitiu para ela naquele momento. Essa voz e imperativo, ela recordaria mil vezes mais, mas não sua face. Esta, só agora se revelaria. Seu ultimo pedido: "Sobreviva!" Teve a impressão de ouvir isso naquele dia em que teve a certeza de que não iria revê-la nunca. Sua mãe galopou rumo ao sol, deixando para trás uma casca vazia. E como sempre foi assim, em todas as gerações de sua espécie, nesse dia guardou silêncio e não aceitou montaria. A Noite que rescende á mãe não quer mais conhecer o dia. Mas sabe que isso também passa e retorna ao ponto de partida. Corta a cena. Voltou a imagem da potrilha. E apareceu o Velho. Quase invisível na cegueira agora vermelha daquela Noite em que toda a paisagem parecia encoberta por uma película vibrante, pulsante e sangüínea. Encontrou conforto no sorriso e nos olhos dele, que brilhavam na escuridão vermelha, destacando-se de seu rosto e seu corpo que só seriam delineados pelo dia. Por quantos anos permaneceria com o Velho, aprendendo a antecipar seus desejos, cuidando dele, protegendo-o, guardando - o de todo o mal daquele mundo demasiado humano e sem sentido em que ele estava imerso. Não sabia. A imagem muda, muda a película. Essa Noite foi tragada pelo tempo e rapidamente esquecida.
A Noite, se defronta consigo mesma nas águas do lago e entende que lhe deram um nome. Foi surpreendente ver-se a si mesma alta, forte, altiva e algo assim mais esguia que sua mãe. Sempre pensava em si mesma como algo exatamente igual a ela, só que menor. Mas nesse dia percebeu que já tinha sua mesma altura, que o som ao qual seus sentidos obedeceriam era Noi-te e que, o som do assobio era a necessidade do Velho de seu imenso Amor e sobretudo da Força bombeada por seus cascos ao seu peito e daí até o mais fino fio de sua crina. Retribuía a este chamado com um novo brilho na aura clara dela mesma, emprestando para ele á força de gerações de éguas selvagens e obscuras. Embora não soubesse que ele não conseguiria ver, sentia que envolvia a ele, o Velho, como que com uma capa de mel morno apenas no relance do olhar que refletia em seu sorriso sempre tão claro. Era tão bom conhecer essa Força e essa Doçura em seu peito, mas no entanto só hoje percebeu que daquele dia guardou apenas um sentimento assim, muito próximo mesmo á mágoa. Mágoa, essa palavra que rima tão perfeitamente com "Agua", é seguramente um sentimento aquoso, que só sabe mesmo aquiescer multiforme, transbordar e partir. Assim era saber seu Nome e perceber a si mesma como um retrato flutuando nas águas de um lago de águas frescas que sorvia em goles rápidos e sôfregos. A Noite beberá á si mesma ainda muitas vezes para aprender sua cor, o comprimento de suas crinas, ensaiar seus olhares e se orgulhar do que vê tanto quanto lamentar a passagem do Tempo. E tecer, é claro, comparações. Assim como o dela o pelo do Velho era escuro,negro mesmo, e brilhavam como obsidianas seus olhos sempre imersos em uma água tão branca, tão branca como a que pretendia encontrar em algum lugar distante naquelas andanças que só faziam eles dois sempre tão sós. Seus olhos, negros em leito branco eram totalmente diferentes dos delas maiores e inteiros em sua negritude única e imponente. E se primeiro ela pensava nas pupilas dele como assim mais confortáveis naquele manancial de brancura, hoje percebia que em compensação sua alma, assim como seus olhos, não tinham o peso de qualquer contradição. Porque o ser humano é um ser sempre ferido pelos seus próprios contrastes, que lhes rasgam como as facas (que lhe feriram neste dia fatídico e triste), e terminam por aniquilar seus sonhos para sempre. E o que é realmente incrível é que esses seres tão tristemente cindidos recriam novos sonhos todos as vezes que nasce a Grande Mãe Branca de sua Imensa Escuridão. Levou realmente muito tempo para a Noite entender como era triste aquele olhar e que, por mais que o conhecesse, muita coisa nele ainda era inexplicável. Por exemplo...A Noite nunca entendeu porque ele sempre se esquivava de seus carinhos, quando ela efusivamente o chamava - "Papai!" E ouvia a voz dele, em resposta.
-"Não, Noite! Manotaço, não!"
Somente muito mais tarde saberia o quanto os seres humanos, que pareciam ter o Universo em suas mãos, eram frágeis. E fizeram-se, pela força de sua própria maldade, ainda mais perenes que as ervas que esmagava, sem pensar, sob os cascos que naquele momento perdido para sempre vestiam o aço frio das ferraduras, rompendo a magia de toda a paisagem que tocava. Mas como poderia ela saber?
Não compreendia bem sua língua e de mais á mais, ele ria e não gostava ao mesmo tempo, numa contradição tão obvia que a deixava confusa. Como faria para não corresponder ao seu riso e obedecer aquele "Não" que cheirava á "Medo"? Será que o Velho não sabia o quanto lhe excitava aquele "Não" assim tão manhoso, tão diligente e cheio de si, tão traiçoeiro? Difícil conter a si mesma. E o sangue. E o galopar sedento de mais e mais imagens, ás vezes tão duras, tão sórdidas e incompreensíves até para ela mesma, expectadora passiva desse filme último. Mas sempre tão carregadas desses sentimentos primeiros. Testemunhou sua alegria em ver dividir consigo o chimarrão. O Velho, domador de anos, nunca tinha visto égua chupar cuia, mas aquela até isso fazia. Cobriu-a de mimos pelo feito. Bateu foto e tudo. Bater foto era, em sua memória, como ganhar um jato de luz-estelar. Olhava as estrelas, lembrava de fotos. Sentia orgulho de si mesma e isso era bom. Também era bom correr com o Velho e, juntos, saltar as cercas. Ele ria e gargalhava, com um hálito quente e alcoólico. E quando ele afrouxava as rédeas e podia ouvi-lo ressonar, seguia o rumo devagarinho, ia a trote compassado para que ele não caísse nem acordasse e com carinho o devolvia á Velha. Nunca perdeu o caminho de casa e, por isso mesmo, ganhava mais aveia no outro dia. O que mais podia querer? Amor. Total dedicação de parte á parte. Mas nesse quadro imenso, pairando extático na parede da memória, a Noite era ainda só Incompreensão.
Em cascata vão caindo sob seus olhos cada recorte de sua história enquanto a Noite se esvai em sangue. Suas memórias se aceleram enquanto eu sei que ela agora tem menos tempo (bem menos). Eu fixo em parte alguns trechos, porque diferente dela mesma, posso dar sentido a alguns acontecimentos. A morte do Velho e de sua família, por exemplo. Para ela restou um sabor metálico na boca, porque quando ela ouviu o estrondo e viu o peito da Velha explodindo correu, correu como nunca para longe dali, com o velho montado na garupa. Ouviu um último estouro, sentiu o cheiro da pólvora, apertou nos dentes os freios em disparada, acalentou uma emoção tão grande quanto seu peito generoso, tudo nela resplandecia esperança e receio: Salvar o Velho. Sentiu-o cair. "Ora vamos! Só mais um pouco!" Arrastou seu peso por caminhos que só ela conhecia, sentia-o arrastado apenas pelo estribo, por uma perna e ouvia o som de sua pele sulcando um rastro de lama. Era mais pesado assim, sentia que preferia que ele estivesse equilibrado como sempre em sua garupa, mas faltava tão pouco para chegarem á cidade..."Agüenta firme! Vou nos tirar deste lugar horrível que cheira á morte!" Enquanto atravessavam a Floresta, sentia arrepios horríveis nas costelas e ouvia as canções daqueles que, embora não estivessem vivos, não galoparam em direção ao Sol como devia de ser. Todos os seus sentidos lutavam para rebelar-se mas ela manteve-se firme em seu propósito. Determinação de aço em salvar o Velho, repetia a si mesma que não interessavam os obstáculos e dores, não retornaria ao Sítio. E quando finalmente chegou á cidade e seus cascos ressoaram por sobre o ladrilho como uma Marcha Triunfal. A Noite espumava sede e sangue de sua boca rasgada pelo mau-jeito da rédea. Ela viu que outros humanos se aproximavam. Via as faces de espanto e explodiu em gargalhada clara, de satisfação e orgulho, e para dar mais ênfase ao gesto, ergueu-se nas patas dianteiras. "Conseguimos!" Depois silêncio .Mudo. Nada. Sentiu que havia algo errado. "Por que ninguém está feliz?"Foi quando puxaram com violência pelos arreios, quase rasgando sua boca, abrindo a ferida feita pelo esforço de arrastar seu corpo até ali. Arrancaram-lhe cela e estribo. Só então pode ver: O que arrastara até ali era um corpo, sua cabeça havia explodido e o que existia acima do pescoço era uma massa informe de carne e lama. O choque daquela visão e certeza eram grandes demais até para seus tantos "corações". Não suportou. O peso da raiva quase a fez sufocar. Corcoveou todas as vezes necessárias para tirar de cima de si aquele peso. Relinchou um grito de dor e desespero inumanos, que nasciam das vísceras e congelaram o coração dos mais valentes ali presentes. Ódio. Ódio puro. Explodiu em coices e corcoveios, para extravasar a dor e a agonia da certeza de que nunca mais veria o Velho. Sua raiva era insanidade. Sem tino e sem direção, culpava a si mesma, ao céu, á Floresta, aos homens em torno e ao homens no sítio. Aos homens em si. Espumava pelos cantos da boca agora também de raiva, bravia e sem tino, acabou com três homens que tentavam lhe conter em fúria, esmagando-os sob a força de coices e manotaços. "Não encostem a mão em mim!" "Não ousem!" Então saiu em disparada, e correu, correu á mais não poder. Nunca mais portaria os estribos, as esporas (nunca necessárias, puro ornamento),arreios e os carinhos luminosos e humanos do Velho. Não se deixaria cegar novamente. Foi embora, partiu para sempre daquele convívio que era, em si mesmo, uma teia de maldade em que só agora percebia que vivera enredada por muito tempo. Não, nunca mais. Mais tarde, lembrou todos os bons momentos que vivera e os fez em pedaços, corcoveando e escoiceando cega pela madrugada, como se fossem até os momentos bons uma cocheira podre que não mais pudesse lhe comportar em tamanho e dignidade.
O que sei da morte do Velho, eu que me orgulho de ser humana? Bem, quase nada, nesse estado-nação em que a expropriação e a grilagem são comuns. Chamavam-no o Negro Poceiro, mas a verdade é que ninguém sabia de quem eram aquelas terras em que sua familiazinha habitava desde sempre. Parece que antigamente pertenciam a uma Sinhá que, sem filhos, deixou a propriedade a um escravo, avô deste Negro que foi assassinado com toda a sua família há uns dez anos atrás. Mas quem afirmou isso foi o Tabelião certa vez, no boteco em que vivia bêbado. Depois, frente á frente com o delegado de polícia, desdisse tudo, desconheceu os papéis que lhe mostraram e confessou que como todos os outros, nada sabia. Assim sendo e visto que ninguém nunca apurou os fatos, a família do prefeito meio que foi se instalando, botou cerca, lavrou certificado de propriedade e acabou mesmo nisso. As coisinhas do Velho, sua casinha e poucos pertences de domador itinerante e pedreiro de ocasião, estas continuam lá, intactas sendo corroídas apenas pelo Tempo, por sobre o Morro ainda inculto. São engraçados os seres humanos, que podem assumir tamanha variedade de cores quanto os cavalos. Mas se vires um garanhão na cor negra, terás certeza que estás diante de um cavalo de caráter nobre, que há de exigir grande habilidade para ser domado, mas, também, coragem,velocidade e força incomuns. Mas o que você pensa quando vê o Homem Negro? É isso. Esse foi o grande motivo do crime. E nada mais existe a saber.
Tem quem ouça o Velho martelando sobre o ferro quente, numa acusação teimosa e muda, coisa de fantasma que não teve justiça na terra, entende?
O fato é que Noite também virou uma lenda.
A Noite agora é xucra . E por isso,muitos acrescentavam que era vingativa e perigosa. Diziam que, embora tivesse se juntado a uma tropilha selvagem e reaprendido o instinto que a faria sobreviver sem a companhia humana tinha comportamento diferente daqueles que nunca a conheceram. Escoiceava a esmo e bufava mal sentia no faro o cheiro de homem laceador. Que ás vezes, traiçoeira,se deixava montar só para em seguida atirar-se de costas no lago com o cavalheiro ainda encima, esmagando-o com todo o seu peso. Ou que, então, corria com o valente pela noite adentro, até que este desaparecia para nunca mais voltar. Alguns, com mais imaginação diziam que ela entregava os viventes ao Diabo, com quem tinha um pacto. De sete em sete anos se deixava a montar e carregava com este ou aquele para o Inferno e em troca, este lhe garantia que nunca mais vestiria o arreio de novo. E assim, a Noite carregou consigo a culpa por todos os desaparecidos nesta terra.
Só hoje ressurgiu.
Nada em suas memórias, pelo que vejo hoje, atestam a veracidade destas estórias. Parece mesmo é que seus dias foram feitos de uma sede de fuga, ansiosa por deixar para trás este único e triste momento. Encontrou na tropilha nova alguma paz, um novo alento e também,uma alegria mais pura e inocente. Mas até isso,esses dias de sol em que pastava os mais tenros trevos e celebrava as alvoradas mais lindas, eram apenas intervalos. Pois logo em seguida, os fazendeiros começaram a organizar comitivas para assassinar seus filhos, netos e amigos. Cascos e patas explodiam em corridas desesperadas, sons de tiro, muito sangue pela estrada de suas andanças. E lá se erguia ela, Matriarca de Novas Manhãs, para ressurgir de novo há muitos quilômetros de onde tinha sido vista pela última vez. Pensando sempre que aquela vez seria a ultima que fugiria. Obedecendo áquela última ordem materna, sobrevivia. Reagrupava. E se afastava para uma nova fronteira, cada dia mais triste, encurralando a si mesma contra um abismo de solidão.
E haviam outros inimigos é claro. As cidades que cresciam no entorno das florestas e á sufocavam, as campinas cada vez mais cheias de cercas – farpadas,elétricas, altas demais – a Fome que perseguia seu bando, obrigando-os a separarem-se e tornarem-se presas ainda mais fáceis. Uma suçuarana aparece. Com fome, tenta a sorte. Ela se machuca gravemente, mas termina matando a caçadora com um coice certeiro. Foi necessário mas não houve prazer nenhum nisso. Guardou consigo a certeza de que, não fosse o fim das florestas, aquela sua irmã não teria tentado algo tão temerário.
Seus olhos e seus pêlos foram ficando cada dia mais negros com o passar do tempo num luto cada vez mais fechado por todos os que ficaram para atrás, agonizantes e apodrecendo ao sol pelos campos ou laçados e arrastados para cocheiras imundas. O que lhes aguardava era uma vida mesquinha de servilidade egoísta, disso tinha certeza.Teve um vislumbre do que aconteceria caso fosse recapturada certa vez, quando margeando a estrada, viu um cavalo muito pequeno e magro, quase vergado pelo peso de um imenso carroção. O homem que era Seu lhe batia com o chicote sem dó nem piedade. Ele, embora fosse umas cinquenta vezes mais forte que o agressor era domado, castrado e não reagia.Em meio à mágoa de seu destino, lançou um olhar tão triste que ela sentiu o sangue parar e refluir em lágrimas quentes para seus olhos. Então é isso que acontece quando laçam você? Não! Mil vezes não. Galopou para o sol e teceu com seus cascos uma nova canção de amor á tropilha. Solidão. Liberdade.
E, é claro,Anseio.
Um inexplicável Anseio pelo Desconhecido.
Cálida e translúcida é a luz que emana destas imagens últimas que se deixam levar como pedacinhos de papel jogados ao vento.
Um pequeno quadradinho irregular no mosaico imenso, tem em suas arestas cortantes de cor vibrante e alegre, rebordado de paixão cíclica e ao mesmo tempo, inexplicável, aplacou esse desejo grave até este tempo. O cio ela já conhecia, mas e o amor entre iguais? Era Ruano, um cavalo amarronzado de alta linhagem e olhos quase vermelhos com quem ela podia dividir, sem medo, seus carinhos assim, pouco gentis e suaves. Ele correspondia com o mesmo ardor. Corriam leves pelo prazer de sentir o vento assobiar por entre as crinas pelo entardecer de algum novembro. E para refrescarem-se, cavalgavam pela margem de açudes e jogavam-se sem medo pelo prazer inconseqüente de sentir a água escorrer do pelo, trazendo um novo sabor á sua maneira violenta e nobre de amar. Atracavam-se quase num teste de resistência, sôfrego e desesperado. Cansados deitavam-se juntos, sob ás estrelas em silêncio, com uma candura ímpar. Os olhos tristes, nos quais a vida já se apaga, mandam um último pensamento de amor para este cavalo avermelhado quando quase posso ouvir seu relinchar ferido de morte ao longe, em resposta. Me sobe um arrepio na espinha. Entendo. Peço para que os homens me ajudem com a potrinha, que promete ser assim tão inexplicavelmente branquinha mas que ainda está coberta de sangue e meio que sem entender o que acontece á sua volta. Aproximo-a da boca da mãe.
A Noite lambe, diligente, o sangue da Aurora que acaba de nascer.
Últimos recortes. A armadilha. Um buraco coberto por folhas secas e repleto de pontas de facas afiadas por dentro. Restos de alguma armadilha para- militar abandonada. Quebrada a pata, não pode oferecer a menor resistência. Separada dos seus para sempre, sente a aguda certeza do parto, e então, não há mais dor - como até nisso os animais são diferentes! A Noite morrerá sem saber o quanto teve sorte, porque fui eu e não outros homens, sedentos de vingança e com a mente repleta de fantasias, a encontrá-la acuada em sua armadilha.E aqui estou. Eu. Lúcia Maria da Graça Neves, cidadã brasileira,veterinária graduada e residente nesta Universidade á pelo menos dois anos. E por tudo isso, sei que estou vendo morrer a Noite sem poder fazer mais nada. A Noite se fez mais negra com suas pálpebras assim cerradas. Penso que ouço um relinchar,um grito de alguém que, galopando por entre ás estrelas, faz um esforço último para saltar essa grande Lua Cheia, que em breve também fenecerá por detrás daquele monte. E por detrás da Lua estará sua última manada, á espera, para galoparem juntos agora ao firmamento. Uma lágrima cai junto á uma promessa. Salvei sua filha, a potrilha Aurora. E, caso sobreviva, será assim como a mãe, não vestirá estribos. Nem conhecerá esporas.

Sexteto de Curtinhas.



Adivinhação
Vestida na cor do vento
Tomei a escada emprestada
Para alcançar a mais alta estrela
Pequenina, etérea,cinco faces afiadas...


Contradição.
Se o mundo não me muda
Mudo o mundo - mas nunca
Se muda, com ele não mudar...

Enquadra
Em desafio á cidade
escancaro janelas e portas
O sol me sorri e aprova
por entre as grades.


Paradoxo
Por cima do sono leve
Morrer de asfixia
Em noite de ventania...


Quadrinha Para Uma Passarinha.
Trina,trina Catarina
Desafina, tenta e insiste
Pois sem esta passarinha
O bosque seria mais triste.

Sem você...
os dias são lindos,risonhos os pássaros tantos
inacreditável melodia,sinos tilintam e as estrelas cantam
Adivinho quantas cores, e tão lindo tudo!
E o que vejo é um filme preto,branco e mudo...

terça-feira, 7 de julho de 2009

Lua Crescente


Em tua cadeira de balanço me ninar
Numa canção de amar, atar ou desfazer
Eu quero ouvir mais uma estória trágica
de terror e intriga, de suspense ou mágica
que diga como semear,brotar e por fim, reflorescer

Como você.

Uma neblina fina que te faça mais nua
por um véu que transpareça o meu desejo, lua!
Troco contigo, porque eu já sei tecer.
Já imito teus pés na ciranda em compasso
quando louca e linda danças pelos espaços
mas me abandonar,deixar fluir...eu não posso!

Não como você.


Perdi teus brincos sagrados de brilhantes
Enquanto mentia -em vão- com tuas pinturas.
E teus vestidos sempre sobraram em minha cintura...
Pedi de presente para agradar meu amante:
uma nutriz,um segredo e um manual de tortura.
Deste! Mas com a condição de condenada
a conviver com essa marca estranha e obscura
Que me fez tão temida quanto amada e pura. Agora
que não sei bem certo ainda o que fazer.Como dizer?

Quero ser um dia "que nem" você... quando crescer!

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Parte 2- A Trilha Sonora que a vida não tem (infelizmente).



Simplesmente impossível dissociar minha adolescência de minha vivência no Movimento Estudantil - de um modo geral - á UJS (União da Juventude Socialista) e ao PC do B (Partido Comunista do Brasil), em particular.Conheço mais de um dos que se afastaram da militância política que se envergonham dessa fase e desse momento. Provavelmente confundem uma coisa - a adolescência - com outra -a vivência política. Não faço parte desse time. Não me envergonho nem me arrependo de nada, nem do que fiz, nem do que deixei de fazer. Não lamento nada.
Poderia entrar em mil reminiscências de como eu entrei para o ME, como é ser adolescente e ser comunista pós -queda do Muro de Berlim, o porquê do meu afastamento do partido aos vinte e seis anos "e tals". Mas eu não quero entrar em detalhes de experiência. Eu quero tocar a música desse tempo, que talvez seja parcela da trilha sonora da minha adolescência muito em particular e talvez, de uma época e suas confusões e transições, no geral.

Para satisfazer apenas uma das curiosidades e ao mesmo tempo, datar um ponto de partida, eu entrei para o Movimento Estudantil durante o Fora Collor em 1992. Fui para a passeata com uma amiga com quatorze anos e meio. Ela queria os beijos da liderança estudantil mais querida do momento. Eu nem prestava muita atenção aos meninos na época.Mas acho que as duas músicas mais tocadas foram "Caminhando contra o vento" do Caetano Veloso e o Hino Nacional. Eu queria respostas para questões que ainda não sabia formular muito bem e não tinha com quem conversar.Alguns adolescentes tem dificuldades em ter com quem conversar sobre seus sentimentos ou talvez,sobre o despertar de sua sexualidade.Eu queria falar sobre como construir uma nova sociedade ou um país melhor.Tímida e reclusiva, não encontrava as pessoas certas.

Corta a cena.Som na caixa.
Entra a Internacional.
De pé ó vítimas da fome

De pé famélicos da terra

Da idéia a chama já consome

A crosta bruta que a soterra

Cortai o mal bem pelo fundo

De pé, de pé, não mais senhores

Se nada somos em tal mundo

Sejamos tudo ó produtores.



Refrão:

Bem unidos façamos

Nesta luta final

Uma terra sem amos

A Internacional

Gostaria de avisar que a maioria da juventude tropeça em mais de um trecho desta letra,e eu não era excessão.Mas...
Um ano depois e já era um cisne em comparação. Ou pelo menos, já se conseguia antever um "patinho mais bonitinho".Uma agenda com mais de cento e cinqüenta nomes, uma "turma" de pelo menos "cinqüenta" pessoas e eu já me empossava Presidente do Grêmio Estudantil, Diretora da União Florianopolitana de Estudantes e Diretora da União da Juventude Socialista.Fiz parte da Frente Parlamentarista Estadual Jovem (risinhos)em 1994 e minha mãe guarda o jornal até hoje.A adolescente tímida, por força de estudo e disciplina, dirigia reuniões de representantes de turma com cento e cinqüenta pessoas, passeatas de quatro a cinco mil pessoas, e proferia discursos em congressos estudantis de pelo menos cento e cinqüenta pessoas. Possuía uma agenda de viagens com pelo menos uma para fora do estado por ano e uma grande "vantagem competitiva" em comparação á maioria das minhas amigas: uma mãe compreensiva, que me deu a chave de casa para sair e voltar a hora que bem entendesse (contanto que sempre avisasse onde e com quem estava) e aceitou todas as minhas opções, mesmo não concordando muito com elas. "Liberdade é responsabilidade" era seu lema. Hoje a agradeço por isso.Tinha tudo para me tornar mais uma frustrada.Hoje percebo que tive uma adolescência feliz e saudável, na medida do possível nesta sociedade, é claro.

E a música? Bem, como toda a adolescente, eu já me distanciava das referências familiares para adotar as referências de grupo. Só que meu "grupo" era algo assim, muito heterogêneo, fluído e instável. Da "galera" provinda do interior do estado ou "girada" do interior do Paraná, por exemplo, eu podia aprender coisas tão distantes da minha vida como "Menino da Porteira" do Sérgio Reis quanto "The Unforgiven" do Mettallica.O "povo do oestedo estado" se identificava mais com o "heavvy mettal", por estranho que pareça.Com eles conheci Iron Maiden, Black Sabbath e Brujeria (???!!!) Já a Ilha, talvez por suas paisagens ou por qualquer outro motivo, se afinava mais com o reggae,e algumas variações que dá para incluir como "rock alternativo".O "D'Azaranha" daqui mesmo e o "Skank" carioca estavam no "top list" na época.Não generalizemos, é claro. Tinha um cenário rockeiro sim, em Floripa, e tenho uma amiga que vivenciou este período como liderança estudantil e vocalista de uma banda de punk na ETFSC - Escola Técnica Federal de Santa Catarina.Mas não era a regra da maioria das escolas, e eu visitava a todas.Foi nessa época que conheci bandas pioneiras do Rap Florianopolitano, como o D.N.A e o Código Negro. Encantada com o estilo, pedi para o Mano Precário levar uma pessoa ao I.E.E e fazer uma apresentação de "bitbox".E assim se abria mais uma valiosa referência.Axé e Luta á todos os manos guerreiros de ontem e hoje.
Continuando...como liderança estudantil, eu tinha que dialogar com diversos grupos juvenis, mais de um sentimento complexo e contraditório - porque neste ponto todos os adolescentes são iguais -e também com mais de uma "geração do Movimento" porque haviam lideranças de 15 á 30 anos e, portanto,diversas sensibilidades auditivas.O ecletismo musical não era só uma qualidade política. Era uma necessidade.Acho que foi nesse momento que despertei para uma habilidade especial. Eu percebi, decorando imensas e diversas letras de música que tinha boa memória auditiva.E assim, ia me afinando para cantar e dançar junto com todas a multiplicidade de idéias, ideais e ritmos que se apresentavam.Despersonalizada musicalmente, eu me parecia cada vez mais com a caixa de ressonância de uma miríade de sensações muitas vezes conflitivas.

No quesito "geracional", naturalmente acontecia de trazermos ainda as referências de infância. Assim, no Movimento eu conheci a Maria Cristina.E tina dezesseis anos e ela 28, e a cito nesse quadro porque me ensinou a gostar de HQ's como "Sandman" e Constantine" e a ouvir, Led Zeppelin, The Doors, Janis Joplin e até Caryl Simon (????!!!).De Pink Floyd eu já gostava, por influência materna.Quase furei "The Dark Side of the moon" e "Animals", para mim os melhores álbuns para ficar deprimida,ler DC Comics e escrever meus diários.Assim como "The Wall" é o melhor para se fazer autocrítica e tentar calçar as "chinelinhas da humildade". Minha mãe ria das minhas "novidades": "-Mas Ginguinha, isso aí eu ouvia no meu tempo."Todas as mães do mundo já deram e vão continuar dando gargalhadas assim, e os filhos de todos os tempos vão continuar se sentindo muito irritados com isso.

Todos esses segmentos se encontravam no saudoso Bar do Frank, onde íamos para tomar cerveja, discutir a pauta das reuniões futuras,partilhar fofocas, dançar, nos emendar ou "desemendar" com "namorados, rolos e afins" e fundamentalmente descansar, pois para muitos de nós Movimento Estudantil era trabalho sério, que ocupava doze á quatorze horas por dia e deixava pouco espaço para a vida pessoal.Talvez por isso, se você pensou em "Caminhando e Cantando" de Geraldo Vandré, saiba que na verdade a maior parte das músicas mais pedidas falava de um sentimento bem brasileiro...saudades!"Ai que saudades d'ocê" do Vital Farias era uma das mais pedidas e cantada com todo o entusiasmo. "Taxi Lunar" do Zé Ramalho e "Andanças" da Beth Carvalho, também. Uma noite não rodopiada em "Bandolins" do Osvaldo Montenegro, era uma noite sem paixão. Mas a "top list", que não podia faltar, era sem sombra de dúvidas, "Vento Negro":

"A vida o tempo

A trilha o sol

Um vento forte se erguerá

Arrastando o que houver no chão

Vento negro, campo afora

Vai correr

Quem vai embora tem que saber

É viração."



Por outro lado, desde os CPC's (Centros Populares de Cultura, da UNE - o ME sempre foi grande produtor.Talvez porque a diversidade humana e temática tivesse como escape lógico á criatividade artística para os mais sensíveis.Inclua-se um dia entre mil pessoas seja com punhos em riste ou mãos levantadas a entoar o que seja, e você vai descobrir o significado exato da palavra "arrebatamento",especialmente se algum sentimento como senso de justiça,indignação ou orgulho cívico - coisas hoje tão distantes - se fizerem presentes.E com tais agentes propulsores, a criatividade juvenil funcionava a mil por hora. Falei dos mais sensíveis. Porém para os mais "brutos", digamos assim,restava ainda o hábito de produzir músicas satíricas, burlescas e irônicas que podiam servir para vangloriar uma corrente política em específico ou ironizar e/ou intimidar os adversários.Arrivista? Belicista? "Exercício de violência simbólica gratuita?" É...pode ser. Ainda bem que nasci numa época em que não se poderia ser processado por isso (risinhos debochados).Uma palavra de ordem que ironizava a própria obsessão:

Ado,ado,ado...o nosso forte é rima!(geralmente entoada quando algum mais "afoito" tentava "revidar o desaforo" com uma rima forçada)

E como eram tais desaforos? Alguns eram "versões" de músicas bem conhecidas, como por exemplo:

"se essa rua, se essa rua fosse minha......

eu mandava, eu mandava ladrilhar.......

com ossinhos, com ossinhos trotskistas

só pra ver a revolução passar...."


Ou outra, cantada na melodia de "Sociedade Alternativa" do Raul Seixas, e que também era obrigatória do Bar do Frank em suas duas versões, a original e esta:

"Se eu quero, e você quer

Mudar a situação

Ou discutir educação,

Ou fazer revolução então vem

Vem pra UJS, vem pra luta também, também...

Viva, viva

Viva a juventude socialista, comunista!"

Mas não era só para a produção de "palavras de ordem" e "versões em série" que procuravamos nos manter minimamente atualizados.
Alguns títulos de músicas eram apropriados para virar título de Teses Congressuais e outros trechos, para virarem "subtítulos" que dividiam os capítulos. Sempre escalada para "dar um toquezinho aqui,outro ali" ou ainda, escrever capítulos inteiros,até hoje para mim é um hábito dar título e subtítulo (de artigo, de trabalho de aula, de projeto de trabalho) com referência em músicas que afinal traduzem os sentimentos de uma época.Tenho um amigo que fez isso no seu TCC, outro na Dissertação, todos do mesmo tempo de movimento e compartilhando os mesmos vícios de escrita. São exemplos: "Saudações á quem tem coragem" (Nome de Tese do Congresso da UBES DE 1993 e que vem da música do Barão Vermelho),"Declare Guerra a quem finge te amar" (também do Barão Vermelho) "O Tempo Não Pára" (óbvia,de Cazuza), "Refazendo" (essa menos óbvia,vem de "Refazenda" do Gilberto Gil).E um dos subtítulos mais batidos era "eu me organizando posso desorganizar" direto do "Mangue Beach", para falar do tema "Organização":

Isso praticamente nos obrigava a estar "antenado", "atualizado", "de ouvido atento" á tudo de novo que aparecia.Mas de vez em quando, para trazer á tona o novo, precisávamos resgatar da discografia de nossos pais ou ainda,da época em que éramos crianças e ainda não nos "ligávamos" em algumas bandas.Caso das bandas anos 80 como Capital Inicial, U2, Plebe Rude e até Legião Urbana e Cazuza, que gravaram muito nesta época.Na maioria das vezes nos saíamos bem dessa aparente contradição.Mas outras não.Era quando ninguém conhecia a bendita música ou era muito difícil fazer com ela algum refrão que pudesse virar palavra de ordem. Nesse caso, era preciso muita raça para "fazer valer"."Caminhando contra o Vento" nome de tese do Congresso da UFES de 2001 foi o caso.
E não posso esquecer de falar das passeatas, ícone simbólico de qualquer movimento que se preze e grande viveiro criador de palavras de ordem e "versões musicais.Mas vou contar uma outra passagem interessante. A morte do vocalista do Nirvana, Kurt Cobain. Estavamos nós em frente á Assembléia Legislativa por volta de dez da manhã com três mil estudantes aproximadamente.Dessa vez era uma passeata de apoio á Greve dos Professores Alguém corre e me avisa: "-Não há resposta, e só conseguiremos entrar em uma hora mais ou menos." Respondo assim, educadamente: "Mas p...!!!Assim o povo vai dispersar todo, como pressionar? Vamos invadir então!" -"Não, ainda não!A negociação esta avançando, há gestos de boa vontade...,inventa aí." Preocupada com o que ia dizer na Komby de som, ouço alguém gritando: "Kurt morreeeeeuuuuu!!!"Um lâmpada se acende no balãozinho ao lado da cabeça e me tira do aperto."-Galera, um minuto de atenção, por favor. Acabamos de ser informados da morte do vocalista Kurt Cobain. Do Nirvana. Vamos fazer uma hora ininterrupta de Nirvana em homenagem.Por favor, quem tiver fitas cassetes e que puder emprestar,com músicas dessa banda que marcou nossa história, favor falar comigo mesma que ficarei responsável pela devolução..." E imediatamente, saquei da minha mochila a minha própria fitinha.Não pude deixar de rir quando ouvi o trecho:

Hello, hello, hello, how low

Hello, hello, hello...



With the lights out it's less dangerous

Here we are now entertain us

Not just stupid and contagious

Here we are now entertain us



Tradução livre,ou mais ou menos assim

Olá, olá olá como vai

Olá,olá,olá



Com as luzes apagadas é menos perigoso

Aqui estamos nós, entretenha-nos

Não é apenas estúpido e contagioso

Aqui estamos nós, entretenha-nos

Mas nem só de Tese Congressual e passeata vive a adolescente comunista.O despertar da sexualidade,a força da paixão,as decepções e amizades também tem seu espaço.Com descoberta da paixão,a dor-de cotovelo e a perda, temas internacionais de 80 entre 100 músicas registradas ontem e hoje.Me lembro que nessa época, por força do hábito ,acabei escrevendo uma dolorida carta de término de namoro com nada menos que dez trechos de músicas diferentes citadas.Eu era uma jovem comunista que dominava minimamente a lígua "yankee e imperialista" e me utilizava dela á larga para os meus "rasgos individualistas" e "inconfessos" para a coletividade.Nessa carta eu fazia uma "avaliação" do "relacionamento" e nem vou lembrar de tudo. Mas lembro que terminava com "Black, do Pearl Jam":

"All the pictures have all been washed in black, tattooed everything...

All the love gone bad turned my world to black

Tattooed all I see, all that I am, all I will be...yeah...

Uh huh...uh huh...ooh...

I know someday you'll have a beautiful life, I know you'll be a star

In somebody else's sky, but why, why, why

Can't it be, can't it be mine" (nessa última frase, um vocalista fanho berra em tom desesperador, o que torna tudo mais desesperador ainda)!


Tradução:

Todas as imagens estão sendo lavadas em preto

Tatuando tudo...

Todo amor virou mal,levando o meu mundo pro escuro

Tatuando tudo o que vejo,o que sou,o que serei...yeah

Eu sei que um dia você terá uma vida maravilhosa,eu sei que você será como uma estrela

No céu de um outro alguém,mas por que?,por quê?,por que não poderia?

Por que não poderia ser no meu?



Drástico, não? Fica o aviso aos "adultos" que pensam que no mundo infantil e adolescente tudo é bobagem, fantasia e despreocupação.Vocês esqueceram. Mas adolescente sofre, e muito.Os hormônios não trazem apenas mais vigor sexual. Trazem mais intensidade para os sentimentos também.

Na vida da adolescente comunista também existiu o ingresso no mundo do trabalho. E eu comecei a trabalhar com dezesseis anos, como estagiária da Epagri. Depois fui officce-girl, vendedora, telemarketing e por fim, recepcionista. Aqui, me lembro que o saudoso Adriano, presidente da UCE (União Catarinense de Estudantes),que me emprestou toda a coleção de "The Smiths" e com quem conversava por longas horas sobre coisas tão diversas quanto DC Comics, Guerra no Iraque,Novas Bandas e a eterna discussão da necessidade de ingressar na Universidade.Por estas "broncas" agradeço tanto ao Adriano de Souza, quanto ao Marco Fernandes e ao André Ruas de Aguiar.Já podia dizer-me "adultescente", com vinte e um anos e já tínhamos acesso á internet, o que revolucionou nossas "garimpagens ao disco" e "truques de manutenção de fitas cacete" (assim mesmo, com "c"). E a música que eu cantava na Recepção era:

"I was happy in the haze of a drunken hour

But heaven knows I'm miserable now

I was looking for a job, and then I found a job

And heaven knows I'm miserable now"

In my life


Why do I smile (nesse momento eu aproveitava para abrir um sorriso bastante cínico no meu rosto, com a certeza de que ninguém mais entendia o que eu estava cantando)To people who

I'd much rather kick in the eye?



Tradução do site Terra, porque estou com preguiça:



Eu estava feliz na bruma de uma hora embriagada

Mas o céu sabe que eu sou um miserável agora

Estava procurando um emprego

E então eu encontrei um emprego

E o céu sabe que eu eu sou um miserável agora

Na minha vida

Por que eu sorrio

para pessoas que dificilmente fito nos olhos?

Melancolia infinita anos 80 que terminava logo ali, por 13:00 horas da tarde (entrava ás 07:30), que era quando eu voltava para a turma do movimento até umas 18:30.Depois disso, os estudos.

"E só? Dor de amor? Trabalho? Congresso e passeata (ou seja, mais trabalho)? Que é isso minha filha? Cadê o lado "feliz e saudável" que você prometeu no início?E as drogas? E o sexo? E o Rock 'n roll?" Bem, no amor, no trabalho, nos estudos e também nos Congressos, e claro que haviam muitos momentos felizes e tristes.Drogas, sexo e rock 'roll? Bem, para não me estender, vou dizer que isso eram "opções individuais pelas quais não se poderia responsabilizar o coletivo". Ou seja, ninguém nunca obrigou ninguém á nada, e a pressão de grupo funcionava mal nestes assuntos (tanto parara "o bem" quanto para "o mal" digamos assim). Mas para além de tudo isso, ainda haviam os acampamentos, onde poderíamos escapar mais um pouco dos "clichês anticomunistas" e demais "pressões sociais" como esta de que adolescente só sabe mesmo é transar sem camisinha e usar drogas. Acampamento da UJS era o momento mais aguardado do ano em toda a militância juvenil.Dois dias apenas para tirar a limpo tudo o que foi citado acima (estou falando de congresso, trabalho, estudos, tá?).E o mais importante. Rever amigos de todo o estado. Geralmente acontecia na praia de Naufragados.Tanto nos acampamentos quanto nos ônibus que nos levavam aos Congressos, músicas conhecidas por todos e de preferência bem longas (num caso para encurtar a viagem, no outro para prolongar a proximidade e o tempo de aproximação)eram a pedida certa. Legião Urbana era o certo. Coincidência ou não, ele acabou gravando um CD chamado "Musicas para Acampamento".E é com esse trecho que encerro esta crônica tão extensa, que traz a tona os momentos mais felizes de minha vida, talvez das nossas, onde fizemos amigos verdadeiros, conhecemos pessoas inesquecíveis, viajamos, argumentamos,ganhamos e perdemos,nos apaixonamos, nos desentendemos, nos "refizemos" e um dia, por fim, "adultescemos".

"Disciplina é liberdade

Compaixão é fortaleza

Ter bondade é ter coragem

(e ela disse) - Lá em casa tem um poço

Mas a água é muito limpa"

(*Ah-ha!Pensou que eu ia citar "Faroeste Caboclo, hein? Foi só para tornar menos óbvio. Essa é claro que você lembra.)