domingo, 18 de janeiro de 2009

Natais Solitários - 2


Aconteceu que numa certa noite muito fria do ano, em um lugar desértico e triste imerso em imenso vazio,uma grande estrela brilhou no céu, iluminando o cenário antes desconhecido. Seguramente era um estábulo, e ao centro, uma manjedoura vazia. Ao lado, ao invés de cabras, ovelhas, bois ou camelos e outros animais: cães, gatos, cavalos, passarinhos e até...iguanas e furões. Seus olhos eram tristes, vazios, inocentes e mansos como dizem que devem ser aqueles a conquistar o reino dos céus. Tudo ali era abandono e tristeza. Os animais, fora de contexto, aguardavam por ela, a observadora invisível a si mesma.
Foi quando Miriam despertou.
Ter um sonho como este na noite de Natal parecia querer indicar algo muito importante. Ficou algum tempo acordada no escuro de olhos fechados, relembrando toda a seqüência. Deslizou para o outro lado da cama e conferiu o horário no relógio. Quase duas da manhã. "Droga! Maldita insônia!"Depois levantou-se lentamente em direção a sala. Em sua cama, Merlin - o gato - gemeu manhoso e tornou a dormir. Sua cachorrinha Laica, seguida de Rita,Greta e Ava, todas encontradas nos ultimos três meses e ainda a espera de adoção, seguiram-na.
Pensando um pouco melhor, foi até a cozinha. Esquentou um copo de leite, fez um sanduíche de peito de peru e cheddar e começou a refletir em seus sentimentos antes de dormir. Tristeza & Solidão? Liberdade & Angústia? A verdade é que este era o primeiro Natal que passaria sozinha, simplesmente porque na desorganização quotidiana, perderam-se todas a possibilidades de se organizar para passar na companhia de familiares e amigos. Na verdade, seu novo emprego e os últimos trabalhos da faculdade mal lhe deram tempo de pensar em algo além do básico para sua sobrevivência e a de seus bichinhos. Dividia a casa com mais duas moças que atendiam os requisitos de seu anúncio - não fumantes, estudantes e organizadas. Elas foram passar o Natal com as famílias no Oeste do Estado. Só ela ficara. Ela e eles.
Esquadrinhava ponto por ponto. O deserto. A sensação de frio. A manjedoura vazia. Um Jesus -Menino ainda muito sorridente mas cuja aureula refletia uma fria solidão, que lhe trazia estranhos calafrios. A óbvia estrela de Belém. Pareciam todos muito ausentes em seus sentimentos, pois o que lhe comovia mesmo eram os bichinhos e o olhar que parecia um silencioso pedido de socorro. E quando ela retornava seu olhar ao bebê ali sozinho, parecia que ele compreendia inteiramente a cena e queria lhe comunicar alguma coisa. Aquilo tinha que significar algo. Mas o quê?
Olhou os cães. Fidelidade. Parcerias. Amigas. Há algum tempo, sabia que elas estavam para se mudar. Sentia isso. Não gostavam dos bichos e uma delas - Cibele - foi muito franca em lhe dizer que achava seu apego ao Merlin algo fora do normal. Em resposta às suas considerações - algumas injustas, outras bastante sensatas - prometeu colocar os cães (as "cães" na verdade, pois eram todas fêmeas) em adoção, mas ninguém quisera. Não tinha coragem de abandoná-las, e enquanto isso ia cuidando delas sem nenhuma ajuda ou solidariedade das companheiras e seguia espalhando sozinha seus cartazes.
Na verdade, Cibele insinuara um pouco mais. Insinuara que sua relação com os animais aumentava da mesma medida em que se distanciava dos pretendentes e até dos colegas. Um pouquinho mais exaltada, talvez dissesse que traía a Raça Humana. Mas aí seria certo exagero. "Se bem que há muito tempo que não há muito o que admirar na Raça Humana". Pensou no ar escandalizado de Cibele se lhe revelasse este pensamento. Sorriu com a idéia. Mas talvez estivesse sendo maldosa, afinal. Pior mesmo era Lilian. Seu olhar era uma acusação muda e uma aquiescência a argumentação de Cibele. Incapaz de falar por si mesma, fingia superioridade e afetação diante de tudo. E silenciosamente deixava o barco a deriva, sem nada fazer, tornado-se cada vez mais esquiva e ausente.
Certa vez Lilian lhe confidenciara que todas as relações, absolutamente todas, se erguiam com base em algum tipo de interesse. Nem que o interesse em questão fosse afeto. Ou simples amizade. As pessoas se aproximariam umas das outras tendo em vista a necessidade de preencher de algo que lhes faltava. Mirian considerava tal pensamento deplorável, abjeto mesmo, quase uma falha de caráter. Nesse caso, preferia realmente o afeto de seus animais. Eles queriam sim, afeto e sustento. Mas lhe entregavam mais que isso, lealdade, fidelidade totais e exclusivas, por exemplo. Laica seguramente entregaria a vida por ela e seus ancestrais, domesticados a muito custo, fizeram uma opção ainda mais difícil. Renunciaram a sua liberdade. De quantos seres humanos conhecidos poderíamos dizer o mesmo?
Mirian se exaltava pensando em tudo o que não contra-argumentara no momento, exemplos históricos e culturais de solidariedade sem ter em vista qualquer tipo de retribuição, excelentes exemplos de generosidades anônimas e exemplos incompreensíveis de coragem e determinação absolutamente estranhos á racionalidade instrumental...animais mesmo. Irracional, e daí? Os bichinhos, por sua vez, pareceram sentir a agitação extrema da dona perdida em seus devaneios e se inquietaram. Rita gemeu em seu sonho. Merlin acordou e olhou para ela, inquiridor:
- "Por que não pensa mais baixo? Estou dormindo!"
Merlin também estava ao seu lado agora. Seu olhar significava - "ração"!
- Ora, meninos, é Natal! Por que a mama esta sendo tão malvada com vocês, não é mesmo?
Abriu o armário e sacou dele quatro latas distintas. As "meninas" pareceram sorrir, e uma delas dava voltas e pulava nas patas traseiras, como um pula-pula. Realmente, Laica parecia ter molas nas patas e dava shows de agradecimento toda a vez que ela abria uma lata. Já Merlin tinha o extremo oposto de reação. Olhava indiferente e ameaçava mesmo virar-se e ir embora. Quando ela finalmente colocava o conteúdo do sachê em seu pote estrategicamente posicionado em cima do balcão passa-pratos, ele ainda ficava ali, em silêncio e olhando a distância. Depois comia, um bocadinho de cada vez inicialmente. Por fim, devorava tudo. Á seu modo, orgulhoso e cheio-de-si, Merlin também parecia agradecido, afinal.
Merlin não fora sempre assim, nobiliárquico. Tinha, pelo que sabia, atravessado momentos muito difíceis, a despeito do suposto pedigree. Quando chegou à sua casa, com quase um ano e meio de idade, as almofadinhas das patas estavam completamente assadas de andar no cimento quente e parte dos pelos longos estava falho, queimados com óleo quente que algum recalcado - filho-do-capeta-sem-mãe - atirou nele, no objetivo de espantá-lo de sua residência. Sim, Merlin seguramente conhecia o Inferno. Com a língua esticada de sede e magro como nunca, ainda assim não perdeu a pose nem a fidalguia. Se estendeu em frente à sua casa e se limitava a deixar-se ser observado. Ela lhe deu comida. Água. Carinho. Logo após lhe deixou entrar. Permitiu que ela lhe banhasse e lhe desse uma coleira com placa de identificação. Muito em breve ele conquistaria um espaço na poltrona, na sua cama e em seu coração.
As amigas questionaram: - "Por que tantos carinhos desperdiçados com um gato? E o Mário, por exemplo?"
Mas o quê! Esse não chegaria nem à soleira da porta. Merlin parecia saber disso. Quando via Mário no portão da casa, praticamente implorando para entrar, vigiava-o da sacada com evidente ar de superioridade. Ela censurava Merlin, é claro, mas com tamanho ar de riso que nem Merlin nem ninguém com mais de dois neurônios levaria a sério. Ela não achava, sinceramente, que o gato devesse demonstrar assim, tamanho desprezo pelo rapaz. Achava até meio perigoso isso. Só não podia deixar de rir.
Ligou a TV. O sonho não saía da cabeça. Rodeavam-na seu séquito particular. Merlin e suas três cachorras. Todos, feita a ceia, prodigalizavam-lhe afagos ao mesmo tempo em que se arrumavam para dormir, menos ela, que bebia seu leite em silêncio e sem prestar atenção nas bobagens que a TV insistia em lhe mostrar, enquanto "zapeava" a esmo. Foi quando Laica levantou a cabeça e a orelha esquerda. Pata ante pata, atravessou a sala silenciosamente até a porta. Rosnou baixo. Alarme. Mirian, deslocou-se o mais silenciosamente que conseguiu e pegou o facão que guardava para estas ocasiões, dentro da gaveta da pseudo-cristaleira. Aproximou-se da porta, aguçando os ouvidos... nada. Um gemido. Baixinho demais. Assustou-se, mas reuniu coragem para abrir a porta num solavanco só. Nada em frente. Nada em volta. Olhou para baixo.
- "Ai, não!"
Mirian disse isso sem convicção ou vontade. Disse por dizer, pois sentia na verdade uma ternura extrema, quase um êxtase. Não era uma revelação, pois que esta tinha vindo antes, era uma confirmação.
Ela era uma fêmea. Pequena. Raça não definida. Definitivamente... uma gracinha branca e preta com olhos verdes abertos em alegria e esperança em lhe ver. O charme adicional era uma grande borboleta tatuada na testa. Sem dúvida, a gatinha mais fofa vista até agora. Tinha uma aura especial. Ia ficar linda quando crescesse, mas...
- A promessa! - Gritou a memória, trazendo na mala sua lembrança inconveniente e importuna!
Merlin deveria ser o último gato. As três cachorras deveriam ser entregues para a adoção. O fim da troca de jornais e areia diária, da reclamação da vizinha e seus peixes, do horror dos preços de vacinação, castração, ração... Meu Deus! Não havia bolsa que desse jeito.O auxílio que recebiam como estudantes não daríam mesmo para as despesas diárias, não fosse pelo auxílio dos parentes não sabia o que seria, mas muito menos dariam conta do sustento de seus "dependentes". "- O que será que pretendia Miriam, enchendo a casa de bichos, hein?" Podia ouvir a voz de Cibele falando. Devia sentir-se culpada e apreensiva. Mas não! O que sentia era uma sublime sensação de bem-estar, já se abraçava na gatinha e ria. A gatinha ronronou em resposta. Lambeu seu queixo e conquistou no ato seu coração, colocando por terra o último bastião de resistência.
- "Mary Poppins" será o seu nome" - pensou Mirian, pois era o nome do filme que passava nesse momento no Corujão.
Lembrou da manjedoura, mas agora parecia que via nela um vulto de criança iluminada. Lembrou dos animais que, sem temer a homem ou divindade alguma, prestavam-lhe acolhida e aconchego propiciando calor naquela noite fria que seria toda a sua vida - como a dela também.
Mirian então teve uma súbita revelação quanto ao significado de seu sonho.
Era isso mesmo.
Seu cérebro ágil e treinado de estudante de Administração, se pudesse ser visto nesse momento, teria várias áreas, à esquerda e à direita, iluminadas ao mesmo tempo no pseudo-elétro. Um apagão ao contrário. No linguajar acadêmico: "Insight! Ação!"
Abriu o laptop amigo de todas as horas - apelido Guerreiro - e escreveu:

"Precisa-se de Moças para dividir um Lar.
Alegre, bem -humorada, estudante e não fumante, disposta a dividir um pedacinho de céu
com lindo pomar no quintal.
Imprescindível: gostar de animais.
Ofereço: divisão justa das despesas, companhia não invasiva e silenciosa, além de sociedade na Organização Não-Governamental de Bem-estar Animal a ser fundada em março do ano corrente!"

Em sua mente os fogos de artifício eram como pingentes para a estrela de Belém fulgurante no céu de sua imaginação, onde o olhar de cães e gatos se iluminavam em agradecimento, inundando-a com uma quase terrível sensação de paz. Finalmente sentia ter em si o famoso "Espirito de Natal"!
Cibele... ah, Cibele... para o inferno você e suas cobranças!