sábado, 16 de maio de 2009

Animais domésticos.



“I’ve got to keep moving’...Ther’s a Hellhound on my trail.”
Robert Johnson.


Sobrevivem dos meus restos
ou devoram me em pesadelos.
trago-os a pulso sob cadeias
mas distraem-me, criando novos embaraços.

Alguns eram feridos de morte
E hoje os que me tem mais apego
Os primeiros e mais fortes.
A seguir-me pelas calçadas.

Outros tremiam de medo
são os que adoram um brinquedo
Alguns de apetite voraz
amigos do Cão-Satanás
e a grande maioria
não é guarda,só guia
destes guardo segredo
e não rimam com nada mesmo.


Enormes, quase um metro (de quatro)
presas claras, pelos fartos
de olhos ígneos - fátuos
e um "savoir- faire" acadêmico.


Saio á caráter passeio
E levo pela corrente
os meus novos pensamentos
Em busca de um campo aberto
onde possa vê-los correr
Bobos alegres desfraldando pássaros.

Não há horizonte por perto
Toda a parte é aço e concreto
Mas o sol abraça a causa
E meus cães abanam a cauda
quando encontram pelo caminho
Ma(i)s novas idéias.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Indomada


"Eu não ficaria bem na sua estante."
(eu já disse isso muitos anos antes, mas agora a Pitty musicou, então é dela).

"Não podemos ver a beleza essencial de um animal enjaulado, apenas a sombra de sua beleza perdida" – Júlia Allen Field, 1937


Preciso contar minha versão da história, para que amanhã duvidem...

"Desterro,madrugada de segunda feira
Trilhas virgens me conduzem a maré vazante.Em breve terei de volta o abraço quente e úmido das estradas.Agora não...
Estou só, e exatamente onde queriam que eu estivesse.
Arisca demais, não soube reconhecer o laço de minha própria armadilha.A curiosidade tola, tão acostumada ao confronto aberto das selvas e que me fez cativa de uma familia circense.
Capturada, tentaram primeiro aprisionar meu corpo.
Ejaulada para exposição sistemática - devolvi-lhes com melancólico desprezo e fingida apatia.Perdia pouco a pouco o brilho e ouvia os pássaros cantarem a dor de minha desdita e rogarem por meu retorno, sem compreender que ainda não poderia.
Só ao estalar do chicote eu reagia, mas com raiva.
E alguns domadores logo repetiram: "indomável...e indomada."
Assim permance porque aceitou o risco.Ninguém pode fazer mais nada.

Enquanto isso,no cárcere do meu peito,a chama de um lado a outro caminhava, e com as mãos cruzadas atrás das costas, cigarro após cigarro,aguardava qualquer deslize repentino.
Me recusei a comer, contrariando todo o instinto.Deixava a morte cobrir-me com seus beijos letárgicos.A Morte sim, mas nunca as moscas...
Mas precisavam alimentar-me.Queriam -me viva ainda que sob jugo.
Queriam por querer e queriam o impossível!
Nesse momento, quando eu já estava em meus ultimos suspiros, algo finalmente aconteceu.
Enquanto tentavam me empurrar qualquer coisa rançosa e morta garganta abaixo, arranquei a mão de um deles, e o sangue me devolveu algo de minha antiga ferocidade.
Haveria enfim revanche e eu exultava e tremia, antecipando prazeres violentos.
Tentaram domar minha mente,castrar minha língua,cegar minha pena afiada - gritei tão alto que acordei seus fantasmas.Aproveitei do susto e saltei disposta a quebrar ossos e arrancar pedaços de carne amarga e macia nem que fosse com os dentes mesmo.
Rasguei suas roupas e dei-lhes um espelho,para que vissem a extensão de sua miséria, porque pensei que assim ganharia mais tempo.
Quantos eram? Três ou quatro. Mas apenas um pareceu fugir assustado.Os outros simplesmente não refletem mais.
Eu me vi livre e corri para a mata,que já havia sido devastada.Eu me perdi no caminho de volta,com eles em meu encalço.
Me enjaularam de novo,e não foi sem luta,sem preço e sem resistência.
Tentaram quebrar meu espírito recuei perante tanta sandice abotoada e conveniência (que rima com conivência,indolência,leniência,aparência,indecência e abstinência).
Eu rimei também: impertinência e insolência - e aprendi a amar estas palavras com fervor quase religioso.
E foi o que me salvou de todo o resto.
Ousaram me ameaçar. Os abismos ecoam ainda hoje minhas gargalhadas.
E onde quer que rastejem, ainda hão de lembrar:
-Saiam desse buraco!
Covardes estúpidos! Eu adoro lutar!
Quiseram adular-me,agraciar-me,acarinhar-me.Desconfiada e arredia, acabei vomitando por sobre suas peliças repugnantes.
Só o silêncio se fez desde então.
Esse tipo de silêncio que jaz derrotado em todas as calçadas
de todas as cidades enoveladas e adormecidas em si mesmas.
Nova pausa, nova fuga, foi quando decidi perder-me de vez.
Não pude evitar na luta que meu escudo trincasse
que meu coração se partisse.
E quando me falam em perdão, eu sinceramente gostaria de saber do que se trata.
Mas meu inimigos,onde estão?
Sombras de sombras das sombras que são
seus próprios selos e pesadelos.
Gozando a "liberdade" asfixiante de enganarem a si mesmos.
-Isso nunca, e mais nunca obrigada - vou morrer na certeza de que só o céu é infinito.
E vou sair e desafiar o dia,o sol e o tempo com meus rugidos.
Sei que a Arte virá por fim resgatar-me.
É com lágrimas nos olhos que reencontro com o luar na maré cheia.
Levanto no meu passo rápido, leve e claro,
nuvens prateadas de areia.
Para onde? Luna,para onde? Ouvi um pulsar-estrela
que clama por minha alma para sempre inconquistada
...