terça-feira, 30 de junho de 2009

Satíricas 1





Porque falava italiano e versava em rondel
Tinha olhos doces,castanhos e voz de menestrel
Conheci-o enquanto passava a tropa em revista,
Pois sabia que o capitão tinha alma de artista.

E quando pousei meus sonhos em seus lábios de mel
Encerrou-os com beijo, uma promessa e um anel!
Porque falava italiano e versava em rondel
Tinha olhos doces,castanhos e voz de menestrel

Mas o tédio...mas as dívidas...quis voltar para o bordel!
Escândalo? Ranger de dentes? Eu que adoro um escarcéu...
já quem fale desse meu jeito...mas eu mando pro beleléu
E volto para dantes nunca fora!Leviana vivendo ao léu!E ele?
Porque falava italiano e versava em rondel...

Insônia




Olhos abertos na escuridão.
Silêncio,provocação.
Pelos sonhos - que como água
por entre os dedos me escapam-
nem uma flor cairá!
Ouvidos afinados na chama
que pulsa e expulsa a cria
Foge pelas frestas no Ultimo Ato.
Por trás das cortinas,
forçando as portas
ou no meu porta-retrato
um ladrão!

Tecendo a noite durante o dia
puxando pelos fios dos lençóis em que
me debato, e não confesso, eu me desfaço.
Em nada!
Não há pedrinhas pipocando em minha janela,
suspiros ou serenatas.
Só de vez em quando alguém dá uma pedrada.

Implacável certeza: há um inequívoco apelo
na madrugada fria.
Do outro lado da linha,da tela
ou em algum descampado da mente
Brota a angústia e
ressoam os atabaques
de Eros & Tanatos,
Sem razão, sem tesão,ódio ou alegria
Eu quero um chá-de-alma
Em alforria.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Trilha Sonora que a Vida Não Tem (infelizmente).


Parte I - A Infância
Se aproxima meu aniversário.Alcançarei agora os trinta e um anos.Aos que pensaram de imediato em "Crise dos 30", eu respondo assim com esse jeito melancólico que a idade traz, "mais ou menos"."A idade traz", quase ouço minhas amigas de "enta" protestando...você não esta velha nem com um pé na cova. Claro,terça parte de vida bem vivida, talvez um pouco menos, quem sabe? Mas de certo modo chegar aos trinta e um pode soar mais grave do que completar 30 voltas junto ao planeta terra. Coladinha na proa, sem enjoar nem pedir para descer, de braços abertos ao vento como aquela cena clássica de Kate Winstley em "Titanic" (a comparação é pessima, mas tudo bem).O filme de minha minúscula existência de pequena gota no oceano humano passa diante dos meus olhos também um pouco como o navio singra o mar,lentamente, inexoravelmente, em incompreensível velocidade. Por que? Para que? Ora...algum dia se soube?
"Já não tens quinze, nem jamais terás novamente..." Relativo. Eu possuo os "quinze", os "cinco", os "25" e os "nove", só os "três anos para trás" ainda que me escapam. Hoje, posso incluir a trilha sonora da minha terça parte - esse quinhão de vivências - e alterar no presente o passado e o futuro, fundamentalmente porque sou livre ou ainda, porque sou mesmo louca.Mas convido você gentilmente a embarcar comigo na minha loucura em teimar em dizer que só o presente existe (e sei não ser eu a primeira a dizer isso).E que o filme da minha vida, que passa agora bem diante dos meus olhos, tem sim trilha sonora, porque eu a encaixei.
Por algum motivo, sempre que o filme passa, se inicia naquela primeira memória de infância.Casa escura, tio Alfredo, tia Maria do Carmo e vovó a beira- da porta, vento frio que cortava os lábios e assobiava nos ouvidos.
-"Prazer em conhecer...mainha vamos embora?" É isso. Esse desejo imenso de ir embora que jamais me abandonou é o que me remete essa primeira memória completamente Instrumental (orquestra e percussão, provavelmente meu pai Erasto ou meu tio Naná, ou ainda os dois, e alguma Filarmônica). O tempo passa e ainda eu não tenho escolhas.Fiquei, e a Casa se abriu aos poucos, sorrindo em boas vindas para mim.As canções que a preenchem são muitas agora,mas são outras.Não tem mais xequerê, berimbau ou agogô, mas sanfona,gaita e acordeão.Lá residem as melhores lembranças, dias ensolarados com a avó e seu avental,cheiro de "merengão" no forno á lenha e a chegada do meu primeiro cachorro. Como escolher o nome?

"Bobby, Lulu,Lulu, Bobby
Snoopy, Rocky, Rex e Rintintin"

Bobby! É claro. Muitas metáforas dessa obra incrível do Chico Buarque "Os Saltimbancos" ainda não me eram assim, apreensíveis.Nunca serão inteiramente.Chico é por todos um incompreendido. É notoriamente uma obra para adultos, e politizados ainda por cima. Como não? Veja a estrofe que encerra a "musiquinha":

"Estou às ordens
Sempre, sim, senhor

Fidelidade
À minha farda
Sempre na guarda
Do seu portão
Fidelidade
À minha fome
Sempre mordomo
E cada vez mais cão."

Você pode banalizar isso ou perceber a relação cŕitica desse trecho com a desumanização de uma categoria em um regime que supostamente os privilegiaria - o regime militar, ou ainda uma crítica dura ao próprio e aos homens que o mantinham. Eu não entendia esta parte,é claro. Mas me tocou tão profundamente que o meu primeiro cachorro teve seu batismo por causa desta música exatamente.
Uma sensibilidade sistemáticamente moldada por princípios de esquerda, talvez mais profundamente do que muitos pais e mães verdadeiramente "rojos" conseguiram imprimir em seus filhos. Só que no meu caso foi acidental. Eu embalava minhas bonecas com uma musiquinha que tinha aprendido em espanhol, pura delícia de enrolar a língua, gosto de desafio dessa gente que adora falar em "sangre y passión":

"Duerme, duerme, negrito
Que tu mama esta en el campo negrito
Trabajando
Trabajando duramente, (Trabajando sí)
Trabajando e va de luto, (Trabajando sí)
Trabajando e no le pagan, (Trabajando sí)
Trabajando e va tosiendo, (Trabajando sí)"

Não se pode dizer que minha tia professasse ideais libertários, politicamente conservadora até eu diria, se opôs com veemência quando mais tarde me declarei comunista, por exemplo. Mas ao seu modo, professava ideias de justiça e extrema moralidade no trato com a "coisa pública". E por ser justa e de elevada estatura moral (o que não se pode dizer de muitos "rojos" e libertários por aí), quando perguntei não me omitiu: era uma música que denunciava a condição campesina na Argentina e em toda a parte.É claro que tinha o Balão Mágico, a Xuxa e a Angélica. Mas estas músicas "de adulto" que eu tentava aprender com devoção silenciosa e sincera eram as que me tocavam mais, e eu não ousava confessar isso as amiguinhas da minha idade. Hoje percebo que me tocavam mais porque propiciavam um desafio intelectual e traziam á tona sentimentos fortes de revolta, de abandono, de amor pelo justo e de questionamento da condição humana. Ás vezes era o próprio jogo de palavras que me fascinava, mais ainda do que o siginificado.Mas naquele tempo, como explicar algo assim para você mesmo, ou para outras pessoas? Tinha seis anos e sabia de cor a letra "Vaca Profana", e se você conhece, imagine agora uma criança de seis anos cantando:

"Segue a "movida madrileña"
Também te mata barcelona
Napoli, pino, pi, pau, punks
Picassos movem-se por londres
Bahia, onipresentemente
Rio e belíssimo horizonte

(nesse trecho eu revirava os olhos)

Naturalmente que eu nem sabia o que estava dizendo.E ninguém conseguia me explicar muito bem. Mas eu sabia a letra inteira, e era convidada a cantar para toda a visita que chegasse na sala.Corta a cena. Criança em uma sala lendo um gibi, duas mulheres adultas se aproximam, aproximadamente trinta anos, talvez um pouco menos. Uma veste calças sociais com vinco, camisa de seda com ombreiras e lenço de bolinhas, a outra é minha tia Ceci, alta, corpo violão apertado em roupas extremamente castiças.A segunda diz: "Ginguinha, venha cantar?" "Ginguinha" responde: - "Sabe, tenho certeza que a tia tem dinheiro para comprar o disco. Então vou lhe dar uma idéia. A senhora compra e depois, toda a vez que chegar uma visita, põe o disco para tocar na faixa, que tal?" Um primeiro rompante de personalidade. Com trilha sonora encaixada, para tornar a cena á lá comédia ainda mais enfática. Gal Costa trinando "ê,ê,ê,ê,ê..."
Drama social, fantasia,comédia...a vida se me apresentava em seus primeiros acordes. Se estivessemos tratando de uma obra clássica, e não de uma pequena vivência, diríamos que é a "introdução", onde apenas se apresentam os temas que serão esmiuçados e entrelaçados no desenvolvimento. Solve et coagula.Eu estava sendo apenas apresentada aos primeiros elementos, ás primeiras emoções,ás primeiras notas de um coração eternamente palpitante e palpitoso.O amor já se apresentava como tema, é claro que sempre em forma de amor/familia ou amor/amigos.Quem não tem uma lembrança de recital de Dia das Mães? Bem, eu não tenho, mas me lembro de cantar para ela na praia uma música que eu conheci interpretada pela Marisa Monte:

"Ogunté, Marabô,Kaiala &Sobá
Oloxúm, Inaê,Janaína e Iemanjá
São rainhas do mar..."

E também naquele momento não sabia o que dizia.Viria o momento de preencher esta lacuna.Mas aos nove anos, á beira mar a balançar as mãozinhas e os quadris tentando seguir o ritmo enquanto batucavam os amigos Renan e Fábio encima da minha pranchinha morey-buggy, era quase que um recitar descomprometido como qualquer outro, com a clara intenção de chamar a atneção e agradar. Eu disse quase. Alguns sentimentos estranhos me perpassavam, e parecia que eu tomava ciência da grandeza da Mãe que era não só a minha,mas também o Mar, a Natureza,A Vida que se encaranavam todas numa pessoa, que era minha mamãe.Ela era tudo isso e também muitas coisas que devem ser ditas e escritas no Feminino.
Mas também outros sentimentos, sombrios e gélidos se insinuaram por esta estranha e retorcida porta que é o ouvido.Meu primeiro sentimento de humilhação pública,por exemplo:

"Mãezinha do céu
Eu não sei rezar
Só sei dizer
Quero te amar..."

É, a letra não fala nada de humilhar ninguém, mas era eu sozinha numa sala cheia aos sete anos ainda, recém ingressa no colégio Nossa Senhora das Dores em POA, a cantar essa música para minha turma inteira, que me assistiu em silêncio, numa confissão clara da despreocupação de minha família com tais assuntos.No recreio, é claro, a explicação malbaratada: "é que ninguém lá em casa é assim...muito preocupado com essas coisas de religião, sabes?"Este "muro" - cantar em público,falar em público - eu tive que derrubar impiedosamente mais tarde.
E o Terror também assim se mostrou ao meu coração de pária.Sim, aos oito anos eu já me sentia algo pária e meus gostos musicais não iriam ajudar no meu "enquadramento". Aos poucos,sabia-me estranha ao meio com um vastíssimo repertório imaginativo que não sabia bem como partilhar.E tinha também o Medo.O sentimento de medo se concentrava em certas músicas de modo anormal, o disco era posto, a agulha mal arranhava o vinil e era eu já cheia de tenebrosas expectativas.Me encolhia no sofá tremendo, num afã de querer e não querer ouvir, querer gritar mas não querer dizer e,também, não saber dizer o que afinal tanto me incomodava naquela música em específico.Aos poucos, ia eu mesma me vencendo e hoje percebo o lado positivo de ter sido exposta a elas assim, tão cedo. Trouxe força ao caráter e tranquilidade em enfrentar o perigo - mesmo do desconhecido. Ouvir, ouvir repetidamente.Ignorar os apelos dos tios: "Ginga, confessa que não quer ouvir essa música, quer que pule a faixa?" Não, não queria e não confessava. "Vou ouvir de novo". Ouvir mais, até perceber onde se escondem estas sombras que surgem quando esta música toca.Que músicas eram? Me lembro de duas, especialmente:

"Os homens de preto (...)
Os homens de preto trazendo a boiada vem vindo cantando dando gargalhada
E o bicho coitado não pensa nem nada só vem pela estrada direito à charqueada
Deus, Deus, Deus, Deus, Deus, você fez"

O ritmo, tanto da música quanto dos versos é obsessivo e delirante.Segue num crescendo que beira ao grotesco. As vozes seguem acima e avante, arrebatando você para o caos, sopraníssimos em agudo e baixíssimos de fundo. A letra denuncia, mas não diz. E o que ela esconde em suas pausas é pior do que o que declara.Um Deus onipotente que nada faz. O homem sádico, que gargalha despreocupado, eternamente assassinando impune.E o gado?

"O gado coitado nasceu foi marcado
Aí vai condenado direito a charqueada
Mas manda a poeira pro rumo de Deus
Berrando pra Ele dizendo pra Deus...Deus Deus Deus Deus Deus você fez!"
Grupo Caverá (composição José Fogaça).

Ao gado resta a denúncia e a morte.À criança resta a angústia.De quem fala essa música, do gado ou do homem?Quem consegue ser mais miserável, o gado, o homem ou esse Deus que vê tudo e consente? Não, eu não me tornei vegetariana por isso, para uma criança gaúcha seria quase como pedir para que ela não comesse nada, então.A conseqüência foi o horror de "não pensar em nada", e isso também foi galopando num crescente de trauma de infância. Outra de que me lembro bem, era de Milton Nascimento e interpretada por Tarancón (meus tios tinham os dois discos):

"Você me quer belo
E eu não sou belo mais
Me levaram tudo que um homem podia ter
Me cortaram o corpo à faca sem terminar
Me deixaram vivo, sem sangue,á apodrecer"

Esse trecho era o que me trazia mais indignação e horror. Me vinham a mente imagens de um homem indígena, completamente cortado a faca e seu rosto caído no chão, imerso em uma poça de sangue.Claro, mais tarde conseguiria uma leitura mais acurada, perceberia a crítica ao modelo colonizador adotado nas Américas. O importante é dizer que nesse momento a imagem me trazia já horríveis pesadelos e eu nem tinha ouvido falar em Túpac Amaru.Esse homem que em meus sonhos se levantava, quase enxangüe e tantava me abraçar. Eu gritava que não, que não o queria, ainda era muito pequena e sua dor muito grande, o que eu poderia fazer? Só mais tarde aprendi a domar a imaginação e a trazer para ele um novo sol, do tipo que abraça, acolhe,mostra o caminho para o mar para que,juntos (mar e sol) secassem as feridas abertas.Mas a consciência ainda ficava assim, com parte "dessa tragédia" e eu não conseguiria sorrir nunca com essa música ao fundo. O conjunto da obra mencionaria tudo o que um homem (e por conseqüecia lógica, uma mulher) poderia perder para qualquer conquistador,colonizador,opressor que viesse a aparecer: a força, a beleza e por último, o senso de justiça. Nessa ordem. Minha avó, com seus princípios tão firmes, praticamente respondia esta questão com um outro refrão bem conhecido: "ninguém pode roubar o conhecimento que adquirires nem a experiência do que viveres..." E do medo surgiu um amor apaixonado: os livros.Outro, aventurar-me.Até hoje preciso ler para dormir e tenho imensa sede de viver.
Me vêm a mente ainda milhares de outras músicas e sentimentos.Saudade,tristeza, euforia,alegria,amor e até paixão - se é que se pode chamar assim aqueles primeiros sentimentos nascentes e borbulhantes como um olho d'agua, pelo garoto da escola, de negros e gentis olhos úmidos de súplica incessante.

"Recortei a luz da lua e colei num papelão
Escrevi assim sou sua e te fiz um coração
Encontrei você na rua, você nem deu atenção
Eu nem sei qual é a sua, coração de papelão"
Jayrzinho e Simony

É verdade que eu ainda teria muito "papelão" pela frente. Mas assim já fui ensaiando a coreografia da ciranda em que mergulharia logo ali,na esquina dos quinze para os dezesseisa anos, e aprendi a ver com mais graça o lado tragicômico de todas as relações que envolvem "interesses outros" que os de amizade e fraternidade.
Falando em amor, assim encerro este delicado relicário de memórias Categoria Infantil. Nascia ali uma pequena consciência que,ainda que torturada por Botas Militares, Colonizadores e Charqueadores Sádicos, assombrada pelo medo de não ser suficiente perante a dor do mundo ou instigada até ao máximo limite por "trava línguas" com trechos em catalão, tinha ainda espaço para o amor de mãe, a delícia de ser vivo, de ser amigo,de ser criança e até de criar...Tentei conquistar meu tio aos cinco anos de idade - meu eterno primeiro amor - cantando para ele uma musiquinha de minha autoria:

"AAAAAhhh, sereia
Aaaaahhh,sereia
De cabelos compridos
Loiras,morenas são sereias..."

E depois ia trocando as "cores" das sereias para ruivas, negras,orientais...bobo, não? Eu o agradeço pela paciência de Jó e a imensa disciplina que demonstrou ao não rir nem um minuto, olhando aquela cena sério e compenetrado como se ouvisse a última interpretação de Motserrat Cabaillet. Perdoem-me por esta imensa auto-condescendência que me fez trazer esse momento á tona.Eu sei que a poesia é ruim -aliás, pelo que me lembro a melodia ainda conseguia ser pior-mas quero declarar em meu favor que se hoje sorrio ao me lembrar de mim mesma, me retorcendo para cantar só isso,quiz que você também, leit@r encerrasse esta pequena crônica com um sorriso, que lhe remeta ás músicas tolas que também compôs na infância,a capacidade "transcendental" que um dia teve para decorar letras complicadas, ou ainda as interpretações que fez no recital do colégio para O Dia das Mães.