segunda-feira, 10 de agosto de 2009

(In)solitudes!




Aliviar dor de cabeça dando cabeçadas na parede
Colocar sal na limonada só para ficar com mais sede
Transar no capô do carro, á beira da estrada
Tomar sorvete quente depois da sopa gelada
Amarrar o cadarço do tênis escondendo o nó
Esperar com ansiedade o momento de ficar só
Para dançar axé na sala - isso beirando aos sessenta-
"Adoro ônibus" até vai,o preço é que ninguém agüenta!

Tocar violão no escuro
Querer saber o que é que tem do outro lado do muro
Pedir para comer a rapa do arroz e do angu
Ou misturar com açúcar.Limão com peixe cru...

Ladrão que deixa bilhete de aviso e presta assessoria
Maçã com salsicha e azeite, acompanha feijoada fria
"Rapaz jovem e bem sucedido procura...para relacionamento sério"
Termina a noite bebendo sozinho, por sobre a lápide no cemitério.
Coçar a barriga do gato só para ser arranhado
Ver numa foto por satélite algum rosto desenhado
Ler de um só fôlego Urupês, de Monteiro Lobato.
Criar o plano perfeito de ser flagrado no ato.

Dobrar todo o dinheiro na carteira
Ficar feliz só porque é segunda feira
Sonhar com uma passagem só de ida para Kandy
Dizer que amou a Alanis interpretada por Sandy

Passar lua-de-mel em Puta-Que-O-Pariu ou Burkina Fasso
Obras de arte esquecida no vidro dos carros empoeirados.
Ouvir o álbum "Animals" com filme mudo e preto e branco
Usar shampoo hidratante de Castanha de Tamanu Taitiano.
Implicar com o presidente só porque ele é corinthiano
Ser devorado pelo crocodilo que estava preso no encanamento
Chamar estudante preso em manifestação de "elemento"!

Amarrar-se na árvore em protesto, usando uma mochila
Dar o nome de "Cashemira" á uma chinchila
Usar hidratante labial sabor "mojitos"
Amar sobretudo a precisão, e á seguir os expletivos.

Tomar café com mel, e uma "estrela" de anis
Largar "status",familia, mendigar -fazer o que sempre quiz!
Um dia deixar de fumar assim de bobeira, sem querer
Dizer, como o poeta: "amor só é bom se doer".

Para a imaginação humana não há limites, nem imperativos!
Nesta lista cabem mais itens do que nos manuais explicativos
Nem Freud explica para que servem -sejam "de bolso" ou de academia
E se todo mundo decidisse que Deus só esta vivo onde houver alegria?
Se sabe que a flor mais querida mora sempre no precipício
É por isso que eu digo: "cada louco com seu hospício."

A Noite


Então é simples assim...
É exatamente como dizem que acontece nos momentos que antecedem á morte. Quadro á quadro, pequenas coisas esquecidas ganham imensa relevância numa avalanche que soterra os grandes acontecimentos históricos vivenciados por qualquer personagem que se vista como pessoa, animal ou planta e, ainda, os mais traumáticos acontecimentos de uma história pessoal. Não são vistos na câmera lenta da mágoa, do rancor ou da sutil tentativa da consciência em esclarecer coisas como a dor, a morte, a doença a humilhação. Neste dia será apenas mais uma imagem que faz elo numa cadeia de imagens que se sucedem em ordem de importância relativa. Se uma pessoa, por exemplo,parece ter congelado sua vida no dia em que abortou os filhos que esperava e assumiu para si o título de "A Estéril", ou aquele outro, que perdeu tudo na bolsa de valores, resolveu vestir o estereótipo de "O Fracassado", bem, talvez nesse dia descubra que foi muito mais "A- Menininha- Abandonada- No- Corredor- Do- Supermercado-Chorando" ou ainda, "O Cara que Sorriu para O Rapaz de Cadeira de Rodas" do que qualquer outro momento. A exemplo do conto taoísta fica em nós uma suave réplica: "Talvez".É uma exigência da Morte que entremos nus em seu quarto de imensa escuridão. É isso que leio hoje nos olhos da Noite.
"Sinto dor porque estou me despindo, pensei que seria mais leve, não entendo".
Eu vejo um pouco mais, entro nos olhos dela, e com a convicção fria de um rio penetro violenta em seu mar de lembranças.
A Noite, ainda potrilha, arfando a escuridão e sendo engolida pelos gritos de sua primeira manada, confusa e sentindo refluir o sangue de seus cinco corações, caindo desacordada em algum ponto da Floresta Escura, sabendo no íntimo que sua mãe estava perdida para sempre e seria engolida pelo arfar da memória para ser revista apenas aqui. Quase uma cópia dela mesma, só que mais com mais músculos e trazendo em si o cheiro e o gosto de leite-luz que a nutriu por quase um ano. Parecia ouvir seu ultimo grito, sua ordem, e toda a sua força se transmitiu para ela naquele momento. Essa voz e imperativo, ela recordaria mil vezes mais, mas não sua face. Esta, só agora se revelaria. Seu ultimo pedido: "Sobreviva!" Teve a impressão de ouvir isso naquele dia em que teve a certeza de que não iria revê-la nunca. Sua mãe galopou rumo ao sol, deixando para trás uma casca vazia. E como sempre foi assim, em todas as gerações de sua espécie, nesse dia guardou silêncio e não aceitou montaria. A Noite que rescende á mãe não quer mais conhecer o dia. Mas sabe que isso também passa e retorna ao ponto de partida. Corta a cena. Voltou a imagem da potrilha. E apareceu o Velho. Quase invisível na cegueira agora vermelha daquela Noite em que toda a paisagem parecia encoberta por uma película vibrante, pulsante e sangüínea. Encontrou conforto no sorriso e nos olhos dele, que brilhavam na escuridão vermelha, destacando-se de seu rosto e seu corpo que só seriam delineados pelo dia. Por quantos anos permaneceria com o Velho, aprendendo a antecipar seus desejos, cuidando dele, protegendo-o, guardando - o de todo o mal daquele mundo demasiado humano e sem sentido em que ele estava imerso. Não sabia. A imagem muda, muda a película. Essa Noite foi tragada pelo tempo e rapidamente esquecida.
A Noite, se defronta consigo mesma nas águas do lago e entende que lhe deram um nome. Foi surpreendente ver-se a si mesma alta, forte, altiva e algo assim mais esguia que sua mãe. Sempre pensava em si mesma como algo exatamente igual a ela, só que menor. Mas nesse dia percebeu que já tinha sua mesma altura, que o som ao qual seus sentidos obedeceriam era Noi-te e que, o som do assobio era a necessidade do Velho de seu imenso Amor e sobretudo da Força bombeada por seus cascos ao seu peito e daí até o mais fino fio de sua crina. Retribuía a este chamado com um novo brilho na aura clara dela mesma, emprestando para ele á força de gerações de éguas selvagens e obscuras. Embora não soubesse que ele não conseguiria ver, sentia que envolvia a ele, o Velho, como que com uma capa de mel morno apenas no relance do olhar que refletia em seu sorriso sempre tão claro. Era tão bom conhecer essa Força e essa Doçura em seu peito, mas no entanto só hoje percebeu que daquele dia guardou apenas um sentimento assim, muito próximo mesmo á mágoa. Mágoa, essa palavra que rima tão perfeitamente com "Agua", é seguramente um sentimento aquoso, que só sabe mesmo aquiescer multiforme, transbordar e partir. Assim era saber seu Nome e perceber a si mesma como um retrato flutuando nas águas de um lago de águas frescas que sorvia em goles rápidos e sôfregos. A Noite beberá á si mesma ainda muitas vezes para aprender sua cor, o comprimento de suas crinas, ensaiar seus olhares e se orgulhar do que vê tanto quanto lamentar a passagem do Tempo. E tecer, é claro, comparações. Assim como o dela o pelo do Velho era escuro,negro mesmo, e brilhavam como obsidianas seus olhos sempre imersos em uma água tão branca, tão branca como a que pretendia encontrar em algum lugar distante naquelas andanças que só faziam eles dois sempre tão sós. Seus olhos, negros em leito branco eram totalmente diferentes dos delas maiores e inteiros em sua negritude única e imponente. E se primeiro ela pensava nas pupilas dele como assim mais confortáveis naquele manancial de brancura, hoje percebia que em compensação sua alma, assim como seus olhos, não tinham o peso de qualquer contradição. Porque o ser humano é um ser sempre ferido pelos seus próprios contrastes, que lhes rasgam como as facas (que lhe feriram neste dia fatídico e triste), e terminam por aniquilar seus sonhos para sempre. E o que é realmente incrível é que esses seres tão tristemente cindidos recriam novos sonhos todos as vezes que nasce a Grande Mãe Branca de sua Imensa Escuridão. Levou realmente muito tempo para a Noite entender como era triste aquele olhar e que, por mais que o conhecesse, muita coisa nele ainda era inexplicável. Por exemplo...A Noite nunca entendeu porque ele sempre se esquivava de seus carinhos, quando ela efusivamente o chamava - "Papai!" E ouvia a voz dele, em resposta.
-"Não, Noite! Manotaço, não!"
Somente muito mais tarde saberia o quanto os seres humanos, que pareciam ter o Universo em suas mãos, eram frágeis. E fizeram-se, pela força de sua própria maldade, ainda mais perenes que as ervas que esmagava, sem pensar, sob os cascos que naquele momento perdido para sempre vestiam o aço frio das ferraduras, rompendo a magia de toda a paisagem que tocava. Mas como poderia ela saber?
Não compreendia bem sua língua e de mais á mais, ele ria e não gostava ao mesmo tempo, numa contradição tão obvia que a deixava confusa. Como faria para não corresponder ao seu riso e obedecer aquele "Não" que cheirava á "Medo"? Será que o Velho não sabia o quanto lhe excitava aquele "Não" assim tão manhoso, tão diligente e cheio de si, tão traiçoeiro? Difícil conter a si mesma. E o sangue. E o galopar sedento de mais e mais imagens, ás vezes tão duras, tão sórdidas e incompreensíves até para ela mesma, expectadora passiva desse filme último. Mas sempre tão carregadas desses sentimentos primeiros. Testemunhou sua alegria em ver dividir consigo o chimarrão. O Velho, domador de anos, nunca tinha visto égua chupar cuia, mas aquela até isso fazia. Cobriu-a de mimos pelo feito. Bateu foto e tudo. Bater foto era, em sua memória, como ganhar um jato de luz-estelar. Olhava as estrelas, lembrava de fotos. Sentia orgulho de si mesma e isso era bom. Também era bom correr com o Velho e, juntos, saltar as cercas. Ele ria e gargalhava, com um hálito quente e alcoólico. E quando ele afrouxava as rédeas e podia ouvi-lo ressonar, seguia o rumo devagarinho, ia a trote compassado para que ele não caísse nem acordasse e com carinho o devolvia á Velha. Nunca perdeu o caminho de casa e, por isso mesmo, ganhava mais aveia no outro dia. O que mais podia querer? Amor. Total dedicação de parte á parte. Mas nesse quadro imenso, pairando extático na parede da memória, a Noite era ainda só Incompreensão.
Em cascata vão caindo sob seus olhos cada recorte de sua história enquanto a Noite se esvai em sangue. Suas memórias se aceleram enquanto eu sei que ela agora tem menos tempo (bem menos). Eu fixo em parte alguns trechos, porque diferente dela mesma, posso dar sentido a alguns acontecimentos. A morte do Velho e de sua família, por exemplo. Para ela restou um sabor metálico na boca, porque quando ela ouviu o estrondo e viu o peito da Velha explodindo correu, correu como nunca para longe dali, com o velho montado na garupa. Ouviu um último estouro, sentiu o cheiro da pólvora, apertou nos dentes os freios em disparada, acalentou uma emoção tão grande quanto seu peito generoso, tudo nela resplandecia esperança e receio: Salvar o Velho. Sentiu-o cair. "Ora vamos! Só mais um pouco!" Arrastou seu peso por caminhos que só ela conhecia, sentia-o arrastado apenas pelo estribo, por uma perna e ouvia o som de sua pele sulcando um rastro de lama. Era mais pesado assim, sentia que preferia que ele estivesse equilibrado como sempre em sua garupa, mas faltava tão pouco para chegarem á cidade..."Agüenta firme! Vou nos tirar deste lugar horrível que cheira á morte!" Enquanto atravessavam a Floresta, sentia arrepios horríveis nas costelas e ouvia as canções daqueles que, embora não estivessem vivos, não galoparam em direção ao Sol como devia de ser. Todos os seus sentidos lutavam para rebelar-se mas ela manteve-se firme em seu propósito. Determinação de aço em salvar o Velho, repetia a si mesma que não interessavam os obstáculos e dores, não retornaria ao Sítio. E quando finalmente chegou á cidade e seus cascos ressoaram por sobre o ladrilho como uma Marcha Triunfal. A Noite espumava sede e sangue de sua boca rasgada pelo mau-jeito da rédea. Ela viu que outros humanos se aproximavam. Via as faces de espanto e explodiu em gargalhada clara, de satisfação e orgulho, e para dar mais ênfase ao gesto, ergueu-se nas patas dianteiras. "Conseguimos!" Depois silêncio .Mudo. Nada. Sentiu que havia algo errado. "Por que ninguém está feliz?"Foi quando puxaram com violência pelos arreios, quase rasgando sua boca, abrindo a ferida feita pelo esforço de arrastar seu corpo até ali. Arrancaram-lhe cela e estribo. Só então pode ver: O que arrastara até ali era um corpo, sua cabeça havia explodido e o que existia acima do pescoço era uma massa informe de carne e lama. O choque daquela visão e certeza eram grandes demais até para seus tantos "corações". Não suportou. O peso da raiva quase a fez sufocar. Corcoveou todas as vezes necessárias para tirar de cima de si aquele peso. Relinchou um grito de dor e desespero inumanos, que nasciam das vísceras e congelaram o coração dos mais valentes ali presentes. Ódio. Ódio puro. Explodiu em coices e corcoveios, para extravasar a dor e a agonia da certeza de que nunca mais veria o Velho. Sua raiva era insanidade. Sem tino e sem direção, culpava a si mesma, ao céu, á Floresta, aos homens em torno e ao homens no sítio. Aos homens em si. Espumava pelos cantos da boca agora também de raiva, bravia e sem tino, acabou com três homens que tentavam lhe conter em fúria, esmagando-os sob a força de coices e manotaços. "Não encostem a mão em mim!" "Não ousem!" Então saiu em disparada, e correu, correu á mais não poder. Nunca mais portaria os estribos, as esporas (nunca necessárias, puro ornamento),arreios e os carinhos luminosos e humanos do Velho. Não se deixaria cegar novamente. Foi embora, partiu para sempre daquele convívio que era, em si mesmo, uma teia de maldade em que só agora percebia que vivera enredada por muito tempo. Não, nunca mais. Mais tarde, lembrou todos os bons momentos que vivera e os fez em pedaços, corcoveando e escoiceando cega pela madrugada, como se fossem até os momentos bons uma cocheira podre que não mais pudesse lhe comportar em tamanho e dignidade.
O que sei da morte do Velho, eu que me orgulho de ser humana? Bem, quase nada, nesse estado-nação em que a expropriação e a grilagem são comuns. Chamavam-no o Negro Poceiro, mas a verdade é que ninguém sabia de quem eram aquelas terras em que sua familiazinha habitava desde sempre. Parece que antigamente pertenciam a uma Sinhá que, sem filhos, deixou a propriedade a um escravo, avô deste Negro que foi assassinado com toda a sua família há uns dez anos atrás. Mas quem afirmou isso foi o Tabelião certa vez, no boteco em que vivia bêbado. Depois, frente á frente com o delegado de polícia, desdisse tudo, desconheceu os papéis que lhe mostraram e confessou que como todos os outros, nada sabia. Assim sendo e visto que ninguém nunca apurou os fatos, a família do prefeito meio que foi se instalando, botou cerca, lavrou certificado de propriedade e acabou mesmo nisso. As coisinhas do Velho, sua casinha e poucos pertences de domador itinerante e pedreiro de ocasião, estas continuam lá, intactas sendo corroídas apenas pelo Tempo, por sobre o Morro ainda inculto. São engraçados os seres humanos, que podem assumir tamanha variedade de cores quanto os cavalos. Mas se vires um garanhão na cor negra, terás certeza que estás diante de um cavalo de caráter nobre, que há de exigir grande habilidade para ser domado, mas, também, coragem,velocidade e força incomuns. Mas o que você pensa quando vê o Homem Negro? É isso. Esse foi o grande motivo do crime. E nada mais existe a saber.
Tem quem ouça o Velho martelando sobre o ferro quente, numa acusação teimosa e muda, coisa de fantasma que não teve justiça na terra, entende?
O fato é que Noite também virou uma lenda.
A Noite agora é xucra . E por isso,muitos acrescentavam que era vingativa e perigosa. Diziam que, embora tivesse se juntado a uma tropilha selvagem e reaprendido o instinto que a faria sobreviver sem a companhia humana tinha comportamento diferente daqueles que nunca a conheceram. Escoiceava a esmo e bufava mal sentia no faro o cheiro de homem laceador. Que ás vezes, traiçoeira,se deixava montar só para em seguida atirar-se de costas no lago com o cavalheiro ainda encima, esmagando-o com todo o seu peso. Ou que, então, corria com o valente pela noite adentro, até que este desaparecia para nunca mais voltar. Alguns, com mais imaginação diziam que ela entregava os viventes ao Diabo, com quem tinha um pacto. De sete em sete anos se deixava a montar e carregava com este ou aquele para o Inferno e em troca, este lhe garantia que nunca mais vestiria o arreio de novo. E assim, a Noite carregou consigo a culpa por todos os desaparecidos nesta terra.
Só hoje ressurgiu.
Nada em suas memórias, pelo que vejo hoje, atestam a veracidade destas estórias. Parece mesmo é que seus dias foram feitos de uma sede de fuga, ansiosa por deixar para trás este único e triste momento. Encontrou na tropilha nova alguma paz, um novo alento e também,uma alegria mais pura e inocente. Mas até isso,esses dias de sol em que pastava os mais tenros trevos e celebrava as alvoradas mais lindas, eram apenas intervalos. Pois logo em seguida, os fazendeiros começaram a organizar comitivas para assassinar seus filhos, netos e amigos. Cascos e patas explodiam em corridas desesperadas, sons de tiro, muito sangue pela estrada de suas andanças. E lá se erguia ela, Matriarca de Novas Manhãs, para ressurgir de novo há muitos quilômetros de onde tinha sido vista pela última vez. Pensando sempre que aquela vez seria a ultima que fugiria. Obedecendo áquela última ordem materna, sobrevivia. Reagrupava. E se afastava para uma nova fronteira, cada dia mais triste, encurralando a si mesma contra um abismo de solidão.
E haviam outros inimigos é claro. As cidades que cresciam no entorno das florestas e á sufocavam, as campinas cada vez mais cheias de cercas – farpadas,elétricas, altas demais – a Fome que perseguia seu bando, obrigando-os a separarem-se e tornarem-se presas ainda mais fáceis. Uma suçuarana aparece. Com fome, tenta a sorte. Ela se machuca gravemente, mas termina matando a caçadora com um coice certeiro. Foi necessário mas não houve prazer nenhum nisso. Guardou consigo a certeza de que, não fosse o fim das florestas, aquela sua irmã não teria tentado algo tão temerário.
Seus olhos e seus pêlos foram ficando cada dia mais negros com o passar do tempo num luto cada vez mais fechado por todos os que ficaram para atrás, agonizantes e apodrecendo ao sol pelos campos ou laçados e arrastados para cocheiras imundas. O que lhes aguardava era uma vida mesquinha de servilidade egoísta, disso tinha certeza.Teve um vislumbre do que aconteceria caso fosse recapturada certa vez, quando margeando a estrada, viu um cavalo muito pequeno e magro, quase vergado pelo peso de um imenso carroção. O homem que era Seu lhe batia com o chicote sem dó nem piedade. Ele, embora fosse umas cinquenta vezes mais forte que o agressor era domado, castrado e não reagia.Em meio à mágoa de seu destino, lançou um olhar tão triste que ela sentiu o sangue parar e refluir em lágrimas quentes para seus olhos. Então é isso que acontece quando laçam você? Não! Mil vezes não. Galopou para o sol e teceu com seus cascos uma nova canção de amor á tropilha. Solidão. Liberdade.
E, é claro,Anseio.
Um inexplicável Anseio pelo Desconhecido.
Cálida e translúcida é a luz que emana destas imagens últimas que se deixam levar como pedacinhos de papel jogados ao vento.
Um pequeno quadradinho irregular no mosaico imenso, tem em suas arestas cortantes de cor vibrante e alegre, rebordado de paixão cíclica e ao mesmo tempo, inexplicável, aplacou esse desejo grave até este tempo. O cio ela já conhecia, mas e o amor entre iguais? Era Ruano, um cavalo amarronzado de alta linhagem e olhos quase vermelhos com quem ela podia dividir, sem medo, seus carinhos assim, pouco gentis e suaves. Ele correspondia com o mesmo ardor. Corriam leves pelo prazer de sentir o vento assobiar por entre as crinas pelo entardecer de algum novembro. E para refrescarem-se, cavalgavam pela margem de açudes e jogavam-se sem medo pelo prazer inconseqüente de sentir a água escorrer do pelo, trazendo um novo sabor á sua maneira violenta e nobre de amar. Atracavam-se quase num teste de resistência, sôfrego e desesperado. Cansados deitavam-se juntos, sob ás estrelas em silêncio, com uma candura ímpar. Os olhos tristes, nos quais a vida já se apaga, mandam um último pensamento de amor para este cavalo avermelhado quando quase posso ouvir seu relinchar ferido de morte ao longe, em resposta. Me sobe um arrepio na espinha. Entendo. Peço para que os homens me ajudem com a potrinha, que promete ser assim tão inexplicavelmente branquinha mas que ainda está coberta de sangue e meio que sem entender o que acontece á sua volta. Aproximo-a da boca da mãe.
A Noite lambe, diligente, o sangue da Aurora que acaba de nascer.
Últimos recortes. A armadilha. Um buraco coberto por folhas secas e repleto de pontas de facas afiadas por dentro. Restos de alguma armadilha para- militar abandonada. Quebrada a pata, não pode oferecer a menor resistência. Separada dos seus para sempre, sente a aguda certeza do parto, e então, não há mais dor - como até nisso os animais são diferentes! A Noite morrerá sem saber o quanto teve sorte, porque fui eu e não outros homens, sedentos de vingança e com a mente repleta de fantasias, a encontrá-la acuada em sua armadilha.E aqui estou. Eu. Lúcia Maria da Graça Neves, cidadã brasileira,veterinária graduada e residente nesta Universidade á pelo menos dois anos. E por tudo isso, sei que estou vendo morrer a Noite sem poder fazer mais nada. A Noite se fez mais negra com suas pálpebras assim cerradas. Penso que ouço um relinchar,um grito de alguém que, galopando por entre ás estrelas, faz um esforço último para saltar essa grande Lua Cheia, que em breve também fenecerá por detrás daquele monte. E por detrás da Lua estará sua última manada, á espera, para galoparem juntos agora ao firmamento. Uma lágrima cai junto á uma promessa. Salvei sua filha, a potrilha Aurora. E, caso sobreviva, será assim como a mãe, não vestirá estribos. Nem conhecerá esporas.

Sexteto de Curtinhas.



Adivinhação
Vestida na cor do vento
Tomei a escada emprestada
Para alcançar a mais alta estrela
Pequenina, etérea,cinco faces afiadas...


Contradição.
Se o mundo não me muda
Mudo o mundo - mas nunca
Se muda, com ele não mudar...

Enquadra
Em desafio á cidade
escancaro janelas e portas
O sol me sorri e aprova
por entre as grades.


Paradoxo
Por cima do sono leve
Morrer de asfixia
Em noite de ventania...


Quadrinha Para Uma Passarinha.
Trina,trina Catarina
Desafina, tenta e insiste
Pois sem esta passarinha
O bosque seria mais triste.

Sem você...
os dias são lindos,risonhos os pássaros tantos
inacreditável melodia,sinos tilintam e as estrelas cantam
Adivinho quantas cores, e tão lindo tudo!
E o que vejo é um filme preto,branco e mudo...