sábado, 26 de setembro de 2009

Rumo á Casa de Irkala - os sete véus.
















Ainda ás portas, perguntou-me o que queria
E eu disse: "um lugar para onde retornar"
O porteiro riu, mas respondeu em seguida
-"Há bem mais que tens de deixar para trás"

A iluminação enfraquece e a música começa. Pequenos acordes que se irão entrelaçando
á minha entrada de passagem...

Meu primeiro véu, é um véu negro
Que me cobre por inteiro, veludo molhado,pesado,imenso
Cobre todo o rosto,o corpo, meus cabelos, e até meus pés
Estão resguardados em segredo.
Movendo-me quase imperceptível na escuridão
Toco sem tocar
Canto, sem que som algum seja soprado de meus lábios
Cerrados.
Crio, teço,amparo sem nada dizer,num silêncio imperativo.
Eu giro em anti-movimento.
Completo o sacramento.
O véu se rasga em duas metades iguais.
Caindo como o corpo cai no sonho,
Ainda em silêncio.

Seguir-se há o desenvolvimento:

O véu vermelho descobre o rosto,escorre pelos cabelos
É sangue quente que cobre meu corpo,apertado em meus seios
É o que me move, o que pulsa,brilho fátuo,o meu anseio.
Meus gestos são tensos,estremecem os toques no instrumento - estremeço!
Ardente,em chamas,correndo pelo palco, vocalizo ululante em devaneio
Arremetendo-me contra a rocha,contra o céu,contra o tempo
Corro junto aos meus irmãos, que se esvanescem e sempre mais forte sopra o vento
Impressiona, desafia e vence, traz o medo pela corrente
E num giro rápido - para não perder o impulso- eu o lanço fora, e o que se ouve
é metal incólume na gravidade do chão.

O ritmo segue firme mas já sem tormento. Jogo fora brincos,pulseiras e um anel de ouro puro -por último,um porta-venenos. Jogam para mim da platéia - moedas e lírios - que não me rebaixarei em apanhar.
É sempre tão pouco o que pedem, como posso negar?
Jogo fora também a fivela dourada que prende em parte
a fartura cacheada dos meus cabelos. Pequenas alegrias,mimos,
Zelos e flores á mancheia. Tudo tão reluzente. O que brilhava em mim e tinha em si algo de inocente e desconcertante agora se foi
E pela primeira vez ouço um suspiro da platéia.
Sinto-me mais leve, estranhamente mais leve...

O que me esconde ainda agora é verde e esta enrolado junto aos seios
É o mais perfumado e querido de todos eles
Cor das matas e das coisas que se corrompem lentamente
Abrigo caro,jóia rara,um lar em ruínas de calma plácida
Eu o enovelo em meus braços, como serpentes cálidas
Eu deixo que beije meus olhos fechados e quentes de sol
Que acaricie minha cintura,num aperto de despedida
Antes de deixá-lo ir assim, num gesto displicente
E ele flutua e se desfaz num ramalhete de hortelãs.

Um intervalo,a música cessa para mudar bruscamente...

Preso ao cinturão, um véu azul de mar e sonhos
Aposta traída para sempre, um mundo em paz,uma infância de ilusão
Se desdobram e demonstram,numa carícia de desvelo vem e vão e vem e vão...
Até que um dia ergue-se imenso e impressiona
Paciente, reconquista tudo o que lhe pedem
E deu apenas aquilo de que não tinha mesmo nenhuma precisão.
São esses véus assim como o meu olhar. E meus quadris, ondas que
Embalam suaves para lá e para cá. Eu sou a fuga e o refúgio
Me divirto em criar miragens e canções que flutuam como bolhas de sabão
Mas ninguém sabe, o refugo da minha arte tem nome: é saudade.
Serena, nem percebo quando este véu tão calmo
se desfaz em guizos de espuma branca por sobre a areia.

Mais um, agora violeta que eu trago ainda firme, preso á testa.
E finalmente o Medo.Sei que agora são as Palavras
que se vão.E com elas a memória, os Diários, os relicários da música.
São como a água escorrendo, evaporando, cristalizando suas gotas, contas a rolar pelo tablado.
Um véu de mel e prazeres que se devem fruir cálidos e lentos. Um véu sóbrio e zeloso,
tecido ponto á ponto á mão e sem ornamentos. Um véu rescendido á pactos e constrangimentos
Eu deixo que vele,e cante esmorecendo enquanto se despede da minha pele
pelo corpo inteiro. O alaúde nesse momento é só lamento e gravidade
Chegamos á um ponto de não-retorno,agora é tarde, é findo o tempo.
Quando cair aos meus pés uma platéia ansiosa poderá colher minhas lágrimas.

Meu corpo transparece por fim sob o véu branco.Não há indecência nisto.
Sem meus véus,jóias e armaduras sou algo assim bem menor,pequena mesmo.
Só uma criança, marcando o ritmo com o bater dos pés desnudos. A música já
parou e tilintam apenas os risos. Estou pronta á mergulhar na escuridão,talvez para sempre.
O ultimo véu que cai se desfaz como uma estrela,em um surto de luz e som
vidro quebrando no chão displicente...

E mais Nada...

A Lista da Bota.


"Antes de partir" vale á pena ser recomendado. Um filme que você vê sorrindo, já sabe o final de antemão e mesmo assim, causa estranhamento e reflexão. Estrelado por Morgan Freeman e Jack Nicholson e dirigido por Rob Reiner (de"Questão de Honra" e "Harry & Sally", por exemplo) como poderia ser ruim? Reza a lenda que Jack Nicholson sofreu uma delicada cirurgia há poucos meses de começar as gravações o que traz um tempero todo especial ao seu personagem turrão excêntrico e carismático, Edward Cole, dono de uma rede de hospitais. O seu lema é "dois pacientes por quarto, administro hospitais e não spas" e justamente por isto não poderá requisitar um quarto só para si quando é internado por uma crise que logo será diagnosticada como sintomática do câncer terminal. Divide então o quarto com Carter Chambers - o personagem de Morgan Freeman - homem casado que trabalha há quarenta e seis anos como mecânico, internado neste hospital para submeter-se a um tratamento experimental contra o câncer. Ambos descobrirão que tem poucos meses de vida.Enquanto dividem o quarto e vencidos os primeiros estranhamentos, ambos começam a compartilhar divertimentos e experiências. E Chambers começa a escrever a "Lista da Bota", um exercício de pensamento prospectivo que seu professor de filosofia lhe pediu no primeiro ano, que consistia em elaborar uma lista do que cada aluno gostaria de realizar antes de "bater as botas". A expressão para isto em inglês é "chutar o balde" daí o título original ser, em uma tradução literal, "A Lista do Balde". Nesta lista, Chamber anota pedidos como "ajudar alguém desinteressadamente" ou "rir até chorar". À esta lista, "Mr. Cole" acresce os seus próprios como "pular de para-quedas" e "fazer uma tatuagem". Assim "Mr. Cole" convence "Mr. Chambers" a viajar pelo mundo e realizar seus últimos pedidos.O comportamento "desesperado-alucinado" do personagem de Nicholson faz um interessante contraste com a postura professoral do personagem de Freeman e a bandeira do diretor, que parece ser "Abaixo o sentimentalismo água-com-açúcar" deixa o resultado final ainda mais absurdo, tanto que ainda não consegui ler uma resenha que conseguisse resolver o enigma deste filme: é drama ou comédia? Penso que é drama, mas tratado com uma leveza eao mesmo tempo, uma profundidade, que escapam ao "dramalhão lacrimoso".
Mas esta não é uma resenha- ou pelo menos eu penso assim. Pensando melhor, deixo esta categorização para outros. Mas este filme rendeu o tema de minha crônica? O que é a morte? Um súbito apagar de luzes e uma retirada estratégica do palco, para que entrem as palmas ou o silêncio da platéia constrangida?Um renascer para outra existência? Alguém, não me recordo, disse que o homem é o único animal que sabe que vai morrer. Parece interessante, mas simplesmente não é verdade. Há os elefantes e existem pesquisas a este respeito também com gatos (até onde eu sei). Talvez a única diferença é que nós temos mais opções quando estamos de posse da notícia com antecedência, e muito diferentes dos animais, que no geral se isolam para morrer á sós, nós optamos de modo geral a morrer exatamente como vivemos, dentre os valores que nos orientaram por toda a nossa vida e deixamos aos nossos descendentes ou ascendentes a difícil tarefa de cumprir nossos últimos pedidos além da morte. Porque salvo imenso engano, a morte causa mais angústia á nossa espécie do que á qualquer outra. Há quem afirme que o nosso pavor da morte é a nascente de nosso anseio de liberdade e paixão pela vida. Porém a mesma morte - algo que parece tão individual e íntimo - tem um forte conteúdo social. Porque seremos enterrados,cremados ou submersos, teremos orações, prantos ou risos de acordo com a cultura vigente na sociedade em que estamos inseridos e desejaremos que nossa passagem seja feita de acordo com aquilo que nós e nosso meio social acredita. Se suas vísceras serão espalhadas aos urubus ou se você será enterrado de pé com uma florzinha em cima é uma questão que você, a família e o Estado têm de entrar em um acordo antes. E para aqueles que não têm pacto com o Estado nem com a Família, o Estado já encontrou solução: a vala comum, onde descansam os deserdados,esquecidos e "desaparecidos" de toda á sorte.Os sem-cemitério, marginalizados.

Mas voltando ao assunto...todas essas são escolhas da vida. A morte é uma desconhecida que não possibilita escolhas. E chegamos por fim ao "xis" da questão. A Lista da Bota. O que escreveríamos, cada um de nós, se submetidos á este exercício? Um detalhe interessante é que o personaem de Freeman, por tido uma vida pobre mas rica em significado e compreensão espiritual, fez dos seus últimos pedidos uma lista de prazeres simples. O personagem de Nicholsos, mais rico mas que navega numa solidão sem fim, sem família e amigos por exemplo, tem desejos finais excêntricos, divertidos e...superficiais. Quando Freeman vaja pelo mundo com Nicholson percebe seus limites,barreiras morais e sensíveis que o impedem de "se divertir até o fim", mas o contrário também é verdadeiro. "Mr.Cole" logo percebe as dificuldades em realizar itens da lista elaboradas por "Mr Carter" e a mudança que ele tem de fazer para realizá-las é ainda mais radical. Nossos últimos desejos de vida, na verdade, refletem como vemos a vida em si.Outra reflexão interessante se dá quando ambos os personagens se encontram no Egito - o Antigo Egito foi,disparado, a sociedade que mais investiu na idéia de vida além da morte - e um deles comenta que este povo acreditava que, após a morte, cada alma seria julgada por suas ações e encaminhada para lugares melhores ou piores segundo estas. Se pensarmos bem, nada de tão diferente do que a maioria das pessoas acredita hoje. O diferencial são as perguntas chaves para o acesso ao "melhor dos mundos": "-Quantas alegrias você viveu?" E na seqüência "-Quantas alegrias proporcionou?"
Quanto á crenças do Antigo Egito, também sabemos que não era assim tão simples. Mas esse é um bom resumo do que são chamadas de 52 confissões negativas, coisas como: "Não roubei", "Não matei", "Não propaguei mentiras" e por aí seguem...
Pensei em muitas respostas para estas perguntas, e até esbocei a minha própria lista da bota, com apenas sete itens:
1- Na minha aposentadoria vou me dedicar á uma Associação de Defesa dos Direitos dos Animais.Pois dedicarei os melhores anos da minha vida á Juventude e á luta por uma Educação mais Inclusiva e de qualidade, assim, contruindo minha quota de contribuição com a humanidade. Logo, chegará a vez de ajudar animais desinteressadamente, eles que me ajudaram tanto. Só espero que dê tempo.
2- Não tenho fantasias com para-quedismo, e até que gostaria de voar de asa-delta mas no fundo, tenho mais desejo em fazer mergulho subaquático (nunca entendi esta expressão, existe outro tipo de mergulho?).Ver as paisagens submarinas pessoalmente, este outro mundo tão próximo e tão estranho seria algo assim... sem palavras para descrever.E tenho até um itinerário certo: Fernando de Noronha. Junto aos golfinhos. Mas para isso,antes é preciso vencer o medo e parar de fumar.E eu nunca sei se quero parar de fumar...hehehe.
3- Conhecer dois países ao menos na Europa: Londres e Espanha, dois na África:Nigéria e Egito e Sri-Nagar na Índia. O Líbano, é claro. Se possível, todo o Oriente Médio. E o meu primeiro romance será um Diário de Viagens. Tem o título provisório de "Os melhores dançarinos do mundo".
4- Ver publicado o meu penúltimo romance, que têm o título provisório "A Vida É Uma Festa"! É um título bastante polêmico, eu sei. Mas nele quero trabalhar a vivência com minha mãe, que me ensinou muito sobre alegria de viver. Em tempos tão cinzas, penso que seria um livro de Memórias que acabaria servindo como Auto-ajuda.
5-Quero chorar de emoção na formatura dos meus filhos. Nota: eu não tenho filhos. Mas terei. Nascidos do meu corpo ou do meu coração, como se diz.
6-Quero ter dado minha contribuição para um país mais justo e uma educação mais inclusiva, humanizante, e conscientizadora. Quero ter encontrado minha família espiritual e que, com ela, tenhamos realizado uma coisa inteiramente nova. E que esta contribuição vire livro também, mas não escrito por mim nem com meu nome citado, mas no nome de alguma organização coletiva e pioneira em métodos educativos que eu creio, está para surgir.
7 - Deixar para minha família e amigos a certeza de que fiz o melhor possível...e que valeu á pena! Só ainda não pensei como será isto, mas vai se dar de alguma forma, tenho certeza!

Naturalmente penso que ainda é cedo para dizer quantos momentos de alegria vivi e quantos proporcionei. Mas sem falsa modéstia acho que se a prova fosse amanhã eu conseguiria passar assim,assim, na média.

E quem quiser que conte outra...

Curtinhas Setembrinas




Veleidades.
Tenho pena de quem teme o que pensa
E clama pela liberdade dos quadris
Perigoso mesmo é o que não se pode dizer
E não se diz...



Escrita na água:

Prometo honrar,amar e obedecer.
Vingança & Vitória e o que mais vier
Para todo o sempre,mas só se Deus quiser!

Prisão.
"Há mais de um poder
que nos encerra ou cala
uns no escuro, postos á ferros
outros vestem gaiolas douradas..."

Ao menino que hoje passa...
Sim, é puro, cálido e luzídio
E tem ainda a beleza, o encanto,o sorriso
Quanto mais eu o vejo,mais admiro. Mas...

Só celebramos a inocência em seu funeral - e com alívio!

Terrorismo Poético
O velho professor passou matéria no quadro
E deu aula e tarefa, prometeu nota e deu prazo
Anseio: uma surpresa,um alento,ou talvez um gesto de carinho
Surpresa: um beija-flor morto em seu escaninho...