quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Peregrinações.



Pessoas mesmo são aqueles que são loucos, os que estão loucos para viver,para falar, loucos para serem salvos,que querem tudo agora ao mesmo tempo, que nunca bocejam nem falam coisas comuns mas queimam, queimam como fogos de artifício explodindo como constelações (...)Eu não tinha nada a oferecer a ninguém, a não ser minha própria confusão (Jack Kerouac - "On the Road")

Desperto flutuando numa bolha d’água acridoce como lágrima. Estou caindo. A bolha parece manter a estabilidade e a velocidade na queda enquanto flutuo livre da gravidade, mas prisioneira de uma película fina, muito fina, mas resistente. Parece algo como plástico, mas mais orgânico, como uma membrana. Sinto para breve o fim da queda e em agustiante asfixia tento submergir. Tarde demais sinto o impacto. A membrana se rompe e eu aperto os olhos para resistir a jato de água que invade minha pequena prisão. Percebo que continuo em meio aquoso, que é água ainda e mais... Tenho agora certeza que é o mar. Já abri os olhos para tentar localizar um local, um sentido mais acima apesar da salinidade fria, mas tudo é brancura de espuma – será este o gosto da morte? Pensamento-ação. Para cima, para cima, para cima. Correntes me jogam para lá e para cá como um pedaço de isopor, mas eu bato os pés e os braços com força. Mais uma curva. Sinto o meu corpo desistir, no limite da resistência, quando finalmente consigo submergir. Respiro de uma golfada só, com a boca e o nariz. E o que inalo não é apenas ar, mas ainda água salgada e areia junto com a sensação de levar uma facada na altura dos pulmões. Agora ouço o barulho. Raios, trovões e o literal rugir do vento. Um longínquo “crack”. “Crack?!!!” Tento desviar a cabeça no sentido do “crack”e mais uma vez falta tempo. Um pedaço de madeira - eu acho que é madeira, mas pode ser um pedaço de coisa pontiaguda qualquer que veio voando e explodiu contra minha nuca. Escuridão, escuridão vermelha e estrelas. Por pouco tempo, sinto um filete de calor viscoso escorrer por trás da minha orelha em direção ao pescoço. Esse breve calor será lavado por um jato ainda mais frio que empurra minhas costas, estou sendo projetada para frente em velocidade alarmante, quase impossível e acho que vou vomitar. É a última sensação antes de o frio e a escuridão me invadirem completamente.
Estou de costas e contemplo a cena de mãos dadas com David. Porque neste sonho, me chamo Ariana e ele David, e eu contemplo um quadro em que, num primeiro plano, há o naufrágio de um navio, partido ao meio em alguma noite de tempestade. E, ao fundo vê-se o rosto de uma moça cujos cabelos se confundem com as nuvens negro- acinzentadas. No rosto pálido da moça – que desconheço – uma lágrima escorre. Esta lágrima transbordará o mar e por fim, submergirá o navio. Me dou conta que sei disso porque estava lá. Encerrada na gota e submergindo na onda que cravará o golpe fatal no navio. Saio com David do que parece ser um museu. Aperto sua mão para que detenha o passo e vejo com nitidez. São vários expositores e pedestais de gesso, com discos do “Menudo”, coleções de cartões de “Chocolates Surpresa”, pilhas e pilhas de videocassetes com alguns filmes que de relance reconheço – bem encima “Lady Hawck”. Meninas-flor e cavalinhos pequenos pôneis em vários cantos. Fitas cassetes que de tão usadas já não consigo reconhecer, dentro de uma caixa de plástico com a propaganda do filme “De volta para o futuro” estampada (como era mesmo o nome daquele ator?), um pedestal rosa com um par de melissinhas nas quais, por sua vez, está apoiadas um reloginho de plástico, um estojinho de maquilagem com um batom que reconheço (Boka Loka) e, ao fundo, vários modelos de cera vestem roupas estranhas com grandes ombreiras. Os manequins masculinos vestem preto e usam cabelo arrepiado. Os femininos são mais variados, calças leggings, saias balonês ou de coro sintético e grandes cabelões com permanente ou frajinha. Ao fundo, uma TV quatorze polegadas muda projeta em sua tela um desenho animado saudoso e querido: “Caverna do Dragão”. Ao fundo, um “Tears for Fears” martela: “Shout...shout...” David me puxa e pergunta: “Vamos”? Eu gostaria de ficar um pouco mais. Ele diz que não podemos. Parece que já passeamos por tempo demais pelo Museu Anos 80. David me avisa que temos pouco tempo para chegarmos á “Temporada de Colheita”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Crônica das Enchentes.(ou o dia em que a maré crescer dentro de mim)








Faz três semanas que só chove na ilha. Chove, chove,chove... Nos primeiros dias era aquela sensação de apreensão tensa. “Será que não para mais?” Pergunta o marido. “Não sei.” Silêncio. Silêncio. Silêncio. Em cada olhar e em muitos gestos, a mesma pergunta. O Sr.D’Oeste (meu apelido secreto para ele) na padaria homônima. O vizinho, que pensa em comprar uma antiga sete léguas. Na sala dos professores alguém comenta: “Meu Deus, não para mais!” Olho para o professor de Biologia e seu olhar parece me devolver a mesma pergunta: “quando”? E alguém que falou com outro alguém da Epagri que por sua vez, disse alguma coisa parecida com “não sei ainda”. Mas era apenas a primeira semana de chuva incessante dentre os muitos meses em que choveu todos os dias. Alguém lembra que isso já vinha de bem antes. Agosto. Já estamos no final de outubro e só agora parece ser calamidade.

No fundo eu sei que não interessa o que dizem nossos satélites, o bom senso e nem a Igreja, sempre foi uma função primordial das mulheres responderem pelos fenômenos da natureza. Mas, como mulher eu só me apoio no meu corpo (que é também minha alma) e no Morro do Cambirela.

O que diz meu corpo?

Que há muito tempo ele também não confia mais na natureza para viver. A lua é minguante. A maré, vazante. E dançando/orando num sábado de sol, sem motivo, me veio a palavra: funesto. Mas o sol fornecia seu espetáculo em graças e sorrisos. “Só um pressentimento” – pensei. E domingo já eram o vento e as lágrimas. Chovia dentro e fora de mim. As lágrimas secaram. A chuva não parou mais.

E o morro, o que diz?

Que vai chover de novo.

Ele me confidencia isso todos os dias isso, por volta de sete da manhã. Quando vai fazer sol, sorri. Quando o céu chora, ele se cobre para preservar a dignidade do céu. E assim, eu, o morro e minhas metáforas, entramos na segunda semana.

O céu tão cinza faz com que aos poucos todos entrem num estado melancólico e de profunda desistência. Desistimos de secar os pisos porque é como enxugar gelo. Porque lavar se não há como estender? Para que brigar, se não há como entender? Desistimos agora dos nossos inimigos – sempre tão fiéis. E também desistimos de marcar encontros com os amigos, porque a chuva desaconselha sair. Na verdade não são apenas as goteiras, mas até as relações que começam a fazer água. Nesse caso, a família começa a ser insuficiente. Não foi sempre? Em algum momento, desistimos da cive e da pólis. Desistimos de procurar por noticias, fossem do clima ou quaisquer outras, e passamos a alugar filmes. Queríamos congelar na memória a alegria pela vitória de Barack Obama (para que ver de mais perto, se era tão boa à perspectiva assim, distante?). Sim, nós podemos mesmo que enregelados e encharcados pela sensação de uma inevitável fatalidade. A Semana de Consciência Negra assistiu meus últimos esforços de civilidade. Aos poucos, o frio de molhar os pés na ida para o trabalho, me fez escorregar para um torpor semi-consciente e sem querer. Meus alunos compareciam de modo esparso, num estranho jogo de equilíbrio de faltas e trabalhos entregues por terceiros. E os deslizamentos inevitáveis tornavam as faltas mais que justificadas. É vã toda a filosofia de três tempos no segundo grau, assim como a educação neste país faz água há muito tempo, e todos sabem disso. Mas ali,estranhamente a escola parecia mais com uma tábua de salvação boiando sob o naufrágio, com todos reunidos para não afundar juntos. Salas ocupadas, o telefone da escola sempre solicitado, os professores amigos se solidarizando e mobilizando por esta ou aquela família. Propiciamos alegria, amparo e ensino ainda que em condições precárias e de modo esporádico.Até que, sem condições submergimos todos. A tábua não agüentou, a escola fechou após um mês de lenta agonia.

E ao voltar para casa não era assim tão diferente. De repente me vi acompanhada de meu clã reunido em torno, não de um totem ou uma fogueira, mas de uma nostalgia. Os anos 80. Discos, filmes, músicas e vivências compartilhadas pelo exílio involuntário. Seremos poucos a sobreviver, então que resistam nossas memórias. Ninguém disse isso, é claro. Mas foi um movimento social de profunda aquiescência – se é que isso pode existir – percebido em toda a parte. Alguém lembra de uma cena de infância. Outro começa um romance. E mais aquele retoma um Diário. Sobrevivam as palavras! Parecia ser a ordem.. As músicas e os vídeos, mais alguns completavam. Parafraseando o presidente, diria que nunca antes, na história desta cidade, fizemos tantos downloads. No apelo óbvio da sobrevivência, escolhemos resgatar da enchente o melhor de nós mesmos. Mas isso, como sempre, acontece primeiro aqui dentro. Essa ilha já foi chamada Desterro e este é o nome do nosso sentimento agora. Foi pouco antes de caírem as barreiras na estrada. Sabíamos agora que estávamos isolados, mas não sozinhos. Nosso irmão em águas: o estado do Paraná.

Tornamos á cive e a pólis talvez no auge da calamidade. Primeiro de modo tímido, mas num país em que dizer que não gosta de política é como dar um atestado de honestidade e retidão moral, não surpreende. Vi o primeiro lampejo no meu local de trabalho, em primeiro lugar. Numa escola fechada para as aulas, reencontramo-nos todos para confeccionar os enfeites de Natal e a amizade do quotidiano fazer.

Eis que ressurge enfim, o humor, a face mais bela e louca da resistência. Um e-mail que faz do salto alto um pé de pato que promete ser a nova moda. Um perfil de orkut que nos louva como Novos Atlantes. Outra diz: a ilha vira mar, as mulheres sapas, as trans sereias. Alguém se auto-intitula nova espécie. Outra não quer mais ser chamada de piranha: é agora uma donzelística perereca. Mais simpático, convenhamos.

Aos poucos, já não mais tão estranhos a nós mesmos, submergimos. Amigos e familiares ligam uns para os outros. Ecos: esta tudo bem aí? Esta tudo bem com você? Sim. Sim. Sim, mas... Um grito de socorro ao longe. Era o Vale. Meu Deus! O Vale! Tristeza. Luto. Calamidade (pública desta vez). Muitos amigos meus viajaram para lá. Afundaram até os joelhos na lama e no caos para missão-resgate. Eu (um eu que somos nós) fiquei. Ou ficamos. Para partejar nem que fosse da pedra. Desencavar á vida nova dos armários e gavetas. Despertar consciências adormecidas para o absurdo da alienação quotidiana. Humano, demasiado humano. Comprar cestas básicas. Substituir valores e economizar água. Para selecionar e embalar, evitando desperdícios. Bater tambores, lotar igrejas, enviar cartões. Receber parentes desabrigados. Movimentar contas bancárias. Colher donativos. Cada vez mais gente se empenhando sempre e... mais. Ninguém queria parar com isso. Não recebíamos nós monções de apoio de todos os estados da federação? Pela primeira vez, vi gente se mobilizar pelos animais. Alguém lembrou que era crueldade deixar para que se afogasse o cachorrinho da família.Outros tantos mobilizaram-se para ajudar cães,gatos e cavalos, amigos de todas as horas deixados para trás. Muitos órfãos. Achei que algo de uma nobreza e dignidade esquecidas submergiram também. E onde beleza e justiça eram enaltecidas em toda a parte, resgate era uma palavra de ordem. Não mais memórias. Objetos e gentes. E quantos mortos, Deusa querida! Desaguavam notícias no apelo de uma contra-enchente de solidariedade “vitoriosa e transbordante como uma hemorragia”, nas palavras de Chico. De repente, foi como se não houvessem mais, entre nós, tantas represas e desvios.

Perdi quase tudo, mas graças...

Todos acordam para o fato de que a vida é o mais importante (bem, quase todos).

É claro que nos subterrâneos do poder, a lei de Murphy é imperativa. Tudo de pior que pode acontecer, sempre acontece. Mas a luz encontrava também aí, uma brecha. Só um exemplo: agora todos sabiam porquê era infame o novo Código Ambiental de SC.

Foi nesse momento, tão caloroso e fraterno, que encontrei um amigo. Iria também para o Vale ajudar. Disse ele

-Eu vi um estudo, a ilha... Metade da ilha é aterro, entende? Até agora a maré era vazante, mas agora vai encher e a ilha corre risco de ir para o fundo do mar... O mar toma de volta tudo o que empresta.

Só aí que me dei conta: era verdade.

A maré também crescia dentro de mim.

Foi só então que o sol ressurgiu no horizonte.