sábado, 26 de dezembro de 2009

Decembrinas


Oração á Donzela do Sol

Desperte!

Todos te esperam com carinho e já acenderam as fogueiras.
Teus leões tem lugar certo em nossa sala de estar, e podem descansar de viagem.
Que o deslizar de teus pés faça brotas novas fagulhas e faíscas, incinerando mágoas e desperdícios.

Celebremos!

A mesa esta posta, as canções já transbordam e lançam-se aos espaços,
ás alturas, e o vinho nos traz a certeza de que só este momento existe.

Dancemos!

Veja teu novo estandarte! As ruas já suspiram saudosas pelos meus pés descalços, e os punhais sentem-se asfixiar na bainha. Quero meu par para uma dança de vida e morte!
Chegará o momento de, ao redor da fogueira, compartilhamos histórias e estórias
quase sempre verdadeiras.
Chegará o momento de lamentarmos a ausência dos que já partiram, e sentirmos mais
viva sua presença.
Nossos pedidos serão agitados pela brisa e lavados pela chuva
Nossos desgostos incinerados...
Ouço o murmúrio funesto dos que querem fazer calar
Este antigo hábito popular mas nós,
Nós não!
Pois sabemos que na festa e na alegria
reside a mais profunda reflexão!
(Que o digam os filósofos de todos os tempos!)


Dividiremos agora o pão, as frutas, e o vinho se ergue

para um brinde: "...há todo novo sonho que me aquece,

há cada amigo, teu amparo e brilho

e também ao inimigo, pois que não me esquece..."
À Palavra.
Ainda me faço muito íntima, talvez sem o devido respeito
Ao que se fez para sempre perene, com a delicadeza deixar levar
pelo vento
É a palavra, companheira antiga das nossas memórias.
De algumas fujo e estremeço - de vergonha sim, mas nunca de receio.
Reencontro outras à quem me atiro aos braços
E abraços, pois que me salvam...
De todas tive mais do que acho que mereço.


Paralelepípedos.

As pedras gritam para a menina que um dia
Saltitava pelas calçadas.
"-O que te fez assim tão pesada?"
"-Impressão minha... ou és mais obscura?"
"-O que te pesam ás pálpebras, os trabalhos ou as culpas?"
Respondo "-Nem um, nem outro. São estes saltos-agulhas."
Jogando amarelinha, entre tantas amarguras
Procuro por entre as brechas, tateio ainda ás escuras
Por onde se perderam os meus sonhos?



O Corvo da Tempestade.

Trouxe nos bolsos tempestades, enchentes e chuva de granizo
Navego a bruma em silêncio, de torpor e de alívio
Sinto-me colhida de muito leve
em um rodamoinho.
Rumo á queda livre, o ultimo grito
Pela flor que se enraiza
Contra o abismo!








sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

A rosa verde.


Era uma vez um menino chamado Junior que cuidava da mãe doente no hospital. Enquanto ela se mantinha hospitalizada ele cuidava da casa e das rosas de sua mãe.
Haviam rosas de três cores: a rosa vermelha, a rosa cor-de-rosa e a rosa verde. Ele cuidou e cuidou. Há seu tempo todas brotaram em novas mudas e em pouco tempo nasciam ao seu lado botõezinhos da mesma cor. A rosa vermelha contente e viçosa com o botãzinho vermelho ao seu lado, a rosa cor-de-rosa um pouco mais pálida, mas alegre e meiga como de costume com seu botãozinho cor-de-rosinha.
Só a rosa verde não brotou, nem teve botõezinhos para exibir na primavera.Esta permanecia muda e sem botão.
Assim, no dia em que transplantou as rosas para levar para a mamãe levou todas menos a verde e ainda disse em alto em bom som:
-Você não vou levar. É feia, sem graça e ainda por cima estéril.
E assim ela levou todas as rosas, menos a verde que ficou no canteiro sozinha, chorando.
-Não tive culpa. Fiz tudo o que foi possível, mas não vieram as mudas e agora jamais reverei minha mãezinha.
Mas o que Juninho não sabia era que, de todas as rosas, a predileta de sua mãe era a verde por ser única em sua cor - é muito difícil encontrar rosas verdes - e caçula na família de rosas.
Assim, quando Juninho entregou os vazinhos logo perguntou: "- E a verde?" E ele respondeu:"-Deixei lá sozinha no canteiro por ser feia,sem graça e estéril."
"- Traga-me a rosinha em um vasinho com terra.com amor tudo renasce."
E assim, Juninho fez a vontade da mãe e trouxe a rosa verde para o hospital.Em pouco tempo vieram as mudas, e á seguir nasceu o primeiro botão.
Mas diferente das outras, a Rosa Verde não teve um botãozinho verdinho.
O botão diferente de todos os outros e dela mesma era um botão amarelo...
Ficava assim tão bonito aquele contraste da Rosa Verde e seu Botão amarelo que logo todos a consideraram a mais bela e a que chamava mais atenção no jardim.
Com esse episódio, Juninho aprendeu uma grande lição: a de que com amor tudo renasce.
As rosas vermelhas e cor-de-rosas ficaram contentes em rever a amiga, e também em saber que ela finalmente tivera um botãozinho.
E a mãe de Juninho logo se recuperou, e transplantou as rosas novamente para seu jardim.
E todos ficaram felizes.
Fim!

**********************************************************************************
Minha prima Ana Amélia, de apenas 9 anos de idade, me contou esta historinha na ocasião em que estive em Pelotas, ainda em outubro. A força das imagens e a poderosa narrativa me fizeram desejar compartilha-la com vocês.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Minha resposta


Olá, Ginga!

Parabéns! Você venceu o concurso "Eu Queria Ser" http://olivreiro.com.br/blog/2009-12-09-se-pudesse-escolher-quem-voce-gostaria-de-ser.

Obrigado por participar. Para que seja realizado o envio da obra, nós precisamos do seu endereço.

Assim que responder esta mensagem nos informando estes dados, nós lhe enviaremos o prêmio prometido.

Atenciosamente,

--
Equipe O Livreiro
www.olivreiro.com.br

_____________________________________________________________________________________

Se pudesse escolher, só por um instante então seria arrebatada por um tufão e viajaria para além do arco-íris. Descobriria algum caminho que me levasse á cidade das Esmeraldas e dançaria com a Bruxa do Leste, porque só são feias as Bruxas Más.E como já disse o poeta, Beleza é fundamental (só discordo dele no sentido de que a Beleza não é apenas um atributo que se deve buscar na mulher ou no homem, mas em tudo, mesmo naquilo que á primeira vista nos parecer feio (a)).
Mas talvez, divergindo um pouco da historia original, levasse uma lembrancinha para a Bruxa do Oeste, que como toda a Bruxa Má é na verdade quem desencadeia a ação, forçando imprevistos e apresentando ao protagonista os necessários desafios e até questionamentos importantes. Dizem que as bruxas gostam de doces…
Depois desta parada, seguiria adiante.
E numa aventura em technicolor, conquistaria junto á cada um dos meus amigos uma nova razão para viver ou qualquer coisa que cada um sinta falta sem nunca antes ter possuído. Como o Coração do Homem de Lata, o Cérebro do Espantalho, a Coragem do Leão Medroso são os nossos anseios. Aliás, acho que esse seria – e é na vida real também – o grande ápice das nossas aventuras na vida.O prazer de unir-se em torno de objetivos comuns,viver a aventura e seus perigos e, ao final, descobrir que sempre esteve dentro de nós a chave para a conquista de nossos sonhos.
E então, porque se afastar assim, para tão longe de casa e correr os riscos da jornada?
Para desfrutar a beleza do caminho é que se justifica a viagem diriam uns. Para dar valor, outros diriam. Para trazer mais uma vez á tona o fato de que a total autonomia é uma ilusão, que somos todos interdependentes e se a diferença é a beleza do ser humano, a união traz complementaridade, harmonia e paz ao mundo. Conquistar amigos porque são a família que escolhemos e a grande riqueza de nossas existências. E eu penso que todas as alternativas acima estão corretas.
O que me traz dúvida é se esse desejo realmente faz algum sentido. Eu já fui Dorothy e acho que todo mundo um dia já foi, pelo menos em parte. Quem nunca sentiu anseio por algo mais? Quem nunca teve na vida um tufão de revirar a casa, e se sentiu perdido? Quem nunca sentiu a emoção de ver um amigo se realizar em suas conquistas e, por outro lado, quem não se emocionou com a felicidade que conseguiu espraiar á partir das próprias conquistas? E á cada ano fazemos novos planos, encetamos novas aventuras, criamos e alimentamos novos anseios renovando votos para que no ano que vêm tudo se repita.
De qualquer modo, sigo correndo atrás do meu arco-íris, no meu Eterno Caminho de Volta para Casa.
Aqui, lá e mais além.
Desejo á todos Paz & Bem.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Por onde é lá?

















Não sei por que estou aqui
vim do mundo das mulheres que pintam o
rosto, os cabelos e a boca e saem para a rua
sem pedir
Eu ainda as vejo por calçadas e avenidas
Quando por fim desaparecem, por entre cruzamentos,
sombras e becos. Por isso mesmo ainda mantenho a
certeza.
De que ainda existe.
De não ser daqui.

Quando nasci Elas ainda caminhavam
entre as gentes.
E o êxtase se colhia nas fontes
com as mãos em concha e os olhos fechados.
Eu era criança ainda, mas já as acompanhava,
distribuindo pétalas em água perfumada
Em datas precisas, em cortejos vitalícios.
Mas esses dias se foram.

Nunca soube o que tinham em mente
Com seus sorrisos ferozes e intratáveis modos
Por vezes flutuavam pelos campos de trigo
E desabrochavam em rebeldias ou carícias.
Neste Mundo Antigo - que ainda ontem se perdeu -
existiam as palavras "guerra","coragem","paixão"
mas não se conseguiria traduzir "contrato"
Não há acordo possível para corações que vibram em uníssono.
Eu ainda as vejo...
Passeando com seus seios nus e corpos de serpentes.
Mas suas vozes desapareceram, tento lembrar o que diziam
Algo que me dê uma pista de volta para casa...

Cresci entre matilhas e boninas
Em cada esquina em que choviam
Lágrimas quentes e estrelas douradas.
Eu as acompanhava sem saber para onde
Nunca soubera o que tinham em mente
E não poderei falar em Seus Nomes...
Mal consigo entender o que me dizem
então por que me trouxeram aqui?

E do lado de lá
Resiste o eco das canções que esqueci
O sonho que antecipa o dia que esta por vir
E essa sensação de viver em exílio...

Como vim parar...? Não sei tampouco
Me deram um Nome e uma História
Carregaram-me com suas Penas e Esperanças
Disseram me o meu lugar e meu dever
Então permaneci...
Perdendo-me na chuva, vagando pelas esquinas
Em busca de certa poesia ou verso
Nas trincheiras da agitação,
nas rodas da incerteza e
num Lar de Refugiados.
Sempre me perguntam pelo que trago...

E minha mochila está cheia
Das canções dos mares, repletos de sereias
E do mel dos campos férteis e suas açucenas
Das vastas amplidões em que cavalgam condores
Trouxe os ecos de um passado distante
Naquele tempo em que ser Guerreiro era um privilégio
Quando Honra era mais que princípio, era a própria Lei.
Daquele tempo são as modas, as receitas e as cores
que eu mesma desenhei.

E trouxe também outras coisas
Dos amores idos uma lembrança cara
Adubo certo para uma pequena alegria.
Trouxe um Adeus, um Nome Esquecido
Um sorriso, um alívio e um Bom-Dia.
Mas a mensagem se cala em minhas mãos vazias...

E portanto, não sei ainda: por que estou aqui?