terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Escrita na Água




Dia dezenove de dezembro
ainda é março.
Sigo jogando um xadrez
de cores torturadas
salmão, azul- petróleo,
verde- água,magenta, prata...
Enquanto mantenho-me insone
E a espreita de um novo
lance do adversário
Tenho a sensação de estar ganhando
na mesma medida em que algo vai se
perdendo...
As muralhas com que cerquei
as torres
Não me dão chance de um novo movimento
Cavei um fosso
Cavei um poço
Tornei-me a água

Quero consstruir um manifesto em imagem,
de cores puras intensas e escuras,
de beleza clara
Reveladas em platina,
rara luminescência
Em nome de algo que desconheço
e que me escapa.
Tudo o que me cerca reflete-se
em meu rosto.
Por isso só, me desconheço.
Vou seguindo em torno do que me
ultrapassa, justamente por ser assim
imenso.

Como montanhas em cadeia que se erguessem
ondas crescendo, quebrando-se
com toda a força esmagando a tudo
na planície rasa.
Eis o Vale da Morte
Estou aqui!
Ninguém pode me responder
Não ouço nada!
Inundo e transbordo
Derramando as tintas todas
pelas bordas de cal branca
Paginas e paginas
em que se desfazem as palavras
Tudo se corrompe, ou se absorve
evanesce...

Mas o que será que ainda espera de mim,
aquele que já não me reconhece?

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Lua vermelha.


Imagem de Elisabeth Lacunza.

Dias e noites enovelados sobre si mesmos. Um dia. Uma noite. Mais um dia.E mais uma
noite.Próximos - dia e noite- mas não definitivamente diluídos.Como dois gatos.Um tao, sempre perfeito.Dormia.Acordava.Era dia.Chorava.Dormia.Pesadelos.Acordava.E era noite.
Em um momento de fúria por não conseguir dormir tão pesadamente quanto achava que merecia, começou a arrancar tufos de cabelos. E os olhos estavam tão inchados que as lágrimas ardiam como lava e queimavam a pele."Ainda há de chorar lágrimas de sangue"-era um dito repetido de sua avó.Olhou para a palma.Agua. Ainda era água. Ainda era dia. Metade da manhã do terceiro dia, e no quarto seria obrigada a retornar a vida normal.
Parecia ter se passado mais tempo, na verdade.
Só dois dias. E duas noites. Ele tinha ido embora.

"- Porque você quiz"-disse uma vozinha zombeteira, nitidamente feminina, dentro dela.
"- Porque ele não me deixou nenhuma escolha"- respondeu em voz alta para a cozinha
bagunçada.
Esse interlúdio foi bom porque lhe deu a chance de pensar em outra coisa. Era
engraçado. Passar-se-ão os séculos dos séculos, mas as vozes que teimam a aconselhar
submissão sempre serão femininas. Não só as que vivem dentro de sua mente. Fora
também. Como se feminilidade tivesse alguma relação com falta de orgulho.De
auto-estima.Passeia pela casa. Bagunça e sujeira por toda a parte, é o que ela
vê. Sobe para a biblioteca. Quando se vê perdida, sem saber o que fazer, não abre a
Biblia porque se convenceu a muito tempo que entre a Biblia e o Salão da Dona Vera
não havia muita diferença. Conselhos de consensso. De perdão. Ou, ainda, de guerra
total e irrestrita. Mas algo dentro de si sempre soube:excesso de violência é depravação, leu isto em algum lugar. Então ela vai em busca da etmologia da palavra que mais lhe faz falta:
Honra s.f:1-sentimento de dignidade e honestidade moral.2 marca de distinção; homenagem 3.graça,privilégio (dá-me a honra de acompanhá-lo?) 4 castidade
pessoal da mulher 5 motivo de admiração e de gloria...
Parou de ler.Para a mulher, honra e castidade eram o mesmo. Sorriu com desprezo. A
vozinha feminina em sua mente redaguiu ao óbvio ataque: "então, segundo você, a
Biblia, só por exemplo, deve ter sido escrita por mulheres..." É verdade.Suspirou.
A Biblia foi escrita para mulheres.E os dicionários repetiam - cada vez mais - os acordos de senso comum. De qualquer forma independente do que digam Biblias, homens,Livro Sagrados ou Códigos Penais e de Conduta -e as outras mulheres inclusive- nunca ninguém conseguiu realizar nada disto muito bem. "O leite de um homem é o veneno de outro". Se bem que, na época em que vivemos, as coisas ficaram tão difusas que até o contrário disto existe: mulheres que criam discursos glória e teias de arrogância em torno de si, mas que na atitude são decididamente mais vergonhosas e....rastejantes do que suas avós jamais admitiriam.
"-Teias de arrogância" - repetiu para o vazio na sala.
Talvez ela também tenha se tornado uma prisioneira delas.Via balançar-se pelo lustre
uma gorda aranha e ao seu redor, um finíssimo círculo de renda prateada. Foi o que
bastou.Começou por quebrar o silêncio. Heavy Metal ou Musica Árabe? Heavy Metal e música árabe. E Lady Gaga, é claro! "-See my pokerface!"Uhúúúúuuu!!! Vestiu um shorts,uma sandálias havaianas e começou pelo banheiro. Agua, detergente, kiboa pura, lustra móveis, mais agua e baldes e escovas.Uns passinhhos e três giros com careta para o espelho. Três vassouras e um rodo. Batendo a cabeça e pulando á lá Zack de la Rocha."-Fuck you, I wont do what you tell me!" Abria gavetas, passava querosene. Arrancava panelas e teias do lugar, não sem quebrar algumas coisas, arredando os móveis e se assustando com alguma eventual barata. O pó voava e flutuava em torno de si, refletindo pequenas fagulhas de pôr do sol quando chegou ás escadas. "Wiii laakón habibi, salimoune-allllaaaiiii..." Sujeira. Sujeira. Sujeira. Três sacas de lixo foram para a porta. E foi só quando chegou em seu quarto - que propositalmente deixou por último -que se permitiu parar um pouco. Deu um suspiro de alívio e acendeu um cigarro."Aqui o negócio vai ser pesado, vou até trocar de música"- pensou. Trilha de filme: "Assassinos por natureza". Berrava com Diamanda Galás: "Sex is violence...'cause youuuu mannnnnn!" Armários, gavetas.lavadora em alta pressão no colchão amado que já rangera as molas de alegria. "-Tome isso! Tchááááááá!"
Quase tudo terminado. Foi quando começou a dedicar-se a um trabalho mais delicado. Bijoux e jóias verdadeiras. Confundidas, desbaratadas e sem par. "Tem que estar por aqui". E cata.Seleciona e separa. Agrupa os semelhantes. Os que se encontram, são guardados.Os quenão, vão se embora para o lixo, junto com os quebrados. Um a um, uma por uma, e a tarefa última consome horas.
Não encontrou. Que estranho. Nada embaixo da cama. Retorna ao banheiro. Passeia pela
sala, de um lado para o outro e lá estão. Um par de brincos e pulseira que não
serviram, e aguardavam encima da mesa para que mandasse fazer alguns ajustes.
Ouro. Era o ultimo presente: "Lixo!"- do pensamento ao ato.
"Agora sim!" São quase dez da noite, e o que sente deve ser algo parecido com o que o maníaco sente após o surto paranóide. Precisa comer alguma coisa, mas na geladeira não há nada que preste. Liga e pede uma pizza. E como comer pizza sozinha é muito triste, abriu uma garrafa de vinho e acendeu uma vela. "Feliz Desaniversário". Usava essa palavra em um sentido diferente de Alice no País das Maravilhas. Sabia que á partir daquele dia passaria a contar os dias, os meses, talvez os anos que se passaríam na ausência dele. "Fazem três dias...duas semanas...quatro anos...é, terminamos." Faz uma careta. Até o vinho parece amargo no fundo da taça. Pensa "a noite esta muito quente, é uma pena ficar em casa". Toma um banho gelado. Faz uma maquilagem simples que, por isso mesmo, leva horas."Maquilagem - a mais bela maneira de mentir" - dizia sua amiga Josiane.Talvez a única que seja bela. Todas as outras que se lembra são feias. Por que não liga para as amigas e...? Aperta-se em um corpete justo demais e quase morre de asfixia para vestir as calças. Não, melhor não. Horas e horas de confissões indigestas não lhe farão melhor. Veste a aliança de prata que usava antes de conhecê-lo, num compromisso consigo mesma, e tem um ultimo pensamento: "Honra e força hoje, amanhã encontrarei admiração e glória mas esta noite sou uma predadora novamente!"
Olha para o céu, e vê um suave crescente vermelho sangue.Seria ela a princesa das lágrimas de sangue. Acha que não. Sorri de volta, pois gosta de pensar que lá encima uma vovó encantada lhe sorri com seus dentes vermelhos ensaguentados na carne crua da caça.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Atire a primeira flor.


Nordestisto não é gente, faça um favor á nação e mate um nordestino afogado.Todo o gaúcho é veado. Todo o carioca é folgado. Todo o paulista é um Jeca Tatu em terno importado. Bandido bom é bandido morto.Todo o Corinthiano é ladrão. Negão? Pobre e fedorento. E já diz o ditado, branca para casar, mulata para trepar e negra para trabalhar. Ôpa, tem índio por aqui. E indio gosta é de tomar a terra que é dos outros, e dizer que é dele. E beber tudo o que encontra e encher a cidade de lixo humano.Indigente, traduzindo: quase gente. Outro mendicante eterno é o cigano. Todo o cigano é ladrão e embusteiro.Rouba criancinhas e vende até a mãe. Como os judeus. E como saber a diferença entre um judeu e um árabe? Os dois vendem a mãe, mas o judeu não entrega. Por árabe entenda também os turcos, tá? Por isso que vivem se matando. E como são sujos...Como os Chineses, raça cruel.E os coreanos e os alemões (?!)Que vivem xingando e chorando. Igualzinho aos "carcamanos" tutti buona genti, per tutti latri. Muito diferentes dos japoneses, inteligentes mas frios e de pinto pequeno. Mas verdade seja dita,todo o branco é estúpido, desalmado e cheira azedo.E ninguém que tenha senso de honra dependeu de branca para nascer. A degenerescência da raça começou com o movimento hippie. E todo mundo sabe que o hippie é um fracassado. Como o emo.Você gosta de MPB? É elitista e maconheiro. Música clássica? Velho tradicionalista ou nerd.Conservadores e "passadistas" também os que gostam de música regionalista.Coisa de gente atrasada e sem futuro. Já ser "nerd" não é lá muito melhor, quero dizer, um alienado anti-social!Que gosta de música eletrõnica. Que gosta de rave (ô-ôu, outro farrista drogado)!Aliás quem gosta muito de pop e elechtro é bicha, já notou? Mas também conheci uma bicha que gostava de jazz.Morreu de Aids, é claro! Jazz, Soul, rithm 'n blues? Pseudo intelectual que gostaria de ter nascido norte-americano. Você gosta de sertanejo? Que bosta, hein? Coisa de caipira sem-cultura... Já se você curte rap é marginal.Se você curte funk é vagabundo ou vadia.E se você gosta de pagode é os dois - marginal e vagabundo.Outra certeza é que se você é rockeiro curte drogas. E se você é metaleiro, então, é tudo junto:fracassado,marginal, drogado e promíscuo. Dá para ver de longe porque todo marginal tem tattoo.E é pobre.
Na real, pobre, ignorante é só atraso, tem mesmo é que morrer. Por exemplo, o problema do trânsito, o que é? Incentivo fiscal para todo pobretão mal casado sair barbarizando nas estradas.Mas por outro lado também acho que todo o rico empresário também tem que morrer, porque "são tudo uns ladrão" a sangrar o dinheiro da nação (até deu rima, só não faço um samba porque isso é coisa de malandro).Na verdade, se você teve sucesso é porque é medíocre, puxa -saco e vendido. Como um pelego costuma ser, aliás. E quem é pelego? Quem não concorda politicamente comigo, óbvio.Defina seu lado, olhe em volta e só encontrará inimigos.Mas sejamos ainda mais realistas. Um adolescente de direita não tem coração, mas um velho de esquerda não tem cérebro. Adolescente de esquerda? Baderneiro, isso sim! E todo baderneiro faz um curso (universitário) de segunda categoria. E todo baderneiro que faz um curso universitário de segunda categoria é um maconheiro.E o maconheiro é uma praga social. Tudo isso poderia ser endireitado já desde criança. Chinelo canta, moral avança. Nada como uma boa surra para curar homossexualismo aos cinco anos de idade. Mas só Deus - e talvez, castração quimica- para curá-los depois dos vinte. E por falar em Deus, você não acredita? Que horrível, hein? Aliás, você não tem religião, ou você só não é católico? Puxa, que triste para você... qualquer que seja a resposta. Porque o Deus para o qual você reza, eu não o reconheço!
Solução para tudo isso? Trabalhe, fique rico, faça por merecer!Doença é para os fracos! Não acredito em depressão. E se você é negro, pobre e doente? Não sei, quem sabe foi algo que fez noutra vida, né? Uma só não basta para justificar a desgraça. Você é a favor do aborto? Gosta mesmo é de matar criancinha! Ainda ontem era comunista que gostava -se bem que era para comer, deve ser diferente, né? Pois então, por que você não quer mesmo deixar nascer? "Olha, eu sou contra o aborto, mas a favor da esterilização em massa..." Hein? Cada coisa que se vê. E se vier? Quem paga as contas e dá o que comer? Mas a vida continua, só alegria! E além do mais podia ser pior,mais difícil e mais caro, podia ser menina...Porque ter filha menina é pior que ter filho homem. Já começa que homem que come todas é fodão, mulher que dá para todo é puta.É puta toda a mulher que: fuma, bebe,tem tatoo, tem filhos solteira, tem carreira profissional, ganha mais que tu, foi mimada pelo pai, sai com o cabelo molhado para ir trabalhar e usa o dinheiro que ganha para ir a festas. E não existe ex-puta. Nem ex-veado. Nem ex-feminista. E toda a feminista é: machorra, gritona, metida a inteligente e ruim de cama.Maioria de sapatonas. Por outro,no extremo oposto, lado tem a mulher bonita: burra e fútil, mas gostosa. E o homem bonito: otário e veado e ruins de cama também.Por que será que para eles a equação não se realiza do mesmo modo? E o bonito e rico? Playboy cuzão.Tipinho perigoso este...
E sabe por que você não sabe e eu sei? Porque tenho nível superior. É a minha área, o meu curso...Sabe com quem esta falando? Para você, é doutor. É excelentíssimo. É deputado. Senador. Prefeito.Vereador.Por gentileza senhor,se nem tudo o que é ouro reluz, o ultimo a sair, apague a porta e feche a luz!

Observação:
Já existe um texto na internet com este título. Não quiz modificar o título do meu texto porque ele traz um sentido crítico a tudo o que escrevi abaixo deste - se ninguém percebeu, nada disso traduz o meu pensamento. Mas coloco abaixo o texto - que eu desconhecia antes - que também tem este título, devidamente referenciado:

ATIRE A PRIMEIRA FLOR

Rosemary Sadalla

Quando tudo for pedra... atire a primeira flor.

Quando tudo parecer caminhar errado, seja você a tentar o primeiro passo certo.

Se tudo parecer escuro, se nada puder ser visto, acenda você a primeira luz.

Traga para a treva você primeiro a pequena lâmpada.

Quando todos estiverem chorando, tente você o primeiro sorriso. Talvez não na forma

de lábios sorridentes, mas na de um coração que compreenda, de braços que confortem.

Se a vida inteira for um imenso não, não pare você na busca do primeiro sim, ao qual

tudo de positivo deverá seguir-se.

Quando ninguém souber coisa alguma e você souber um pouquinho, seja o primeiro a

ensinar.

Começando por aprender você mesmo, corrigindo-se a si mesmo. Quando alguém estiver

angustiado, a procura nem sabendo o que, consulte bem o que se passa. Talvez seja em

busca de você mesmo que este seu irmão esteja.

Daí, portanto, você deve ser o primeiro a aparecer, o primeiro a mostrar que pode ser

o único e mais sério ainda, talvez, o último.

Quando a terra estiver seca que sua mão seja a primeira a regá-la.

Quando a flor se sufocar na urze e no espinho, que sua mão seja a primeira a separar

o joio, a arrancar a praga, a afagar a pétala, a acariciar a flor.

Se a porta estiver fechada, de você venha a primeira chave.

Se o vento sopra frio, que o calor de sua lareira seja a primeira proteção e primeiro

abrigo.

Se o pão for apenas massa e não estiver cozido, seja você o primeiro forno para

transformá-lo em alimento.

Não atire a primeira pedra em quem erra. De acusadores o mundo esta cheio. Nem por

outro lado, aplauda o erro, dentro em pouco a ovação será ensurdecedora.

Ofereça sua mão primeiro para levantar quem caiu. Sua atenção primeiro para aquele

que foi esquecido, seja você o primeiro para aquele que não tem ninguém.

Quando tudo for espinho atire a primeira flor, seja o primeiro a mostrar que há

caminho de volta.

Compreendendo que o perdão regenera, que a compreensão edifica, que o auxilio

possibilita, que o entendimento reconstrói. Atire você, quando tudo for pedra, a

primeira e decisiva flor...


http://marlivieira.blogspot.com/2010/04/blog-post_09.html

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Imagine que...


...faltam uma hora e quinze minutos para o início do sagrado labor, e contrariamente a suas expectativas, você já conseguiu pagar todas as suas contas. Para tal incidente, já tens um livro na bolsa: "Os trabalhadores do mar" ,de Victor Hugo, recém comprado no Sebo. Senta-se próxima á centenária figueira e reza a todos os deuses para que ninguém lhe interrompa com mais demandas e contradições dos que a que já possui em seu quotidiano. Parece que lhe atendem.
Mas antes de abrir o livro, você olha à todo o entorno meio inquieta. Sabe que há pelo menos duas coisas estranhas. A praça nunca está deserta, e hoje parece que só existe você e um morador de rua, adormecido em um banco de madeira, um pouco mais adiante. Esta é a primeira. A outra é a metáfora poética que lhe ocorre ao olhar a velha figueira, por quem sempre nutriu uma vital simpatia - nos dois sentidos do termo- e o que pensou foi: "Parece um polvo a lançar seus tentáculos verdes em todas as direções, talvez tenha suas próprias histórias para contar e cantar, como uma cantora de ópera, com algo de triste ou teatral..."
Esse pensamento é estranho e resolve debruçar-se sobre o livro, delicadamente pousado sobre a mesa de pedra depois de devidamente limpa com um lenço de papel que trazia na bolsa.
O livro começa, e a descrição da vida á beira-mar é tão rica, que lhe dá a impressão de sentir o cheiro da brisa marinha. Ela parece esvoaçar seu cabelo. Ouve a suave carícia das ondas nas pedras deitadas ao sol, em contraste com a violência com que se quebram na praia e o fato de que próximas ao horizonte parecem nem se mecher.E são as mesmas ondas. É o mesmo mar. O sol esta forte e você tem dificuldade em ler. Olha para a direita, e lá esta uma moça com longos cabelos castanhos e vestido simples, parece ter algo nas mãos à que presta muita atenção. O suave balançar do seu corpo acompanha as ondas delicadas e violentas e imóveis, e...
Não, não pode ser. Isto com certeza não esta no livro.
Olha em volta. Mesa de pedra, onde o livro esta apoiado. Banco de pedra, igual ao que esta sentada. Figueira imensa, com seus enormes galhos escorados em barras de metal.Pombos.Um mendigo dormindo no banco da praça. Jovens estudantes em trio, atravessando a praça, migrando da infância para a adolescência sem perceber...
Recomeça. Pinguins adoecidos castigados pelosol na orla. Para você, as montanhas sempre se parecerão com Grandes Deusas adormecidas, porque sua mãe apontava para elas e dizia: "-Lá esta a Deusa!" E você era criança e não acreditava, mas gostava de divisar silhuetas exatas no perfil das montanhas contra o céu. E a moça ainda estava lá. Você aperta a vista e vê...é um arco redondo com um fino tecido esticado."Bastidor de bordar", vêm a voz da sua amiga Juliana em socorro da sua memória. Você nunca aprendeu, mas sua amiga sabia fazer lindos bordados de fita, e você gostava de conversar com ela, requentar a água do chimarrão ou do café e falar, falar falar enquanto sua amiga pontuava no pano "hum-hum", "hum-hummmm..." seu invencível entusiasmo adolescente com tudo e todas as coisas.
Nada disso é Victor Hugo. Terá que recomeçar o parágrafo. Olha em volta. As dunas. O vento salgado.O mar corrente e insistente como o tempo.Em que tempo terá acontecido esta história? A moça certamente não pertence ao século XXI, mas também não poderia ter vivido no mesmo lugar de Victor Hugo. Afinal, você mesma reconhece esta praia e nunca esteve na Fraça. A moça agora em pé, seu bordado nas águas. Ela que de súbito se atira da pedra, como quem quer voar e agora está caindo. Em silêncio, as ondas a cobrem. E ela, que é você mesma, tenta salvá-la das aguas- as ondas agora lhe parecem definitivamente imensas -braços que lhe empurram para a margem - mas você consegue vencê-las. Livre da linha imaginária de arrebentação, você mergulha até quase perder o fôlego, e é como se ela nunca houvesse existido. Só na volta para a margem, algo esbarra em suas mãos, um pedaço de tecido parece. Você emerge das espumas com toda a força, puxando quase que com raiva. Mas é apenas a tela.
Certamente não é essa história.
Retorna á margem exausta e sentindo-se francamente derrotada por não ter encontrado o corpo. Segura o bastidor-bordado com as mãos e lá está traçado um "Adeus" rebuscado em linha azul. E mais ao fundo ela vê. Uma moça sentada em um banco de pedra tendo á sua frente um livro aberto e na lateral direita (mas só parcialmente)e os galhos de uma velha figueira escorados em vigas de metal...

Referência deste conto:http://wikimapia.org/195802/pt/Praia-da-Joaquina

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Parábola Passarinhada...



Canta o pássaro,pontualmente
Quatro e meia da madrugada
A melodia é uma queixa
a prece, uma pergunta
que marca a cadência
da parábola passarinhada
que tenta ser uma resposta
o que não nos serve de nada.
...


Um pássaro preso ao chão
Encolhido na calçada
Será ferido, caçado
Esmagado sob os sapatos
da nossa insensível pressa
...

Um pássaro preso em uma casa
vazia,abandonada
Voará contra paredes, se
despedaçará nas vidraças.
Até que de tanto tentar se desfaça
num trinado gemido
na morte haverá alívio,
e algum céu será possível.
...

Um pássaro preso em gaiola
- as mais variadas-
De gradil, de madeira,
algumas douradas,
foi de muitas maneiras aprisionado.
Talvez,lhe retirem a pena mestra,
Outros ainda, têm os olhos vazados
Para que sua alma seja plena
Eis que há todos encanta.
No entanto, não haverá ninguém para
invejar-lhe a sorte,
Nem desmentir seus feitos.

...
Alguém saberia dizer qual é mais miserável?
O homem que nada pode dar...pois nada têm?
O homem que conquista o destino de outro ser- e dele tenta
em vão escapar?
Ou aquele que vive feliz, em conformidade... porque tudo ignora de si?
...

Sob a pele, entre as costelas de cada homem
e cada mulher
existe um pássaro que luta e quer poder voar
Mas talvez tenhamos que acolhe-lo com cuidado,
para que se fortaleça
Talvez seja só abrir as janelas
para que ele possa sair
e o sol possa entrar,
Mas se só entre grades puder
sobreviver
deixá-lo cantar entre as arvores
e voltar quando quiser.

O Segredo da Rosa


O nome de minha vó era Esperança, e eu sempre achei isso o mais bacana pois seu nome definia quase tudo de sua pessoa. No jogo defina esta pessoa em uma palavra, vovó facilitava as coisas.Mas não só...diziam que esta podia ser um tanto tola,com seu jeito assim sempre alegre e satisfeito de si, mas esta era notória mentira. Porque não interessava o que dissessem, era sempre muito procurada, por parentes, amigos e até desafetos, quase sempre em busca de conselhos.A temática variava muito: bichinhos de estimação, plantas, crianças, decoração, paisagismo, culinária, bordado, crochê e, quase sempre, os descaminhos do amor e outros que tais.A todos Esperança atendia com o mesmo carinho e paciência, e de sua casa ninguém nunca saiu pior do que entrou.É...vovó sabia das coisas, ou pelo menos, daquilo que era realmente importante saber naquele tempo.
Acho que tudo começa assim: a vovó existiu em um tempo em que o importante mesmo era como tornar a vida das pessoas melhor, mais segura, mais calorosa e prazerosa.Hoje, depositamos toda a nossa esperança na política democrática e no Estado de direito e...bem, vivemos de modo bastante mais próspero do que na época dela. Usufruimos de mais igualdades, de mais direitos,mas parece que algo do objetivo se perdeu, não lhe parece? Pois é...
Uma das memórias mais marcantes que eu guardo da infância é a do dia em que me ensinou a cultivar rosas. Transcrevo agora um diálogo assim, meio inventado, porque são falhas as memórias da gente. Especialmente as memórias de infância.

Pegando uma muda, e arrumando um torniquete.
-...Nunca enterre parte do caule. Você pode plantar em qualquer tempo, em qualquer estação, mas é o que você sente no momento em que a deposita na terra que será determinante. Veja a D. Zélia, por exemplo. Não acerta uma! Todas as suas rosas mal vicejam, perdem as pétalas, e tu sabes por que?
-...(fiz que não com a cabeça).
-Porque esta sempre chorosa, sempre lacrimejando, cheia de doenças verdadeiras e falsas. Nunca se ouve dela um "bom dia" que seja sincero.
-...(começo a rir).
- Pronto! Aguar, daqui para frente, uma vez a cada 5 dias, talvez uma vez por semana, até que a lua aponte o crescente de novo. Daí, como vai estar mais chuvoso, a gente pode espaçar mais as regas.
-E as podas?
-Só ano que vêm. Agora vem me ajudar com esta saca, preciso preparar a terra para as outras.
- O que é isso?
- Argila. Pedras, restos de erva -daninha...
- Mas por que?
- Bem, este é "o segredo da rosa".
- Como?
- D. Tília mata suas rosas antes de nascer, porque sua terra é igual a nossa, negra, úmida, fofa, cheia de adubo, a rosa não suporta isso e morre sufocada.
- Como assim, rosa não é flor de estufa?
- É sim, mas...
- Mas..
- Quando ela sai da estufa e vem para o nosso jardim, ela no fundo quer muito pouca coisa. Lugar arejado e com bastante sol. E também, a aspereza da terra dos barrancos e pedregais.A agua da chuva é a melhor e Rosa não é flor exigente, não quer agua todo o dia, isso a afoga.Rosa morre de três coisas somente: sufocada, afogada e de tristeza. Sabes por que isso?
- Não.
- Porque a mais bela das flores, muito antigamente, só dava nos ermos e solidões. Nessa época ela tinha sementes e não tinha espinhos. Só que o Homem a descobriu e, se no início a achou muito linda, depois não se contentou e achou que poderia ser ainda mais perfeita.E foi mexendo, mexendo,como é que se diz? "Hibridizando" até que ela se revoltou e agora, quando sai da estufa, quer de volta tudo o que é seu. É assim como se ela dissesse: "sabes do que eu sinto mais falta, daquele tempo em que eu era livre, D. Esperança? Não é da companhia e não é das paisagens abertas e do silêncio noturno e das estrelas tão mais brilhantes, ainda não ofuscadas pela agressiva luminescência dos postes, nem do ar tão puro, nem da variedade de pássaros. O que eu sinto falta mesmo é do solo endurecido, da agua escassa, da força dos vendavais,e do desvario que tomava conta de mim a cada golpe, a cada enxurrada, a cada seca.Era o constante teste de minhas forças e da minha vitalidade sempre em desafio com a morte que me trouxe a fama de valente e até...de mágica! E hoje,que há menos desafios, minha armadura - nesse momento vovó pega minha mão e a faz alisar as folhas pontiagudas - é bem mais forte! Esta armadura é só ressentimento, de não poder ser mais quem eu era..."
-...(vovó silencia)
-...(eu em silencio pensativo, e não sei quanto tempo se passa).
- O segredo da rosa, minha neta, é que apesar da sua aparência frágil e delicada,de ser a inspiração de todos os poetas e o presente de todos os dias dos namorados, ela se ressente com nossos cuidados excessivos porque quer ser livre.

Todas as vezes que planto rosas,lembro de seu conselho. As mais bonitas eu realmente não cuidei nada.As outras, com tanto esmero cultivadas, logo se perderam.Hoje, quando vejo alguma moça ou mulher com uma jóia em formato de rosa ou coisa assim, penso que algumas mulheres - e também alguns homens - que conheci, que no jardim ou na estufa jamais ficarão satisfeitos...

sábado, 2 de outubro de 2010

Sawabona




Cumprimento usado na África do Sul, quer dizer:
"Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim"!
Em resposta, as pessoas dizem Shikoba, que significa :
"Então eu existo para você"!

Teatro dos Anjos.


(...)

Quem poderá entender esta minha carta de despedida?
Saio para as ruas e paro
em frente ao Velho Teatro
que as heras terminarão por sufocar.
Quando ele tombar,como uma velha árvore,
então minha alma partida,que por ali flutua
emitirá seu ultimo suspiro, sob as pedras
de um outro tempo já desbotado.

Por enquanto, ainda posso entrar.
O Teatro esta vazio e, no entanto
Todas as cadeiras ocupadas.
São silhuetas negras
com as quais me medi,ainda ontem.
Assim,aprendi a corrigir meu desalinho pela sombra.
Principalmente á noite, onde é bom evitar os espelhos...
Aqui e lá eu ouço farfalhar de asas
as cadeiras só tem pertences
(arcas e anéis, espadas ensangüentadas
bilhetes ensandecidos)
Eles não tocam o chão
E eu permancerei próxima á entrada -
que é também a saída - encostada no vão da escada
(não é o lugar ao qual pertenço?).

Se abrem as cortinas e lá está ele
O Anjo Cinzento com sua língua de chumbo.
Veneno de Deus, vingaça do Sereno
contra nossas asperezas quotidianas
pois é a suavidade das pétalas que ele deseja.

O cenário muito simples, é apenas uma tela
projeta-se uma fonte de pedra,repleta de terra,
onde cintilam flores azuis muito, muito pequenas.
De Frederic Chopin, Op.25.1, obsessiva eólica...
Sinto o perfume das flores agonizantes na morte
Tudo me traz uma impressão de remorso e abandono.

E no palco escuro, mais duas figuras,
Mulheres de joelhos,chorando magoadas,
(e eu sinto muito por não sentir pena)!
Eu sinto muito...mas não sinto nada!
Olham fixo para o que Ele tem em suas mãos
o tornozeolo de um bebê na direita e
na outra a espada.
Parece ter os olhos vendados
(deve ser um truque - eu penso!)
Pois surge um sorriso fino a cada grito,
enquanto gira sua espada, como um cata-vento
de fogos de artifício. As faíscas dançam, a platéia delira...
Se vê uma expressão que não sei dizer
se é de ironia ou desprezo.
Nas faces de um Anjo...isso me faz arrepios.

Finge que vai cortar a criança ao meio,
fazê-la em pedaços.
As mulheres desesperam,mas nenhuma cede
e nem tem forças para evitar.
e o bebê chora, berra,e...
Ele para! Sorri,
e tudo recomeça!
A platéia explode em gargalhadas
e meu sorriso é um grito represado entre os dentes!

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Imagine que...



você esta andando por um caminho. Feche os olhos. Entre na cena. Sinta o caminho, a brisa no cabelo, o cheiro de mato, o som dos seus passos... como são? Ressoam na areia? No barro? Há um caminho de pedrinhas? Que tipo de caminho perfazem? Um caminho acidentado, cheio de pedras e obstáculos, onde grandes se pode avistar grandes montanhas? É um caminho estreito ou amplo? Um cipoal, ou uma trilha aberta? Você consegue sentir o calor do sol, ou é um dia nublado? O que você carrega consigo?
Preste atenção á vegetação. É um bosque, cheio de árvores. Como elas são? Grandes, fortes e enraizadas, na flor da idade? Evidentemente centenárias, vergando sob o peso do tempo, cobertas de parasitas? Muito novas, quase brotos? Frutíferas e floridas? Ou é uma mata fechada, recoberta com cipós? O que sente ao vê-las? Tente individualizá-las. Sente algo especial por alguma...? Tente estabelecer alguma conexão, irradiar-lhes alguma traqüilidade, algum carinho, amor até se conseguir. Por quê? Porque você vai entrar cada vez mais fundo neste bosque, e elas estarão presentes em praticamente todo o caminho... Depois siga em frente. Cuidado! Preste atenção onde pisa!
Um pouco mais para dentro, você verá um pequeno curso d'água. Pode ser uma cachoeira ou um delicado olho d'água, ou ainda um riacho, isso não importa. O importante é que você se concentre para vê-lo bem. Aproveite para encher o cantil. Agora um animal se aproxima de você... que animal é este? É doméstico ou selvagem? Preste atenção como acontece, como se desenvolve esta relação. Ele lhe ataca? Ele busca chamar sua atenção?Ele é mansinho e vem se medos, em busca de seu carinho? Seja o que for, toque-o com cuidado. Sempre pode revidar e lhe machucar, nem que seja uma pulga- e provavelmente você não pensou numa pulga! Depois, se conseguir interagir com ele, resista a tentação de permanecer com este animal. Não tente agarrá-lo ou correr atrás dele se fugir. É inútil. Mas por outro lado, se ele o quiser acompanhar, deixe-o vir. Prossiga. Pense no seu grau de dificuldade. Resista ao cansasso também - se o sentir - e continue. Para frente é o caminho.
Agora pare.
Você encontrou uma chave. Uma bela chave antiga como as das gravuras do Dave Mc Keen? Não conhece Dave...? Deixa para lá. Uma chave pequena e nova, brilhante? O que você faz com ela? Guarda-a? Solta-a? Por quê? Pense no melhor a fazer, e quando conseguir tomar uma decisão, prossiga.
Preste atenção ao que pensa enquanto caminha. Olhe para frente e perceba que lá na frente se abrirá uma clareira. E no centro da clareira uma casa. Me pergunto se você guardou a chave... vai precisar dela agora.
Não se preocupe em entrar, a casa é sua. Tão sua que, seja qual for o jeito que você deu para entrar caso não tenha trazido a chave, que vou pedir para que me conte minunciosamente o que tem dentro da casa.
O que você vê quando entra? Como se sente?Qual a sua primeira atitude? Para a maioria das pessoas é realmente difícil não permanecer nela, mas comece a reunir forças para seguir em frente.
Mas algumas se sentem desconfortáveis nela...seja qual for o seu caso, comece a reunir forças para sair e prosseguir caminho, Você terá que andar ainda mais um pouco...ou muito.Siga andando...
Até encontrar um muro. Fale deste muro para mim. Alto, de difícil escalada? Baixo, divisando claramente o que vem a seguir? Velho em em ruínas, você tem medo que desmorone? Novo e brilhante, quase incongruente de se encontrar em meio a uma floresta? Dê um jeito de chegar ao outro lado do muro e conte-me com detalhes. Você esta agora completamente no controle. O que você vê? O que você sente? Como se sente? Há uma floresta? Há um caminho? Há animais, ou casas?
Pode voltar ao início agora e pensar em cada uma de suas respostas. Eu lhe contei a história da sua vida. Da sua morte. E mais além...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Cigarra e a Formiga (uma fábula reinventada).


Imagem de Sonia Amaral Castro.

Ninguém a chamará de Cigarra antes que tenha saído de seu confortável estado de ninfa. Quero dizer, relativamente confortável.
Muitos anos se passarão em Claustro profundo, sob camadas de veludo negro, quente, úmido e perfumado, confundida com a Grande Nutriz. Enredada na fina capilaridade de alguma raiz, morde a pele que jorra a seiva branca, acridoce e vital aos sentidos mais que lúcidos da pequenina, sempre ávida de novas cadências para o próprio prazer. Acima da terra, as folhas reverdecem, suspiram e estremecem de prazer, pois o prazer vegetal é sacrifício e doação - nada a ver com o prazer animal.
Pareceria naquele instante fácil e confortável para muitos, talvez outros vegetais achassem relativamente simples, mas a verdade é que a vida de uma ninfa é intensa, vibrante e enérgica demais para ser suportável em poucos dias por qualquer outra espécie.E ela poderá permanecer ali por anos, numa escala de 2 até 17 anos. É praticamente o que um ser humano leva para completar sua escolarização. Embora muito semelhante á um bebê no seio da mãe, sua vida interior de crisálida é mais parecida com a de um soldado espartano em treinamento, onde a mente é só mais um entre outros sentidos, quase iguais em importância. A busca pela razão disto, e por segundos de paz inalcançável,será determinante no tempo de duração de sua formação. Ninguém consegue imaginar como é "pensar" com o olfato, o tato, a audição e o paladar em sincronia perfeita. Nada parecido com um estar adormecida no fundo da terra. Não há "inconsciente". Não há sonhos.
É a busca por essa coerência entre os sentidos se afirma como surgimento de uma consciência. Surge como um clarão, um rasgo, uma luz dolorida e onipresente com a qual terá que conviver pra sempre à partir de então. Esta consciência primeva, estranhamente, será coletiva e estará profundamente enraizada no conhecimento da história de sua espécie. Uma das primeiras "vozes" que escuta e experimenta lhe diz que, diferente de muitas outras "familias", ela nascerá com uma "missão" específica. Praticamente todas as outras terão que construir para si um destino. A beleza desta "missão" adquire para ela dimensões coloridas,aromáticas e saborosas demais para que ela realmente questione ou procure alternativas. A consciência de uma cigarra será sempre ludibriada pelos sentidos, e isso é bom,justo e belo.
Mas apesar disto, a Cigarra, que é símbolo máximo do Artístico no mundo humano, tem na verdade uma concepção de Vida muito mais parecida com a de um militar.
Por exemplo, ela entende que toda a sua vida e até mesmo a criação no Planeta Terra dependem de seu esforço em, num determinado momento, quando ela estiver "pronta" libertar-se para o mundo soltando sua voz em um si sustenido, ultrassom e contínuo. Esta nota petulante traçara um finíssimo fio, que se prederá ao de outras cigarras que, nos verões do mundo inteiro, cantam a alegria de viver. Ela já sabe que metade das cigarras já traçou sua finíssima teia e aguarda agora pelo trabalho da outra metade. Ela apenas sente que seu papel,embora minúsculo se comparada "a teia geral" é imprescindível. Isso tudo parece uma grande brincadeira, mas é muito sério. Nenhum fio, nenhuma ponta de voz pode estar solta, pois são estes fios invisíveis quem mantém preso e firme aquilo que de modo algum pode se desagregar, esgarçar e destruir. São a Teia da Vida. Eles mantém unidas as partículas subatômicas que são o tecido de nossas paisagens. Não fosse por essa afirmação máxima e intensa de alegria a repertir-se em cada estação, a entropia natural seria a única Lei. E nada existiria.
Ao soltar seu fio, outras cigarras serão para ela atraídas. É a hora da Dança do Amor, onde encontrará A Ùnica e Perfeita. Que cantará como ela, mas em um tom mais baixo e pronfundo, tecendo a cama sonora de sua sinfonia. Elas se unirão e...será Belo. Justo. Bom.Esta mesma sinfonia será o alento dos ovinhos- bebês que surgirão á partir deste dia, embora eles nunca venham a conhecer os pais.Esta é a ultima mensagem de amor á espécie.
Esta estranha compreenssão tão radical da existência eleva ao máximo seus níveis de ansiedade.Porém, nada se pode fazer antes do "tempo certo". Pouca coisa se sabe antes disso.Chegado "o momento" saberia que teria apenas dois dias para romper nova crisálida. Tecer o fio da vida. Encontrar na brevidade de um instante - talvez poucos segundos - o Amor. E morrer com a sensação de outras tantas gerações de cigarras que a antecederam. Não haveriam pré-testes, ensaios ou estágios. O ultimo suspiro deveria ser "dever cumprido" ou o silêncio esmagador que antecede o fim de uma linhagem. A terra em suas costas seria fria neste caso.
Ela intui de alguma forma que apenas mais duas ou três espécies se encarregam da mesma tarefa, e se esforçam em criar redes de segurança quase tão perfeitas quanto as delas mesmas, as cigarras. Mas estas espécies vêm rareando, enfrentando muitos problemas para a reprodução e diminuídas em seu número ano após ano. Isso vêm pressionando as cigarras á um perfeccionismo histérico nos ultimos 50 anos. Tudo isso é o que acontece, pelo menos do ponto de vista da cigarra.
E como o que se apresenta de modo muito simples, também é irrisório seu pagamento. Três promessas lhe serão feitas.

1)Voar
2)Cantar.
3)Amar.

Há muito silêncio para a indagação: e depois? O silêncio traz o medo. E aos poucos ela percebe a inconveniência, frieza e amargura deste silêncio no fundo da terra, presa á casca da raiz do Salgueiro que não tem resposta e, ao fim, não questionará mais. Sentirá leves espasmos na consciência, algo como uma pulsação muito forte para ser ignorada, mas muito vaga para ser definida. Ela empurra sua consciência para um outro extremo, num pêndulo que lhe garante que permanecerá com a doçura traqüilizadora das promessas.E ao fim, pressente o aumento dramático de temperatura, e os perfumes que lhe cercam passam a adquirir tons histriônicos. É chegado o momento. Terá de partir.

Veremos agora como tudo se passou para a nossa Cigarra em específico...

Quando rompe a primeira casca espera encontrar maravilhas, mas percebe apenas que terá que ainda que esperar um pouco. A escuridão da terra a invade por todos os lados.Então ela cava um túnel na ânsia de respirar, e chega á superfície com evidente orgulho. Para para descansar um pouco e, ainda cega, escala a grande parede que é o tronco da arvore. E quando chega á metade desta, ofegante e exultante ao mesmo tempo, para para contemplar pela primeira vez a paisagem que a envolverá por mais um ano pelo menos. Ela sorri como um alpinista no topo do Everest. A primeira etapa da missão foi cumprida com sucesso.
Ela espera por outra "ordem" enquanto se prende a casca do salgueiro, e aproveita para ver seu novo lar. Os olhos custam a adaptar-se á luminosidade.Seus sentidos parecem enlouquecer, tantos são os estímulos, e esta adaptação é lenta, muito lenta. Aos poucos a paisagem vai se descortinando mais exata, e embora aos nossos olhos fosse apenas um mangue com suas aguas doces e marrons e seus pássaros tão tristes, para nossa Cigarra a paisagem se descortina em maravilhas de universos infinitos. Cada arvore e cada flor, cada larva e cada pássaro e até os incontáveis matizes do céu são para ela uma alegria renovada. Há murmúrios e canções, irrompidas por trinados de matizes muito refrescantes. Há movimentos harmônicos e dançarinos da vida se perpetuando sob o leito das águas.Há calor e luz irradiando por toda a parte.
Os dias se passam, as folhas nas arvores caem, a luminosidade do dia se vai encurtando e as noites vão se tornando cada vez mais frias. A Cigarra percebe que algo esta errado, mas culpa a si mesma. "É a ansiedade" - pensa. Pensa e esquece, sorrindo para si mesma de sua própria tolice. E segue esquecendo cada vez mais quanto maiores são as noites, encantando-se com a beleza das estrelas e seu tilintar suave nas amenas trevas de sua existência neste mundo - do-lado-de-fora.
E apesar de todo o treinamento, toda a orientação e disciplina, nossa Cigarra parece indecisa no momento de romper a pele, apesar da comichão já ter se tornado insuportável.Algo como a melancolia a toma de assalto. Porém, é o instinto, o chamado em voz clara e altissonante, que a convence a deixar todo o exoesqueleto, essa parte tão importante de si mesma, quase como uma pele com todas as suas lembranças para trás.
Num esforço de valentia, segue o ímpeto e salta para o ar. Dispara numa atitude mais que honrada seu canto, que é ao mesmo tempo um grito de guerra,um lamento profundo por aquilo que deixou para trás e um chamado de loucura e paixão. Nossa Cigarra sabe-se atraente agora, ouve seu próprio canto e ele é perfeito, é o que imaginou que deveria ser, e seu coração novamente se enche de um orgulho e vaidades sadias e benfazejas - afinal, por que não?
Mas nesse dia tão cinza, alguém mais canta, e bem mais alto. Nossa cigarra é rapidamente apanhada por uma rajada de vento, que uiva em sua convicção selvagem e bravia de tudo arrebatar e destruir. Ela persiste em seu canto, mas o vento não pode compreendê-la. Seus olhos se fecham enquanto vê seu fio pequeno, frágil, solitário, á procura de outros fios enevoando-se pelo céus crispado de raios, assustador.E apesar da dor ela insiste em vibrar suas membranas com toda a força, numa vã expectativa de assustar o vento aterrador e recuperar o que esta irremediavelmente perdido.
Pois nossa cigarra imagina-se imprecindível, como poderia saber da enormidade daquela substância incorpórea e invísível que a agarrava agora com tanta força sob seus punhos cerrados? E como que uma resposta a sua forte convicção, a ventania diminui. É quando começa a chuva. Pingos grossos e pesados como projéteis de chumbo explodem por toda a parte. A nossa cigarra agonizante esta em tal estado que já perdeu o sentido de dor. Esta anestesiada, caída em um jardim morto parece só haver espinhos, pinheiros e os restos da ultima floração das flores de maio. Faz um esforço para arrastar suas patas molhadas e asas quebradas até as pétalas mortiças e apodrecidas, que ficam próximas a algo que parece ser um abrigo. Este é um esforço que esta muito além das suas forças, mas ela não sabe disso. Percebe que as poucas lembranças que possui daquilo que deveria ter sido são imagens e sons e sabores e texturas de flores macias e multicores em tardes quentes e ensolaradas. Nada a preparou para isto.Ela se arrasta enquanto as gostas caem cada vez mais pesadas e dolorosas, esmagando partes importantes e vitais deste seu corpo - que será o ultimo. Mas ela segue em frente, deixando para trás uma trilha linfática. A dor explode com força em sua pequena cabeça enquanto ela vibra as membranas em seu abdomem com coragem, naquilo que será definido como um Canto de Morte por suas irmãs que vierem a nascer. Se confunde com ódio, indignação, desespero e até loucura, mas que é só tristeza, tristeza e tristeza...
O refrão deste canto desesperado diz - "Não compreendo..." É quando a força lhe falta e um finíssimo fio de luz se rompe e cai suave com um estrondo de trovão para os sensíveis ouvidos da cigarra.
Quando sobrevêm o alívio e uma imagem do que podería ter sido, com a força de uma Revelação, ela dá seu ultimo estremecimento: "ouço flores adormecidas perfumando e aquecendo esta terra..." Pode ser a tradução mais aproximada possível do ultimo verso da canção, este suspiro. E foi neste exato momento, quando os ouvidos mais acurados de um sapo gordo que por ali se abrigava puderam ouvir o romper de uma casca que tomba agora vazia, seguida de uma sutilíssima luminosidade, a de uma pequenina estrela que se abraça à imensidão, que a nossa Cigarra abandonou a história deste mundo.
E depois nada. Em silêncio segue a noite, vem de mansinho a madrugada e a manhã ensolarada (e muito fria) toma de assalto ainda que sob os véus de uma alta cerração.
O dia começa para as formigas silentes de seu dever necrófilo e carregam o corpo de nossa cigarra para o ninho, onde a devorarão sem maiores cerimônias nem interesse especial,pedacinho por pedacinho, mastigando-a devagar e burocraticamente, para economizar.Cheias de si. E de ódio. E inveja. Torporizados que são seus sentidos para qualquer outra coisa que não seus gostos vulgares e sua existência mesquinha e segura perguntam-se pedaço á pedaço - "Por que ela...?".

Moral da História:
1)A cigarra nunca deveria ser julgada do ponto de vista da formiga. A formiga não tem senso de nobreza. Geralmente nem sabe do que se trata.
2)O fio frágil e tênue da vida é uma das maiores e mais incompreensíveis forças da natureza, mas sua tessitura pode estar naquilo que nos parecer mais insignificante. Devemos respeitar o que não compreendemos.
3)Nunca deixar que uma formiga invejosa nos devore com vida. Para isso, em tudo o que fizermos devemos empregar toda a força disponível. Quem se alimenta de restos e cascas vazias, com eles deve se contentar. Devemos ser fortes e valorosos como as cigarras.
3)Paremos para cantar e celebrar a Primavera que é o que nos resta nesse mundo em que até as estações vêm-nos sendo solapadas, e já não sabemos mais como nem quando serão.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um novo velho tempo...


São oito horas da manhã e meus olhos se ressentem, como se eu mesma tivesse emergido de uma duna de areia.Mexo o pescoço com suavidade para trazer meus cabelos para o lado,enquanto com um sorriso, dou bom dia aos meus alunos.Há pouco nem usava esta palavra, reforça a ilusão de que de mim a luz emana e eles apenas a recebem ou rejeitam. Mas virou hábito.Não são meus. Não são alunos.Não sou um luminar e no mais das vezes eles é que iluminam meu dia. Percebo que um zilhão de pontinhos coloridos escapam do aroma de cabelos há pouco lavados em mais um dia começa.Hora da chamada.Não reconheço a menina no fundo da sala."-Deve ser aluna nova".Ao fim da pequena lista, espero ainda uns 3 segundos antes de perguntar, apontando para a ultima carteira da segunda fila - direita para a esquerda:
- "E qual o nome da aluna nova?"
Gabriela responde incisiva:
-"A professora enlouqueceu? Eu estou aqui desde o início do ano..."
Nem espera qualquer resposta. Se levanta, abrupta e vem pra conferir se registrei a presença.
-"Aqui esta ela"- respondo com certa intransigência. Ela me olha desconfiada enquanto pergunto para mim mesma: "-Mas como?"
Levanto, calma e lentamente. Eu vejo, mas será que só eu...? Prossigo. Visão histórica das religiões ocidentais e orientais. A primeira prossigo - ainda linear.Como todas as religiões monoteístas.E como a minha aula, cronometrada em marcação simétrica,pá-pa-PÁ COMEÇO, tátá-tá MEIO paTÁpata-paTÁ FIM. E assim sucessivamente. A menina continua lá e me observa com olhos capazes de engolir uma professora, com quadro branco e tudo.Sem ser no entanto, ameaçadora,parece até um tanto tímida por detrás de óculos metálicos e um sorriso metálico subtraído em um rosto tão pequeno para um corpo assim muito grande.Não são apenas o sorriso, mas as pernas que seguem assim encolhidas (apertadas) no desajeitamento de uma altura que ainda não aquietou, como seus lábios não tão finos mas que se contraem com facilidade, como se prendesse entre eles um projétil que não ousaria disparar.Há algo nela, em sua postura e em seus modos que me incomodam profundamente.Não são seus olhos tão inquisidores pois estes são faróis para minha fala, se acendem e se calam pontuando os avanços e recuos de minha nau. Eu faço ranger seu leme partido no desejo de algum alvoroço, alguma dúvida ou inquietação, o fremir das vagas caóticas que logo conquisto.Visão histórica circular. Fazem-se ouvir, em enxurrada uma cachoeira de dúvidas e indignações, um turbilhão no qual me deixo submergir. "Como uma coisa pode nunca ter tido começo?" "Como não teria fim?" "Como poderia voltar-se sobre si mesmo, o Tempo?"
"-E quem será esta menina, aparelho nos dentes, óculos fundo-de-garrafa,cabelos crespos,tez negra-e-pálida,olhar inquisidor e que para cúmulo, recusa-se a incluir-se na chamada e dizer seu nome!?" Cuido para não fixá-la demais,faço com que meus olhos dêem rasantes na superfície de um pequeno lago de cabecinhas, enquanto tento responder dúvidas e inquietações com uma certeza que tomo emprestado e devolvo aos autores sem muita hesitação - o que é outro erro, é claro!Desculpem-me senhores, mas...
Reflito o que penso como numa superfície espelhada, uma anotação vacilante no quadro branco,mas só quando bate o sinal tomo coragem de admitir crer no que ainda vejo. Em um último olhar de relance, ela devolve e me acena em resposta.
E eu soube que, naquele dia,dei aula para mim mesma, só que há muito, muito tempo...

Imagine que...



Você caminha pelas ruas movimentadas da cidade, foninho no ouvido e balinha de lembrança derretendo açúcar embaixo da língua tão sensível, olhando para cima enquanto arrasta a bainha e o quotidiano sempre lamacento quando... Tropeça no que parecia ser grande e pesado mas é uma pequena caixinha enrolada em papel celofane. "Urânio?" - Você pensa. Mas o que será que o faz levar tal coisa assim tão suspeita para casa, senão mórbida curiosidade? Desembrulha com todo o cuidado o celofane e descobre contra a luz que era vermelho. Mas a cor do azul que havia embaixo o confundiu. Desembrulha novamente com redobrada atenção.Amarelo. Desembrulha.Rosa. De novo.Roxo. Mais uma vez, só que apressado. Verde. Laranja.E desta vez era mesmo violeta. No ultimo você já esta rasgando com os dentes mesmo, embora fino e transparente o suficiente para entrever a pequena caixinha preta.Abre.Pedra brilhante .Será...? Levanta a espuma preta e a etiqueta confirma. "Amor eterno...diamente...Sr.Fulano de Tal..."
Sim, há pouco eram as cinzas de algum bom marido,pai de familia,grande amante...
Eterno, mas que se perdeu.

Canção para Yemanjá.



Entrei com a pulseira de ouro
no mar, e lá se perdeu
Devolve Senhora, minha pulseira
Devolve foi meu pai quem me deu!

Entrei com a corrente de prata
no mar...no pescoço...sumiu
a onda que veio puxou
no fundo afundou e caiu.

Devolve senhora, meu colar
Devolve, minha mãe que me deu
Devolve, eu não posso lhe dar
Devolve, por favor que isso é meu!

Entrei com o anel de cobre
no mar, e lá ele se perdeu
Devolve senhora meu anel
Devolve,foi meu amor quem me deu!

No dia em que morreu meu amor
Fui lá e plantei a roseira
Floresceu assim minha dor
No espinho da derrota primeira

E assim que colhi com ternura
A flor da tristeza inocente
Levei para a beira do mar
A senhora quer de presente?

A onda que foi...mas voltou
A flor que afundou...mas boiou
A rosa que Yemanjá não quis
E eu dei, na areia ficou...

domingo, 11 de julho de 2010

Desperto!


"O que vemos, o que somos
parecem-nos sonhos
dentro de sonhos"
Anônimo


A luminosidaade indecisa do ocaso da madrugada confundem as sombras e minha visão.É meu quarto, eu sei mas não consigo reconhecer os passos na escada nem a silhueta que surge à porta.Ele? Ela? Eles? Um e três cabeças? O que será que vêm e me ataca, dedos compridos e negra cabeleira?Reagirei, com toda a força que sei ser insuficiente. Ele ou eles? Indefinível e imenso. Morderei com toda a força até sentir o sangue...a marca da minha mandíbula...esta muito maior! Enterrei com facilidade até sentir os caninos se chocarem e arranquei quase 300 gramas de carne quente do ombro? Sinto prazer ao repuxar dos nervos. E essas cicatrizes...era apenas para empurrar seu rosto para longe. Mas parece que quem ataca agora tem presas fortes, imensas garras.Nesta face antes tão múltipla e agora clara, me parecem exagerados os estigmas da luta. Meu ponto de vista se desloca.E percebo que sou eu o lobo imenso que devora...
Desperto com alívio, no meu quarto iluminado pelo sol. Mas não reconheço as cortinas brancas e esvoaçantes, nem a paisagem que se descortina na janela. Faltam algumas coisas.Tão vazio, claro demais...este é um quarto de hospital? Ao longe, vejo um bebê que se afoga na margem.E esta tão raso! Não há ninguém para ajudá-lo só eu posso.E estou correndo, ofegando, meus músculos se ressentem com o esforço...inútil! Minhas pernas se enterram na areia até os joelhos, eu tento mas não consigo sair do lugar. Quando tento me erguer, parece que faltam as forças, é como cair sem tropeçar e se enterrar mais e mais... O bebê parece engasgar nas ondas,não chora mais, aquiesce, fica roxo e eu quase choro de raiva, impotência e pena.As lágrimas escorrem quentes pelo meu rosto. Penso: sou mesmo uma fraca. Mas que droga! Quero gritar mas parece que sou eu quem não consegue mais respirar.
Então desperto...

domingo, 27 de junho de 2010

Taliesyn - O Bar Melhor Amigo!



A semana termina e eu vou saltando,
por entre notas e pedras enlameadas
Um sátiro sorri em cumprimento
E anota meu nome,num reconhecimento...
minhas dores e cansaços e ambições
deixo cair pelas frestas
da velha escada escura perigosamente
viesada e envernisada
que range sob meus pés - talvez outras mágoas, talvez...

A escuridão uterina do velho carvalho
É a escuridão que me invade no amoroso sobrado
Como um lar que não me pesasse ou
um instante que pudesse ser roubado do tempo
e um tempo que se pusesse a abraçá-lo,
desdobrado em carícias a percorrer seu corpo
como um rithmi'n and blues,
e é com alívio que sorrio para o sátiro (o mesmo?)
que serve a cerveja honesta, a alegria sincera,
e talvez algum esquecimento
que se passem as horas!
Eu já posso deixar cair para o lado
esta minha bolsa bolsa tão carregada
De divisas e consagrações!

O que você deve saber do Talyesin
É que se nem tudo que pode se consumir
esta no cardápio
Nem tudo o que se promete irá se consumar
Mas não perca a oportunidade
Sorrisos involuntários á pequenos
detalhes, pequenas imagens e signos
que encontrar.
Os sonhos traídos de outras décadas
Eles também estão lá!
Preste atenção na música
Emoções estridentes
sorvidas á goles lentos
compassados e quentes.
Pare. Pense. Responda.
É mesmo um mal ser assim tão ingênuo?
Um dia volte para me responder...

E como em toda a estalagem, toda a taverna
Desde o início dos tempos, há para os adultos
Sortidos divertimentos
Enquanto transitam e transidam, efêmeros
semideuses nórdicos, êfebos suculentos,
E também ninfas sexys e musas satânicas - para quem gosta...
Mas lembre-se, são lendários.
Virarão poeira ao sol...
Você poderá ir quando quiser
Fará novos amigos, reverá antigos
E "aquele assunto" mal ou bem vai se resolver
Onde esta o sátiro que não vem?

É também o melhor lugar para se
Abandonar, como uma criança no colo do Sábio
Descobrir um tesouro escondido na prateleira
Escrever algum poêma-bêbado
Dançar sozinha, em algum canto discreto
poderia fazer o mesmo, bem perto do palco
Em outro lugar talvez não entendessem...

Eu sei que uma voz se esconde atrás
de velhos cartazes e antigas evocações
E que eu poderia aprender
de como ser tão só e ter as chaves
dos corações mais insinceros
Ter na palma da mão sete destinos
Escolher entre sete desejos
poderia ainda roubar alguns sigilos
descortinar os véus de algum mistério

Era só prestar a atenção
Conversar com O Livro
Mergulhar no caldeirão
E assim se passam os anos,
O Velho Druida sorri:
"que bom, você por aqui..."
e lá vem o Sátiro (ou são dois?)...

Poderia mas...não quero!

O Conto Esquecido de Sherazade.


Conta-se - mas Alá sabe melhor do que nós o que esta oculto e conhece melhor os acontecimentos dos povos do passado, seja esse passado próximo, afastado ou muito distante - que existiu uma noiva de impressionante beleza e imensa sabedoria,cuja fama iria atravessar os séculos dos séculos e que viria a inspirar os poetas e contadores de história do mundo inteiro. Seu nome era tão delicado quanto o seu porte e maneiras,e correspondia em tudo á descrição que lhe fizera o poeta:

"Dama de alta beleza, feita á perfeição
e cujos traços têm o esplendor de um astro
quando no apogeu. Todo um povo confundido,
ricos e escravos misturados a apreciam.

O Deus do Trono a dotou de todas as graças
ela a todas sobrepuja em distinção,
seu corpo e sua alma são graciosos e,enfim
ela possui o tlahe esbelto do caniço.

Seu rosto é um firmamento onde velam
sete estrelas iluminadas, sentinelas que
guardam
esse rosto, e ás quais não escapa nenhuma ameaça
pois vigiam com os olhos no horizonte.

Se, ás ocultas, alguém vier lançar-lhes
um olhar satânico, um olhar maligno
ei-la que vos atira uma estrela
incendiada, e o tentador é consumido."

Assim era Sherazade, que suportou com estoicismo todas as provações que o Amor lhe impusera, e este lhe fora pródigo em vicissitudes. Sim, pois que todos sabiam que a filha mais nova do Grão Vizir se entregara a um marido tão poderoso, rico e abençoado com os mais elevados dons que concedem a Beleza, quanto violento e cruel. Todos sabiam que, para poupar o povo da insânia de ver sequestradas suas filhas - uma a cada noite - ela se entregara, de livre e espontânea vontade ao cativeiro mais sádico. Neste, ela seria obrigada a tecer pelo menos uma história á cada noite, com um machado sempre suspenso por sobre sua cabeça, pois que era sua própria vida o penhor de sua criatividade incessante e imensa.Era de conhecimento de todos que seu fardo se tornara ainda mais pesado quando lhe vieram filhos, pois todas as três gestações e partos foram escondidos e seus três filhos prematuramente arrancados de seus braços, tornando se assim desconhecidos dela mesma. Ás vezes, ela pensava ouvir seu choro, sentir ao longe suas angústias, mas nada podia fazer...maktub. Enfim, todos sabiam, mas estavam de mãos atadas, entre outras coisas por ser ela uma prisioneira por livre e espontânea vontade. E de todos os que se ressentiam de sua situação, um homem ao largo superava-se em sua dor - o próprio Grão Vizir, que a entregara - não sem peso na consciência - a semelhante destino.No entanto, á este homem coube a tarefa mais árdua de todas, a de escrever e ocultar a história da Contadora de Histórias mais famosa do mundo. Por saber ler e escrever, e por gozar da máxima confiança do Rei, pôde ele suportar esta tarefa. Trascrever os relatos das escravas, da filha e do próprio Rei Shariar, construindo á partir deste mosaico de impressões o seu próprio relato. Eis o que preservou um djin, destes tantos relatos ocultos:

"Sherazade sonha em seu dossel de vidro marchetado, em uma transparência que lhe permite que o menor raio de sol empreste ao cômodo todas as tonalidades do arco - íris; seus travesseiros são de penas de ganso mesclados a ervas aromáticas, suas fronhas do cetim mais macio, suas cobertas recobertas de penas de pavão. Todas as noites, após se deitar,suas 4 escravas recobrem seu leito com pétalas de rosa, que lhe entremeiam dos densos cabelos.Apesar disso, Sherazade jamais encontrou paz em seu sono. Sherazade, a eterna noiva á quem ninguém se deu o trabalho de perguntar se realmente gostava de rosas.E nesta noite, como em tantas outras, Sherazade revirava-se em seu dossel delicado sufocando com seu asfixiante perfume e perdida em terrível pesadelo.
Neste mau sonho, se encontrava neste mesmo quarto, inteiramente recoberto pela escuridão.As nuvens, grossas e pesadas, recobriam a lua e as estrelas, mas não traziam a promessa de uma tempestade que afastasse as cortinas de veludo e deixasse transparecer, ocasionalmente, a luminosidade de raios e relâmpagos. Nada, enfim além do ar frio e da chuva fina, muito embora isso também no fundo, não fosse assim tão importante. Perdida nestas angustiantes reflexões está Sherazade, que observa a porta entreabir-se e, curiosa, senta-se na cama.Pelo pouco que consegue perceber, só poderia ser o Shariar, mas por outro lado não, não poderia ser, não nesta noite.Não havia sido ela dispensada justamente por ocasião de uma necessária viagem para tratar de assuntos de Estado em estado de guerra? Não podería, pela primeira vez em um ano, usufruir da paz de dormir em uma noite silenciosa, ao invés de ao amanhecer? Mas só pode ser Shariar, pelo perfume que dele rescende, pelo seu hálito levemente alcoolizado, por seu evidente calor febril, tão diferente de outros homens. Ela pensa em se deitar novamente, em fingir sonambulismo e sono, em escapar...mas é tarde! Esta visivelmente acordada, sentada em sua cama e temerosa de não ter mais nenhuma história redentora para contar.Shariar chama seu nome, e ao mesmo tempo ela houve o som rascante da cimitarra depreendendo-se da bainha.Seria o ultimo som que houviria? Ou nova provação?
É quando ele pega em sua mão, firma a direita em sua palma contra o punho da espada, faz com que seus dedos o abracem e, quando percebe o equilíbrio da ponta da lâmina contra o chão, se afasta quase que sem fazer barulho.
-"O que seria isto?" - Ela pensa.
"Talvez ele tenha intuido a verdade, talvez seja este meu fim..."- Segue a sonhar. Certa paz lhe invade. Pois a verdade é que suas estórias finalmente se esgotaram. Amanhã teria que dar um ponto final á última, que ela estendera o quanto pôde, e o dia de ontem teve para ela um sabor especial. Sabia estar agora á exatas 24 hs da condenação final, mas seu espírito por demais gentil não conseguia disto se ressentir.Presta atenção.Ouve. Muito e muito longe, como são doces os sons do vento a carregar a areia das dunas, para lá e para cá, como uma dança.E quase como em resposta, algo lhe interrompe. O som dos pés do sultão deslizando na opacidade fria arrancam-lhe deste doce devaneio. Ela agora percebe que ele esta descalço - seus sapatos de pele de antílope tem outro som.
-"Cante para mim, Sherazade!"
Este é um pedido estranho, e ela sente que talvez não saiba mais cantar. A voz lhe sai rouca e desafinada em um primeiro momento, justamente por falta de hábito, mas logo reconquista a tonalidade grave e profunda que fazia o encanto do Grão-Vizir, seu pai, que amava vê-la cantar.Mas apesar disto Sherazade percebe ao ouvir-se que canta sem emoção como o rouxinol mecânico de um conto essquecido. Ela houve o tilintar de moedas e pedrarias no mesmo compasso de suas palmas e descobre...ele dança sua música!
É inacreditável! Isto realmente lhe parece uma afronta ao reino, ao seu pai e a ela mesma! E pela primeira vez arde a cimitarra em sua mão.
Em gesto de extrema confinaça ele se inclina de costas, com a cabeça quase a encostar em seu colo. "Seria tão rápido" - pensa Sherazade.
Ele parece ouvir seus pensamentos, pois ela ouve o som de um riso abafado. Mais dois passos - passeados pelo tapete e ele puxa o lençol abaixo dela. Neste momento, deve estar a brincar com ele, quando traça um arco exato com a coluna até deitar-se no chão com a barriga para cima.
"Seria tão simples" - Pensa Sherazade, imaginando como seria poder passear sozinha pelos campos de algum reino perdido, quando bem lhe aprouvesse.
A cimitarra parece cada vez mais viva e queixosa em resposta a estes pensamentos. Ele, o Sultão, ostenta agora sua mais perfeita distração ao equilibrar-se na ponta dos dedos, ainda a brincar com seu lençol.Enquanto durar a música, Sherazade terá visto mais de mil maneiras e outras tantas oportunidades de fazer voar a cabeça do Sultão, sem dó nem piedade.Percebia com clareza que poderia fugir, e estaria então livre daquele palácio, daquele homem e sua presença exigente e mesquinha e até de suas próprias estórias e personagens, igualmente exigentes e pertubadores.
Ela engole em seco e pensa: "só um pequeno gesto...livre para sempre...seria tão bom!"
Mais do que depressa, troca as mãos do punho da cimitarra, faz delizar a direita pela lâmina afiada, sente a dor do corte e o calor e cheiro de seu próprio sangue.Esvai-se numa calma líquida seu desejo de matá-lo. Terá ainda tempo de interromper a música com um gemido antes de despertar.É quando um silêncio pesado se abate sobre ela, que ainda houve a voz do Sultão a dizer-lhe"...pois bem!"
E é este silêncio pesado, intenso e sufocante como o perfume das rosas amanhecidas, este silêncio imperativo como o próprio Shariar que enfim a desperta, antes ainda que a voz de Duniazade rasgue este mesmo silêncio, como gaze fina:
"-Já é noite..."
Sherazade se levanta com cuidado para o repetitivo ritual de ser depilada, banhada, penteada e por fim levada pela mão ao quarto do Sultão, onde ainda com a cabeça sob a cimitarra, se entregará ao amor possessivo e escravizante e á devaneios quase impossíveis de se compreender dada a sua condição. Com estórias cada vez mais fantásticas, com ricos detalhes descritivos de uma realidade jamais vista, só imaginada, ela entreterá o Rei, enganando a própria morte,adiando seu encontro final um dia de cada vez,escrevendo seu nome com pétalas e letras nas areias do tempo...
É ela, Sherazade, filha mais nova e mais bela - sem dúvida a mais amada - do Grão Vizir, cega de nascença...como pôde?
Todos no reino se perguntam.Duniazade, a amiga e irmã que melhor a conhece é justamente a que mais se pergunta. Ela mesma duvida que poderá conseguir ás vezes pois jamais saberia explicar de onde lhe vinham tantas histórias, tantos personagens,tão vívidos e inquientantes. Porque para o Shariar, só Sherazade é alento e esperança, quando poderia ter a mulher que quisesse. E por que para Sherazade - que jamais conseguirá ama-lo, tamanho horror o Rei lhe inspira - é sempre noite.
Mas esta que começa será a derradeira para Sherazade.Ela sente. Sabe. No entanto, pelos corredores com uma expressão que nada revela, uma face muda diante de qualquer dilema ou angústia, e prepara-se para implorar por sua vida apenas por um leve sentido de obrigação com seu pai e sua irmã. Pois no íntimo, sente-se pronta para encontrar Aquela que destrói o edifício dos prazeres e dispersa as assembléias. Aquieta em seu peito todos os questionamentos para que ganhe espaço em sua mente personagens e paisagens para sempre estranhos, com a força da fé de seu povo de que só Alá, o Altíssimo, pode ter a resposta...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Xerazade
P.S: Os poemas e outros detalhes que dão "fôrma" aos contos originais das Mil e Uma Noites foram diretamente extraídos de "As Mil e Uma Noites: Paixões Viajantes, vol 2".Tradução de Rolando Roque da Silva. Ed. Brasiliense, 1991.O resto é meu e não tem intenção de ofender ninguém, apenas prestar uma justa homenagem á maior contadora de histórias de todos os tempos.

domingo, 30 de maio de 2010

Labirinto.




- ...
Caminho por entre teiás e névoas
Por entre arcos e tréguas
Meus pés calcando ruínas
Sigo tateando ás cegas.

Ás vezes paredes translúcidas
E ás vezes, espelhos convéxos
Desvio de um paradoxo lógico
Para cair no maquinário sem nexo.

Caminho por entre corpos e crises
Rumores,sunsurros, caminhos traçados
É mesmo um beco? Será que é o fundo?
Apalpo a pedra...ou vou para outro lado.

Acendo a chama de outros sentidos
E só me encontro onde me esqueço...
Será que não há mesmo saída?
Ou é só mais um novo começo?

Caminho por entre trovas e pactos
E por entre delírios e destinos
Meus olhos tateando as trevas
De meus sonhos distantes, me acenam meninos.

Caminho mas não sei para onde vou,
quanto tempo passou,quando vai acabar?
só o eco me diz por onde seguir
será que terei mesmo de voltar?

Por entre arcos e tréguas...
E ás vezes, espelhos convéxos
Rumores,sunsurros,caminhos traçados
E só me encontro onde me esqueço...

sábado, 29 de maio de 2010

Drops filosóficos.


Diagnóstico.

"Houve uma chacina contra os menores abandonados"
Pergunte: o que você sente?
(só vale para um adolescente)
E já sabes de que mal sofre o país.


*************************************************************************************
Chegou o momento
Nas pálpebras, a sombra das asas
da borboleta
No peito o compasso do coração
de um beija-flor
Para as faces tomei emprestado
o brilho do sol dourado
para poder despir-me da pele
do ano que já passou.

*************************************************************************************
Me derreto como agua nas tuas mãos
Quando debruçado sobre mim com uma sentença
Queres me fazer voar... para ser meu chão!
Escapo por brechas, parlendas e trocadilhos
Não entrego a ninguém o direito
de me definir, amansar ou pôr nos trilhos.

-Dourada,a gaiola não deixou de ser prisão!

*************************************************************************************

Enquanto isso....
o homém sério,viril e elástico
Retira com o palito a semente dos ocasos-
no semi-riso seco - de seus dentes de plástico.

domingo, 23 de maio de 2010

Flertes



Belo Rapaz de cabelos jogados para o lado e proeminentes maxilares parecia olhar para o rio, a procura de algo que talvez tivesse caído na margem.Talvez por ser jovem, belo e atraente, Moça Bonita parou um pouco acima de onde ele estava, cabeceira da ponte a fingir que observava o rio, hoje mais caudaloso que sempre. Entregou-se então a devaneios muito próprios de se ter frente ao rio que passa, especialmente quando se quer disfarçar o embaraço frente á beleza. Pensou a moça: "Aqui houve acerto na regra gramatical.O rio é leva "o" como artigo, porque é moço, é belo e bastante cônscio da sua aparência, e tanto é assim que não permite, como outras águas menos vaidosas, que o céu ou as montanhas nele projetem sua imagem.Apenas a sombra das árvores, que se mantém á márgem, como servas, permite ele que projetem a sombra suave.Sim, suave como um carinho feito por mão de criança enquanto se dorme.Agora, a se levar em conta as linhas que se desenham em sua superfície neste momento, se pode imaginar que ele desata os cabelos,antes presos em um tipo de trança, ondulados cor de mel-vassoutinha - que é assim um tipo de mel meio dourado - e é incrível como o cabelo dos homens é sempre mais belo." Percebe a Moça que suas mãos também podem ser entrevistas, "grandes e de artérias grossas e azuladas a contrastar com a pele vermelha, onde se sobressaem os seus dedos compridos a correr ao longo das mechas, ajudando a soltá-las. Só o rosto desse rapaz não posso adivinhar pois que se encontra submerso. Ele tem pressa em seu desdém, mantém a altivez e o mistério, nunca para. Ignora céus e terras e matas -então que se dirá de uma garota insensata na cabeceira da ponte - mas esse pensamento a desgosta e ela o interrompe.Segue pensando:ele corre para "a" mar - e aqui a gramática erra - pois que "mar"é moça volúvel do tipo que nasceu para veneração. "A" mar nunca é doce, é só promessa onde a sede nunca passa, berço amargo onde se afogam crianças e onde se traçam caminhos invisíveis, sem volta".
E o Belo Rapaz se foi embora, e se a Moça Bonita o tivesse visto, teria reparado que ainda olhou uma ou duas vezes para trás até desaparecer na esquina. Ele, que tivera a premonição de uma perda ás margens do rio, e que por isso mesmo ali se detivera a dirimir o cansasso,percebe dentro de si uma vazante, sem nada mais poder fazer pois que a Moça Bonita deixou decair seu olhar para a margem e O Rio o arrastou consigo - como flor ou qualquer coisa assim muito leve e que não precisasse.

Colecionadores de Cabeças


Fotografia de Alon Eshel

Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
Karl Marx


Toda a coleção é composta de quatro categorias: repetições, variações de um mesmo tema,inovações e raridades. É só escolher um padrão - sejam botões, selos ou figurinhas da Copa do Mundo, que as idealizações irão se repetir, de uma forma ou outra.O outro padrão que se estabelece rapidamente é a relação do colecionador com o objeto colecionado. Alguns, chegam ás raias da loucura, outros são tão ocasionais que talvez nem merecessem ser chamados de colecionadores. Pois ser um "colecionador de ocasião" é como ser uma "tiete socialmente". Não. Não existe!O colecionador, assim como o artista, é necessariamente um obsessivo.
E teimo em dizer que das coleções mais belas que vi,a que me chamou especial atenção tinha por insólito seu objeto:cabeças humanas, em expositores especiais e vitrificados, valorizados e especialmente iluminados, como devem ser outros tantos troféus de caça. A que conheço especialmente foi herdada, sendo apenas acrescida de novos elementos, condizentes com a época atual.
Acompanhe-me portanto, se paciência e interesse ainda houver com tema tão pouco usual, na labirintica narrativa em terceira pessoa, que descreve não só a coleção e suas raridades, mas o pensamento e estado de espírito da colecionadora em questão, tal como eu o imaginei no momento em que a conheci, e a sua rara coleção.

"A mão sobre a maçaneta era relativamente pequena se comparada ás proporções do corpo a que pertencia. Mas seus dedos longos, que afilavam nas pontas e unhas compridas,lichadas redondas,pintadas de vermelho vinho, pareciam recém-feitas e talvez por isso parecessem mais longas trazendo proporção com o resto do corpo. São estas as mãos que se fecham sobre a maçaneta para abrir a porta. Seguir por um longo corredor, sem pensar em nada especial. Só então percebe que hoje é o aniversário da mamãe.E para de frente para um rosto conhecido, congelado naquele tempo naquela precisa expressão que parece indicar um orgulho e uma satisfação única consigo mesma.Ela esboça para aquele rosto o primeiro sorriso do dia, um sorriso afiado pelas contradições da vida equilibrado como uma taça de agua em um fio invisível de finíssima ironia, estendido por sobre um rosto ainda suave, mas em que os anos da vindoura maturidade´já começam a deixar seus sinais de anunciação.Este rosto é o seu, a refletir no espelho da ante-sala. Esta é a casa com maior número de espelhos por metro quadrado que jamais conheceu.E é sua.
-"Uma longa linhagem me conduziu até este momento" Ela pensa. Assaltada por uma vaga inquietação que faz sumir o sorriso.Começa sua fala em tom monotônico e explicatico para distrair o incômodo pensamento de que não foi nada "macia" a estrada que conduziu sua ascendência a este lugar, e a ela naturalmente. Momentos violentos, abruptas rupturas, fugas, sofrimentos indizíveis, abominações inqualificáveis e todos os aterradores segredos e mistérios que compõem todas as histórias familiares, mas especialmente as bem sucedidas.
Segue passeando por entre torsos e cabeças estratégicamente posicionadas do corredor até a sala, trazendo a sensação de um certo "deslocamento", um caminhar entre sonhos distintos. Sua coleção é enorme, tem todos os sexos e todas as idades,todos os pertencimentos de classe e as mais variadas predileções,taras,manias e profissões.Um cardápio humano farto.Chama a atenção o fato de não haver nenhum reflexo no amplo espelho da parede da sala.
Começa a observar uma a uma, com indescritível ternura. E para defronte o olhar sério e desconfiado de uma criança de dois anos. Na verdade, aprecia sobremaneira as crianças colecionadas, presas mais difíceis, eternizadas na faixa etária que mais evoca aquele sentimento ibérico intraduzível e, ao mesmo tempo, tão globalizado.Saudades.Não há ser humano que não sinta saudades da infância, na exata proporção que suas lembranças vão ficando cada dia mais indefinidas. As memórias de infância são, na verdade, uma longa colcha de retalhos feita só de momentos. Um manto mortuário que, noite após noite, alguma fada insana segue des-tecendo, adiando o momento final, onde talvez tudo faça algum sentido.Por isso,as cabeças mais aprazíveis sejam mesmo as de adolescentes e seus ideais esquecidos. A visão de tais rostos lhe traz o conforto que a Beleza traz, a ilusão de uma Verdade presente e sempre ali, ao alcance da mão, a exigir uma postura diante da sempre inevitável mudança. O olhar maternal da adolescente que desponta é um dos seus prediletos.Na verdade ela é estéril, mas não sabe - nunca saberia! Esta ali, a velar e proteger pelos desmazelos de todos ao seu entorno. Também o olhar duro e inquiridor de um jovem com a beca de recém-formado parece atenuado em sua confortável sala de estar.As mais recentes são sempre mais coloridas, e a luminosidade que delas emana embora mais exata, será sempre assim algo mais artificial - talves justamente por isso. Mas ela tem apreço por esta artificilização,pensa que preserva algo da privacidade dos colecionados.
E aquelas que ela chama de "as mais velhas",trazem à sua voz um tom quase exaltado de alegria, e parecem nos observar e acompanhar com os olhos: um sorriso monolítico de indecisão e incerteza nesta primeira, o olhar sonhador e romântico que se eternizou nas histórias de família por seu jeito assim duro e implacável naquela outra.Seguimos por entre novas irrealidades e esboços em tons sépias.Este rapaz aqui, acompanhado pela pequena e frágil moça de ar sério, de expressão quase que prepotente e desafiadora.Sua postura parece ter sido capturado no exato momento em que crispava a boca e perguntava a si mesma: "como ousa?" E a adorável tríade, bem ao centro da sala de jantar, a mais inquietante de todas. Não as conheceu realmente, estes "objetos" foram herdados. Talvez por isso tenha para com elas a maior sensação de dívida. Estavam todas as três no mesmo expositor e a diferença entre elas faz destacar a singularidade impossível de unir: a "dona" e seu cabelo mais curto, uma Arthemis de nariz adunco e olhar desconfiado e triste, enjaulada em uma arvore genealógica que pouco se assemelharia ao seu meio-ambiente original, se tivesse tido a oportunidade de vivê-lo. E á direita, uma senhora gordinha deixa pender de seu colo farto e generoso um colar de pérolas e a medalhinha de Sant'Anna. Mas tudo em sua expressão facial traia a sensualidade e a malícia que tenta esconder na severidade do vestido negro,mas um tanto decotado demais.E a mais velha, que casou o maior número de vezes, ao centro, como direito adquirido pelos longos anos vividos, possui o exato sorriso irônico e olhar sereno de quem tudo já viu, tudo sabe mas nada dirá.
Sobe as escadas, onde deixa penduradas a sua outra coleção, iniciada recentemente. É o que ela chama de "coleção de viagens", onde traz uma máscara de cada lugar novo que conhece. As máscaras utilizadas por algumas vezes são ainda poucas mas num sem número de expressões e personalidades,denunciam uma outra condição psíquica e onírica da colecionadora. Ela segue para o quarto,deixando para trás todos os retratos de mais de dez gerações que, como pequenas veias azuis através da pele, ou ainda,pequenos córregos e rios através da mata, conseguiram desaguar neste exato momento em que se recolhe e adormece para talvez acordar amanhã.E se não, então seu lugar também estará garantido no balcão da sala de jantar."

Desterro


Ouço interpelar-me um eco distante no tempo: "...canta, pois, a tua aldeia!"
Minha aldeia é um cemitério com vista para o mar, onde os urubus disputam peixes enjeitados.Suas casas mal caiadas, de argamassa e areia de sal esfarelam á menor brisa.Talvez por isso as casas, que rejeitam as ruas, as marés e as pontes com evidente desdém,abram os braços permissivos para seus próprios jardins pequeninos e exaustos.Os jardins são ilusão de perenidade, onde a Natureza irônica sorri.
Ela diz: "-Queres ver jardins de verdade? Caminhe ou navegue atravéz dos costões, por sua conta e risco.Lá encontrarás mistérios e lendas e parlendas!Verdadeiras charadas em formas rupestres!Lá verás bromélias e orquídeas de verdade, e é lá que estão os pássaros mais raros e canoros!Mas sobretudo, faça-te de surdo a prosopopéias e desvãos desta nação salobra inventada, onde mataram todas as testemunhas."
E como sempre, tem razão.
É agora que pedem, ao meu lado, com macia ironia: "canta pois a tua aldeia!"
Pois me sabem eterna estrangeira.E que meus passos não são meus passos. Eles se voltam sobre si mesmos não porque eu busque o retorno - para onde iria? - mas apenas para disfarçar os rastros. Refugiada de um conto de terror que se não me falha a memória era assim que terminava: "...e foram felizes para sempre!"
Também estou na fila mas juro que não sei onde se pega a senha!
Não me acreditam nem aqueles que me vêem dia a dia.
Talves venha de um futuro este eco que ouço, e reconheço a frase:"...minha pátria esta na sola dos meus sapatos". Acrescento "e em meu peito é que se espelha, e eu a reconheço".

sábado, 24 de abril de 2010

Microconto1 - Frestas.


Porquê há coisas em nosso quotidiano que não ousamos denunciar, pulamos num pé só, aprisionados em nossos quadrados de giz desenhados, em que cada traço é uma fresta por onde se esvaem nossos sonhos. Quer aprisionar uma galinha? Pegue um giz e trace um círculo. Um ser humano? Trace metas!E lá vem a Revolta um dia, insana e desumana pela reconquista do delicado equilíbrio necessário. Ela invade a sala, caminha de um lado para outro, de um lado para outro,e de novo para o lado com as mão para trás.Bufa, rosna e vocifera. Num resumo, a reivindicação pode até ser justa, mas o discurso é incoerente. Esbugalha os olhos raiados de vermelho, dilata as veias do pescoço e olha em torno. Parece procurar algo.Em cada face de espanto boquiaberto em busca de uma criança que sacuda as grades e grite: "Sim! O Rei está nu!"
Silêncio.
Nada!
Senta-se contrariada e sozinha em algum canto da sala onde não hajam brinquedos. Quer ficar por ali mesmo, emburrada. E fica até explodir em alta gargalhada. Inevitável.Súbitamente acometida de pensamentos que fizeram cócegas na garganta, inflaram as bochechas,coçaram o nariz.Bem que tentou conter, mas agora a sala já está cheia de bolhas de sabão que lhe escapam da boca!

O homem da meia noite e a mulher do meio dia.


Todos os dias eles se encontravam por volta de 5:00 da manhã, ou, ás vezes, 17:30 da tarde. E de todos os assuntos que poderiam ter, escolheram falar sobre seus sonhos. Noturnos, no caso dela. Diurnos, no caso dele. E todos sabem que, se dos sonhos diurnos lembramos melhor, os sonhos noturnos em comparação são algo assim, mais íntimos.

Ela fala, e seus sonhos são aventuras romanescas e de magia explícita. Mais do que libertar um povo ou á seus amigos, sua principal missão muitas vezes consiste em libertar a si mesma ou, simplesmente, não se deixar aprisionar. O resto, o próprio enredo dará conta. Pois é quase sempre a heroína perseguida por inimigos mágicos e cercada de amigos híbridos, como sereias, fadas, centauros e outros animais estranhos como Pégasus e Coelhos Falantes. E mais do que as fugas espetaculares, as batalhas quase perdidas em que se sobressai com alguma saída criativa, a ciência de artes marciais nunca aprendidas que ressurgem como que por instinto nas lutas corpo-a-corpo momentos em que faz surgirem armas onde antes só haviam roupas contra a pele, o que lhe impressiona mesmo é a empáfia, o orgulho, a auto-confiança que tanto lhe fazem falta no seu dia-a-dia. E o fato de vestir um avatar tão simples e justamente por isso, tão próprio dela mesma. Seu cabelo sempre termina em longa trança que, presa bem alta, traça o horizonte de sua cintura. Não há maquilagem (durante o dia também prescinde dela) e esta vestida com uma camisa branca, uma calça jeans muito justa para os incríveis movimentos que executará durante á noite, que terminam em botas marrons de cano até o joelho, sem saltos – nunca entendeu muito bem a finalidade destas torturas – e um indefectível chicotinho de montaria preso á cinta quase á guisa de enfeite. Mas não só de batalhas e aventuras será sua vida adormecida. Há sonhos comoventes e ensolarados, em que simplesmente se senta abaixo de uma grande arvore e conversa com muitas crianças, que lhe rodeiam quase que naturalmente. Então fala sobre o “mundo e seus moinhos de vento”, os filmes e músicas mais queridos de seu momento e de livros, onde esboça vertiginosas análises sócio-literárias que jamais verão a luz do dia. É destes sonhos de paz, tão raros, que ela gosta mais.

E sempre que começa seu relato, diz “... tive um sonho, e sim, você estava nele e me abraçava.”

Ele fala também, e seus sonhos são obscuros, atormentados e quase ausentes de finais felizes. Suas telas são rebordadas por matilhas de cães com dentes arreganhados, prontos para, a qualquer momento, fazê-lo em pedaços. São pontuados de intrigas políticas, manifestações gigantescas que varrem as cidades distorcidas de seus sonhos, como ondas raivosas ,colossais, contra as quais não há possibilidade de apelação, salas de tortura e reuniões entremeadas de documentos secretos. Ele tem por principal missão roubar as páginas rasgadas da História, preservar a versão dos vencidos, enfrentar cara-a-cara O Inimigo para proteger sua família, seus amigos e aqueles que ama. Ele esta sozinho, dolorosamente sozinho se pensarmos na solidão como sinônimo do desamparo e do abandono. São muito variadas suas armaduras – todas negras contra a película azulada de seus sonhos. Seu cabelo, barba e sapatos – que alega serem sua pátria – seguem sempre os mesmos passos mas nunca serão iguais. Muito de vez em quando, o cenário não será uma praça pública – onde quase sempre tudo começa – mas uma casa assombrada em que ele, sonâmbulo e de sobrecapa, terá que enfrentar – poucas vezes com certo auxílio– seres sobrenaturalmente maléficos, perdidos em uma realidade a que não pertencem, aprisionados em uma vida pela qual muito lutaram, mas que já não interessa, como a maioria dos seres vivos aliás. Não há júbilo em suas vitórias, apenas a vaga ansiedade pelo porvir e algumas fugas precipitadas para lugares desconhecidos. E por vezes, surge no horizonte uma nova casa acolhedora e protegida, uma nova sociedade mais justa e igualitária, novas inspirações musicais que trazem em si mesmas, um canto ensolarado de alívio.

E ele termina quase sempre dizendo “...e sim, você estava lá, mas não se dava por conta e era meu dever protegê-la”.

E depois de tantos desabafos e relatos disparatados, os olhos sorriem em compreensão mútua, e há um beijo significativo: “E foram felizes para sempre até hoje...” E logo o relógio denuncia a pressa: se compõem e se despedem na busca de batalhas quotidianas, em que outras pessoas lhes falarão de suas lutas insones, solitárias e fantásticas, de seus medos e anseios, de suas vitórias e derrotas, dos estranhos acidentes e coincidências que, como borrachas, apagam seu fazer quotidiano e retraçam por cima mesmo do anteriormente escrito, novo roteiro para suas histórias tão pessoais.

Nos corredores, nas mesas, nas salas de aula vazias, no lusco-fusco das repartições públicas e bancos de ônibus ela sorri a cada confissão e arrisca por vezes uma frase ou pirotecnia literária ao fundo negro de cada poço que se abre para si. Distribui o pouco que tem: segredos publicados e conhecimentos óbvios e esquecidos. Ela segue outras tantas existências, passando por elas de leste á oeste como o sol de abril como todos os seus colegas fazem -ás vezes entre lágrimas de alegria e alívio, outras com força e dor -eternos parturientes que são estes professores do mundo inteiro.

Nos ônibus lotados, nas rodinhas de colegas de trabalho e estudo, nos balcões entristecidos, nas livrarias esquecidas ou em qualquer lugar entre um e outro cigarro,ele escuta com paciência e tenta produzir em fração de segundos, por gesto ou atitude, uma pérola filosófica. Distribui do que dispõe: entorpecentes para os sentidos e sentimentos, a obliteração quase gratuita dos pensamentos, o distanciamento da alma insone e transbordante. Pois não são as bebidas várias e as músicas próprias ou apropriadas os Mestres de todos os Mestres? A sua luz fria e opalina é um norte na escuridão da noite, e a distância o preserva de toda a dor e toda a alegria. Só uma réstia de coragem doentia o faz seguir em frente.

A cada eclipse um breve encontro, um abraço, um beijo e a promessa de renovação.

A cada volta no carrossel da vida escoa a areia do tempo, soterrando ilusões e lembranças...