sábado, 24 de abril de 2010

Microconto1 - Frestas.


Porquê há coisas em nosso quotidiano que não ousamos denunciar, pulamos num pé só, aprisionados em nossos quadrados de giz desenhados, em que cada traço é uma fresta por onde se esvaem nossos sonhos. Quer aprisionar uma galinha? Pegue um giz e trace um círculo. Um ser humano? Trace metas!E lá vem a Revolta um dia, insana e desumana pela reconquista do delicado equilíbrio necessário. Ela invade a sala, caminha de um lado para outro, de um lado para outro,e de novo para o lado com as mão para trás.Bufa, rosna e vocifera. Num resumo, a reivindicação pode até ser justa, mas o discurso é incoerente. Esbugalha os olhos raiados de vermelho, dilata as veias do pescoço e olha em torno. Parece procurar algo.Em cada face de espanto boquiaberto em busca de uma criança que sacuda as grades e grite: "Sim! O Rei está nu!"
Silêncio.
Nada!
Senta-se contrariada e sozinha em algum canto da sala onde não hajam brinquedos. Quer ficar por ali mesmo, emburrada. E fica até explodir em alta gargalhada. Inevitável.Súbitamente acometida de pensamentos que fizeram cócegas na garganta, inflaram as bochechas,coçaram o nariz.Bem que tentou conter, mas agora a sala já está cheia de bolhas de sabão que lhe escapam da boca!

O homem da meia noite e a mulher do meio dia.


Todos os dias eles se encontravam por volta de 5:00 da manhã, ou, ás vezes, 17:30 da tarde. E de todos os assuntos que poderiam ter, escolheram falar sobre seus sonhos. Noturnos, no caso dela. Diurnos, no caso dele. E todos sabem que, se dos sonhos diurnos lembramos melhor, os sonhos noturnos em comparação são algo assim, mais íntimos.

Ela fala, e seus sonhos são aventuras romanescas e de magia explícita. Mais do que libertar um povo ou á seus amigos, sua principal missão muitas vezes consiste em libertar a si mesma ou, simplesmente, não se deixar aprisionar. O resto, o próprio enredo dará conta. Pois é quase sempre a heroína perseguida por inimigos mágicos e cercada de amigos híbridos, como sereias, fadas, centauros e outros animais estranhos como Pégasus e Coelhos Falantes. E mais do que as fugas espetaculares, as batalhas quase perdidas em que se sobressai com alguma saída criativa, a ciência de artes marciais nunca aprendidas que ressurgem como que por instinto nas lutas corpo-a-corpo momentos em que faz surgirem armas onde antes só haviam roupas contra a pele, o que lhe impressiona mesmo é a empáfia, o orgulho, a auto-confiança que tanto lhe fazem falta no seu dia-a-dia. E o fato de vestir um avatar tão simples e justamente por isso, tão próprio dela mesma. Seu cabelo sempre termina em longa trança que, presa bem alta, traça o horizonte de sua cintura. Não há maquilagem (durante o dia também prescinde dela) e esta vestida com uma camisa branca, uma calça jeans muito justa para os incríveis movimentos que executará durante á noite, que terminam em botas marrons de cano até o joelho, sem saltos – nunca entendeu muito bem a finalidade destas torturas – e um indefectível chicotinho de montaria preso á cinta quase á guisa de enfeite. Mas não só de batalhas e aventuras será sua vida adormecida. Há sonhos comoventes e ensolarados, em que simplesmente se senta abaixo de uma grande arvore e conversa com muitas crianças, que lhe rodeiam quase que naturalmente. Então fala sobre o “mundo e seus moinhos de vento”, os filmes e músicas mais queridos de seu momento e de livros, onde esboça vertiginosas análises sócio-literárias que jamais verão a luz do dia. É destes sonhos de paz, tão raros, que ela gosta mais.

E sempre que começa seu relato, diz “... tive um sonho, e sim, você estava nele e me abraçava.”

Ele fala também, e seus sonhos são obscuros, atormentados e quase ausentes de finais felizes. Suas telas são rebordadas por matilhas de cães com dentes arreganhados, prontos para, a qualquer momento, fazê-lo em pedaços. São pontuados de intrigas políticas, manifestações gigantescas que varrem as cidades distorcidas de seus sonhos, como ondas raivosas ,colossais, contra as quais não há possibilidade de apelação, salas de tortura e reuniões entremeadas de documentos secretos. Ele tem por principal missão roubar as páginas rasgadas da História, preservar a versão dos vencidos, enfrentar cara-a-cara O Inimigo para proteger sua família, seus amigos e aqueles que ama. Ele esta sozinho, dolorosamente sozinho se pensarmos na solidão como sinônimo do desamparo e do abandono. São muito variadas suas armaduras – todas negras contra a película azulada de seus sonhos. Seu cabelo, barba e sapatos – que alega serem sua pátria – seguem sempre os mesmos passos mas nunca serão iguais. Muito de vez em quando, o cenário não será uma praça pública – onde quase sempre tudo começa – mas uma casa assombrada em que ele, sonâmbulo e de sobrecapa, terá que enfrentar – poucas vezes com certo auxílio– seres sobrenaturalmente maléficos, perdidos em uma realidade a que não pertencem, aprisionados em uma vida pela qual muito lutaram, mas que já não interessa, como a maioria dos seres vivos aliás. Não há júbilo em suas vitórias, apenas a vaga ansiedade pelo porvir e algumas fugas precipitadas para lugares desconhecidos. E por vezes, surge no horizonte uma nova casa acolhedora e protegida, uma nova sociedade mais justa e igualitária, novas inspirações musicais que trazem em si mesmas, um canto ensolarado de alívio.

E ele termina quase sempre dizendo “...e sim, você estava lá, mas não se dava por conta e era meu dever protegê-la”.

E depois de tantos desabafos e relatos disparatados, os olhos sorriem em compreensão mútua, e há um beijo significativo: “E foram felizes para sempre até hoje...” E logo o relógio denuncia a pressa: se compõem e se despedem na busca de batalhas quotidianas, em que outras pessoas lhes falarão de suas lutas insones, solitárias e fantásticas, de seus medos e anseios, de suas vitórias e derrotas, dos estranhos acidentes e coincidências que, como borrachas, apagam seu fazer quotidiano e retraçam por cima mesmo do anteriormente escrito, novo roteiro para suas histórias tão pessoais.

Nos corredores, nas mesas, nas salas de aula vazias, no lusco-fusco das repartições públicas e bancos de ônibus ela sorri a cada confissão e arrisca por vezes uma frase ou pirotecnia literária ao fundo negro de cada poço que se abre para si. Distribui o pouco que tem: segredos publicados e conhecimentos óbvios e esquecidos. Ela segue outras tantas existências, passando por elas de leste á oeste como o sol de abril como todos os seus colegas fazem -ás vezes entre lágrimas de alegria e alívio, outras com força e dor -eternos parturientes que são estes professores do mundo inteiro.

Nos ônibus lotados, nas rodinhas de colegas de trabalho e estudo, nos balcões entristecidos, nas livrarias esquecidas ou em qualquer lugar entre um e outro cigarro,ele escuta com paciência e tenta produzir em fração de segundos, por gesto ou atitude, uma pérola filosófica. Distribui do que dispõe: entorpecentes para os sentidos e sentimentos, a obliteração quase gratuita dos pensamentos, o distanciamento da alma insone e transbordante. Pois não são as bebidas várias e as músicas próprias ou apropriadas os Mestres de todos os Mestres? A sua luz fria e opalina é um norte na escuridão da noite, e a distância o preserva de toda a dor e toda a alegria. Só uma réstia de coragem doentia o faz seguir em frente.

A cada eclipse um breve encontro, um abraço, um beijo e a promessa de renovação.

A cada volta no carrossel da vida escoa a areia do tempo, soterrando ilusões e lembranças...

sábado, 17 de abril de 2010

Uivando para a lua.



Eu só preciso
Da montanha - a mais alta que houver -
e um novo abismo
Uma floresta, uma praia deserta
Mas talvez a sacada da varanda
Deve prestar
Qualquer lugar em que eu abra os olhos
e tenha alguma vista para o mar
ou o vazio, imensa escuridão a mergulhar
Submergir em busca do sono,flutuar
Neste lago imenso precipício.

E no parapeito que parecerá infindo
Deitar o peso deste meu orgulho ferido
E descansar.
Por que nem tudo terá explicação?
E se o luar não mata
E se o luar não cura
Sempre traz algum alívio

É esse meu desejo
Que arde, que clama
Por uma morte limpa!
Por um novo início!
E por isso, pelos nortes que já
me abandonaram, eu insisto
Em me perder neste brado de urgência
No mundo em que vivo
Onde até a Beleza assassina
E não há retorno possível
E não há clemência.

Abandono a matilha
È a minha alma que de mim
parte...
Ela resiste; eu mostro as presas
O reflexo nas águas respondem
Na tristeza sempre arisca
Que já é vício.
O que é Verdadeiro
é também preciso
Porque será? Parece que foi ontem...

Ninguém mais percebeu o quanto é tarde?
Procuro dentro de mim
Aquela parte em que não há ciso
Esta que já desaprendeu
sua língua,
semeia urros, ecos no abismo
E não haverá quem não estremeça,
não reaja, não se levante de pronto!
Desperto o que em nós
Foi roubado ou soterrado
pelo Amor cindido da Paixão
e pela Lei cega á Justiça
numa Ordem ausente de Criação
-ou ainda, pura e simples obrigação-
caso de todos os ômegas
silentes e ciosos
e de todos os alphas,
párias cativos
de sua própria lenda,
tão distantes...

Amanheço em pêlo-
prata molhada-suave sereno
só pelo - em pleno
risco...
Já posso voltar para a minha sorte
Depois de renovado o sacrifício.

Drops filosóficos - para quem não tem paciência...



Quadrinha para a insônia
A luz da lua me cativa
Em sua dupla face afiada
Aprisiona meu olhar
Em duas grandes olheiras mal traçadas

É minha alma que morre sufocada.

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Siga Gabriela, ilustrando
De flores e sentimentos
De fadas e vãos pensamentos
E animais delicados
Esse grande Livro Sangrento
Que é o mundo e seus monumentos
Que não te serão dedicados!

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Imortalidade é o sonho que serena a sombra
Sacrifício diário noturno - diuturno?
É nosso negativo do ser animal
Mas para quem seria a imortalidade
mais que apenas
um desejo mortal?

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Muito se fala em "espirito de rebanho". Muito provavelmente porque aquele que poderia escrever um livro sobre o "espirito de matilha" foi feito em pedaços antes de conseguir alcançar a pena (ou o teclado).

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"O Mito do Bom Selvagem" nada mais é que o sentimento de culpa europeu com duas bocas e um ouvido.
Não? Então cite o nome de um "selvagem" que com ele concorde (em letras)...
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Eco drops
Sem saber para onde
Nem até quando,
Sobre o gume da faca
E no fim...a culpa é da vaca!