domingo, 30 de maio de 2010

Labirinto.




- ...
Caminho por entre teiás e névoas
Por entre arcos e tréguas
Meus pés calcando ruínas
Sigo tateando ás cegas.

Ás vezes paredes translúcidas
E ás vezes, espelhos convéxos
Desvio de um paradoxo lógico
Para cair no maquinário sem nexo.

Caminho por entre corpos e crises
Rumores,sunsurros, caminhos traçados
É mesmo um beco? Será que é o fundo?
Apalpo a pedra...ou vou para outro lado.

Acendo a chama de outros sentidos
E só me encontro onde me esqueço...
Será que não há mesmo saída?
Ou é só mais um novo começo?

Caminho por entre trovas e pactos
E por entre delírios e destinos
Meus olhos tateando as trevas
De meus sonhos distantes, me acenam meninos.

Caminho mas não sei para onde vou,
quanto tempo passou,quando vai acabar?
só o eco me diz por onde seguir
será que terei mesmo de voltar?

Por entre arcos e tréguas...
E ás vezes, espelhos convéxos
Rumores,sunsurros,caminhos traçados
E só me encontro onde me esqueço...

sábado, 29 de maio de 2010

Drops filosóficos.


Diagnóstico.

"Houve uma chacina contra os menores abandonados"
Pergunte: o que você sente?
(só vale para um adolescente)
E já sabes de que mal sofre o país.


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Chegou o momento
Nas pálpebras, a sombra das asas
da borboleta
No peito o compasso do coração
de um beija-flor
Para as faces tomei emprestado
o brilho do sol dourado
para poder despir-me da pele
do ano que já passou.

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Me derreto como agua nas tuas mãos
Quando debruçado sobre mim com uma sentença
Queres me fazer voar... para ser meu chão!
Escapo por brechas, parlendas e trocadilhos
Não entrego a ninguém o direito
de me definir, amansar ou pôr nos trilhos.

-Dourada,a gaiola não deixou de ser prisão!

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Enquanto isso....
o homém sério,viril e elástico
Retira com o palito a semente dos ocasos-
no semi-riso seco - de seus dentes de plástico.

domingo, 23 de maio de 2010

Flertes



Belo Rapaz de cabelos jogados para o lado e proeminentes maxilares parecia olhar para o rio, a procura de algo que talvez tivesse caído na margem.Talvez por ser jovem, belo e atraente, Moça Bonita parou um pouco acima de onde ele estava, cabeceira da ponte a fingir que observava o rio, hoje mais caudaloso que sempre. Entregou-se então a devaneios muito próprios de se ter frente ao rio que passa, especialmente quando se quer disfarçar o embaraço frente á beleza. Pensou a moça: "Aqui houve acerto na regra gramatical.O rio é leva "o" como artigo, porque é moço, é belo e bastante cônscio da sua aparência, e tanto é assim que não permite, como outras águas menos vaidosas, que o céu ou as montanhas nele projetem sua imagem.Apenas a sombra das árvores, que se mantém á márgem, como servas, permite ele que projetem a sombra suave.Sim, suave como um carinho feito por mão de criança enquanto se dorme.Agora, a se levar em conta as linhas que se desenham em sua superfície neste momento, se pode imaginar que ele desata os cabelos,antes presos em um tipo de trança, ondulados cor de mel-vassoutinha - que é assim um tipo de mel meio dourado - e é incrível como o cabelo dos homens é sempre mais belo." Percebe a Moça que suas mãos também podem ser entrevistas, "grandes e de artérias grossas e azuladas a contrastar com a pele vermelha, onde se sobressaem os seus dedos compridos a correr ao longo das mechas, ajudando a soltá-las. Só o rosto desse rapaz não posso adivinhar pois que se encontra submerso. Ele tem pressa em seu desdém, mantém a altivez e o mistério, nunca para. Ignora céus e terras e matas -então que se dirá de uma garota insensata na cabeceira da ponte - mas esse pensamento a desgosta e ela o interrompe.Segue pensando:ele corre para "a" mar - e aqui a gramática erra - pois que "mar"é moça volúvel do tipo que nasceu para veneração. "A" mar nunca é doce, é só promessa onde a sede nunca passa, berço amargo onde se afogam crianças e onde se traçam caminhos invisíveis, sem volta".
E o Belo Rapaz se foi embora, e se a Moça Bonita o tivesse visto, teria reparado que ainda olhou uma ou duas vezes para trás até desaparecer na esquina. Ele, que tivera a premonição de uma perda ás margens do rio, e que por isso mesmo ali se detivera a dirimir o cansasso,percebe dentro de si uma vazante, sem nada mais poder fazer pois que a Moça Bonita deixou decair seu olhar para a margem e O Rio o arrastou consigo - como flor ou qualquer coisa assim muito leve e que não precisasse.

Colecionadores de Cabeças


Fotografia de Alon Eshel

Os homens fazem a sua própria história, mas não o fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.
Karl Marx


Toda a coleção é composta de quatro categorias: repetições, variações de um mesmo tema,inovações e raridades. É só escolher um padrão - sejam botões, selos ou figurinhas da Copa do Mundo, que as idealizações irão se repetir, de uma forma ou outra.O outro padrão que se estabelece rapidamente é a relação do colecionador com o objeto colecionado. Alguns, chegam ás raias da loucura, outros são tão ocasionais que talvez nem merecessem ser chamados de colecionadores. Pois ser um "colecionador de ocasião" é como ser uma "tiete socialmente". Não. Não existe!O colecionador, assim como o artista, é necessariamente um obsessivo.
E teimo em dizer que das coleções mais belas que vi,a que me chamou especial atenção tinha por insólito seu objeto:cabeças humanas, em expositores especiais e vitrificados, valorizados e especialmente iluminados, como devem ser outros tantos troféus de caça. A que conheço especialmente foi herdada, sendo apenas acrescida de novos elementos, condizentes com a época atual.
Acompanhe-me portanto, se paciência e interesse ainda houver com tema tão pouco usual, na labirintica narrativa em terceira pessoa, que descreve não só a coleção e suas raridades, mas o pensamento e estado de espírito da colecionadora em questão, tal como eu o imaginei no momento em que a conheci, e a sua rara coleção.

"A mão sobre a maçaneta era relativamente pequena se comparada ás proporções do corpo a que pertencia. Mas seus dedos longos, que afilavam nas pontas e unhas compridas,lichadas redondas,pintadas de vermelho vinho, pareciam recém-feitas e talvez por isso parecessem mais longas trazendo proporção com o resto do corpo. São estas as mãos que se fecham sobre a maçaneta para abrir a porta. Seguir por um longo corredor, sem pensar em nada especial. Só então percebe que hoje é o aniversário da mamãe.E para de frente para um rosto conhecido, congelado naquele tempo naquela precisa expressão que parece indicar um orgulho e uma satisfação única consigo mesma.Ela esboça para aquele rosto o primeiro sorriso do dia, um sorriso afiado pelas contradições da vida equilibrado como uma taça de agua em um fio invisível de finíssima ironia, estendido por sobre um rosto ainda suave, mas em que os anos da vindoura maturidade´já começam a deixar seus sinais de anunciação.Este rosto é o seu, a refletir no espelho da ante-sala. Esta é a casa com maior número de espelhos por metro quadrado que jamais conheceu.E é sua.
-"Uma longa linhagem me conduziu até este momento" Ela pensa. Assaltada por uma vaga inquietação que faz sumir o sorriso.Começa sua fala em tom monotônico e explicatico para distrair o incômodo pensamento de que não foi nada "macia" a estrada que conduziu sua ascendência a este lugar, e a ela naturalmente. Momentos violentos, abruptas rupturas, fugas, sofrimentos indizíveis, abominações inqualificáveis e todos os aterradores segredos e mistérios que compõem todas as histórias familiares, mas especialmente as bem sucedidas.
Segue passeando por entre torsos e cabeças estratégicamente posicionadas do corredor até a sala, trazendo a sensação de um certo "deslocamento", um caminhar entre sonhos distintos. Sua coleção é enorme, tem todos os sexos e todas as idades,todos os pertencimentos de classe e as mais variadas predileções,taras,manias e profissões.Um cardápio humano farto.Chama a atenção o fato de não haver nenhum reflexo no amplo espelho da parede da sala.
Começa a observar uma a uma, com indescritível ternura. E para defronte o olhar sério e desconfiado de uma criança de dois anos. Na verdade, aprecia sobremaneira as crianças colecionadas, presas mais difíceis, eternizadas na faixa etária que mais evoca aquele sentimento ibérico intraduzível e, ao mesmo tempo, tão globalizado.Saudades.Não há ser humano que não sinta saudades da infância, na exata proporção que suas lembranças vão ficando cada dia mais indefinidas. As memórias de infância são, na verdade, uma longa colcha de retalhos feita só de momentos. Um manto mortuário que, noite após noite, alguma fada insana segue des-tecendo, adiando o momento final, onde talvez tudo faça algum sentido.Por isso,as cabeças mais aprazíveis sejam mesmo as de adolescentes e seus ideais esquecidos. A visão de tais rostos lhe traz o conforto que a Beleza traz, a ilusão de uma Verdade presente e sempre ali, ao alcance da mão, a exigir uma postura diante da sempre inevitável mudança. O olhar maternal da adolescente que desponta é um dos seus prediletos.Na verdade ela é estéril, mas não sabe - nunca saberia! Esta ali, a velar e proteger pelos desmazelos de todos ao seu entorno. Também o olhar duro e inquiridor de um jovem com a beca de recém-formado parece atenuado em sua confortável sala de estar.As mais recentes são sempre mais coloridas, e a luminosidade que delas emana embora mais exata, será sempre assim algo mais artificial - talves justamente por isso. Mas ela tem apreço por esta artificilização,pensa que preserva algo da privacidade dos colecionados.
E aquelas que ela chama de "as mais velhas",trazem à sua voz um tom quase exaltado de alegria, e parecem nos observar e acompanhar com os olhos: um sorriso monolítico de indecisão e incerteza nesta primeira, o olhar sonhador e romântico que se eternizou nas histórias de família por seu jeito assim duro e implacável naquela outra.Seguimos por entre novas irrealidades e esboços em tons sépias.Este rapaz aqui, acompanhado pela pequena e frágil moça de ar sério, de expressão quase que prepotente e desafiadora.Sua postura parece ter sido capturado no exato momento em que crispava a boca e perguntava a si mesma: "como ousa?" E a adorável tríade, bem ao centro da sala de jantar, a mais inquietante de todas. Não as conheceu realmente, estes "objetos" foram herdados. Talvez por isso tenha para com elas a maior sensação de dívida. Estavam todas as três no mesmo expositor e a diferença entre elas faz destacar a singularidade impossível de unir: a "dona" e seu cabelo mais curto, uma Arthemis de nariz adunco e olhar desconfiado e triste, enjaulada em uma arvore genealógica que pouco se assemelharia ao seu meio-ambiente original, se tivesse tido a oportunidade de vivê-lo. E á direita, uma senhora gordinha deixa pender de seu colo farto e generoso um colar de pérolas e a medalhinha de Sant'Anna. Mas tudo em sua expressão facial traia a sensualidade e a malícia que tenta esconder na severidade do vestido negro,mas um tanto decotado demais.E a mais velha, que casou o maior número de vezes, ao centro, como direito adquirido pelos longos anos vividos, possui o exato sorriso irônico e olhar sereno de quem tudo já viu, tudo sabe mas nada dirá.
Sobe as escadas, onde deixa penduradas a sua outra coleção, iniciada recentemente. É o que ela chama de "coleção de viagens", onde traz uma máscara de cada lugar novo que conhece. As máscaras utilizadas por algumas vezes são ainda poucas mas num sem número de expressões e personalidades,denunciam uma outra condição psíquica e onírica da colecionadora. Ela segue para o quarto,deixando para trás todos os retratos de mais de dez gerações que, como pequenas veias azuis através da pele, ou ainda,pequenos córregos e rios através da mata, conseguiram desaguar neste exato momento em que se recolhe e adormece para talvez acordar amanhã.E se não, então seu lugar também estará garantido no balcão da sala de jantar."

Desterro


Ouço interpelar-me um eco distante no tempo: "...canta, pois, a tua aldeia!"
Minha aldeia é um cemitério com vista para o mar, onde os urubus disputam peixes enjeitados.Suas casas mal caiadas, de argamassa e areia de sal esfarelam á menor brisa.Talvez por isso as casas, que rejeitam as ruas, as marés e as pontes com evidente desdém,abram os braços permissivos para seus próprios jardins pequeninos e exaustos.Os jardins são ilusão de perenidade, onde a Natureza irônica sorri.
Ela diz: "-Queres ver jardins de verdade? Caminhe ou navegue atravéz dos costões, por sua conta e risco.Lá encontrarás mistérios e lendas e parlendas!Verdadeiras charadas em formas rupestres!Lá verás bromélias e orquídeas de verdade, e é lá que estão os pássaros mais raros e canoros!Mas sobretudo, faça-te de surdo a prosopopéias e desvãos desta nação salobra inventada, onde mataram todas as testemunhas."
E como sempre, tem razão.
É agora que pedem, ao meu lado, com macia ironia: "canta pois a tua aldeia!"
Pois me sabem eterna estrangeira.E que meus passos não são meus passos. Eles se voltam sobre si mesmos não porque eu busque o retorno - para onde iria? - mas apenas para disfarçar os rastros. Refugiada de um conto de terror que se não me falha a memória era assim que terminava: "...e foram felizes para sempre!"
Também estou na fila mas juro que não sei onde se pega a senha!
Não me acreditam nem aqueles que me vêem dia a dia.
Talves venha de um futuro este eco que ouço, e reconheço a frase:"...minha pátria esta na sola dos meus sapatos". Acrescento "e em meu peito é que se espelha, e eu a reconheço".