domingo, 27 de junho de 2010

Taliesyn - O Bar Melhor Amigo!



A semana termina e eu vou saltando,
por entre notas e pedras enlameadas
Um sátiro sorri em cumprimento
E anota meu nome,num reconhecimento...
minhas dores e cansaços e ambições
deixo cair pelas frestas
da velha escada escura perigosamente
viesada e envernisada
que range sob meus pés - talvez outras mágoas, talvez...

A escuridão uterina do velho carvalho
É a escuridão que me invade no amoroso sobrado
Como um lar que não me pesasse ou
um instante que pudesse ser roubado do tempo
e um tempo que se pusesse a abraçá-lo,
desdobrado em carícias a percorrer seu corpo
como um rithmi'n and blues,
e é com alívio que sorrio para o sátiro (o mesmo?)
que serve a cerveja honesta, a alegria sincera,
e talvez algum esquecimento
que se passem as horas!
Eu já posso deixar cair para o lado
esta minha bolsa bolsa tão carregada
De divisas e consagrações!

O que você deve saber do Talyesin
É que se nem tudo que pode se consumir
esta no cardápio
Nem tudo o que se promete irá se consumar
Mas não perca a oportunidade
Sorrisos involuntários á pequenos
detalhes, pequenas imagens e signos
que encontrar.
Os sonhos traídos de outras décadas
Eles também estão lá!
Preste atenção na música
Emoções estridentes
sorvidas á goles lentos
compassados e quentes.
Pare. Pense. Responda.
É mesmo um mal ser assim tão ingênuo?
Um dia volte para me responder...

E como em toda a estalagem, toda a taverna
Desde o início dos tempos, há para os adultos
Sortidos divertimentos
Enquanto transitam e transidam, efêmeros
semideuses nórdicos, êfebos suculentos,
E também ninfas sexys e musas satânicas - para quem gosta...
Mas lembre-se, são lendários.
Virarão poeira ao sol...
Você poderá ir quando quiser
Fará novos amigos, reverá antigos
E "aquele assunto" mal ou bem vai se resolver
Onde esta o sátiro que não vem?

É também o melhor lugar para se
Abandonar, como uma criança no colo do Sábio
Descobrir um tesouro escondido na prateleira
Escrever algum poêma-bêbado
Dançar sozinha, em algum canto discreto
poderia fazer o mesmo, bem perto do palco
Em outro lugar talvez não entendessem...

Eu sei que uma voz se esconde atrás
de velhos cartazes e antigas evocações
E que eu poderia aprender
de como ser tão só e ter as chaves
dos corações mais insinceros
Ter na palma da mão sete destinos
Escolher entre sete desejos
poderia ainda roubar alguns sigilos
descortinar os véus de algum mistério

Era só prestar a atenção
Conversar com O Livro
Mergulhar no caldeirão
E assim se passam os anos,
O Velho Druida sorri:
"que bom, você por aqui..."
e lá vem o Sátiro (ou são dois?)...

Poderia mas...não quero!

O Conto Esquecido de Sherazade.


Conta-se - mas Alá sabe melhor do que nós o que esta oculto e conhece melhor os acontecimentos dos povos do passado, seja esse passado próximo, afastado ou muito distante - que existiu uma noiva de impressionante beleza e imensa sabedoria,cuja fama iria atravessar os séculos dos séculos e que viria a inspirar os poetas e contadores de história do mundo inteiro. Seu nome era tão delicado quanto o seu porte e maneiras,e correspondia em tudo á descrição que lhe fizera o poeta:

"Dama de alta beleza, feita á perfeição
e cujos traços têm o esplendor de um astro
quando no apogeu. Todo um povo confundido,
ricos e escravos misturados a apreciam.

O Deus do Trono a dotou de todas as graças
ela a todas sobrepuja em distinção,
seu corpo e sua alma são graciosos e,enfim
ela possui o tlahe esbelto do caniço.

Seu rosto é um firmamento onde velam
sete estrelas iluminadas, sentinelas que
guardam
esse rosto, e ás quais não escapa nenhuma ameaça
pois vigiam com os olhos no horizonte.

Se, ás ocultas, alguém vier lançar-lhes
um olhar satânico, um olhar maligno
ei-la que vos atira uma estrela
incendiada, e o tentador é consumido."

Assim era Sherazade, que suportou com estoicismo todas as provações que o Amor lhe impusera, e este lhe fora pródigo em vicissitudes. Sim, pois que todos sabiam que a filha mais nova do Grão Vizir se entregara a um marido tão poderoso, rico e abençoado com os mais elevados dons que concedem a Beleza, quanto violento e cruel. Todos sabiam que, para poupar o povo da insânia de ver sequestradas suas filhas - uma a cada noite - ela se entregara, de livre e espontânea vontade ao cativeiro mais sádico. Neste, ela seria obrigada a tecer pelo menos uma história á cada noite, com um machado sempre suspenso por sobre sua cabeça, pois que era sua própria vida o penhor de sua criatividade incessante e imensa.Era de conhecimento de todos que seu fardo se tornara ainda mais pesado quando lhe vieram filhos, pois todas as três gestações e partos foram escondidos e seus três filhos prematuramente arrancados de seus braços, tornando se assim desconhecidos dela mesma. Ás vezes, ela pensava ouvir seu choro, sentir ao longe suas angústias, mas nada podia fazer...maktub. Enfim, todos sabiam, mas estavam de mãos atadas, entre outras coisas por ser ela uma prisioneira por livre e espontânea vontade. E de todos os que se ressentiam de sua situação, um homem ao largo superava-se em sua dor - o próprio Grão Vizir, que a entregara - não sem peso na consciência - a semelhante destino.No entanto, á este homem coube a tarefa mais árdua de todas, a de escrever e ocultar a história da Contadora de Histórias mais famosa do mundo. Por saber ler e escrever, e por gozar da máxima confiança do Rei, pôde ele suportar esta tarefa. Trascrever os relatos das escravas, da filha e do próprio Rei Shariar, construindo á partir deste mosaico de impressões o seu próprio relato. Eis o que preservou um djin, destes tantos relatos ocultos:

"Sherazade sonha em seu dossel de vidro marchetado, em uma transparência que lhe permite que o menor raio de sol empreste ao cômodo todas as tonalidades do arco - íris; seus travesseiros são de penas de ganso mesclados a ervas aromáticas, suas fronhas do cetim mais macio, suas cobertas recobertas de penas de pavão. Todas as noites, após se deitar,suas 4 escravas recobrem seu leito com pétalas de rosa, que lhe entremeiam dos densos cabelos.Apesar disso, Sherazade jamais encontrou paz em seu sono. Sherazade, a eterna noiva á quem ninguém se deu o trabalho de perguntar se realmente gostava de rosas.E nesta noite, como em tantas outras, Sherazade revirava-se em seu dossel delicado sufocando com seu asfixiante perfume e perdida em terrível pesadelo.
Neste mau sonho, se encontrava neste mesmo quarto, inteiramente recoberto pela escuridão.As nuvens, grossas e pesadas, recobriam a lua e as estrelas, mas não traziam a promessa de uma tempestade que afastasse as cortinas de veludo e deixasse transparecer, ocasionalmente, a luminosidade de raios e relâmpagos. Nada, enfim além do ar frio e da chuva fina, muito embora isso também no fundo, não fosse assim tão importante. Perdida nestas angustiantes reflexões está Sherazade, que observa a porta entreabir-se e, curiosa, senta-se na cama.Pelo pouco que consegue perceber, só poderia ser o Shariar, mas por outro lado não, não poderia ser, não nesta noite.Não havia sido ela dispensada justamente por ocasião de uma necessária viagem para tratar de assuntos de Estado em estado de guerra? Não podería, pela primeira vez em um ano, usufruir da paz de dormir em uma noite silenciosa, ao invés de ao amanhecer? Mas só pode ser Shariar, pelo perfume que dele rescende, pelo seu hálito levemente alcoolizado, por seu evidente calor febril, tão diferente de outros homens. Ela pensa em se deitar novamente, em fingir sonambulismo e sono, em escapar...mas é tarde! Esta visivelmente acordada, sentada em sua cama e temerosa de não ter mais nenhuma história redentora para contar.Shariar chama seu nome, e ao mesmo tempo ela houve o som rascante da cimitarra depreendendo-se da bainha.Seria o ultimo som que houviria? Ou nova provação?
É quando ele pega em sua mão, firma a direita em sua palma contra o punho da espada, faz com que seus dedos o abracem e, quando percebe o equilíbrio da ponta da lâmina contra o chão, se afasta quase que sem fazer barulho.
-"O que seria isto?" - Ela pensa.
"Talvez ele tenha intuido a verdade, talvez seja este meu fim..."- Segue a sonhar. Certa paz lhe invade. Pois a verdade é que suas estórias finalmente se esgotaram. Amanhã teria que dar um ponto final á última, que ela estendera o quanto pôde, e o dia de ontem teve para ela um sabor especial. Sabia estar agora á exatas 24 hs da condenação final, mas seu espírito por demais gentil não conseguia disto se ressentir.Presta atenção.Ouve. Muito e muito longe, como são doces os sons do vento a carregar a areia das dunas, para lá e para cá, como uma dança.E quase como em resposta, algo lhe interrompe. O som dos pés do sultão deslizando na opacidade fria arrancam-lhe deste doce devaneio. Ela agora percebe que ele esta descalço - seus sapatos de pele de antílope tem outro som.
-"Cante para mim, Sherazade!"
Este é um pedido estranho, e ela sente que talvez não saiba mais cantar. A voz lhe sai rouca e desafinada em um primeiro momento, justamente por falta de hábito, mas logo reconquista a tonalidade grave e profunda que fazia o encanto do Grão-Vizir, seu pai, que amava vê-la cantar.Mas apesar disto Sherazade percebe ao ouvir-se que canta sem emoção como o rouxinol mecânico de um conto essquecido. Ela houve o tilintar de moedas e pedrarias no mesmo compasso de suas palmas e descobre...ele dança sua música!
É inacreditável! Isto realmente lhe parece uma afronta ao reino, ao seu pai e a ela mesma! E pela primeira vez arde a cimitarra em sua mão.
Em gesto de extrema confinaça ele se inclina de costas, com a cabeça quase a encostar em seu colo. "Seria tão rápido" - pensa Sherazade.
Ele parece ouvir seus pensamentos, pois ela ouve o som de um riso abafado. Mais dois passos - passeados pelo tapete e ele puxa o lençol abaixo dela. Neste momento, deve estar a brincar com ele, quando traça um arco exato com a coluna até deitar-se no chão com a barriga para cima.
"Seria tão simples" - Pensa Sherazade, imaginando como seria poder passear sozinha pelos campos de algum reino perdido, quando bem lhe aprouvesse.
A cimitarra parece cada vez mais viva e queixosa em resposta a estes pensamentos. Ele, o Sultão, ostenta agora sua mais perfeita distração ao equilibrar-se na ponta dos dedos, ainda a brincar com seu lençol.Enquanto durar a música, Sherazade terá visto mais de mil maneiras e outras tantas oportunidades de fazer voar a cabeça do Sultão, sem dó nem piedade.Percebia com clareza que poderia fugir, e estaria então livre daquele palácio, daquele homem e sua presença exigente e mesquinha e até de suas próprias estórias e personagens, igualmente exigentes e pertubadores.
Ela engole em seco e pensa: "só um pequeno gesto...livre para sempre...seria tão bom!"
Mais do que depressa, troca as mãos do punho da cimitarra, faz delizar a direita pela lâmina afiada, sente a dor do corte e o calor e cheiro de seu próprio sangue.Esvai-se numa calma líquida seu desejo de matá-lo. Terá ainda tempo de interromper a música com um gemido antes de despertar.É quando um silêncio pesado se abate sobre ela, que ainda houve a voz do Sultão a dizer-lhe"...pois bem!"
E é este silêncio pesado, intenso e sufocante como o perfume das rosas amanhecidas, este silêncio imperativo como o próprio Shariar que enfim a desperta, antes ainda que a voz de Duniazade rasgue este mesmo silêncio, como gaze fina:
"-Já é noite..."
Sherazade se levanta com cuidado para o repetitivo ritual de ser depilada, banhada, penteada e por fim levada pela mão ao quarto do Sultão, onde ainda com a cabeça sob a cimitarra, se entregará ao amor possessivo e escravizante e á devaneios quase impossíveis de se compreender dada a sua condição. Com estórias cada vez mais fantásticas, com ricos detalhes descritivos de uma realidade jamais vista, só imaginada, ela entreterá o Rei, enganando a própria morte,adiando seu encontro final um dia de cada vez,escrevendo seu nome com pétalas e letras nas areias do tempo...
É ela, Sherazade, filha mais nova e mais bela - sem dúvida a mais amada - do Grão Vizir, cega de nascença...como pôde?
Todos no reino se perguntam.Duniazade, a amiga e irmã que melhor a conhece é justamente a que mais se pergunta. Ela mesma duvida que poderá conseguir ás vezes pois jamais saberia explicar de onde lhe vinham tantas histórias, tantos personagens,tão vívidos e inquientantes. Porque para o Shariar, só Sherazade é alento e esperança, quando poderia ter a mulher que quisesse. E por que para Sherazade - que jamais conseguirá ama-lo, tamanho horror o Rei lhe inspira - é sempre noite.
Mas esta que começa será a derradeira para Sherazade.Ela sente. Sabe. No entanto, pelos corredores com uma expressão que nada revela, uma face muda diante de qualquer dilema ou angústia, e prepara-se para implorar por sua vida apenas por um leve sentido de obrigação com seu pai e sua irmã. Pois no íntimo, sente-se pronta para encontrar Aquela que destrói o edifício dos prazeres e dispersa as assembléias. Aquieta em seu peito todos os questionamentos para que ganhe espaço em sua mente personagens e paisagens para sempre estranhos, com a força da fé de seu povo de que só Alá, o Altíssimo, pode ter a resposta...

http://pt.wikipedia.org/wiki/Xerazade
P.S: Os poemas e outros detalhes que dão "fôrma" aos contos originais das Mil e Uma Noites foram diretamente extraídos de "As Mil e Uma Noites: Paixões Viajantes, vol 2".Tradução de Rolando Roque da Silva. Ed. Brasiliense, 1991.O resto é meu e não tem intenção de ofender ninguém, apenas prestar uma justa homenagem á maior contadora de histórias de todos os tempos.