segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um novo velho tempo...


São oito horas da manhã e meus olhos se ressentem, como se eu mesma tivesse emergido de uma duna de areia.Mexo o pescoço com suavidade para trazer meus cabelos para o lado,enquanto com um sorriso, dou bom dia aos meus alunos.Há pouco nem usava esta palavra, reforça a ilusão de que de mim a luz emana e eles apenas a recebem ou rejeitam. Mas virou hábito.Não são meus. Não são alunos.Não sou um luminar e no mais das vezes eles é que iluminam meu dia. Percebo que um zilhão de pontinhos coloridos escapam do aroma de cabelos há pouco lavados em mais um dia começa.Hora da chamada.Não reconheço a menina no fundo da sala."-Deve ser aluna nova".Ao fim da pequena lista, espero ainda uns 3 segundos antes de perguntar, apontando para a ultima carteira da segunda fila - direita para a esquerda:
- "E qual o nome da aluna nova?"
Gabriela responde incisiva:
-"A professora enlouqueceu? Eu estou aqui desde o início do ano..."
Nem espera qualquer resposta. Se levanta, abrupta e vem pra conferir se registrei a presença.
-"Aqui esta ela"- respondo com certa intransigência. Ela me olha desconfiada enquanto pergunto para mim mesma: "-Mas como?"
Levanto, calma e lentamente. Eu vejo, mas será que só eu...? Prossigo. Visão histórica das religiões ocidentais e orientais. A primeira prossigo - ainda linear.Como todas as religiões monoteístas.E como a minha aula, cronometrada em marcação simétrica,pá-pa-PÁ COMEÇO, tátá-tá MEIO paTÁpata-paTÁ FIM. E assim sucessivamente. A menina continua lá e me observa com olhos capazes de engolir uma professora, com quadro branco e tudo.Sem ser no entanto, ameaçadora,parece até um tanto tímida por detrás de óculos metálicos e um sorriso metálico subtraído em um rosto tão pequeno para um corpo assim muito grande.Não são apenas o sorriso, mas as pernas que seguem assim encolhidas (apertadas) no desajeitamento de uma altura que ainda não aquietou, como seus lábios não tão finos mas que se contraem com facilidade, como se prendesse entre eles um projétil que não ousaria disparar.Há algo nela, em sua postura e em seus modos que me incomodam profundamente.Não são seus olhos tão inquisidores pois estes são faróis para minha fala, se acendem e se calam pontuando os avanços e recuos de minha nau. Eu faço ranger seu leme partido no desejo de algum alvoroço, alguma dúvida ou inquietação, o fremir das vagas caóticas que logo conquisto.Visão histórica circular. Fazem-se ouvir, em enxurrada uma cachoeira de dúvidas e indignações, um turbilhão no qual me deixo submergir. "Como uma coisa pode nunca ter tido começo?" "Como não teria fim?" "Como poderia voltar-se sobre si mesmo, o Tempo?"
"-E quem será esta menina, aparelho nos dentes, óculos fundo-de-garrafa,cabelos crespos,tez negra-e-pálida,olhar inquisidor e que para cúmulo, recusa-se a incluir-se na chamada e dizer seu nome!?" Cuido para não fixá-la demais,faço com que meus olhos dêem rasantes na superfície de um pequeno lago de cabecinhas, enquanto tento responder dúvidas e inquietações com uma certeza que tomo emprestado e devolvo aos autores sem muita hesitação - o que é outro erro, é claro!Desculpem-me senhores, mas...
Reflito o que penso como numa superfície espelhada, uma anotação vacilante no quadro branco,mas só quando bate o sinal tomo coragem de admitir crer no que ainda vejo. Em um último olhar de relance, ela devolve e me acena em resposta.
E eu soube que, naquele dia,dei aula para mim mesma, só que há muito, muito tempo...

Imagine que...



Você caminha pelas ruas movimentadas da cidade, foninho no ouvido e balinha de lembrança derretendo açúcar embaixo da língua tão sensível, olhando para cima enquanto arrasta a bainha e o quotidiano sempre lamacento quando... Tropeça no que parecia ser grande e pesado mas é uma pequena caixinha enrolada em papel celofane. "Urânio?" - Você pensa. Mas o que será que o faz levar tal coisa assim tão suspeita para casa, senão mórbida curiosidade? Desembrulha com todo o cuidado o celofane e descobre contra a luz que era vermelho. Mas a cor do azul que havia embaixo o confundiu. Desembrulha novamente com redobrada atenção.Amarelo. Desembrulha.Rosa. De novo.Roxo. Mais uma vez, só que apressado. Verde. Laranja.E desta vez era mesmo violeta. No ultimo você já esta rasgando com os dentes mesmo, embora fino e transparente o suficiente para entrever a pequena caixinha preta.Abre.Pedra brilhante .Será...? Levanta a espuma preta e a etiqueta confirma. "Amor eterno...diamente...Sr.Fulano de Tal..."
Sim, há pouco eram as cinzas de algum bom marido,pai de familia,grande amante...
Eterno, mas que se perdeu.

Canção para Yemanjá.



Entrei com a pulseira de ouro
no mar, e lá se perdeu
Devolve Senhora, minha pulseira
Devolve foi meu pai quem me deu!

Entrei com a corrente de prata
no mar...no pescoço...sumiu
a onda que veio puxou
no fundo afundou e caiu.

Devolve senhora, meu colar
Devolve, minha mãe que me deu
Devolve, eu não posso lhe dar
Devolve, por favor que isso é meu!

Entrei com o anel de cobre
no mar, e lá ele se perdeu
Devolve senhora meu anel
Devolve,foi meu amor quem me deu!

No dia em que morreu meu amor
Fui lá e plantei a roseira
Floresceu assim minha dor
No espinho da derrota primeira

E assim que colhi com ternura
A flor da tristeza inocente
Levei para a beira do mar
A senhora quer de presente?

A onda que foi...mas voltou
A flor que afundou...mas boiou
A rosa que Yemanjá não quis
E eu dei, na areia ficou...