terça-feira, 28 de setembro de 2010

Imagine que...



você esta andando por um caminho. Feche os olhos. Entre na cena. Sinta o caminho, a brisa no cabelo, o cheiro de mato, o som dos seus passos... como são? Ressoam na areia? No barro? Há um caminho de pedrinhas? Que tipo de caminho perfazem? Um caminho acidentado, cheio de pedras e obstáculos, onde grandes se pode avistar grandes montanhas? É um caminho estreito ou amplo? Um cipoal, ou uma trilha aberta? Você consegue sentir o calor do sol, ou é um dia nublado? O que você carrega consigo?
Preste atenção á vegetação. É um bosque, cheio de árvores. Como elas são? Grandes, fortes e enraizadas, na flor da idade? Evidentemente centenárias, vergando sob o peso do tempo, cobertas de parasitas? Muito novas, quase brotos? Frutíferas e floridas? Ou é uma mata fechada, recoberta com cipós? O que sente ao vê-las? Tente individualizá-las. Sente algo especial por alguma...? Tente estabelecer alguma conexão, irradiar-lhes alguma traqüilidade, algum carinho, amor até se conseguir. Por quê? Porque você vai entrar cada vez mais fundo neste bosque, e elas estarão presentes em praticamente todo o caminho... Depois siga em frente. Cuidado! Preste atenção onde pisa!
Um pouco mais para dentro, você verá um pequeno curso d'água. Pode ser uma cachoeira ou um delicado olho d'água, ou ainda um riacho, isso não importa. O importante é que você se concentre para vê-lo bem. Aproveite para encher o cantil. Agora um animal se aproxima de você... que animal é este? É doméstico ou selvagem? Preste atenção como acontece, como se desenvolve esta relação. Ele lhe ataca? Ele busca chamar sua atenção?Ele é mansinho e vem se medos, em busca de seu carinho? Seja o que for, toque-o com cuidado. Sempre pode revidar e lhe machucar, nem que seja uma pulga- e provavelmente você não pensou numa pulga! Depois, se conseguir interagir com ele, resista a tentação de permanecer com este animal. Não tente agarrá-lo ou correr atrás dele se fugir. É inútil. Mas por outro lado, se ele o quiser acompanhar, deixe-o vir. Prossiga. Pense no seu grau de dificuldade. Resista ao cansasso também - se o sentir - e continue. Para frente é o caminho.
Agora pare.
Você encontrou uma chave. Uma bela chave antiga como as das gravuras do Dave Mc Keen? Não conhece Dave...? Deixa para lá. Uma chave pequena e nova, brilhante? O que você faz com ela? Guarda-a? Solta-a? Por quê? Pense no melhor a fazer, e quando conseguir tomar uma decisão, prossiga.
Preste atenção ao que pensa enquanto caminha. Olhe para frente e perceba que lá na frente se abrirá uma clareira. E no centro da clareira uma casa. Me pergunto se você guardou a chave... vai precisar dela agora.
Não se preocupe em entrar, a casa é sua. Tão sua que, seja qual for o jeito que você deu para entrar caso não tenha trazido a chave, que vou pedir para que me conte minunciosamente o que tem dentro da casa.
O que você vê quando entra? Como se sente?Qual a sua primeira atitude? Para a maioria das pessoas é realmente difícil não permanecer nela, mas comece a reunir forças para seguir em frente.
Mas algumas se sentem desconfortáveis nela...seja qual for o seu caso, comece a reunir forças para sair e prosseguir caminho, Você terá que andar ainda mais um pouco...ou muito.Siga andando...
Até encontrar um muro. Fale deste muro para mim. Alto, de difícil escalada? Baixo, divisando claramente o que vem a seguir? Velho em em ruínas, você tem medo que desmorone? Novo e brilhante, quase incongruente de se encontrar em meio a uma floresta? Dê um jeito de chegar ao outro lado do muro e conte-me com detalhes. Você esta agora completamente no controle. O que você vê? O que você sente? Como se sente? Há uma floresta? Há um caminho? Há animais, ou casas?
Pode voltar ao início agora e pensar em cada uma de suas respostas. Eu lhe contei a história da sua vida. Da sua morte. E mais além...

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

A Cigarra e a Formiga (uma fábula reinventada).


Imagem de Sonia Amaral Castro.

Ninguém a chamará de Cigarra antes que tenha saído de seu confortável estado de ninfa. Quero dizer, relativamente confortável.
Muitos anos se passarão em Claustro profundo, sob camadas de veludo negro, quente, úmido e perfumado, confundida com a Grande Nutriz. Enredada na fina capilaridade de alguma raiz, morde a pele que jorra a seiva branca, acridoce e vital aos sentidos mais que lúcidos da pequenina, sempre ávida de novas cadências para o próprio prazer. Acima da terra, as folhas reverdecem, suspiram e estremecem de prazer, pois o prazer vegetal é sacrifício e doação - nada a ver com o prazer animal.
Pareceria naquele instante fácil e confortável para muitos, talvez outros vegetais achassem relativamente simples, mas a verdade é que a vida de uma ninfa é intensa, vibrante e enérgica demais para ser suportável em poucos dias por qualquer outra espécie.E ela poderá permanecer ali por anos, numa escala de 2 até 17 anos. É praticamente o que um ser humano leva para completar sua escolarização. Embora muito semelhante á um bebê no seio da mãe, sua vida interior de crisálida é mais parecida com a de um soldado espartano em treinamento, onde a mente é só mais um entre outros sentidos, quase iguais em importância. A busca pela razão disto, e por segundos de paz inalcançável,será determinante no tempo de duração de sua formação. Ninguém consegue imaginar como é "pensar" com o olfato, o tato, a audição e o paladar em sincronia perfeita. Nada parecido com um estar adormecida no fundo da terra. Não há "inconsciente". Não há sonhos.
É a busca por essa coerência entre os sentidos se afirma como surgimento de uma consciência. Surge como um clarão, um rasgo, uma luz dolorida e onipresente com a qual terá que conviver pra sempre à partir de então. Esta consciência primeva, estranhamente, será coletiva e estará profundamente enraizada no conhecimento da história de sua espécie. Uma das primeiras "vozes" que escuta e experimenta lhe diz que, diferente de muitas outras "familias", ela nascerá com uma "missão" específica. Praticamente todas as outras terão que construir para si um destino. A beleza desta "missão" adquire para ela dimensões coloridas,aromáticas e saborosas demais para que ela realmente questione ou procure alternativas. A consciência de uma cigarra será sempre ludibriada pelos sentidos, e isso é bom,justo e belo.
Mas apesar disto, a Cigarra, que é símbolo máximo do Artístico no mundo humano, tem na verdade uma concepção de Vida muito mais parecida com a de um militar.
Por exemplo, ela entende que toda a sua vida e até mesmo a criação no Planeta Terra dependem de seu esforço em, num determinado momento, quando ela estiver "pronta" libertar-se para o mundo soltando sua voz em um si sustenido, ultrassom e contínuo. Esta nota petulante traçara um finíssimo fio, que se prederá ao de outras cigarras que, nos verões do mundo inteiro, cantam a alegria de viver. Ela já sabe que metade das cigarras já traçou sua finíssima teia e aguarda agora pelo trabalho da outra metade. Ela apenas sente que seu papel,embora minúsculo se comparada "a teia geral" é imprescindível. Isso tudo parece uma grande brincadeira, mas é muito sério. Nenhum fio, nenhuma ponta de voz pode estar solta, pois são estes fios invisíveis quem mantém preso e firme aquilo que de modo algum pode se desagregar, esgarçar e destruir. São a Teia da Vida. Eles mantém unidas as partículas subatômicas que são o tecido de nossas paisagens. Não fosse por essa afirmação máxima e intensa de alegria a repertir-se em cada estação, a entropia natural seria a única Lei. E nada existiria.
Ao soltar seu fio, outras cigarras serão para ela atraídas. É a hora da Dança do Amor, onde encontrará A Ùnica e Perfeita. Que cantará como ela, mas em um tom mais baixo e pronfundo, tecendo a cama sonora de sua sinfonia. Elas se unirão e...será Belo. Justo. Bom.Esta mesma sinfonia será o alento dos ovinhos- bebês que surgirão á partir deste dia, embora eles nunca venham a conhecer os pais.Esta é a ultima mensagem de amor á espécie.
Esta estranha compreenssão tão radical da existência eleva ao máximo seus níveis de ansiedade.Porém, nada se pode fazer antes do "tempo certo". Pouca coisa se sabe antes disso.Chegado "o momento" saberia que teria apenas dois dias para romper nova crisálida. Tecer o fio da vida. Encontrar na brevidade de um instante - talvez poucos segundos - o Amor. E morrer com a sensação de outras tantas gerações de cigarras que a antecederam. Não haveriam pré-testes, ensaios ou estágios. O ultimo suspiro deveria ser "dever cumprido" ou o silêncio esmagador que antecede o fim de uma linhagem. A terra em suas costas seria fria neste caso.
Ela intui de alguma forma que apenas mais duas ou três espécies se encarregam da mesma tarefa, e se esforçam em criar redes de segurança quase tão perfeitas quanto as delas mesmas, as cigarras. Mas estas espécies vêm rareando, enfrentando muitos problemas para a reprodução e diminuídas em seu número ano após ano. Isso vêm pressionando as cigarras á um perfeccionismo histérico nos ultimos 50 anos. Tudo isso é o que acontece, pelo menos do ponto de vista da cigarra.
E como o que se apresenta de modo muito simples, também é irrisório seu pagamento. Três promessas lhe serão feitas.

1)Voar
2)Cantar.
3)Amar.

Há muito silêncio para a indagação: e depois? O silêncio traz o medo. E aos poucos ela percebe a inconveniência, frieza e amargura deste silêncio no fundo da terra, presa á casca da raiz do Salgueiro que não tem resposta e, ao fim, não questionará mais. Sentirá leves espasmos na consciência, algo como uma pulsação muito forte para ser ignorada, mas muito vaga para ser definida. Ela empurra sua consciência para um outro extremo, num pêndulo que lhe garante que permanecerá com a doçura traqüilizadora das promessas.E ao fim, pressente o aumento dramático de temperatura, e os perfumes que lhe cercam passam a adquirir tons histriônicos. É chegado o momento. Terá de partir.

Veremos agora como tudo se passou para a nossa Cigarra em específico...

Quando rompe a primeira casca espera encontrar maravilhas, mas percebe apenas que terá que ainda que esperar um pouco. A escuridão da terra a invade por todos os lados.Então ela cava um túnel na ânsia de respirar, e chega á superfície com evidente orgulho. Para para descansar um pouco e, ainda cega, escala a grande parede que é o tronco da arvore. E quando chega á metade desta, ofegante e exultante ao mesmo tempo, para para contemplar pela primeira vez a paisagem que a envolverá por mais um ano pelo menos. Ela sorri como um alpinista no topo do Everest. A primeira etapa da missão foi cumprida com sucesso.
Ela espera por outra "ordem" enquanto se prende a casca do salgueiro, e aproveita para ver seu novo lar. Os olhos custam a adaptar-se á luminosidade.Seus sentidos parecem enlouquecer, tantos são os estímulos, e esta adaptação é lenta, muito lenta. Aos poucos a paisagem vai se descortinando mais exata, e embora aos nossos olhos fosse apenas um mangue com suas aguas doces e marrons e seus pássaros tão tristes, para nossa Cigarra a paisagem se descortina em maravilhas de universos infinitos. Cada arvore e cada flor, cada larva e cada pássaro e até os incontáveis matizes do céu são para ela uma alegria renovada. Há murmúrios e canções, irrompidas por trinados de matizes muito refrescantes. Há movimentos harmônicos e dançarinos da vida se perpetuando sob o leito das águas.Há calor e luz irradiando por toda a parte.
Os dias se passam, as folhas nas arvores caem, a luminosidade do dia se vai encurtando e as noites vão se tornando cada vez mais frias. A Cigarra percebe que algo esta errado, mas culpa a si mesma. "É a ansiedade" - pensa. Pensa e esquece, sorrindo para si mesma de sua própria tolice. E segue esquecendo cada vez mais quanto maiores são as noites, encantando-se com a beleza das estrelas e seu tilintar suave nas amenas trevas de sua existência neste mundo - do-lado-de-fora.
E apesar de todo o treinamento, toda a orientação e disciplina, nossa Cigarra parece indecisa no momento de romper a pele, apesar da comichão já ter se tornado insuportável.Algo como a melancolia a toma de assalto. Porém, é o instinto, o chamado em voz clara e altissonante, que a convence a deixar todo o exoesqueleto, essa parte tão importante de si mesma, quase como uma pele com todas as suas lembranças para trás.
Num esforço de valentia, segue o ímpeto e salta para o ar. Dispara numa atitude mais que honrada seu canto, que é ao mesmo tempo um grito de guerra,um lamento profundo por aquilo que deixou para trás e um chamado de loucura e paixão. Nossa Cigarra sabe-se atraente agora, ouve seu próprio canto e ele é perfeito, é o que imaginou que deveria ser, e seu coração novamente se enche de um orgulho e vaidades sadias e benfazejas - afinal, por que não?
Mas nesse dia tão cinza, alguém mais canta, e bem mais alto. Nossa cigarra é rapidamente apanhada por uma rajada de vento, que uiva em sua convicção selvagem e bravia de tudo arrebatar e destruir. Ela persiste em seu canto, mas o vento não pode compreendê-la. Seus olhos se fecham enquanto vê seu fio pequeno, frágil, solitário, á procura de outros fios enevoando-se pelo céus crispado de raios, assustador.E apesar da dor ela insiste em vibrar suas membranas com toda a força, numa vã expectativa de assustar o vento aterrador e recuperar o que esta irremediavelmente perdido.
Pois nossa cigarra imagina-se imprecindível, como poderia saber da enormidade daquela substância incorpórea e invísível que a agarrava agora com tanta força sob seus punhos cerrados? E como que uma resposta a sua forte convicção, a ventania diminui. É quando começa a chuva. Pingos grossos e pesados como projéteis de chumbo explodem por toda a parte. A nossa cigarra agonizante esta em tal estado que já perdeu o sentido de dor. Esta anestesiada, caída em um jardim morto parece só haver espinhos, pinheiros e os restos da ultima floração das flores de maio. Faz um esforço para arrastar suas patas molhadas e asas quebradas até as pétalas mortiças e apodrecidas, que ficam próximas a algo que parece ser um abrigo. Este é um esforço que esta muito além das suas forças, mas ela não sabe disso. Percebe que as poucas lembranças que possui daquilo que deveria ter sido são imagens e sons e sabores e texturas de flores macias e multicores em tardes quentes e ensolaradas. Nada a preparou para isto.Ela se arrasta enquanto as gostas caem cada vez mais pesadas e dolorosas, esmagando partes importantes e vitais deste seu corpo - que será o ultimo. Mas ela segue em frente, deixando para trás uma trilha linfática. A dor explode com força em sua pequena cabeça enquanto ela vibra as membranas em seu abdomem com coragem, naquilo que será definido como um Canto de Morte por suas irmãs que vierem a nascer. Se confunde com ódio, indignação, desespero e até loucura, mas que é só tristeza, tristeza e tristeza...
O refrão deste canto desesperado diz - "Não compreendo..." É quando a força lhe falta e um finíssimo fio de luz se rompe e cai suave com um estrondo de trovão para os sensíveis ouvidos da cigarra.
Quando sobrevêm o alívio e uma imagem do que podería ter sido, com a força de uma Revelação, ela dá seu ultimo estremecimento: "ouço flores adormecidas perfumando e aquecendo esta terra..." Pode ser a tradução mais aproximada possível do ultimo verso da canção, este suspiro. E foi neste exato momento, quando os ouvidos mais acurados de um sapo gordo que por ali se abrigava puderam ouvir o romper de uma casca que tomba agora vazia, seguida de uma sutilíssima luminosidade, a de uma pequenina estrela que se abraça à imensidão, que a nossa Cigarra abandonou a história deste mundo.
E depois nada. Em silêncio segue a noite, vem de mansinho a madrugada e a manhã ensolarada (e muito fria) toma de assalto ainda que sob os véus de uma alta cerração.
O dia começa para as formigas silentes de seu dever necrófilo e carregam o corpo de nossa cigarra para o ninho, onde a devorarão sem maiores cerimônias nem interesse especial,pedacinho por pedacinho, mastigando-a devagar e burocraticamente, para economizar.Cheias de si. E de ódio. E inveja. Torporizados que são seus sentidos para qualquer outra coisa que não seus gostos vulgares e sua existência mesquinha e segura perguntam-se pedaço á pedaço - "Por que ela...?".

Moral da História:
1)A cigarra nunca deveria ser julgada do ponto de vista da formiga. A formiga não tem senso de nobreza. Geralmente nem sabe do que se trata.
2)O fio frágil e tênue da vida é uma das maiores e mais incompreensíveis forças da natureza, mas sua tessitura pode estar naquilo que nos parecer mais insignificante. Devemos respeitar o que não compreendemos.
3)Nunca deixar que uma formiga invejosa nos devore com vida. Para isso, em tudo o que fizermos devemos empregar toda a força disponível. Quem se alimenta de restos e cascas vazias, com eles deve se contentar. Devemos ser fortes e valorosos como as cigarras.
3)Paremos para cantar e celebrar a Primavera que é o que nos resta nesse mundo em que até as estações vêm-nos sendo solapadas, e já não sabemos mais como nem quando serão.