quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Imagine que...


...faltam uma hora e quinze minutos para o início do sagrado labor, e contrariamente a suas expectativas, você já conseguiu pagar todas as suas contas. Para tal incidente, já tens um livro na bolsa: "Os trabalhadores do mar" ,de Victor Hugo, recém comprado no Sebo. Senta-se próxima á centenária figueira e reza a todos os deuses para que ninguém lhe interrompa com mais demandas e contradições dos que a que já possui em seu quotidiano. Parece que lhe atendem.
Mas antes de abrir o livro, você olha à todo o entorno meio inquieta. Sabe que há pelo menos duas coisas estranhas. A praça nunca está deserta, e hoje parece que só existe você e um morador de rua, adormecido em um banco de madeira, um pouco mais adiante. Esta é a primeira. A outra é a metáfora poética que lhe ocorre ao olhar a velha figueira, por quem sempre nutriu uma vital simpatia - nos dois sentidos do termo- e o que pensou foi: "Parece um polvo a lançar seus tentáculos verdes em todas as direções, talvez tenha suas próprias histórias para contar e cantar, como uma cantora de ópera, com algo de triste ou teatral..."
Esse pensamento é estranho e resolve debruçar-se sobre o livro, delicadamente pousado sobre a mesa de pedra depois de devidamente limpa com um lenço de papel que trazia na bolsa.
O livro começa, e a descrição da vida á beira-mar é tão rica, que lhe dá a impressão de sentir o cheiro da brisa marinha. Ela parece esvoaçar seu cabelo. Ouve a suave carícia das ondas nas pedras deitadas ao sol, em contraste com a violência com que se quebram na praia e o fato de que próximas ao horizonte parecem nem se mecher.E são as mesmas ondas. É o mesmo mar. O sol esta forte e você tem dificuldade em ler. Olha para a direita, e lá esta uma moça com longos cabelos castanhos e vestido simples, parece ter algo nas mãos à que presta muita atenção. O suave balançar do seu corpo acompanha as ondas delicadas e violentas e imóveis, e...
Não, não pode ser. Isto com certeza não esta no livro.
Olha em volta. Mesa de pedra, onde o livro esta apoiado. Banco de pedra, igual ao que esta sentada. Figueira imensa, com seus enormes galhos escorados em barras de metal.Pombos.Um mendigo dormindo no banco da praça. Jovens estudantes em trio, atravessando a praça, migrando da infância para a adolescência sem perceber...
Recomeça. Pinguins adoecidos castigados pelosol na orla. Para você, as montanhas sempre se parecerão com Grandes Deusas adormecidas, porque sua mãe apontava para elas e dizia: "-Lá esta a Deusa!" E você era criança e não acreditava, mas gostava de divisar silhuetas exatas no perfil das montanhas contra o céu. E a moça ainda estava lá. Você aperta a vista e vê...é um arco redondo com um fino tecido esticado."Bastidor de bordar", vêm a voz da sua amiga Juliana em socorro da sua memória. Você nunca aprendeu, mas sua amiga sabia fazer lindos bordados de fita, e você gostava de conversar com ela, requentar a água do chimarrão ou do café e falar, falar falar enquanto sua amiga pontuava no pano "hum-hum", "hum-hummmm..." seu invencível entusiasmo adolescente com tudo e todas as coisas.
Nada disso é Victor Hugo. Terá que recomeçar o parágrafo. Olha em volta. As dunas. O vento salgado.O mar corrente e insistente como o tempo.Em que tempo terá acontecido esta história? A moça certamente não pertence ao século XXI, mas também não poderia ter vivido no mesmo lugar de Victor Hugo. Afinal, você mesma reconhece esta praia e nunca esteve na Fraça. A moça agora em pé, seu bordado nas águas. Ela que de súbito se atira da pedra, como quem quer voar e agora está caindo. Em silêncio, as ondas a cobrem. E ela, que é você mesma, tenta salvá-la das aguas- as ondas agora lhe parecem definitivamente imensas -braços que lhe empurram para a margem - mas você consegue vencê-las. Livre da linha imaginária de arrebentação, você mergulha até quase perder o fôlego, e é como se ela nunca houvesse existido. Só na volta para a margem, algo esbarra em suas mãos, um pedaço de tecido parece. Você emerge das espumas com toda a força, puxando quase que com raiva. Mas é apenas a tela.
Certamente não é essa história.
Retorna á margem exausta e sentindo-se francamente derrotada por não ter encontrado o corpo. Segura o bastidor-bordado com as mãos e lá está traçado um "Adeus" rebuscado em linha azul. E mais ao fundo ela vê. Uma moça sentada em um banco de pedra tendo á sua frente um livro aberto e na lateral direita (mas só parcialmente)e os galhos de uma velha figueira escorados em vigas de metal...

Referência deste conto:http://wikimapia.org/195802/pt/Praia-da-Joaquina

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Parábola Passarinhada...



Canta o pássaro,pontualmente
Quatro e meia da madrugada
A melodia é uma queixa
a prece, uma pergunta
que marca a cadência
da parábola passarinhada
que tenta ser uma resposta
o que não nos serve de nada.
...


Um pássaro preso ao chão
Encolhido na calçada
Será ferido, caçado
Esmagado sob os sapatos
da nossa insensível pressa
...

Um pássaro preso em uma casa
vazia,abandonada
Voará contra paredes, se
despedaçará nas vidraças.
Até que de tanto tentar se desfaça
num trinado gemido
na morte haverá alívio,
e algum céu será possível.
...

Um pássaro preso em gaiola
- as mais variadas-
De gradil, de madeira,
algumas douradas,
foi de muitas maneiras aprisionado.
Talvez,lhe retirem a pena mestra,
Outros ainda, têm os olhos vazados
Para que sua alma seja plena
Eis que há todos encanta.
No entanto, não haverá ninguém para
invejar-lhe a sorte,
Nem desmentir seus feitos.

...
Alguém saberia dizer qual é mais miserável?
O homem que nada pode dar...pois nada têm?
O homem que conquista o destino de outro ser- e dele tenta
em vão escapar?
Ou aquele que vive feliz, em conformidade... porque tudo ignora de si?
...

Sob a pele, entre as costelas de cada homem
e cada mulher
existe um pássaro que luta e quer poder voar
Mas talvez tenhamos que acolhe-lo com cuidado,
para que se fortaleça
Talvez seja só abrir as janelas
para que ele possa sair
e o sol possa entrar,
Mas se só entre grades puder
sobreviver
deixá-lo cantar entre as arvores
e voltar quando quiser.

O Segredo da Rosa


O nome de minha vó era Esperança, e eu sempre achei isso o mais bacana pois seu nome definia quase tudo de sua pessoa. No jogo defina esta pessoa em uma palavra, vovó facilitava as coisas.Mas não só...diziam que esta podia ser um tanto tola,com seu jeito assim sempre alegre e satisfeito de si, mas esta era notória mentira. Porque não interessava o que dissessem, era sempre muito procurada, por parentes, amigos e até desafetos, quase sempre em busca de conselhos.A temática variava muito: bichinhos de estimação, plantas, crianças, decoração, paisagismo, culinária, bordado, crochê e, quase sempre, os descaminhos do amor e outros que tais.A todos Esperança atendia com o mesmo carinho e paciência, e de sua casa ninguém nunca saiu pior do que entrou.É...vovó sabia das coisas, ou pelo menos, daquilo que era realmente importante saber naquele tempo.
Acho que tudo começa assim: a vovó existiu em um tempo em que o importante mesmo era como tornar a vida das pessoas melhor, mais segura, mais calorosa e prazerosa.Hoje, depositamos toda a nossa esperança na política democrática e no Estado de direito e...bem, vivemos de modo bastante mais próspero do que na época dela. Usufruimos de mais igualdades, de mais direitos,mas parece que algo do objetivo se perdeu, não lhe parece? Pois é...
Uma das memórias mais marcantes que eu guardo da infância é a do dia em que me ensinou a cultivar rosas. Transcrevo agora um diálogo assim, meio inventado, porque são falhas as memórias da gente. Especialmente as memórias de infância.

Pegando uma muda, e arrumando um torniquete.
-...Nunca enterre parte do caule. Você pode plantar em qualquer tempo, em qualquer estação, mas é o que você sente no momento em que a deposita na terra que será determinante. Veja a D. Zélia, por exemplo. Não acerta uma! Todas as suas rosas mal vicejam, perdem as pétalas, e tu sabes por que?
-...(fiz que não com a cabeça).
-Porque esta sempre chorosa, sempre lacrimejando, cheia de doenças verdadeiras e falsas. Nunca se ouve dela um "bom dia" que seja sincero.
-...(começo a rir).
- Pronto! Aguar, daqui para frente, uma vez a cada 5 dias, talvez uma vez por semana, até que a lua aponte o crescente de novo. Daí, como vai estar mais chuvoso, a gente pode espaçar mais as regas.
-E as podas?
-Só ano que vêm. Agora vem me ajudar com esta saca, preciso preparar a terra para as outras.
- O que é isso?
- Argila. Pedras, restos de erva -daninha...
- Mas por que?
- Bem, este é "o segredo da rosa".
- Como?
- D. Tília mata suas rosas antes de nascer, porque sua terra é igual a nossa, negra, úmida, fofa, cheia de adubo, a rosa não suporta isso e morre sufocada.
- Como assim, rosa não é flor de estufa?
- É sim, mas...
- Mas..
- Quando ela sai da estufa e vem para o nosso jardim, ela no fundo quer muito pouca coisa. Lugar arejado e com bastante sol. E também, a aspereza da terra dos barrancos e pedregais.A agua da chuva é a melhor e Rosa não é flor exigente, não quer agua todo o dia, isso a afoga.Rosa morre de três coisas somente: sufocada, afogada e de tristeza. Sabes por que isso?
- Não.
- Porque a mais bela das flores, muito antigamente, só dava nos ermos e solidões. Nessa época ela tinha sementes e não tinha espinhos. Só que o Homem a descobriu e, se no início a achou muito linda, depois não se contentou e achou que poderia ser ainda mais perfeita.E foi mexendo, mexendo,como é que se diz? "Hibridizando" até que ela se revoltou e agora, quando sai da estufa, quer de volta tudo o que é seu. É assim como se ela dissesse: "sabes do que eu sinto mais falta, daquele tempo em que eu era livre, D. Esperança? Não é da companhia e não é das paisagens abertas e do silêncio noturno e das estrelas tão mais brilhantes, ainda não ofuscadas pela agressiva luminescência dos postes, nem do ar tão puro, nem da variedade de pássaros. O que eu sinto falta mesmo é do solo endurecido, da agua escassa, da força dos vendavais,e do desvario que tomava conta de mim a cada golpe, a cada enxurrada, a cada seca.Era o constante teste de minhas forças e da minha vitalidade sempre em desafio com a morte que me trouxe a fama de valente e até...de mágica! E hoje,que há menos desafios, minha armadura - nesse momento vovó pega minha mão e a faz alisar as folhas pontiagudas - é bem mais forte! Esta armadura é só ressentimento, de não poder ser mais quem eu era..."
-...(vovó silencia)
-...(eu em silencio pensativo, e não sei quanto tempo se passa).
- O segredo da rosa, minha neta, é que apesar da sua aparência frágil e delicada,de ser a inspiração de todos os poetas e o presente de todos os dias dos namorados, ela se ressente com nossos cuidados excessivos porque quer ser livre.

Todas as vezes que planto rosas,lembro de seu conselho. As mais bonitas eu realmente não cuidei nada.As outras, com tanto esmero cultivadas, logo se perderam.Hoje, quando vejo alguma moça ou mulher com uma jóia em formato de rosa ou coisa assim, penso que algumas mulheres - e também alguns homens - que conheci, que no jardim ou na estufa jamais ficarão satisfeitos...

sábado, 2 de outubro de 2010

Sawabona




Cumprimento usado na África do Sul, quer dizer:
"Eu te respeito, eu te valorizo, você é importante para mim"!
Em resposta, as pessoas dizem Shikoba, que significa :
"Então eu existo para você"!

Teatro dos Anjos.


(...)

Quem poderá entender esta minha carta de despedida?
Saio para as ruas e paro
em frente ao Velho Teatro
que as heras terminarão por sufocar.
Quando ele tombar,como uma velha árvore,
então minha alma partida,que por ali flutua
emitirá seu ultimo suspiro, sob as pedras
de um outro tempo já desbotado.

Por enquanto, ainda posso entrar.
O Teatro esta vazio e, no entanto
Todas as cadeiras ocupadas.
São silhuetas negras
com as quais me medi,ainda ontem.
Assim,aprendi a corrigir meu desalinho pela sombra.
Principalmente á noite, onde é bom evitar os espelhos...
Aqui e lá eu ouço farfalhar de asas
as cadeiras só tem pertences
(arcas e anéis, espadas ensangüentadas
bilhetes ensandecidos)
Eles não tocam o chão
E eu permancerei próxima á entrada -
que é também a saída - encostada no vão da escada
(não é o lugar ao qual pertenço?).

Se abrem as cortinas e lá está ele
O Anjo Cinzento com sua língua de chumbo.
Veneno de Deus, vingaça do Sereno
contra nossas asperezas quotidianas
pois é a suavidade das pétalas que ele deseja.

O cenário muito simples, é apenas uma tela
projeta-se uma fonte de pedra,repleta de terra,
onde cintilam flores azuis muito, muito pequenas.
De Frederic Chopin, Op.25.1, obsessiva eólica...
Sinto o perfume das flores agonizantes na morte
Tudo me traz uma impressão de remorso e abandono.

E no palco escuro, mais duas figuras,
Mulheres de joelhos,chorando magoadas,
(e eu sinto muito por não sentir pena)!
Eu sinto muito...mas não sinto nada!
Olham fixo para o que Ele tem em suas mãos
o tornozeolo de um bebê na direita e
na outra a espada.
Parece ter os olhos vendados
(deve ser um truque - eu penso!)
Pois surge um sorriso fino a cada grito,
enquanto gira sua espada, como um cata-vento
de fogos de artifício. As faíscas dançam, a platéia delira...
Se vê uma expressão que não sei dizer
se é de ironia ou desprezo.
Nas faces de um Anjo...isso me faz arrepios.

Finge que vai cortar a criança ao meio,
fazê-la em pedaços.
As mulheres desesperam,mas nenhuma cede
e nem tem forças para evitar.
e o bebê chora, berra,e...
Ele para! Sorri,
e tudo recomeça!
A platéia explode em gargalhadas
e meu sorriso é um grito represado entre os dentes!