terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Escrita na Água




Dia dezenove de dezembro
ainda é março.
Sigo jogando um xadrez
de cores torturadas
salmão, azul- petróleo,
verde- água,magenta, prata...
Enquanto mantenho-me insone
E a espreita de um novo
lance do adversário
Tenho a sensação de estar ganhando
na mesma medida em que algo vai se
perdendo...
As muralhas com que cerquei
as torres
Não me dão chance de um novo movimento
Cavei um fosso
Cavei um poço
Tornei-me a água

Quero consstruir um manifesto em imagem,
de cores puras intensas e escuras,
de beleza clara
Reveladas em platina,
rara luminescência
Em nome de algo que desconheço
e que me escapa.
Tudo o que me cerca reflete-se
em meu rosto.
Por isso só, me desconheço.
Vou seguindo em torno do que me
ultrapassa, justamente por ser assim
imenso.

Como montanhas em cadeia que se erguessem
ondas crescendo, quebrando-se
com toda a força esmagando a tudo
na planície rasa.
Eis o Vale da Morte
Estou aqui!
Ninguém pode me responder
Não ouço nada!
Inundo e transbordo
Derramando as tintas todas
pelas bordas de cal branca
Paginas e paginas
em que se desfazem as palavras
Tudo se corrompe, ou se absorve
evanesce...

Mas o que será que ainda espera de mim,
aquele que já não me reconhece?

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Lua vermelha.


Imagem de Elisabeth Lacunza.

Dias e noites enovelados sobre si mesmos. Um dia. Uma noite. Mais um dia.E mais uma
noite.Próximos - dia e noite- mas não definitivamente diluídos.Como dois gatos.Um tao, sempre perfeito.Dormia.Acordava.Era dia.Chorava.Dormia.Pesadelos.Acordava.E era noite.
Em um momento de fúria por não conseguir dormir tão pesadamente quanto achava que merecia, começou a arrancar tufos de cabelos. E os olhos estavam tão inchados que as lágrimas ardiam como lava e queimavam a pele."Ainda há de chorar lágrimas de sangue"-era um dito repetido de sua avó.Olhou para a palma.Agua. Ainda era água. Ainda era dia. Metade da manhã do terceiro dia, e no quarto seria obrigada a retornar a vida normal.
Parecia ter se passado mais tempo, na verdade.
Só dois dias. E duas noites. Ele tinha ido embora.

"- Porque você quiz"-disse uma vozinha zombeteira, nitidamente feminina, dentro dela.
"- Porque ele não me deixou nenhuma escolha"- respondeu em voz alta para a cozinha
bagunçada.
Esse interlúdio foi bom porque lhe deu a chance de pensar em outra coisa. Era
engraçado. Passar-se-ão os séculos dos séculos, mas as vozes que teimam a aconselhar
submissão sempre serão femininas. Não só as que vivem dentro de sua mente. Fora
também. Como se feminilidade tivesse alguma relação com falta de orgulho.De
auto-estima.Passeia pela casa. Bagunça e sujeira por toda a parte, é o que ela
vê. Sobe para a biblioteca. Quando se vê perdida, sem saber o que fazer, não abre a
Biblia porque se convenceu a muito tempo que entre a Biblia e o Salão da Dona Vera
não havia muita diferença. Conselhos de consensso. De perdão. Ou, ainda, de guerra
total e irrestrita. Mas algo dentro de si sempre soube:excesso de violência é depravação, leu isto em algum lugar. Então ela vai em busca da etmologia da palavra que mais lhe faz falta:
Honra s.f:1-sentimento de dignidade e honestidade moral.2 marca de distinção; homenagem 3.graça,privilégio (dá-me a honra de acompanhá-lo?) 4 castidade
pessoal da mulher 5 motivo de admiração e de gloria...
Parou de ler.Para a mulher, honra e castidade eram o mesmo. Sorriu com desprezo. A
vozinha feminina em sua mente redaguiu ao óbvio ataque: "então, segundo você, a
Biblia, só por exemplo, deve ter sido escrita por mulheres..." É verdade.Suspirou.
A Biblia foi escrita para mulheres.E os dicionários repetiam - cada vez mais - os acordos de senso comum. De qualquer forma independente do que digam Biblias, homens,Livro Sagrados ou Códigos Penais e de Conduta -e as outras mulheres inclusive- nunca ninguém conseguiu realizar nada disto muito bem. "O leite de um homem é o veneno de outro". Se bem que, na época em que vivemos, as coisas ficaram tão difusas que até o contrário disto existe: mulheres que criam discursos glória e teias de arrogância em torno de si, mas que na atitude são decididamente mais vergonhosas e....rastejantes do que suas avós jamais admitiriam.
"-Teias de arrogância" - repetiu para o vazio na sala.
Talvez ela também tenha se tornado uma prisioneira delas.Via balançar-se pelo lustre
uma gorda aranha e ao seu redor, um finíssimo círculo de renda prateada. Foi o que
bastou.Começou por quebrar o silêncio. Heavy Metal ou Musica Árabe? Heavy Metal e música árabe. E Lady Gaga, é claro! "-See my pokerface!"Uhúúúúuuu!!! Vestiu um shorts,uma sandálias havaianas e começou pelo banheiro. Agua, detergente, kiboa pura, lustra móveis, mais agua e baldes e escovas.Uns passinhhos e três giros com careta para o espelho. Três vassouras e um rodo. Batendo a cabeça e pulando á lá Zack de la Rocha."-Fuck you, I wont do what you tell me!" Abria gavetas, passava querosene. Arrancava panelas e teias do lugar, não sem quebrar algumas coisas, arredando os móveis e se assustando com alguma eventual barata. O pó voava e flutuava em torno de si, refletindo pequenas fagulhas de pôr do sol quando chegou ás escadas. "Wiii laakón habibi, salimoune-allllaaaiiii..." Sujeira. Sujeira. Sujeira. Três sacas de lixo foram para a porta. E foi só quando chegou em seu quarto - que propositalmente deixou por último -que se permitiu parar um pouco. Deu um suspiro de alívio e acendeu um cigarro."Aqui o negócio vai ser pesado, vou até trocar de música"- pensou. Trilha de filme: "Assassinos por natureza". Berrava com Diamanda Galás: "Sex is violence...'cause youuuu mannnnnn!" Armários, gavetas.lavadora em alta pressão no colchão amado que já rangera as molas de alegria. "-Tome isso! Tchááááááá!"
Quase tudo terminado. Foi quando começou a dedicar-se a um trabalho mais delicado. Bijoux e jóias verdadeiras. Confundidas, desbaratadas e sem par. "Tem que estar por aqui". E cata.Seleciona e separa. Agrupa os semelhantes. Os que se encontram, são guardados.Os quenão, vão se embora para o lixo, junto com os quebrados. Um a um, uma por uma, e a tarefa última consome horas.
Não encontrou. Que estranho. Nada embaixo da cama. Retorna ao banheiro. Passeia pela
sala, de um lado para o outro e lá estão. Um par de brincos e pulseira que não
serviram, e aguardavam encima da mesa para que mandasse fazer alguns ajustes.
Ouro. Era o ultimo presente: "Lixo!"- do pensamento ao ato.
"Agora sim!" São quase dez da noite, e o que sente deve ser algo parecido com o que o maníaco sente após o surto paranóide. Precisa comer alguma coisa, mas na geladeira não há nada que preste. Liga e pede uma pizza. E como comer pizza sozinha é muito triste, abriu uma garrafa de vinho e acendeu uma vela. "Feliz Desaniversário". Usava essa palavra em um sentido diferente de Alice no País das Maravilhas. Sabia que á partir daquele dia passaria a contar os dias, os meses, talvez os anos que se passaríam na ausência dele. "Fazem três dias...duas semanas...quatro anos...é, terminamos." Faz uma careta. Até o vinho parece amargo no fundo da taça. Pensa "a noite esta muito quente, é uma pena ficar em casa". Toma um banho gelado. Faz uma maquilagem simples que, por isso mesmo, leva horas."Maquilagem - a mais bela maneira de mentir" - dizia sua amiga Josiane.Talvez a única que seja bela. Todas as outras que se lembra são feias. Por que não liga para as amigas e...? Aperta-se em um corpete justo demais e quase morre de asfixia para vestir as calças. Não, melhor não. Horas e horas de confissões indigestas não lhe farão melhor. Veste a aliança de prata que usava antes de conhecê-lo, num compromisso consigo mesma, e tem um ultimo pensamento: "Honra e força hoje, amanhã encontrarei admiração e glória mas esta noite sou uma predadora novamente!"
Olha para o céu, e vê um suave crescente vermelho sangue.Seria ela a princesa das lágrimas de sangue. Acha que não. Sorri de volta, pois gosta de pensar que lá encima uma vovó encantada lhe sorri com seus dentes vermelhos ensaguentados na carne crua da caça.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Atire a primeira flor.


Nordestisto não é gente, faça um favor á nação e mate um nordestino afogado.Todo o gaúcho é veado. Todo o carioca é folgado. Todo o paulista é um Jeca Tatu em terno importado. Bandido bom é bandido morto.Todo o Corinthiano é ladrão. Negão? Pobre e fedorento. E já diz o ditado, branca para casar, mulata para trepar e negra para trabalhar. Ôpa, tem índio por aqui. E indio gosta é de tomar a terra que é dos outros, e dizer que é dele. E beber tudo o que encontra e encher a cidade de lixo humano.Indigente, traduzindo: quase gente. Outro mendicante eterno é o cigano. Todo o cigano é ladrão e embusteiro.Rouba criancinhas e vende até a mãe. Como os judeus. E como saber a diferença entre um judeu e um árabe? Os dois vendem a mãe, mas o judeu não entrega. Por árabe entenda também os turcos, tá? Por isso que vivem se matando. E como são sujos...Como os Chineses, raça cruel.E os coreanos e os alemões (?!)Que vivem xingando e chorando. Igualzinho aos "carcamanos" tutti buona genti, per tutti latri. Muito diferentes dos japoneses, inteligentes mas frios e de pinto pequeno. Mas verdade seja dita,todo o branco é estúpido, desalmado e cheira azedo.E ninguém que tenha senso de honra dependeu de branca para nascer. A degenerescência da raça começou com o movimento hippie. E todo mundo sabe que o hippie é um fracassado. Como o emo.Você gosta de MPB? É elitista e maconheiro. Música clássica? Velho tradicionalista ou nerd.Conservadores e "passadistas" também os que gostam de música regionalista.Coisa de gente atrasada e sem futuro. Já ser "nerd" não é lá muito melhor, quero dizer, um alienado anti-social!Que gosta de música eletrõnica. Que gosta de rave (ô-ôu, outro farrista drogado)!Aliás quem gosta muito de pop e elechtro é bicha, já notou? Mas também conheci uma bicha que gostava de jazz.Morreu de Aids, é claro! Jazz, Soul, rithm 'n blues? Pseudo intelectual que gostaria de ter nascido norte-americano. Você gosta de sertanejo? Que bosta, hein? Coisa de caipira sem-cultura... Já se você curte rap é marginal.Se você curte funk é vagabundo ou vadia.E se você gosta de pagode é os dois - marginal e vagabundo.Outra certeza é que se você é rockeiro curte drogas. E se você é metaleiro, então, é tudo junto:fracassado,marginal, drogado e promíscuo. Dá para ver de longe porque todo marginal tem tattoo.E é pobre.
Na real, pobre, ignorante é só atraso, tem mesmo é que morrer. Por exemplo, o problema do trânsito, o que é? Incentivo fiscal para todo pobretão mal casado sair barbarizando nas estradas.Mas por outro lado também acho que todo o rico empresário também tem que morrer, porque "são tudo uns ladrão" a sangrar o dinheiro da nação (até deu rima, só não faço um samba porque isso é coisa de malandro).Na verdade, se você teve sucesso é porque é medíocre, puxa -saco e vendido. Como um pelego costuma ser, aliás. E quem é pelego? Quem não concorda politicamente comigo, óbvio.Defina seu lado, olhe em volta e só encontrará inimigos.Mas sejamos ainda mais realistas. Um adolescente de direita não tem coração, mas um velho de esquerda não tem cérebro. Adolescente de esquerda? Baderneiro, isso sim! E todo baderneiro faz um curso (universitário) de segunda categoria. E todo baderneiro que faz um curso universitário de segunda categoria é um maconheiro.E o maconheiro é uma praga social. Tudo isso poderia ser endireitado já desde criança. Chinelo canta, moral avança. Nada como uma boa surra para curar homossexualismo aos cinco anos de idade. Mas só Deus - e talvez, castração quimica- para curá-los depois dos vinte. E por falar em Deus, você não acredita? Que horrível, hein? Aliás, você não tem religião, ou você só não é católico? Puxa, que triste para você... qualquer que seja a resposta. Porque o Deus para o qual você reza, eu não o reconheço!
Solução para tudo isso? Trabalhe, fique rico, faça por merecer!Doença é para os fracos! Não acredito em depressão. E se você é negro, pobre e doente? Não sei, quem sabe foi algo que fez noutra vida, né? Uma só não basta para justificar a desgraça. Você é a favor do aborto? Gosta mesmo é de matar criancinha! Ainda ontem era comunista que gostava -se bem que era para comer, deve ser diferente, né? Pois então, por que você não quer mesmo deixar nascer? "Olha, eu sou contra o aborto, mas a favor da esterilização em massa..." Hein? Cada coisa que se vê. E se vier? Quem paga as contas e dá o que comer? Mas a vida continua, só alegria! E além do mais podia ser pior,mais difícil e mais caro, podia ser menina...Porque ter filha menina é pior que ter filho homem. Já começa que homem que come todas é fodão, mulher que dá para todo é puta.É puta toda a mulher que: fuma, bebe,tem tatoo, tem filhos solteira, tem carreira profissional, ganha mais que tu, foi mimada pelo pai, sai com o cabelo molhado para ir trabalhar e usa o dinheiro que ganha para ir a festas. E não existe ex-puta. Nem ex-veado. Nem ex-feminista. E toda a feminista é: machorra, gritona, metida a inteligente e ruim de cama.Maioria de sapatonas. Por outro,no extremo oposto, lado tem a mulher bonita: burra e fútil, mas gostosa. E o homem bonito: otário e veado e ruins de cama também.Por que será que para eles a equação não se realiza do mesmo modo? E o bonito e rico? Playboy cuzão.Tipinho perigoso este...
E sabe por que você não sabe e eu sei? Porque tenho nível superior. É a minha área, o meu curso...Sabe com quem esta falando? Para você, é doutor. É excelentíssimo. É deputado. Senador. Prefeito.Vereador.Por gentileza senhor,se nem tudo o que é ouro reluz, o ultimo a sair, apague a porta e feche a luz!

Observação:
Já existe um texto na internet com este título. Não quiz modificar o título do meu texto porque ele traz um sentido crítico a tudo o que escrevi abaixo deste - se ninguém percebeu, nada disso traduz o meu pensamento. Mas coloco abaixo o texto - que eu desconhecia antes - que também tem este título, devidamente referenciado:

ATIRE A PRIMEIRA FLOR

Rosemary Sadalla

Quando tudo for pedra... atire a primeira flor.

Quando tudo parecer caminhar errado, seja você a tentar o primeiro passo certo.

Se tudo parecer escuro, se nada puder ser visto, acenda você a primeira luz.

Traga para a treva você primeiro a pequena lâmpada.

Quando todos estiverem chorando, tente você o primeiro sorriso. Talvez não na forma

de lábios sorridentes, mas na de um coração que compreenda, de braços que confortem.

Se a vida inteira for um imenso não, não pare você na busca do primeiro sim, ao qual

tudo de positivo deverá seguir-se.

Quando ninguém souber coisa alguma e você souber um pouquinho, seja o primeiro a

ensinar.

Começando por aprender você mesmo, corrigindo-se a si mesmo. Quando alguém estiver

angustiado, a procura nem sabendo o que, consulte bem o que se passa. Talvez seja em

busca de você mesmo que este seu irmão esteja.

Daí, portanto, você deve ser o primeiro a aparecer, o primeiro a mostrar que pode ser

o único e mais sério ainda, talvez, o último.

Quando a terra estiver seca que sua mão seja a primeira a regá-la.

Quando a flor se sufocar na urze e no espinho, que sua mão seja a primeira a separar

o joio, a arrancar a praga, a afagar a pétala, a acariciar a flor.

Se a porta estiver fechada, de você venha a primeira chave.

Se o vento sopra frio, que o calor de sua lareira seja a primeira proteção e primeiro

abrigo.

Se o pão for apenas massa e não estiver cozido, seja você o primeiro forno para

transformá-lo em alimento.

Não atire a primeira pedra em quem erra. De acusadores o mundo esta cheio. Nem por

outro lado, aplauda o erro, dentro em pouco a ovação será ensurdecedora.

Ofereça sua mão primeiro para levantar quem caiu. Sua atenção primeiro para aquele

que foi esquecido, seja você o primeiro para aquele que não tem ninguém.

Quando tudo for espinho atire a primeira flor, seja o primeiro a mostrar que há

caminho de volta.

Compreendendo que o perdão regenera, que a compreensão edifica, que o auxilio

possibilita, que o entendimento reconstrói. Atire você, quando tudo for pedra, a

primeira e decisiva flor...


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