sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ultimas reflexões de 2011.


O ano de 2011 esta quieto e contemplativo, no apagar das luzes, nos levando às últimas reflexões. O mundo se desdobra sobre si mesmo, cornucópia de perspectivas, reapresentando-nos fatos sobre fatos - uma tragédia, um massacre, um milagre aqui e ali, todos espalhados no chão da memória como velhas fotografias que se embaralham junto ás nossas próprias tragédias,comédias, milagres e quotidianidades.Não, isso não é a Vida vista pela TV nem imitando a Arte. É só o fim do ano, que apesar de diferir em datas, é quase sempre o mesmo em toda a parte. Nós procuramos a verdade e abraçamos a estética.
Apaga as ultimas luzes, deita-se no escuro, olha para o teto como quem não pensa em nada. Tenta invocar um demônio que dê fim a este mundo, chorar baixinho pelo que não foi, invocar uma prece ou epifania, algo de alento ou redenção  mas...nada! As cadeiras já estão encima das mesas e todos os calçados arrumados junto á soleira da porta!
Adormece neste dia 31 sabendo que no outro dia acordará totalmente renovado - como sempre!
 Vos deixo, neste apagar das luzes com a Mercedes Sosa cantando Violeta Parra, que nos traz mais motivos ainda para agradecer:
http://www.youtube.com/watch?v=WyOJ-A5iv5IVer

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cíclico.


(Aurora Boreal, foto de Andy Keen)
O poema cristaliza
na rima
Mas se liquefaz
á temperatura do olhar
de quem com ele se depara
como num espelho
que responde apenas
para o que esta além
-muito além- de si mesmo

E por fim se desfaz
como nuvem,canção,ou prece
perfuma, encanta, ilumina
poliniza, refresca, destrói
depois passa,
trespassa
e esquece!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Despedida



A sirene já anuncia a hora de partida
Devo - sem prazer nem pena - despedir-me
Para o abraço de quem me espera mais além...
Vou-me sem bagagem, peço-lhes um ultimo segundo
de atenção.Para este pobre inventário-pois não sei se volto-
que redigi ás pressas em forma de canção...
Por favor, amigo, em Lá maior!

Exemplo ferino
Carinho felino
Palavras macias
Para meus filhos e filhas.

Afeto e dedicação
Em partes iguais
E a certeza de que soube honrar
Meus ancestrais,
Isto é para meus pais.

E para Ele que definitivamente
ficará as sós,
deixo a luz da da chama e
e o frescor sereno do sonho
de tudo o que fomos nós.
Ficará contigo também um segredo
E o cheiro em nossa roupa de cama.
E sim, as saudades daquela
que para sempre te ama.

Deixo meus escritos, minha dança,minhas preces
E sobretudo minha sede e minhas febres
Berço de agua pura,sempiterna nascente
Tudo enfim que transbordar de meu coração
Destino ás minhas irmãs e meus irmãos.

Deixo o que for de útil para aliviar
A dor do parto de cada dia
-Seja a lembrança do riso, do carinho, da receita,
a piada suja ou uma doce ironia-
Para meu amigos sinceros até o fim de seus dias!

Para meus amigos falsos fica o meu perdão
um leve sorriso em meus lábios,
E ao menos uma boa recordação!

O mesmo para meus inimigos declarados
Para gente que me azucrina e me destesta
Não viveram de meus restos?
Fiquem pois com o que resta!

E peço aos amigos,filhas e filhos, se não for demais
Meu ultimo desejo: carinho, atenção e cuidados aos meus animais!
E neste ultimo momento, na brevidade da despedida
colham o ultimo olhar de quem lhes dedicou toda a vida!

domingo, 11 de dezembro de 2011

A Arvore da Humildade.

As mãos tímidas e finas, enlaçadas no colo de tornozelos cruzados em diagonal, faziam com que se curvassem os ombros da menina-mulher que os Deuses fizeram alta demais. Mas assim, encolhida na carteira ouvindo a professora com olhos arregalados com toda a atenção, parecia querer contrariar imposições da Natureza para ocupar o menor espaço possível e chamar o mínimo de atenção para si, ao mesmo tempo em que evitava o sono. Era compreensível.O seu curso universitário valorizava por demais a leitura e o pensamento, no entando, só encontrara três tipos de "pensadores" até então: os que flutuavam entre as nuvens, os que erguiam os punhos contra o céu e os que se encerravam em suas torres - temerosos e prepotentes. Para perceber outras nuances faltava-lhe mergulhar a fundo em livros e autores que nunca participavam de conversas e pretensões de corredor. Intuía, é claro, sua própria debilidade e por isso preferia cada vez mais a biblioteca.
Encaminhava-se para ela - a Biblioteca Universitária - fluindo triste e distraída como um filete de agua da chuva que escorria pela calçada e os olhos baixos percebiam apenas isto, quando, de súbito, desviou a cabeça da possível pancada dolorida. Porque bem na entrada daquele prédio de aéreos e esvoaçantes intelectuais, crescera uma arvore que a natureza fez grande, mas que, por outro lado, encurvara seus galhos num ângulo quase impossível  como que para desenhar com eles um pequeno portão, pelo qual só passariam incólumes as crianças. Todos os outros teriam que baixar a cabeça e olhar para o chão.Mas por outro lado, se olhassem apenas para o chão-como ela mesma estava fazendo há poucos segundos atrás- também corriam risco de bater com a cabeça. Deu dois passos para o lado e parou. Viu todos, colegas  e outros alunos, professores, pós-doutores, muitos conhecidos e temidos por sua vivacidade e eloqüência, curvarem-se, um a um para poderem passar. Afastou-se um pouco e sorriu para um cacho de flores muito brancas e miudinhas, coalhado de pequenas abelhas e aspirou o suave perfume que delas emanava. E só naquele instante pareceu compreender alguma coisa sobre o que viera de início buscar naquele prédio de letras represadas em árvores mortas.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A cereja do bolo.

E ainda por cima as cerejas...
Acordar sobressaltada. Sanduíche sem presunto, pois que há muito não come mais mortadela. Colesterol alto. As crianças brigam para não acordar. Ela perde a paciência e começa a gritar.Sem querer acorda o marido dois minutos antes do despertador dele tocar. Ouve o marido reclamar. Ouve um estampido e a queda de alguma coisa no segundo andar. "-O que será desta vez?". Pensa. Foi o barbeador. O jornal amassado. O café que não ficou passado á tempo. Vai direto - e sem comer de novo- para o trabalho. O beijo apressado. "-Bom trabalho ...querido...querida...bom trabalho!" Ouve as reclamações de todos - não tem presunto? - sem nada dizer. Há muito tempo. "-Não, não tem. Acabou-se. É pena." O carro está frio,custa a pegar.O menino bate na menina no banco de trás."-Querem se acalmar?" Queria cintos de segurança mais úteis, que amarrassem completamente os braços, como aquelas camisas de hospício. Sorri do próprio pensamento, mas não por muito tempo. Trânsito infernal. Chegou depois de bater o sinal. Olhar atravessado da coordenadora de ensino na escola dos filhos: "atrasada de novo?". Finge um sorriso. "Desculpe". Pensa: "ignorante!" Mas é ignorada. "Fechada" no sinal. Quase mortal. Grita pelo vidro: "panaca!" Ouve de volta: "D. Maria tá estressada?". Suspira. Pensa. Que nada! Gesticula com a mão e ...para! Engarrafamento. Liga o disc-play. "Just Another Day".Cantando alto e sonhando acordada. Novamente interrompida."Nome do filme...?"  Buzinada. Não ouve o que lhe xingam. Lembra a mãe: "não há de ser nada". Mas é.  Alguém que liga. Onde se enfiou o celular?Mas que naba! É a faxineira. Não poderá vir hoje...droga! Estacionei muito junto á calçada. Cadê "o zona azul"? Ah, que se f...! O importante é que chegou mais cedo. Começa a arrumar a loja. Tenho que dar o exemplo. Já vai começar o desfile das desanimadas. Uma a uma, todas vem chegando. Vem falando,falando,fadando...Nada com nada.Mas ela também. Não conversa com ninguém. Fica na dela. Só no serviço se mostra interessada. E de novo! Lá vem ela! Novamente desleixada. Mais um batom emprestado...e desperdiçado. Nunca irá contar - nem às amigas - que cada batom emprestado e jogado na lixeira. Gostaria de jogar na lixeira as queixas do "Geral". Que liga e fala de quedas,quedas,quedas. Reuniões. Prazos. Um boçal! Que aparece uma vez por semana. E quando aufere lucro então...nem aparece. Cabe a ela distribuir os elogios que deveriam ser dados...pela empresa. E a promessa de aumento...esqueça! E no caso das "meninas"?"-Protele". É o que lhe responde "a voz da razão". A da emoção é irônica e diz "desapareça!" Mas terá que aguentar. Faz parte. Amanhã serão outras cobranças e ela sabe que deve inovar para motivar. E  que não é de sua responsabilidade...responsabilidade...responsabilidade...Merda! Liga as pressas. Dava para buscar a Valentina no coral da escola mais tarde? Não! Puxa, porque não é mais organizada? Essa foi difíciil de engolir. Deve ser porque além de mim, organizo a sua vida e a das crianças  também, ô babaca! Não disse. Pensa.Desce para o restaurante preferido. A comida já enjoou. Sempre a mesma.  É hora da sobremesa. Cortada. A dieta, lembra? É...a tarde hoje promete ser mais longa...trovoada. As nuvens estão pesadas. Não é incrível como parece que todos desaprendem a dirigir na chuva? Aaaaaiiiiii! Não acredita! Multada! Como pagar, justo agora? As prestações...ai!As prestações. E lhe somem as idéias criativas- e não onerosas - para motivar a equipe- aquelas que pipocaram durante a tarde inteira! Mas deixa para lá! A reunião é só amanhã...Sabe que levará mais tempo para chegar em casa. Não importa. Não pode esquecer de passar no mercado e comprar a ração do cão - acabou de novo! Qual a segunda melhor marca? Não lembra. Não importa.Mas talvez ele não coma! Ora, ora...é mesmo um cão bem cheio de vontades. Então que seja. Sera esta mesma! E para a familia...para a familia...lasanha congelada. Uma vez por semana...ora, não mata! Mas é o que vê em casa que não aguenta!
Crianças grintando entusiasmadas. Gargalhadas.Enquanto as cerejas cintilam rolando como bolas de gude pelo chão da sala...

sábado, 19 de novembro de 2011

Lua minguante.





Inexorável e lenta é a dança das estrelas
Como o resguardo da semente na terra
É a procura das raízes na profunda escuridão
E o refluir da seiva na árvore que seca
Mãos que se espalmam e dedos que puxam
partejam a música no silêncio invísível
Mas só a potencialidade jamais realizada
Permanece pura,una,indivisível...
Refluir é paz! É saber-se segredo
Carícia leve das aguas na maré vazante
O corpo que envelhece e o sol que vai se pondo
Tão lindo e vibrante no azul do horizonte
Pois nada do que é hoje será como doravante
E como é bom lembrar de como era antes
Desaparecendo lentamente na espiral do tempo
Assim como tudo, e também nós mesmos 
Nos refazemos no quarto minguante...

domingo, 13 de novembro de 2011

Tédio

Vivo sob a data de dois meses passados
Os acontecimentos me agarram e me atravessam
Indiferentes,esparsos,vagos...
No tanto e quanto que não me interessam!

Sinto falta do que fui, do que não sei ou não conheço
É esse vazio tão cheio de si,de lá na ré e mimimi
E sobretudo, sinto falta de mim mesma,
Para , sei lá! Dar uma volta, desfazer uns nós
Tocar umas campainhas e sair correndo. Ao sol.
Á esmo!

Vivo hoje como no mês retrasado
Mas se isto fosse ontem, teria sido perfeito.

sábado, 12 de novembro de 2011

Nuala - Só mais uma foca...


   A primeira coisa que devemos saber sobre as focas é que elas nunca tem nome próprio. Assim, a que vamos chamar de Nuala, na verdade é da "familia" Nuala.A compreensão delas sobre isto é muito simples. A primeira Nuala existente vive agora nas vinte Nualas remanescentes. E isso é motivo de muito orgulho, já que Nuala vive em um tempo muito difícil, em que a maioria das familias desapareceram.
Nuala, diferente de outros filhotes, inclusive humanos, tem perfeita memória do tempo que passou na barriga da mamãe. Lembra de como doeu para nascer, que quase sufocou ao respirar o ar geládo do Ártico pela primeira vez, a sensação da arenosa da neve em sua pele, do gosto do leite e do sol - sim, para Nuala o sol pode ser apreendido por seus cinco sentidos, ou ainda, o sol tem gosto,cheiro,sabor,bela aparência e carícia ímpar - e, muito especialmente, do gosto do medo, que veio também com o sentido de estar sendo protegida, quando uma "sombra-vilã" apareceu em meio ao banho de sol matinal. Daquela vez, sua mãe a abraçou rapidamente com as patas dianteiras e jogou-se para agua. Papai-Nuala veio nadando logo atrás.
Nuala já conhecia o oceano, mas a alegria de sobreviver lhe fez explorar outras possibilidades em novas brincadeiras naquele dia. Uma de suas brincadeiras favoritas era soprar bolhas de ar e,depois, sair a persegui-las, como uma criança correndo atrás de bolhas de sabão. Até arriscou a afastar-se de seus pais um pouco mais.E quando a mãe-foca lhe chamou com seu canto tão ímpar e claro, tão "Nuala" de ser, ela atendeu. Subiram em um bloco de gelo á deriva, pai, mãe e filha, e ficaram ali, em silêncio, vendo a noite cair bem devagarinho e as infinitas estrelas despontarem como em nenhuma cidade humana se consegue ver mais.Foi quando, como todas os filhotes do mundo, Nuala sentiu crescer dentro de si uma pergunta, que logo imergiu quebrando o silêncio:
-Ficar no oceano é tão bom...por que não vivemos para sempre nele?
-Por que não pertencemos a ele.A natureza não nos fez peixes nem baleias. Nos fez focas, e nós temos dois mundos ao invés de um.
-Pertencemos á Terra, então?
-Também não...
-Então como...
-Escute. Você tem razão, em parte.Não pertencemos ao oceano, pelo menos não inteiramente,mas quando imergimos somos mais ágeis até mesmo que os peixes, habitantes naturais deste lugar. O oceano nos alimenta, nos faz rir, brincar, cantar e dançar, e foi para estas coisas que nós nascemos, afinal. O oceano é nosso mundo, nosso lugar especial, onde podemos ser nós mesmas,sem nunca sentir medo,dor ou cansasso.O oceano nos faz sábias, pois tudo o que precisamos saber ele nos conta. O oceano nos faz fortes, porque ele é força e nos exige que sejamos junto com ele e, logo, como ele. E nos faz lindas, pois tudo o que sente prazer e alegria é belo.No entanto, precisamos submergir sempre para respirar, e muito embora toda a foca já tenha sentido a tentação de imergir nele para sempre, só esse fato já nos diz que isso não é possivel.
-Mas...
-Mas nós também pertencemos á terra. Pertencemos á nossa familia. Aos nossos irmãos e irmãs.Na neve, nós somos desajeitadas, somos caçadas, ficamos frágeis, tudo é mais cansativo e doloroso. Mas nós voltamos sempre ao nosso lugar de origem, ao local onde nascemos, para tornarmos, umas ás outras, mais belas, mais fortes e mais sábias do que eramos no oceano. Por que o oceano nos diz quem nós somos, mas só na terra, na nossa costa natal, é que isso tem algum sentido. É na costa que nos casamos, temos nossos filhotes e voltamos para contar nossas histórias, que serão as historias de "Nuala", "TAkyr", "Ayassari", e também, a história de toda a Grande Familia Foca. Até que, em algum dia belo,se não formos caçadas ou devoradas antes, nossos corpos ficarão cansados e adormeceremos em alguma correnteza do oceano - como o fizemos tantas vezes antes-mas desta vez para não acordar mais. E o oceano, sabendo que nós não poderíamos ser inteiramente dele, nos arrastará para costa, onde o nosso corpo ficará, meio ao mar, meio em terra, exatamente como viveu.
-E aí...nós desaparecemos?
-Não. Nosso corpo permanece onde foi feliz, mas algo de nós permanece pulsante,brilha com ainda mais intensidade do que brilhava antes por trás de nossos olhos e retorna ao nosso verdadeiro lugar de pertencimento, que não é a terra, abrigo de nossas realizações, nem o oceano, abrigo de nossos sonhos.
-Onde?
Sua mãe ergueu as barbatanas e apontou para um grupo maior de estrelas, que parecia ter consigo um grande véu prateado, que recobria seu corpo imenso e meio gordinho, repleto de pontinhos luminosos. E sua mãe disse:
-Naquela correnteza nada "Nuala", agora para sempre, pois vê a si mesma em nós que conversamos sobre ela e sabe que pode ser feliz, cantar,brincar e sorrir nesse oceano mais escuro, mais doce também sem medo algum.Nós pertencemos a esta correnteza.
Nuala lembra deste diálogo agora, com sua filha em outro bloco de gelo á deriva. Hoje esta especialmente triste, pois consegue ouvir na costa a grande mortandade de suas irmãs pelo homem, que rouba parte de seus corpos antes de partir e não os devolve nem a terra, nem ao oceano. Ela se sente incerta se, incompletas assim, conseguem mesmo chegar ao "oceano de cima", mas procura acreditar que sim.Sua filha - também Nuala, como ela mesma e sua mãe antes dela e até seu pai - silencia diante desta mesma explicação, dada a tanto tempo,mas deixa escapar uma ponderação.
-Nuala sou eu na correnteza da vida...e Nuala é aquela, imersa na "correnteza de focas-estrelas-brilhantes",então...Nuala vive para sempre, em três mundos diferentes, e ao mesmo tempo!Como pode ser isso possível?
Uma estrelinha pequena parece precipitar-se do céu para terra, e Nuala sorri, meio que de susto, assim na terra como no céu.
  Moral da Historia: É preciso saber fluir entre os "dois mundos", o do interior e o do exterior para realizar-se plenamente.É importante manter o sentido de que se faz parte de uma comunidade e é com ela que evoluimos.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sob as cinzas de um vulcão.

Eu sinto a chuva caminhar sob meus passos
Sob as cinzas do vulcão aperto o cerco
Ás ruas esquecidas do seu nome
Eu sei que posso suportar...por mais um tempo
E sei que devo resistir...só mais um pouco
Mas meu silêncio é a sombra morna de um ciclone!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Aos meus amados cabelos em dia de chuva...



   Vaga ansiedade na escuridão, acompanhada daquela sensação de já estar atrasada. "- O despertador não tocou?" Com relutância abriu os olhos e viu que o rádio relógio assinalava em vermelho neon com exatidão cristalina: cinco horas ...ainda. Poderia ser bom. Em tese, poderia ter dormido mais meia hora, mas ouviu a sonoridade lípida da chuva insistente e fina na janela, como dedos tambolilando no vidro, suave e incessante: tum-tum-tum-TUM. E o vento sul uivando pelas frestas,estremecendo vidros,batendo a porta da cozinha em compasso acelerado - pá-pá-PÁ-pá-pá... Suspira. Abre os olhos com força, enche o pulmão com ar frio e coragem pra sair debaixo das cobertas e levanta em um pulo. Só o gato espreguiça-se manhoso e mia descontente por ter sido empurrado dos pés da cama. Automaticamente ela desce para a cozinha e serve a ração antes de preparar um sheik que será o seu café da manhã. Só esticará, ela mesma, seus ossos e articulações em frente á TV, onde a moça que traz o vídeo-aula de Yôga ordena que se espreguice antes de começar o alongamento. E é só lá pelo terceiro àssana que se parabeniza pela decisão de levantar-se da cama antes do despertador tocar, pois até então, dentro dela, parecia que tudo se encolhia, estremecia, colidia em explosão contra si mesma. Ela era a própria casa exposta em nudez contra a intempérie do vento sul. Mas agora, seu corpo parecia despertar em calor, luz radiante que como o sol levantava-se todos os dias por entre as modestos morros gêmeos-seus seios.
   A certeza de ter feito a coisa certa não era assim, inabalável. Era certo que haviam vinte minutos de adiantamento, mas a chuva trazia a promessa de extenso engarrafamento. Talvez, independente do que fizesse daqui para frente, o atraso fosse mesmo inevitável, mas decidiu apressar-se para o banho. Sacrificaria o café-da-manhã e a saúde em nome da boa aparência...mais uma vez. Corre para o banheiro, que ainda é mais frio e úmido que o resto da casa, e regula a temperatura antes de abrir a agua. Se despe apenas quando o vapor se adensa. "Agua-de-fazer-chimarrão" dizia sua mãe, e agora ela lhe escorre pelas costas queimando levemente a pele. Este banho matinal não terá nada da sensualidade morna e  prazerosa do banho noturno. É quase que automaticamente que acaricia o sabonete no rosto e o sabonete liquido dois que escorre pela esponja é esfregado com brusquidão contra a pele. Quando os dedos afundam no emaranhado da cabeleira vasta é que ela sente a enormidade da tarefa hercúlea. Tempo úmido significam mais nós que o comum. Mas o ritual segue, passo-á-passo, ainda o mesmo. Espalhar o condicionador por todo o cabelo, desligar o chuveiro - "ai-que-frio-meu-pai" - e desembaraçar os maiores nós só com os dedos, enquanto canta "Carta de amor" da Cássia Eller com a voz desafinada de frio.Faz isto para  demarcar os necessários cinco minutos, enquanto o cabelo absorve o produto. Apesar dos cuidados,alguns nós são simplesmente "irresolvíveis" e se enroscam pelos dedos, ferindo o esmalte e puxando o couro cabeludo em mini-beliscõezinhos que propiciam aquela sensação de dor-sob-controle. Ela se permite por segundos uma brincadeira de criança. Jogar os chumaços de cabelo contra as paredes criando um quadro expressionista em filamentos pretos contra o fundo de azulejo acinzentado. Pronto! Religa o chuveiro e agora, com o pente de madeira, desembaraça o restante dos cabelos. Olhando para as pontas, conclui que os cachos abundantes e negros que seguem bravios até a metade das costas ja adquiriram o formato correto. Desliga o chuveiro pensando que até que não foi tão demorado, e que ainda deve estar em tempo de chegar ao trabalho talvez com cinco minutos de folga. Apesar disso, é sem satisfação e até com violência que puxa a toalha de cima do box de vidro enquanto com a outra mão, torce o cabelo em uma única espiral para retirar o excesso de água. Enrola-o na toalha com o mesmo objetivo e passa a secar o corpo com outra toalha já previamente separada para isso, com pressa, quase que com desgosto por todos os pequenos defeitinhos que vê. Depois retorna ao cabelo. Há mais uma toalha seca, pequena, que servirá para amassar os cachos e retirar o resto de umidade possível. Depois, traça a risca no centro da cabeça -que até então mais parecia um caminho de ratos - penteia a parte de cima suavemente para não desmanchar os cachos da parte debaixo do cabelo e por fim, molda-os mecha por mecha novamente, acariciando um novo creme leave-in que promete - e cobra - uma fábula. Sorri para o espelho embaçado que não lhe devolve o sorriso. Pronto! Agora tudo será mais rápido.
   Coloca a roupa selecionada na noite anterior e que geralmente fica dobrada encima do cesto de roupa suja, onde atira o pijama.O make-up também é rigidamente automatizado por ser sempre o mesmo, e o motivo disso e que ela se maquia em semi-escuridão, com o espelho ainda meio molhado pelo vapor. Base, olhos bem marcados com lápis e delineador preto, a boca cor-de-rosa-algodão- doce-de-todo-santo-dia e o blush nas maçãs pálidas do rosto...já foram.Agora, passa o gloss rosa por cima do batom e sorri novamente, mas desta vez o espelho lhe devolve o sorriso, ainda que meio torto pela agua que lhe ainda escorre pela sua - do espelho, não dela. Une os lábios, acaricia-os um contra o outro e constata a perfeita distruibuição da tinta-sabor-anilina-de-morango. Força uma pose de fotografia e diz em voz alta, ainda com o sorriso "x" pregado á face: "-Será um dia perfeito"! Quase acredita nisso. Segue em frente. Seguir em frente é quase um mantra, que alivia como um jato d'agua a ardência dessa luz e desse calor renovados no peito á cada manhã. Agora ela já abriu a porta e sente o impacto cortante do vento frio no rosto e leves pingos da chuva que parece ter "engrossado". O vento parece desafiar: "-Prossiga se for capaz, e enfrentará minha fúria" enquanto a chuva, mais tímida, convida a voltar para casa, para baixo das cobertas, para o calor e o aconchego do lar. Ela se equilibra no primeiro dos dois degraus que levam a calçada, á rua, ao trabalho diário e pensa para si mesma, falando com o vento como quem fala com um cão feroz, baixinho, quase mentalmente: "Amiga....calma...calma...." E ele parece que responde, uivando pelas esquinas magoado, mas então soprando suave e gélido sob o seu pescoço. O cabelo não é jogado bem para trás, espalhado pelo ar com força, como era o de sua mãe- de cabelos tão lisos - antes dela nesta mesma porta, mas vai inflando devagar e sem recuar um só momento, sem espalhar-se mas de modo compacto e numa sincronia de tempo perfeita se descontados os muitos fiozinhos que lhe voam do alto da cabeça. Falta pouco afora. Os cachos tão cuidadosamente arrumados estão completamente armados, formando um perfeito ângulo de 180º, como a lona de um guarda-chuva perfeitamente esticados sob as hastes de metal. A vantagem é que ela nunca precisa de guarda-chuva. Estica agora os pés, e se deixa flutuar pela rua, carregada pelo vento com a leveza de uma folha de outono.

sábado, 15 de outubro de 2011

A lição da mamãe morcego...




Quando voltou para casa quase ao amanhecer, com as patinhas cheias de frutos, a mamãe morcego encontrou seu filhotinho muito triste.
-O que aconteceu, meu filho...
Mas ele se encolheu, com os olhinhos vermelhor cheios de dor e não quiz falar nada, porém continuou soluçando e cobriu o rosto com as asas. Foi quando ela chegou mais perto, para lhe abraçar,que percebeu q alguns machucados, pequenos é verdade, mas que percorriam por todas as duas asas. O morceguinho estremeceu, não só de tristeza, mas sabendo que sua desobediência tinha sido descoberta. A mãe, mesmo com pena, endureceu a voz:
-Você esteve lá fora, não foi?
Ele se encolheu mais, mas ela foi chegando, envolvendo-o com suas asas,acaraciciando-o e, aos poucos, convenceu-o a contar tudo.
-Sim, no cair da tarde saí da caverna,porque vi que escurecia e pensei que se não fosse longe não faria mal. Achei um ninho com filhotes de bem-te-vi em uma árvore aqui perto e quiz fazer amizade. Vi que eles estavam tentando aprender a voar e tentei ajudar, mas eles se encolheram de medo. Diziam: -"Sai! Passa daqui!Você é muito feio..." Tentei falar, convencê-los de que era amigo e acho que teria conseguido, mas daí chegaram os pais...e...e...
-E bicaram você?
-Sim, mas isso não foi o pior...
O morceguinho finalmente olhou para a mãe e o que viu nos olhos dela foi aterrorizante. A fala era macia, mas escondia uma raiva imensa, que poderia ter conseqüências graves - ele ainda não sabia para quem. Mas, sendo um morceguinho inteligente, percebeu que ele mesmo tinha provocado isso com seu relato. Tentou diminuir a gravidade do caso:
-Na verdade não foi nada...já passou...
-A verdade! - Respondeu a mãe com toda a raiva represada.
-É que...foi o que ele disse...que eu não era um pássaro e não podia me misturar com os pássaros. Que eu era um rato de asas, uma praga na terra...um ser amaldiçoado, que não é rato nem passaro e que atrai a maldição para quem me encontra. Que eu deveria conhecer meu lugar e viver afastado dos outros seres vivos. Eles me bateram na frente dos seus filhos e, enquanto fazia isso, dizia aos filhos para nunca falarem comigo, pois eu chupava sangue de animais indefesos e, quando crescesse, os devoraria vivos...é verdade, mãe? Eu sou um monstro?
-Não, é meu filho!
E explicou que eles realmente não eram passaros nem ratos, mas morcegos.Que diferente de ambos, podiam voar na mais plena escuridão, pois se localizavam pelo eco da própria voz.E, porque possuíam essa faculdade, eram, como a coruja, muito temidos e, por isso, ela pediu para que ele não fosse lá fora.Falou também que ele tinha primos que faziam isso de se alimentar de sangue e, estes mesmos, eventualmente podiam comer pássaros- mas toda a familia tem problemas, não é mesmo? Ainda assim, todos, inclusive os bebedores de sangue, eram essenciais á sobrevivência da floresta.  E, ainda muito abraçada nele, contou uma história, como sempre fazia antes de ele dormir, e  que explicava este ultimo argumento:
-Sabe, isso já aconteceu uma vez, com outro morceguinho desobediente,há muito, muito tempo atrás quando os humanos ainda não existiam.Mas o resultado foi muito pior, pois ele entrou no ninho de um condor e foi assassinado, pelos mesmos motivos que os bem-te-vis atacaram você.E a mãe ficou muito, muito triste e indignada, e foi tomar satisfação. E os pais condores, orgulhosos e cientes de que eram muito maiores e nada tinham a temer da morcega-mãe ,repetiram exatamente as barbaridades que você disse: que eramos isso e eramos aquilo e mereciamos isso e mais ainda! De tanto desgosto, ela decidiu que não podia continuar vivendo naquele lugar. A morcega convenceu então seu clã a ir embora, e á noite todos partiram em revoada. Como nossa espécie não só vê mas ouve muito bem, pôde escutar os clamores de alívio e alegria de muitos animais, inclusive de alguns que consideravam amigos. Voaram por muito tempo, até que encontraram uma outra caverna, circundada de uma floresta ainda mais exuberante que a anterior.A caverna era ampla e sob ela um lago muito azul e cristalino, onde pequenos insetos viviam voando, portanto, nunca mais faltou comida.Um lugar, enfim, onde se não eram bem vistos, pelo menos eram deixados em paz. E o tempo passou ela teve outros filhos e foi muito feliz até o final da vida, mas...
-O que aconteceu ao condor?
-Bem, um dia, um tio do morceguinho morto contou que voou até lá, pois queria comer um fruto que só nascia naquela outra floresta e descobriu que o condor e todos os seus filhotes estavam mortos...e não só. Todos os outros animais estavam mortos: todos os passaros, os peixes, as capivaras e leopardos, as garças e os jacarés, todos os macaquinhos e também...as plantas. O lugar havia virado um deserto. Então o tio-morcego, curioso por saber o que havia acontecido, voou e voou até encontrar um animal conhecido daqueles outros tempos.Acabou avistando uma velha serpente que ainda vivia ali, embaixo de uma pedra, na caça de alguns miseráveis lagartinhos. E quando o tio-morcego perguntou o que havia acontecido, onde estava a floresta e por onde andavam os animais ela respondeu:"-Não é óbvio? O que aconteceu é que vocês foram embora. No início, não aconteceu nada. Mas pouco tempo depois, as árvores, as flores e os arbustos foram morrendo, e nenhuma outra planta nascia no lugar. As poucas que nasciam já não tinham a proteção das grandes árvores e o sol as queimava e matava antes de chegarem a maturidade. No final, nem a grama crescia mais e o resto foi questão de tempo...de que os animais carnívoros grandes se alimentam? De outros animais carnívoros e herbívoros.Se todos os que comem plantas morreram primeiro, os que comem carne morreram logo depois...quando já eram bem poucos.Pois sem a floresta, nossa casa e proteção,quase nada sobrevive...
O tio morcego continuou sem entender, mas a serpente explicou: "- É que vocês, morcegos, tem uma missão muito especial.Toda a vez que saem para se alimentar de frutas, flores e grãos, espalham o precioso pólem, como as abelhas e os beija-flores fazem, mas em uma quantidade muito,muito maior...e como todos aqueles que fazem algo essencial, o fazem em silêncio e nunca contam vantagem disso, então ninguém, salvo alguns poucos animais que já haviam reparado sabiam deste fato. Por outro lado, como também se alimentam de insetos, não permitem que essas populações creçam muito á ponto de não sobrar mais nada do que for verde. Tentamos procurar vocês e chama-los de volta, e o condor morreu arrependido e queria muito o seu perdão. Pediu até que os encontrassemos mas...
-...mas nós tinhamos ido para muito longe - pensou o tio-morcego, mas não disse nada. Mudou de assunto e continuou a falar de outras coisas, mais agradáveis como, por exemplo, o novo lar que seu clã havia encontrado. Por fim, convidou a serpente para vir morar neste novo lugar, mas ela recusou. Disse: "-eu já estou habituada, sempre vivi aqui..." O tio-morcego, sem encontrar mais argumentos, foi embora e contou para a mãe-morcega, que sentiu que,de certo modo a injustiça não só contra ela, mas contra todo o seu povo, havia sido sanada. E,no final da vida, pediu para que sempre passassemos adiante essa história, para que a gente nunca acredite quando nos dizem que nós somos feios e maus. Podemos ser considerados feios - isso é questão de gosto - mas somos essenciais na perpetuação da vida. Maldição não é nossa presença, é nossa partida...
E o morceguinho dormiu tranquilo, e acabou sonhando com um dia mágico, em que voava junto aos pássarinhos filhotes que cantavam  no anoitecer.

Moral da história: Para além das aparências, mora uma verdade simples: todos temos um papel na vida, e freqüentemente, aqueles que tem mais importância são os que menos se gabam disso.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Outra vez.


 (foto doClandestine Insurgent Rebel Clown Army- CIRCA)


Ás vezes, a sutileza do gesto
não basta
E ás vezes, a boa intenção
não conta
Outra vez, só o silêncio grita a mágoa
Quando a raiva já passou da conta.
Ás vezes em que a revolta se espalha
é sempre quando o calhorda se amedronta
Mas não adianta nada corcovear a esmo
Depois que o esperto - ou o tirano- monta
Mas quando a necessidade bate a porta
É que a amizade esquecida se encontra
E se a gente nunca sabe o valor, até que perde
Não sabe o quanto se perdeu, depois que ganha
Só sei que ás vezes, a gente nem se reconhece
mas sempre é bom, quando a injustiça afronta
Ás vezes, o tesouro está na palma
De outras, onde a vista não alcança
Outra vez, ninguém te dá o que merece
E é tanta coisa que a mais ninguém espanta...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dia da Criança.

  Naquele tempo em que não queriamos ser amados, parecia tão mais fácil! Ao acordar ganhavamos um beijo, a mesa pronta com nosso café-com-pão, passavamos nossas manhãs com professores que tentavam destacar as nossas qualidades em detrimentos de nossas faltas e, ao voltar para casa era em múltiplos de dez que ouviamos a célebre frase:"- você é a coisa mais importante..." Todos queriam nos beijar, nos abraçar e prodigalizar carinhos, até a tia chata que nos apertava a bochecha até doer, e que mais tarde nunca mais o faria. Todos os nossos questionamentos pareciam tão interessantes e nossos comentários tão engraçados! Os animais falavam e as flores sorriam a nossa passagem.Quando adoecíamos, parecia que a familia inteira estava na beira da nossa cama. E quando nos machucavamos, podíamos gritar com vontade a nossa dor, que ainda assim, com lágrimas nos olhos, alguém nos dava um beijinho e dizia: "antes de casar sara". Quando erravamos era só pedir: "me desculpa", pois tudo estaria esquecido no momento seguinte. Um abraço no amiguinho resolveria quase tudo. Quando justificavamos nossas atitudes, todos os nossos argumentos eram avaliados com atenção. E "castigo" era uma semana no quarto repleto de brinquedos e livrinhos e "sem almoço" acabava significando um sem-número de lanchinhos contrabandeados fora de hora. 

  Naquele tempo, em que nunca precisávamos nos sentir seguros, era tão mais simples! Nos levavam e traziam pela mão da escola, ou na garupa da bicicleta, ou no carro da mamãe e do papai, ou ainda, se alugavam os serviços dos motoristas de "combis escolares" ou "mini-vans". Os professores quase tinham ataques de pânico ao nos ver encima do muro, ou de uma árvore, ou correndo atrás de uma bola no meio da rua! E brincar de rapel no sofá da sala trazia a falta de ar e frio na barriga de quem estivesse a nossa volta!"-Você ainda me mata do coração" diziam, e nós gargalhavamos de volta!  Porque ser criança é correr, pular, deslizar sobre rodas (de skate, patins,rolimã ou bicicleta) e cair aos socos e tapas com os coleguinhas eventualmente, para ouvir ralhar a coordenadora de pátio, os tios, os "dindos" e naturalmente, os pais. "-Aluno não tem querer" dizia a diretora e o professor sabido.No entanto, como queríamos tudo e conseguiamos quase sempre! Era o desejo incessante de fazer barulho e criar confusões, problemas, riscos, desafios. Quando finalmente, quando iamos dormir, alguém nos contava histórias para colorir nossos sonhos e beijava nossa testa para selar nossos olhos contra os bichos-papões, o medo do escuro e outros fantasmas inconvenientes. Sempre viria alguém - geralmente pai,mãe ou avó - nos cobrir á noite contra o frio, nos salvar dos pesadelos com um pouco de leite quente com mel e acariciar nosso cabelo.No limite, dormir na cama entre os dois pais, único refúgio certo ás assustadoras tempestades.
  É...naquele tempo era bem melhor. Ninguém se preocupava em ser feliz! É que não dava tempo para procurar pela felicidade! Pois ao levantar pela manhã abríamos os olhos e víamos tantas coisas incompreensíveis e fascinantes, que não paravamos de perguntar: por que? por que? E tudo que nos instigava, na imensidão de seu mistério, poderia ocupar-nos em horas e horas de conversas que no final se esqueciam em meio a brincadeiras, que eram o enredo mesmo de todo o mistério. E nada pode ser tão sério como uma criança brincando: são perfeitas as casinhas de faz-de-conta, as trajetórias dos carrinhos, os exércitos rigidamente posicionados, os castelinhos de areia de acabamento impecável com palito de picolé e até...escovas de dentes! E ás vezes, mergulhados no silêncio do poente, nada. Só crianças conseguem pensar em nada, adultos muito dificilmente. Como então ser feliz?  Já não bastavam as horas rindo convulsivamente de algo copletamente sem sentido? E a dor, tão apaixonada e tão intensa, que sumia no momento seguinte como os chocolates ganhos na Páscoa? E os pequenos dramas quotidianos na escola, variações incessantes do mesmo tema com encerramento quase idêntico, despedida e promessa de se ver de novo, de se estar junto para sempre...É, a dor pode ser grande quando a gente é criança, a decepção amarga,a saudade apertada, a perda inconsolável porque amor de criança é sempre profundo! Mas em compensação o desânimo e a desesperança são tão raros que, numa criança, logo são vistos como sintomas graves de algo muito errado que não poderia estar acontecendo. Ser criança é ser sempre entusiasmo e maravilhamento! É, naquele tempo ninguém procurava ser feliz...por que será?
  Eu sei que infelizmente nem tudo foi bem assim para todas as crianças no mundo.E que para muitas, houve frio, fome,desamor e desespero. Acho que foi porquê um dia a criança teve de morrer no adulto. Com isso,alguma coisa que se perdeu no meio do caminho inventou de decidir que o mundo pertencia apenas aos que envelheceram. E para estes o tempo passou, a criança morreu e o adultescer mesmo não veio. É que maturidade mesmo é outra coisa. Para ser realmente adulto, há que lutar muito para conquistar o amor,a segurança, a brincadeira, o desafio, o riso e a felicidade até que um dia, quando menos esperamos, a criança que parecia morta, estica os braços, esfrega os olhos e renasce dentro de nós. E talvez chegue o dia em que possamos resgatar a infância de todas as crianças, para aquilo que lhes é natural.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

O beija-flor e a Centopéia Manca!



Certa vez, há muito tempo, vivia uma centopéia perneta no Jardim da Consolação. Parece que se alimentava exclusivamente de falar da vida dos outros. De sua boca jamais sairia algo que fosse útil ou relevante, ou ainda, um comentário no sentido de ajudar o próximo. Limitava-se a divulgar toda a informação que encontrava, muitas vezes distorcidos os fatos pela sua própria maledicência, comentava por comentar, enfim...tenho certeza de que o leitor ou a leitora conhece alguém assim. Mas esta centopéia parecia ter mesmo uma "regra de ouro": nunca e jamais conceder aos desafetos qualquer virtude. Assim, da formiga, ao invés de dizer "laboriosa" dizia "medíocre"; a cigarra, ao invés de "talentosa" dizia "tola" ou "fútil"; da borboleta, ao invéz de "bela" comentava "muda" ou, simplesmente "aborrecida"; e da joaninha, ao invéz de "criativa" ou mesmo "vaidosa e interessante", dizia "exibida". Pensando bem, estamos falando de uma realidade muito triste. Pois o que a centopéia tentava esconder do mundo inteiro, alardeando os defeitos e vícios alheios era simplesmente o quanto sentia-se infeliz e sozinha. Afinal, os deuses haviam lhe dado muitas pernas, mas quebrado duas, o que a tornava mais lenta,caminhando como que aos pulinhos.Sua familia morava longe e ela quase não tinha amigos- e quem poderia aturar isso por muito tempo? Ela praticamente nunca ia a lugar algum. E, talvez por isso mesmo, de todos os entes vivos que habitavam sua pequena existência, sua virulência recaía com maior fervor por sobre os seres alados. E o escolhido de hoje, no primeiro dia de sol ofertado pela Primavera, após um longo e chuvoso inverno, era o beija-flor por muitos considerado o mais belo. Por que? Para alguns, as penas multicores recendidas a cetim, e para outros era no movimento incessante que a velocidade de suas asas traduziam em um pequeno milagre: ele dançava até mesmo equilibrado no espaço. E para mim, sinceramente, a beleza do beija-flor reside justamente em descobrir a beleza das flores, nunca competindo com elas, simplesmente fechando sempre um par harmonioso. Pois seja rosa, jasmim ou amor-perfeito, ele sempre terá para cada uma uma dança única, especial. Infinita beleza, verdade e perfeição intoleráveis para a centopéia, que para cumprir seu intento, mal avistou o gordo e lustroso Besouro do Herbário - que havia acordado particularmente bem humorado e já havia decidido conversar com ela por um tempo, para exercício de caridade -  disparou um bom-dia apressado e nem lhe deu tempo de responder. Desandou a falar ininterruptamente:
-Olhe quem vem lá, de novo! Ui! De flor em flor, como sempre!Susurra suas mentiras para esta e para aquela, e com elogios melosos e adocicados convence a todas! Olha como se infla aquela Dália á sua menor aproximação! E aquela Margarida então? Só falta chorar ...hahaha Mas á mim ele não engana!  O que ele faz é bem simples: diz o que elas querem ouvir para arrancar-lhes o que tem de melhor! Não? Veja bem, então! Esta vendo? É exatamente como eu te digo!Esticou o bico e agora suga o néctar precioso de cada uma. Agora  já vai, imediatamente para outra, e recomeça tudo de novo,deixando-as, a cada dia que passa, mais tristes e vazias. E o que vai acontecer também é simples de prever; descolorir, desperfumar e fenecer, aos poucos. Ele lhes encurta a vida e vai atrás de outras, mais jovens e belas, isso sim!
Mas o besouro, que da natureza do jardim tudo sabe, redargüiu simplesmente:
"Do beija-flor se diz que é inconstante
Mas isso nunca foi bem assim
Um beija-flor ama a muitas flores
Mas sempre o mesmo jardim!"

Moral da história: A tua maior qualidade é fatalmente teu pior defeito...

(Do livro "Fabulário" de Velut Luna, ainda no prelo)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Da inconstância.


 
Num piscar de olhos
Troco as lentes
Com que vejo o mundo
vinte vezes por minuto em
150 milésimos de segundo...

É, sou mesmo inconstante
E assumo!

sábado, 24 de setembro de 2011

Quando eu te deixar...

Quando eu te deixar
Quero olhar para o teu céu sempre noturno
Para saber que no final de tudo
Tuas estrelas seguirão para sempre
Em sua viagem clara pelas estações
Incógnitas,distantes e para sempre...lá
Sucedendo-se claras, de par em par
Revezando em eras, desconhecidos os nomes
de seus deuses esquecidos a dançar em paz
Mas como não me vêem e não me alcançam
Darei-lhes as costas por não saber rezar...


Eu seguirei a pé, em direção ao mar
Quando eu te deixar...
Este teu mar alimenta vagas que se repetem
É sempre o mesmo,mudo,claro e inerte
E sua melodia, são temas que se voltam
Sobre si mesmas, maldições sem cessar
Ocultam na profundidade um teto de imãs
Que colhem os raios dos teus cataclismas
Cegas as bússolas, rasgados os mapas
Como poderia eu neles me abandonar?

Mas terei que...talvez um dia...mas hoje não...sei lá!
Eu que me aventurei por teus vale e cultivei por sobre tuas colinas
Eu que ouvi teus mistéirios em susurro, sob tuas paredes frias
E me aventurei por tuas trilhas, desvendei teus precipícios
Contemplo agora sobre eles... que caminho tomar?
Teus tesouros ocultos sob cavernas labirinticas
Prenhes de dragões e espadas luzidias...onde não poderei arriscar
Seguirei em frente, ainda que incerta
essa intenção de te abandonar

Desconheço ainda a fonte do teu veneno
A mãe do ouro que aqui reside, em algum lugar
E teus fantasmas ainda me ameaçam e chamam
"Ajude-me, ajude-me a me libertar!"

Como poderia eu te deixar?
Mas onde quer que esteja a saída
De teus caminhos torpes, tuas ventanias
Eu gritarei então, no final destes dias
Minha promessa de nunca mais voltar!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Da terrível gravidade.

Se subir os degraus
as teclas branca-e-pretas
o muro do jardim
o pincel na palheta
Sentirá
Ao arrepio da pele
o prenúncio da queda
centrípta cripta laciva
criptografada em pedra
Girando sobre si mesma
Ao som do inefável
A Gravidade em sua plenitude
Que lhe abraça
Insuportável!

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Procura-se uma casa:


Jovem casal procura um lugar, para futura residência
aprazível e ensolarado,emoldurado pela natureza
relicário de memórias do que ficou para trás
um refúgio para os guerreiros que vierem em paz.

Deve ser generosa e ampla para que nela caibam
pelo menos umas três ou quatro oficinas
De poesias, canções,esperanças e sinas
Estas são as mais essenciais.
Mas deve ter,ao menos,um tanto que sobre
para que cresçam as sementes de outras duas ou mais.

Não posso esquecer que deve ter um jardim
em que floreçam pródigas as curas e a beleza
e também - se não for demais-
local seguro e de aconchego para nossos animais.

Uma porta meio entreaberta
para a contemplação dos mistérios
Uma"Queen-size",em que caibam carícias e crias
Uma cozinha bem grande, para refogar as tristezas
Uma sala de estar, que comporte as nossas alegrias.

Para o íntimo apreço: som,imagem e graphia.
E para escândalo público: contentamento e compreensão
Nossos sonhos,tão pequenos,esses dão em qualquer cantinho
de calidez e lealdade, como o nosso coração.


E para ouvir junto com a poesia:http://www.youtube.com/watch?v=V_N4Jum5h2A

sábado, 6 de agosto de 2011

As três corujas buraqueiras

Já era tarde, e o sol poente parecia mais comovente do que o habitual, pelo menos para as 3 filhotes de corujas buraqueiras, que  percebiam que o momento de partir finalmente se aproximava. Elas cresceram no mesmo ninho sendo assim, evidentemente, irmãs de sangue e criação. Vou nomea-las Tack, Teck e Tick.
Tack disse: - Temos que sair deste buraco, naturalmente a noite, porque é quando enxergamos melhor. Quem se habilita a ir na frente? Ou será mais justo um sorteio? Se ninguém se habilitar, proponho que seja eu mesma, mas se preferirem sorteio...
Teck disse: - Por que não voamos todas juntas? Os possíveis predadores teriam mais o que temer se estivessemos unidas. Por outro lado, ficaríamos mais visíveis a eles, é claro. O outro inconveniente é que espantaríamos mais rapidamente as possíveis presas. Mas sendo estas presas as primeiras, é lógico -pelo menos para mim - que  dificilmente obteríamos sucesso nas primeiras tentativas porém, ao contrário,estando juntas tornaríamos mais rápido e eficaz a nossa aprendizagem.Unidas, poderíamos aprender umas com as outras os melhores metodos para se caçar- já que mamãe não nos ensinou nada - pois aprenderíamos com os erros umas das outras -  estou sendo redundante,né? E falando na mamãe, teria nos facilitado muito a vida se tivesse trazido menos coisas e se empenhado mais em acompanhar nosso crescimento, mas se estivessemos juntas ela nos reconheceria em seu próprio vôo e...
Tick não falou nada. Esticou as asas, inflou o peito e logo alçou vôo, com um longo suspiro. Suas irmãs,um pouco confusas com esta atitude, logo a seguiram
Porém Tick estaria sozinha ao amanhecer.

Moral da história: Não perca tempo com discussões inúteis, alce vôo rumo aos seus objetivos e fique consciente de que no fim, estarás sozinho, exatamente como no princípio.

O Inútil Luar




por Manuel Bandeira

...E embalde a Lua, ardente e terna,
Verte na solidão sombria
A sua imensa, a sua eterna
Melancolia...

Fechada para balanço!





...sempre existe o perigo
-é, claro- de se ficar preso
ao passado. Mais cadeias,
necessariamente, no futuro
logo mais á frente!
 Tanto ou quanto mais iminente!
E o presente é uma tábua
de salvação suspensa,
entre estas duas correntes.
Com o peso equilibrado
Passo a perna ao paradoxo
Para contemplar distante
Todo o  risco calculado
E se  mais para trás me projeto,
tanto mais para frente é que me alço.
Alcanço logo o sidéreo espaço
Mas será tão difícil o momento
De manter-me assim, presente!
Capturar-me, no segundo exato,
fora do tempo, á sós, em minha mente
Por isto, sigo assim, balançando
Para trás
E para frente.
É quando me fecho que vejo
Na escuridão do cenário
Paisagens várias em,
meu próprio eixo
E no que me defino,
o meu contrário
Sou aberta e fechada,
Sou escura e tão clara,
Sou livre e mais cara,
Uma gangorra quebrada,
Feita de madeira rara
Para subir ou descer
Sempre a mesma escada!
É chegado o momento
Tomar impulso e chegar lá!
Se estico as pernas
bem para frente
Jogo a cabeça mais para trás
Escorre a tinta,
dos meus pensamentos,
Mais leve, mais longe
Alto demais!
Deito no regaço do poente,
recebo os carinhos do vento!

- Mudando, sempre em frente e ao mesmo lugar.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Trançando.



Eu que me escondo por trás das flores
de tocaia
a espreita de meu nome perdido!
Deparo-me com este homem de amores
sem palavra
E duvido!
 .....
No inverno a amizade aquece
Enquanto a natureza esquece
.....
É preciso mais que firmeza
sobrepondo, mecha por mecha
 o que mais se deseja
com o que um dia se quis
Mesclando sons,cores e influências
Sem deixar escapar o que é essência
É a verdadeira trança de raiz.

......
O que eu quero? Ainda não tem nome.
Por onde vou? Não tem endereço.
O que eu sei? Faltam-me palavras
E é só o começo.

...
Eu sei de uma coisa que você não sabe
Mas queria muito me dizer
Já você, quer me contar de uma coisa
Que, por gentileza, não quero saber. 

sábado, 25 de junho de 2011

Memórias de uma criança de passagem.

 Foto de Andrew Miksys. "Bus Windows"

Conforme já falado, os egípcios antigos e os Baladi acreditam que nossa existência terrena no oitavo mundo (ou a primeira Terra) está intimamente associada com nosso gêmeo siamês do sexo oposto, que habita o nono mundo (também chamado de 2ª Terra/terra).(GADALLA, Moustafa. Cosmologia egípcia: o universo animado, 2001, pag.99).

       E era só entrar no ônibus, arrumar a poltrona, ajeitar-me do modo mais confortável possível, arrumando espaço para minhas bolachas recheadas, saladinhos, livros e revistinhas em quadrinhos (sempre) e acomodar-me da melhor maneira possível, entre a excitação e o temor de saber que, por breve espaço de tempo, estaria por minha conta e risco. Engolir o espanto na velha surpresa das lágrimas represadas de minha tia, meu tio ou minha avó.Suspirar inquieta pelo silêncio que desejava e não desejava. A viagem levaria doze horas, mas eu era muito menor naquele tempo e, por isto, as poltronas pareciam menos incômodas.

    Ano após ano as mesmas repetições: conferir pela enésima vez a autorização judicial para menores em trânsito, passar ao motorista dados fundamentais e telefones de emergência,ouvir a velha recomendação de "não falar com estranhos"com o assentimento cansado de quem não conseguiria cumprir a promessa.Quem não ia querer conversar com uma criança de sete, oito, nove, dez,onze anos...que viajava sozinha? De certo modo, isto era bom. Desfilaram, na poltrona ao lado, inúmeras pessoas que para mim eram personagens: o velho boaiadeiro do Mato Grosso, o jovem estudante uruguaio que havia deixado Montevidéu para estudar mas que, sem a familia saber, fazia malabarismo no sinal com malabares em chamas; a moça que tentava nova sorte em uma cidade mais bela e promissora como garçonete e que queria ser modelo (quase um clichê); o anarquista paulista que falava da minha cidade como quem fala de outro planeta; a senhora que tinha muitos cães contava suas proezas como quem fala de pessoas. Conversavam sobre muitas coisas: de suas vidas, seus sonhos, suas expectativas na partida e na chegada, prodigalizavam conselhos - afinal, era eu a criança - reinventavam suas próprias histórias de vida para lhes dar a aparência de um conto das Mil e uma Noites, que nunca teria fim, pois logo desembarcaríamos. Falavam como se estivessem sozinhas, e eu colhia as flores de suas intimidades com o desinteresse próprio das crianças, não interessando que formato tivessem, que aroma exalassem. Um confessionário que fosse um caleidoscópio gigante de paisagens e pessoas diferentes, anônimas, que muito dificilmente se reencontrariam. Meu trajeto, ano há ano, era praticamente o mesmo. E nunca reencontrei nenhuma.

    Pois uma das minhas mais antigas memórias é esta. Entrar no ônibus da TTL, partida de Pelotas com destino á Florianópolis.

     Uma das ilusões que tinha era a de poder reter na memória as paisagens que corriam de encontro a mim e na seqüência, me ultrapassavam. Os campos e açudes, a revoada das garças pela manhã, as montanhas- que aos poucos iam crescendo e que eu gostava de imaginar que eram outras paisagens que se entumesciam delineando seus contornos no fino tecido da terra, como fazem os corpos sob o lençol - as cidades sempre fantasmagóricas pela madrugada, as praias despertando no frescor da manhã, a placidez do gado e a verdura das pequenas plantações que iam pontilhando certo trecho do trajeto. Eu amava as barraquinhas de frutas a beira-da- estrada e  muitas vezes me perguntava como seria conviver com aquela imensidão e aquela solidão assim, quase inaudível, na ilusão enquadrada naquela janela dentro da qual eu observava o mundo. As imagens eram muito fugazes, tudo era muito rápido, e rever cada paisagem será sempre para mim um novo espanto, porque minha memória nada quiz, confundiu tudo com trapo imprestável e resto de tinta seca, insuficientes  para uma boa tela. Ao invés disto, lembro da intensidade de uma quaresmeira plantada na avenida tão cinza-concreta, dos losâgulos nas grades da janela de uma lanchonete na beira da estrada, da janela molhada de chuva que me encharcava de frustração e onde eu tentava com meus dedinhos criar desenhos e escrever o meu nome e o de minha mãe dentro de um coração,de um sorriso muito amarelado em que brilhava um dente que talvez fosse mesmo de ouro e da minha falta de coragem em perguntar. Naquela época, todas as minhas sensações tinham gosto, cheiro e sons próprios e, quando eu fechava os olhos, conseguia adivinhar-lhes as formas e até como reagiriam ao tato.

     Em todos estes anos, pouca coisa digna de nota acontece quando estou em trânsito, e talvez por isto mesmo a estrada seja para mim um tipo de refúgio. Hoje, sou um tipo de animal que só sente segurança em campo aberto, emobra saiba apreciar o lar em seu verdadeiro significado.

     Mas vamos ao acontecido!

     Eu tinha dez anos recém-feitos e era o ano de 1988, mês de julho.Estava indo ver minha mãe nas férias "curtas" em Florianópolis, e já haviam transcorrido praticamente umas quatro horas e meia de viagem, pois acabavamos de passar por Porto Alegre. Eu me lembro que ainda era início da madrugada, pois eu já havia desligado as miseráveis luzinhas que iluminavam meia página da "Bolsa Amarela" de Lygia Bojunga Nunes por consideração aos outros passageiros. Pensava na minha colega, que toda a vez que me via voltar de férias, perguntava: "viu a Mulher de Branco?" Ela deveria estar pedindo carona em estradas desertas, rótulas estranhas e curvas escuras, causando acidentes e assassinando pessoas sem deixar vestígios pessoas diversas que se tornariam objetos e instrumentos de uma mesma motivação: vingança. Nunca era lá muito claro o motivo pelo qual ela fazia isso, mas quem duvidava? Eu me frustrava, depois de tantas estradas, de nunca te-la visto!Mas a bruma fantasmal que se espraiava pelas paisagens estava bastante convidativa - pelo menos para a aparição de uma lenda urbana.Olhando pela janela não sei se adormeci. A Razão diz que sim, com absoluta certeza. Mas...

   Lembro-me perfeitamente do momento em que o ônibus parou na estrada. Parecia-se com o momento da troca de motorista ou, ainda, o desembarque de algum motorista que tivesse pego uma carona até aquele trecho da estrada, precisamente entre nada e lugar nenhum. Talvez algum novo passageiro que fosse "roubar" minha poltrona vazia, ao lado, onde eu deixara minha mochila e travesseiro extra, além do cobertor. Esperei que se abrisse a porta para tirar tudo rapidamente. Nada. Então voltei a olhar pela janela em busca de novas paisagens, da Mulher de Branco, de algo que fosse enfim belo e estranho como tudo o que habita  á noite. Foi quando uma soou ao meu lado uma voz muito grave e baixa:

-Você poderia retirar suas coisas para que eu possa me sentar?

    Estranhei. O tipo de flexão verbal. Eu falava assim. Mas só conheci advogados e professores de português com tanta formalidade em momentos tão informais.

-Claro! - respondi, muito rápida. E pensei: "como ele entrou?"

   Ao contrário de todas as outras vezes, ficou em mim aquela vontade doida de puxar assunto, mas não queria arriscar. Eu havia acabado de completar os dez anos, o que iria dizer para a mãe? Ele era um HOMEM, MAIS VELHO E SOZINHO, um predador nato segundo minha familia. Me encolhi e observei. Eu era, naquele momento, um tipo de presa tão curiosa quanto esquiva. Por outro lado, dentro de toda a menina há uma potencial mulher que sabe aconselhar. Como se dissesse: "ora, você é uma menina viajando sozinha, não precisa se dar ao trabalho pois ele mesmo achará a situação curiosa e acabará conversando com você. E será como todos os outros, a revelar intimidades a uma criança desconhecida para passar as horas..." Então, com toda a calma - e até para conseguir mantê-la - pus-me a avalia-lo, enquanto ele arrumava uma mala no bagageiro de cima e, na seqüência, sentava-se ao meu lado: Aproximadamente 24 anos,1,85 de altura, 80 Kg aproximadamente, tez marron-negra, cabelos crespos cortados nada curtos (um black-power "domado"?), olhos grandes e expressivos escondidos em óculos um pouco estranhos encimados por sombrancelhas grossas, curtas e irregulares. Vestia-se mais como um estudante, camisa xadrez-vermelha-branca -e -preta, jaqueta de couro preta, calça jeans azul e tênis all star pretos.Perfume CKONE, meu preferido por ser o mesmo perfume que minha mãe usava quando eu tinha oito anos, mas que não conseguia encobrir completamente o cheiro de cigarro (eca!). Percebi que seus dentes, embora bonitos, eram levemente tortos e manchados de amarelo.UAU! Nem um policial faria melhor! -" E eu tenho apenas dez anos, nem minha mãe conseguiria descrever uma pessoa tão bem." Pensei, presunçosa. Foi quando ele tirou do bolso da jaqueta uns fones muito pequenininhos. Não agüentei e perguntei:

-O que é isso?

-"Foninhos" de um MP3.

-Ahn. Pensei: "ao chegar, vou perguntar para minha mãe o que é".

    Ele esticou a mão esquerda e inclinou o pulso na direção do rosto para ver o relógio, de um modo um pouco brusco. E eu vi. Um sinal de nascença de forma ovalada, com aproximadamente 3 cm exatamente igual á minha. E ainda, no anular da mão esquerda, um anel de prata em forma de escaravelho que me trazia alguma familiaridade. Esse anel não é da minha mãe? Ela nunca usou, mas acho que já vi em seu porta-jóias...Aquilo me confundiu. Filha, neta e sobrinha única, toda a minha mentalidade havia sido habilmente forjada para acreditar naquilo que me distingüia dos outros. Eu já tinha formado como que uma personalidade que tinha por princípio certo caráter de excessão. E eu nunca havia visto alguém com uma marca igual a minha. E na minha confusão, nem percebi que agora ele é quem me olhava. Disse:

-Você me lembra alguém.

-Sua irmã! Chutei, rezando que não fosse alguém falecido. Eu acreditava que lembrar alguém falecido era um mau-presságio, e na estrada isto poderia ser especialmente perigoso. Mas era mesmo uma indelicadeza dizer tal coisa. Ainda mais para alguém da minha idade pensei, severa..

-Não tenho irmãos...nem irmãs...só primos distantes.

- Como eu.

Ele pareceu retrair-se.

-Na verdade não tenho familia próxima, venho ver minha avó que mora com minha mãe duas vezes por ano, em média.

-Parecido comigo, só que moro com minha avó e vou visitar minha mãe...

- Para mim já foi assim também...

-Então você esta voltando, quando eu estou indo?

-O contrário também é verdadeiro.

E riu. Eu demorei a entender a piada, mas comecei a rir também, como que por impulso, enquanto as paisagens ficavam mais montanhosas e pareciam "correr mais rápido" pela janela.

Depois de certa pausa mais desconcertada que desconcertante, perguntamos coisas diferentes ao mesmo tempo.

-O que você esta lendo?

-O que você esta ouvindo?

Então eu lhe entreguei o livro e ele me entregou os tais "foninhos" que encaixei na orelha - um só - de modo bastante desajeitado.

-Deixa que eu ajudo.

Reconheci a voz do Renato Russo, mas não a música. Ele parecia "empacado" na primeira pagina, onde estava a dedicatória da amiga de minha mãe.Fez uma expressão estranha.

 -Em que ano estamos mesmo?

"Que burro!" -Pensei! Mas respondi com aquele tipo de condescendência que só as crianças tem na voz:

- Estamos em julho de 1988.

-Anh.

-Já leu este livro?

-Já.

    Eu estranhei. Pensei que sua mãe ou seu pai não poderiam ter dado para ele um livro de menina. Ele sorriu, como que recordando algo, e mudou de assunto:

-Acho que você iria gostar bastante do livro É proibido miar, do Pedro Bandeira. Talvez tenha na biblioteca da sua escola.Tinha. Eu o encontrei anos depois, como que me esperando na estante. Um dos meus livros preferidos na infância foi uma feliz recomendação.

     Depois disto guardou-se em silêncio. Um silêncio constrangido. Como alguém que acabasse de ouvir: "Não, você não é Napoleão Bonaparte. Você só esta louco". Para livrar-me do constrangimento que agora parecia invadir-me também, perguntei:

- Estranho, não conheço esta letra do Legião.

-É. "Metal contra as Nuvens". Ele ainda vai lançar...

-E você já teve acesso?

- Pode-se dizer que sim...Sorriu enigmático.

Não gostava que me tratassem como criança, mesmo sendo uma. Fiquei emburrada. Ele percebeu e, tentando disfarçar que era por condescendência, forçou  um sorriso alegre. Eu não compreendi até que ele lascou uma pergunta improvisada ás pressas:

- Me empresta um dos foninhos?

 Ele não precisava pedir emprestado o que já era dele. Mas a delicadeza deu certo. Baixei a guarda e lhe entreguei.Á partir deste momento, a conversa começou a tomar um rumo meio estranho. Ele começou a contar a história de uma menininha que iria crescer, e lutar por grandes ideais, ter grandes amigos e alguns amores que ...parece que iriam ter algo importante a acrescentar á sua vida, embora mais da metade do que ele dissesse destes namoros parecesse uma grande tolice. Eu queria que a menina fosse veterinária. Que tivesse um carro conversível rosa-chiclete como a moto da Penélope Charmosa. Que viajasse o mundo cuidando de animais nos zoológicos. E que conhecesse O CARA, com quem se casaria e que seria quase que um complemento inacreditável á sua/minha própria história de vida inventada. A tudo ele assentiu sorrindo, mas de alguma forma eu sabia que ele estava mentindo. A estorinha não se desenrolava bem daquele jeito. Ele tentava o tempo todo alertar sobre coisas e pessoas dizendo que a fantasiosa heroína iria encontrar situações estas ou aquelas, e como agiria com correção e lealdade. Mas as descrevia de modo muito vago, e embora tudo parecesse muito bonito, a verdade é que eu não entendia quase nada. Parecia querer dizer para eu não ligar muito para as decepções, as traições, os problemas (especialmente os financeiros). Que tudo faria muito sentido no final. E eu queria ouvir o final da tal estória mas de verdade não consegui. Parecia não ter um na verdade. Adormeci, contra todas as recomendações, com a cabeça cheia de cachinhos e idéias confusas apoiada em seu colo, encolhida sob suaves carinhos de dedos longos e afilados nas pontas. Ele também devia ter o hábito de roer as cutículas, pois seus dedos não eram muito parelhos - novamente e exatamente como os meus. Mas pouco antes de dormir, segurei uma das mãos e virei a palma para cima:

-Vou lhe mostrar uma coisa que minha madrinha me ensinou...

     E emudeci. Meio sonolenta, acabei dizendo:

-Bem...você tem bastante vocação para a confusão, isso sim! É impulsivo, muito bravo, mas de caráter constante e leal. Terá 4 grandes amores, dois filhos e...terá que escolher entre dois destinos.

-Já me disseram isso. Pareceu sorrir mas eu não vi. A verdade é que eu queria fruir ao máximo daquele momento, pois me parecia que nunca mais voltaria a me sentir tão... protegida.

     "Sua palma...como eu!" - O ultimo pensamento que tive antes de entrar em um sonho confuso.

    E adormeci. Quando acordei o dia já estava alto. O ônibus já ia parando. E ele já não estava lá. Minha mãe me recebeu com seu grande sorriso e evidente alívio no olhar - era sempre assim. Mas eu estava pensativa. Ele não ia para Florianópolis? Pensava. Onde saltou? Como não senti ele saindo da poltrona? Só interrompi esse fluxo constante de perguntas quando minha mãe perguntou:

- Onde esta seu casaquinho vermelho? Olhei para a cintura onde obviamente não estava, e abri a mochila para procurar, embora sem esperança. Disse enfim, com calma:

- O moço deve ter levado por engano...

-Que moço?

Fiquei em silêncio. Minha mãe percebeu que algo só poderia estar errado e voltou ao ônibus para perguntar ao motorista.

-O senhor não me disse que ela viajou o tempo todo sozinha?

 -Sim...quero dizer...eu acho que sim, mas é que eu dirijo, não fiquei olhando sua filha todo o tempo! E então peguntou, desconfiado: - Por que? Aconteceu alguma coisa?

Minha mãe pareceu cair em si. Olhou para mim em busca de uma resposta. Respondi, com o máximo de serenidade possível, embora  com a cabeça imersa em dúvidas.

-Esta tudo bem, mãe. Não aconteceu...nada.

Ela me puxou. Seguiu andando com o passo duro.

-Nunca mais minta para mim!

-Não sou mentirosa!

    Ela sabia que eu não era. De verdade. E confiou no tempo, para que a história viesse á tona, senão com lógica, ao menos com inteireza. Minha mãe seguiu em frente ao longo dos anos, comigo pela mão, confiante na justeza da vida e que nada havia me acontecido de mal, afinal de contas. Mas o dia de conhecer a verdadeira história daquela viagem não chegou. A vida nunca é assim.

    O anel de escaravelho brilha na minha mão esquerda sob o teclado, enquanto escrevo este pequeno relato e me pergunto se é realmente possível que, em outro lugar, o mesmo esteja acontecendo. Um gêmeo masculino a viver a minha vida, em todos os tempos e agora mesmo, enquanto escrevo. Um rapaz estranho que um dia, confuso, conseguiu mesmo que sem querer, escapar por uma brecha e se encontrar 23 anos antes, em um improvável trecho da estrada. E se pudesse ser possível tal narrativa, será que agora mesmo ele esta feliz com as escolhas que fizemos? Em algum momento quis ser tão somente um tranquilo e reservado veterinário a viajar de zoológico em zoológico? E para onde nos conduziriam todas as escolhas que não fizemos? Uma estrela no céu parece acender-se com mais clareza ao amanhecer junto á lua cheia. Isso é o que parece, mas sabemos que não é assim. Em algum lugar entre esta estrela e a estrada - serpente devoradora de sua própria cauda - reside a verdade.

 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"A" Inverno.







O inverno é fêmea. Uma moça que anda pela cidade como que perdida.
Seu olhar alça a mira em pássaros e gentes, mas que quando fita a ninguém reconhece.
E segue cantando baixinho o que não se pode entender -para alguns é uma prece antiga e para outros uma invocação sem endereço.
Vestida de branco como noiva esquecida no altar, não sabe dos ventos que a seguem - tão inclementes!
E que tudo ao seu redor será assim. Mas ela ignora
Com seus pés deslcalços e gelados atravessa mares e montanhas, rios, vales, países e continentes, sem encontrar abrigo.
Pergunta, de vez em quando, bem baixinho: "tem alguém aí? "
E as mulheres lhe batem com a porta.
E as crianças lhe atiram pedrinhas.
E os animais todos, em sua presença, crispam a pele e mostram as presas, mais ferozes que de costume.
Nenhuma casa lhe dará abrigo, então ela espia pelas janelas e aproveita-se das vitrines para tentar embelezar-se.
Anda em busca de fogueiras, candeeiros e festas, rondando os braseiros e as risadas. As assembléias e as revoadas. As canções e as madrugadas.
E até aos desejos febris de tão impossíveis...ela ronda.
A ceia esta servida, em todas as casas, mas tudo será cinza em suas mãos.
Calam-se as gargalhadas em sua presença.
Por tudo isto, há dias em que se compadece de si mesma. Torna-se imensa, anfitriã e patrona!
Põe-se a girar em si mesma, gargalha e uiva como louca, parteja relâmpagos ao som dos trovões, espalha cinzas e granizo.
Toma para si seus anseios, torna-se redemoinho em exuberância cataclísmica, uma tirana esquecida em profunda aflição, relembra os nomes perdidos e realiza -se em trágica celebração.
Para enfim,desfalecer de cansaço e nostalgia. Aquieta-se.
Sumindo translúcida ,calma e liquida, desfaz-se espreguiçando-se pelo chão.
E onde ela jaz serão espalhadas as sementes de verão...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Jardim Secreto.


As vezes penso que sei cozinhar
Refogo alho e atrasos ao trabalho,
Caneta, cadernos,cebolas e junto á prazos,
planilhas e pimentões
Sirvo tudo na travessa da canção retemperada
com meu coração cortado em fatias pequenas
Acompanhado de um bom poema

As vezes penso que sou só uma criança
Perdida na cidade -edifício de mil andares
onde há monitores de pátio-policiais
Admiro como o Sistema é perfeito
Não á brecha na troca de guardas
Cada um carrega no nome o seu crachá
me escondo atrás da cortina, no 5º andar
outras crianças virão,enfim, para me enturmar
As cameras não podem me captar, mas sem meu número-senha
para poder pegar a merenda,e agora?
É hora do recreio que já vai acabar
(porque é tão pouco o tempo?)??

Ás vezes penso que vale a pena tentar
E que paixão que destrói e maltrata
servirá para fazer poesia (ou conhecer novos bares)
onde encontrarei outros heróis entre as garrafas
empoeiradas - tudo o mais seria derrisão
Onde se esconde o amor,menino tímido
que percebe que este assunto
não é para a sua idade?
Você tem mesmo para onde voltar?
Por onde se perdeu o seu jardim secreto?
Do que ele foi feito?

Um dia eu tive a certeza de que nunca mais seria perfeito...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eclipse Total 15/06


Fascínio&Perigo
Se o perdão é um risco
O pecado será abrigo...

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Além do lago.

Riscando o céu
Na superfície do lago
Atiro longe a pérola
E o que for sapo, pula fora,
Salta por pouco,
E porco não sabe nadar!
De fato só o que
transcende
o saudoso dito popular
Será por assim dizer eterno

Se eternizara.

Eu poderia tecer um novo
Livro de Profecias
só com o que não quero lembrar.
O ladrar dos cães que me atiçavam
contra o muro


Susurros através dos espelhos
Frases feitas à me ver
estilhaçar.
Perseguir a perfeita simetria,
afazia
por ser e estar logo atrás
Síntese transluzidía
agonia
Entre o dominio e o impulso
Sentir o pulso do quasar.

Ouço passos no escuro
talvez seja o destino,que quer me encontrar
deslizo na ponta dos pés, ao centro do lago
Silêncio! Quero ouvir a música que vai tocar...





quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Monte de Vênus é perto do Mundo da Lua
Você gravita por ele
Enquanto minha mente flutua.”

Paula Taitelbaum.
                                             Alexandre Cabanel_tela em óleo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Amor por Adoção - A História de Um Coelhinho (baseada em fatos reais)



      Meu nome é Bubbles, e com apenas um mês de idade posso dizer, sem titubear, que passei pelo pior momento de minha vida. A morte de minha mãe.Como diria o poeta, mãe não deveria morrer nunca, mas a minha se foi quando eu estava completando sete dias de existência.Meus irmãos já haviam perecido da mesma doença, pois ela já estava muito enfraquecida para cuidar de todos. Eu os vi sendo levados pela mão dos humanos e desaparecerem. Tive medo, mas não por que pudesse acontecer comigo. Pensava nela o tempo todo, e nesse pensamento havia sim algo de egoísta. Como sobreviver sem ela? Era como se eu já soubesse de alguma forma que minha mãe também partiria. Assim, em seu último dia de vida, estavamos só eu e ela na caixinha que nos servia de abrigo.Me lembrarei para sempre como a noite parecia fria e escura, e de como eu sofria com calafrios constantes enquanto ela sunsurrava, meio dormindo:
-"Mammaaaaa..."
Não! Não sei se estou pronto ainda. Deixem-me lhes contar do que mais quero ter na memória. Quero lembrar para sempre dela no primeiro dia em que a conheci. Para mim, ela era o ser mais lindo que havia para ser visto.E quando ela dizia - "O jardim lá fora é tão bonito"- eu não contestava, mas pensava comigo: "Não pode ser melhor que você, nem mais belo". Seu pêlo brilhante e macio era de um cinza muito intenso, como o céu do dia em que nasci. Tinha também uma voz bem fininha e tilintante como um sino (eu só vim a saber o que era um sino alguns dias depois) que ecoava dentro da minha mente com muita força,ainda que, de outro modo, muito suave mesmo. A primeira coisa que ouvi quando emergi de sua barriga para a Luz - No-Mundo foi:- "Bem vindo, esta é a vida!" Ela rompeu com seus proprios dentes o invólucro que me protegia, e então a primeira coisa que vi foi seu sorriso imenso. Em seguida, me lambeu e eu fui ficando bem limpinho e quentinho, o que me trouxe aquele tipo de sentimento que se tem de que esta tudo bem, tudo no seu lugar. Talvez seja a Paz. Para mim, que vinha da Escuridão e passei pela Dor, a sensação foi de alívio. Quanto carinho!
E que diferença de seu último momento, este que recordo agora com tristeza!
Ela queria que eu me alimentasse o máximo possível, não parava de me pedir isso. Eu mamava.Mesmo quando seu leite parecia estar cada vez mais frio. Com o passar das horas, parecia que ao fundo de cada mamada, eu sentia um travo amargo. Seu corpo, tão imenso, também perdia em força e calor. Seu pêlo estava desbotado e sem vida. Seus olhos-quando os abria- pareciam também sem brilho, perdidos em algum lugar distante. Eu sentia que a amamentação iria exaurí-la. E parava. Dizia que estava "cheio". Que não queria mais. Lambia e mordiscava, para fingir que continuava mamando,sorria com afetação, tentava preservar-lhe distraindo-a. Era inútil. Ela exigia. -"Beba um pouco mais..."
De repente pareceu despertar. Foi algo assim, repentino, levantando a cabeça e arregalando os olhinhos castanhos (como os meus) exatamente do mesmo modo que fazia quando ouvia um trovão e, mesmo assustada, tentava acalmar a mim e á meus dois irmãos: "-Não tenham medo,estamos em abrigo..." Mas seu coraçãozinho batia tão rápido quanto o nosso. Não esquecia de completar "-...há um mundo fora desta casa, deste teto,muito lindo e cheio de coisas saborosas que vocês em breve vão querer experimentar. Mas quando estiverem lá, saibam, ao ouvir este barulho, que é a hora de correr para qualquer lugar onde o céu se esconda." Isto é, um teto.
Mas naquele dia eu não ouvi nenhum trovão. Seu terror parecia algo maior embora seu coraçãozinho batesse tão fraco. Ela disse:
-"Preste atenção e repita muitas vezes para você mesmo o que eu vou lhe dizer, palavra por palavra. Amanhã estarás só. Você não poderá me ver nunca mais. Mas quando você falar com o coração, eu poderei escutá-lo. Eu nunca lhe falei da Grande Coelha, a Mãe que criou tudo o que existe.  A injustiça e a violência não foram criados por ela e a enojam. Eu tinha mesmo muito para lhe contar..."
-"Outra hora mãe, estas tão fraca!" E ela sorriu, para me acalmar. Confesso. Quando lembro deste sorriso, dói muito e eu me odeio! Penso em tudo que eu poderia ter feito. E também, no que deveria ter me recusado a fazer. Tudo o que faria com que ela estivesse aqui hoje. Mas ela foi mais forte - em sua imensa fragilidade - e seguiu falando sem minha permissão e sem que eu pudesse interromper.
-"Você ficará bem, a Grande Coelha diz isso. Não conhecerá as histórias que todos os coelhos conhecem, ganhará novos irmãos, muito diferentes de você, passará por uma experiência que até de mim é desconhecida. Entre todos nós, coelhos, você será sempre diferente, pois vai passar por uma aventura que poucos de nós viveram. Mas terá que ser forte, muito forte para enfrentar o Terror que há de vir muito em breve. Não fuja! E não lute! Mesmo que sinta que vai morrer, fique bem quietinho e fale comigo com o coração, estarei ao seu lado e te darei todo o apoio. Filho, eu estou partindo...prometa que vai aceitar...a grande aventura...o amor..."
-"Mamãe..."
     Tentei gritar para chamar os humanos, que talvez pudessem fazer alguma coisa, mas eles não vieram. Eles não são como nós, minha mãe já havia me dito. Ouvem os gritos em nossa garganta, isso era certo. Mas esses gritos nada significam. Eles não ouvem as palavras de nosso coração, nem mesmo quando estamos em desespero. Guinchei para a escuridão, mas de repente tive medo. Estava muito quieto. Silêncioso. Na verdade, minha mãe já devia estar morta. Mas eu quis me enganar, pensando que estava só dormindo. Seu corpo estava quente ainda, eu me aninhei e tentei imaginar que meu corpo projetava calor - como o Grande Coelho, que é também o Sol-  e que ela se beneficiava e isto fazia com que a sua saúde voltasse.  Naquela noite, sonhei com isso e sinto que de algum modo era verdade. Eu e ela, no centro da grande Estrela -do -Dia, e que, depois que escurecia, se tornava a Grande Coelha Branca, enrolada em torno de si mesma - e, também, em torno de todos os coelhos que já existiram e que virão a existir - em seu sono profundo. Ela que só aparece para nós á noite, muito alta e imensa em grandeza. E mamãe estava lá! Seu sorriso se abria na forma de um lindo jardim - que eu só viria a conhecer de fato muitos dias depois.
     No outro dia, os humanos já haviam levado minha mãe. Me tiraram da caixa e pareciam atarefados em outra peça da casa. Eu ouvia eles falando alto e, embora pudesse ouvir alguém soluçando em nítido pranto,em minha tristeza eu quis culpá-los de tudo. Afinal, eu chamei tanto! Por que não vieram? Demorei a me dar conta que também estava fora da caixa. Sozinho, numa grama lisa e amarela, que tinha o cheiro da morte. Em mim. Em todo o ar. Mas não sentia nada. Nem frio. Nem calor. No entanto, ainda me feriam as imagens que ainda restavam na memória. Eles - os humanos - alegres com nosso nascimento, traziam todos os dias cenouras e outros alimentos de que ela gostava. Prodigalizavam- lhe carinhos. Ela retribuía pensando deles só coisas boas. Enfim, toda lembrança machucava, enquanto eu ainda me perguntava: "Por que?" "Por que?".Nada. Tudo estava confuso.Nada estava certo e nem em seu lugar devido.
Foi quando a vi.
    Nós, coelhos, temos uma segunda memória que é a memória que todos os coelhos tem em comum. Desde o primeiro que pulou sobre a terra virgem, até o último que tentará cavar- sem sucesso- uma terra calcinada e dura.  Ela nos avisa das tempestades antes que o céu escureça. E também o que é bom e o que não pode ser nunca comido, por mais apetitoso que pareça. E esta memória me avisava."-Este ou esta é um tipo predador e quer sua morte, que será também seu alimento." Eu me encolhi. Mas não pulei. O medo era grande demais, pesava sobre meu corpo, travando minhas patas de todo o movimento. Fechei os olhos bem apertados enquanto ouvia o horrível ser se aproximando, e aquilo parecia durar muito tempo. Lembrei das palavras da minha mãe, e foi como se ela ainda estivesse comigo:
"-Seja forte, não tenha medo."
       Aguardei até um pouco ansioso pela dor que viria de ser devorado assim, ainda meio vivo, que é como os predadores não-humanos preferem nos devorar. E nesse momento, eu confesso que fui fraco. Pois tentei fugir. Não adiantou. Os dentes abraçaram meu pescoço e eu senti que tinha sido erguido no ar. Entretanto, não veio a dor. Ela puxou com seus dentes afiados - e eu sabia que eram afiados - exatamente da mesma forma que minha mãe, que tinha dentes tão perfeitinhos, faria! Embora ainda esperneasse e tentasse lutar com todas as minhas forças, aquilo me deixou desconcertado. Será que morrer devorado seria assim, dor sem sofrimento, uma nova Paz? Foi quando ela me falou, em uma língua diferente, mas que meu coração conseguiu traduzir:
-"Caaaalmmmma, muita calma! Você vai conhecer meus outros filhotinhos, que serão seus irmãozinhos, mas tem que ficar muito quietinho. Sabe, nós gatos temos uma outra memória..."
E parou.
-"Queridos, lhes apresento seu novo irmão-coelhinho..."
Em princípio, ninguém deu lá muita atenção. Procuravam a teta mais túrgida e macia. Quando ela  se deitou e me colocou assim, encima dela, e eu pude vê-la melhor .  Olhei bem no fundo dos olhos dela., procurando por algum sinal. "-Amor!" -Pareciam dizer: "-Inimiga!" Eu pensava. E tudo se misturava. Mas eu não me mexi, fiquei ali quietinho tentando entender onde ficava a razão entre sentimentos tão contraditórios. Ela aproveitou minha indecisão com sua esperteza felina, me lambeu e terminou por me convencer  a me aproximar dos seus filhos .No seu ronrom eu sentia seu carinho que tinha o misto de um outro sentimento. Talvez -lembrando agora- fosse um pouco de pena. Não sei dizer. Pois o que me dominou naquele momento foi algo mais forte do que eu. FOME! Não apenas de leite e calor, mas também de lambidas e irmãozinhos. Logo estava com eles, disputando um espacinho enquanto ela me supria prontamente de carinho. Reparei que quanto mais a gente mamava - eu fiquei bem embaixo de todos, para me aquecer - mais alto era seu ronrom. Outras diferenças apareceram. Sua língua era áspera, seu leite tinha um gosto diferente (e muito gostoso), e a nova familia era mais ruidosa, mas isto com o tempo passou a ser divertido para mim. Me senti algo protegido, seguro mesmo entre as feras mais carniceiras. Foi algo assim tão imenso. Tão inexplicável! Pareceu também tão natural amá-los: em primeiro lugar por retribuição e depois, por eles mesmos. Especialmente ela. Tão diferente e ao mesmo tempo, tão parecida com minha primeira mamãe. É algo que não se saberá nunca como dizer. Não há palavras. Como explicar? É como se eu conhecesse minha mãe - agora outra - pela primeira vez, só que todos os dias.

Moral da História: O nosso medo do diferente não deve nos impedir de viver a grande aventura do amor,que sempre envolve riscos, mas sempre vale á pena!



(Conto que tem por base o link acima, e que está no prelo para ser editado no livro "Fabulário)