segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

O espetáculo eterno e fascinante!


E eu queria continuar me enganando e que fosse lindo para sempre.

Quando eu era criança gostava de ir ao circo. Quero dizer, mais ou menos. Eram tantos motivos que condicionavam meus gostos que o significado de real apreço me veio tardiamente, foi algo meio pós-adolescente a pergunta: "tá, mas eu gosto disso mesmo?"
O circo era a novidade, o entusiasmo, a alegria dos parentes e o gosto pelo inusitado.E alguns pensamentos acerca daquilo que eu viria a assistir guardava comigo mesma, para não "empatar" o barato de quem revivia a infância com a desculpinha inocente de me levar. Você deve estar se perguntando: mas como alguém pode gostar "mais ou menos" de circo? Algo tão lindo, tão grandioso e ao mesmo tempo tão popular? Que pessoa mais chata, essa!

Respeitavel público, temos a honra de apresentar neste picadeiro,o cronograma de uma sensibilidade estilhaçada!

Começa o desfile de justificativas:
Eu achava o palhaço triste e deprimente. Suas piadas eram sujas e pesadas. Seus trejeitos bruscos e sua fisionomia escárninha traduzia crueldade e mesquinharia á maior parte do tempo. Mais tarde descobri que boa parte das crianças tem medo de palhaços, que até existe uma palavra para isso: "coulrofobia". Alguns arriscam perceber neste medo algo que houvesse resistido em nossa psique como instinto ao longo das eras, a memória atávica que nos remete ás origens do "clown" inocente, quando, em cultos remotos,já esquecidos e um tanto sangrentos, deidades que especulavam junto aos humanos com forças caóticas, ígneas e catárticas -Loki, o Deus Nórdico e Bacco, o greco-romano, só por exemplo- faziam "travessuras" e "brincadeirinhas" que poderiam terminar tragicamente. Mas estes - todos sabem- não trazem apenas malefícios e confusões. Trazem movimento e mudanças necessárias, desmascaram falsas estruturas, denunciam o ridículo quotidiano e a hipocrisia. Como o Bobo da Corte Medieval, outra origem remota.Será só isso mesmo? A própria etimologia da palavra palhaço denuncia preconceitos de classe da época medieval.Segundo o Wikepedia: Palhaço: termo possivelmente derivado do italiano omino di paglia, ou "homem de palha")[1] E mais abaixo: vem de pagliaccio (omino di paglia, ou "homem de palha"). Isso remonta à pessoa humilde do campo que chega à cidade grande e, muitas vezes, não consegue emprego. Isso até hoje não tem graça nenhuma. É, eu não tenho medo de palhaço mas até hoje acho seus espetáculos mais perturbadores do que propriamente divertidos, a maior parte do tempo a risada que dou é algo assim, meio condicionada, nervosa, como que para alívio da tensão.Uma espécie de "rir para não chorar"!

2º)Eu detestava os domadores de animais e torcia por eles - os animais- a maior parte do tempo.Tigres, leões e elefantes, na minha fantasia infantil, se revoltavam e esmagavam os domadores impertinentes e arrogantes.

3º)Eu sentia angústia ao ver os engulidores disso e daquilo e contorcionistas no estertor dos músculos. Pensava que, no final, aquilo devia doer á noite, quando eles fossem se deitar.

4º)Mas o que eu detestava mesmo eram "mulheres barbadas", "konga, a mulher-gorila", "homens escamados" e outros mais, atrações geralmente pertencentes á circos e parques de diversões mais modestos, e que me levavam a um sentimento de solidariedade com a gratuita humilhação alheia. Conheço o argumento contrário, e é verdadeiro dizer que desde que foram proibidos de atuar em espetáculos, ficaram sem emprego e vivenciaram uma realidade ainda mais cruel. É algo a se pensar, o que é pior: expôr para humilhar...e pagar o preço? Ou jogar para baixo do tapete para que morra em descaso e inanição? Nos dias em que escrevo, retira-se o anão (por exemplo) do circo e vê-mo-lo novamente no "Show do Ratinho" ou, ainda, em algum "reality show".

Isso me leva á segunda questão. Adianta mesmo proibir alguma coisa, aqui ou alhures? E antes que alguém venha me apedrejar com a máxima: "estou de saco cheio do politicamente correto", quero dizer que isto não é um manifesto. Estou simplesmente afirmando que não gostava de tais espetáculos e quando falo de detalhes que me desagradavam por ferirem minha sensibilidade, sei que esta última é coisa muito relativa.Comento impressões pessoais, sabendo que jamais poderíam ser universalizadas.E pelo que conheço do histórico do circo, tudo isso já foi muito mais cruel - especialmente no que tange á exposição de "criaturas bizarras".
Por outro lado,também reconheço a importância histórica e social do circo. Reconheço, inclusive, que vem funcionando como importante ferramenta de inclusão de crianças carentes, por exemplo. Pessoalmente, me lembro de gostar de muitas outras apresentações também:


1º)O mágico era um enigma fantástico, e diferente da maior parte das crianças eu não queria saber quais truques de ilusionismo eles tinham usado. Isso quebrava a "magia da coisa". E eu queria continuar me enganando e que fosse lindo para sempre.

2º)Eu adorava os trapezistas, e pensava: que delícia deve ser voar assim, em balanços e cordas suspensos no ar, dançando ao ritmo das luzes e músicas troantes e candentes. Parte de minha alma ia com ela, e mais de uma vez tive sonhos que me levavam de volta a este momento - embora eu saiba que não faz o menor sentido ter pena da contorcionista e aclamar a trapezista - a força e as dores nos tendões devem ser praticamente as mesmas, senão maiores.Você sabia que a mais perigosa das atividades na verdade é a de malabarista? Crianças nem suspeitam disto!

3º)E os meus preferidos desafiavam a morte de peito aberto e dando risada! Atiradores de facas e "O Globo da Morte" eram para mim, os espetáculos mais aguardados. Claro que residia aí algo de angustiante, ás vezes eu ficava pensando quais seriam as dificuldades daquela profissão, se eles sentiam medo, se algum deles tivesse uma "síncope" (fosse o que fosse essa palavra que poderia matar alguém de repente, dentro do meu entendimento infantil do mundo), e realmente acontecesse alguma coisa grave, que matasse ou aleijasse, por exemplo.Tudo isso antes de eles entrarem. Mas tudo dava certo, e eu os admirava com todo o meu ardor infantil sua invencível coragem frente á morte.

Isso só para citar os espetáculos mais óbvios.Mas veja bem, qual o objetivo da coisa toda? Era para ser divertido, engraçado, realizar nossas fantasias, nossa fome e sede de brilho e apoteose de luz e som após atravessar dias e dias pelas áridas dunas altas e cinzentas da rotina?Era para ser o espetáculo eterno e fascinante do ser humano na sua busca e superação dos seus limites? Vamos ao circo para ver super-humanos, e encontramos tudo o que já foi visto ao longo dos milênios, com um travo final amargo de tortura e dor? Por que voltamos, nós todos, e levamos nossas crianças?

Isso me leva a um outro assunto.

Quando eu era adolescente, gostava de ir á audiências públicas. Quero dizer...mais ou menos...

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nostalgia.




Dizem que pouco antes de morrer, cada um de nós terá uma recordação quadro-á-quadro de toda uma existência em frações de segundo. E apesar de minha prodigiosa memória canceriana- que, reconheço, trouxe-me mais mágoas e decepções do que antídoto para os ocasionais contratempos criados por memórias assim, mais "criativas" - penso que deve ser este momento algo aterrador. A imensa insignificância de cada um de nossos atos estará posta em evidência se relacionado ao tempo, esteja este tempo assim escrito, em letra minúscula, ou em letra maiúscula, Tempo (exponeciado assim á deidade e/ou categoria filosófica, ás vezes penso que tanto faz).A ignorância não é propriamente uma benção, mas um vício. Mas o esquecimento, se definido como a maravilhosa faculdade de obliterar e recriar o acontecido, este é redentor. Retirar-nos isto ás vésperas da despedida final não deve ser mais que um ato de crueldade última d'A Inevitável.
Mas sua gêmea inseparável parece ter criado um outro artifício para trazer-nos a lembrança, quadro-á-quadro, de qualquer período da existência que gostaríamos de esquecer. Este é o reencontro.
Escrevo na estação privilegiada para tais acontecimentos. O solstício de Verão, tem neste país, a marca de ser uma celebração familiar, e os índices de suicídio explodem nestes momentos, mais ainda que na lua cheia. Ratos, baratas, morcegos,cobras, formigas e "aleluias", todas as espécies se comprazem em sair de suas tocas em busca de alimento e abrigo na sua casa - no caso das "aleluias",o seu quarto vira necessariamente um refúgio de amor nos dias de chuva, mas nem sempre é você quem se diverte. A não ser que considere divertido ver "formigões de asas" esvoaçando á sua volta, como um enxame a rir-se de sua inútil atitude de tentar espantá-las. Telas. Poderíam ser a solução, mas quem suporta uma paisagem quadriculada em verde?
Se os "irracionais" querem passar as férias na sua casa, nós, bichos estranhos, saímos todos da toca e refugiamo-nos nas ruas,praças, praias e bares á lá fresca, e reencontramos velhos amigos, adversários e inimigos de outrora. E eles trazem consigo novidades e recordações. E nós os regalamos com o mesmo tipo de aperitivo. Sentimos pesar sobre nossa nuca os olhos do passado, a espreitar-nos, a medir nossas conquistas, ás vezes a diminuir nossos méritos e, em outras, a comemorar nossos planos.O que se esconde sob cada sorriso, cada abraço, cada frase de efeito assim jogada á esmo, só nós sabemos. Mas anotando cada palavra, desenhando cada gesto, medindo e pesando cada pensamento e sentimento nosso esta o implacável inquisidor que é a consciência de cada um.
O sol é como nossa consciência: na missão de tudo vivificar, é ditatorial,imperativo e implacável.Há algo de exaustívo neste exercício constante de foice e saudosismo, e há prazeres surpreendentes também. Nossos silos estão cheios, nosso apetite esgotado, e o céu se acinzenta, vergando sob o peso de nossas novas promessas.Diz o ditado: "semeadura opcional, colheita obrigatória". E o Verão é a estação da colheita.
Os Festivais de Colheita são, desde sempre, os mais animados e se você se inclui entre aqueles que tem tudo a celebrar e agradecer, eis o momento de aproveitar ao máximo. Porque é o máximo que será de nós exigido - daí esta sensação de exaustão, acrescido é claro, pelo calor do clima.
Antes de sair e convidá-lo novamente para dançar sob a doce chuva vespertina ou as apaixonadas tempestades de verão que são nossos sonhos e desejos,e que alimentarão sob a terra os próximos rumores que traremos, gostaria de deixar inscrita minha confissão, quiçá a última deste ano que se inicia: houve um certo momento em que, na varanda, meus amigos conversavam sobre Tudo e Nada, e quais seríam os rumos destes novos e antigos acontecimentos, enquanto eu me preocupava tão somente com meu jardim, regando-o com carinho enquanto relembrava dissabores e promessas, aquecida ainda por abraços e sorrisos colhidos no caminhar diário. Percebi novas flores, que nunca havia cultivado e pensei nos amigos que o acaso me trouxe e carregou num lampejo, como a memória da Morte promete fazer algum dia.E senti a maravilha e a estranheza de estar viva com dolorosa força.