segunda-feira, 30 de maio de 2011

Além do lago.

Riscando o céu
Na superfície do lago
Atiro longe a pérola
E o que for sapo, pula fora,
Salta por pouco,
E porco não sabe nadar!
De fato só o que
transcende
o saudoso dito popular
Será por assim dizer eterno

Se eternizara.

Eu poderia tecer um novo
Livro de Profecias
só com o que não quero lembrar.
O ladrar dos cães que me atiçavam
contra o muro


Susurros através dos espelhos
Frases feitas à me ver
estilhaçar.
Perseguir a perfeita simetria,
afazia
por ser e estar logo atrás
Síntese transluzidía
agonia
Entre o dominio e o impulso
Sentir o pulso do quasar.

Ouço passos no escuro
talvez seja o destino,que quer me encontrar
deslizo na ponta dos pés, ao centro do lago
Silêncio! Quero ouvir a música que vai tocar...





quinta-feira, 26 de maio de 2011

O Monte de Vênus é perto do Mundo da Lua
Você gravita por ele
Enquanto minha mente flutua.”

Paula Taitelbaum.
                                             Alexandre Cabanel_tela em óleo.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Amor por Adoção - A História de Um Coelhinho (baseada em fatos reais)



      Meu nome é Bubbles, e com apenas um mês de idade posso dizer, sem titubear, que passei pelo pior momento de minha vida. A morte de minha mãe.Como diria o poeta, mãe não deveria morrer nunca, mas a minha se foi quando eu estava completando sete dias de existência.Meus irmãos já haviam perecido da mesma doença, pois ela já estava muito enfraquecida para cuidar de todos. Eu os vi sendo levados pela mão dos humanos e desaparecerem. Tive medo, mas não por que pudesse acontecer comigo. Pensava nela o tempo todo, e nesse pensamento havia sim algo de egoísta. Como sobreviver sem ela? Era como se eu já soubesse de alguma forma que minha mãe também partiria. Assim, em seu último dia de vida, estavamos só eu e ela na caixinha que nos servia de abrigo.Me lembrarei para sempre como a noite parecia fria e escura, e de como eu sofria com calafrios constantes enquanto ela sunsurrava, meio dormindo:
-"Mammaaaaa..."
Não! Não sei se estou pronto ainda. Deixem-me lhes contar do que mais quero ter na memória. Quero lembrar para sempre dela no primeiro dia em que a conheci. Para mim, ela era o ser mais lindo que havia para ser visto.E quando ela dizia - "O jardim lá fora é tão bonito"- eu não contestava, mas pensava comigo: "Não pode ser melhor que você, nem mais belo". Seu pêlo brilhante e macio era de um cinza muito intenso, como o céu do dia em que nasci. Tinha também uma voz bem fininha e tilintante como um sino (eu só vim a saber o que era um sino alguns dias depois) que ecoava dentro da minha mente com muita força,ainda que, de outro modo, muito suave mesmo. A primeira coisa que ouvi quando emergi de sua barriga para a Luz - No-Mundo foi:- "Bem vindo, esta é a vida!" Ela rompeu com seus proprios dentes o invólucro que me protegia, e então a primeira coisa que vi foi seu sorriso imenso. Em seguida, me lambeu e eu fui ficando bem limpinho e quentinho, o que me trouxe aquele tipo de sentimento que se tem de que esta tudo bem, tudo no seu lugar. Talvez seja a Paz. Para mim, que vinha da Escuridão e passei pela Dor, a sensação foi de alívio. Quanto carinho!
E que diferença de seu último momento, este que recordo agora com tristeza!
Ela queria que eu me alimentasse o máximo possível, não parava de me pedir isso. Eu mamava.Mesmo quando seu leite parecia estar cada vez mais frio. Com o passar das horas, parecia que ao fundo de cada mamada, eu sentia um travo amargo. Seu corpo, tão imenso, também perdia em força e calor. Seu pêlo estava desbotado e sem vida. Seus olhos-quando os abria- pareciam também sem brilho, perdidos em algum lugar distante. Eu sentia que a amamentação iria exaurí-la. E parava. Dizia que estava "cheio". Que não queria mais. Lambia e mordiscava, para fingir que continuava mamando,sorria com afetação, tentava preservar-lhe distraindo-a. Era inútil. Ela exigia. -"Beba um pouco mais..."
De repente pareceu despertar. Foi algo assim, repentino, levantando a cabeça e arregalando os olhinhos castanhos (como os meus) exatamente do mesmo modo que fazia quando ouvia um trovão e, mesmo assustada, tentava acalmar a mim e á meus dois irmãos: "-Não tenham medo,estamos em abrigo..." Mas seu coraçãozinho batia tão rápido quanto o nosso. Não esquecia de completar "-...há um mundo fora desta casa, deste teto,muito lindo e cheio de coisas saborosas que vocês em breve vão querer experimentar. Mas quando estiverem lá, saibam, ao ouvir este barulho, que é a hora de correr para qualquer lugar onde o céu se esconda." Isto é, um teto.
Mas naquele dia eu não ouvi nenhum trovão. Seu terror parecia algo maior embora seu coraçãozinho batesse tão fraco. Ela disse:
-"Preste atenção e repita muitas vezes para você mesmo o que eu vou lhe dizer, palavra por palavra. Amanhã estarás só. Você não poderá me ver nunca mais. Mas quando você falar com o coração, eu poderei escutá-lo. Eu nunca lhe falei da Grande Coelha, a Mãe que criou tudo o que existe.  A injustiça e a violência não foram criados por ela e a enojam. Eu tinha mesmo muito para lhe contar..."
-"Outra hora mãe, estas tão fraca!" E ela sorriu, para me acalmar. Confesso. Quando lembro deste sorriso, dói muito e eu me odeio! Penso em tudo que eu poderia ter feito. E também, no que deveria ter me recusado a fazer. Tudo o que faria com que ela estivesse aqui hoje. Mas ela foi mais forte - em sua imensa fragilidade - e seguiu falando sem minha permissão e sem que eu pudesse interromper.
-"Você ficará bem, a Grande Coelha diz isso. Não conhecerá as histórias que todos os coelhos conhecem, ganhará novos irmãos, muito diferentes de você, passará por uma experiência que até de mim é desconhecida. Entre todos nós, coelhos, você será sempre diferente, pois vai passar por uma aventura que poucos de nós viveram. Mas terá que ser forte, muito forte para enfrentar o Terror que há de vir muito em breve. Não fuja! E não lute! Mesmo que sinta que vai morrer, fique bem quietinho e fale comigo com o coração, estarei ao seu lado e te darei todo o apoio. Filho, eu estou partindo...prometa que vai aceitar...a grande aventura...o amor..."
-"Mamãe..."
     Tentei gritar para chamar os humanos, que talvez pudessem fazer alguma coisa, mas eles não vieram. Eles não são como nós, minha mãe já havia me dito. Ouvem os gritos em nossa garganta, isso era certo. Mas esses gritos nada significam. Eles não ouvem as palavras de nosso coração, nem mesmo quando estamos em desespero. Guinchei para a escuridão, mas de repente tive medo. Estava muito quieto. Silêncioso. Na verdade, minha mãe já devia estar morta. Mas eu quis me enganar, pensando que estava só dormindo. Seu corpo estava quente ainda, eu me aninhei e tentei imaginar que meu corpo projetava calor - como o Grande Coelho, que é também o Sol-  e que ela se beneficiava e isto fazia com que a sua saúde voltasse.  Naquela noite, sonhei com isso e sinto que de algum modo era verdade. Eu e ela, no centro da grande Estrela -do -Dia, e que, depois que escurecia, se tornava a Grande Coelha Branca, enrolada em torno de si mesma - e, também, em torno de todos os coelhos que já existiram e que virão a existir - em seu sono profundo. Ela que só aparece para nós á noite, muito alta e imensa em grandeza. E mamãe estava lá! Seu sorriso se abria na forma de um lindo jardim - que eu só viria a conhecer de fato muitos dias depois.
     No outro dia, os humanos já haviam levado minha mãe. Me tiraram da caixa e pareciam atarefados em outra peça da casa. Eu ouvia eles falando alto e, embora pudesse ouvir alguém soluçando em nítido pranto,em minha tristeza eu quis culpá-los de tudo. Afinal, eu chamei tanto! Por que não vieram? Demorei a me dar conta que também estava fora da caixa. Sozinho, numa grama lisa e amarela, que tinha o cheiro da morte. Em mim. Em todo o ar. Mas não sentia nada. Nem frio. Nem calor. No entanto, ainda me feriam as imagens que ainda restavam na memória. Eles - os humanos - alegres com nosso nascimento, traziam todos os dias cenouras e outros alimentos de que ela gostava. Prodigalizavam- lhe carinhos. Ela retribuía pensando deles só coisas boas. Enfim, toda lembrança machucava, enquanto eu ainda me perguntava: "Por que?" "Por que?".Nada. Tudo estava confuso.Nada estava certo e nem em seu lugar devido.
Foi quando a vi.
    Nós, coelhos, temos uma segunda memória que é a memória que todos os coelhos tem em comum. Desde o primeiro que pulou sobre a terra virgem, até o último que tentará cavar- sem sucesso- uma terra calcinada e dura.  Ela nos avisa das tempestades antes que o céu escureça. E também o que é bom e o que não pode ser nunca comido, por mais apetitoso que pareça. E esta memória me avisava."-Este ou esta é um tipo predador e quer sua morte, que será também seu alimento." Eu me encolhi. Mas não pulei. O medo era grande demais, pesava sobre meu corpo, travando minhas patas de todo o movimento. Fechei os olhos bem apertados enquanto ouvia o horrível ser se aproximando, e aquilo parecia durar muito tempo. Lembrei das palavras da minha mãe, e foi como se ela ainda estivesse comigo:
"-Seja forte, não tenha medo."
       Aguardei até um pouco ansioso pela dor que viria de ser devorado assim, ainda meio vivo, que é como os predadores não-humanos preferem nos devorar. E nesse momento, eu confesso que fui fraco. Pois tentei fugir. Não adiantou. Os dentes abraçaram meu pescoço e eu senti que tinha sido erguido no ar. Entretanto, não veio a dor. Ela puxou com seus dentes afiados - e eu sabia que eram afiados - exatamente da mesma forma que minha mãe, que tinha dentes tão perfeitinhos, faria! Embora ainda esperneasse e tentasse lutar com todas as minhas forças, aquilo me deixou desconcertado. Será que morrer devorado seria assim, dor sem sofrimento, uma nova Paz? Foi quando ela me falou, em uma língua diferente, mas que meu coração conseguiu traduzir:
-"Caaaalmmmma, muita calma! Você vai conhecer meus outros filhotinhos, que serão seus irmãozinhos, mas tem que ficar muito quietinho. Sabe, nós gatos temos uma outra memória..."
E parou.
-"Queridos, lhes apresento seu novo irmão-coelhinho..."
Em princípio, ninguém deu lá muita atenção. Procuravam a teta mais túrgida e macia. Quando ela  se deitou e me colocou assim, encima dela, e eu pude vê-la melhor .  Olhei bem no fundo dos olhos dela., procurando por algum sinal. "-Amor!" -Pareciam dizer: "-Inimiga!" Eu pensava. E tudo se misturava. Mas eu não me mexi, fiquei ali quietinho tentando entender onde ficava a razão entre sentimentos tão contraditórios. Ela aproveitou minha indecisão com sua esperteza felina, me lambeu e terminou por me convencer  a me aproximar dos seus filhos .No seu ronrom eu sentia seu carinho que tinha o misto de um outro sentimento. Talvez -lembrando agora- fosse um pouco de pena. Não sei dizer. Pois o que me dominou naquele momento foi algo mais forte do que eu. FOME! Não apenas de leite e calor, mas também de lambidas e irmãozinhos. Logo estava com eles, disputando um espacinho enquanto ela me supria prontamente de carinho. Reparei que quanto mais a gente mamava - eu fiquei bem embaixo de todos, para me aquecer - mais alto era seu ronrom. Outras diferenças apareceram. Sua língua era áspera, seu leite tinha um gosto diferente (e muito gostoso), e a nova familia era mais ruidosa, mas isto com o tempo passou a ser divertido para mim. Me senti algo protegido, seguro mesmo entre as feras mais carniceiras. Foi algo assim tão imenso. Tão inexplicável! Pareceu também tão natural amá-los: em primeiro lugar por retribuição e depois, por eles mesmos. Especialmente ela. Tão diferente e ao mesmo tempo, tão parecida com minha primeira mamãe. É algo que não se saberá nunca como dizer. Não há palavras. Como explicar? É como se eu conhecesse minha mãe - agora outra - pela primeira vez, só que todos os dias.

Moral da História: O nosso medo do diferente não deve nos impedir de viver a grande aventura do amor,que sempre envolve riscos, mas sempre vale á pena!



(Conto que tem por base o link acima, e que está no prelo para ser editado no livro "Fabulário)

Mãe-Mar,Horizonte,Navio,Estrela.


     Houvi dizer, certa vez, que todo o homem e toda a mulher devem ter dentro de si uma Ítaca e um navio. Uma interpretação possível, entre tantas. é a de que todos nós temos que acreditar num porque partir e por quem voltar. Para a maioria das pessoas - e para os psicólogos yungianos, um tipo bem específico de pessoas que reproduzem um conjunto de crenças bastante difundido e bem aceito hoje em dia - cabe ao Pai, no mito e na vida, conferir-nos um conjunto de valores que farão valer á pena o momento da despedida.
    Em cada mulher e cada homem, quer seja correspondente de guerra ou representante de vendas, comissário de bordo, pesquisador internacional, assessor político ou representante empresarial, há um peito onde ecoa passo-a-passo a pergunta: "Estou indo bem, papai?" Em todos, homens e mulheres que, na soleira da porta, antevêem metas e tabelas enquanto recebem um beijo solene do conjugê ou um abraço do filho pequeno, ao se despedir enfim, da família, sair pela porta e dobrar a esquina para o quotidiano brutalizante e rotineiro o pensamento: "Estou indo..."
    Ítaca permanecerá. Bastião da resistência em nossa memória, esteio de nossas angústias, aguentará firme sob cerco, expoliada, vilipendiada e agredida, enolindo em seco o pranto óbvio, correndo riscos cada vez maiores, seguirá tecendo e des-tecendo suas manhas e ardis, as tramas de nosso próprio destino, enquanto aguarda pelo nosso retorno.
    E nós, filhos e filhas náufragos, seduzidos, enfeitiçados,desarmados, desamados,desalmados,vitoriosos por vezes e amaldiçoados por todas as conquistas enquanto seguimos em frente entre protestos,aplausos,vaias e melancolias várias. Entre Sila e Caríbdis precipitando-nos no abismo dos enganos, a mó que nos refaz e realimenta ano após ano, e por vezes nos faz adormecer em seu abraço de sereia. É neste momento que seu grito irrompe os céus, despertam os seus, e lá esta Ela, sempre pronta e inteira. Para nos redimir e acolher, apesar de nossas tantas traições.
    Porque o mistério da Mãe é ser ilha, mas residir no horizonte.
   Ela é única excessão á toda Lei. A própria Justiça á Mãe se curva, mas vinga-se engedrando uma nova contradição á própria regra. A História lhe dá as costas. O Homem, este assexuado anjo, vive de suas idealizações. E por isto mesmo, não haverá quem lhe desculpe os erros.
   Na maternidade gritam em demasia ou choram de menos. E á partir de então, seguem-se as renúncias e as humilhações, nas escolas, cátedras, empregos mal pagos, sonhos abandonados revisitados em seu avesso no semblante da prole tão aquém de suas expectativas. Serão proscritas para sempre de uma existência livre e autônoma.Repetem para si mesmas: "nunca mais sozinha."
    Há mães que desconhecem partos, mas nenhuma desconhece a dor e nem os riscos. E nesse doar-se infindo sempre haverá algo incompreensível, mesmo para o poeta.
    Mãe, depois que morre, vira estrela. Em trânsito e distantes, suas palavras ausentes quando os céus se fazem turbulentos, brilham em toda sua luz. Fazem de nossa Ítaca o próprio céu. Elevam mais para o alto todas as bandeiras, que se inflam ao seu abraço. Tornam impossível o retorno á mesma terra

De ventania e prece!


Olhos cerrados e
a escuridão me encerra
Não ter no escudo aço
que reflita como espelho
o meu inverso,máscara
ocaso contrário
Ao meu desejo.

Todos os sons lá fora
em prontidão de
ataque - desespero.
Frágil cristal a luz
que me aquece mas eu não vejo.

Como perdi minha espada?
Brincando com minha sombra.
As lanças estão quebradas...
E o machado duplo que eu tinha
Pesava nas minhas costas
Deixei-o...acho que era...não
sei bem onde...
Acho que já não importa.
Eu rezo para o que
não consigo entender
mas de súbito vêm
e me encontra.

Mais além da prece o silêncio
E como soprasse o vento
Foi como se eu desse conta
de sacudir as árvores
para ver cair as maçãs podres,
Destroçar abrigos,
despetalar as flores
farfalhar as folhas
como saias de outro tempo
Eu quero girar
Dentro de mim, fora do eixo!
Para carregar em minhas
transparências
sementes ainda úmidas
De outras paisagens...
novos desenhos!

A oração se cala
Num verbo em suspenso
Insustentável leveza
Nem pena nem culpa
Só a dor lacera
inevitável.