sábado, 25 de junho de 2011

Memórias de uma criança de passagem.

 Foto de Andrew Miksys. "Bus Windows"

Conforme já falado, os egípcios antigos e os Baladi acreditam que nossa existência terrena no oitavo mundo (ou a primeira Terra) está intimamente associada com nosso gêmeo siamês do sexo oposto, que habita o nono mundo (também chamado de 2ª Terra/terra).(GADALLA, Moustafa. Cosmologia egípcia: o universo animado, 2001, pag.99).

       E era só entrar no ônibus, arrumar a poltrona, ajeitar-me do modo mais confortável possível, arrumando espaço para minhas bolachas recheadas, saladinhos, livros e revistinhas em quadrinhos (sempre) e acomodar-me da melhor maneira possível, entre a excitação e o temor de saber que, por breve espaço de tempo, estaria por minha conta e risco. Engolir o espanto na velha surpresa das lágrimas represadas de minha tia, meu tio ou minha avó.Suspirar inquieta pelo silêncio que desejava e não desejava. A viagem levaria doze horas, mas eu era muito menor naquele tempo e, por isto, as poltronas pareciam menos incômodas.

    Ano após ano as mesmas repetições: conferir pela enésima vez a autorização judicial para menores em trânsito, passar ao motorista dados fundamentais e telefones de emergência,ouvir a velha recomendação de "não falar com estranhos"com o assentimento cansado de quem não conseguiria cumprir a promessa.Quem não ia querer conversar com uma criança de sete, oito, nove, dez,onze anos...que viajava sozinha? De certo modo, isto era bom. Desfilaram, na poltrona ao lado, inúmeras pessoas que para mim eram personagens: o velho boaiadeiro do Mato Grosso, o jovem estudante uruguaio que havia deixado Montevidéu para estudar mas que, sem a familia saber, fazia malabarismo no sinal com malabares em chamas; a moça que tentava nova sorte em uma cidade mais bela e promissora como garçonete e que queria ser modelo (quase um clichê); o anarquista paulista que falava da minha cidade como quem fala de outro planeta; a senhora que tinha muitos cães contava suas proezas como quem fala de pessoas. Conversavam sobre muitas coisas: de suas vidas, seus sonhos, suas expectativas na partida e na chegada, prodigalizavam conselhos - afinal, era eu a criança - reinventavam suas próprias histórias de vida para lhes dar a aparência de um conto das Mil e uma Noites, que nunca teria fim, pois logo desembarcaríamos. Falavam como se estivessem sozinhas, e eu colhia as flores de suas intimidades com o desinteresse próprio das crianças, não interessando que formato tivessem, que aroma exalassem. Um confessionário que fosse um caleidoscópio gigante de paisagens e pessoas diferentes, anônimas, que muito dificilmente se reencontrariam. Meu trajeto, ano há ano, era praticamente o mesmo. E nunca reencontrei nenhuma.

    Pois uma das minhas mais antigas memórias é esta. Entrar no ônibus da TTL, partida de Pelotas com destino á Florianópolis.

     Uma das ilusões que tinha era a de poder reter na memória as paisagens que corriam de encontro a mim e na seqüência, me ultrapassavam. Os campos e açudes, a revoada das garças pela manhã, as montanhas- que aos poucos iam crescendo e que eu gostava de imaginar que eram outras paisagens que se entumesciam delineando seus contornos no fino tecido da terra, como fazem os corpos sob o lençol - as cidades sempre fantasmagóricas pela madrugada, as praias despertando no frescor da manhã, a placidez do gado e a verdura das pequenas plantações que iam pontilhando certo trecho do trajeto. Eu amava as barraquinhas de frutas a beira-da- estrada e  muitas vezes me perguntava como seria conviver com aquela imensidão e aquela solidão assim, quase inaudível, na ilusão enquadrada naquela janela dentro da qual eu observava o mundo. As imagens eram muito fugazes, tudo era muito rápido, e rever cada paisagem será sempre para mim um novo espanto, porque minha memória nada quiz, confundiu tudo com trapo imprestável e resto de tinta seca, insuficientes  para uma boa tela. Ao invés disto, lembro da intensidade de uma quaresmeira plantada na avenida tão cinza-concreta, dos losâgulos nas grades da janela de uma lanchonete na beira da estrada, da janela molhada de chuva que me encharcava de frustração e onde eu tentava com meus dedinhos criar desenhos e escrever o meu nome e o de minha mãe dentro de um coração,de um sorriso muito amarelado em que brilhava um dente que talvez fosse mesmo de ouro e da minha falta de coragem em perguntar. Naquela época, todas as minhas sensações tinham gosto, cheiro e sons próprios e, quando eu fechava os olhos, conseguia adivinhar-lhes as formas e até como reagiriam ao tato.

     Em todos estes anos, pouca coisa digna de nota acontece quando estou em trânsito, e talvez por isto mesmo a estrada seja para mim um tipo de refúgio. Hoje, sou um tipo de animal que só sente segurança em campo aberto, emobra saiba apreciar o lar em seu verdadeiro significado.

     Mas vamos ao acontecido!

     Eu tinha dez anos recém-feitos e era o ano de 1988, mês de julho.Estava indo ver minha mãe nas férias "curtas" em Florianópolis, e já haviam transcorrido praticamente umas quatro horas e meia de viagem, pois acabavamos de passar por Porto Alegre. Eu me lembro que ainda era início da madrugada, pois eu já havia desligado as miseráveis luzinhas que iluminavam meia página da "Bolsa Amarela" de Lygia Bojunga Nunes por consideração aos outros passageiros. Pensava na minha colega, que toda a vez que me via voltar de férias, perguntava: "viu a Mulher de Branco?" Ela deveria estar pedindo carona em estradas desertas, rótulas estranhas e curvas escuras, causando acidentes e assassinando pessoas sem deixar vestígios pessoas diversas que se tornariam objetos e instrumentos de uma mesma motivação: vingança. Nunca era lá muito claro o motivo pelo qual ela fazia isso, mas quem duvidava? Eu me frustrava, depois de tantas estradas, de nunca te-la visto!Mas a bruma fantasmal que se espraiava pelas paisagens estava bastante convidativa - pelo menos para a aparição de uma lenda urbana.Olhando pela janela não sei se adormeci. A Razão diz que sim, com absoluta certeza. Mas...

   Lembro-me perfeitamente do momento em que o ônibus parou na estrada. Parecia-se com o momento da troca de motorista ou, ainda, o desembarque de algum motorista que tivesse pego uma carona até aquele trecho da estrada, precisamente entre nada e lugar nenhum. Talvez algum novo passageiro que fosse "roubar" minha poltrona vazia, ao lado, onde eu deixara minha mochila e travesseiro extra, além do cobertor. Esperei que se abrisse a porta para tirar tudo rapidamente. Nada. Então voltei a olhar pela janela em busca de novas paisagens, da Mulher de Branco, de algo que fosse enfim belo e estranho como tudo o que habita  á noite. Foi quando uma soou ao meu lado uma voz muito grave e baixa:

-Você poderia retirar suas coisas para que eu possa me sentar?

    Estranhei. O tipo de flexão verbal. Eu falava assim. Mas só conheci advogados e professores de português com tanta formalidade em momentos tão informais.

-Claro! - respondi, muito rápida. E pensei: "como ele entrou?"

   Ao contrário de todas as outras vezes, ficou em mim aquela vontade doida de puxar assunto, mas não queria arriscar. Eu havia acabado de completar os dez anos, o que iria dizer para a mãe? Ele era um HOMEM, MAIS VELHO E SOZINHO, um predador nato segundo minha familia. Me encolhi e observei. Eu era, naquele momento, um tipo de presa tão curiosa quanto esquiva. Por outro lado, dentro de toda a menina há uma potencial mulher que sabe aconselhar. Como se dissesse: "ora, você é uma menina viajando sozinha, não precisa se dar ao trabalho pois ele mesmo achará a situação curiosa e acabará conversando com você. E será como todos os outros, a revelar intimidades a uma criança desconhecida para passar as horas..." Então, com toda a calma - e até para conseguir mantê-la - pus-me a avalia-lo, enquanto ele arrumava uma mala no bagageiro de cima e, na seqüência, sentava-se ao meu lado: Aproximadamente 24 anos,1,85 de altura, 80 Kg aproximadamente, tez marron-negra, cabelos crespos cortados nada curtos (um black-power "domado"?), olhos grandes e expressivos escondidos em óculos um pouco estranhos encimados por sombrancelhas grossas, curtas e irregulares. Vestia-se mais como um estudante, camisa xadrez-vermelha-branca -e -preta, jaqueta de couro preta, calça jeans azul e tênis all star pretos.Perfume CKONE, meu preferido por ser o mesmo perfume que minha mãe usava quando eu tinha oito anos, mas que não conseguia encobrir completamente o cheiro de cigarro (eca!). Percebi que seus dentes, embora bonitos, eram levemente tortos e manchados de amarelo.UAU! Nem um policial faria melhor! -" E eu tenho apenas dez anos, nem minha mãe conseguiria descrever uma pessoa tão bem." Pensei, presunçosa. Foi quando ele tirou do bolso da jaqueta uns fones muito pequenininhos. Não agüentei e perguntei:

-O que é isso?

-"Foninhos" de um MP3.

-Ahn. Pensei: "ao chegar, vou perguntar para minha mãe o que é".

    Ele esticou a mão esquerda e inclinou o pulso na direção do rosto para ver o relógio, de um modo um pouco brusco. E eu vi. Um sinal de nascença de forma ovalada, com aproximadamente 3 cm exatamente igual á minha. E ainda, no anular da mão esquerda, um anel de prata em forma de escaravelho que me trazia alguma familiaridade. Esse anel não é da minha mãe? Ela nunca usou, mas acho que já vi em seu porta-jóias...Aquilo me confundiu. Filha, neta e sobrinha única, toda a minha mentalidade havia sido habilmente forjada para acreditar naquilo que me distingüia dos outros. Eu já tinha formado como que uma personalidade que tinha por princípio certo caráter de excessão. E eu nunca havia visto alguém com uma marca igual a minha. E na minha confusão, nem percebi que agora ele é quem me olhava. Disse:

-Você me lembra alguém.

-Sua irmã! Chutei, rezando que não fosse alguém falecido. Eu acreditava que lembrar alguém falecido era um mau-presságio, e na estrada isto poderia ser especialmente perigoso. Mas era mesmo uma indelicadeza dizer tal coisa. Ainda mais para alguém da minha idade pensei, severa..

-Não tenho irmãos...nem irmãs...só primos distantes.

- Como eu.

Ele pareceu retrair-se.

-Na verdade não tenho familia próxima, venho ver minha avó que mora com minha mãe duas vezes por ano, em média.

-Parecido comigo, só que moro com minha avó e vou visitar minha mãe...

- Para mim já foi assim também...

-Então você esta voltando, quando eu estou indo?

-O contrário também é verdadeiro.

E riu. Eu demorei a entender a piada, mas comecei a rir também, como que por impulso, enquanto as paisagens ficavam mais montanhosas e pareciam "correr mais rápido" pela janela.

Depois de certa pausa mais desconcertada que desconcertante, perguntamos coisas diferentes ao mesmo tempo.

-O que você esta lendo?

-O que você esta ouvindo?

Então eu lhe entreguei o livro e ele me entregou os tais "foninhos" que encaixei na orelha - um só - de modo bastante desajeitado.

-Deixa que eu ajudo.

Reconheci a voz do Renato Russo, mas não a música. Ele parecia "empacado" na primeira pagina, onde estava a dedicatória da amiga de minha mãe.Fez uma expressão estranha.

 -Em que ano estamos mesmo?

"Que burro!" -Pensei! Mas respondi com aquele tipo de condescendência que só as crianças tem na voz:

- Estamos em julho de 1988.

-Anh.

-Já leu este livro?

-Já.

    Eu estranhei. Pensei que sua mãe ou seu pai não poderiam ter dado para ele um livro de menina. Ele sorriu, como que recordando algo, e mudou de assunto:

-Acho que você iria gostar bastante do livro É proibido miar, do Pedro Bandeira. Talvez tenha na biblioteca da sua escola.Tinha. Eu o encontrei anos depois, como que me esperando na estante. Um dos meus livros preferidos na infância foi uma feliz recomendação.

     Depois disto guardou-se em silêncio. Um silêncio constrangido. Como alguém que acabasse de ouvir: "Não, você não é Napoleão Bonaparte. Você só esta louco". Para livrar-me do constrangimento que agora parecia invadir-me também, perguntei:

- Estranho, não conheço esta letra do Legião.

-É. "Metal contra as Nuvens". Ele ainda vai lançar...

-E você já teve acesso?

- Pode-se dizer que sim...Sorriu enigmático.

Não gostava que me tratassem como criança, mesmo sendo uma. Fiquei emburrada. Ele percebeu e, tentando disfarçar que era por condescendência, forçou  um sorriso alegre. Eu não compreendi até que ele lascou uma pergunta improvisada ás pressas:

- Me empresta um dos foninhos?

 Ele não precisava pedir emprestado o que já era dele. Mas a delicadeza deu certo. Baixei a guarda e lhe entreguei.Á partir deste momento, a conversa começou a tomar um rumo meio estranho. Ele começou a contar a história de uma menininha que iria crescer, e lutar por grandes ideais, ter grandes amigos e alguns amores que ...parece que iriam ter algo importante a acrescentar á sua vida, embora mais da metade do que ele dissesse destes namoros parecesse uma grande tolice. Eu queria que a menina fosse veterinária. Que tivesse um carro conversível rosa-chiclete como a moto da Penélope Charmosa. Que viajasse o mundo cuidando de animais nos zoológicos. E que conhecesse O CARA, com quem se casaria e que seria quase que um complemento inacreditável á sua/minha própria história de vida inventada. A tudo ele assentiu sorrindo, mas de alguma forma eu sabia que ele estava mentindo. A estorinha não se desenrolava bem daquele jeito. Ele tentava o tempo todo alertar sobre coisas e pessoas dizendo que a fantasiosa heroína iria encontrar situações estas ou aquelas, e como agiria com correção e lealdade. Mas as descrevia de modo muito vago, e embora tudo parecesse muito bonito, a verdade é que eu não entendia quase nada. Parecia querer dizer para eu não ligar muito para as decepções, as traições, os problemas (especialmente os financeiros). Que tudo faria muito sentido no final. E eu queria ouvir o final da tal estória mas de verdade não consegui. Parecia não ter um na verdade. Adormeci, contra todas as recomendações, com a cabeça cheia de cachinhos e idéias confusas apoiada em seu colo, encolhida sob suaves carinhos de dedos longos e afilados nas pontas. Ele também devia ter o hábito de roer as cutículas, pois seus dedos não eram muito parelhos - novamente e exatamente como os meus. Mas pouco antes de dormir, segurei uma das mãos e virei a palma para cima:

-Vou lhe mostrar uma coisa que minha madrinha me ensinou...

     E emudeci. Meio sonolenta, acabei dizendo:

-Bem...você tem bastante vocação para a confusão, isso sim! É impulsivo, muito bravo, mas de caráter constante e leal. Terá 4 grandes amores, dois filhos e...terá que escolher entre dois destinos.

-Já me disseram isso. Pareceu sorrir mas eu não vi. A verdade é que eu queria fruir ao máximo daquele momento, pois me parecia que nunca mais voltaria a me sentir tão... protegida.

     "Sua palma...como eu!" - O ultimo pensamento que tive antes de entrar em um sonho confuso.

    E adormeci. Quando acordei o dia já estava alto. O ônibus já ia parando. E ele já não estava lá. Minha mãe me recebeu com seu grande sorriso e evidente alívio no olhar - era sempre assim. Mas eu estava pensativa. Ele não ia para Florianópolis? Pensava. Onde saltou? Como não senti ele saindo da poltrona? Só interrompi esse fluxo constante de perguntas quando minha mãe perguntou:

- Onde esta seu casaquinho vermelho? Olhei para a cintura onde obviamente não estava, e abri a mochila para procurar, embora sem esperança. Disse enfim, com calma:

- O moço deve ter levado por engano...

-Que moço?

Fiquei em silêncio. Minha mãe percebeu que algo só poderia estar errado e voltou ao ônibus para perguntar ao motorista.

-O senhor não me disse que ela viajou o tempo todo sozinha?

 -Sim...quero dizer...eu acho que sim, mas é que eu dirijo, não fiquei olhando sua filha todo o tempo! E então peguntou, desconfiado: - Por que? Aconteceu alguma coisa?

Minha mãe pareceu cair em si. Olhou para mim em busca de uma resposta. Respondi, com o máximo de serenidade possível, embora  com a cabeça imersa em dúvidas.

-Esta tudo bem, mãe. Não aconteceu...nada.

Ela me puxou. Seguiu andando com o passo duro.

-Nunca mais minta para mim!

-Não sou mentirosa!

    Ela sabia que eu não era. De verdade. E confiou no tempo, para que a história viesse á tona, senão com lógica, ao menos com inteireza. Minha mãe seguiu em frente ao longo dos anos, comigo pela mão, confiante na justeza da vida e que nada havia me acontecido de mal, afinal de contas. Mas o dia de conhecer a verdadeira história daquela viagem não chegou. A vida nunca é assim.

    O anel de escaravelho brilha na minha mão esquerda sob o teclado, enquanto escrevo este pequeno relato e me pergunto se é realmente possível que, em outro lugar, o mesmo esteja acontecendo. Um gêmeo masculino a viver a minha vida, em todos os tempos e agora mesmo, enquanto escrevo. Um rapaz estranho que um dia, confuso, conseguiu mesmo que sem querer, escapar por uma brecha e se encontrar 23 anos antes, em um improvável trecho da estrada. E se pudesse ser possível tal narrativa, será que agora mesmo ele esta feliz com as escolhas que fizemos? Em algum momento quis ser tão somente um tranquilo e reservado veterinário a viajar de zoológico em zoológico? E para onde nos conduziriam todas as escolhas que não fizemos? Uma estrela no céu parece acender-se com mais clareza ao amanhecer junto á lua cheia. Isso é o que parece, mas sabemos que não é assim. Em algum lugar entre esta estrela e a estrada - serpente devoradora de sua própria cauda - reside a verdade.

 

quarta-feira, 22 de junho de 2011

"A" Inverno.







O inverno é fêmea. Uma moça que anda pela cidade como que perdida.
Seu olhar alça a mira em pássaros e gentes, mas que quando fita a ninguém reconhece.
E segue cantando baixinho o que não se pode entender -para alguns é uma prece antiga e para outros uma invocação sem endereço.
Vestida de branco como noiva esquecida no altar, não sabe dos ventos que a seguem - tão inclementes!
E que tudo ao seu redor será assim. Mas ela ignora
Com seus pés deslcalços e gelados atravessa mares e montanhas, rios, vales, países e continentes, sem encontrar abrigo.
Pergunta, de vez em quando, bem baixinho: "tem alguém aí? "
E as mulheres lhe batem com a porta.
E as crianças lhe atiram pedrinhas.
E os animais todos, em sua presença, crispam a pele e mostram as presas, mais ferozes que de costume.
Nenhuma casa lhe dará abrigo, então ela espia pelas janelas e aproveita-se das vitrines para tentar embelezar-se.
Anda em busca de fogueiras, candeeiros e festas, rondando os braseiros e as risadas. As assembléias e as revoadas. As canções e as madrugadas.
E até aos desejos febris de tão impossíveis...ela ronda.
A ceia esta servida, em todas as casas, mas tudo será cinza em suas mãos.
Calam-se as gargalhadas em sua presença.
Por tudo isto, há dias em que se compadece de si mesma. Torna-se imensa, anfitriã e patrona!
Põe-se a girar em si mesma, gargalha e uiva como louca, parteja relâmpagos ao som dos trovões, espalha cinzas e granizo.
Toma para si seus anseios, torna-se redemoinho em exuberância cataclísmica, uma tirana esquecida em profunda aflição, relembra os nomes perdidos e realiza -se em trágica celebração.
Para enfim,desfalecer de cansaço e nostalgia. Aquieta-se.
Sumindo translúcida ,calma e liquida, desfaz-se espreguiçando-se pelo chão.
E onde ela jaz serão espalhadas as sementes de verão...

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Jardim Secreto.


As vezes penso que sei cozinhar
Refogo alho e atrasos ao trabalho,
Caneta, cadernos,cebolas e junto á prazos,
planilhas e pimentões
Sirvo tudo na travessa da canção retemperada
com meu coração cortado em fatias pequenas
Acompanhado de um bom poema

As vezes penso que sou só uma criança
Perdida na cidade -edifício de mil andares
onde há monitores de pátio-policiais
Admiro como o Sistema é perfeito
Não á brecha na troca de guardas
Cada um carrega no nome o seu crachá
me escondo atrás da cortina, no 5º andar
outras crianças virão,enfim, para me enturmar
As cameras não podem me captar, mas sem meu número-senha
para poder pegar a merenda,e agora?
É hora do recreio que já vai acabar
(porque é tão pouco o tempo?)??

Ás vezes penso que vale a pena tentar
E que paixão que destrói e maltrata
servirá para fazer poesia (ou conhecer novos bares)
onde encontrarei outros heróis entre as garrafas
empoeiradas - tudo o mais seria derrisão
Onde se esconde o amor,menino tímido
que percebe que este assunto
não é para a sua idade?
Você tem mesmo para onde voltar?
Por onde se perdeu o seu jardim secreto?
Do que ele foi feito?

Um dia eu tive a certeza de que nunca mais seria perfeito...

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Eclipse Total 15/06


Fascínio&Perigo
Se o perdão é um risco
O pecado será abrigo...