terça-feira, 27 de setembro de 2011

O beija-flor e a Centopéia Manca!



Certa vez, há muito tempo, vivia uma centopéia perneta no Jardim da Consolação. Parece que se alimentava exclusivamente de falar da vida dos outros. De sua boca jamais sairia algo que fosse útil ou relevante, ou ainda, um comentário no sentido de ajudar o próximo. Limitava-se a divulgar toda a informação que encontrava, muitas vezes distorcidos os fatos pela sua própria maledicência, comentava por comentar, enfim...tenho certeza de que o leitor ou a leitora conhece alguém assim. Mas esta centopéia parecia ter mesmo uma "regra de ouro": nunca e jamais conceder aos desafetos qualquer virtude. Assim, da formiga, ao invés de dizer "laboriosa" dizia "medíocre"; a cigarra, ao invés de "talentosa" dizia "tola" ou "fútil"; da borboleta, ao invéz de "bela" comentava "muda" ou, simplesmente "aborrecida"; e da joaninha, ao invéz de "criativa" ou mesmo "vaidosa e interessante", dizia "exibida". Pensando bem, estamos falando de uma realidade muito triste. Pois o que a centopéia tentava esconder do mundo inteiro, alardeando os defeitos e vícios alheios era simplesmente o quanto sentia-se infeliz e sozinha. Afinal, os deuses haviam lhe dado muitas pernas, mas quebrado duas, o que a tornava mais lenta,caminhando como que aos pulinhos.Sua familia morava longe e ela quase não tinha amigos- e quem poderia aturar isso por muito tempo? Ela praticamente nunca ia a lugar algum. E, talvez por isso mesmo, de todos os entes vivos que habitavam sua pequena existência, sua virulência recaía com maior fervor por sobre os seres alados. E o escolhido de hoje, no primeiro dia de sol ofertado pela Primavera, após um longo e chuvoso inverno, era o beija-flor por muitos considerado o mais belo. Por que? Para alguns, as penas multicores recendidas a cetim, e para outros era no movimento incessante que a velocidade de suas asas traduziam em um pequeno milagre: ele dançava até mesmo equilibrado no espaço. E para mim, sinceramente, a beleza do beija-flor reside justamente em descobrir a beleza das flores, nunca competindo com elas, simplesmente fechando sempre um par harmonioso. Pois seja rosa, jasmim ou amor-perfeito, ele sempre terá para cada uma uma dança única, especial. Infinita beleza, verdade e perfeição intoleráveis para a centopéia, que para cumprir seu intento, mal avistou o gordo e lustroso Besouro do Herbário - que havia acordado particularmente bem humorado e já havia decidido conversar com ela por um tempo, para exercício de caridade -  disparou um bom-dia apressado e nem lhe deu tempo de responder. Desandou a falar ininterruptamente:
-Olhe quem vem lá, de novo! Ui! De flor em flor, como sempre!Susurra suas mentiras para esta e para aquela, e com elogios melosos e adocicados convence a todas! Olha como se infla aquela Dália á sua menor aproximação! E aquela Margarida então? Só falta chorar ...hahaha Mas á mim ele não engana!  O que ele faz é bem simples: diz o que elas querem ouvir para arrancar-lhes o que tem de melhor! Não? Veja bem, então! Esta vendo? É exatamente como eu te digo!Esticou o bico e agora suga o néctar precioso de cada uma. Agora  já vai, imediatamente para outra, e recomeça tudo de novo,deixando-as, a cada dia que passa, mais tristes e vazias. E o que vai acontecer também é simples de prever; descolorir, desperfumar e fenecer, aos poucos. Ele lhes encurta a vida e vai atrás de outras, mais jovens e belas, isso sim!
Mas o besouro, que da natureza do jardim tudo sabe, redargüiu simplesmente:
"Do beija-flor se diz que é inconstante
Mas isso nunca foi bem assim
Um beija-flor ama a muitas flores
Mas sempre o mesmo jardim!"

Moral da história: A tua maior qualidade é fatalmente teu pior defeito...

(Do livro "Fabulário" de Velut Luna, ainda no prelo)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Da inconstância.


 
Num piscar de olhos
Troco as lentes
Com que vejo o mundo
vinte vezes por minuto em
150 milésimos de segundo...

É, sou mesmo inconstante
E assumo!

sábado, 24 de setembro de 2011

Quando eu te deixar...

Quando eu te deixar
Quero olhar para o teu céu sempre noturno
Para saber que no final de tudo
Tuas estrelas seguirão para sempre
Em sua viagem clara pelas estações
Incógnitas,distantes e para sempre...lá
Sucedendo-se claras, de par em par
Revezando em eras, desconhecidos os nomes
de seus deuses esquecidos a dançar em paz
Mas como não me vêem e não me alcançam
Darei-lhes as costas por não saber rezar...


Eu seguirei a pé, em direção ao mar
Quando eu te deixar...
Este teu mar alimenta vagas que se repetem
É sempre o mesmo,mudo,claro e inerte
E sua melodia, são temas que se voltam
Sobre si mesmas, maldições sem cessar
Ocultam na profundidade um teto de imãs
Que colhem os raios dos teus cataclismas
Cegas as bússolas, rasgados os mapas
Como poderia eu neles me abandonar?

Mas terei que...talvez um dia...mas hoje não...sei lá!
Eu que me aventurei por teus vale e cultivei por sobre tuas colinas
Eu que ouvi teus mistéirios em susurro, sob tuas paredes frias
E me aventurei por tuas trilhas, desvendei teus precipícios
Contemplo agora sobre eles... que caminho tomar?
Teus tesouros ocultos sob cavernas labirinticas
Prenhes de dragões e espadas luzidias...onde não poderei arriscar
Seguirei em frente, ainda que incerta
essa intenção de te abandonar

Desconheço ainda a fonte do teu veneno
A mãe do ouro que aqui reside, em algum lugar
E teus fantasmas ainda me ameaçam e chamam
"Ajude-me, ajude-me a me libertar!"

Como poderia eu te deixar?
Mas onde quer que esteja a saída
De teus caminhos torpes, tuas ventanias
Eu gritarei então, no final destes dias
Minha promessa de nunca mais voltar!

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Da terrível gravidade.

Se subir os degraus
as teclas branca-e-pretas
o muro do jardim
o pincel na palheta
Sentirá
Ao arrepio da pele
o prenúncio da queda
centrípta cripta laciva
criptografada em pedra
Girando sobre si mesma
Ao som do inefável
A Gravidade em sua plenitude
Que lhe abraça
Insuportável!