sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Sob as cinzas de um vulcão.

Eu sinto a chuva caminhar sob meus passos
Sob as cinzas do vulcão aperto o cerco
Ás ruas esquecidas do seu nome
Eu sei que posso suportar...por mais um tempo
E sei que devo resistir...só mais um pouco
Mas meu silêncio é a sombra morna de um ciclone!

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Aos meus amados cabelos em dia de chuva...



   Vaga ansiedade na escuridão, acompanhada daquela sensação de já estar atrasada. "- O despertador não tocou?" Com relutância abriu os olhos e viu que o rádio relógio assinalava em vermelho neon com exatidão cristalina: cinco horas ...ainda. Poderia ser bom. Em tese, poderia ter dormido mais meia hora, mas ouviu a sonoridade lípida da chuva insistente e fina na janela, como dedos tambolilando no vidro, suave e incessante: tum-tum-tum-TUM. E o vento sul uivando pelas frestas,estremecendo vidros,batendo a porta da cozinha em compasso acelerado - pá-pá-PÁ-pá-pá... Suspira. Abre os olhos com força, enche o pulmão com ar frio e coragem pra sair debaixo das cobertas e levanta em um pulo. Só o gato espreguiça-se manhoso e mia descontente por ter sido empurrado dos pés da cama. Automaticamente ela desce para a cozinha e serve a ração antes de preparar um sheik que será o seu café da manhã. Só esticará, ela mesma, seus ossos e articulações em frente á TV, onde a moça que traz o vídeo-aula de Yôga ordena que se espreguice antes de começar o alongamento. E é só lá pelo terceiro àssana que se parabeniza pela decisão de levantar-se da cama antes do despertador tocar, pois até então, dentro dela, parecia que tudo se encolhia, estremecia, colidia em explosão contra si mesma. Ela era a própria casa exposta em nudez contra a intempérie do vento sul. Mas agora, seu corpo parecia despertar em calor, luz radiante que como o sol levantava-se todos os dias por entre as modestos morros gêmeos-seus seios.
   A certeza de ter feito a coisa certa não era assim, inabalável. Era certo que haviam vinte minutos de adiantamento, mas a chuva trazia a promessa de extenso engarrafamento. Talvez, independente do que fizesse daqui para frente, o atraso fosse mesmo inevitável, mas decidiu apressar-se para o banho. Sacrificaria o café-da-manhã e a saúde em nome da boa aparência...mais uma vez. Corre para o banheiro, que ainda é mais frio e úmido que o resto da casa, e regula a temperatura antes de abrir a agua. Se despe apenas quando o vapor se adensa. "Agua-de-fazer-chimarrão" dizia sua mãe, e agora ela lhe escorre pelas costas queimando levemente a pele. Este banho matinal não terá nada da sensualidade morna e  prazerosa do banho noturno. É quase que automaticamente que acaricia o sabonete no rosto e o sabonete liquido dois que escorre pela esponja é esfregado com brusquidão contra a pele. Quando os dedos afundam no emaranhado da cabeleira vasta é que ela sente a enormidade da tarefa hercúlea. Tempo úmido significam mais nós que o comum. Mas o ritual segue, passo-á-passo, ainda o mesmo. Espalhar o condicionador por todo o cabelo, desligar o chuveiro - "ai-que-frio-meu-pai" - e desembaraçar os maiores nós só com os dedos, enquanto canta "Carta de amor" da Cássia Eller com a voz desafinada de frio.Faz isto para  demarcar os necessários cinco minutos, enquanto o cabelo absorve o produto. Apesar dos cuidados,alguns nós são simplesmente "irresolvíveis" e se enroscam pelos dedos, ferindo o esmalte e puxando o couro cabeludo em mini-beliscõezinhos que propiciam aquela sensação de dor-sob-controle. Ela se permite por segundos uma brincadeira de criança. Jogar os chumaços de cabelo contra as paredes criando um quadro expressionista em filamentos pretos contra o fundo de azulejo acinzentado. Pronto! Religa o chuveiro e agora, com o pente de madeira, desembaraça o restante dos cabelos. Olhando para as pontas, conclui que os cachos abundantes e negros que seguem bravios até a metade das costas ja adquiriram o formato correto. Desliga o chuveiro pensando que até que não foi tão demorado, e que ainda deve estar em tempo de chegar ao trabalho talvez com cinco minutos de folga. Apesar disso, é sem satisfação e até com violência que puxa a toalha de cima do box de vidro enquanto com a outra mão, torce o cabelo em uma única espiral para retirar o excesso de água. Enrola-o na toalha com o mesmo objetivo e passa a secar o corpo com outra toalha já previamente separada para isso, com pressa, quase que com desgosto por todos os pequenos defeitinhos que vê. Depois retorna ao cabelo. Há mais uma toalha seca, pequena, que servirá para amassar os cachos e retirar o resto de umidade possível. Depois, traça a risca no centro da cabeça -que até então mais parecia um caminho de ratos - penteia a parte de cima suavemente para não desmanchar os cachos da parte debaixo do cabelo e por fim, molda-os mecha por mecha novamente, acariciando um novo creme leave-in que promete - e cobra - uma fábula. Sorri para o espelho embaçado que não lhe devolve o sorriso. Pronto! Agora tudo será mais rápido.
   Coloca a roupa selecionada na noite anterior e que geralmente fica dobrada encima do cesto de roupa suja, onde atira o pijama.O make-up também é rigidamente automatizado por ser sempre o mesmo, e o motivo disso e que ela se maquia em semi-escuridão, com o espelho ainda meio molhado pelo vapor. Base, olhos bem marcados com lápis e delineador preto, a boca cor-de-rosa-algodão- doce-de-todo-santo-dia e o blush nas maçãs pálidas do rosto...já foram.Agora, passa o gloss rosa por cima do batom e sorri novamente, mas desta vez o espelho lhe devolve o sorriso, ainda que meio torto pela agua que lhe ainda escorre pela sua - do espelho, não dela. Une os lábios, acaricia-os um contra o outro e constata a perfeita distruibuição da tinta-sabor-anilina-de-morango. Força uma pose de fotografia e diz em voz alta, ainda com o sorriso "x" pregado á face: "-Será um dia perfeito"! Quase acredita nisso. Segue em frente. Seguir em frente é quase um mantra, que alivia como um jato d'agua a ardência dessa luz e desse calor renovados no peito á cada manhã. Agora ela já abriu a porta e sente o impacto cortante do vento frio no rosto e leves pingos da chuva que parece ter "engrossado". O vento parece desafiar: "-Prossiga se for capaz, e enfrentará minha fúria" enquanto a chuva, mais tímida, convida a voltar para casa, para baixo das cobertas, para o calor e o aconchego do lar. Ela se equilibra no primeiro dos dois degraus que levam a calçada, á rua, ao trabalho diário e pensa para si mesma, falando com o vento como quem fala com um cão feroz, baixinho, quase mentalmente: "Amiga....calma...calma...." E ele parece que responde, uivando pelas esquinas magoado, mas então soprando suave e gélido sob o seu pescoço. O cabelo não é jogado bem para trás, espalhado pelo ar com força, como era o de sua mãe- de cabelos tão lisos - antes dela nesta mesma porta, mas vai inflando devagar e sem recuar um só momento, sem espalhar-se mas de modo compacto e numa sincronia de tempo perfeita se descontados os muitos fiozinhos que lhe voam do alto da cabeça. Falta pouco afora. Os cachos tão cuidadosamente arrumados estão completamente armados, formando um perfeito ângulo de 180º, como a lona de um guarda-chuva perfeitamente esticados sob as hastes de metal. A vantagem é que ela nunca precisa de guarda-chuva. Estica agora os pés, e se deixa flutuar pela rua, carregada pelo vento com a leveza de uma folha de outono.

sábado, 15 de outubro de 2011

A lição da mamãe morcego...




Quando voltou para casa quase ao amanhecer, com as patinhas cheias de frutos, a mamãe morcego encontrou seu filhotinho muito triste.
-O que aconteceu, meu filho...
Mas ele se encolheu, com os olhinhos vermelhor cheios de dor e não quiz falar nada, porém continuou soluçando e cobriu o rosto com as asas. Foi quando ela chegou mais perto, para lhe abraçar,que percebeu q alguns machucados, pequenos é verdade, mas que percorriam por todas as duas asas. O morceguinho estremeceu, não só de tristeza, mas sabendo que sua desobediência tinha sido descoberta. A mãe, mesmo com pena, endureceu a voz:
-Você esteve lá fora, não foi?
Ele se encolheu mais, mas ela foi chegando, envolvendo-o com suas asas,acaraciciando-o e, aos poucos, convenceu-o a contar tudo.
-Sim, no cair da tarde saí da caverna,porque vi que escurecia e pensei que se não fosse longe não faria mal. Achei um ninho com filhotes de bem-te-vi em uma árvore aqui perto e quiz fazer amizade. Vi que eles estavam tentando aprender a voar e tentei ajudar, mas eles se encolheram de medo. Diziam: -"Sai! Passa daqui!Você é muito feio..." Tentei falar, convencê-los de que era amigo e acho que teria conseguido, mas daí chegaram os pais...e...e...
-E bicaram você?
-Sim, mas isso não foi o pior...
O morceguinho finalmente olhou para a mãe e o que viu nos olhos dela foi aterrorizante. A fala era macia, mas escondia uma raiva imensa, que poderia ter conseqüências graves - ele ainda não sabia para quem. Mas, sendo um morceguinho inteligente, percebeu que ele mesmo tinha provocado isso com seu relato. Tentou diminuir a gravidade do caso:
-Na verdade não foi nada...já passou...
-A verdade! - Respondeu a mãe com toda a raiva represada.
-É que...foi o que ele disse...que eu não era um pássaro e não podia me misturar com os pássaros. Que eu era um rato de asas, uma praga na terra...um ser amaldiçoado, que não é rato nem passaro e que atrai a maldição para quem me encontra. Que eu deveria conhecer meu lugar e viver afastado dos outros seres vivos. Eles me bateram na frente dos seus filhos e, enquanto fazia isso, dizia aos filhos para nunca falarem comigo, pois eu chupava sangue de animais indefesos e, quando crescesse, os devoraria vivos...é verdade, mãe? Eu sou um monstro?
-Não, é meu filho!
E explicou que eles realmente não eram passaros nem ratos, mas morcegos.Que diferente de ambos, podiam voar na mais plena escuridão, pois se localizavam pelo eco da própria voz.E, porque possuíam essa faculdade, eram, como a coruja, muito temidos e, por isso, ela pediu para que ele não fosse lá fora.Falou também que ele tinha primos que faziam isso de se alimentar de sangue e, estes mesmos, eventualmente podiam comer pássaros- mas toda a familia tem problemas, não é mesmo? Ainda assim, todos, inclusive os bebedores de sangue, eram essenciais á sobrevivência da floresta.  E, ainda muito abraçada nele, contou uma história, como sempre fazia antes de ele dormir, e  que explicava este ultimo argumento:
-Sabe, isso já aconteceu uma vez, com outro morceguinho desobediente,há muito, muito tempo atrás quando os humanos ainda não existiam.Mas o resultado foi muito pior, pois ele entrou no ninho de um condor e foi assassinado, pelos mesmos motivos que os bem-te-vis atacaram você.E a mãe ficou muito, muito triste e indignada, e foi tomar satisfação. E os pais condores, orgulhosos e cientes de que eram muito maiores e nada tinham a temer da morcega-mãe ,repetiram exatamente as barbaridades que você disse: que eramos isso e eramos aquilo e mereciamos isso e mais ainda! De tanto desgosto, ela decidiu que não podia continuar vivendo naquele lugar. A morcega convenceu então seu clã a ir embora, e á noite todos partiram em revoada. Como nossa espécie não só vê mas ouve muito bem, pôde escutar os clamores de alívio e alegria de muitos animais, inclusive de alguns que consideravam amigos. Voaram por muito tempo, até que encontraram uma outra caverna, circundada de uma floresta ainda mais exuberante que a anterior.A caverna era ampla e sob ela um lago muito azul e cristalino, onde pequenos insetos viviam voando, portanto, nunca mais faltou comida.Um lugar, enfim, onde se não eram bem vistos, pelo menos eram deixados em paz. E o tempo passou ela teve outros filhos e foi muito feliz até o final da vida, mas...
-O que aconteceu ao condor?
-Bem, um dia, um tio do morceguinho morto contou que voou até lá, pois queria comer um fruto que só nascia naquela outra floresta e descobriu que o condor e todos os seus filhotes estavam mortos...e não só. Todos os outros animais estavam mortos: todos os passaros, os peixes, as capivaras e leopardos, as garças e os jacarés, todos os macaquinhos e também...as plantas. O lugar havia virado um deserto. Então o tio-morcego, curioso por saber o que havia acontecido, voou e voou até encontrar um animal conhecido daqueles outros tempos.Acabou avistando uma velha serpente que ainda vivia ali, embaixo de uma pedra, na caça de alguns miseráveis lagartinhos. E quando o tio-morcego perguntou o que havia acontecido, onde estava a floresta e por onde andavam os animais ela respondeu:"-Não é óbvio? O que aconteceu é que vocês foram embora. No início, não aconteceu nada. Mas pouco tempo depois, as árvores, as flores e os arbustos foram morrendo, e nenhuma outra planta nascia no lugar. As poucas que nasciam já não tinham a proteção das grandes árvores e o sol as queimava e matava antes de chegarem a maturidade. No final, nem a grama crescia mais e o resto foi questão de tempo...de que os animais carnívoros grandes se alimentam? De outros animais carnívoros e herbívoros.Se todos os que comem plantas morreram primeiro, os que comem carne morreram logo depois...quando já eram bem poucos.Pois sem a floresta, nossa casa e proteção,quase nada sobrevive...
O tio morcego continuou sem entender, mas a serpente explicou: "- É que vocês, morcegos, tem uma missão muito especial.Toda a vez que saem para se alimentar de frutas, flores e grãos, espalham o precioso pólem, como as abelhas e os beija-flores fazem, mas em uma quantidade muito,muito maior...e como todos aqueles que fazem algo essencial, o fazem em silêncio e nunca contam vantagem disso, então ninguém, salvo alguns poucos animais que já haviam reparado sabiam deste fato. Por outro lado, como também se alimentam de insetos, não permitem que essas populações creçam muito á ponto de não sobrar mais nada do que for verde. Tentamos procurar vocês e chama-los de volta, e o condor morreu arrependido e queria muito o seu perdão. Pediu até que os encontrassemos mas...
-...mas nós tinhamos ido para muito longe - pensou o tio-morcego, mas não disse nada. Mudou de assunto e continuou a falar de outras coisas, mais agradáveis como, por exemplo, o novo lar que seu clã havia encontrado. Por fim, convidou a serpente para vir morar neste novo lugar, mas ela recusou. Disse: "-eu já estou habituada, sempre vivi aqui..." O tio-morcego, sem encontrar mais argumentos, foi embora e contou para a mãe-morcega, que sentiu que,de certo modo a injustiça não só contra ela, mas contra todo o seu povo, havia sido sanada. E,no final da vida, pediu para que sempre passassemos adiante essa história, para que a gente nunca acredite quando nos dizem que nós somos feios e maus. Podemos ser considerados feios - isso é questão de gosto - mas somos essenciais na perpetuação da vida. Maldição não é nossa presença, é nossa partida...
E o morceguinho dormiu tranquilo, e acabou sonhando com um dia mágico, em que voava junto aos pássarinhos filhotes que cantavam  no anoitecer.

Moral da história: Para além das aparências, mora uma verdade simples: todos temos um papel na vida, e freqüentemente, aqueles que tem mais importância são os que menos se gabam disso.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Outra vez.


 (foto doClandestine Insurgent Rebel Clown Army- CIRCA)


Ás vezes, a sutileza do gesto
não basta
E ás vezes, a boa intenção
não conta
Outra vez, só o silêncio grita a mágoa
Quando a raiva já passou da conta.
Ás vezes em que a revolta se espalha
é sempre quando o calhorda se amedronta
Mas não adianta nada corcovear a esmo
Depois que o esperto - ou o tirano- monta
Mas quando a necessidade bate a porta
É que a amizade esquecida se encontra
E se a gente nunca sabe o valor, até que perde
Não sabe o quanto se perdeu, depois que ganha
Só sei que ás vezes, a gente nem se reconhece
mas sempre é bom, quando a injustiça afronta
Ás vezes, o tesouro está na palma
De outras, onde a vista não alcança
Outra vez, ninguém te dá o que merece
E é tanta coisa que a mais ninguém espanta...

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dia da Criança.

  Naquele tempo em que não queriamos ser amados, parecia tão mais fácil! Ao acordar ganhavamos um beijo, a mesa pronta com nosso café-com-pão, passavamos nossas manhãs com professores que tentavam destacar as nossas qualidades em detrimentos de nossas faltas e, ao voltar para casa era em múltiplos de dez que ouviamos a célebre frase:"- você é a coisa mais importante..." Todos queriam nos beijar, nos abraçar e prodigalizar carinhos, até a tia chata que nos apertava a bochecha até doer, e que mais tarde nunca mais o faria. Todos os nossos questionamentos pareciam tão interessantes e nossos comentários tão engraçados! Os animais falavam e as flores sorriam a nossa passagem.Quando adoecíamos, parecia que a familia inteira estava na beira da nossa cama. E quando nos machucavamos, podíamos gritar com vontade a nossa dor, que ainda assim, com lágrimas nos olhos, alguém nos dava um beijinho e dizia: "antes de casar sara". Quando erravamos era só pedir: "me desculpa", pois tudo estaria esquecido no momento seguinte. Um abraço no amiguinho resolveria quase tudo. Quando justificavamos nossas atitudes, todos os nossos argumentos eram avaliados com atenção. E "castigo" era uma semana no quarto repleto de brinquedos e livrinhos e "sem almoço" acabava significando um sem-número de lanchinhos contrabandeados fora de hora. 

  Naquele tempo, em que nunca precisávamos nos sentir seguros, era tão mais simples! Nos levavam e traziam pela mão da escola, ou na garupa da bicicleta, ou no carro da mamãe e do papai, ou ainda, se alugavam os serviços dos motoristas de "combis escolares" ou "mini-vans". Os professores quase tinham ataques de pânico ao nos ver encima do muro, ou de uma árvore, ou correndo atrás de uma bola no meio da rua! E brincar de rapel no sofá da sala trazia a falta de ar e frio na barriga de quem estivesse a nossa volta!"-Você ainda me mata do coração" diziam, e nós gargalhavamos de volta!  Porque ser criança é correr, pular, deslizar sobre rodas (de skate, patins,rolimã ou bicicleta) e cair aos socos e tapas com os coleguinhas eventualmente, para ouvir ralhar a coordenadora de pátio, os tios, os "dindos" e naturalmente, os pais. "-Aluno não tem querer" dizia a diretora e o professor sabido.No entanto, como queríamos tudo e conseguiamos quase sempre! Era o desejo incessante de fazer barulho e criar confusões, problemas, riscos, desafios. Quando finalmente, quando iamos dormir, alguém nos contava histórias para colorir nossos sonhos e beijava nossa testa para selar nossos olhos contra os bichos-papões, o medo do escuro e outros fantasmas inconvenientes. Sempre viria alguém - geralmente pai,mãe ou avó - nos cobrir á noite contra o frio, nos salvar dos pesadelos com um pouco de leite quente com mel e acariciar nosso cabelo.No limite, dormir na cama entre os dois pais, único refúgio certo ás assustadoras tempestades.
  É...naquele tempo era bem melhor. Ninguém se preocupava em ser feliz! É que não dava tempo para procurar pela felicidade! Pois ao levantar pela manhã abríamos os olhos e víamos tantas coisas incompreensíveis e fascinantes, que não paravamos de perguntar: por que? por que? E tudo que nos instigava, na imensidão de seu mistério, poderia ocupar-nos em horas e horas de conversas que no final se esqueciam em meio a brincadeiras, que eram o enredo mesmo de todo o mistério. E nada pode ser tão sério como uma criança brincando: são perfeitas as casinhas de faz-de-conta, as trajetórias dos carrinhos, os exércitos rigidamente posicionados, os castelinhos de areia de acabamento impecável com palito de picolé e até...escovas de dentes! E ás vezes, mergulhados no silêncio do poente, nada. Só crianças conseguem pensar em nada, adultos muito dificilmente. Como então ser feliz?  Já não bastavam as horas rindo convulsivamente de algo copletamente sem sentido? E a dor, tão apaixonada e tão intensa, que sumia no momento seguinte como os chocolates ganhos na Páscoa? E os pequenos dramas quotidianos na escola, variações incessantes do mesmo tema com encerramento quase idêntico, despedida e promessa de se ver de novo, de se estar junto para sempre...É, a dor pode ser grande quando a gente é criança, a decepção amarga,a saudade apertada, a perda inconsolável porque amor de criança é sempre profundo! Mas em compensação o desânimo e a desesperança são tão raros que, numa criança, logo são vistos como sintomas graves de algo muito errado que não poderia estar acontecendo. Ser criança é ser sempre entusiasmo e maravilhamento! É, naquele tempo ninguém procurava ser feliz...por que será?
  Eu sei que infelizmente nem tudo foi bem assim para todas as crianças no mundo.E que para muitas, houve frio, fome,desamor e desespero. Acho que foi porquê um dia a criança teve de morrer no adulto. Com isso,alguma coisa que se perdeu no meio do caminho inventou de decidir que o mundo pertencia apenas aos que envelheceram. E para estes o tempo passou, a criança morreu e o adultescer mesmo não veio. É que maturidade mesmo é outra coisa. Para ser realmente adulto, há que lutar muito para conquistar o amor,a segurança, a brincadeira, o desafio, o riso e a felicidade até que um dia, quando menos esperamos, a criança que parecia morta, estica os braços, esfrega os olhos e renasce dentro de nós. E talvez chegue o dia em que possamos resgatar a infância de todas as crianças, para aquilo que lhes é natural.