Vaga ansiedade na escuridão, acompanhada daquela sensação de já estar atrasada. "- O despertador não tocou?" Com relutância abriu os olhos e viu que o rádio relógio assinalava em vermelho neon com exatidão cristalina: cinco horas ...ainda. Poderia ser bom. Em tese, poderia ter dormido mais meia hora, mas ouviu a sonoridade lípida da chuva insistente e fina na janela, como dedos tambolilando no vidro, suave e incessante: tum-tum-tum-TUM. E o vento sul uivando pelas frestas,estremecendo vidros,batendo a porta da cozinha em compasso acelerado - pá-pá-PÁ-pá-pá... Suspira. Abre os olhos com força, enche o pulmão com ar frio e coragem pra sair debaixo das cobertas e levanta em um pulo. Só o gato espreguiça-se manhoso e mia descontente por ter sido empurrado dos pés da cama. Automaticamente ela desce para a cozinha e serve a ração antes de preparar um sheik que será o seu café da manhã. Só esticará, ela mesma, seus ossos e articulações em frente á TV, onde a moça que traz o vídeo-aula de Yôga ordena que se espreguice antes de começar o alongamento. E é só lá pelo terceiro àssana que se parabeniza pela decisão de levantar-se da cama antes do despertador tocar, pois até então, dentro dela, parecia que tudo se encolhia, estremecia, colidia em explosão contra si mesma. Ela era a própria casa exposta em nudez contra a intempérie do vento sul. Mas agora, seu corpo parecia despertar em calor, luz radiante que como o sol levantava-se todos os dias por entre as modestos morros gêmeos-seus seios.
A certeza de ter feito a coisa certa não era assim, inabalável. Era certo que haviam vinte minutos de adiantamento, mas a chuva trazia a promessa de extenso engarrafamento. Talvez, independente do que fizesse daqui para frente, o atraso fosse mesmo inevitável, mas decidiu apressar-se para o banho. Sacrificaria o café-da-manhã e a saúde em nome da boa aparência...mais uma vez. Corre para o banheiro, que ainda é mais frio e úmido que o resto da casa, e regula a temperatura antes de abrir a agua. Se despe apenas quando o vapor se adensa. "Agua-de-fazer-chimarrão" dizia sua mãe, e agora ela lhe escorre pelas costas queimando levemente a pele. Este banho matinal não terá nada da sensualidade morna e prazerosa do banho noturno. É quase que automaticamente que acaricia o sabonete no rosto e o sabonete liquido dois que escorre pela esponja é esfregado com brusquidão contra a pele. Quando os dedos afundam no emaranhado da cabeleira vasta é que ela sente a enormidade da tarefa hercúlea. Tempo úmido significam mais nós que o comum. Mas o ritual segue, passo-á-passo, ainda o mesmo. Espalhar o condicionador por todo o cabelo, desligar o chuveiro - "ai-que-frio-meu-pai" - e desembaraçar os maiores nós só com os dedos, enquanto canta "Carta de amor" da Cássia Eller com a voz desafinada de frio.Faz isto para demarcar os necessários cinco minutos, enquanto o cabelo absorve o produto. Apesar dos cuidados,alguns nós são simplesmente "irresolvíveis" e se enroscam pelos dedos, ferindo o esmalte e puxando o couro cabeludo em mini-beliscõezinhos que propiciam aquela sensação de dor-sob-controle. Ela se permite por segundos uma brincadeira de criança. Jogar os chumaços de cabelo contra as paredes criando um quadro expressionista em filamentos pretos contra o fundo de azulejo acinzentado. Pronto! Religa o chuveiro e agora, com o pente de madeira, desembaraça o restante dos cabelos. Olhando para as pontas, conclui que os cachos abundantes e negros que seguem bravios até a metade das costas ja adquiriram o formato correto. Desliga o chuveiro pensando que até que não foi tão demorado, e que ainda deve estar em tempo de chegar ao trabalho talvez com cinco minutos de folga. Apesar disso, é sem satisfação e até com violência que puxa a toalha de cima do box de vidro enquanto com a outra mão, torce o cabelo em uma única espiral para retirar o excesso de água. Enrola-o na toalha com o mesmo objetivo e passa a secar o corpo com outra toalha já previamente separada para isso, com pressa, quase que com desgosto por todos os pequenos defeitinhos que vê. Depois retorna ao cabelo. Há mais uma toalha seca, pequena, que servirá para amassar os cachos e retirar o resto de umidade possível. Depois, traça a risca no centro da cabeça -que até então mais parecia um caminho de ratos - penteia a parte de cima suavemente para não desmanchar os cachos da parte debaixo do cabelo e por fim, molda-os mecha por mecha novamente, acariciando um novo creme leave-in que promete - e cobra - uma fábula. Sorri para o espelho embaçado que não lhe devolve o sorriso. Pronto! Agora tudo será mais rápido.
Coloca a roupa selecionada na noite anterior e que geralmente fica dobrada encima do cesto de roupa suja, onde atira o pijama.O make-up também é rigidamente automatizado por ser sempre o mesmo, e o motivo disso e que ela se maquia em semi-escuridão, com o espelho ainda meio molhado pelo vapor. Base, olhos bem marcados com lápis e delineador preto, a boca cor-de-rosa-algodão- doce-de-todo-santo-dia e o blush nas maçãs pálidas do rosto...já foram.Agora, passa o gloss rosa por cima do batom e sorri novamente, mas desta vez o espelho lhe devolve o sorriso, ainda que meio torto pela agua que lhe ainda escorre pela sua - do espelho, não dela. Une os lábios, acaricia-os um contra o outro e constata a perfeita distruibuição da tinta-sabor-anilina-de-morango. Força uma pose de fotografia e diz em voz alta, ainda com o sorriso "x" pregado á face: "-Será um dia perfeito"! Quase acredita nisso. Segue em frente. Seguir em frente é quase um mantra, que alivia como um jato d'agua a ardência dessa luz e desse calor renovados no peito á cada manhã. Agora ela já abriu a porta e sente o impacto cortante do vento frio no rosto e leves pingos da chuva que parece ter "engrossado". O vento parece desafiar: "-Prossiga se for capaz, e enfrentará minha fúria" enquanto a chuva, mais tímida, convida a voltar para casa, para baixo das cobertas, para o calor e o aconchego do lar. Ela se equilibra no primeiro dos dois degraus que levam a calçada, á rua, ao trabalho diário e pensa para si mesma, falando com o vento como quem fala com um cão feroz, baixinho, quase mentalmente: "Amiga....calma...calma...." E ele parece que responde, uivando pelas esquinas magoado, mas então soprando suave e gélido sob o seu pescoço. O cabelo não é jogado bem para trás, espalhado pelo ar com força, como era o de sua mãe- de cabelos tão lisos - antes dela nesta mesma porta, mas vai inflando devagar e sem recuar um só momento, sem espalhar-se mas de modo compacto e numa sincronia de tempo perfeita se descontados os muitos fiozinhos que lhe voam do alto da cabeça. Falta pouco afora. Os cachos tão cuidadosamente arrumados estão completamente armados, formando um perfeito ângulo de 180º, como a lona de um guarda-chuva perfeitamente esticados sob as hastes de metal. A vantagem é que ela nunca precisa de guarda-chuva. Estica agora os pés, e se deixa flutuar pela rua, carregada pelo vento com a leveza de uma folha de outono.
1 comentários:
Ahhh, que lindo!
Me senti por alguns momentos nestas sensações e impressões.
Escreva Ginga, escreva!
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