sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Dia da Criança.

  Naquele tempo em que não queriamos ser amados, parecia tão mais fácil! Ao acordar ganhavamos um beijo, a mesa pronta com nosso café-com-pão, passavamos nossas manhãs com professores que tentavam destacar as nossas qualidades em detrimentos de nossas faltas e, ao voltar para casa era em múltiplos de dez que ouviamos a célebre frase:"- você é a coisa mais importante..." Todos queriam nos beijar, nos abraçar e prodigalizar carinhos, até a tia chata que nos apertava a bochecha até doer, e que mais tarde nunca mais o faria. Todos os nossos questionamentos pareciam tão interessantes e nossos comentários tão engraçados! Os animais falavam e as flores sorriam a nossa passagem.Quando adoecíamos, parecia que a familia inteira estava na beira da nossa cama. E quando nos machucavamos, podíamos gritar com vontade a nossa dor, que ainda assim, com lágrimas nos olhos, alguém nos dava um beijinho e dizia: "antes de casar sara". Quando erravamos era só pedir: "me desculpa", pois tudo estaria esquecido no momento seguinte. Um abraço no amiguinho resolveria quase tudo. Quando justificavamos nossas atitudes, todos os nossos argumentos eram avaliados com atenção. E "castigo" era uma semana no quarto repleto de brinquedos e livrinhos e "sem almoço" acabava significando um sem-número de lanchinhos contrabandeados fora de hora. 

  Naquele tempo, em que nunca precisávamos nos sentir seguros, era tão mais simples! Nos levavam e traziam pela mão da escola, ou na garupa da bicicleta, ou no carro da mamãe e do papai, ou ainda, se alugavam os serviços dos motoristas de "combis escolares" ou "mini-vans". Os professores quase tinham ataques de pânico ao nos ver encima do muro, ou de uma árvore, ou correndo atrás de uma bola no meio da rua! E brincar de rapel no sofá da sala trazia a falta de ar e frio na barriga de quem estivesse a nossa volta!"-Você ainda me mata do coração" diziam, e nós gargalhavamos de volta!  Porque ser criança é correr, pular, deslizar sobre rodas (de skate, patins,rolimã ou bicicleta) e cair aos socos e tapas com os coleguinhas eventualmente, para ouvir ralhar a coordenadora de pátio, os tios, os "dindos" e naturalmente, os pais. "-Aluno não tem querer" dizia a diretora e o professor sabido.No entanto, como queríamos tudo e conseguiamos quase sempre! Era o desejo incessante de fazer barulho e criar confusões, problemas, riscos, desafios. Quando finalmente, quando iamos dormir, alguém nos contava histórias para colorir nossos sonhos e beijava nossa testa para selar nossos olhos contra os bichos-papões, o medo do escuro e outros fantasmas inconvenientes. Sempre viria alguém - geralmente pai,mãe ou avó - nos cobrir á noite contra o frio, nos salvar dos pesadelos com um pouco de leite quente com mel e acariciar nosso cabelo.No limite, dormir na cama entre os dois pais, único refúgio certo ás assustadoras tempestades.
  É...naquele tempo era bem melhor. Ninguém se preocupava em ser feliz! É que não dava tempo para procurar pela felicidade! Pois ao levantar pela manhã abríamos os olhos e víamos tantas coisas incompreensíveis e fascinantes, que não paravamos de perguntar: por que? por que? E tudo que nos instigava, na imensidão de seu mistério, poderia ocupar-nos em horas e horas de conversas que no final se esqueciam em meio a brincadeiras, que eram o enredo mesmo de todo o mistério. E nada pode ser tão sério como uma criança brincando: são perfeitas as casinhas de faz-de-conta, as trajetórias dos carrinhos, os exércitos rigidamente posicionados, os castelinhos de areia de acabamento impecável com palito de picolé e até...escovas de dentes! E ás vezes, mergulhados no silêncio do poente, nada. Só crianças conseguem pensar em nada, adultos muito dificilmente. Como então ser feliz?  Já não bastavam as horas rindo convulsivamente de algo copletamente sem sentido? E a dor, tão apaixonada e tão intensa, que sumia no momento seguinte como os chocolates ganhos na Páscoa? E os pequenos dramas quotidianos na escola, variações incessantes do mesmo tema com encerramento quase idêntico, despedida e promessa de se ver de novo, de se estar junto para sempre...É, a dor pode ser grande quando a gente é criança, a decepção amarga,a saudade apertada, a perda inconsolável porque amor de criança é sempre profundo! Mas em compensação o desânimo e a desesperança são tão raros que, numa criança, logo são vistos como sintomas graves de algo muito errado que não poderia estar acontecendo. Ser criança é ser sempre entusiasmo e maravilhamento! É, naquele tempo ninguém procurava ser feliz...por que será?
  Eu sei que infelizmente nem tudo foi bem assim para todas as crianças no mundo.E que para muitas, houve frio, fome,desamor e desespero. Acho que foi porquê um dia a criança teve de morrer no adulto. Com isso,alguma coisa que se perdeu no meio do caminho inventou de decidir que o mundo pertencia apenas aos que envelheceram. E para estes o tempo passou, a criança morreu e o adultescer mesmo não veio. É que maturidade mesmo é outra coisa. Para ser realmente adulto, há que lutar muito para conquistar o amor,a segurança, a brincadeira, o desafio, o riso e a felicidade até que um dia, quando menos esperamos, a criança que parecia morta, estica os braços, esfrega os olhos e renasce dentro de nós. E talvez chegue o dia em que possamos resgatar a infância de todas as crianças, para aquilo que lhes é natural.

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