Poesias.Memórias.Histórias.Estórias.Trechos de Diários. Eventuários de dias e noites rasgados do "torpe calendário".Segredos de um cofre fechado em uma sala lacrada. E sou eu em suspenso entre o Ser e o Nada.
sábado, 15 de outubro de 2011
A lição da mamãe morcego...
Quando voltou para casa quase ao amanhecer, com as patinhas cheias de frutos, a mamãe morcego encontrou seu filhotinho muito triste.
-O que aconteceu, meu filho...
Mas ele se encolheu, com os olhinhos vermelhor cheios de dor e não quiz falar nada, porém continuou soluçando e cobriu o rosto com as asas. Foi quando ela chegou mais perto, para lhe abraçar,que percebeu q alguns machucados, pequenos é verdade, mas que percorriam por todas as duas asas. O morceguinho estremeceu, não só de tristeza, mas sabendo que sua desobediência tinha sido descoberta. A mãe, mesmo com pena, endureceu a voz:
-Você esteve lá fora, não foi?
Ele se encolheu mais, mas ela foi chegando, envolvendo-o com suas asas,acaraciciando-o e, aos poucos, convenceu-o a contar tudo.
-Sim, no cair da tarde saí da caverna,porque vi que escurecia e pensei que se não fosse longe não faria mal. Achei um ninho com filhotes de bem-te-vi em uma árvore aqui perto e quiz fazer amizade. Vi que eles estavam tentando aprender a voar e tentei ajudar, mas eles se encolheram de medo. Diziam: -"Sai! Passa daqui!Você é muito feio..." Tentei falar, convencê-los de que era amigo e acho que teria conseguido, mas daí chegaram os pais...e...e...
-E bicaram você?
-Sim, mas isso não foi o pior...
O morceguinho finalmente olhou para a mãe e o que viu nos olhos dela foi aterrorizante. A fala era macia, mas escondia uma raiva imensa, que poderia ter conseqüências graves - ele ainda não sabia para quem. Mas, sendo um morceguinho inteligente, percebeu que ele mesmo tinha provocado isso com seu relato. Tentou diminuir a gravidade do caso:
-Na verdade não foi nada...já passou...
-A verdade! - Respondeu a mãe com toda a raiva represada.
-É que...foi o que ele disse...que eu não era um pássaro e não podia me misturar com os pássaros. Que eu era um rato de asas, uma praga na terra...um ser amaldiçoado, que não é rato nem passaro e que atrai a maldição para quem me encontra. Que eu deveria conhecer meu lugar e viver afastado dos outros seres vivos. Eles me bateram na frente dos seus filhos e, enquanto fazia isso, dizia aos filhos para nunca falarem comigo, pois eu chupava sangue de animais indefesos e, quando crescesse, os devoraria vivos...é verdade, mãe? Eu sou um monstro?
-Não, é meu filho!
E explicou que eles realmente não eram passaros nem ratos, mas morcegos.Que diferente de ambos, podiam voar na mais plena escuridão, pois se localizavam pelo eco da própria voz.E, porque possuíam essa faculdade, eram, como a coruja, muito temidos e, por isso, ela pediu para que ele não fosse lá fora.Falou também que ele tinha primos que faziam isso de se alimentar de sangue e, estes mesmos, eventualmente podiam comer pássaros- mas toda a familia tem problemas, não é mesmo? Ainda assim, todos, inclusive os bebedores de sangue, eram essenciais á sobrevivência da floresta. E, ainda muito abraçada nele, contou uma história, como sempre fazia antes de ele dormir, e que explicava este ultimo argumento:
-Sabe, isso já aconteceu uma vez, com outro morceguinho desobediente,há muito, muito tempo atrás quando os humanos ainda não existiam.Mas o resultado foi muito pior, pois ele entrou no ninho de um condor e foi assassinado, pelos mesmos motivos que os bem-te-vis atacaram você.E a mãe ficou muito, muito triste e indignada, e foi tomar satisfação. E os pais condores, orgulhosos e cientes de que eram muito maiores e nada tinham a temer da morcega-mãe ,repetiram exatamente as barbaridades que você disse: que eramos isso e eramos aquilo e mereciamos isso e mais ainda! De tanto desgosto, ela decidiu que não podia continuar vivendo naquele lugar. A morcega convenceu então seu clã a ir embora, e á noite todos partiram em revoada. Como nossa espécie não só vê mas ouve muito bem, pôde escutar os clamores de alívio e alegria de muitos animais, inclusive de alguns que consideravam amigos. Voaram por muito tempo, até que encontraram uma outra caverna, circundada de uma floresta ainda mais exuberante que a anterior.A caverna era ampla e sob ela um lago muito azul e cristalino, onde pequenos insetos viviam voando, portanto, nunca mais faltou comida.Um lugar, enfim, onde se não eram bem vistos, pelo menos eram deixados em paz. E o tempo passou ela teve outros filhos e foi muito feliz até o final da vida, mas...
-O que aconteceu ao condor?
-Bem, um dia, um tio do morceguinho morto contou que voou até lá, pois queria comer um fruto que só nascia naquela outra floresta e descobriu que o condor e todos os seus filhotes estavam mortos...e não só. Todos os outros animais estavam mortos: todos os passaros, os peixes, as capivaras e leopardos, as garças e os jacarés, todos os macaquinhos e também...as plantas. O lugar havia virado um deserto. Então o tio-morcego, curioso por saber o que havia acontecido, voou e voou até encontrar um animal conhecido daqueles outros tempos.Acabou avistando uma velha serpente que ainda vivia ali, embaixo de uma pedra, na caça de alguns miseráveis lagartinhos. E quando o tio-morcego perguntou o que havia acontecido, onde estava a floresta e por onde andavam os animais ela respondeu:"-Não é óbvio? O que aconteceu é que vocês foram embora. No início, não aconteceu nada. Mas pouco tempo depois, as árvores, as flores e os arbustos foram morrendo, e nenhuma outra planta nascia no lugar. As poucas que nasciam já não tinham a proteção das grandes árvores e o sol as queimava e matava antes de chegarem a maturidade. No final, nem a grama crescia mais e o resto foi questão de tempo...de que os animais carnívoros grandes se alimentam? De outros animais carnívoros e herbívoros.Se todos os que comem plantas morreram primeiro, os que comem carne morreram logo depois...quando já eram bem poucos.Pois sem a floresta, nossa casa e proteção,quase nada sobrevive...
O tio morcego continuou sem entender, mas a serpente explicou: "- É que vocês, morcegos, tem uma missão muito especial.Toda a vez que saem para se alimentar de frutas, flores e grãos, espalham o precioso pólem, como as abelhas e os beija-flores fazem, mas em uma quantidade muito,muito maior...e como todos aqueles que fazem algo essencial, o fazem em silêncio e nunca contam vantagem disso, então ninguém, salvo alguns poucos animais que já haviam reparado sabiam deste fato. Por outro lado, como também se alimentam de insetos, não permitem que essas populações creçam muito á ponto de não sobrar mais nada do que for verde. Tentamos procurar vocês e chama-los de volta, e o condor morreu arrependido e queria muito o seu perdão. Pediu até que os encontrassemos mas...
-...mas nós tinhamos ido para muito longe - pensou o tio-morcego, mas não disse nada. Mudou de assunto e continuou a falar de outras coisas, mais agradáveis como, por exemplo, o novo lar que seu clã havia encontrado. Por fim, convidou a serpente para vir morar neste novo lugar, mas ela recusou. Disse: "-eu já estou habituada, sempre vivi aqui..." O tio-morcego, sem encontrar mais argumentos, foi embora e contou para a mãe-morcega, que sentiu que,de certo modo a injustiça não só contra ela, mas contra todo o seu povo, havia sido sanada. E,no final da vida, pediu para que sempre passassemos adiante essa história, para que a gente nunca acredite quando nos dizem que nós somos feios e maus. Podemos ser considerados feios - isso é questão de gosto - mas somos essenciais na perpetuação da vida. Maldição não é nossa presença, é nossa partida...
E o morceguinho dormiu tranquilo, e acabou sonhando com um dia mágico, em que voava junto aos pássarinhos filhotes que cantavam no anoitecer.
Moral da história: Para além das aparências, mora uma verdade simples: todos temos um papel na vida, e freqüentemente, aqueles que tem mais importância são os que menos se gabam disso.
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