sexta-feira, 25 de novembro de 2011

A cereja do bolo.

E ainda por cima as cerejas...
Acordar sobressaltada. Sanduíche sem presunto, pois que há muito não come mais mortadela. Colesterol alto. As crianças brigam para não acordar. Ela perde a paciência e começa a gritar.Sem querer acorda o marido dois minutos antes do despertador dele tocar. Ouve o marido reclamar. Ouve um estampido e a queda de alguma coisa no segundo andar. "-O que será desta vez?". Pensa. Foi o barbeador. O jornal amassado. O café que não ficou passado á tempo. Vai direto - e sem comer de novo- para o trabalho. O beijo apressado. "-Bom trabalho ...querido...querida...bom trabalho!" Ouve as reclamações de todos - não tem presunto? - sem nada dizer. Há muito tempo. "-Não, não tem. Acabou-se. É pena." O carro está frio,custa a pegar.O menino bate na menina no banco de trás."-Querem se acalmar?" Queria cintos de segurança mais úteis, que amarrassem completamente os braços, como aquelas camisas de hospício. Sorri do próprio pensamento, mas não por muito tempo. Trânsito infernal. Chegou depois de bater o sinal. Olhar atravessado da coordenadora de ensino na escola dos filhos: "atrasada de novo?". Finge um sorriso. "Desculpe". Pensa: "ignorante!" Mas é ignorada. "Fechada" no sinal. Quase mortal. Grita pelo vidro: "panaca!" Ouve de volta: "D. Maria tá estressada?". Suspira. Pensa. Que nada! Gesticula com a mão e ...para! Engarrafamento. Liga o disc-play. "Just Another Day".Cantando alto e sonhando acordada. Novamente interrompida."Nome do filme...?"  Buzinada. Não ouve o que lhe xingam. Lembra a mãe: "não há de ser nada". Mas é.  Alguém que liga. Onde se enfiou o celular?Mas que naba! É a faxineira. Não poderá vir hoje...droga! Estacionei muito junto á calçada. Cadê "o zona azul"? Ah, que se f...! O importante é que chegou mais cedo. Começa a arrumar a loja. Tenho que dar o exemplo. Já vai começar o desfile das desanimadas. Uma a uma, todas vem chegando. Vem falando,falando,fadando...Nada com nada.Mas ela também. Não conversa com ninguém. Fica na dela. Só no serviço se mostra interessada. E de novo! Lá vem ela! Novamente desleixada. Mais um batom emprestado...e desperdiçado. Nunca irá contar - nem às amigas - que cada batom emprestado e jogado na lixeira. Gostaria de jogar na lixeira as queixas do "Geral". Que liga e fala de quedas,quedas,quedas. Reuniões. Prazos. Um boçal! Que aparece uma vez por semana. E quando aufere lucro então...nem aparece. Cabe a ela distribuir os elogios que deveriam ser dados...pela empresa. E a promessa de aumento...esqueça! E no caso das "meninas"?"-Protele". É o que lhe responde "a voz da razão". A da emoção é irônica e diz "desapareça!" Mas terá que aguentar. Faz parte. Amanhã serão outras cobranças e ela sabe que deve inovar para motivar. E  que não é de sua responsabilidade...responsabilidade...responsabilidade...Merda! Liga as pressas. Dava para buscar a Valentina no coral da escola mais tarde? Não! Puxa, porque não é mais organizada? Essa foi difíciil de engolir. Deve ser porque além de mim, organizo a sua vida e a das crianças  também, ô babaca! Não disse. Pensa.Desce para o restaurante preferido. A comida já enjoou. Sempre a mesma.  É hora da sobremesa. Cortada. A dieta, lembra? É...a tarde hoje promete ser mais longa...trovoada. As nuvens estão pesadas. Não é incrível como parece que todos desaprendem a dirigir na chuva? Aaaaaiiiiii! Não acredita! Multada! Como pagar, justo agora? As prestações...ai!As prestações. E lhe somem as idéias criativas- e não onerosas - para motivar a equipe- aquelas que pipocaram durante a tarde inteira! Mas deixa para lá! A reunião é só amanhã...Sabe que levará mais tempo para chegar em casa. Não importa. Não pode esquecer de passar no mercado e comprar a ração do cão - acabou de novo! Qual a segunda melhor marca? Não lembra. Não importa.Mas talvez ele não coma! Ora, ora...é mesmo um cão bem cheio de vontades. Então que seja. Sera esta mesma! E para a familia...para a familia...lasanha congelada. Uma vez por semana...ora, não mata! Mas é o que vê em casa que não aguenta!
Crianças grintando entusiasmadas. Gargalhadas.Enquanto as cerejas cintilam rolando como bolas de gude pelo chão da sala...

sábado, 19 de novembro de 2011

Lua minguante.





Inexorável e lenta é a dança das estrelas
Como o resguardo da semente na terra
É a procura das raízes na profunda escuridão
E o refluir da seiva na árvore que seca
Mãos que se espalmam e dedos que puxam
partejam a música no silêncio invísível
Mas só a potencialidade jamais realizada
Permanece pura,una,indivisível...
Refluir é paz! É saber-se segredo
Carícia leve das aguas na maré vazante
O corpo que envelhece e o sol que vai se pondo
Tão lindo e vibrante no azul do horizonte
Pois nada do que é hoje será como doravante
E como é bom lembrar de como era antes
Desaparecendo lentamente na espiral do tempo
Assim como tudo, e também nós mesmos 
Nos refazemos no quarto minguante...

domingo, 13 de novembro de 2011

Tédio

Vivo sob a data de dois meses passados
Os acontecimentos me agarram e me atravessam
Indiferentes,esparsos,vagos...
No tanto e quanto que não me interessam!

Sinto falta do que fui, do que não sei ou não conheço
É esse vazio tão cheio de si,de lá na ré e mimimi
E sobretudo, sinto falta de mim mesma,
Para , sei lá! Dar uma volta, desfazer uns nós
Tocar umas campainhas e sair correndo. Ao sol.
Á esmo!

Vivo hoje como no mês retrasado
Mas se isto fosse ontem, teria sido perfeito.

sábado, 12 de novembro de 2011

Nuala - Só mais uma foca...


   A primeira coisa que devemos saber sobre as focas é que elas nunca tem nome próprio. Assim, a que vamos chamar de Nuala, na verdade é da "familia" Nuala.A compreensão delas sobre isto é muito simples. A primeira Nuala existente vive agora nas vinte Nualas remanescentes. E isso é motivo de muito orgulho, já que Nuala vive em um tempo muito difícil, em que a maioria das familias desapareceram.
Nuala, diferente de outros filhotes, inclusive humanos, tem perfeita memória do tempo que passou na barriga da mamãe. Lembra de como doeu para nascer, que quase sufocou ao respirar o ar geládo do Ártico pela primeira vez, a sensação da arenosa da neve em sua pele, do gosto do leite e do sol - sim, para Nuala o sol pode ser apreendido por seus cinco sentidos, ou ainda, o sol tem gosto,cheiro,sabor,bela aparência e carícia ímpar - e, muito especialmente, do gosto do medo, que veio também com o sentido de estar sendo protegida, quando uma "sombra-vilã" apareceu em meio ao banho de sol matinal. Daquela vez, sua mãe a abraçou rapidamente com as patas dianteiras e jogou-se para agua. Papai-Nuala veio nadando logo atrás.
Nuala já conhecia o oceano, mas a alegria de sobreviver lhe fez explorar outras possibilidades em novas brincadeiras naquele dia. Uma de suas brincadeiras favoritas era soprar bolhas de ar e,depois, sair a persegui-las, como uma criança correndo atrás de bolhas de sabão. Até arriscou a afastar-se de seus pais um pouco mais.E quando a mãe-foca lhe chamou com seu canto tão ímpar e claro, tão "Nuala" de ser, ela atendeu. Subiram em um bloco de gelo á deriva, pai, mãe e filha, e ficaram ali, em silêncio, vendo a noite cair bem devagarinho e as infinitas estrelas despontarem como em nenhuma cidade humana se consegue ver mais.Foi quando, como todas os filhotes do mundo, Nuala sentiu crescer dentro de si uma pergunta, que logo imergiu quebrando o silêncio:
-Ficar no oceano é tão bom...por que não vivemos para sempre nele?
-Por que não pertencemos a ele.A natureza não nos fez peixes nem baleias. Nos fez focas, e nós temos dois mundos ao invés de um.
-Pertencemos á Terra, então?
-Também não...
-Então como...
-Escute. Você tem razão, em parte.Não pertencemos ao oceano, pelo menos não inteiramente,mas quando imergimos somos mais ágeis até mesmo que os peixes, habitantes naturais deste lugar. O oceano nos alimenta, nos faz rir, brincar, cantar e dançar, e foi para estas coisas que nós nascemos, afinal. O oceano é nosso mundo, nosso lugar especial, onde podemos ser nós mesmas,sem nunca sentir medo,dor ou cansasso.O oceano nos faz sábias, pois tudo o que precisamos saber ele nos conta. O oceano nos faz fortes, porque ele é força e nos exige que sejamos junto com ele e, logo, como ele. E nos faz lindas, pois tudo o que sente prazer e alegria é belo.No entanto, precisamos submergir sempre para respirar, e muito embora toda a foca já tenha sentido a tentação de imergir nele para sempre, só esse fato já nos diz que isso não é possivel.
-Mas...
-Mas nós também pertencemos á terra. Pertencemos á nossa familia. Aos nossos irmãos e irmãs.Na neve, nós somos desajeitadas, somos caçadas, ficamos frágeis, tudo é mais cansativo e doloroso. Mas nós voltamos sempre ao nosso lugar de origem, ao local onde nascemos, para tornarmos, umas ás outras, mais belas, mais fortes e mais sábias do que eramos no oceano. Por que o oceano nos diz quem nós somos, mas só na terra, na nossa costa natal, é que isso tem algum sentido. É na costa que nos casamos, temos nossos filhotes e voltamos para contar nossas histórias, que serão as historias de "Nuala", "TAkyr", "Ayassari", e também, a história de toda a Grande Familia Foca. Até que, em algum dia belo,se não formos caçadas ou devoradas antes, nossos corpos ficarão cansados e adormeceremos em alguma correnteza do oceano - como o fizemos tantas vezes antes-mas desta vez para não acordar mais. E o oceano, sabendo que nós não poderíamos ser inteiramente dele, nos arrastará para costa, onde o nosso corpo ficará, meio ao mar, meio em terra, exatamente como viveu.
-E aí...nós desaparecemos?
-Não. Nosso corpo permanece onde foi feliz, mas algo de nós permanece pulsante,brilha com ainda mais intensidade do que brilhava antes por trás de nossos olhos e retorna ao nosso verdadeiro lugar de pertencimento, que não é a terra, abrigo de nossas realizações, nem o oceano, abrigo de nossos sonhos.
-Onde?
Sua mãe ergueu as barbatanas e apontou para um grupo maior de estrelas, que parecia ter consigo um grande véu prateado, que recobria seu corpo imenso e meio gordinho, repleto de pontinhos luminosos. E sua mãe disse:
-Naquela correnteza nada "Nuala", agora para sempre, pois vê a si mesma em nós que conversamos sobre ela e sabe que pode ser feliz, cantar,brincar e sorrir nesse oceano mais escuro, mais doce também sem medo algum.Nós pertencemos a esta correnteza.
Nuala lembra deste diálogo agora, com sua filha em outro bloco de gelo á deriva. Hoje esta especialmente triste, pois consegue ouvir na costa a grande mortandade de suas irmãs pelo homem, que rouba parte de seus corpos antes de partir e não os devolve nem a terra, nem ao oceano. Ela se sente incerta se, incompletas assim, conseguem mesmo chegar ao "oceano de cima", mas procura acreditar que sim.Sua filha - também Nuala, como ela mesma e sua mãe antes dela e até seu pai - silencia diante desta mesma explicação, dada a tanto tempo,mas deixa escapar uma ponderação.
-Nuala sou eu na correnteza da vida...e Nuala é aquela, imersa na "correnteza de focas-estrelas-brilhantes",então...Nuala vive para sempre, em três mundos diferentes, e ao mesmo tempo!Como pode ser isso possível?
Uma estrelinha pequena parece precipitar-se do céu para terra, e Nuala sorri, meio que de susto, assim na terra como no céu.
  Moral da Historia: É preciso saber fluir entre os "dois mundos", o do interior e o do exterior para realizar-se plenamente.É importante manter o sentido de que se faz parte de uma comunidade e é com ela que evoluimos.