sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Ultimas reflexões de 2011.


O ano de 2011 esta quieto e contemplativo, no apagar das luzes, nos levando às últimas reflexões. O mundo se desdobra sobre si mesmo, cornucópia de perspectivas, reapresentando-nos fatos sobre fatos - uma tragédia, um massacre, um milagre aqui e ali, todos espalhados no chão da memória como velhas fotografias que se embaralham junto ás nossas próprias tragédias,comédias, milagres e quotidianidades.Não, isso não é a Vida vista pela TV nem imitando a Arte. É só o fim do ano, que apesar de diferir em datas, é quase sempre o mesmo em toda a parte. Nós procuramos a verdade e abraçamos a estética.
Apaga as ultimas luzes, deita-se no escuro, olha para o teto como quem não pensa em nada. Tenta invocar um demônio que dê fim a este mundo, chorar baixinho pelo que não foi, invocar uma prece ou epifania, algo de alento ou redenção  mas...nada! As cadeiras já estão encima das mesas e todos os calçados arrumados junto á soleira da porta!
Adormece neste dia 31 sabendo que no outro dia acordará totalmente renovado - como sempre!
 Vos deixo, neste apagar das luzes com a Mercedes Sosa cantando Violeta Parra, que nos traz mais motivos ainda para agradecer:
http://www.youtube.com/watch?v=WyOJ-A5iv5IVer

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Cíclico.


(Aurora Boreal, foto de Andy Keen)
O poema cristaliza
na rima
Mas se liquefaz
á temperatura do olhar
de quem com ele se depara
como num espelho
que responde apenas
para o que esta além
-muito além- de si mesmo

E por fim se desfaz
como nuvem,canção,ou prece
perfuma, encanta, ilumina
poliniza, refresca, destrói
depois passa,
trespassa
e esquece!

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Despedida



A sirene já anuncia a hora de partida
Devo - sem prazer nem pena - despedir-me
Para o abraço de quem me espera mais além...
Vou-me sem bagagem, peço-lhes um ultimo segundo
de atenção.Para este pobre inventário-pois não sei se volto-
que redigi ás pressas em forma de canção...
Por favor, amigo, em Lá maior!

Exemplo ferino
Carinho felino
Palavras macias
Para meus filhos e filhas.

Afeto e dedicação
Em partes iguais
E a certeza de que soube honrar
Meus ancestrais,
Isto é para meus pais.

E para Ele que definitivamente
ficará as sós,
deixo a luz da da chama e
e o frescor sereno do sonho
de tudo o que fomos nós.
Ficará contigo também um segredo
E o cheiro em nossa roupa de cama.
E sim, as saudades daquela
que para sempre te ama.

Deixo meus escritos, minha dança,minhas preces
E sobretudo minha sede e minhas febres
Berço de agua pura,sempiterna nascente
Tudo enfim que transbordar de meu coração
Destino ás minhas irmãs e meus irmãos.

Deixo o que for de útil para aliviar
A dor do parto de cada dia
-Seja a lembrança do riso, do carinho, da receita,
a piada suja ou uma doce ironia-
Para meu amigos sinceros até o fim de seus dias!

Para meus amigos falsos fica o meu perdão
um leve sorriso em meus lábios,
E ao menos uma boa recordação!

O mesmo para meus inimigos declarados
Para gente que me azucrina e me destesta
Não viveram de meus restos?
Fiquem pois com o que resta!

E peço aos amigos,filhas e filhos, se não for demais
Meu ultimo desejo: carinho, atenção e cuidados aos meus animais!
E neste ultimo momento, na brevidade da despedida
colham o ultimo olhar de quem lhes dedicou toda a vida!

domingo, 11 de dezembro de 2011

A Arvore da Humildade.

As mãos tímidas e finas, enlaçadas no colo de tornozelos cruzados em diagonal, faziam com que se curvassem os ombros da menina-mulher que os Deuses fizeram alta demais. Mas assim, encolhida na carteira ouvindo a professora com olhos arregalados com toda a atenção, parecia querer contrariar imposições da Natureza para ocupar o menor espaço possível e chamar o mínimo de atenção para si, ao mesmo tempo em que evitava o sono. Era compreensível.O seu curso universitário valorizava por demais a leitura e o pensamento, no entando, só encontrara três tipos de "pensadores" até então: os que flutuavam entre as nuvens, os que erguiam os punhos contra o céu e os que se encerravam em suas torres - temerosos e prepotentes. Para perceber outras nuances faltava-lhe mergulhar a fundo em livros e autores que nunca participavam de conversas e pretensões de corredor. Intuía, é claro, sua própria debilidade e por isso preferia cada vez mais a biblioteca.
Encaminhava-se para ela - a Biblioteca Universitária - fluindo triste e distraída como um filete de agua da chuva que escorria pela calçada e os olhos baixos percebiam apenas isto, quando, de súbito, desviou a cabeça da possível pancada dolorida. Porque bem na entrada daquele prédio de aéreos e esvoaçantes intelectuais, crescera uma arvore que a natureza fez grande, mas que, por outro lado, encurvara seus galhos num ângulo quase impossível  como que para desenhar com eles um pequeno portão, pelo qual só passariam incólumes as crianças. Todos os outros teriam que baixar a cabeça e olhar para o chão.Mas por outro lado, se olhassem apenas para o chão-como ela mesma estava fazendo há poucos segundos atrás- também corriam risco de bater com a cabeça. Deu dois passos para o lado e parou. Viu todos, colegas  e outros alunos, professores, pós-doutores, muitos conhecidos e temidos por sua vivacidade e eloqüência, curvarem-se, um a um para poderem passar. Afastou-se um pouco e sorriu para um cacho de flores muito brancas e miudinhas, coalhado de pequenas abelhas e aspirou o suave perfume que delas emanava. E só naquele instante pareceu compreender alguma coisa sobre o que viera de início buscar naquele prédio de letras represadas em árvores mortas.