As mãos tímidas e finas, enlaçadas no colo de tornozelos cruzados em diagonal, faziam com que se curvassem os ombros da menina-mulher que os Deuses fizeram alta demais. Mas assim, encolhida na carteira ouvindo a professora com olhos arregalados com toda a atenção, parecia querer contrariar imposições da Natureza para ocupar o menor espaço possível e chamar o mínimo de atenção para si, ao mesmo tempo em que evitava o sono. Era compreensível.O seu curso universitário valorizava por demais a leitura e o pensamento, no entando, só encontrara três tipos de "pensadores" até então: os que flutuavam entre as nuvens, os que erguiam os punhos contra o céu e os que se encerravam em suas torres - temerosos e prepotentes. Para perceber outras nuances faltava-lhe mergulhar a fundo em livros e autores que nunca participavam de conversas e pretensões de corredor. Intuía, é claro, sua própria debilidade e por isso preferia cada vez mais a biblioteca.
Encaminhava-se para ela - a Biblioteca Universitária - fluindo triste e distraída como um filete de agua da chuva que escorria pela calçada e os olhos baixos percebiam apenas isto, quando, de súbito, desviou a cabeça da possível pancada dolorida. Porque bem na entrada daquele prédio de aéreos e esvoaçantes intelectuais, crescera uma arvore que a natureza fez grande, mas que, por outro lado, encurvara seus galhos num ângulo quase impossível como que para desenhar com eles um pequeno portão, pelo qual só passariam incólumes as crianças. Todos os outros teriam que baixar a cabeça e olhar para o chão.Mas por outro lado, se olhassem apenas para o chão-como ela mesma estava fazendo há poucos segundos atrás- também corriam risco de bater com a cabeça. Deu dois passos para o lado e parou. Viu todos, colegas e outros alunos, professores, pós-doutores, muitos conhecidos e temidos por sua vivacidade e eloqüência, curvarem-se, um a um para poderem passar. Afastou-se um pouco e sorriu para um cacho de flores muito brancas e miudinhas, coalhado de pequenas abelhas e aspirou o suave perfume que delas emanava. E só naquele instante pareceu compreender alguma coisa sobre o que viera de início buscar naquele prédio de letras represadas em árvores mortas.

1 comentários:
Singelo, delicado e cheio de sentido. Nada como a experiência para justificar as toneladas de livros. Gostei!
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