sábado, 29 de dezembro de 2012

2012 - O ano em que o mundo não acabou!

Enquanto todos se preocupavam em interpretar supostas profecias e revelações do calendário maia - ou sua ausência - o exército zapatista que, com franqueza, eu não via na mídia a muito tempo, sai em passeata no mais absoluto silêncio, de rosto coberto e com uma mensagem bastante...huuummm...peculiar: "ouçam o som de seu mundo desmoronando."
Eu pensei comigo quando li a este respeito:é assim que as "profecias" se cumprem. Saltam de repente do leito morno e tranqüilo de nossa letargia para banhar-se ao sol nas margens do inusitado.Este acontecimento para mim foi sem sombra de dúvidas, o mais emblemático do ano. E talvez tenha sido assim, tão significativo, porque em meu microcosmo -o único pelo qual sou inteiramente responsável, embora não seja absolutamente culpada - um verdadeiro mundo se desmoronava,em silêncio, arrastando nesse caos zilhões de possibilidades luminescentes e recomeços.Eu fico pensando que é assim, em silêncio, que verdadeiras
metamorfoses acontecem.E que nesse big-bang o som realmente não se propaga.
Eu percebi que, em muitas dimensões acontecia o mesmo a muitos de meus amigos - embora de forma talvez não tão radicalizada. Muitos deles pareciam muito entretidos em dançar a coreografia improvisada de finalizar etapas e trazer á tona recomeços. Para alguns, saltos transcedentes, quase impossíveis,desafios tácitos ás leis da natureza. Para outros tantos, a delicadeza e a precisão técnica de uma Rachel Brice, um fluir quase murmurante em consonância com o TODO.Segredos de diamante contra a fragilidade do vidro,
assim limpo, moldando novas formas sem estilhaçar. Sim, alguns conseguem, eu mesma testemunhei isto algumas vezes.
E vocês viram que foi descoberto um planeta há mais ou menos 41 anos luz do nosso planetinha azul com a superfície coberta de grafite e diamante.Os mais ambiciosos devem ter sentido agua na boca quando disseram que que ele - duas vezes maior e oito vezes mais maciço - é feito de DIAMANTE!Mas o poeta não faz este cálculo. Pensa no grafite, que traz á luz de outros olhares o que antes era apenas um rascunho em forma de abstração, e no diamante símbolo máximo de valor e perenidade também brilhando multicor
ao redor do sol, desabrochando o que é significante em toda a sua plenitude, uma flor de sonho.Qual será seu perfume? Como a poesia que é assim só por ser, porque lhe é natural brilhar e por isso, a tudo o que
toca, confere sua luz e calor pulsantes - ora dor e ora sinal vital. Sim, eu sei que este meu pequeno jardim nada tem a dizer aos planos dos poderosos em meu mundo.E que o que acontece no meu círculo de relações não espraia nem confundirá essa enorme teia que chamamos mundo social, onde uma borboleta se agita incognoscível, e apenas por este breve instante que a nossa imaginação nomeia: eternidade.A borboleta
também nada sabe dos furacões, nada tem a dizer nos congressos de especialistas e nas poucas vezes que pede a palavra, é para relembrar-nos triste de sua própria fragilidade.
Mas ainda assim...
Eu sei que naquilo que há de mais frustrante parece que vimos tudo a se repetir: a guerra, a corrupção prenhe de doença e morte, o descaso de alguns, o desespero de tantos.E também que talvez o que eu disse não faça o menor sentido para você. Talvez este ano de 2012 tenha sido um ano absolutamente previsível em todos os seus aspectos - ou na maioria deles.E eu penso que deve ser assim mesmo.Somos todos tão diferentes, não é mesmo?
Mas enfim, deixo aqui minhas impressões digitalizadas porque esta data de nosso calendário gregoriano - e que portanto nem sequer é a única data - demarca em nossa sociedade outro divisor de águas, um momento crítico escolhido pela maioria para a reflexão e o renascimento da alegria, após o cansasso da orgia de consumo que é este Natal tão esquecido.E eu me sinto parte;Talvez tenha feito isso só para ter o gostinho de me sentir igual a todo mundo, eu que muitas vezes sou tão desigual mesmo sem querer... E porque de uma forma muito profunda e pessoal talvez estejamos em comunhão, muito além de unidos por uma época, mesma língua e costumes, na intenção clara de curar este nosso planeta ferido.Esta é enfim só mais uma aposta que faço ao Tempo,mesmo sabendo que o nome não é jogo de azar tão assim, por acaso.Convido você que teve paciência de ler-me até aqui a juntar as mãos em concha na escuridão destas mesmas aguas e tentar colher - mesmo sabendo que elas lhe escaparão das palmas em pouco tempo - esses pequenos mundos e recomeços luminescentes que restaram dos escombros e ruínas de 2012...

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Pássaros feridos







Filho,cuidado!
O sol aquece e ilumina
e pode machucar

Filho, cuidado!
A noite encanta e excita
mas nem sempre o protegerá
E o que fazer quando chegar o dia?

Filho você pode tropeçar
no desejo do outro no jogo da vida
Mas não se encolha para caber no que não lhe convém
Não se estique tanto pelo que não puder alcançar
Pois quem estica demais pode arrebentar
E quem se encolhe e se rebaixa, atrofia.

Cerre o punho para prender, e o que era vivo morre
Olhe para além da luz, e estará cego
Olhe para baixo, e sentirá o chamado do abismo...

Mas, por outro lado, como nunca saber
Dos encantos da noite se nela não me perder?
Dos amigos, se nas noites frias nunca me encolher?
Do amanhã, se junto as estrelas não dormir?
Do ardor tão silente dos pássaros feridos...
Da gravidade profunda brota a canção...teu abismo?




terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Canção da Madrugada



Há um sabor doce e suave que se insinua
sob o ferro incandescente
A adivinha é fácil, mais fácil ainda é saber
Você não vai arriscar
Eu sinto muito pela tua ausência
Mar
Em minha alma transbordante foi erguida
uma represa
Substação abandonada, giram as hélices
Mas a energia não chega
Eu sei que é um olhar, assim, de "través"
Encanta
Mas quanta promessa!
E para que pagar para ver
Se é só esperar?
O sol desabrochar mais um dia
...é só tocar mais esta canção...
E eu não
tenho pressa!


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quando ela passa...










A poesia amanheceu meus sonhos
E cobriu-os com o sereno
E inundou-os de luz, e emprestou-lhes cores
E delineou-os em versos
Até que estes,  antes névoa e silêncio,
Se fizessem caminho sob meus pés.

A poesia  tornou-se canção
Espraiou-se pelo ar, arrebatando os sentidos
Desvelando para o mundo inteiro sentimentos tão escondidos
Que agora encharcam o olhar
E foi também a chama que aqueceu  e iluminou
E, junto aos temperos certos, emprestou sabor
Aos elementos que em mim se aferventavam
E por mim tornados um se recriavam
Em outro verso, outra rima, outros ritmos.


A poesia soprava meus cabelos
Enquanto eu via o que era amor em mim
A correr pelo pátio, na hora da saída
para muito além de onde se perdeu o horizonte;
No olhar do menino, alegria e tormento,
no olhar da menina, um maravilhamento,
E como é belo doar-se ao saber
Render-se em entrega simples ao conhecimento.

A poesia se revela na conversa amiga
Que trai segredos enquanto confidenciamos
sortes e destinos, sinais e sinas - tantos planos
que se refazem em nossa fala, fluir de aguas incessantes
E quando o silêncio se faz e preenche todo o espaço
é nossa amizade a poesia, um abraço apertado
Que faz valer a pena toda a hora, cada instante...
Abro a porta e é a poesia que me encontra agora
Correndo em círculos buscando de meus afagos,
Recebe-me com a alma, luz encanto e alegria
Mesmo que eu só lhe traga meu sorriso
Minha inquietação, meus vícios... e minhas mãos vazias.

Quando entardecer ainda será ela
A arcar-se e ronronar ,enovelar-se em meu colo
Com seus olhos azuis de amor, tão linda, mansinha
Esparramando-se como em cores liláceas, o pôr do sol
Como o cheiro de café forte e o merecido pão
Pingente brilho, sininho chinês tilitando em si bemol
É ainda ela, a poesia, minha rainha
A esticar as garras e mordiscar minhas mãos, lambendo-as
Com sua língua tão áspera. Quando  não me sinto mais assim,
Tão cansada, tão forte e tão sozinha.

E quando caiu a chuva e veio a tristeza
Que represada tantas vezes, inundou meu rosto
E transbordou o cheiro da terra molhada ,lá fora
E aqui dentro as lágrimas quentes ,o gosto do sal na língua
um certo desgosto.
Veio também a poesia, com a suave promessa de que fará brotar
Uma cheia ainda mais imensa de novos verdes brotos,
E quando veio a noite, a serenata plena
Da poesia junto aos grilos, aos sapos e as estrelas
E dos pirilampos e esporas as faíscas claras
Dos versos e paixões tão rubras, torturantes cadenas
E até no ódio profundo, esta outra paixão sangrenta...
Ela no fundo se esconde a rir-se de quem pensa conhecê-la
Pois a poesia, amigo é para quem não pensa tê-la
Ela é verdade, mas não pode ser descoberta.
Se a encontrares é um acaso, um momento e se vai
Pois seu mistério mais profundo é residir em parte alguma
Quando a perder será para sempre, mas esquece-la jamais...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ancestralidade




Eu não ando só
Atrás de mim estão eles
com o rosto pintado
batendo os pés ritmados no pulso da terra
Cantando em tempos de paz
- E que força me traz este canto-
Ensaiando seu grito de guerra.
-Quanta paz se liberta neste grito - 
Trazem nas mãos a semente
De uma cura secreta
Sopra a fumaça, avô, no meu rosto
Suspiro da mata, ai meu povo!
É povo da floresta.


Eu não ando só
Vem logo atrás
Com a pele obsidiana ardente
-que rescende a perfume de flor-
Eu sinto a presença pois sou descendente
E sigo gingando, sambando, cantando seus
deuses (minhas deusas)de cor.
A minha oração desenha-se no ar, com o corpo
E ninguém que a tenha visto pode lhe retirar o valor
Deles é tudo em mim que sabe, rimar canção e luta,
amor e liberdade erguendo sempre a voz,
Rodopiando em diáspora, espalhando mil sóis
Semeio ao vento seus nomes secretos,
São bantus e gêges, angola e ketus nagôs!

Eu não ando só
Arrasto atrás de mim
O povo branco com seu estranho legado
A sede do tempo, a língua saudosa, o amor ao mar
um saber emprestado com gosto de sal.
Na ponta da língua só uma resposta:"lá fora há uma vida
...lá fora...lá fora"
E quando eles me vêem, do outro lado
E quando me querem, descobrem o rosto
Me erguem num abraço e emprestam
a sanha conquistadora daqueles que moldam o destino
ao seu gosto.
Eu aposto...

-Mesmo quando silenciam
E se encobrem na paisagem distante
E se afastam na escuridão da noite
Correndo com os pés descalços
pelas florestas inclementes
Escondendo-se capoeiras
Nas canções que ainda virão
Galopando pelas campinas
Rasgando uma nação, solto o grito e eu sei -
Que eu não estou só

Dos que me amam e vêm, empurrando para frente,
a rebelde liberta e grata pela graça de seus ancestrais
Saibam hoje que eu ouço o grito, eu canto em coro, eu quero é mais....

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Conto de Halloween 1 - Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece...









Emergir. Não é  assim, algo que surja como um pensamento mas é parecido - só que menos perfeito - que um instinto.Estendo os braços para cima, palmas voltadas para fora, dentro do ritmo mas completamente fora da marcação. Passam insensíveis aos meus tímpanhos mil tons submersos. E só assim eu sei viver. Não retenho mais lembranças. Você não viu mas eu já fui embora, patrão! E esta sim,é a única memória que tenho agora que me falta o ar. Me sobrevêm um alento.Toda a vez que precisei ser livre foi só dar as costas em direção ao mar, onde por ora vejo, nas aguas verdes-claras, o impreciso reflexo-luz-do-sol. E quando me projeto rápida sinto a dor de algo que não-se-quer-rasgar dentro de mim e que me puxa para trás.Uma corrente.Então compreendo minha condição. Deixada para morrer acorrentada e submersa, como tantos outros.Só que não. Eu não! Não aceito...nunca fui mesmo de obedecer ninguém! Guardo na boca uma sensação de sufocamento, mas que ainda não é. Lacrimejar com os olhos abertos na agua do mar traz uma sensação estranha, como a voz das acusações, das mentiras risonhas, das hipocrisias patetas, da animação latente no vício e na sutileza das palavras reptlíneas.E o pior de tudo, a cansativa repetição. Minha Deusa, como se repetem esses peões!Ai, que não aguento...que complicação! Tenho que me lembrar: de vez em quando é bom fechar os olhos para sair do tormento. Eu sei que estou me afogando em múltiplas versões,parada no meio da rua com o sinal aberto,discursando para mil pessoas encima de um carro de som,a dançarina das calçadas que perde o equilíbrio, que gira pelo palco tentando interpretar a si mesma, lua envergonhada e nua a tentar ocultar-se do indiscreto telescópio de Galileu Galilei, atrás de comícios,correndo para não perder o ônibus em dia de chuva...em todos esses momentos eu ouço vozes.Elas susurram e sorriem as minhas costas. Sua sede do vivido. Suas marcas apodrecidas de arame farpado e vazio - será solidão? Suas perguntas sem interrogação. Despejando suas mágoas em ondas sucessivas de acusações levianas.Tudo ainda implacável e sem fim - a roda da história? Esta mais para roda do karma. Que piada! Eu viro para o lado e cerrando os dentes, percebo que já começo a respirar agua e doem os pulmões...em breve será engasgar e mais para breve ainda o meu fim!Com as duas mãos eu puxo a perna com toda a dor, toda a força...e a agua escurece de sangue. Meu pé. Tive de esfolar metade da pele que flutua atrás de mim como uma ferida em chamas que fosse também uma pluma de cetim de sonho muito, muito leve. Eu sinto que posso conseguir. E venho á tona. Engasgando sangue, sal e dilemas (só seus) que não mais me compelem...Por favor - e na boa! Se não me suporta nem aquece, vê se me esquece!

sábado, 20 de outubro de 2012

Noite de poesia.




 Cerro os olhos e no intervalo
entre o sonho e a prece
Uma ponte me atravessa
Uma ponte que dança
Onde a escuridão me encontra
E abraça, distrai e esquece...
Estou sorrindo
e vou passando
Eu cruzo a ponte
Sigo cantando
inventando a letra,
De repente, sobressalto!
Será minha sina?
Cai uma estrela
Ardente -já foi dançarina,
E agora é lágrima
Deslizando clara

Pela noite negra
Era a poesia...
E o meu desejo
um suspiro breve,
na travessia imensa
onde bebo e desce
pela garganta seca,
-lento, forte e doce-
linha após linha
Nascerá o verso
Como um brinde á vida!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Exodus







Você foi longe demais
E quando se viu
não se pode mais
conter, não se pode dizer
para que fugir?
para onde vais?
passo firme em pé descalço
foste até o limite
Ao acaso,
para despistar
retornou por sobre as pegadas,
através das cascatas
caminhou pelas águas
ouvindo atrás de si:
"-Onde foste?"
"-Onde estas?"

Debruçada sobre o vazio,
em busca do próprio reflexo
lança o grito: "-Quem morreu?"
Resposta: "-Eu"."-Eu". "-Eu".
No abismo, e a escuridão devolve
o riso para aquela que se perdeu!
Para se melhor se encontrar
Meter o pé na porta!
Fechar bem os olhos
Para sair do labirinto
Andar as cegas ainda será
O melhor dos destinos.
Deixar-se levar
Missão ou desatino?
Pela noite escura
Tão longe de nós
Sem olhar para traz
Não sabe onde seguir
Nem se vai conseguir
Voltar ...perder...jamais...



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Acontecimentos Setembrinos.


 (Esta foto é do blog de mariachelli, e se você gostou desta imagem saiba que há mais destas - todas lindas - aqui)

    Não sei como pude esquecer a janela aberta, eu que já vinha espirrando o pólem dessa estação tão medianeira.Em breve seria, oficialmente, primavera e já começam a se espreguiçar, alongando-se pelas calçadas e avenidas, as sombras das arvores. Eu sabia que acontecia todo o ano, depois da chuva.Pressenti que no final da tarde choveria. Então...como pude?
    Agora já não importa.Meu quarto já é o palco de mil e uma bailarinas esvoaçando sua alegre disposição para o amor. O perfume de terra molhada, de flor pisada e a algaravia do poente compõe o cenário com a precisão de um John Woo.E como á tudo que ama, será inútil enfrentar e a espera nesse caso é o mais aconselhado.Minha avó já dizia "quando quer se perder, cria asas..." Me encolho frente a pequenez da adversária e fecho a porta,sabendo que terei de dormir na sala e que amanhã todas elas terão sumido.As formigas aladas.Deixarão para trás - pelo chão encerado,por sobre a mesa e minha cama- suas asas translúcidas e um lembrete claro: voe alto, invada o cárcere, vá para longe...abandone seu mundo, abandone as asas, abandone-se!

Íntima

                                                  (Deck de Shadowscapes Tarot, princesa de copas, demais decks Aqui)





A noite já estendeu sobre o céu seu manto úmido de escuridão
Pingam estrelas.
Me espia por sobre a corda bamba , tateando as reentrâncias em esquecido muro de hera
e dolorosa melancolia
-um beco sem saída que desconcerta-
Eu conheço esta harmonia e vou em busca da passagem secreta,  ás cegas, com o coração na ponta dos dedos
Enquanto a tua nudez me invade em terno alívio
-Como as ondas-
De quando em quando, eternamente.

domingo, 2 de setembro de 2012

Não terá 140 caracteres.





Eu e ela,

O dia corria solto como ventania em campina amarga.Isadora suspirava na memória de alguém: "quem
dera..." Eu também esperava por ele, mas não como as senhoras de antigamente, debruçada na janela. Não era assim, feito ela, mas antes, nas esquinas, nas praças, nas ruas semeando novos amanhãs e arrancando o leite - e o pão - das pedras. Isadora, tão diferente, nem queria saber de tais querelas.Não era dessas, mas daquelas que, ocultas pela poeira do tempo, terão seu rosto traçado com novos mapas. Parteiras do sobrenome.Padeiras da inquietude. Fundadoras de reinos. Dia e noite no tear, sol a pino, entremeava os destinos dos seus na Terra e, quando anoitecia, para a lua cheia bordava estrelas. E eu que vivia no poente, corria com os pés nus para onde? Para onde? Para no final do dia voltar para casa...
Enquanto o Outro se inclina,beija minha testa e me deseja: bons sonhos!

sábado, 18 de agosto de 2012

A busca da joaninha!


    Certa vez uma pequena fada chorava copiosamente, muito sentida por ver tão seca sua flor preferida, que por motivo de doença da senhorinha que morava na casa do jardim, fora agora abandonada definhando ao sol.
    A joaninha - que é bichinho simpático e generoso por natureza -  estava ali de passagem e quis animá-la de algum modo.Pousou na sua mão
batendo as asinhas com rapidez para fazer cócegas...mas não adiantou. A fada com a mão a empurrou para o chão novamente. Mas a joaninha não desistiu. Voou mais alto, o mais que conseguiu e pousou então em sua cabeça.Mas também não adiantou. A pequena fada sentiu ela se enredando em seu cabelo, passou a mão e a retirou com delicadeza presa entre o indicador e o polegar. Colocou-a encima de uma folha e tentou recomeçar com as lágrimas, mas...estranho, não conseguia mais! Sentia-se triste, mas fora distraída de sua idéia fixa e agora outras lhe invadiam o pensamento.Uma delas era dar um jeito de lembrar aos parentes da tal senhorinha de aguar as flores durante a sua ausência...A joaninha percebeu que estava conseguindo animá-la e abriu asas novamente. Pousou por fim bem no cantinho da sua boca, fazendo cócegas á fada. Que conseguiu sorrir. Então a fada disse a joaninha.
-Te darei um dom muito raro por teres sido boa comigo e me divertido neste momento de tristeza: toda a vez que fizeres um ser humano, ou fada, ou duende ou mesmo Deus sorrir, terás sorte por sete dias e sete noites. Poderás procurar por novas flores sem te preocupares, e elas serão sempre solícitas em lhe abrir as sépalas e convidá-la para almoçar.
-E assim vem sendo desde então para as joaninhas, pois os seres humanos, por sua vez, acreditam que ela traz em suas asas o aviso de que logo chega o amor verdadeiro...

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Canção de sonhar no mar!


(Fotógrafo Neil Craver - Omniphantas)


Volto ao sonho em busca da pérola
Que escapou de minhas mãos nuas ainda
neste mar, mas noutra noite, noutro tempo...

E quando fecho os olhos, chamo o sono e penso

Vagam os sonho em busca deste mar
Mergulho fundo em busca de escapar
por entre os dedos deste amor intenso,
e á tona agora, sou pérola nua
perdida para sempre na noite o meu alento
- translúcida miragem-
desenho em agua clara
no deserto azul do pensamento.

domingo, 22 de julho de 2012

Sou paciente!

"...nunca escrevi nada que não fosse confissão" - Mário Quintana.



Hoje me chamam paciente
E por isso silencio
Frente ás normas arbitrárias,
aos dilemas insolúveis
e ás miseráveis insolentes.
E também,  a outras coisas,
que não posso nomear
mas que se fazem freqüentes
e encerram -me nesta armadilha
que dizem ser minha obrigação
assentir e suportar.
Não, não é masoquismo
É "ajudar-me...a ajudar..."

E é com muita paciência
Que deslizo pelos meus dias
Equilibrando-me, cega
Entre desespero e fantasia
Escuso-me daquilo que me escapa,
Ponto mal dado em linha torta
Tecendo a capa do hipócrita,
Vejo diluir em metafísica
A mais pura incompetência
Mas não serei eu a despertar
A arrogância que desanda
em vingativa inconsequência
E estoura na ponta mais fraca,
- estatística tragédia.

E assim, paciente, me encolho,
Enovelada em minha náusea,
com a dignidade perdida
Vagando em labirintos de névoa
- pelas noites entorpecidas,
E no meu leito quebrado,
estendo a sina dolorida
Calo as lágrimas e fecho os olhos
-abrindo os braços para a tela
Dos mais deslavados sonhos,
variantes de um mesmo tema...
- Ser novamente, senhora do meu corpo
Cavalgar os dias de acordo com minha vontade
Rever os que amo, desdobrar-me em cuidados,
Velando pela chama que ilumina, que arde,
Desvelar o caminho, e que seja, e que faça
Que meu lar lá esteja...e que eu volte para casa..."



domingo, 8 de julho de 2012

Dia de Alta!






Desconectada
De transparentes conductos
Que me alimentavam
e sugavam
mantendo-me viva
e agonizante!
Arrancada destes meus títeres umbilicais
Tudo o que resta é algo assim conflitante
Como o princípio do irromper
de um casulo
em que há promessa de luz - mas não céu
e um despertar apenas para sentir-se estranho
Resta a memória da dor
Nas veias ressentidas
Reaprender em si mesmo aquele rotineiro movimento
E a flutuação  dos sentidos
ainda entorpecidos - na irrealidade opaca

É como toda a manhã sentir
aquela "pontada"que prenuncia a chuva
na perna agora amputada
E ver pela janela o belo dia
que ri a altas gargalhadas lá fora....

-Sera mesmo que o corpo sobre a mente vigora?

sábado, 7 de julho de 2012

Ecumênica.





Um arco-íris musical
De notas atávicas e dissonantes
Do ritmo ocre, magenta vibrante
Á purpúrea melodia altissonante

São orações que sobem aos céus
Enquanto fecho os olhos, e se eu pudesse
Ouvir por um momento esta canção
Certa compreensão talvez me invadisse

Algo que para sempre me escapa
Corre e viceja, afilia e fenece
Prometeu a paz, mas trouxe a espada
Algo que sagrado, segreda e esquece...

sábado, 26 de maio de 2012





 
Estou maio
Me estico ensolarada
num sorriso forçado
e o frio tremente
nas bordas finas
e afiadas da alma
agora encoberta
de fina pena
impermeável.

Cai a tarde, caio em mim
desabo
com força de arrebentar
barreiras
Cedem as represas
mas não adianta
é gota a gota que transborda
a chuva dentro de mim.

domingo, 20 de maio de 2012

Efemérides




Um brinde a você
Que come abelhas
Que anda armado até os dentes
Cujo peito é lar de mil trovões

E que cospe mel
E traz sementes nos bolsos
E tece no silêncio uma canção.
Apesar de tudo.
Apesar de tantos.
Apesar de nunca saber quando...

Entrego a você a mais bela flor que tocar
meu chapéu.

E lhe desejo
Um horizonte que suporte a carga em teus ombros
Uma estrela palpitante que lhe sirva de norte
Um lugar que chamarás "meu mundo" e que sustentarás no ar
como um balão
E quando nada disso bastar
Que lhe venha a visão das coisas
estrondosamente belas, tão hesitantes, tão efêmeras...

quarta-feira, 16 de maio de 2012

A.A: Totally Broken!



 (Se alguém souber a referência desta foto avisa EDUCADAMENTE porque eu procurei e não encontrei, tranquilo?Assim fica bom para você? rs


O céu grita o sol
que se derrama claro
sob minhas dores
latentes
A lágrima clara vinca o sulco
na pele morna-escura
aragem de uma nova semente

Há um apelo vago sob camadas
translúcidas de uma angústia
ardente
Sou eu agora
insensível

doente!


segunda-feira, 30 de abril de 2012

Canção de um luto eterno...



Hoje o mundo ficou mais triste
Ficou mais áspero
ficou mais frio
Não foi a chuva
não foi o outono
Foi minha estrela que no céu sumiu...

Eu queria que minhas lágrimas formassem poça
a poça lago e o lago, rio
Que me levasse de volta áquele tempo
De me aninhar em teu colo macio

Onde cantavas com doçura e calma
"A faca que corta dá talho sem dor..."
E eu adormeceria em teu perfume e calor
Ignorando as más cicatrizes da alma...

Mesmo quando eras dura, havia bondade
E quando eras doce, uma fonte de mel
 De par em par descerrastes tuas asas
Serena acenando, foges para o céu
Aqui embaixo ficamos presos
Agora mais perdidos e sós
neste mundo de maldades!

Hoje todas as facas cortam
 e todas as cicatrizes ardem
Não há canções na Noite da Esperança.
Não há consolo para a saudade.

*Vovó Jurema, onde estiveres, olha por nós neste mundo de maldade e ilusão!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da simplicidade.





Acredito no que é mais simples
Quando é possivel traçar a linha reta
Entre a palavra e a ação, como
uma seta, que torna potência
O que era meta.
E faz sangrar as certezas calcárias.

Acredito no que perdura, é claro!
Quando a pedra dura cede ao
tempo-água, que se faz ao nosso
quotidiano ordinário,
molda a pedra
afunda a barca, e nos mergulha
na correnteza da vida
sempre urgente!

Acredito na palavra dita sempre
Quando é a certeza que excita
a denúncia da injustiça ao máximo
E torna o nosso querer, assim,de pronto
Algo que arrepia o pelo e faz brilhar os olhos
E nos leva, num instante, ao radical confronto...

Mas, se isso não for, deixe-nos sós
Deixe-nos viver a Lenda Eterna
Deixe a nossa mente ser a única lanterna
E que nosso corpo exausto adormeça em seu conforto!

sábado, 21 de abril de 2012

Srtª 13 - Simplesmente a mais azarada do mundo...



Hoje é sexta treze e você se sente
mais só que um gato preto -  com o dono viajando-
E a lista de problemas já não é nenhum segredo
"-Esta como Deus não quer, mas o Diabo gosta..."
As pessoas te evitam, falam pelas suas costas
Mas sempre lhe disseram: "você só traz azar"! 
Você vê recusadas suas melhores propostas
E a rima é facil: "até quando...aguentar"
Sempre acontece algo, e é você quem esta atrasada
É você que esta errada, que não tem compromisso...
Será que já não pagou sua quota para o diabo?
Será que não se cansa de ver tudo dar errado?
Eu já sei, você não quer mesmo falar sobre isso...

E mais uma vez ele foi embora
Sem te dar opção, explicação ou uma ilusão
Tirou seu chão e bateu a porta. Você não cansa
de se perguntar: "-Oque eu fiz? "-O que eu não fiz?"
Mas o importante não vem a mente: o que você fará?
Mas se pergunta será que é de verdade? ele vai mesmo te deixar?
100 ligações e mensagens e você segue para trás
encarnando  um radical  ciclo vicioso...
(é de novo a vodka...e vodka de novo...)
Se vai levar as coisas só quarta, porque não leva tudo?
As lembranças, os presentes, os planos
de final-de -semana-feliz-de-cinema-mudo
Sera que ele atende se você ligar?
Sera que é ele agora, pedindo para voltar?
E todo mundo tem a solução, mas não pode ajudar
É o amor, disparado, o mais terrível dos vícios
Mas você não quer mesmo falar sobre isso.

E mais uma vez você perde o emprego
Já esta calejada, o ritual é sempre o mesmo
Arrume tudo para o próximo, seja consciente
Despeça-se daqueles que foram seus amigos-suplentes
E "daquele" que sempre quis te ver pelas costas, tramou
armadilhas e puxou seu tapete.
O mesmo sorriso, para todos e todo o sempre
Na gaveta estão as planilhas, os projetos e os diários,
E uma vaga nostalgia frente ao irremediável
A certeza das contas em acúmulo, empréstimos,
juros e alguma escassez. Afinal "- aqui você já é freguês!"
O que ganhou Mais experiência...e um carimbo
 na testa: "A Otária do Mês".
É, amiga: "Querer demais é sempre ter menos
do que é preciso"
Mas você não quer falar sobre isso...

E mais uma vez você sente que não era bem isso...
Encobrir-se com os farrapos de uma bandeira
enxovalhada, já não encobre sua vergonha
Há muito tempo que anseia, que dorme e não sonha
E é quando sua fé vacila que caem cem mil a tua esquerda
Mas como enfrentar o futuro com a espinha reta
Se a festa acabou e é impossível voltar atrás?
Se o senhor é o pastor, ele conduz ao abismo
Será que este ano eu quero mesmo votar?
Será que nesta vida...o vislumbre de algum sentido?
Você viu o que ele fez...você soube daquilo...?
Mas eu já sei...te conheço...tem mais um pouco
bebe a ultima!
Afinal você não quer mesmo falar sobre isso...

Escrito na lua minguante do dia 13 de abril de 2012.





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ata do Seminario dos Anjos - 1º de Abril de 2012.

 

 Pisa de leve no tapete. Olha, e para. Todos o reconhecem, mas ninguém o cumprimenta. Estão ali em círculo, uns deitados e outros sentados pelo chão da sala, asas semi-abertas.Alguns, face esquecida sobre as mãos, quase dormindo. Outros apoiados em grandes almofadas. A iluminação é fraca, dada pelas chamas da lareira - labaredas domesticadas. Acomoda-se á um canto, na escuridão de outra peça, um tipo de sala-de-estar.Ás suas costas esta a pequena cozinha. A vantagem mesmo é a proximidade do hall de entrada (e de saída). Presta atenção. É outro que toma a palavra. Defende a tese mais bem aceita:
-A mais bela mentira é a que oculta a falta, e evanesce no horizonte as nuvens da tormenta - o tormento, a mágoa ou a desgraça. Que belo é mentir, para salvar uma vida! Resplandece a ilusão que, generosa, encobre uma ofensa.
Quem fala é Gabriel, que lhe vira o rosto em perfil explêndido. "- Como é carismático" - logo se pensa.
Todo o ano se reúnem em pleno, para debates profanos que redefinirão nova senha. De que? Segredo.
Mas alguém duvida, tosse em seco,  aperta os lábios e faz que "não" com a cabeça. Olhar cansado, vincada a testa...é a imagem da obstinação cega e da inumana sede de justiça e impaciência. Ergue-se uma voz de entonação mais dura, mais forte, compassada e clara...como uma adaga faiscando ao rasgar a pedra.
-Insisto que a mentira mais bela não é a que protege e amordaça...mas a que liberta! Tudo o que os homens fazem e substituir mentiras, umas pelas outras, cada qual mais imensa! Mas vejam quanta diferença há entre quem pode crer que a vida seria melhor  - se conquistada -  e aquele para quem nunca nada presta. A história é rica em exemplos "...minha vida será melhor depois da cheia", "...quando houver a República", "se houver guerra"!
Faz uma pausa. Sorri.
"E quando acabar a guerra..." Completa. Qual de nós não cansou de ouvir tais coisas! E a desilusão é certa! Mas a quem isso importa? Realizam-se as obras, morrem as esperanças...fica o que resta!E o que resta meus irmãos em armas...é a História! Rica e vária, é verdade, em sangrenta violência! Olhamos para trás - como aquela famosa pintura - e nossos olhos ardem na faísca de chamas imensas. Mas tal qual miragem nos desertos da esperança...resplandecem ideais! E como se superam os homens quando ameaçada a sobrevivência...
   Levanta os braços num gesto de incompreensão. Olha ao redor, á procura, de palmas, de gritos, gestos de aprovação...mas nada! Então Miguel se cala. E senta. Então uma doce criança, ainda resplandecente de úmida beleza, ergue a delicada mãozinha (pombinha esvoaçante) pedindo a palavra. A voz é um sussurro breve, titubeia.
-Tão grandiloquentes foram os que me antecederam, que até me envergonha meu discurso agora. Me pronuncio apenas porque todos devem contribuir de igual maneira. Mas peço que não zombem antes de ouvir a idéia que me ocorreu hoje, antes de vir, em frente a penteadeira. A mais bela mentira...ora, e por favor não riam, é a maquilagem! Mas como? Perguntei-me, eu mesma resistindo a idéia! Mas veja! Para e pensa! A maquilagem nivela...harmoniza o desarmônico, confere novas cores as faces cansadas...evoca o máximo ideal de cada época, recria  o que é perfeito em renovada beleza. E a beleza, amigos, é o consolo mais prestimoso da amargura. E não é extática como a escultura, pois que junto ao rosto, torna vivo o que era apenas idéia! Rivaliza com o Tempo e até mesmo...com a Morte, veja! Não pedem as senhoras em seu leito"...me enterra maquilada"? "Não permita que me vejam em desleixo?" E ainda, muitas vezes mais que a clássica "...não me deixa"? A maquilagem é Arte, e é tão democrática! Esta nas mãos da mais pobre jovem e da mais rica velha! Da mais bela dama e também da mais feia! Alguém pode contra-argumentar: "...mas e os homens? " Só resta a eles então as mentiras assim...mais feias?" Bem, a pergunta era qual de todas era a mais bela.E tal pergunta demonstra desconhecimento.Não são tantos os que se maquiam hoje?
Interrompe Miguel: "-Ah, agora já chega!"
Segue-se a querela. A última imagem que guarda deste momento são os olhos grandes de corça assustada de Haniel- Eterna Jovem. Que silencia a todos sempre, com sua beleza intensa. A todos menos a Miguel, é claro...
Na escuridão sorri um Anjo Caído, meio de esguelha.
Samael, de mansinho sai, por uma fresta. Precisa de um cigarro, antes de voltar para a digna assembléia... Ninguém lhe presta atenção ou pergunta nada, as coisas são assim, é mesmo uma pena. Quem mais que ele viveu a alegria e a dor profana? Quem melhor que ele conhece a alma humana? Se alguém lhe dirigisse a palavra, a resposta seria a certa.-"Não amigos, não são as boas intenções, nem os altos ideais, tampouco a maquilagem  - mesmo que sendo Arte - as mentiras que mais perfeitas. Estes são apenas, como vamos dizer...seus brinquedos? Sim, os jogos desta máquina que é o homem e que incessante as  produz e ainda a muitas outras, agora mesmo, neste momento. As mais belas mentiras são o que eles chamam "lembrança"...destas lembranças que antecedem mesmo á qualquer pensamento.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Menina Esquisita!




 Ouço as sapatilhas da menina quebrando as telhas, brincando de esconde-esconde, esquecida de quem a chama dizendo que a contagem já acabou, a brincadeira já anoitece.
Enlouquecendo os plantonistas, colocando bombinhas sob suas cadeiras, desligando aparelhos, torturando até fazer gritar as malditas máquinas.
Atravessando vitrines, beijando os manequins de cera, trazendo á fórceps a existência envolta em inefáveis véus, na transparência luminescente da imaterialidade.
Corre solta por onde se perde e vagueia  a procura do olhar do homem velho no banco da praça. E ri com seus dentinhos de leite, cobrindo a boca com as mãozinhas pequenas.
Entendia-se, bate a campainha e sai correndo pela rua afora - brincadeirinha mais sem graça!
 Depois sai para inventar alguma nova trapaça, não para quieta, sopra bolhinhas de sabão, colhe flores ainda na muda, procura pelos filhotes aquecidos nos ninhos mais bem escondidos.
Gosta de girar no carrossel da nossa ilusão.
Bate o pé. Embirra.Empaca.



  A Morte é apenas uma  menina pequena, fazendo pirraça:
-Quer docinho?
-Não.
-E brinquedo?
- Nada
-Então já sei...?
-...O que?...
-Palmada!
Não adianta. Pega quem quer pela mão. E leva para onde quer.
E quando se for, tudo ficou para trás... e já não adianta nada!

P.S:
A primeira obra é notoriamente inspirada na "Morte" de Neil Gaiman.
A última foto é uma instalação de Nazareno, que pode ser encontrada neste site aqui http://www.artref.com.br/index.php/noticias/view/1427/artesPlasticas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Desapego.


Hoje as estações se sucedem tão sensíveis, exatas
Mas nos desvãos de alguma delas algo se perdeu
Algo que trazia o brilho para tua fala tão macia
- minha escuta clara -
Nos atravessam imagens do que não aconteceu...

Nummy - o peixinho que nunca perdia a paciência...
Nummy era um peixe belo. Muito belo.E não eram só suas escamas que brilhavam de modo especial, nem seus olhos tão bem proporcionados em relação ao seu corpo - se comparado a outros peixem e nem - embora neste caso haja controvérsias - sua cauda que se abria irregular e trazia a impressão de um finíssimo lenço que esvoaçasse na brisa.
Não. Ele era belo de uma outra maneira. Parecia saber disso de certa forma. Com a voz sempre sumida, evitava as outras pessoas e tentava de toda a forma não  mexer nem atrapalhar a vida de ninguém. Era um peixinho tímido, muito tímido que por qualquer coisinha se desaparecia para baixo de uma pedra. Só que havia um problema. Isso despertava os insitintos sádicos dos seus colegas. Todos os peixinhos da idade dele já tinham tido pelo menos um pequeno impulso em maltratá-lo. Ele era tão...quieto! E parecia se sentir
melhor que os outros (nada mais distante da verdade, Nummy sentia-se isso sim, muito só e carecia de amigos). E por outro lado parecia tão frágil...a certeza de que ele dificilmente revidaria parecia provocar nos outros os piores comportamentos em relação a ele.
Acontece que Nummy foi ficando cada vez mais só. E triste. E calado.Decidiu ficar o máximo de tempo que conseguia sozinho embaixo de um canto mais afastado entre os lindos corais. Lá a agua era mais fria e o alimento mais escasso, mas, ainda assim pelo menos ele podia ficar em paz, cantando e dançando sozinho como gostava.
Não adiantou.
Os outros peixinhos logo deram falta dele e procurando-o com cuidado,logo localizaram-no. E toda a vez que se sentiam especialmente inferiores a outros peixes verdadeiramente talentosos e belos, ou ainda, mortalmente entendiados, saíam a persegui-lo de novo. Acontece que tudo isso era observado por outro peixe, conhecido por seu veneno e por ter uma pele coberta de espinhos - o baiacú - que ficou com pena de ver Lummy naquela situação. Sabia que Nummy era orfão e não tinha com quem conversar sobre seus problemas. E um dia, quando o via fugir de um peixe muito menor do que o próprio Lummy, disparou a frase, de supetão. O Baiacú disse:
"- Você precisa revidar...na mesma altura ou pior! Em primeiro lugar, terão medo de você, depois com o tempo, terás respeito."Nummy pensou um pouco e viu que fazia sentido. Assim, quando outros peixinhos vieram para persegui-lo bateu neles sem dó. Sentiu até certo prazer nisso. E logo voltou a morar mais próximo das aguas mais cálidas, com outros peixes. Aprendeu com o Baiacu uma técnica quase infalivel  para amedrontar as pessoas. Bastava olhar nos olhos delas. Bem no fundo. Inevitavelmente elas baixavam os olhos e se encolhiam. Ele percebia isso e não sabia dizer por que. Até que um dia, o Baiacú respondeu:é porque você é daqueles raros peixinhos que se mantiveram sinceros a si mesmos. Não mudou para se "enturmar" no cardume, antes, preferiu permanecer solitário. E enquanto for fiel a si mesmo, manterá essa capacidade, ue é a de fazer refletir no olhar o que os outros peixes tem de melhor...ou de pior. Lummy seguiu o conselho e, por vezes,além de olhar bem no fundo dos olhos até que os algozes o baixassem, também sorria com altivez e realmente começou a perceber alguma coisa que confirmava o que o Baiacu dizia. Quanto mais seguro se sentia, tanto mais algo dentro destas pessoas parecia que quebrava, como uma madeira apodrecida a sustentar uma casa em dia de ventania. Percebia que o temiam e, por isso, o deixavam em paz. É claro que Nummy sabia que temor não era respeito. Mas também sabia que tinha muito tempo pela frente. E que ao menos, já era um passo...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Veja-me partir...

O céu grita o sol que se derrama intenso e claro
sob os hematomas latentes
destes meus abraços raros.

Por que é tão cedo?

A lágrima que de tão cara brilha transparente
vinca o sulco na pele morna
escura aragem de novas sementes.

Eu não sei se há tempo...

Em tudo o que não fiz, do que não sei,
e no que calo, e que se mistura, entorpece e desliza
 pela minha mente
 -como chuva de  granizo na telha insistente-
quebrando, intenso e ritmado
ouço grilos estridentes pela grama
a derramar teu nome, teu nome,teu nome.

Eu sufoco

porque não sei
o que fazer
não faço
desfaço-me
de tudo o que for
urgente
doce rotina
amarga sorte
quotidiano
doente!

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Panteísta



Eu faço amor
com o vento que brinca com meus cabelos cabelos,
sobe minhas saias e acaricia minhas coxas enquanto ele me susurra qualquer coisa
que me faça sorrir.
Eu faço amor
com o sol, que indelicado  lambe minha pele
e vai me iluminando lento e ardente,
até que sôfrega, ao fim da tarde, me despeço.
E também com o mar, que deseja impressionar-me com sua força e promessas- vagas,
que se acabam em espuma de sal em meu corpo, agora a flutuar entre os abismos afiados de coral
Não há palavras, só silêncio.
Dispo-me para os píncaros mais altos que, reconhecendo-me de pronto,
fazem cantar os cristais,cavernas-catedrais de pedra- monumentais,
 rochedos em sua altivez e alegria. Toda a glória!
Procuro enfim o abandono sensível, a suave candura das cachoeiras e olhos d'agua
para beber seus susurros breves o frescor entre os seus seios.
Mas resisto, entre bravia e sedenta, a rios caudalosos e lagoas pulsantes,
que terão de se esforçar um pouco mais para me arrastarem em suas correntezas
e manhas traiçoeiras,
Provocando assim, os ciúmes doentios  dos açudes e mangues, á quem, por ora, amo assim sem paixão, só de pena.
Levo comigo brinco-de- princesa, de braços com as damas-da-noite e as açucenas
para ela - a noite - e suas pouco sutis brincadeiras, porém
Ela me atravessa em um só fôlego, e será com a Lua que o tempo passa-passará
 Na  Dança de esconde-esconde, pega-pega,mil-cirandas onde
Suspiram as estrélas, derramando-se em delicadas sépalas prateadas em meu nome.
Mas afinal eu sempre me escapo dos corredores de escuridão infinda direto para as manhãs.
Mas é rolando junto á terra, em toda a sua textura vegetal
Que me abandono em suspiros de angústia e alívio, e adormeço na certeza de ser também amada.
No chão estendida, sinto os pássaros que vêm ao meu corpo em busca de sementes
beliscam-me, fazem cócegas, trinam contentes...
É é assim, porque me encantam as criações do vento na areia,
as tempestades soltas, as fúrias de vulcão...
Que faço amor com tudo o que me é diverso
Íntimo, secreto,
Eu mesma (também)
Mistério na Criação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mistérios de Arlequim

  




Quando termina o carnaval, todos vestem suas máscaras - Alice França.

    Rafael era só um garoto na época, e por isso ia vestido de homenzinho ao carnaval, de mãos dadas com sua mãe, que estava linda a propósito, só de shorts, tênis e camiseta regata com o cabelo preso em rabo de cavalo. Apesar disso, Rafael só tinha olhos para seu pai. Jorjão - o pai- escolheu o vestido justo floral, a bolsa dourada demodê de festa com franjas de canutilho, o esmalte rosa choque do armário da mamãe. Mas algumas coisas, como a peruca loura e os sapatos de salto não teve jeito, teve que comprar. Mamãe ainda o ajudou com a maquilagem, mas com as meias finas não teve jeito, embora ela tenha se esforçado em ajudá-lo a vestir. Engraçado como para ela era tão fácil e para ele...um bicho de sete-cabeças. Rasgou umas três até que conseguiu vesti-las, mas não conseguia mover-se dentro delas. Foi sem meias mesmo, com a mamãe e todo o time de futebol, igualmente "trans-formado". 

    Papai ria-se ás gargalhadas, afinava a voz, requebrava, dizia indecências aos amigos e a "outras" travestidas que passavam. Sua mãe caminhava pouco atrás com ele, baixava os olhos por vezes, corava e tapava seus ouvidos infantis na esperança vã de protegê-lo das piadas sujas. Mas nem precisava. O garoto já não ouvia nem via mais nada. Começou por perguntar só para si mesmo, envergonhado...onde estava? Porque lhe parecia óbvio que seu pai, como o conhecia, desaparecera. O homem sisudo, sério, exigente,que nunca respondia uma questão - professava! Aquele magico gigantesco, que fazia sumir sobremesas e aparecer dinheiro, que parecia querer sempre ter a ultima palavra, que batia com a palma aberta na mesa a exigir respeito por tudo e por nada, que xingava no trânsito, que desfeiteava um time de futebol inteiro e todos os juízes do mundo, que esbravejava sozinho lendo o jornal, que cuspia enojado por coisas que todo mundo achava normal...este como mágica desaparecera em um vestido de florzinhas e uma maquilagem já borrada de cerveja que escorria pelo pescoço e suor pela testa.Rafael estava encantado com o que as roupas certas e um pouquinho de purpurina poderiam fazer. 

     E quem era aquele ser tão diferente? Não era menino ou menina, homem ou mulher, anjo muito menos, então o que era? Parecia-lhe, inclusive que ele provocava, nas mulheres, reações insuspeitas e reagia por sua vez, de modo ainda mais inesperado. Sim, pois houve um momento quando a mamãe convenientemente não estava vendo, que uma das moças  - com idade de ser sua irmã mais velha - levantou seu vestido quase até a cintura e lhe disse alguma coisa. Papai riu e gritou-lhe um desaforo com voz esganiçada: "-Sai daqui, ô mocréia!" Depois as questões por si mesmas se perderam,esquecidas.  Porque naquele momento, Rafael apenas fruía daquilo que tantos outros, a custa de jejuns e orações, e tantos ritos complicados e outros desvirtuamentos químicos dos sentidos conseguiam apenas entrever. Rafael contemplava um Mistério e silenciava em temor e respeito por aquilo que não foi feito mesmo para ser compreendido.