quinta-feira, 26 de janeiro de 2012



Dois Cães Olham para a Lua...
Andando por uma velha trilha de cabras, á noite, dois cachorros praieros sem-raça-definida procuram um local sereno embaixo da árvore que fica no monte mais baixo, próximo á brisa do mar. Explica-se. Um deles é quase todo negro, tem pelos longos e crespos, mais alto e de patas finas, tem orelhas curtas porém meio decaídas - a esquerda ligeiramente maior que a direita - e sente muito calor. Já o outro, um pouco mais baixo e atarracado, tem pelo caramelo e curto, focinho mais longo,olhos mais proeminentes nutre apreço especial por aquela árvore - ele diz que é o cheiro da madeira, mas de fato não sabe bem porquê.Vamos chamá-los de Preto e Caramelo para facilitar, já que eles mesmos não se chamam assim.
Preto olha para a lua, comove-se um pouco e uiva á plenos pulmões. Todos os outros cães acordam-se e latem também. Outros uivam de forma mais estridente ainda. Caramelo assusta-se e fala:
-Esta louco! Acordastes todo mundo! Agora "eles" vão nos ver! "Eles" vão nos chutar daqui! "Eles"...
-Ora, cale-se! Sempre devemos prestar reverência á nossa Grande Irmã Lua!
-Irmã Lua? Ainda acreditas nestas fábulas de filhotes?Um ser fantástico que olha por nós e nos recompensa por nossas boas ações? Um ser que...
Caramelo afina a voz para imitar uma cadela falando ao cachorrinho:
-..."nos ama mais do que tudo e ao qual voltamos se formos bonzinhos e não nos esquecermos dela"? Ora, faça-me um favor! Olha a vida desgraçada que levamos! Os humanos nos escravizam, pisam, maltratam e nada podemos fazer para revidar.Se essa senhora lua existisse...
-Blasfêmia!
-"Filhotice!"
Preto se acalma. Silencioso, olha para a lua e faz uma prece silenciosa para que perdoe a insolência do amigo. "-Ele é um bom cão"- diz preto-"Só um pouco limitado em sua sensibilidade..."
Caramelo por sua vez, reflete sobre a grosseria. Preto é um bom amigo, e ele nada ganhará agredindo suas crenças. "Será mais fácil chamá-lo á razão argumentando." Caramelo começa imediatamente a falar:
-A lua não é uma deusa. Não é nossa irmã. Na verdade, aprendi com os humanos que é apenas outro astro, como o sol ou a própria Terra que é onde nós estamos. Tão indiferente ao nosso destino como qualquer coisa que você vê a nossa volta. Nossas mães pedem para que acreditemos na lua para que não entremos em desespero ao conhecer a morte. Mas depois da morte não vamos "brincar nos campos da lua" como elas nos dizem. Na verdade nos morremos e nosso corpo é enterrado, se decompõe e se mistura á própria terra...parte dele será devorado por outros bichos...eu já desenterrei um outro cão e sei o que digo e...
Preto dormiu.Ouviu parte do discurso e ficou muito triste com a possibilidade daquilo ser verdade. Tão triste que não quiz mais falar sobre aquilo. Preferiu ir dormir que era mais gostoso que ouvir aquelas "blasfêmias".Caramelo desistiu de argumentar e foi dormir  também.
No outro dia, quando Preto acordou, encontrou o amigo com um pedaço de sanduíche e perguntou:
-Onde você o conseguiu?
Caramelo, meio magoado por seu amigo dormir no meio da explicação retrucou:
-Com certeza não foi a "Senhora Lua" quem me deu.
Preto fingiu não ouvir, caminhou um pouco e, seguindo o faro, logo descobriu um acampamento cheio de humanos. Foi lá, descobriu duas moças boazinhas que lhe deram carinho e sanduíches em troca de umas gracinhas que a vida nas ruas haviam lhe ensinado a fazer para agradar humanos. Mas depois, vendo que os humanos não lhe davam mais tanta atenção voltou para perto do amigo, que ainda estava lá, esfregando as costas na árvore - mesmo sem saber bem por que, ele sabia que assim demarcava que aquela era a "sua" arvore e de mais ninguém. Preto deita-se em silêncio.Olha o mar. E depois, deixa escapar a pergunta:
-Você não acredita na "Senhora Lua"?
-Não.
-Nem no "Senhor Sol"?
-Não.
-Para você, o mar não esta falando nada...
-Não.
-E o que são estas coisas que vemos, então?
   São exatamente o que são e nada além do que nós vemos. O mar: um monte de agua. O sol e a lua: "pedras" gigantes e que brilham flutuando no céu.Capim, arvore, terra são...capim, arvore e terra...e quando morremos nada acontece. Morremos. Seremos comidos por outros bichos.Fim.E isso é ser racional. É se apoiar na evidência. É saber que não somos especiais neste mundo e que não existem "outros mundos".Veja que isto não nos diminui em nada, pelo contrário, nos liberta!Eu sei que você fica tristeem pensar que se nada disso existe, a nossa vida não faz sentido. Mas este pensamento é tolice! É o que nos escraviza numa vida de servidão absoluta e sem sentido! Se todos os cães pensassem assim como eu, nós não seríamos escravos dos humanos e...
   De repente Caramelo se levanta e começa a abanar o rabo, para imprimir eloqüência ao discurso. Vê a sombra do rabo e passa a persegui-lo. Perseguirá até cansar pois o rabo estará sempre a alguns centimetros do próprio focinho. Preto sorri vendo a cena - embora ele mesmo a tenha protagonizado algumas vezes, enquanto era filhote, é claro. Pergunta, com certa ironia na voz, que felizmente não poderá ser ouvida pelo amigo:
   -O que esta fazendo?
   -Estou perseguindo este animal. Ele é implicante e se diverte em me provocar desde que sou pequeno mas, se eu me esforçar mais um pouco conseguirei agarrá-lo...ele é palpável. Eu o sinto! Eu o cheiro! Não é como a sua Lua que nunca falou com você! Responde, irritado.
   Preto volta a deitar-se e a olhar para o mar,aliviado. Seu amigo é um tolo!Sorri, agora  feliz, e pensa-se melhor que o amigo, já que sua vida faz bem mais sentido. E sua morte também.


(De Fabulário, livro no prelo de Vasconcelos, Ginga. Se citar, referencia, ok?)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

On the hospital...


Fala ao que me falta
A falha
a mancha
o corte sangra
meu avesso
num espelho

O que me chama
e despedaça
em carne viva
ponto-a-ponto
sou eu mesma?

Gota-a-gota
passam horas
insanas
serenas...


Tudo o que me abraça
Me esvai
Só me sobra
Soçobrar ao pranto
Ao qual não me permito.
Meu céu é um forro manchado
Onde ervas daninhas querem brotar
das rachaduras - em toda a parte
Algo se parte, se rasga, se perde...

Navego pela Rodovia da Morte
Sou sua acompanhante em semi-leito
Tudo aqui é antibiótico
a comida, o ar, o sentimento
Intoxicados com bastante capricho
Admito,prima pela excelência esta senhora
E pela janela,as paisagens me atravessam em vidro fosco
Zona de guerra onde morre o horizonte
sumariamente -diariamente
executado.

Abandonada a esperança
a força, o orgulho, o brio
convertem-se todos á suplicantes
de joelhos.Sem forças, cabe á precisão
sem prece.
Todos lá, á porta, como cães.
Te aguardam na saída onde não há.


Vocifero contra a cruz
Sabendo a pena...
Mas não é nada.Nada.Nada.
Gritos na madrugada
Deixa para lá!

Mil e Uma Ervas...


Matei a morte á sombra do outeiro
-Sabugueiro-
Ouvi soprar o vento, mas só me veio a brisa
-Melissa-
Brisa vem do maro, ao faroleiro náusea
-Sálvia-
Marinheiro que nova busca inicia
-Artemísia-
Violeiro, língua de prata, coração de ouro
-Chapéu-de-couro
Não fosse por seu pai, ama-la ia
-Maramia
Mas se é a mãe que implica, então...
-Arnica
E é sempre assim quando a paixão inflama
-Bardana
Tudo é sonho, é anseio, delírio
-Lírio
Tudo se perde, nada se salva, só
- a Malva
Bem, mas o que é para ser, será
-Cambará
Por isso, meu bem, já vou, boa viagem
-Tanchagem
Sigo meu caminho, sem eira nem beira
-Capim- cidreira
Me encanta não ter um destino traçado
-Anis-estrelado
Levo pai e mãe no coração
-Capim-limão
E de você, o perfume e o carinho
-Capuchinho
Se tu queres vou, mas se não queres fico
-Hibísco
Sucesso e sorte, é o que lhe desejo
-Poejo
Homem- ou mulher - algum é uma ilha
-Salsa- Parrilha
E o que fizer com amor, meu bem, esta bem feito
-Amor-perfeito
Alto! Quem vem lá? Se é de guerra, fogo me sobra
-Gincko Biloba.
Mas se vem em paz diga lá, o que queres?
-Hamamélis.
E o que traz aqui um senhor tão distinto?
-Absinto.
Diga-me então, por que chora?
-Amora
Dinheiro é preciso? Espera...calma lá
-Banchá
Falta a boa sorte? Tente e não tema
-Alfazema
Mas se o que te vai mal é o coração
-Dente de leão
Nunca se sabe bem o que se quer, é fato
-Unha de gato
Mil e uma as artes do Inimigo, credo em cruz!
-Alcazus
Mas se a saúde sobra,a alegria é capim
-Alecrim
Siga lutando que a esperança nunca é vã
-Hortelã
É porque a fé é grande que tudo se adianta
-Espinheira Santa.
Me despeço agora que a manhã não vacila
-Camomila
Não me queira mal, lembra bem de mim
-Jasmin

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

O anjo no teatro.




Azul trôpega ensaiando - um de cada vez - pequeninos passos, segura a mão de sua mãe atenta. Pouco atrás, um pai ansioso e preocupado, entre bolsas e sorrisos condescendentes e certo ar de reprimenda dos críticos de arte - e são tantos! "-Trazer criança para assistir orquestra é principio de desastre", pensavam.
Sempre que alguém dizia - "que lindinha"- seguia-se a pergunta trivialesca: "-qual teu nome?". Azul olhava - olhos enormes, de engolir inteira a pessoa - mas não respondia. A mãe dizia. E recebia de volta um certo ar de estranheza.
Explicava: -" O pai dela é argentino e quiz homenagear a tia, mulher de beleza e personalidade inesquecíveis..." Ah, tá! Então esta certo! Se era para homenagear a tia... Ficava assim o não-dito pairando pelo ar e tudo por isso mesmo. Por vezes alguém comentava: "-Diferente...bonito..." E a mãe pensava: "-Beleza!" Muito embora soubesse que nesta semi-barbárie em que vivemos "diferente...bonito..." ora! Isso é só outra maneira de dizer uma ofensa!
Tudo isso indiferente á pequena Azul, encantada com a imensidão que se lhe aparecia na cortina de veludo vermelho, tão vibrante, que tudo prometia e ocultava, pulsante e vivo.Como um coração.
Em frente as cortinas fechadas, aparece um homem de terno e gravata borboleta de voz tonitroante, voz de imensidão grave e impositiva, maior até que a voz de seu pai. Azul não sente medo. Sua expressão facial diz qualquer coisa como "interessante". Azul desconhece a palavra mas ela esta lá, estampada em seu rosto.
O homem alto de terno negro fala-fala. Ele diz: "-Om-dom-dom, dom-dom..." E segue a rima.
Depois sai. E após, silêncio. Abrem-se as cortinas. Cláp-cláp-cláp. Aplausos. Ela imita o que todos fazem e alguns, que observam a cena, sorriem para ela. Azul pensa: "-Isso é bom!"
Sob uma luz amarelo sol estão equilibradas muitas, muitas pessoas mesmo, também vestidas de preto, só que em grande maioria sentadas - há uma fila atrás em pé, de estranhas mesas de madeira e brnquedos suspensos em varas, como no seu quarto- em semícírculo, todas olhando para um homem muito magrinho, muito alto, muito só no centro de todos, apertadinho em um tipo de fraque, que fazia desenhos no ar com uma varinha de condão. Varinha de condão é aquilo que as moças mágicas usam nos livrinhos que ela gosta. Só que a dele, embora fininha e prateada, não tinha estrela na ponta. "-Deve ser porque ele é menino" -pensa Azul.
Ao redor, tudo vibrava, apaixonava e sentia em mil cores e cariciantes sensações, que eriçavam qualquer coisa que ela nem sabia que havia embaixo da pele. Era a música, que lhe invadia de pronto trazendo a menina seu 1º estado de poesia.
Neste momento ela para. E vê. E o que vê esta tão além da sua capacidade de entendimento que ela arregala os olhos com força, até não ver mais.  Seu pai percebe o espanto infantil e explica:
-É um Anjo. Anjos são pessoas, só que tem asas, e são mensageiros de Deus com a missão de fazer o bem.
A menina associa:"-Como as fadas..." Permanece em silêncio. Ainda sem entender do que se tratava.
Olhava atenta para cima da ribalta de onde caiam pequenas gotas que brilhavam e pareciam pequenas estrelas de papel laminado, mas que nunca chegavam ao chão. E eram tão poucas e caíam tão lentamente quanto lágrimas de um choro ressentido.Olhava para o teto, onde não se viam mãos, sombras nem cordinhas - apenas o teto mesmo, de argamassa e concreto pintados.
-É o Anjo do Teatro - sunsurrou seu pai. Ele esta presente em todos os espetáculos e vê a todos nós igualmente, mas especialmente nas estréias ele tende a se emocionar. É quando vemos estas pequenas fagulhas da alma, pequenas estrelinhas prateadas caindo do teto sem jamais atingir o chão e, ao mesmo tempo, não conseguimos ver quem as faz cair.
Azul não entendeu muito a explicação, mas ela estará lá, na sua primeira recordação de infância junto ao estado de poesia, seguido do mistério, o medo e por fim, certa esperança. A de que o Anjo do Teatro estivesse sempre ali, emocionando-se com todos os espetáculos de estréia. Azul não sabia de seu desejo, de um dia ver o Anjo e ele lhe dizer pessoalmente por que chorava nas estréias.Orava sempre por ele e pelos que se apresentavam, para que impressionassem o anjo e ele nunca abandonasse aquele Teatro.
Azul hoje velhinha, alquebrada e só, lembraria sempre daquele dia e do seu pai, que repetia o mito inventado toda a vez que voltavam ao teatro. Talvez fosse para si mesmo, e não para ela, que contasse aquela historia. Mas não importava. Pois para as pequenas estrelas que até hoje via  a cada estréia  jamais encontrou explicação melhor.Nem nunca teve interesse em procurar, na verdade.