quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Panteísta



Eu faço amor
com o vento que brinca com meus cabelos cabelos,
sobe minhas saias e acaricia minhas coxas enquanto ele me susurra qualquer coisa
que me faça sorrir.
Eu faço amor
com o sol, que indelicado  lambe minha pele
e vai me iluminando lento e ardente,
até que sôfrega, ao fim da tarde, me despeço.
E também com o mar, que deseja impressionar-me com sua força e promessas- vagas,
que se acabam em espuma de sal em meu corpo, agora a flutuar entre os abismos afiados de coral
Não há palavras, só silêncio.
Dispo-me para os píncaros mais altos que, reconhecendo-me de pronto,
fazem cantar os cristais,cavernas-catedrais de pedra- monumentais,
 rochedos em sua altivez e alegria. Toda a glória!
Procuro enfim o abandono sensível, a suave candura das cachoeiras e olhos d'agua
para beber seus susurros breves o frescor entre os seus seios.
Mas resisto, entre bravia e sedenta, a rios caudalosos e lagoas pulsantes,
que terão de se esforçar um pouco mais para me arrastarem em suas correntezas
e manhas traiçoeiras,
Provocando assim, os ciúmes doentios  dos açudes e mangues, á quem, por ora, amo assim sem paixão, só de pena.
Levo comigo brinco-de- princesa, de braços com as damas-da-noite e as açucenas
para ela - a noite - e suas pouco sutis brincadeiras, porém
Ela me atravessa em um só fôlego, e será com a Lua que o tempo passa-passará
 Na  Dança de esconde-esconde, pega-pega,mil-cirandas onde
Suspiram as estrélas, derramando-se em delicadas sépalas prateadas em meu nome.
Mas afinal eu sempre me escapo dos corredores de escuridão infinda direto para as manhãs.
Mas é rolando junto á terra, em toda a sua textura vegetal
Que me abandono em suspiros de angústia e alívio, e adormeço na certeza de ser também amada.
No chão estendida, sinto os pássaros que vêm ao meu corpo em busca de sementes
beliscam-me, fazem cócegas, trinam contentes...
É é assim, porque me encantam as criações do vento na areia,
as tempestades soltas, as fúrias de vulcão...
Que faço amor com tudo o que me é diverso
Íntimo, secreto,
Eu mesma (também)
Mistério na Criação.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Mistérios de Arlequim

  




Quando termina o carnaval, todos vestem suas máscaras - Alice França.

    Rafael era só um garoto na época, e por isso ia vestido de homenzinho ao carnaval, de mãos dadas com sua mãe, que estava linda a propósito, só de shorts, tênis e camiseta regata com o cabelo preso em rabo de cavalo. Apesar disso, Rafael só tinha olhos para seu pai. Jorjão - o pai- escolheu o vestido justo floral, a bolsa dourada demodê de festa com franjas de canutilho, o esmalte rosa choque do armário da mamãe. Mas algumas coisas, como a peruca loura e os sapatos de salto não teve jeito, teve que comprar. Mamãe ainda o ajudou com a maquilagem, mas com as meias finas não teve jeito, embora ela tenha se esforçado em ajudá-lo a vestir. Engraçado como para ela era tão fácil e para ele...um bicho de sete-cabeças. Rasgou umas três até que conseguiu vesti-las, mas não conseguia mover-se dentro delas. Foi sem meias mesmo, com a mamãe e todo o time de futebol, igualmente "trans-formado". 

    Papai ria-se ás gargalhadas, afinava a voz, requebrava, dizia indecências aos amigos e a "outras" travestidas que passavam. Sua mãe caminhava pouco atrás com ele, baixava os olhos por vezes, corava e tapava seus ouvidos infantis na esperança vã de protegê-lo das piadas sujas. Mas nem precisava. O garoto já não ouvia nem via mais nada. Começou por perguntar só para si mesmo, envergonhado...onde estava? Porque lhe parecia óbvio que seu pai, como o conhecia, desaparecera. O homem sisudo, sério, exigente,que nunca respondia uma questão - professava! Aquele magico gigantesco, que fazia sumir sobremesas e aparecer dinheiro, que parecia querer sempre ter a ultima palavra, que batia com a palma aberta na mesa a exigir respeito por tudo e por nada, que xingava no trânsito, que desfeiteava um time de futebol inteiro e todos os juízes do mundo, que esbravejava sozinho lendo o jornal, que cuspia enojado por coisas que todo mundo achava normal...este como mágica desaparecera em um vestido de florzinhas e uma maquilagem já borrada de cerveja que escorria pelo pescoço e suor pela testa.Rafael estava encantado com o que as roupas certas e um pouquinho de purpurina poderiam fazer. 

     E quem era aquele ser tão diferente? Não era menino ou menina, homem ou mulher, anjo muito menos, então o que era? Parecia-lhe, inclusive que ele provocava, nas mulheres, reações insuspeitas e reagia por sua vez, de modo ainda mais inesperado. Sim, pois houve um momento quando a mamãe convenientemente não estava vendo, que uma das moças  - com idade de ser sua irmã mais velha - levantou seu vestido quase até a cintura e lhe disse alguma coisa. Papai riu e gritou-lhe um desaforo com voz esganiçada: "-Sai daqui, ô mocréia!" Depois as questões por si mesmas se perderam,esquecidas.  Porque naquele momento, Rafael apenas fruía daquilo que tantos outros, a custa de jejuns e orações, e tantos ritos complicados e outros desvirtuamentos químicos dos sentidos conseguiam apenas entrever. Rafael contemplava um Mistério e silenciava em temor e respeito por aquilo que não foi feito mesmo para ser compreendido.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Uma conversa entre o Burro e o Cavalo:





-Não entendo os humanos...
-Quem entende? Responde o cavalinho novo, arrancando mais um tufo de trevos do chão - hmmmm, adorava trevos!
-Sim, é verdade, é difícil entender por que fazem certas coisas mesmo, mas ainda assim...
-O que te intriga, amigo? O cavalo responde,um pouco irritado, meio que por educação. Já conhece o amigo. Sabe que ele JAMAIS desiste, seja de um ponto de vista, de um questionamento ou de uma "birra". Não adiantava querer pastar em paz. O amigo iria atrás da resposta até encontrá-la.
-Eu conheço meu "guardião" quase que desde criança. Brincavamos juntos quando eu era um filhotão e ele um "crianção" pequenininho assim. Para nós dois a vida era só, correr, brincar e pular.
-Sim. Para mim foi o mesmo com o meu primeiro "guardião" só que o meu morreu mais cedo e eu sou mais velho...
-Quando a gente cresceu, eu comecei a trabalhar - e olha que sempre carreguei mais peso que ele - para ajudar no sustento da casa...dele!
-Sim, istoé certo.
-Ele também. Mas neste momento ele vivia feliz, rindo, contente que só, e quase não reclamava do peso, da idade, do cansasso, da vida...
-Ele era jovem...
-É verdade, mas eu era mais! Você sabe que os anos passam mais rápido para nós...
-Sim, isto é certo também. E daí? Não entendo onde quer chegar.
-Depois eu conheci uma linda potranca, com quem tive um romance breve mas não tive filhotes.
Nesse ponto o cavalo não comentou, pois ele, apesar de tê-los tido na juventude, pouco sabia do que havia acontecido com eles...ou com a mãe. Hoje era castrado e sentia saudades daquele tempo, ás vezes, mas limitou-se a responder, sisudo:
-Sim, todos tivemos romances, guardiões e "familias".
-Já o meu "guardião" conheceu a sua "guardiã", teve um longo romance de quase dois anos - em que eles viviam fugindo e se esscondendo para fazer o que sempre fizemos ás claras -  ao final dos quais veio o primeiro filhote...
-Sim.O cavalo lembrava disso. Seu primeiro guardião havia morrido, mas sua filha gentil ficou em seu lugar.Tudo eram risos até ela conhecer "o dono". Depois ele se via correndo com ela para lá e para cá numa pressa sem sentido até que eles fizeram uma festa e apareceu gente de toda a parte para ver. Após, sua "guardiã" pareceu estranha por muito tempo e ele ficou bastante preocupado, achando que ela estava doente. Um dia, resolveu espiar pela janela e viu que ela gritava e chorava muito. Então entendeu...e não entendeu. Ficou mais foi chocado com a dor e a violência com que nascem os seres humanos. Ele já vira muitos animais diferentes tendo filhotes, mas nunca vira algo do tipo...Parou de mastigar e fez uma expressão horrorizada com a lembrança daquele dia que ainda se repetiria uma vez mais. Depois de transcorrido mais ou menos um ano, a cena se repetiu. Sua "guardiã" teve dois filhotes ao todo,um após o outro e, por algum motivo- provavelmente certa lealdade- nunca gostava de falar com o burro sobre ela. Ele sentia - mas não conseguia expressar isso em palavras - que era algo como falar com um porco sobre as maravilhas do perfume de uma rosa. Um tanto inútil, digamos. Mas voltou a prestar atenção ao que o burrinho dizia. Agora estava interessado:
-...e veja bem, a partir disto ele mudou: começou a reclamar de tudo: do trabalho, da vida, do salário, dos filhos da esposa...
O cavalo percebeu onde ele queria chegar. Mas ficou em silêncio. Por algum motivo aquilo o ofendia, e essa ofensa se traduzia como a "sensação" quase física de alguém lhe mordendo a pata com toda a força...
-Certo - finalmente falou o baio - mas para minha dona também não foi diferente. Era uma menina alegre, tranquila e feliz. Agora reclama de tudo: do trabalho,dos filhos, do seu guardião - que se comporta como se ela também lhe pertencesse, a propósito...
-Chegamos ao ponto...se orgulham tanto de sua racionalidade, mas nós não olhamos para os lados porque eles mesmos nos colocam viseiras de couro para sair deste "cercado", nem deixar de andar por onde eles querem que andemos. Porém, eles não saem dos "cercados" que estabeleceram para suas vidas. No entando nada nem ninguém os prende ou obriga a fazerem o que não querem!Podem ir aonde querem, dominar outros seres, construir instrumentos para facilitar a sua própria sobrevivência mas não saem das "cerquinhas" por que...por que mesmo? E se fosse só isso, mas não...vivem outras vidas em sua própria imaginação,tem desejos "estranhos" com outras paisagens, outros trabalhos, outros "romances", outros sonhos...porém...vivem e morrem dentro dos planos que estabeleceram para si logo no fim da primeira infância.
-Nem todos...- diz o cavalo.
-Sim, nem todos. Mas a maioria deles, sim. Na minha vida eu conheci um ou dois seres humanos dignos de nota, que viveram várias "vidas", vários "sonhos" e mais importantedo que isso "vários pontos de vista". Sim, porque pouco adianta o sujeito ser eternamente sozinho, por exemplo -e  quem dera meu "guardião" tivesse feito esta opção - mas viver prisioneiro da obrigação de nunca se casar, de rejeitar toda a fêmea (ou todo o macho) que se aproxime,flutuando de sonho em sonho sem nenhum sentido de permanência. Creio que tudo iria ser também muito solitário e ...vazio. Não! Nada de amarras. Casar-se quando quisessem. Separar-se quando sentissem necessidade de seguir em frente com novos planos. O que eu faria se fosse humano? Não viveria como um burro!Estabeleceria um sonho a cada dia e o perseguiria sem cessar. Realizado este, corrreria atrás de outro numa espiral crescente de realizações impulsionadas cada vez mais para frente, mais para longe, mais para o fim ...impulsionada sim! Por um sentimento de liberdade infinita! Viveria só o presente, cada dia como se fosse o ultimo e...
-O cavalo rumina seu capim e pensa...outras paisagens, outros sabores, outros colegas de estábulo...ou melhor ainda...ao ar livre! Nunca estábulo!
Mas, olha em volta. Lá esta sua guardiã sempre resmungando, entre brava e  triste. O burro, falando sempre do que fosse...se tivesse sido ou decidido ou pensado diferente. O estábulo com seus colegas de sempre...Seria tão simples ir embora agora, neste momento em que estava sem as viseiras nem as cordas. Só uma fina cerquinha de tábuas apodrecidas lhe davam a noção dos limites de até onde poderiam ir. Depois a montanha e...outras campinas, outros guardiões ou ainda a liberdade total. Invade-lhe então um sentimento. Um sentimento gelado e muito estranho, que lhe eriça as crinas longas em todo o contorno das orelhas num círcuito que se fecha no peito. Olha para o lado e pergunta.
-E a nós, burro...o que nos prende agora, neste momento?
-O burro percebe o mesmo que o cavalo. Sente o mesmo. E de repente cala e volta a ruminar os trevos para todo o sempre...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Zumbis.


Aguas passadas não voltam jamais.


Eu matei no peito
Tudo de mal que rogaram para mim
E toda a benção, navalhas em cetins
para me sufocar assim,
de pouquinho em pouquinho
Mas eu puxei para mim.

E matei no peito
O que fui e o que me veio
A tirambaço na melhor das vezes
E o que capturei á laço, degolei de pronto
De dez para mais vezes estoquei bem fundo
Profundamente entre os seios jazem...agora enterrados!

Mas em noites assim
Quando bate na janela a garoa fina
E os grilos cantam mais alto que o pensamento
E talvez para ouvir além, tudo o mais silencia

Ou então...

Em noites onde tudo é encontro, amor e seresta
Todos gritam, dançam, riem e tudo é festa
Tudo vibra em profusão sinestésica
E toda a pirotecnia se exibe nos céus
-agora retumbantes jardins de flores luminescentes-


É sempre nestas noites que eles vem de susto
Com suas roupas rasgadas de seda e lama
Maquilagem de escandaloso estapafúrdio
Se arrastando sob minha pele, susurrando
á minha sombra
Provocando e rindo, me amarram á cama
Lambem-me o rosto e a pele ressente-se com
o géilido apodrecido.
Fingem cantar, mas rilham os dentes
e gritam
Nem eles sabem bem o quê
Mas querem me obrigar a ouvi-los,
Querem que eu os veja
mas nada existe para ver
Querem que eu os sinta
quando já perderam todo o sentido
Eu só, machuco, me debato
Acordo - quase sempre - sem querer.

E é assim
Por tudo aquilo que matei no peito
E que por vezes me assombra
E por vezes quererem iludir-me que tudo
Poderia ter sido perfeito.
- se eu tivesse agido de outra forma-
É que eu percebo
o quanto daquilo que esta morto
ainda (sobre)vive em mim!