sexta-feira, 30 de março de 2012

Menina Esquisita!




 Ouço as sapatilhas da menina quebrando as telhas, brincando de esconde-esconde, esquecida de quem a chama dizendo que a contagem já acabou, a brincadeira já anoitece.
Enlouquecendo os plantonistas, colocando bombinhas sob suas cadeiras, desligando aparelhos, torturando até fazer gritar as malditas máquinas.
Atravessando vitrines, beijando os manequins de cera, trazendo á fórceps a existência envolta em inefáveis véus, na transparência luminescente da imaterialidade.
Corre solta por onde se perde e vagueia  a procura do olhar do homem velho no banco da praça. E ri com seus dentinhos de leite, cobrindo a boca com as mãozinhas pequenas.
Entendia-se, bate a campainha e sai correndo pela rua afora - brincadeirinha mais sem graça!
 Depois sai para inventar alguma nova trapaça, não para quieta, sopra bolhinhas de sabão, colhe flores ainda na muda, procura pelos filhotes aquecidos nos ninhos mais bem escondidos.
Gosta de girar no carrossel da nossa ilusão.
Bate o pé. Embirra.Empaca.



  A Morte é apenas uma  menina pequena, fazendo pirraça:
-Quer docinho?
-Não.
-E brinquedo?
- Nada
-Então já sei...?
-...O que?...
-Palmada!
Não adianta. Pega quem quer pela mão. E leva para onde quer.
E quando se for, tudo ficou para trás... e já não adianta nada!

P.S:
A primeira obra é notoriamente inspirada na "Morte" de Neil Gaiman.
A última foto é uma instalação de Nazareno, que pode ser encontrada neste site aqui http://www.artref.com.br/index.php/noticias/view/1427/artesPlasticas

quarta-feira, 28 de março de 2012

Desapego.


Hoje as estações se sucedem tão sensíveis, exatas
Mas nos desvãos de alguma delas algo se perdeu
Algo que trazia o brilho para tua fala tão macia
- minha escuta clara -
Nos atravessam imagens do que não aconteceu...

Nummy - o peixinho que nunca perdia a paciência...
Nummy era um peixe belo. Muito belo.E não eram só suas escamas que brilhavam de modo especial, nem seus olhos tão bem proporcionados em relação ao seu corpo - se comparado a outros peixem e nem - embora neste caso haja controvérsias - sua cauda que se abria irregular e trazia a impressão de um finíssimo lenço que esvoaçasse na brisa.
Não. Ele era belo de uma outra maneira. Parecia saber disso de certa forma. Com a voz sempre sumida, evitava as outras pessoas e tentava de toda a forma não  mexer nem atrapalhar a vida de ninguém. Era um peixinho tímido, muito tímido que por qualquer coisinha se desaparecia para baixo de uma pedra. Só que havia um problema. Isso despertava os insitintos sádicos dos seus colegas. Todos os peixinhos da idade dele já tinham tido pelo menos um pequeno impulso em maltratá-lo. Ele era tão...quieto! E parecia se sentir
melhor que os outros (nada mais distante da verdade, Nummy sentia-se isso sim, muito só e carecia de amigos). E por outro lado parecia tão frágil...a certeza de que ele dificilmente revidaria parecia provocar nos outros os piores comportamentos em relação a ele.
Acontece que Nummy foi ficando cada vez mais só. E triste. E calado.Decidiu ficar o máximo de tempo que conseguia sozinho embaixo de um canto mais afastado entre os lindos corais. Lá a agua era mais fria e o alimento mais escasso, mas, ainda assim pelo menos ele podia ficar em paz, cantando e dançando sozinho como gostava.
Não adiantou.
Os outros peixinhos logo deram falta dele e procurando-o com cuidado,logo localizaram-no. E toda a vez que se sentiam especialmente inferiores a outros peixes verdadeiramente talentosos e belos, ou ainda, mortalmente entendiados, saíam a persegui-lo de novo. Acontece que tudo isso era observado por outro peixe, conhecido por seu veneno e por ter uma pele coberta de espinhos - o baiacú - que ficou com pena de ver Lummy naquela situação. Sabia que Nummy era orfão e não tinha com quem conversar sobre seus problemas. E um dia, quando o via fugir de um peixe muito menor do que o próprio Lummy, disparou a frase, de supetão. O Baiacú disse:
"- Você precisa revidar...na mesma altura ou pior! Em primeiro lugar, terão medo de você, depois com o tempo, terás respeito."Nummy pensou um pouco e viu que fazia sentido. Assim, quando outros peixinhos vieram para persegui-lo bateu neles sem dó. Sentiu até certo prazer nisso. E logo voltou a morar mais próximo das aguas mais cálidas, com outros peixes. Aprendeu com o Baiacu uma técnica quase infalivel  para amedrontar as pessoas. Bastava olhar nos olhos delas. Bem no fundo. Inevitavelmente elas baixavam os olhos e se encolhiam. Ele percebia isso e não sabia dizer por que. Até que um dia, o Baiacú respondeu:é porque você é daqueles raros peixinhos que se mantiveram sinceros a si mesmos. Não mudou para se "enturmar" no cardume, antes, preferiu permanecer solitário. E enquanto for fiel a si mesmo, manterá essa capacidade, ue é a de fazer refletir no olhar o que os outros peixes tem de melhor...ou de pior. Lummy seguiu o conselho e, por vezes,além de olhar bem no fundo dos olhos até que os algozes o baixassem, também sorria com altivez e realmente começou a perceber alguma coisa que confirmava o que o Baiacu dizia. Quanto mais seguro se sentia, tanto mais algo dentro destas pessoas parecia que quebrava, como uma madeira apodrecida a sustentar uma casa em dia de ventania. Percebia que o temiam e, por isso, o deixavam em paz. É claro que Nummy sabia que temor não era respeito. Mas também sabia que tinha muito tempo pela frente. E que ao menos, já era um passo...

quarta-feira, 21 de março de 2012

Veja-me partir...

O céu grita o sol que se derrama intenso e claro
sob os hematomas latentes
destes meus abraços raros.

Por que é tão cedo?

A lágrima que de tão cara brilha transparente
vinca o sulco na pele morna
escura aragem de novas sementes.

Eu não sei se há tempo...

Em tudo o que não fiz, do que não sei,
e no que calo, e que se mistura, entorpece e desliza
 pela minha mente
 -como chuva de  granizo na telha insistente-
quebrando, intenso e ritmado
ouço grilos estridentes pela grama
a derramar teu nome, teu nome,teu nome.

Eu sufoco

porque não sei
o que fazer
não faço
desfaço-me
de tudo o que for
urgente
doce rotina
amarga sorte
quotidiano
doente!