segunda-feira, 30 de abril de 2012

Canção de um luto eterno...



Hoje o mundo ficou mais triste
Ficou mais áspero
ficou mais frio
Não foi a chuva
não foi o outono
Foi minha estrela que no céu sumiu...

Eu queria que minhas lágrimas formassem poça
a poça lago e o lago, rio
Que me levasse de volta áquele tempo
De me aninhar em teu colo macio

Onde cantavas com doçura e calma
"A faca que corta dá talho sem dor..."
E eu adormeceria em teu perfume e calor
Ignorando as más cicatrizes da alma...

Mesmo quando eras dura, havia bondade
E quando eras doce, uma fonte de mel
 De par em par descerrastes tuas asas
Serena acenando, foges para o céu
Aqui embaixo ficamos presos
Agora mais perdidos e sós
neste mundo de maldades!

Hoje todas as facas cortam
 e todas as cicatrizes ardem
Não há canções na Noite da Esperança.
Não há consolo para a saudade.

*Vovó Jurema, onde estiveres, olha por nós neste mundo de maldade e ilusão!

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Da simplicidade.





Acredito no que é mais simples
Quando é possivel traçar a linha reta
Entre a palavra e a ação, como
uma seta, que torna potência
O que era meta.
E faz sangrar as certezas calcárias.

Acredito no que perdura, é claro!
Quando a pedra dura cede ao
tempo-água, que se faz ao nosso
quotidiano ordinário,
molda a pedra
afunda a barca, e nos mergulha
na correnteza da vida
sempre urgente!

Acredito na palavra dita sempre
Quando é a certeza que excita
a denúncia da injustiça ao máximo
E torna o nosso querer, assim,de pronto
Algo que arrepia o pelo e faz brilhar os olhos
E nos leva, num instante, ao radical confronto...

Mas, se isso não for, deixe-nos sós
Deixe-nos viver a Lenda Eterna
Deixe a nossa mente ser a única lanterna
E que nosso corpo exausto adormeça em seu conforto!

sábado, 21 de abril de 2012

Srtª 13 - Simplesmente a mais azarada do mundo...



Hoje é sexta treze e você se sente
mais só que um gato preto -  com o dono viajando-
E a lista de problemas já não é nenhum segredo
"-Esta como Deus não quer, mas o Diabo gosta..."
As pessoas te evitam, falam pelas suas costas
Mas sempre lhe disseram: "você só traz azar"! 
Você vê recusadas suas melhores propostas
E a rima é facil: "até quando...aguentar"
Sempre acontece algo, e é você quem esta atrasada
É você que esta errada, que não tem compromisso...
Será que já não pagou sua quota para o diabo?
Será que não se cansa de ver tudo dar errado?
Eu já sei, você não quer mesmo falar sobre isso...

E mais uma vez ele foi embora
Sem te dar opção, explicação ou uma ilusão
Tirou seu chão e bateu a porta. Você não cansa
de se perguntar: "-Oque eu fiz? "-O que eu não fiz?"
Mas o importante não vem a mente: o que você fará?
Mas se pergunta será que é de verdade? ele vai mesmo te deixar?
100 ligações e mensagens e você segue para trás
encarnando  um radical  ciclo vicioso...
(é de novo a vodka...e vodka de novo...)
Se vai levar as coisas só quarta, porque não leva tudo?
As lembranças, os presentes, os planos
de final-de -semana-feliz-de-cinema-mudo
Sera que ele atende se você ligar?
Sera que é ele agora, pedindo para voltar?
E todo mundo tem a solução, mas não pode ajudar
É o amor, disparado, o mais terrível dos vícios
Mas você não quer mesmo falar sobre isso.

E mais uma vez você perde o emprego
Já esta calejada, o ritual é sempre o mesmo
Arrume tudo para o próximo, seja consciente
Despeça-se daqueles que foram seus amigos-suplentes
E "daquele" que sempre quis te ver pelas costas, tramou
armadilhas e puxou seu tapete.
O mesmo sorriso, para todos e todo o sempre
Na gaveta estão as planilhas, os projetos e os diários,
E uma vaga nostalgia frente ao irremediável
A certeza das contas em acúmulo, empréstimos,
juros e alguma escassez. Afinal "- aqui você já é freguês!"
O que ganhou Mais experiência...e um carimbo
 na testa: "A Otária do Mês".
É, amiga: "Querer demais é sempre ter menos
do que é preciso"
Mas você não quer falar sobre isso...

E mais uma vez você sente que não era bem isso...
Encobrir-se com os farrapos de uma bandeira
enxovalhada, já não encobre sua vergonha
Há muito tempo que anseia, que dorme e não sonha
E é quando sua fé vacila que caem cem mil a tua esquerda
Mas como enfrentar o futuro com a espinha reta
Se a festa acabou e é impossível voltar atrás?
Se o senhor é o pastor, ele conduz ao abismo
Será que este ano eu quero mesmo votar?
Será que nesta vida...o vislumbre de algum sentido?
Você viu o que ele fez...você soube daquilo...?
Mas eu já sei...te conheço...tem mais um pouco
bebe a ultima!
Afinal você não quer mesmo falar sobre isso...

Escrito na lua minguante do dia 13 de abril de 2012.





quarta-feira, 18 de abril de 2012

Ata do Seminario dos Anjos - 1º de Abril de 2012.

 

 Pisa de leve no tapete. Olha, e para. Todos o reconhecem, mas ninguém o cumprimenta. Estão ali em círculo, uns deitados e outros sentados pelo chão da sala, asas semi-abertas.Alguns, face esquecida sobre as mãos, quase dormindo. Outros apoiados em grandes almofadas. A iluminação é fraca, dada pelas chamas da lareira - labaredas domesticadas. Acomoda-se á um canto, na escuridão de outra peça, um tipo de sala-de-estar.Ás suas costas esta a pequena cozinha. A vantagem mesmo é a proximidade do hall de entrada (e de saída). Presta atenção. É outro que toma a palavra. Defende a tese mais bem aceita:
-A mais bela mentira é a que oculta a falta, e evanesce no horizonte as nuvens da tormenta - o tormento, a mágoa ou a desgraça. Que belo é mentir, para salvar uma vida! Resplandece a ilusão que, generosa, encobre uma ofensa.
Quem fala é Gabriel, que lhe vira o rosto em perfil explêndido. "- Como é carismático" - logo se pensa.
Todo o ano se reúnem em pleno, para debates profanos que redefinirão nova senha. De que? Segredo.
Mas alguém duvida, tosse em seco,  aperta os lábios e faz que "não" com a cabeça. Olhar cansado, vincada a testa...é a imagem da obstinação cega e da inumana sede de justiça e impaciência. Ergue-se uma voz de entonação mais dura, mais forte, compassada e clara...como uma adaga faiscando ao rasgar a pedra.
-Insisto que a mentira mais bela não é a que protege e amordaça...mas a que liberta! Tudo o que os homens fazem e substituir mentiras, umas pelas outras, cada qual mais imensa! Mas vejam quanta diferença há entre quem pode crer que a vida seria melhor  - se conquistada -  e aquele para quem nunca nada presta. A história é rica em exemplos "...minha vida será melhor depois da cheia", "...quando houver a República", "se houver guerra"!
Faz uma pausa. Sorri.
"E quando acabar a guerra..." Completa. Qual de nós não cansou de ouvir tais coisas! E a desilusão é certa! Mas a quem isso importa? Realizam-se as obras, morrem as esperanças...fica o que resta!E o que resta meus irmãos em armas...é a História! Rica e vária, é verdade, em sangrenta violência! Olhamos para trás - como aquela famosa pintura - e nossos olhos ardem na faísca de chamas imensas. Mas tal qual miragem nos desertos da esperança...resplandecem ideais! E como se superam os homens quando ameaçada a sobrevivência...
   Levanta os braços num gesto de incompreensão. Olha ao redor, á procura, de palmas, de gritos, gestos de aprovação...mas nada! Então Miguel se cala. E senta. Então uma doce criança, ainda resplandecente de úmida beleza, ergue a delicada mãozinha (pombinha esvoaçante) pedindo a palavra. A voz é um sussurro breve, titubeia.
-Tão grandiloquentes foram os que me antecederam, que até me envergonha meu discurso agora. Me pronuncio apenas porque todos devem contribuir de igual maneira. Mas peço que não zombem antes de ouvir a idéia que me ocorreu hoje, antes de vir, em frente a penteadeira. A mais bela mentira...ora, e por favor não riam, é a maquilagem! Mas como? Perguntei-me, eu mesma resistindo a idéia! Mas veja! Para e pensa! A maquilagem nivela...harmoniza o desarmônico, confere novas cores as faces cansadas...evoca o máximo ideal de cada época, recria  o que é perfeito em renovada beleza. E a beleza, amigos, é o consolo mais prestimoso da amargura. E não é extática como a escultura, pois que junto ao rosto, torna vivo o que era apenas idéia! Rivaliza com o Tempo e até mesmo...com a Morte, veja! Não pedem as senhoras em seu leito"...me enterra maquilada"? "Não permita que me vejam em desleixo?" E ainda, muitas vezes mais que a clássica "...não me deixa"? A maquilagem é Arte, e é tão democrática! Esta nas mãos da mais pobre jovem e da mais rica velha! Da mais bela dama e também da mais feia! Alguém pode contra-argumentar: "...mas e os homens? " Só resta a eles então as mentiras assim...mais feias?" Bem, a pergunta era qual de todas era a mais bela.E tal pergunta demonstra desconhecimento.Não são tantos os que se maquiam hoje?
Interrompe Miguel: "-Ah, agora já chega!"
Segue-se a querela. A última imagem que guarda deste momento são os olhos grandes de corça assustada de Haniel- Eterna Jovem. Que silencia a todos sempre, com sua beleza intensa. A todos menos a Miguel, é claro...
Na escuridão sorri um Anjo Caído, meio de esguelha.
Samael, de mansinho sai, por uma fresta. Precisa de um cigarro, antes de voltar para a digna assembléia... Ninguém lhe presta atenção ou pergunta nada, as coisas são assim, é mesmo uma pena. Quem mais que ele viveu a alegria e a dor profana? Quem melhor que ele conhece a alma humana? Se alguém lhe dirigisse a palavra, a resposta seria a certa.-"Não amigos, não são as boas intenções, nem os altos ideais, tampouco a maquilagem  - mesmo que sendo Arte - as mentiras que mais perfeitas. Estes são apenas, como vamos dizer...seus brinquedos? Sim, os jogos desta máquina que é o homem e que incessante as  produz e ainda a muitas outras, agora mesmo, neste momento. As mais belas mentiras são o que eles chamam "lembrança"...destas lembranças que antecedem mesmo á qualquer pensamento.