terça-feira, 30 de outubro de 2012

Conto de Halloween 1 - Quanto mais eu rezo, mais assombração me aparece...









Emergir. Não é  assim, algo que surja como um pensamento mas é parecido - só que menos perfeito - que um instinto.Estendo os braços para cima, palmas voltadas para fora, dentro do ritmo mas completamente fora da marcação. Passam insensíveis aos meus tímpanhos mil tons submersos. E só assim eu sei viver. Não retenho mais lembranças. Você não viu mas eu já fui embora, patrão! E esta sim,é a única memória que tenho agora que me falta o ar. Me sobrevêm um alento.Toda a vez que precisei ser livre foi só dar as costas em direção ao mar, onde por ora vejo, nas aguas verdes-claras, o impreciso reflexo-luz-do-sol. E quando me projeto rápida sinto a dor de algo que não-se-quer-rasgar dentro de mim e que me puxa para trás.Uma corrente.Então compreendo minha condição. Deixada para morrer acorrentada e submersa, como tantos outros.Só que não. Eu não! Não aceito...nunca fui mesmo de obedecer ninguém! Guardo na boca uma sensação de sufocamento, mas que ainda não é. Lacrimejar com os olhos abertos na agua do mar traz uma sensação estranha, como a voz das acusações, das mentiras risonhas, das hipocrisias patetas, da animação latente no vício e na sutileza das palavras reptlíneas.E o pior de tudo, a cansativa repetição. Minha Deusa, como se repetem esses peões!Ai, que não aguento...que complicação! Tenho que me lembrar: de vez em quando é bom fechar os olhos para sair do tormento. Eu sei que estou me afogando em múltiplas versões,parada no meio da rua com o sinal aberto,discursando para mil pessoas encima de um carro de som,a dançarina das calçadas que perde o equilíbrio, que gira pelo palco tentando interpretar a si mesma, lua envergonhada e nua a tentar ocultar-se do indiscreto telescópio de Galileu Galilei, atrás de comícios,correndo para não perder o ônibus em dia de chuva...em todos esses momentos eu ouço vozes.Elas susurram e sorriem as minhas costas. Sua sede do vivido. Suas marcas apodrecidas de arame farpado e vazio - será solidão? Suas perguntas sem interrogação. Despejando suas mágoas em ondas sucessivas de acusações levianas.Tudo ainda implacável e sem fim - a roda da história? Esta mais para roda do karma. Que piada! Eu viro para o lado e cerrando os dentes, percebo que já começo a respirar agua e doem os pulmões...em breve será engasgar e mais para breve ainda o meu fim!Com as duas mãos eu puxo a perna com toda a dor, toda a força...e a agua escurece de sangue. Meu pé. Tive de esfolar metade da pele que flutua atrás de mim como uma ferida em chamas que fosse também uma pluma de cetim de sonho muito, muito leve. Eu sinto que posso conseguir. E venho á tona. Engasgando sangue, sal e dilemas (só seus) que não mais me compelem...Por favor - e na boa! Se não me suporta nem aquece, vê se me esquece!

sábado, 20 de outubro de 2012

Noite de poesia.




 Cerro os olhos e no intervalo
entre o sonho e a prece
Uma ponte me atravessa
Uma ponte que dança
Onde a escuridão me encontra
E abraça, distrai e esquece...
Estou sorrindo
e vou passando
Eu cruzo a ponte
Sigo cantando
inventando a letra,
De repente, sobressalto!
Será minha sina?
Cai uma estrela
Ardente -já foi dançarina,
E agora é lágrima
Deslizando clara

Pela noite negra
Era a poesia...
E o meu desejo
um suspiro breve,
na travessia imensa
onde bebo e desce
pela garganta seca,
-lento, forte e doce-
linha após linha
Nascerá o verso
Como um brinde á vida!

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Exodus







Você foi longe demais
E quando se viu
não se pode mais
conter, não se pode dizer
para que fugir?
para onde vais?
passo firme em pé descalço
foste até o limite
Ao acaso,
para despistar
retornou por sobre as pegadas,
através das cascatas
caminhou pelas águas
ouvindo atrás de si:
"-Onde foste?"
"-Onde estas?"

Debruçada sobre o vazio,
em busca do próprio reflexo
lança o grito: "-Quem morreu?"
Resposta: "-Eu"."-Eu". "-Eu".
No abismo, e a escuridão devolve
o riso para aquela que se perdeu!
Para se melhor se encontrar
Meter o pé na porta!
Fechar bem os olhos
Para sair do labirinto
Andar as cegas ainda será
O melhor dos destinos.
Deixar-se levar
Missão ou desatino?
Pela noite escura
Tão longe de nós
Sem olhar para traz
Não sabe onde seguir
Nem se vai conseguir
Voltar ...perder...jamais...