sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Quando ela passa...










A poesia amanheceu meus sonhos
E cobriu-os com o sereno
E inundou-os de luz, e emprestou-lhes cores
E delineou-os em versos
Até que estes,  antes névoa e silêncio,
Se fizessem caminho sob meus pés.

A poesia  tornou-se canção
Espraiou-se pelo ar, arrebatando os sentidos
Desvelando para o mundo inteiro sentimentos tão escondidos
Que agora encharcam o olhar
E foi também a chama que aqueceu  e iluminou
E, junto aos temperos certos, emprestou sabor
Aos elementos que em mim se aferventavam
E por mim tornados um se recriavam
Em outro verso, outra rima, outros ritmos.


A poesia soprava meus cabelos
Enquanto eu via o que era amor em mim
A correr pelo pátio, na hora da saída
para muito além de onde se perdeu o horizonte;
No olhar do menino, alegria e tormento,
no olhar da menina, um maravilhamento,
E como é belo doar-se ao saber
Render-se em entrega simples ao conhecimento.

A poesia se revela na conversa amiga
Que trai segredos enquanto confidenciamos
sortes e destinos, sinais e sinas - tantos planos
que se refazem em nossa fala, fluir de aguas incessantes
E quando o silêncio se faz e preenche todo o espaço
é nossa amizade a poesia, um abraço apertado
Que faz valer a pena toda a hora, cada instante...
Abro a porta e é a poesia que me encontra agora
Correndo em círculos buscando de meus afagos,
Recebe-me com a alma, luz encanto e alegria
Mesmo que eu só lhe traga meu sorriso
Minha inquietação, meus vícios... e minhas mãos vazias.

Quando entardecer ainda será ela
A arcar-se e ronronar ,enovelar-se em meu colo
Com seus olhos azuis de amor, tão linda, mansinha
Esparramando-se como em cores liláceas, o pôr do sol
Como o cheiro de café forte e o merecido pão
Pingente brilho, sininho chinês tilitando em si bemol
É ainda ela, a poesia, minha rainha
A esticar as garras e mordiscar minhas mãos, lambendo-as
Com sua língua tão áspera. Quando  não me sinto mais assim,
Tão cansada, tão forte e tão sozinha.

E quando caiu a chuva e veio a tristeza
Que represada tantas vezes, inundou meu rosto
E transbordou o cheiro da terra molhada ,lá fora
E aqui dentro as lágrimas quentes ,o gosto do sal na língua
um certo desgosto.
Veio também a poesia, com a suave promessa de que fará brotar
Uma cheia ainda mais imensa de novos verdes brotos,
E quando veio a noite, a serenata plena
Da poesia junto aos grilos, aos sapos e as estrelas
E dos pirilampos e esporas as faíscas claras
Dos versos e paixões tão rubras, torturantes cadenas
E até no ódio profundo, esta outra paixão sangrenta...
Ela no fundo se esconde a rir-se de quem pensa conhecê-la
Pois a poesia, amigo é para quem não pensa tê-la
Ela é verdade, mas não pode ser descoberta.
Se a encontrares é um acaso, um momento e se vai
Pois seu mistério mais profundo é residir em parte alguma
Quando a perder será para sempre, mas esquece-la jamais...

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Ancestralidade




Eu não ando só
Atrás de mim estão eles
com o rosto pintado
batendo os pés ritmados no pulso da terra
Cantando em tempos de paz
- E que força me traz este canto-
Ensaiando seu grito de guerra.
-Quanta paz se liberta neste grito - 
Trazem nas mãos a semente
De uma cura secreta
Sopra a fumaça, avô, no meu rosto
Suspiro da mata, ai meu povo!
É povo da floresta.


Eu não ando só
Vem logo atrás
Com a pele obsidiana ardente
-que rescende a perfume de flor-
Eu sinto a presença pois sou descendente
E sigo gingando, sambando, cantando seus
deuses (minhas deusas)de cor.
A minha oração desenha-se no ar, com o corpo
E ninguém que a tenha visto pode lhe retirar o valor
Deles é tudo em mim que sabe, rimar canção e luta,
amor e liberdade erguendo sempre a voz,
Rodopiando em diáspora, espalhando mil sóis
Semeio ao vento seus nomes secretos,
São bantus e gêges, angola e ketus nagôs!

Eu não ando só
Arrasto atrás de mim
O povo branco com seu estranho legado
A sede do tempo, a língua saudosa, o amor ao mar
um saber emprestado com gosto de sal.
Na ponta da língua só uma resposta:"lá fora há uma vida
...lá fora...lá fora"
E quando eles me vêem, do outro lado
E quando me querem, descobrem o rosto
Me erguem num abraço e emprestam
a sanha conquistadora daqueles que moldam o destino
ao seu gosto.
Eu aposto...

-Mesmo quando silenciam
E se encobrem na paisagem distante
E se afastam na escuridão da noite
Correndo com os pés descalços
pelas florestas inclementes
Escondendo-se capoeiras
Nas canções que ainda virão
Galopando pelas campinas
Rasgando uma nação, solto o grito e eu sei -
Que eu não estou só

Dos que me amam e vêm, empurrando para frente,
a rebelde liberta e grata pela graça de seus ancestrais
Saibam hoje que eu ouço o grito, eu canto em coro, eu quero é mais....