quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Estóica.


Há quem ande com os porcos - em busca de pérolas
E há quem ande de arrasto pelas dunas quentes
À cata de sementes
Há quem veja em cada caquinho brilhante
Uma pepita de ouro,gotas claras diamantes...
Passe a mão pela pureza simples da mandala e
desmanche...

Por outro lado...

Há quem faça da espera uma dança cósmica
E trace com paciência seu caminho para casa
Com migalhas de estrelas
Que os corvos por fim irão devorar
E depois virão em sonhos lhe contar...
- Prenda os cabelos com suas penas belas-
E deixe que a maciez de suas  nascentes negras
lavem toda a lembrança

Não tem mesmo importância!

A beleza da viagem não se calculará
pela distância...


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Recomeço...







Puxa o fio solto
Da cortina de fumaça
E uma realidade se desfaz
Enquanto outro sonho
Se desvela...

Unidas as mãos em silêncio
Retira-se antes de ouvir
os devidos agradecimentos
-os sentimentos mais vingativos acordam fácil, mas dormem cedo.

domingo, 6 de outubro de 2013

Liríadas Amenas - ou o princípio da primavera, ainda que tímida.



Cerrando as pálpebras
Para o beijo luminífero
Ouço a canção
De liríadas Amenas
Leves anos,
Lindos lírios,
Era dos risos, amigos,
açucenas.

E por que não? 

Peça!
Grita!

Enlouquece!
E serena..."
Ginga Vasconcelos.

Pensei que pudesse ser o céu...





Senti no seu olhar
Força tão grande, 
de entranhar
Coisa de dar medo
De tão estranha
E eu quis vencer a gravidade
Daquele momento
Para entrar na tua órbita
E então descer 
no que existisse
de mais profundo
De você
E que reside assim tão distante.

Mas então percebi, em teus lábios
o que se perdeu
O que já não há
E por isto mesmo estará
mudo.
E desejei outra coisa
Que te fosse intenso o sentimento
Por mais ou menos um quarto
de segundo
Se você soubesse...

O que o medo não é
O que não pode dar
O quanto a si mesmo conflita

Então teu grito iria brotar 
Como nascente
Calma e lentamente
Tranbordando até virar a cheia,
Capaz de preencher o mundo

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Desapego.





Depois de tanto tempo
Com os punhos cerrados
Contra pontas de faca
Em gesto de força ou
fechando a defesa.

Em abro a palma para
fluir a agua
escorrer a areia
Deixar escapar o que resta
por entre os dedos

E virar a mesa.

sábado, 6 de abril de 2013

Equinox - Março


(Foto: Lisandra Nienkotter)
  
É velha avó que se inclina
Para depertar, com um beijo,
a mais amada menina
"-Bom dia! Minha linda."
E ela sussurra "-Bom dia..."
Para onde sabe, não há ninguém
Mas sempre estará mais perto
Ainda que, para sempre, além...
É um laço que se aperta
Unindo um verso ao seu poeta
E o que parte e acena
E também o que planta e serena.
Esta para além da contraparte
Será poder?
Será arte?

É a procura e o encontro
Que logo conflita e se quebra
E para cada pedaço que resta
Uma cicatriz ou um conto -
acumulando assim os pontos

Para ser  o sonho
-prenhe e eterno-
De uma noite de verão,
No apogeu, o ocaso
Dançando leve e extático

Irrompendo uma nova estação

Para que algo se revele
Será firmado um segredo
Sístole e diástole
Amor e Morte
Vida e Medo
Revezam-se
Em tons vibrantes
Pois tudo muda o tempo todo
Para se manter como era antes...

segunda-feira, 25 de março de 2013

Síntese.





Sem umbanda
O mundo não anda
Dizia um velho perneta
De paletó e bandana
Mas o que traz á vida a pulso
Ora, é que são elas!

Acendendo nas esquinas
Multicores sombrinhas
Enquanto deslizam sérias
Pelas calçadas lamacentas
O salto vem ritmando
E o sereno vem rompendo
Gris seus olhos como seus casacos
Ou seus cabelos, que já foram negros,
Sapatos agora encharcados
De mágoas, pingando destinos
Que criam poças de lã
Que vivem se enredando
E picando seus dedos
Braços dados seguem em frente
junto aos seus sonhos desfeitos
"-Podia ter sido tão diferente..."
"-Teria sido perfeito..."
Esbarram sempre no '-se eu tivesse..."
Trazem no olhar uma febre,
uma loucura,um desejo
Até que,meio que tropeçando,
correndo e rindo,
Ás alcance o primeiro raio de sol...
É quando sorriem num suspiro.
E só agora percebem
"-É verdade...já faz tanto tempo..."

Dedicatória




É uma ilusão pensar que estar retesada, por algumas horas sobre as quatro patas, à espreita, olhos fixos na presa, necessariamente significa estar tensa. Eu, por exemplo...estou aqui já faz algum tempo e sei que, do outro lado da estante ela também deve estar, embora não a veja.Sei que me pressente.E sei que, desorientada, sem poder me ver, prefere fical ali, encolhida no seu cantinho seguro seguindo o impulso que lhe é natural. Afinal, preservar-se é o instinto da presa!E é tão melhor ser tudo assim, sem pressa.Então, como eu dizendo, não é tensão, muito pelo contrário!A primeira de nós a se sentir ansiosa, insegura e fizer o primeiro avanço naturalmente perde!
É verdade, não há tensão - pelo menos não no sentido estressante do termo - mas outra coisa, mais suave e intensa. Se houvesse, eu correria o risco de errar o bote.É mais que um simples exercício, distração do tédio ou necessidade de sobrevivência. É algo como uma missão e um prazer. Traz alívio e prazer intenso sim, quando se encerra,  e como a caça será sempre será um ato em si mesma mas...é nesse tempo, imóvel e a espera que há beleza.Ouvi sim, o ruído. Mas é só um truque. Eu sei.
O tempo passa, e há uma canção insistente nos meus ouvidos.Uma canção de morte.
Depois de um tempo,aconteceu enfim, tudo muito rápido.Eu a encontro tentando fugir numa diagonal, disfarçadamente.A pequena para.Pensa, imóvel e continua sem me ver.Fez tudo para que eu não percebesse. Inútil. Eu, lentamente, faço o percusso contrário ao seu e dou a volta na estante.Em breve, ela me encontrará frente á frente.
E o que se segue é uma dança lenta de emboscar e se retrair.Trazer para si com as patas, morder - como numa carícia - e fingir desistir...apenas para pular sobre ela novamente, com toda a força, ao perceber o menor resquício de esperança. É preciso torná-la exausta. Até me cansar. E quebrar o pescoço e sentir jorrar sinestésica lembrança. A pequena cerra os olhos, e a escuridão sobrevém sobre a memória, as ambições e ocultas pulsões, provavelmente esquecidas dela mesma.E é tão triste este ponto final.
Mas já é hora. Devo entregar ao Orientador aquela que é a minha parte,ainda macia e tenra - embora um tanto fria - pois que ainda não lhe chegou a rigidez funérea.Sangrenta eu deposito aos seus pés, após muito vagar pelas bibliotécas, o sangrento resumo de minha obra. E assino com a língua áspera minha sutil dedicatória.

Canção para dormir em dia de chuva.



A agua pura
Susurra
Gota a gota
Um segredo mudo
Para a terra nua
Lá fora

Perfuma
Ritma
Insiste
Entrega
a calma
Engana a mágoa
E ignora!

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A mais bela mentira...




Meu dia começa quando refaço meu rosto, refletida a nudez em granito negro e no espelho nada mágico. "-Espelho, espelho meu...quem serei por hoje?" Silêncio. Sou ninguém. Nada. Vácuo.Mas o ritual já é tao conhecido que minhas mãos seguem lentas para o recipiente liso, róseo e transparente, tão plástico quanto minha alma. Todos pensam que maquilar-se começa com a base...não! Começa com lavar o rosto e fazer bastante espuma com o sabonete. A água levará embora as marcas do travesseiro e de seus sonhos - ou pesadelos - mais caros. São eles que lhe cobram e fazem pesar os anos como bolsas sob os olhos.Crueldade eu sei, mas a agua os levará em parte, gota a gota, esquecimento balsâmico nesse Estinge caseiro que é a nossa torneira prosaica. Secá-los com a toalha disponível e só por preucaução, esperar alguns momentos.
Esfoliação.Teus lábios carregam linhas de desgostos e pele solta pela acidez da saliva indesejada. Amargura. Fubá e mel é minha receita caseira, mas eu sei que existem outras. Como limão e açúcar. Lâncome. Anna Pegova. E agora é claro, eu desmarco suas linhas ou as apago. Sem fronteiras. Sou agora alguém sem voz e sem desejo. Sumi, eu mesma, com minha boca!
Mas não...Muito acima deste meu voto auto-imposto, há um fosso de onde se pode ver lava borbulhante em eterna ebulição. Eu sou um risco constante de erupção, mas sempre dei sombra aos que me rodeiam, e aos meus pés já se erigiram cidades.Pois que há muito cedi terreno, abri concessões entre meus seios e vales, e agora não sei bem como seria o regresso á natureza selvagem. Acho que impossível. Já posso molhar meus dedos na fantasmagoria de todos os meus enredos passados. Hoje parece não estar assim, tão claro! Quem serei eu? Esta fera intratável que ronda de lado á lado tentando escapar pelos olhos? Uma criança travessa que vai correndo entrar, batendo á porta? Eu lembro de uma menina que, intimidada, dá dois passos atrás...uma sonhadora indomável.Mas hoje tudo parece tão mais sério.E se olhar para trás, e não para frente, me perco. O que eu quero mesmo? Criar uma película transparente e úmida sobre a minha face é como tornar-se Deus com uma pequena porção de argila, para modelar as imperfeições do rosto, o tipo de heresia que denuncia a imperfeição da obra.Uma delícia!É clássica, invisível, onipresente e básica. Um véu de esquecimento agora firmemente colocado, trazendo a impessoalidade certa, a medida clara do mistério.
Eu disse que amava meu rosto?Aí esta a segunda mentira. Corretivo, em todos os sonhos da juventude, tudo aquilo que se perdeu e segue se perdendo.Corretivo, nos momentos que não vivi por medo. Corretivo para aqueles que vivi, contrariando todo o instinto de auto preservação. As manchas da incoerência, da persistência e do sol a sol, as manchas clássicas do descanso na praia e da sobrevivência Batidinhas leves de corretivo e pronto! Agora apagado. Pausa por um momento.Confirmo no espelho o que me inquieta. Terei me traído? Inexpressivo! É isso mesmo!
Dizem que a impressão que seu rosto deve passar é a de ser aveludado, como uma rosa. Mas isso é apenas em parte. A sensação é que sua pele deve ser como deveríam ser suas emoções: desérticas. É o momento do pó de pirlimpimpim, translúcido e claríssimo, que retirará desta mesma pele os últimos traços de suor, sevícia e humanidade.Pronto!
Que venham á mim as sombras! Opacas e cintilantes contradizendo-se nuas, esgrimando em dualidade perene, pelas pálpebras móveis e côncavos secretos.Ao que se segue uma fina linha delineando minha alma em negro, abrindo a linha d'agua - o nível de meus oceanos - em claríssimo branco.Finginda atenção, fingido espanto, serei minha? Serei sua?Malícia... Lacrimejo um pouco e esta pronto!
Sorria! Você esta ficando velha! Cansada! Sem a menor paciência! Mas de pouquinho em pouquinho parece que lhe roubam cada vez mais.Uma doação de sangue involuntária? Meu Deus, como você parece pálida!!! Por favor corrija isso. Blush rosa. Terracota (?!). Cobre. Encobre as mágoas.
Delineando os lábios eu percebo como vou ficando assim, pequena e inofensiva.É preciso agora definir minha nova cor sem sair do tom. Batom. Cor de boca por cima da linha imprecisa, para dizer que passou um pouco dos limites e mais de uma vez é saber-se eternamente no Édem, tentadora! Gloss é a glória! É sensual! É dom e encantamento e promessa...de simplicidade. Vá se entender!
Há muito que se repete esse ritual. O que muda mesmo são as cores e o que quer-se dizer...princesa! Rainha!Rei!Chefe ou guerreiro...Recatada donzela! Esposa! Gueixa!
"Mas índia, quando se pinta, quer guerra..."
Duplo sentido, ironia fina, dupla face...Agora perfeita! Porque equilibrada, laqueada, distante diva, musa insincera...
Já não sou eu mesma...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A um diabo(a) na garrafa (to a devil in a bottle)



Demore a devolver minha memória
Por favor, não a quero já,
Assim, aos golinhos, de pouquinho
Como fui me afundando um pouco mais,
Sete dons prometestes, e cumpriste
Fielmente...
Infelizmente...
Ainda ontem...

Quanta sabedoria!
Eu lia mentes, via o futuro, inventava chistes
Enquanto tu, junto a mim, lembrava e esquecia
O que era mesmo que eu ia dizer? E o que importa?
Se todas as coisas são tão fáceis  de compreender
Parecem mais belas,interessantes ou simples de resolver.
São as entrelinhas precisas de uma escrita tão torta...

 
E eu gargalhava...
E as pessoas são assim, tão engraçadas
Com seus gestos e posturas ensaiadas
Teatro sórdido de uma vã hipocrisia
Denunciada, se não no rosto, por suas linhas
Por seus próprios olhos, traídores de seus recalques
Em suas vicissitudes tão mesquinhas...

Dançar, cantar!
Girar no ar, em teus abraços, á exaustão
Sentir a vida pulsante num frenesi
Dar vida aos seios, aos quadris e ás mãos...
Fazer desfilar um sem fim de sentimentos
Vocalizando uma vida,um instante, um momento
Trazendo á tona um mistério de si mesmo,
Voltar a girar, para contar, cantar e seduzir,
Cair ao chão, escandalizar e voltar a rir!

Eu enriquecia!
Quanta abundância, quanto desperdício, um transbordar
De taças, de sonhos e de esperanças
E parece até que o dinheiro dava cria
Pois as garrafas já eram sem conta sobre a mesa!

Quanta beleza!
De repente não existe mais ninguém que seja feio,
Nem nada! Tudo é lindo! Tudo brilha!
"E o ser humano nasceu para brilhar..."
É tanta a perfeição que se contempla
Que comover-se é o natural, é o que se espera...

Quanta a tristeza!
Tantas lágrimas, tão amargas,
tão sentidas! Quanta dor o peito é capaz
De suportar? Derramar-se, estremecer,
e confessar...ora, também é dádiva!
Que purifica, traz a paz e ilumina
delira e purga
machuca e faz sangrar
mas o que arde, cura e alivia!

E a lascívia!
Tão perigosa, veneno tão secreto
Que ninguém consegue sentir no paladar
Aqcua toffana, lenta e letal
Traiçoeira para atrair,
sorrateira no emboscar
E quem poderia se opor
 a esta predadora?
Pois lascívia é paixão,
loucura, é bicho-fêmea.
E como tal não se deixa saciar!

Mas tudo evanesce!
Tudo acaba,esquiva, logo amanhece
É você preso em sua cela de vidro
De novo! Onde te atará o saber teu nome
tuas velhas leis e rituais antigos
Pois tudo deve permanecer como esta
Mas sete dons prometestes, e cumpristes
Fielmente...
Felizmente
Nunca mais!








sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eu, luto...



A cidade troca de pele
marcham ritmadas
negras botas
e seu perfume tão característico
agora rescende
novas notas
orvalho matinal
sob pétalas carbonizadas
-Pólvora?
Eu sei onde estará
É só farejar o ar
Ouvir para onde as sirenes
Gritam e correm
seu desespero cego a iluminar
O povo em raro estado
De concentração.

E como sempre foi
Assim será
Quando previr o massacre
Tornando contornos quotidianos
Sentir o relampear tão rápido
o brilho da facada nas costas
ou de violentos massacres
Na trama que tecemos
laços e nós, ano após ano
Ponto por ponto, que une e sangra,
a carne crua anestesiada
paisagens que desumanizamos
-"That's only business"-
E eu não sei se posso lhe ajudar

Mas saibam que podem contar comigo
Onde florescem, onde se escondem
As sementes da esperança ou
as chagas do desespero


Eu estarei lá

Da série "diálogos para pensar".







Amigo - ..."Eu queria ir a festa a fantasia. Mas tem um problema. Nunca fui em uma, então não tenho fantasia.
Pensei comigo e nem dinheiro para comprar uma, exatamente como eu na minha primeira festa a fantasia.
 Eu - ..."Não se preocupe, é só aliar memória á criatividade. Todos os dias, você veste uma fantasia nova. Só que não percebe..."

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Anseio










A espera não sabe que "não é"
Então insiste
Cambaleando caleidoscópicamente
Por toda a casa
Mas se você pergunta se quer alguma coisa
Ela responde: " - Nada".
Onde vê uma almofada ela se enrosca
Ronrona
E fica a tarde inteira
Uma fonte incessante escorrendo
pelas mesmas pedras
Ela dói em tudo aquilo que preenche
A espera não é um transbordar
Mas um derrame
No órgão inflamado que traz delicadeza
Permanecer é um dos cinco sentidos da espera
O outro é o silêncio, depois a memória e por fim um leve vagar
de neblina a escorrer pela areia
Onde o tempo torna-se mendigo e não age
A espera é prenhe de promessas que
não se cumprem
"Visage"
Um desafio mudo corrompendo a paisagem...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Agenda 2013 - Poema 1


Não preciso dos teus problemas
                    dos teus esquemas
                    dos teus dilemas

Derrisão
Excesso de compromisso é falta de paixão.

Eu risquei da minha agenda  tudo o que me fada
                                           não me faz falta
                                           o que me cala
                                           o que me pesa
                                           entenda meu sim
                                           (para mim) será
                                           teu não.
Não me diz respeito a tua covardia, a tua confusão.

Precisei abrir espaço para ambições pequenas,
Trocar as cores dos meus poemas,
Não gosto de rosas, quero açucenas!
O que seria enfim compreensão?
Quero dançar nos jardins do inimigo
Quero o pecado novo em um perfume antigo
Assumir - com força -minha contradição!