sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

A mais bela mentira...




Meu dia começa quando refaço meu rosto, refletida a nudez em granito negro e no espelho nada mágico. "-Espelho, espelho meu...quem serei por hoje?" Silêncio. Sou ninguém. Nada. Vácuo.Mas o ritual já é tao conhecido que minhas mãos seguem lentas para o recipiente liso, róseo e transparente, tão plástico quanto minha alma. Todos pensam que maquilar-se começa com a base...não! Começa com lavar o rosto e fazer bastante espuma com o sabonete. A água levará embora as marcas do travesseiro e de seus sonhos - ou pesadelos - mais caros. São eles que lhe cobram e fazem pesar os anos como bolsas sob os olhos.Crueldade eu sei, mas a agua os levará em parte, gota a gota, esquecimento balsâmico nesse Estinge caseiro que é a nossa torneira prosaica. Secá-los com a toalha disponível e só por preucaução, esperar alguns momentos.
Esfoliação.Teus lábios carregam linhas de desgostos e pele solta pela acidez da saliva indesejada. Amargura. Fubá e mel é minha receita caseira, mas eu sei que existem outras. Como limão e açúcar. Lâncome. Anna Pegova. E agora é claro, eu desmarco suas linhas ou as apago. Sem fronteiras. Sou agora alguém sem voz e sem desejo. Sumi, eu mesma, com minha boca!
Mas não...Muito acima deste meu voto auto-imposto, há um fosso de onde se pode ver lava borbulhante em eterna ebulição. Eu sou um risco constante de erupção, mas sempre dei sombra aos que me rodeiam, e aos meus pés já se erigiram cidades.Pois que há muito cedi terreno, abri concessões entre meus seios e vales, e agora não sei bem como seria o regresso á natureza selvagem. Acho que impossível. Já posso molhar meus dedos na fantasmagoria de todos os meus enredos passados. Hoje parece não estar assim, tão claro! Quem serei eu? Esta fera intratável que ronda de lado á lado tentando escapar pelos olhos? Uma criança travessa que vai correndo entrar, batendo á porta? Eu lembro de uma menina que, intimidada, dá dois passos atrás...uma sonhadora indomável.Mas hoje tudo parece tão mais sério.E se olhar para trás, e não para frente, me perco. O que eu quero mesmo? Criar uma película transparente e úmida sobre a minha face é como tornar-se Deus com uma pequena porção de argila, para modelar as imperfeições do rosto, o tipo de heresia que denuncia a imperfeição da obra.Uma delícia!É clássica, invisível, onipresente e básica. Um véu de esquecimento agora firmemente colocado, trazendo a impessoalidade certa, a medida clara do mistério.
Eu disse que amava meu rosto?Aí esta a segunda mentira. Corretivo, em todos os sonhos da juventude, tudo aquilo que se perdeu e segue se perdendo.Corretivo, nos momentos que não vivi por medo. Corretivo para aqueles que vivi, contrariando todo o instinto de auto preservação. As manchas da incoerência, da persistência e do sol a sol, as manchas clássicas do descanso na praia e da sobrevivência Batidinhas leves de corretivo e pronto! Agora apagado. Pausa por um momento.Confirmo no espelho o que me inquieta. Terei me traído? Inexpressivo! É isso mesmo!
Dizem que a impressão que seu rosto deve passar é a de ser aveludado, como uma rosa. Mas isso é apenas em parte. A sensação é que sua pele deve ser como deveríam ser suas emoções: desérticas. É o momento do pó de pirlimpimpim, translúcido e claríssimo, que retirará desta mesma pele os últimos traços de suor, sevícia e humanidade.Pronto!
Que venham á mim as sombras! Opacas e cintilantes contradizendo-se nuas, esgrimando em dualidade perene, pelas pálpebras móveis e côncavos secretos.Ao que se segue uma fina linha delineando minha alma em negro, abrindo a linha d'agua - o nível de meus oceanos - em claríssimo branco.Finginda atenção, fingido espanto, serei minha? Serei sua?Malícia... Lacrimejo um pouco e esta pronto!
Sorria! Você esta ficando velha! Cansada! Sem a menor paciência! Mas de pouquinho em pouquinho parece que lhe roubam cada vez mais.Uma doação de sangue involuntária? Meu Deus, como você parece pálida!!! Por favor corrija isso. Blush rosa. Terracota (?!). Cobre. Encobre as mágoas.
Delineando os lábios eu percebo como vou ficando assim, pequena e inofensiva.É preciso agora definir minha nova cor sem sair do tom. Batom. Cor de boca por cima da linha imprecisa, para dizer que passou um pouco dos limites e mais de uma vez é saber-se eternamente no Édem, tentadora! Gloss é a glória! É sensual! É dom e encantamento e promessa...de simplicidade. Vá se entender!
Há muito que se repete esse ritual. O que muda mesmo são as cores e o que quer-se dizer...princesa! Rainha!Rei!Chefe ou guerreiro...Recatada donzela! Esposa! Gueixa!
"Mas índia, quando se pinta, quer guerra..."
Duplo sentido, ironia fina, dupla face...Agora perfeita! Porque equilibrada, laqueada, distante diva, musa insincera...
Já não sou eu mesma...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

A um diabo(a) na garrafa (to a devil in a bottle)



Demore a devolver minha memória
Por favor, não a quero já,
Assim, aos golinhos, de pouquinho
Como fui me afundando um pouco mais,
Sete dons prometestes, e cumpriste
Fielmente...
Infelizmente...
Ainda ontem...

Quanta sabedoria!
Eu lia mentes, via o futuro, inventava chistes
Enquanto tu, junto a mim, lembrava e esquecia
O que era mesmo que eu ia dizer? E o que importa?
Se todas as coisas são tão fáceis  de compreender
Parecem mais belas,interessantes ou simples de resolver.
São as entrelinhas precisas de uma escrita tão torta...

 
E eu gargalhava...
E as pessoas são assim, tão engraçadas
Com seus gestos e posturas ensaiadas
Teatro sórdido de uma vã hipocrisia
Denunciada, se não no rosto, por suas linhas
Por seus próprios olhos, traídores de seus recalques
Em suas vicissitudes tão mesquinhas...

Dançar, cantar!
Girar no ar, em teus abraços, á exaustão
Sentir a vida pulsante num frenesi
Dar vida aos seios, aos quadris e ás mãos...
Fazer desfilar um sem fim de sentimentos
Vocalizando uma vida,um instante, um momento
Trazendo á tona um mistério de si mesmo,
Voltar a girar, para contar, cantar e seduzir,
Cair ao chão, escandalizar e voltar a rir!

Eu enriquecia!
Quanta abundância, quanto desperdício, um transbordar
De taças, de sonhos e de esperanças
E parece até que o dinheiro dava cria
Pois as garrafas já eram sem conta sobre a mesa!

Quanta beleza!
De repente não existe mais ninguém que seja feio,
Nem nada! Tudo é lindo! Tudo brilha!
"E o ser humano nasceu para brilhar..."
É tanta a perfeição que se contempla
Que comover-se é o natural, é o que se espera...

Quanta a tristeza!
Tantas lágrimas, tão amargas,
tão sentidas! Quanta dor o peito é capaz
De suportar? Derramar-se, estremecer,
e confessar...ora, também é dádiva!
Que purifica, traz a paz e ilumina
delira e purga
machuca e faz sangrar
mas o que arde, cura e alivia!

E a lascívia!
Tão perigosa, veneno tão secreto
Que ninguém consegue sentir no paladar
Aqcua toffana, lenta e letal
Traiçoeira para atrair,
sorrateira no emboscar
E quem poderia se opor
 a esta predadora?
Pois lascívia é paixão,
loucura, é bicho-fêmea.
E como tal não se deixa saciar!

Mas tudo evanesce!
Tudo acaba,esquiva, logo amanhece
É você preso em sua cela de vidro
De novo! Onde te atará o saber teu nome
tuas velhas leis e rituais antigos
Pois tudo deve permanecer como esta
Mas sete dons prometestes, e cumpristes
Fielmente...
Felizmente
Nunca mais!








sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Eu, luto...



A cidade troca de pele
marcham ritmadas
negras botas
e seu perfume tão característico
agora rescende
novas notas
orvalho matinal
sob pétalas carbonizadas
-Pólvora?
Eu sei onde estará
É só farejar o ar
Ouvir para onde as sirenes
Gritam e correm
seu desespero cego a iluminar
O povo em raro estado
De concentração.

E como sempre foi
Assim será
Quando previr o massacre
Tornando contornos quotidianos
Sentir o relampear tão rápido
o brilho da facada nas costas
ou de violentos massacres
Na trama que tecemos
laços e nós, ano após ano
Ponto por ponto, que une e sangra,
a carne crua anestesiada
paisagens que desumanizamos
-"That's only business"-
E eu não sei se posso lhe ajudar

Mas saibam que podem contar comigo
Onde florescem, onde se escondem
As sementes da esperança ou
as chagas do desespero


Eu estarei lá

Da série "diálogos para pensar".







Amigo - ..."Eu queria ir a festa a fantasia. Mas tem um problema. Nunca fui em uma, então não tenho fantasia.
Pensei comigo e nem dinheiro para comprar uma, exatamente como eu na minha primeira festa a fantasia.
 Eu - ..."Não se preocupe, é só aliar memória á criatividade. Todos os dias, você veste uma fantasia nova. Só que não percebe..."