segunda-feira, 25 de março de 2013

Síntese.





Sem umbanda
O mundo não anda
Dizia um velho perneta
De paletó e bandana
Mas o que traz á vida a pulso
Ora, é que são elas!

Acendendo nas esquinas
Multicores sombrinhas
Enquanto deslizam sérias
Pelas calçadas lamacentas
O salto vem ritmando
E o sereno vem rompendo
Gris seus olhos como seus casacos
Ou seus cabelos, que já foram negros,
Sapatos agora encharcados
De mágoas, pingando destinos
Que criam poças de lã
Que vivem se enredando
E picando seus dedos
Braços dados seguem em frente
junto aos seus sonhos desfeitos
"-Podia ter sido tão diferente..."
"-Teria sido perfeito..."
Esbarram sempre no '-se eu tivesse..."
Trazem no olhar uma febre,
uma loucura,um desejo
Até que,meio que tropeçando,
correndo e rindo,
Ás alcance o primeiro raio de sol...
É quando sorriem num suspiro.
E só agora percebem
"-É verdade...já faz tanto tempo..."

Dedicatória




É uma ilusão pensar que estar retesada, por algumas horas sobre as quatro patas, à espreita, olhos fixos na presa, necessariamente significa estar tensa. Eu, por exemplo...estou aqui já faz algum tempo e sei que, do outro lado da estante ela também deve estar, embora não a veja.Sei que me pressente.E sei que, desorientada, sem poder me ver, prefere fical ali, encolhida no seu cantinho seguro seguindo o impulso que lhe é natural. Afinal, preservar-se é o instinto da presa!E é tão melhor ser tudo assim, sem pressa.Então, como eu dizendo, não é tensão, muito pelo contrário!A primeira de nós a se sentir ansiosa, insegura e fizer o primeiro avanço naturalmente perde!
É verdade, não há tensão - pelo menos não no sentido estressante do termo - mas outra coisa, mais suave e intensa. Se houvesse, eu correria o risco de errar o bote.É mais que um simples exercício, distração do tédio ou necessidade de sobrevivência. É algo como uma missão e um prazer. Traz alívio e prazer intenso sim, quando se encerra,  e como a caça será sempre será um ato em si mesma mas...é nesse tempo, imóvel e a espera que há beleza.Ouvi sim, o ruído. Mas é só um truque. Eu sei.
O tempo passa, e há uma canção insistente nos meus ouvidos.Uma canção de morte.
Depois de um tempo,aconteceu enfim, tudo muito rápido.Eu a encontro tentando fugir numa diagonal, disfarçadamente.A pequena para.Pensa, imóvel e continua sem me ver.Fez tudo para que eu não percebesse. Inútil. Eu, lentamente, faço o percusso contrário ao seu e dou a volta na estante.Em breve, ela me encontrará frente á frente.
E o que se segue é uma dança lenta de emboscar e se retrair.Trazer para si com as patas, morder - como numa carícia - e fingir desistir...apenas para pular sobre ela novamente, com toda a força, ao perceber o menor resquício de esperança. É preciso torná-la exausta. Até me cansar. E quebrar o pescoço e sentir jorrar sinestésica lembrança. A pequena cerra os olhos, e a escuridão sobrevém sobre a memória, as ambições e ocultas pulsões, provavelmente esquecidas dela mesma.E é tão triste este ponto final.
Mas já é hora. Devo entregar ao Orientador aquela que é a minha parte,ainda macia e tenra - embora um tanto fria - pois que ainda não lhe chegou a rigidez funérea.Sangrenta eu deposito aos seus pés, após muito vagar pelas bibliotécas, o sangrento resumo de minha obra. E assino com a língua áspera minha sutil dedicatória.

Canção para dormir em dia de chuva.



A agua pura
Susurra
Gota a gota
Um segredo mudo
Para a terra nua
Lá fora

Perfuma
Ritma
Insiste
Entrega
a calma
Engana a mágoa
E ignora!