quinta-feira, 19 de junho de 2014

Dragão.






Arrasto minhas asas
Por coisas já esquecidas
E com as mágoas já antigas
Passeio, roçando a barriga
E o prazer é uma canção
Tão bela, tão dolorida
Eu pertenço á um outro tempo...
Imensidão sob a colina,
Sob as galerias e abóbodas
De expectativas outras,farta
Juro em nome do que seria
E por tudo o que foi
De minha herança sequestrada
O rastro da minha ambição
Eu sou a sabedoria
que pertence á escuridão!

Sou a guardiã imensa
das lembranças esmaecidas!
Se me encaras face a face
Terás a sorte que inflamo
Eu te farei infame - de todo!
Eu te devolvo ao mundo - humano!
Não tentes roubar-me, portanto
Minha glória, já esquecida
Não se construiu por engano
Mas  sob o fogo,a cinza esconde
qual o preço da minha ira!

Sou um mestre do ocaso
de ilusões e despedidas...
Só me acomodo por sobre aquilo
Que me oculta - beleza e ouro -
Eu acumulo desditas
Adormeço sobre  tesouros
Sob o peso do que desconheço
Tão passional! Tão instintiva!
Não subestime...eu dou o troco
E só me surpreendo como
A solidão que em que vivo
É o alívio pleno que me adormece
e em que me abandono,,,



Enganos





Os homens trocaram o sexo de algumas palavras
por exemplo,Morte, é um homem de mãos frias
E olhar, duro, provocador, todo mistério
Um jogador muito sério, mas sem traço de ironia...

As mulheres também o fizeram
assim o Amor seria  em si mesmo como
 uma mulher ardente
instável e vaidosa, um perigo que se excita
e que se consome a si mesma quando indiferente...

Já a vida, irmão -irmã
É o que quiser e o que precisa
Mutante insólita, perdura há qualquer tempo
Depende muito de qual for a lida
De como se perpetua, do cenário e do momento...


quarta-feira, 18 de junho de 2014

Uma mulher proibida.





Moro em uma casa
que se esconde no fim
da rua do Destino
Próxima ao muro
de hera
Defendida por um cisne
branco de pedra
Defendida por uma árvore
de flores rosa de flores
Bauhinias que sabem rosnar
Defendida pela ferrugem
das cercas mortas,desgastadas,
encimadas pelas eríneas em serenata...

Sou uma mulher proibida
deslizando em silêncio pelas encruzilhadas
desaguando no poço sem fundo de um segredo
no fundo do fundo do fundo de alguma floresta
tranbordando olho d'água secreta...

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Novo Mundo



Hyeronimous Bosch - "O Jardim das Delicias"


Quero refazer meu mundo
Como paisagem
E com  a tinta de sal azul do mar
Dar traço á uma cheia de amigos
Dos quais não quero, nunca mais, me afastar
E já que não há o que possa fazer
da  musica algo assim visível
-salvo a dança -
Então povoarei a areia branca
De dançarinos

Ali estará um céu azul profundo
Abraçando as montanhas e vales
E como moldura desta sorte
o verde indomável e radiante
- esmeralda ao sol - onde sou
esperança,sonho, utopia e prodígio
espalho o perfume
das boas novas que vem nos encontrar
do futuro.
Porque o futuro - meus amigos - é a floresta
Onde se escondem nossos mais secretos anseios
de amor,morte e sortilégio.
Mais uma vez não posso trazer cor à brisa
destes meus alentos
Mas trarei intensidade de Gauguin ao sol
dos meus dias outonais
E delinearei as montanhas desta nova paisagem
Com tanta ternura
Que nem parecerá um corte esta poesia
Que sangra, num sorriso vermelho, um novo porvir
Esse meu novo luar...

Povoarei de animais fantásticos
cada monte
Todos os que só existem
Tudo o que pode ser livre...porque apenas é,
E para tanto
Diluirei a humanidade
traçando para cada ser asas de libélulas
Densa camada de ternura
ou escamas de nobreza.
E deixarei jardins se desdobrarem
em ruas desertas
para que possam brincar ao sol
minhas novas crianças...
Pois é certo que
por mais que eu faça
E me alegre e exulte
por entre as pedras
talvez num erro,
ou numa sombra desnecessária
Ainda estará escondida minha dor
Esta fera á espreita!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Perdida na Cidade Submersa






Contornando pássaros
Transpasso
Caminhos de pedra,
abóbadas de sal, multiplicam
ecos que se desencontram
onde se desfaz
o sentido original
de toda a mensagem
como em água
atalho pela escada -
onde jazem abelhas
morrem centelhas -
Quem era mesmo que eu
queria dizer, enquanto
á mim contava?
Mil quarentenas...

Por vezes piso na grama
Sem prazer,
Adio a pressa de me
perder nos labirintos
da cidade submersa
tropeçando em prazos
e esquecimentos
Puxo a linha
e desfaço
ponto por ponto
soltam -se da pele
cálculos
planos,
momentos.